Crtica, Junqueira Freire - Inspiraes do claustro, 1866

Junqueira Freire: Inspiraes do claustro

Texto-Fonte:

Obra Completa de Machado de Assis,

Rio
de Janeiro: Nova Aguilar, vol. III, 1994.

Publicado
originalmente em Semana Literria, seo do Dirio do Rio de Janeiro,
30/01/1866.

Devamos falar hoje do ltimo livro do Sr. Fagundes
Varela; o talentoso autor do prefcio que acompanha os Cantos e Fantasias,
diz ali que um dos modelos do mavioso poeta foi o autor das Inspiraes do
Claustro; esta aluso trouxe-nos  memria um dos talentos mais estimados
da nossa terra, e lembrou-nos de algum modo o cumprimento de uma promessa feita
algures. Alm de que, convm examinar se h realmente alguma filiao entre o
poeta baiano e o poeta fluminense. Trataremos pois de Junqueira Freire e da sua
obra, adiando para a semana prxima o exame do belo livro do Sr. Varela. Nisto
executamos o programa desta revista; quando a semana for nula de publicaes
literrias,  e muitas o so,  recorreremos  estante nacional, onde no
faltam livros para folhear, em ntima conversa com os leitores.

Nem todos os poetas podem ter a fortuna de
Junqueira Freire, que atravessou a vida cercado de circunstncias romanescas e
legendrias.

A sua figura destaca-se no fundo solitrio da
cela  comprimindo ao peito o desespero e o remorso. Como dizem de
Mallebranche, poderia dizer-se dele que e uma guia encerrada no templo,
batendo com as vastas asas as abbadas sombrias e imveis do santurio. Rara
fortuna esta, que nos arreda para longe dos tempos atuais, em que o poeta,
depois de uma valsa de Strauss, vai chorar uma comprida elegia; este  decerto
o mais infeliz: qualquer que seja a sinceridade da sua dor, nunca poder ser
acreditado pelo vulgo, a quem no e dado perscrutar toda a profundidade da alma
humana.

Junqueira Freire entrou para o claustro, levado por
uma tendncia asctica; esta nos parece a explicao mais razovel, e  a que
resulta, no s da prpria natureza do seu talento, como do texto de alguns dos
seus cantos. Trs anos ali esteve, e de l saiu, aps esse tempo, trazendo
consigo um livro e uma histria. Todas as iluses desesperos, dios, amores,
remorsos, contrastes, vinham contados ali, pgina por pgina. No  palestra de
sacristia, nem mexerico de locutrio;  um livro profundamente sentido, uma
histria dolorosamente narrada em versos, muitas vezes duros, mas geralmente
sados do corao. Compreende-se que um livro escrito em condies tais, devia
atrair a ateno pblica; o poeta vinha falar da vida monstica, no como
filsofo, mas como testemunha, como o observador, como vtima. No discutia a
santidade da instituio; reunia em algumas pginas a histria ntima do que
vira e sentira. O livro era ao mesmo tempo uma sentena e uma lio; no
significava uma aspirao potica, pretendia ser uma obra de utilidade; a
epgrafe de P.-L. Courrier, inscrita no prefcio, parece-nos que no exprime
seno isto. De todas estas circunstncias nasceu, antes de tudo, um grande
interesse de curiosidade.

Que viria dizer aquela alma, escapa do mosteiro,
herica para uns, covarde para outros? Essa foi a nossa impresso, antes de
lermos pela primeira vez as Inspiraes do Claustro. Digamos em poucas
palavras o que pensamos do livro e do poeta, a quem parece que os deuses amavam,
pois que o levaram cedo.



No prefcio que acompanha as Inspiraes do
Claustro, Junqueira Freire procura defender-se previamente de uma censura
da crtica: a censura de inconseqncia, de contradio, de falta de unidade no
livro, censura que, segundo ele, deve recair sobretudo no carter diferente dos
'Claustros', a apologia do convento, e do 'Monge'
condenao da ordem monstica. Teme, disse ele, que lhe chamem o livro uma
coleo de oraes e blasfmias. Caso raro! O poeta via objeto de censura
exatamente naquilo que faz a beleza da obra; defendia-se de um contraste, que
representa a conscincia e a unidade do livro. Sem esse dplice aspecto, o
livro das Inspiraes perde o encanto natural, o carter de uma histria
real e sincera; deixa de ser um drama vivo. Contrrio a si mesmo, cantando por
inspiraes opostas, aparece-nos o homem atravs do poeta; v-se descer o
esprito da esfera da iluso religiosa para o terreno da realidade prtica;
assiste-se s peripcias daquela transformao; acredita-se na palavra do
poeta, pois que ele sai, como Enias, dentre as chamas de Tria. O escrpulo
portanto era demasiado, era descabido; e a explicao que Junqueira Freire
procura dar ao dplice carter das suas Inspiraes, sobre desnecessria,
 confusa.

A poesia dos 'Claustros'  uma apologia
da instituio monstica; estava ento no pleno verdor das suas iluses
religiosas. O convento para ele  o refgio nico e santo s almas sequiosas de
paz, revestidas de virtude. A voz do poeta  grave, a expresso sombria, o
esprito asctico. No hesita em clamar contra o sculo, a favor do mosteiro
contra os homens, a favor do frade. Confundindo na mesma adorao os primeiros
solitrios com os monges modernos, a instituio primitiva com a instituio
atual, o poeta levanta um grito contra a filosofia, e espera morrer abraado 
cruz do claustro.

O que faz interessar esta poesia  que ela
representa um estado sincero da alma do poeta, uma aspirao conscienciosa; a
designao do sculo XVIII, feita por ele, para tirar os seus versos do crculo
das impresses atuais e constitu-los em simples apreciao histrica, nada
significa ali, e se alguma coisa pudesse significar, no seria a favor do
prestgio do livro. Os 'Claustros', o 'Apstolo Entre as Gentes',
e algumas outras pginas, exprimindo o estado contemplativo do poeta, completam
essa unidade do livro que ele no viu, por virtude de um escrpulo exagerado.
No diz ele prprio algures, saudando a profisso de um religioso:

Eu tambm ideei a linda imagem

Da placidez da vida;

Eu tambm desejei o claustro estril

Como feliz guarida.

Pois bem, as pginas aludidas representam nada
menos que a imagem ideada pelo poeta; dar-lhes outra explicao  mutilar a
alma do livro.

O poeta canta depois o 'Monge'.  o
anverso da medalha;  a decepo, o arrependimento, o remorso. Aqui j o
claustro no  aquele refgio sonhado nos primeiros tempos;  um crcere de
ferro, o homem se estorce de desespero, e chora suas iluses perdidas. Quereis
ver que profundo abismo separa o 'Monge' dos 'Claustros',
ligando-o todavia, por uma sucesso natural? O prprio monge o diz:

Corpo nem alma os mesmos me ficaram.

Homem que fui no sou. Meu ser, meu todo

Fugiu-me, esvaeceu-se, transformou-se.

Vivo, mas acabei meu ser primeiro.

.........................................................

Dista, dista de mim minh'alma antiga.

Aquele ser primeiro, aquela alma antiga,
 o ser,  a alma dos 'Claustros'. A transformao do poeta fica a
perfeitamente definida no livro. E para avaliar a tremenda queda que a alma
devia sentir basta comparar essas duas composies, to diversas entre si, na
forma e na inspirao; elas resumem a histria dos trs anos de vida do
convento, aonde o poeta entrou cheio de crena viva, e donde saiu extenuado e
descrente, no das coisas divinas, mas das obras humanas. Da comparao entre
essas duas poesias, fruto de duas pocas,  que resulta a autoridade de que vem
selada aquela sentena contra a instituio monacal. Sem excluir da comparao
o 'Apstolo Entre as Gentes', devemos todavia lembrar que h nessa
poesia um tom geral, um esprito puramente religioso, que no deriva da
inspirao dos 'Claustros', nem se prende  existncia dos mosteiros.
O poeta canta simplesmente a misso do apstolo; a histria e a religio so as
suas musas. Falando a um sentimento mais universal, pois que a filosofia no
tem negado at hoje a grandeza histrica do apostolado cristo, Junqueira
Freire eleva-se mais ainda que em todas as outras poesias, e acha at uma nova
harmonia para os seus versos que so os mais perfeitos do livro. A  ele mais
poeta e menos frade: alguns versos mesmo deviam produzir estranha impresso aos
solitrios do Mosteiro; o poeta no hesita em proclamar a unidade religiosa de
todos os homens, a mesma divindade dominando em todas as regies, sob nomes
diversos. Os ltimos versos, porm, resumem a superioridade do sacerdote
cristo; superioridade que o poeta faz nascer da constncia e do infortnio:

Nos, ditos do mstico pagode

O ministro de Brama aspira incensos.

O ugure de Teos assentado

Na trpode tremente auspcios canta.

O piaga de Tup, severo e casto,

Nas ocas tece os versos dos orculos.

E o sacerdote do Senhor,   sozinho, 

Coberto de baldes, a par do rprobo,

Ante o mundo ao martrio o colo curva,

E aos cus cantando um hino sacrossanto,

Como as notas finais do rgo do templo,

Confessa a Deus, e  confessando  morre.

A sentena de impiedade que o poeta antevia, se lhe
deram, no teve nem efeito nem base. Combatendo o anacronismo e a ociosidade de
uma instituio religiosa, Junqueira Freire no se desquitava da f crist. A
impiedade no estava nele, estava nos outros Veja-se, por exemplo, os versos a
'Frei Bastos', um Bossuet, na frase do poeta, que se afogava, brio
de vinho:

No imundo pego da lascvia impura

.....................................................

Desces do altar  crpula homicida,

Sobes da crpula aos fulmneos plpitos.

Ali teu brado lisonjeia os vcios,

Aqui atroa apavorado os crimes.

E os lbios rubros dos femneos beijos

Disparam raios que as paixes aterram.

Ora, vejamos: este espetculo era prprio para
avigorar o esprito do poeta, na sua dedicao  vida monstica? Imagine-se uma
alma jovem, de elevadas aspiraes, asctica por ndole, buscando na solido do
claustro um refgio e um descanso, e indo l encontrar os vcios e as paixes
c de fora; compare-se e veja-se, se a elegia do 'Monge' no  o eco
sincero e eloqente de uma dor eloqente e sincera.

'Meu Filho no Claustro' e a
'Freira' exprimem o mesmo sentimento do 'Monge'; mas a o
quadro  mais restrito, e a inspirao menos impetuosa. O monlogo da
'Freira'  sobretudo lindo pela originalidade da idia, e por uma
expresso franca e ingnua, que contrasta singularmente com a castidade de uma
esposa do Senhor.

Fora dessas poesias que compem a histria do monge
e do poeta, muitas outras h nas Inspiraes do Claustro, filhas de
inspirao diversa, e que servem para caracterizar o talento de Junqueira
Freire: 'Mlton',  o 'Apstata',  o
'Converso', o 'Misantropo', o 'Renegado' vrias
nnias a morte de alguns religiosos. Todas nascem do claustro; pelo assunto e
pela forma; v-se que foram compostas na solido da cela; esta observao
precede mesmo em relao ao Renegado, cano do judeu. Uma s poesia faz
destaque no meio de todas essas:  a que tem referncia a uma mulher e a um
amor. Entraria o amor, por alguma coisa, na resoluo que levou Junqueira
Freire para o fundo do mosteiro? Ou, pelo contrrio, precipitou ele o
rompimento do monge e do claustro? A este respeito, como de tudo quanto diz
respeito ao poeta, apenas podemos conjeturar; nada sabemos de sua vida, seno o
que ele prprio refere no prefcio. Qualquer que seja, porm, a explicao
dessa pgina obscura, nem por isso deixa ela de ser uma das mais dolorosas da
vida do poeta, uni elemento de apreciao literria e moral do homem.

Tratamos at aqui do
frade; vejamos o poeta. Junqueira Freire diz no prefcio que no  poeta, e no
o diz para preencher essa regra de modstia literria, que  comum nos
prlogos; sentia em si, diz ele, a reflexo gelada de Montaigne, que apaga os
mpetos. Teria razo o autor das Inspiraes? Achamos que no. No e
inspirao que lhe falta, nem fervor potico; colorido, vigor, imagens belas e
novas, tudo isso nos parece que sobram em Junqueira Freire. O seu verso, porm, s vezes incorreto, s vezes duro, participa das circunstncias
em que nascia; traz em si o cunho das impresses que rodeavam o poeta;
Junqueira Freire pretendia mesmo dar-lhe o carter de prosa medida, e
por honra da musa e dele devemos afirmar que o sistema muitas vezes lhe falhou.
Tivesse ele o cuidado de aperfeioar os seus versos, e o livro ficaria completo
pelo lado da forma. O que lhe d sobretudo um sabor especial  a sua grande
originalidade, que deriva no s das circunstncias pessoais do autor, mas
tambm da feio prpria do seu talento; Junqueira Freire no imita ningum;
rude embora, aquela poesia  propriamente dele; sente-se ali essa preciosa
virtude que se chama  individualidade potica. Com uma poesia sua, uma lngua
prpria, exprimindo idias novas e sentimentos verdadeiros, era um poeta fadado
para os grandes arrojos, e para as graves meditaes. Quis Deus que ele
morresse na flor dos anos, legando  nossa bela ptria a memria de um talento
to robusto quanto infeliz.
