Conto, Histrias sem Data, 1884

Histrias Sem Data

Texto-fonte:

Obra Completa, de Machado de Assis, vol. II,

Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1994.

Publicado originalmente pela
Editora Garnier, Rio de Janeiro, 1884.

NDICE

ADVERTNCIA DA 1 EDIO

A IGREJA DO DIABO

O LAPSO

LTIMO CAPTULO

CANTIGA DE ESPONSAIS

SINGULAR OCORRNCIA

GALERIA PSTUMA

CAPTULO DOS CHAPUS

CONTO ALEXANDRINO

PRIMAS DE SAPUCAIA!

UMA SENHORA

ANEDOTA PECUNIRIA

FULANO

A SEGUNDA VIDA

NOITE DE ALMIRANTE

MANUSCRITO DE UM SACRISTO

EX CATHEDRA

A SENHORA DO GALVO

AS ACADEMIAS DE SIO

ADVERTNCIA DA 1a EDIO

De todos os contos que aqui se acham h dois que
efetivamente no levam data expressa; os outros a tm, de maneira que este
ttulo Histrias
sem Data parecer a alguns ininteligvel, ou vago. Supondo, porm, que o meu
fim  definir estas pginas como tratando, em substncia, de coisas que no so
especialmente do dia, ou de um certo dia, penso que o ttulo est explicado. E
 o pior que lhe pode acontecer, pois o melhor dos ttulos  ainda aquele que
no precisa de explicao.

M. de A.

A IGREJA DO DIABO

NDICE

CAPTULO PRIMEIRO

CAPTULO II

CAPTULO III

CAPTULO IV

CAPTULO PRIMEIRO

DE UMA IDIA MIRFICA

Conta um velho manuscrito beneditino que o Diabo, em certo
dia, teve a idia de fundar uma igreja. Embora os seus lucros fossem contnuos
e grandes, sentia-se humilhado com o papel avulso que exercia desde sculos,
sem organizao, sem regras, sem cnones, sem ritual, sem nada. Vivia, por
assim dizer, dos remanescentes divinos, dos descuidos e obsquios humanos. Nada
fixo, nada regular. Por que no teria ele a sua igreja? Uma igreja do Diabo era
o meio eficaz de combater as outras religies, e destru-las de uma vez.

 V, pois, uma igreja, concluiu ele. Escritura contra
Escritura, brevirio contra brevirio. Terei a minha missa, com vinho e po 
farta, as minhas prdicas, bulas, novenas e todo o demais aparelho eclesistico.
O meu credo ser o ncleo universal dos espritos, a minha igreja uma tenda de
Abrao. E depois, enquanto as outras religies se combatem e se dividem, a
minha igreja ser nica; no acharei diante de mim, nem Maom, nem Lutero. H
muitos modos de afirmar; h s um de negar tudo.

Dizendo isto, o Diabo sacudiu a cabea e estendeu os
braos, com um gesto magnfico e varonil. Em seguida, lembrou-se de ir ter com
Deus para comunicar-lhe a idia, e desafi-lo; levantou os olhos, acesos de
dio, speros de vingana, e disse consigo:  Vamos,  tempo. E rpido, batendo
as asas, com tal estrondo que abalou todas as provncias do abismo, arrancou da
sombra para o infinito azul.

CAPTULO II

ENTRE DEUS E O DIABO

Deus recolhia um ancio, quando o Diabo chegou ao cu. Os
serafins que engrinaldavam o recm-chegado, detiveram-no logo, e o Diabo
deixou-se estar  entrada com os olhos no Senhor.

 Que me queres tu? perguntou este.

 No venho pelo vosso servo Fausto, respondeu o Diabo rindo,
mas por todos os Faustos do sculo e dos sculos.

 Explica-te.

 Senhor, a explicao  fcil; mas permiti que vos diga:
recolhei primeiro esse bom velho; dai-lhe o melhor lugar, mandai que as mais
afinadas ctaras e alades o recebam com os mais divinos coros...

 Sabes o que ele fez? perguntou o Senhor, com os olhos
cheios de doura.

 No, mas provavelmente  dos ltimos que viro ter
convosco. No tarda muito que o cu fique semelhante a uma casa vazia, por
causa do preo, que  alto. Vou edificar uma hospedaria barata; em duas
palavras, vou fundar uma igreja. Estou cansado da minha desorganizao, do meu
reinado casual e adventcio.  tempo de obter a vitria final e completa. E
ento vim dizer-vos isto, com lealdade, para que me no acuseis de
dissimulao... Boa idia, no vos parece?

 Vieste diz-la, no legitim-la, advertiu o Senhor.

 Tendes razo, acudiu o Diabo; mas o amor-prprio gosta
de ouvir o aplauso dos mestres. Verdade  que neste caso seria o aplauso de um
mestre vencido, e uma tal exigncia... Senhor, deso  terra; vou lanar a
minha pedra fundamental.

 Vai.

 Quereis que venha anunciar-vos o remate da obra?

 No  preciso; basta que me digas desde j por que
motivo, cansado h tanto da tua desorganizao, s agora pensaste em fundar uma
igreja?

O Diabo sorriu com certo ar de escrnio e triunfo. Tinha
alguma idia cruel no esprito, algum reparo picante no alforje de memria,
qualquer coisa que, nesse breve instante da eternidade, o fazia crer superior
ao prprio Deus. Mas recolheu o riso, e disse:

 S agora conclu uma observao, comeada desde alguns
sculos, e  que as virtudes, filhas do cu, so em grande nmero comparveis a
rainhas, cujo manto de veludo rematasse em franjas de algodo. Ora, eu
proponho-me a pux-las por essa franja, e traz-las todas para minha igreja;
atrs delas viro as de seda pura...

 Velho retrico! murmurou o Senhor.

 Olhai bem. Muitos corpos que ajoelham aos vossos ps,
nos templos do mundo, trazem as anquinhas da sala e da rua, os rostos tingem-se
do mesmo p, os lenos cheiram aos mesmos cheiros, as pupilas centelham de
curiosidade e devoo entre o livro santo e o bigode do pecado. Vede o ardor, 
a indiferena, ao menos,  com que esse cavalheiro pe em letras pblicas os
benefcios que liberalmente espalha,  ou sejam roupas ou botas, ou moedas, ou
quaisquer dessas matrias necessrias  vida... Mas no quero parecer que me
detenho em coisas midas; no falo, por exemplo, da placidez com que este juiz
de irmandade, nas procisses, carrega piedosamente ao peito o vosso amor e uma
comenda... Vou a negcios mais altos...

Nisto os serafins agitaram as asas pesadas de fastio e
sono. Miguel e Gabriel fitaram no Senhor um olhar de splica. Deus interrompeu
o Diabo.

 Tu s vulgar, que  o pior que pode acontecer a um
esprito da tua espcie, replicou-lhe o Senhor. Tudo o que dizes ou digas est
dito e redito pelos moralistas do mundo.  assunto gasto; e se no tens fora,
nem originalidade para renovar um assunto gasto, melhor  que te cales e te
retires. Olha; todas as minhas legies mostram no rosto os sinais vivos do
tdio que lhes ds. Esse mesmo ancio parece enjoado; e sabes tu o que ele fez?

 J vos disse que no.

 Depois de uma vida honesta, teve uma morte sublime.
Colhido em um naufrgio, ia salvar-se numa tbua; mas viu um casal de noivos,
na flor da vida, que se debatiam j com a morte; deu-lhes a tbua de salvao e
mergulhou na eternidade. Nenhum pblico: a gua e o cu por cima. Onde achas a
a franja de algodo?

 Senhor, eu sou, como sabeis, o esprito que nega.

 Negas esta morte?

 Nego tudo. A misantropia pode tomar aspecto de caridade;
deixar a vida aos outros, para um misantropo,  realmente aborrec-los...

 Retrico e sutil! exclamou o Senhor. Vai; vai, funda a
tua igreja; chama todas as virtudes, recolhe todas as franjas, convoca todos os
homens... Mas, vai! vai!

Debalde o Diabo tentou proferir alguma coisa mais. Deus
impusera-lhe silncio; os serafins, a um sinal divino, encheram o cu com as
harmonias de seus cnticos. O Diabo sentiu, de repente, que se achava no ar;
dobrou as asas, e, como um raio, caiu na terra.

CAPTULO III

A BOA NOVA AOS HOMENS

Uma vez na terra, o Diabo no perdeu um minuto. Deu-se pressa
em enfiar a cogula beneditina, como hbito de boa fama, e entrou a espalhar uma
doutrina nova e extraordinria, com uma voz que reboava nas entranhas do
sculo. Ele prometia aos seus discpulos e fiis as delcias da terra, todas as
glrias, os deleites mais ntimos. Confessava que era o Diabo; mas confessava-o
para retificar a noo que os homens tinham dele e desmentir as histrias que a
seu respeito contavam as velhas beatas.

 Sim, sou o Diabo, repetia ele; no o Diabo das noites
sulfreas, dos contos sonferos, terror das crianas, mas o Diabo verdadeiro e
nico, o prprio gnio da natureza, a que se deu aquele nome para arred-lo do
corao dos homens. Vede-me gentil a airoso. Sou o vosso verdadeiro pai. Vamos
l: tomai daquele nome, inventado para meu desdouro, fazei dele um trofu e um
lbaro, e eu vos darei tudo, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo...

Era assim que falava, a princpio, para excitar o
entusiasmo, espertar os indiferentes, congregar, em suma, as multides ao p de
si. E elas vieram; e logo que vieram, o Diabo passou a definir a doutrina. A
doutrina era a que podia ser na boca de um esprito de negao. Isso quanto 
substncia, porque, acerca da forma, era umas vezes sutil, outras cnica e
deslavada.

Clamava ele que as virtudes aceitas deviam ser
substitudas por outras, que eram as naturais e legtimas. A soberba, a
luxria, a preguia foram reabilitadas, e assim tambm a avareza, que declarou
no ser mais do que a me da economia, com a diferena que a me era robusta, e
a filha uma esgalgada. A ira tinha a melhor defesa na existncia de Homero; sem
o furor de Aquiles, no haveria a Ilada: 'Musa, canta a clera de
Aquiles, filho de Peleu'... O mesmo disse da gula, que produziu as
melhores pginas de Rabelais, e muitos bons versos do Hissope; virtude
to superior, que ningum se lembra das batalhas de Luculo, mas das suas ceias;
foi a gula que realmente o fez imortal. Mas, ainda pondo de lado essas razes
de ordem literria ou histrica, para s mostrar o valor intrnseco daquela
virtude, quem negaria que era muito melhor sentir na boca e no ventre os bons
manjares, em grande cpia, do que os maus bocados, ou a saliva do jejum? Pela
sua parte o Diabo prometia substituir a vinha do Senhor, expresso metafrica,
pela vinha do Diabo, locuo direta e verdadeira, pois no faltaria nunca aos
seus com o fruto das mais belas cepas do mundo. Quanto  inveja, pregou
friamente que era a virtude principal, origem de prosperidades infinitas;
virtude preciosa, que chegava a suprir todas as outras, e ao prprio talento.

As turbas corriam atrs dele entusiasmadas. O Diabo
incutia-lhes, a grandes golpes de eloqncia, toda a nova ordem de coisas,
trocando a noo delas, fazendo amar as perversas e detestar as ss.

Nada mais curioso, por exemplo, do que a definio que ele
dava da fraude. Chamava-lhe o brao esquerdo do homem; o brao direito era a
fora; e conclua: muitos homens so canhotos, eis tudo. Ora, ele no exigia
que todos fossem canhotos; no era exclusivista. Que uns fossem canhotos,
outros destros; aceitava a todos, menos os que no fossem nada. A demonstrao,
porm, mais rigorosa e profunda, foi a da venalidade. Um casusta do tempo
chegou a confessar que era um monumento de lgica. A venalidade, disse o Diabo,
era o exerccio de um direito superior a todos os direitos. Se tu podes vender
a tua casa, o teu boi, o teu sapato, o teu chapu, coisas que so tuas por uma
razo jurdica e legal, mas que, em todo caso, esto fora de ti, como  que no
podes vender a tua opinio, o teu voto, a tua palavra, a tua f, coisas que so
mais do que tuas, porque so a tua prpria conscincia, isto , tu mesmo?
Neg-lo  cair no absurdo e no contraditrio. Pois no h mulheres que vendem
os cabelos? no pode um homem vender uma parte do seu sangue para transfundi-lo
a outro homem anmico? e o sangue e os cabelos, partes fsicas, tero um
privilgio que se nega ao carter,  poro moral do homem? Demonstrando assim
o princpio, o Diabo no se demorou em expor as vantagens de ordem temporal ou
pecuniria; depois, mostrou ainda que,  vista do preconceito social, conviria
dissimular o exerccio de um direito to legtimo, o que era exercer ao mesmo
tempo a venalidade e a hipocrisia, isto , merecer duplicadamente.

E descia, e subia, examinava tudo, retificava tudo. Est
claro que combateu o perdo das injrias e outras mximas de brandura e
cordialidade. No proibiu formalmente a calnia gratuita, mas induziu a
exerc-la mediante retribuio, ou pecuniria, ou de outra espcie; nos casos,
porm, em que ela fosse uma expanso imperiosa da fora imaginativa, e nada
mais, proibia receber nenhum salrio, pois equivalia a fazer pagar a
transpirao. Todas as formas de respeito foram condenadas por ele, como
elementos possveis de um certo decoro social e pessoal; salva, todavia, a
nica exceo do interesse. Mas essa mesma exceo foi logo eliminada, pela
considerao de que o interesse, convertendo o respeito em simples adulao,
era este o sentimento aplicado e no aquele.

Para rematar a obra, entendeu o Diabo que lhe cumpria
cortar por toda a solidariedade humana. Com efeito, o amor do prximo era um
obstculo grave  nova instituio. Ele mostrou que essa regra era uma simples
inveno de parasitas e negociantes insolvveis; no se devia dar ao prximo
seno indiferena; em alguns casos, dio ou desprezo. Chegou mesmo 
demonstrao de que a noo de prximo era errada, e citava esta frase de um
padre de Npoles, aquele fino e letrado Galiani, que escrevia a uma das
marquesas do antigo regmen: 'Leve a breca o prximo! No h
prximo!' A nica hiptese em que ele permitia amar ao prximo era quando
se tratasse de amar as damas alheias, porque essa espcie de amor tinha a
particularidade de no ser outra coisa mais do que o amor do indivduo a si
mesmo. E como alguns discpulos achassem que uma tal explicao, por
metafsica, escapava  compreenso das turbas, o Diabo recorreu a um aplogo: 
Cem pessoas tomam aes de um banco, para as operaes comuns; mas cada
acionista no cuida realmente seno nos seus dividendos:  o que acontece aos
adlteros. Este aplogo foi includo no livro da sabedoria.

CAPTULO IV

FRANJAS E FRANJAS

A previso do Diabo verificou-se. Todas as virtudes cuja
capa de veludo acabava em franja de algodo, uma vez puxadas pela franja,
deitavam a capa s urtigas e vinham alistar-se na igreja nova. Atrs foram
chegando as outras, e o tempo abenoou a instituio. A igreja fundara-se; a
doutrina propagava-se; no havia uma regio do globo que no a conhecesse, uma
lngua que no a traduzisse, uma raa que no a amasse. O Diabo alou brados de
triunfo.

Um dia, porm, longos anos depois notou o Diabo que muitos
dos seus fiis, s escondidas, praticavam as antigas virtudes. No as praticavam
todas, nem integralmente, mas algumas, por partes, e, como digo, s ocultas.
Certos glutes recolhiam-se a comer frugalmente trs ou quatro vezes por ano,
justamente em dias de preceito catlico; muitos avaros davam esmolas,  noite,
ou nas ruas mal povoadas; vrios dilapidadores do errio restituam-lhe
pequenas quantias; os fraudulentos falavam, uma ou outra vez, com o corao nas
mos, mas com o mesmo rosto dissimulado, para fazer crer que estavam embaando
os outros.

A descoberta assombrou o Diabo. Meteu-se a conhecer mais
diretamente o mal, e viu que lavrava muito. Alguns casos eram at
incompreensveis, como o de um droguista do Levante, que envenenara longamente
uma gerao inteira, e, com o produto das drogas, socorria os filhos das vtimas.
No Cairo achou um perfeito ladro de camelos, que tapava a cara para ir s
mesquitas. O Diabo deu com ele  entrada de uma, lanou-lhe em rosto o
procedimento; ele negou, dizendo que ia ali roubar o camelo de um drogman;
roubou-o, com efeito,  vista do Diabo e foi d-lo de presente a um muezim, que
rezou por ele a Al. O manuscrito beneditino cita muitas outras descobertas
extraordinrias, entre elas esta, que desorientou completamente o Diabo. Um dos
seus melhores apstolos era um calabrs, varo de cinqenta anos, insigne
falsificador de documentos, que possua uma bela casa na campanha romana,
telas, esttuas, biblioteca, etc. Era a fraude em pessoa; chegava a meter-se na
cama para no confessar que estava so. Pois esse homem, no s no furtava ao
jogo, como ainda dava gratificaes aos criados. Tendo angariado a amizade de
um cnego, ia todas as semanas confessar-se com ele, numa capela solitria; e,
conquanto no lhe desvendasse nenhuma das suas aes secretas, benzia-se duas
vezes, ao ajoelhar-se, e ao levantar-se. O Diabo mal pde crer tamanha
aleivosia. Mas no havia duvidar; o caso era verdadeiro.

No se deteve um instante. O pasmo no lhe deu tempo de
refletir, comparar e concluir do espetculo presente alguma coisa anloga ao
passado. Voou de novo ao cu, trmulo de raiva, ansioso de conhecer a causa
secreta de to singular fenmeno. Deus ouviu-o com infinita complacncia; no o
interrompeu, no o repreendeu, no triunfou, sequer, daquela agonia satnica.
Ps os olhos nele, e disse:

 Que queres tu, meu pobre Diabo? As capas de algodo tm
agora franjas de seda, como as de veludo tiveram franjas de algodo. Que queres
tu?  a eterna contradio humana.

O LAPSO

E vieram todos os oficiais... e o
resto do povo,

desde o pequeno at ao grande.

E disseram ao profeta Jeremias:
Seja aceita

a nossa splica na tua presena

JEREM. XLII, 1, 2.

No me perguntem pela famlia do
Dr. Jeremias Halma, nem o que  que ele veio fazer ao Rio de Janeiro, naquele
ano de 1768, governando o conde de Azambuja, que a princpio se disse o mandara
buscar; esta verso durou pouco. Veio, ficou e morreu com o sculo. Posso
afirmar que era mdico e holands. Viajara muito, sabia toda a qumica do
tempo, e mais alguma; falava correntemente cinco ou seis lnguas vivas e duas
mortas. Era to universal e inventivo, que dotou a poesia malaia com um novo
metro, e engendrou uma teoria da formao dos diamantes. No conto os
melhoramentos teraputicos e outras muitas coisas, que o recomendam  nossa
admirao. Tudo isso, sem ser casmurro, nem orgulhoso. Ao contrrio, a vida e a
pessoa dele eram como a casa que um patrcio lhe arranjou na Rua do Piolho,
casa singelssima, onde ele morreu pelo natal de 1799. Sim, o Dr. Jeremias era
simples, lhano, modesto, to modesto que... Mas isto seria transtornar a ordem
do conto. Vamos ao princpio.

No fim da Rua do Ouvidor, que ainda no era a via dolorosa
dos maridos pobres, perto da antiga Rua dos Latoeiros, morava por esse tempo um
tal Tom Gonalves, homem abastado, e, segundo algumas indues, vereador da
Cmara. Vereador ou no, este Tom Gonalves no tinha s dinheiro, tinha
tambm dvidas, no poucas, nem todas recentes. O descuido podia explicar os
seus atrasos, a velhacaria tambm; mas quem opinasse por uma ou outra dessas
interpretaes, mostraria que no sabe ler uma narrao grave. Realmente, no
valia a pena dar-se ningum  tarefa de escrever algumas laudas de papel para
dizer que houve, nos fins do sculo passado, um homem que, por velhacaria ou
desleixo, deixava de pagar aos credores. A tradio afirma que este nosso
concidado era exato em todas as coisas, pontual nas obrigaes mais vulgares,
severo e at meticuloso. A verdade  que as ordens terceiras e irmandades que
tinham a fortuna de o possuir (era irmo-remido de muitas, desde o tempo em que
usava pagar), no lhe regateavam provas de afeio e apreo; e, se  certo que
foi vereador, como tudo faz crer, pode-se jurar que o foi a contento da cidade.

Mas ento?... L vou; nem  outra a matria do escrito,
seno esse curioso fenmeno, cuja causa, se a conhecemos, foi porque a
descobriu o Dr. Jeremias. Em uma tarde de procisso, Tom Gonalves, trajado
com o hbito de uma ordem terceira, ia segurando uma das varas do plio, e
caminhando com a placidez de um homem que no faz mal a ningum. Nas janelas e
ruas estavam muitos dos seus credores; dois, entretanto, na esquina do Beco das
Cancelas (a procisso descia a Rua do Hospcio), depois de ajoelhados, rezados,
persignados e levantados, perguntaram um ao outro, se no era tempo de recorrer
 justia.

 Que  que me pode acontecer? dizia um deles. Se brigar
comigo, melhor; no me levar mais nada de graa. No brigando, no lhe posso
negar o que me pedir, e na esperana de receber os atrasados, vou fiando...
No, senhor; no pode continuar assim.

 Pela minha parte, acudiu o outro, se ainda no fiz nada,
 por causa da minha dona, que  medrosa, e entende que no devo brigar com
pessoa to importante... Mas eu como ou bebo da importncia dos outros? E as
minhas cabeleiras?

Este era um cabeleireiro da rua da Vala, defronte da S,
que vendera ao Tom Gonalves dez cabeleiras, em cinco anos, sem lhe haver
nunca um real. O outro era alfaiate, e ainda maior credor que o primeiro. A
procisso passara inteiramente; eles ficaram na esquina, ajustando o plano de
mandar os meirinhos ao Tom Gonalves. O cabeleireiro advertiu que outros
muitos credores s esperavam um sinal para cair em cima do devedor remisso; e o
alfaiate lembrou a convenincia de meter na conjurao o Mata-sapateiro, que
vivia desesperado. S a ele devia o Tom Gonalves mais de oitenta mil-ris.
Nisso estavam, quando por trs deles ouviram uma voz, com sotaque estrangeiro,
perguntando por que motivo conspiravam contra um homem doente. Voltaram-se, e,
dando com o Dr. Jeremias, desbarretaram-se os dois credores, tomados de
profunda venerao; em seguida disseram que tanto no era doente o devedor, que
l ia andando na procisso, muito teso, pegando uma das varas do plio.

 Que tem isso? interrompeu o mdico; ningum lhes diz que
est doente dos braos nem das pernas...

 Do corao? do estmago?

 Nem corao, nem estmago, respondeu o Dr. Jeremias. E
continuou, com muita doura, que se tratava de negcios altamente
especulativos, que no podia dizer ali, na rua, nem sabia mesmo se eles
chegariam a entend-lo. Se eu tiver de pentear uma cabeleira ou talhar um
calo  acrescentou para os no afligir,   provvel que no alcance as
regras dos seus ofcios to teis, to necessrios ao Estado... Eh! eh! eh!

Rindo assim, amigavelmente, cortejou-os e foi andando. Os
dois credores ficaram embasbacados. O cabeleireiro foi o primeiro que falou,
dizendo que a notcia do Dr. Jeremias no era tal que os devesse afrouxar no
propsito de cobrar as dvidas. Se at os mortos pagam, ou algum por eles,
reflexionou o cabeleireiro, no  muito exigir aos doentes igual obrigao. O
alfaiate, invejoso da pilhria, f-la sua cosendo-lhe este babado:  Pague e
cure-se.

No foi dessa opinio o Mata-sapateiro, que entendeu haver
alguma razo secreta nas palavras do Doutor Jeremias, e props que primeiro se
examinasse bem o que era, e depois se resolvesse o mais idneo. Convidaram
ento outros credores a um concilibulo, no domingo prximo, em casa de uma D.
Aninha, para as bandas do Rocio, a pretexto de um batizado. A precauo era
discreta, no fazer supor ao intendente da polcia que se tratava de alguma
tenebrosa maquinao contra o Estado. Mal anoiteceu, comearam a entrar os
credores, embuados em capotes, e, como a iluminao pblica s veio a
principiar com o vice-reinado do Conde de Resende, levava cada qual uma
lanterna na mo, ao uso do tempo, dando assim ao concilibulo um rasgo
pinturesco e teatral. Eram trinta e tantos, perto de quarenta  e no eram
todos.

A teoria de Ch. Lamb acerca da diviso do gnero humano em
duas grandes raas,  posterior ao concilibulo do Rocio; mas nenhum outro
exemplo a demonstraria melhor. Com efeito, o ar abatido ou aflito daqueles
homens, o desespero de alguns, a preocupao de todos, estavam de antemo
provando que a teoria do fino ensasta  verdadeira, e que das duas grandes
raas humanas,  a dos homens que emprestam, e a dos que pedem emprestado,  a
primeira contrasta pela tristeza do gesto com as maneiras rasgadas e francas da
segunda, the open, trusting, generous manners of the other. Assim que,
naquela mesma hora, o Tom Gonalves, tendo voltado da procisso, regalava
alguns amigos com os vinhos e galinhas que comprara fiado; ao passo que os
credores estudavam s escondidas, com um ar desenganado e amarelo, algum meio
de reaver o dinheiro perdido.

Longo foi o debate; nenhuma opinio chegava a concertar os
espritos. Uns inclinavam-se  demanda, outros  espera, no poucos aceitavam o
alvitre de consultar o Dr. Jeremias. Cinco ou seis partidrios deste parecer
no o defendiam seno com a inteno secreta e disfarada de no fazer coisa
nenhuma; eram os servos do medo e da esperana. O cabeleireiro opunha-se-lhe, e
perguntava que molstia haveria que impedisse um homem de pagar o que deve. Mas
o Mata-sapateiro:  'Sr. compadre, ns no entendemos desses
negcios; lembre-se que o doutor  estrangeiro, e que nas terras estrangeiras
sabem coisas que nunca lembraram ao diabo. Em todo caso, s perdemos algum
tempo e nada mais.' Venceu este parecer; deputaram o sapateiro, o alfaiate
e o cabeleireiro para entenderem-se com o Dr. Jeremias, em nome de todos, e o
concilibulo dissolveu-se na patuscada. Terpscore bracejou e perneou diante
deles as suas graas jucundas, e tanto bastou para que alguns esquecessem a
lcera secreta que os roa. Eheu! fugaces... Nem mesmo a dor 
constante.

No dia seguinte o Dr. Jeremias recebeu os trs credores,
entre sete e oito horas da manh. 'Entrem, entrem...' E com o seu
largo caro holands, e o riso derramado pela boca fora, como um vinho generoso
de pipa que se rompeu, o grande mdico veio em pessoa abrir-lhes a porta.
Estudava nesse momento uma cobra, morta de vspera, no morro de Santo Antnio;
mas a humanidade, costumava ele dizer,  anterior  cincia. Convidou os trs a
sentarem-se nas trs nicas cadeiras devolutas; a quarta era a dele; as outras,
umas cinco ou seis, estavam atulhadas de objetos de toda a casta.

Foi o Mata-sapateiro quem exps a questo; era dos trs o
que reunia maior cpia de talentos diplomticos. Comeou dizendo que o engenho
do 'Sr. doutor' ia salvar da misria uma poro de famlias, e no
seria a primeira nem a ltima grande obra de um mdico que, no desfazendo nos
da terra, era o mais sbio de quantos c havia desde o governo de Gomes Freire.
Os credores de Tom Gonalves no tinham outra esperana. Sabendo que o
'Sr. doutor' atribua os atrasos daquele cidado a uma doena, tinham
assentado que primeiro se tentasse a cura, antes de qualquer recurso  justia.
A justia ficaria para o caso de desespero. Era isto o que vinham dizer-lhe, em
nome de dezenas de credores; desejavam saber se era verdade que, alm de outros
achaques humanos, havia o de no pagar as dvidas, se era mal incurvel, e, no
o sendo, se as lgrimas de tantas famlias...

 H uma doena especial, interrompeu o Dr. Jeremias,
visivelmente comovido, um lapso da memria; o Tom Gonalves perdeu
inteiramente a noo de pagar. No  por descuido, nem de propsito que ele
deixa de saldar as contas;  porque esta idia de pagar, de entregar o preo de
uma coisa, varreu-se lhe da cabea. Conheci isto h dois meses, estando em casa
dele, quando ali foi o prior do Carmo, dizendo que ia 'pagar-lhe a fineza
de uma visita'. Tom Gonalves, apenas o prior se despediu, perguntou-me o
que era pagar; acrescentou que, alguns dias antes, um boticrio lhe dissera a
mesma palavra, sem nenhum outro esclarecimento, parecendo-lhe at que j a
ouvira a outras pessoas; por ouvi-la da boca do prior, supunha ser latim.
Compreendi tudo; tinha estudado a molstia em vrias partes do mundo, e
compreendi que ele estava atacado do lapso. Foi por isso que disse outro dia a
estes dois senhores que no demandassem um homem doente.

 Mas ento, aventurou o Mata, plido, o nosso dinheiro
est completamente perdido...

 A molstia no  incurvel, disse o mdico.

 Ah!

 No ; conheo e possuo a droga curativa, e j a empreguei
em dois grandes casos:  um barbeiro, que perdera a noo do espao, e,  noite
estendia a mo para arrancar as estrelas do cu, e uma senhora da Catalunha,
que perdera a noo do marido. O barbeiro arriscou muitas vezes a vida,
querendo sair pelas janelas mais altas das casas, como se estivesse ao rs do
cho...

 Santo Deus! exclamaram os trs credores.

  o que lhes digo, continuou placidamente o mdico.
Quanto  dama catal, a princpio confundia o marido com um licenciado Matias,
alto e fino, quando o marido era grosso e baixo; depois com um capito, D.
Hermgenes, e, no tempo em que comecei a trat-la com um clrigo. Em trs meses
ficou boa. Chamava-se D. Agostinha.

Realmente, era uma droga miraculosa. Os trs credores
estavam radiantes de esperana; tudo fazia crer que o Tom Gonalves padecia do
lapso, e, uma vez que a droga existia, e o mdico a tinha em casa... Ah! mas
aqui pegou o carro. O Dr. Jeremias no era familiar da casa do enfermo, embora
entretivesse relaes com ele; no podia ir oferecer-lhe os seus prstimos.
Tom Gonalves no tinha parentes que tomassem a responsabilidade de convidar o
mdico, nem os credores podiam tom-la a si. Mudos, perplexos, consultaram-se
com os olhos. Os do alfaiate, como os do cabeleireiro, exprimiram este alvitre
desesperado: cotizarem-se os credores, e, mediante uma quantia grossa e
apetitosa, convidarem o Dr. Jeremias  cura; talvez o interesse... Mas o
ilustre Mata viu o perigo de um tal propsito, porque o doente podia no ficar
bom, e a perda seria dobrada. Grande era a angstia; tudo parecia perdido. O
mdico rolava entre os dedos a boceta de rap, esperando que eles se fossem
embora, no impaciente, mas risonho. Foi ento que o Mata, como um capito dos
grandes dias, viu o ponto fraco do inimigo; advertiu que as suas primeiras
palavras tinham comovido o mdico, e tornou s lgrimas das famlias, aos
filhos sem po, porque eles no eram seno uns tristes oficiais de ofcio ou
mercadores de pouca fazenda, ao passo que o Tom Gonalves era rico. Sapatos,
cales, capotes, xaropes, cabeleiras, tudo o que lhes custava dinheiro, tempo
e sade... Sade, sim, senhor; os calos de suas mos mostravam bem que o ofcio
era duro; e o alfaiate, seu amigo, que ali estava presente, e que entisicava, s
noites,  luz de uma candeia, zs-que-dars, puxando a agulha...

Magnnimo Jeremias! No o deixou acabar; tinha os olhos
midos de lgrimas. O acanho de suas maneiras era compensado pelas expanses de
um corao pio e humano. Pois, sim; ia tentar o curativo, ia pr a cincia ao
servio de uma causa justa. Demais, a vantagem era tambm e principalmente do
prprio Tom Gonalves, cuja fama andava abocanhada, por um motivo em que ele
tinha tanta culpa como o doido que pratica uma iniqidade. Naturalmente, a
alegria dos deputados traduziu-se em rapaps infindos e grandes louvores aos
insignes merecimentos do mdico. Este cortou-lhes modestamente o discurso,
convidando-os a almoar, obsquio que eles no aceitaram, mas agradeceram com
palavras cordialssimas. E, na rua, quando ele j os no podia ouvir, no se
fartavam de elogiar-lhe a cincia, a bondade, a generosidade, a delicadeza, os
modos to simples! to naturais!

Desde esse dia comeou Tom Gonalves a notar a
assiduidade do mdico, e, no desejando outra coisa, porque lhe seria muito,
fez tudo o que lhe lembrou por at-lo de vez aos seus penates. O lapso do
infeliz era completo; tanto a idia de pagar, como as idias correlatas
de credor, dvida, saldo, e outras tinham-se-lhe apagado da memria,
constituindo-lhe assim um largo furo no esprito. Temo que se me argua de
comparaes extraordinrias, mas o abismo de Pascal  o que mais prontamente
vem ao bico da pena. Tom Gonalves tinha o abismo de Pascal, no ao lado, mas
dentro de si mesmo, e to profundo que cabiam nele mais de sessenta credores
que se debatiam l embaixo com o ranger de dentes da Escritura. Urgia extrair
todos esses infelizes e entulhar o buraco.

Jeremias fez crer ao doente que andava abatido, e, para
retemper-lo, comeou a aplicar-lhe a droga. No bastava a droga; era mister um
tratamento subsidirio, porque a cura operava-se de dois modos:  o modo geral
e abstrato, restaurao da idia de pagar, com todas as noes correlatas  era
a parte confiada  droga; e o modo particular e concreto, insinuao ou
designao de uma certa dvida e de um certo credor  era a parte do mdico.
Suponhamos que o credor escolhido era o sapateiro. O mdico levava o doente s
lojas de sapatos, para assistir  compra e venda da mercadoria, e ver uma e
muitas vezes a ao de pagar; falava de fabricao e venda dos sapatos no resto
do mundo, cotejava os preos do calado naquele ano de 1768 com o que tinha
trinta ou quarenta anos antes; fazia com que o sapateiro fosse dez, vinte vezes
 casa de Tom Gonalves levar a conta e pedir o dinheiro, e cem outros
estratagemas. Assim com o alfaiate, o cabeleireiro, o segeiro, o boticrio, um
a um, levando mais tempo os primeiros, pela razo natural de estar a doena
mais arraigada, e lucrando os ltimos com o trabalho anterior, donde lhes vinha
a compensao da demora.

Tudo foi pago. No se descreve a alegria dos credores, no
se transcrevem as bnos com que eles encheram o nome do Dr. Jeremias. Sim,
senhor,  um grande homem, bradavam em toda a parte. Parece coisa de
feitiaria, aventuravam as mulheres. Quanto ao Tom Gonalves, pasmado de
tantas dvidas velhas, no se fartava de elogiar a longanimidade dos credores,
censurando-os ao mesmo tempo pela acumulao.

 Agora, dizia-lhes, no quero contas de mais de oito
dias.

 Ns  que lhe marcaremos o tempo, respondiam
generosamente os credores.

Restava, entretanto, um credor. Esse era o mais recente, o
prprio Dr. Jeremias, pelos honorrios naquele servio relevante. Mas, ai dele!
a modstia atou-lhe a lngua. To expansivo era de corao, como acanhado de
maneiras; e planeou trs, cinco investidas, sem chegar a executar nada. E alis
era fcil; bastava insinuar-lhe a dvida pelo mtodo usado em relao  dos outros;
mas seria bonito? perguntava a si mesmo; seria decente? etc., etc. E esperava,
ia esperando. Para no parecer que se lhe metia  cara, entrou a rarear as
visitas; mas o Tom Gonalves ia ao casebre da Rua do Piolho, e trazia-o a
jantar, a cear, a falar de coisas estrangeiras, em que era muito curioso. Nada
de pagar. Jeremias chegou a imaginar que os credores... Mas os credores, ainda
quando pudesse passar-lhes pela cabea a idia de lembrar a dvida, no
chegariam a faz-lo, porque a supunham paga antes de todas. Era o que diziam
uns aos outros, entre muitas frmulas da sabedoria popular:  Mateus, primeiro
os teus  A boa justia comea por casa  Quem  tolo pede a Deus que o mate,
etc. Tudo falso; a verdade  que o Tom Gonalves, no dia em que falecera,
tinha um s credor no mundo:  o Dr. Jeremias.

Este, nos fins do sculo, chegara  canonizao. 
'Adeus, grande homem!' dizia-lhe o Mata, ex-sapateiro, em 1798, de
dentro da sege, que o levava  missa dos carmelitas. E o outro, curvo de
velhice, melancolicamente, olhando para os bicos dos ps:  Grande homem, mas
pobre diabo.

LTIMO CAPTULO

H entre os suicidas um excelente costume, que  no
deixar a vida sem dizer o motivo e as circunstncias que os armam contra ela.
Os que se vo calados, raramente  por orgulho; na maior parte dos casos ou no
tm tempo, ou no sabem escrever. Costume excelente: em primeiro lugar,  um
ato de cortesia, no sendo este mundo um baile, de onde um homem possa
esgueirar-se antes do cotilho; em segundo lugar, a imprensa recolhe e divulga
os bilhetes pstumos, e o morto vive ainda um dia ou dois, s vezes uma semana
mais.

Pois apesar da excelncia do costume, era meu propsito
sair calado. A razo  que, tendo sido caipora em minha vida toda, temia que qualquer
palavra ltima pudesse levar-me alguma complicao  eternidade. Mas um
incidente de h pouco trocou-me o plano, e retiro-me deixando, no s um
escrito, mas dois. O primeiro  o meu testamento, que acabo de compor e fechar,
e est aqui em cima da mesa, ao p da pistola carregada. O segundo  este
resumo de autobiografia. E note-se que no dou o segundo escrito seno porque 
preciso esclarecer o primeiro, que pareceria absurdo ou ininteligvel, sem
algum comentrio. Disponho ali que, vendidos os meus poucos livros, roupa de
uso e um casebre que possuo em Catumbi, alugado a um carpinteiro, seja o
produto empregado em sapatos e botas novas, que se distribuiro por um modo
indicado, e confesso que extraordinrio. No explicada a razo de um tal legado,
arrisco a validade do testamento. Ora, a razo do legado brotou do incidente de
h pouco, e o incidente liga-se  minha vida inteira.

Chamo-me Matias Deodato de Castro e Melo, filho do
sargento-mor Salvador Deodato de Castro e Melo e de D. Maria da Soledade
Pereira, ambos falecidos. Sou natural de Corumb, Mato Grosso; nasci em 3 de
maro de 1820; tenho, portanto, cinqenta e um anos, hoje, 3 de maro de 1871.

Repito, sou um grande caipora, o mais caipora de todos os
homens. H uma locuo proverbial, que eu literalmente realizei. Era em
Corumb; tinha sete para oito anos, embalava-me na rede,  hora da sesta, em um
quartinho de telha-v; a rede, ou por estar frouxa a argola, ou por impulso
demasiado violento da minha parte, desprendeu-se de uma das paredes, e deu
comigo no cho. Ca de costas; mas, assim mesmo de costas, quebrei o nariz,
porque um pedao de telha, mal seguro, que s esperava ocasio de vir abaixo,
aproveitou a comoo e caiu tambm. O ferimento no foi grave nem longo; tanto
que meu pai caoou muito comigo. O Cnego Brito, de tarde, ao ir tomar guaran
conosco, soube do episdio e citou o rifo, dizendo que era eu o primeiro que
cumpria exatamente este absurdo de cair de costas e quebrar o nariz. Nem um nem
outro imaginava que o caso era um simples incio de coisas futuras.

No me demoro em outros reveses da infncia e da
juventude. Quero morrer ao meio-dia, e passa de onze horas. Alm disso, mandei
fora o rapaz que me serve, e ele pode vir mais cedo, e interromper-me a
execuo do projeto mortal. Tivesse eu tempo, e contaria pelo mido alguns
episdios doloridos, entre eles, o de umas cacetadas que apanhei por engano.
Tratava-se do rival de um amigo meu, rival de amores e naturalmente rival
derrubado. O meu amigo e a dama indignaram-se com as pancadas quando souberam
da aleivosia do outro; mas aplaudiram secretamente a iluso. Tambm no falo de
alguns achaques que padeci. Corro ao ponto em que meu pai, tendo sido pobre
toda a vida, morreu pobrssimo, e minha me no lhe sobreviveu dois meses. O
Cnego Brito, que acabava de sair eleito deputado, props ento trazer-me ao
Rio de Janeiro, e veio comigo, com a idia de fazer-me padre; mas cinco dias
depois de chegar morreu. Vo vendo a ao constante do caiporismo.

Fiquei s, sem amigos, nem recursos, com dezesseis anos de
idade. Um cnego da Capela Imperial lembrou-se de fazer-me entrar ali de
sacristo; mas, posto que tivesse ajudado muita missa em Mato Grosso, e
possusse algumas letras latinas, no fui admitido, por falta de vaga. Outras
pessoas induziram-me ento a estudar direito, e confesso que aceitei com
resoluo. Tive at alguns auxlios, a princpio; faltando-me eles depois,
lutei por mim mesmo; enfim alcancei a carta de bacharel. No me digam que isto
foi uma exceo na minha vida caipora, porque o diploma acadmico levou-me
justamente a coisas mui graves; mas, como o destino tinha de flagelar-me,
qualquer que fosse a minha profisso, no atribuo nenhum influxo especial ao
grau jurdico. Obtive-o com muito prazer, isso  verdade; a idade moa, e uma
certa superstio de melhora, faziam-me do pergaminho uma chave de diamante que
iria abrir todas as portas da fortuna.

E, para principiar, a carta de bacharel no me encheu
sozinha as algibeiras. No, senhor; tinha ao lado dela umas outras, dez ou
quinze, fruto de um namoro travado no Rio de Janeiro, pela semana santa de
1842, com uma viva mais velha do que eu sete ou oito anos, mas ardente, lpida
e abastada. Morava com um irmo cego, na Rua do Conde; no posso dar outras
indicaes. Nenhum dos meus amigos ignorava este namoro; dois deles at liam as
cartas, que eu lhes mostrava, com o pretexto de admirar o estilo elegante da
viva, mas realmente para que vissem as finas coisas que ela me dizia. Na
opinio de todos, o nosso casamento era certo, mais que certo; a viva no
esperava seno que eu conclusse os estudos. Um desses amigos, quando eu voltei
graduado, deu-me os parabns, acentuando a sua convico com esta frase
definitiva:

 O teu casamento  um dogma.

E, rindo, perguntou-me se, por conta do dogma, poderia
arranjar-lhe cinqenta mil-ris; era para uma urgente preciso. No tinha
comigo os cinqenta mil-ris; mas o dogma repercutia ainda to docemente
no meu corao, que no descansei em todo esse dia, at arranjar-lhos; fui
lev-los eu mesmo, entusiasmado; ele recebeu-os, cheio de gratido. Seis meses
depois foi ele quem casou com a viva.

No digo tudo o que ento padeci; digo s que o meu
primeiro impulso foi dar um tiro em ambos; e, mentalmente, cheguei a faz-lo;
cheguei a v-los, moribundos, arquejantes, pedirem-me perdo. Vingana
hipottica; na realidade, no fiz nada. Eles casaram-se, e foram ver do alto da
Tijuca a ascenso da lua-de-mel. Eu fiquei relendo as cartas da viva.
'Deus, que me ouve (dizia uma delas), sabe que o meu amor  eterno, e que
eu sou tua, eternamente tua...' E, no meu atordoamento, blasfemava comigo:
 Deus  um grande invejoso; no quer outra eternidade ao p dele, e por isso
desmentiu a viva:  nem outro dogma alm do catlico, e por isso desmentiu o
meu amigo. Era assim que eu explicava a perda da namorada e dos cinqenta
mil-ris.

Deixei a capital, e fui advogar na roa, mas por pouco
tempo. O caiporismo foi comigo, na garupa do burro, e onde eu me apeei,
apeou-se ele tambm. Vi-lhe o dedo em tudo, nas demandas que no vinham, nas
que vinham e valiam pouco ou nada, e nas que, valendo alguma coisa, eram
invariavelmente perdidas. Alm de que os constituintes vencedores so em geral
mais gratos que os outros, a sucesso de derrotas foi arredando de mim os
demandistas. No fim de algum tempo, ano e meio, voltei  Corte, e estabeleci-me
com um antigo companheiro de ano: o Gonalves.

Este Gonalves era o esprito menos jurdico, menos apto para
entestar com as questes de direito. Verdadeiramente era um pulha. Comparemos a
vida mental a uma casa elegante; o Gonalves no aturava dez minutos a conversa
do salo, esgueirava-se, descia  copa e ia palestrar com os criados. Mas
compensava essa qualidade inferior com certa lucidez, com a presteza de
compreenso, nos assuntos menos rduos ou menos complexos, com a facilidade de
expor, e, o que no era pouco para um pobre-diabo batido da fortuna, com uma
alegria quase sem intermitncias. Nos primeiros tempos, como as demandas no
vinham, matvamos as horas com excelente palestra, animada e viva, em que a
melhor parte era dele, ou falssemos de poltica, ou de mulheres, assunto que
lhe era muito particular.

Mas as demandas vieram vindo; entre elas uma questo de
hipoteca. Tratava-se da casa de um empregado da alfndega, Temstocles de S
Botelho, que no tinha outros bens, e queria salvar a propriedade. Tomei conta
do negcio. O Temstocles ficou encantado comigo: e, duas semanas depois, como
eu lhe dissesse que no era casado, declarou-me rindo que no queria nada com
solteires. Disse-me outras coisas e convidou-me a jantar no domingo prximo.
Fui; namorei-me da filha dele, D. Rufina, moa de dezenove anos, bem bonita,
embora um pouco acanhada e meia morta. Talvez seja a educao, pensei eu.
Casamo-nos poucos meses depois. No convidei o caiporismo,  claro; mas na
igreja, entre as barbas rapadas e as suas lustrosas, pareceu-me ver o caro
sardnico e o olhar oblquo do meu cruel adversrio. Foi por isso que, no ato
mesmo de proferir a frmula sagrada e definitiva do casamento, estremeci,
hesitei, e, enfim, balbuciei a medo o que o padre me ditava...

Estava casado. Rufina no dispunha,  verdade, de certas
qualidades brilhantes e elegantes; no seria, por exemplo, e desde logo, uma
dona de salo. Tinha, porm, as qualidades caseiras, e eu no queria outras. A
vida obscura bastava-me; e, contanto que ela ma enchesse, tudo iria bem. Mas
esse era justamente o agro da empresa. Rufina (permitam-me esta figurao
cromtica) no tinha a alma negra de lady Macbeth, nem a vermelha de
Clepatra, nem a azul de Julieta, nem a alva de Beatriz, mas cinzenta e apagada
como a multido dos seres humanos. Era boa por apatia, fiel sem virtude, amiga
sem ternura nem eleio. Um anjo a levaria ao cu, um diabo ao inferno, sem
esforo em ambos os casos, e sem que, no primeiro lhe coubesse a ela nenhuma
glria, nem o menor desdouro no segundo. Era a passividade do sonmbulo. No
tinha vaidades. O pai armou-me o casamento para ter um genro doutor; ela, no;
aceitou-me como aceitaria um sacristo, um magistrado, um general, um empregado
pblico, um alferes, e no por impacincia de casar, mas por obedincia 
famlia, e, at certo ponto, para fazer como as outras. Usavam-se maridos; ela
queria usar tambm o seu. Nada mais antiptico  minha prpria natureza; mas
estava casado.

Felizmente  ah! um felizmente neste ltimo captulo de um
caipora, , na verdade, uma anomalia; mas vo lendo, e vero que o advrbio
pertence ao estilo, no  vida;  um modo de transio e nada mais. O que vou
dizer no altera o que est dito. Vou dizer que as qualidades domsticas de
Rufina davam-lhe muito mrito. Era modesta; no amava bailes, nem passeios, nem
janelas. Vivia consigo. No mourejava em casa, nem era preciso; para dar-lhe
tudo, trabalhava eu, e os vestidos e chapus, tudo vinha 'das
francesas', como ento se dizia, em vez de modistas. Rufina, no intervalo
das ordens que dava, sentava-se horas e horas, bocejando o esprito, matando o
tempo, uma hidra de cem cabeas, que no morria nunca; mas, repito, com todas
essas lacunas, era boa dona de casa. Pela minha parte, estava no papel das rs
que queriam um rei; a diferena  que, mandando-me Jpiter um cepo, no lhe
pedi outro, porque viria a cobra e engolia-me. Viva o cepo! disse comigo. Nem
conto estas coisas, seno para mostrar a lgica e a constncia do meu destino.

Outro felizmente; e este no  s uma transio de
frase. No fim de ano e meio, abotoou no horizonte uma esperana, e, a calcular
pela comoo que me deu a notcia, uma esperana suprema e nica. Era o
desejado que chegava. Que desejado? Um filho. A minha vida mudou logo. Tudo me
sorria como um dia de noivado. Preparei-lhe um recebimento rgio; comprei-lhe
um rico bero, que me custou bastante; era de bano e marfim, obra acabada;
depois, pouco a pouco, fui comprando o enxoval; mandei-lhe coser as mais finas
cambraias, as mais quentes flanelas, uma linda touca de renda, comprei-lhe um
carrinho, e esperei, esperei, pronto a bailar diante dele, como Davi diante da
arca... Ai, caipora! a arca entrou vazia em Jerusalm; o pequeno nasceu morto.

Quem me consolou no malogro foi o Gonalves, que devia ser
padrinho do pequeno, e era amigo, comensal e confidente nosso. Tem pacincia,
disse-me; serei padrinho do que vier. E confortava-me, falava-me de outras
coisas, com ternura de amigo. O tempo fez o resto. O prprio Gonalves
advertiu-me depois que, se o pequeno tinha de ser caipora, como eu dizia que
era, melhor foi que nascesse morto.

 E pensas que no? redargi.

Gonalves sorriu; ele no acreditava no meu caiporismo.
Verdade  que no tinha tempo de acreditar em nada; todo era pouco para ser
alegre. Afinal, comeara a converter-se  advocacia, j arrazoava autos, j
minutava peties, j ia s audincias, tudo porque era preciso viver, dizia
ele. E alegre sempre. Minha mulher achava-lhe muita graa, ria longamente dos
ditos dele, e das anedotas, que s vezes eram picantes demais. Eu, a princpio,
repreendia-o em particular, mas acostumei-me a elas. E depois, quem  que no
perdoa as facilidades de um amigo, e de um amigo jovial? Devo dizer que ele
mesmo se foi refreando, e dali a algum tempo, comecei a achar-lhe muita
seriedade. Ests namorado, disse-lhe um dia; e ele, empalidecendo, respondeu
que sim, e acrescentou sorrindo, embora frouxamente, que era indispensvel
casar tambm. Eu,  mesa, falei do assunto.

 Rufina, voc sabe que o Gonalves vai casar?

  caoada dele, interrompeu vivamente o Gonalves.

Dei ao diabo a minha indiscrio, e no falei mais nisso;
nem ele. Cinco meses depois... A transio  rpida; mas no h meio de a fazer
longa. Cinco meses depois, adoeceu Rufina, gravemente, e no resistiu oito
dias; morreu de uma febre perniciosa.

Coisa singular: em vida, a nossa divergncia moral trazia
a frouxido dos vnculos, que se sustinham principalmente da necessidade e do
costume. A morte, com o seu grande poder espiritual, mudou tudo; Rufina
apareceu-me como a esposa que desce do Lbano, e a divergncia foi substituda
pela total fuso dos seres. Peguei da imagem, que enchia a minha alma, e enchi
com ela a vida, onde outrora ocupara to pouco espao e por to pouco tempo.
Era um desafio  m estrela; era levantar o edifcio da fortuna em pura rocha
indestrutvel. Compreendam-me bem; tudo o que at ento dependia do mundo
exterior, era naturalmente precrio: as telhas caam com o abalo das redes, as
sobrepelizes recusavam-se aos sacristes, os juramentos das vivas fugiam com
os dogmas dos amigos, as demandas vinham trpegas ou iam-se de mergulho; enfim,
as crianas nasciam mortas. Mas a imagem de uma defunta era imortal. Com ela
podia desafiar o olhar oblquo do mau destino. A felicidade estava nas minhas
mos, presa, vibrando no ar as grandes asas de condor, ao passo que o
caiporismo, semelhante a uma coruja, batia as suas na direo da noite e do
silncio...

Um dia, porm, convalescendo de uma febre, deu-me na
cabea inventariar uns objetos da finada e comecei por uma caixinha, que no
fora aberta, desde que ela morreu, cinco meses antes. Achei uma multido de
coisas minsculas, agulhas, linhas, entremeios, um dedal, uma tesoura, uma
orao de S. Cipriano, um rol de roupa, outras quinquilharias, e um mao de
cartas, atado por uma fita azul. Deslacei a fita e abri as cartas: eram do
Gonalves... Meio-dia! Urge acabar; o moleque pode vir, e adeus. Ningum
imagina como o tempo corre nas circunstncias em que estou; os minutos voam
como se fossem imprios, e, o que  importante nesta ocasio, as folhas de
papel vo com eles.

No conto os bilhetes brancos, os negcios abortados, as
relaes interrompidas; menos ainda outros acintes nfimos da fortuna. Cansado
e aborrecido, entendi que no podia achar a felicidade em parte nenhuma; fui
alm: acreditei que ela no existia na terra, e preparei-me desde ontem para o
grande mergulho na eternidade. Hoje, almocei, fumei um charuto, e debrucei-me 
janela. No fim de dez minutos, vi passar um homem bem trajado, fitando a mido
os ps. Conhecia-o de vista; era uma vtima de grandes reveses, mas ia risonho,
e contemplava os ps, digo mal, os sapatos. Estes eram novos, de verniz, muito
bem talhados, e provavelmente cosidos a primor. Ele levantava os olhos para as
janelas, para as pessoas, mas tornava-os aos sapatos, como por uma lei de
atrao, anterior e superior  vontade. Ia alegre; via-se-lhe no rosto a
expresso da bem-aventurana. Evidentemente era feliz; e, talvez, no tivesse
almoado; talvez mesmo no levasse um vintm no bolso. Mas ia feliz, e contemplava
as botas.

A felicidade ser um par de botas? Esse homem, to
esbofeteado pela vida, achou finalmente um riso da fortuna. Nada vale nada.
Nenhuma preocupao deste sculo, nenhum problema social ou moral, nem as
alegrias da gerao que comea, nem as tristezas da que termina, misria ou
guerra de classes; crises da arte e da poltica, nada vale, para ele, um par de
botas. Ele fita-as, ele respira-as, ele reluz com elas, ele calca com elas o
cho de um globo que lhe pertence. Da o orgulho das atitudes, a rigidez dos
passos, e um certo ar de tranqilidade olmpica... Sim, a felicidade  um par
de botas.

No  outra a explicao do meu testamento. Os
superficiais diro que estou doido, que o delrio do suicida define a clusula
do testador; mas eu falo para os sapientes e para os malfadados. Nem colhe a
objeo de que era melhor gastar comigo as botas, que lego aos outros; no,
porque seria nico. Distribuindo-as, fao um certo nmero de venturosos. Eia,
caiporas! que a minha ltima vontade seja cumprida. Boa noite, e calai-vos!

CANTIGA DE ESPONSAIS

Imagine a leitora que est em 1813, na Igreja do Carmo,
ouvindo uma daquelas boas festas antigas, que eram todo o recreio pblico e toda
a arte musical. Sabem o que  uma missa cantada; podem imaginar o que seria uma
missa cantada daqueles anos remotos. No lhe chamo a ateno para os padres e
os sacristes, nem para o sermo, nem para os olhos das moas cariocas, que j
eram bonitos nesse tempo, nem para as mantilhas das senhoras graves, os
cales, as cabeleiras, as sanefas, as luzes, os incensos, nada. No falo
sequer da orquestra, que  excelente; limito-me a mostrar-lhes uma cabea
branca, a cabea desse velho que rege a orquestra, com alma e devoo.

Chama-se Romo Pires; ter sessenta anos, no menos,
nasceu no Valongo, ou por esses lados.  bom msico e bom homem; todos os
msicos gostam dele. Mestre Romo  o nome familiar; e dizer familiar e pblico
era a mesma coisa em tal matria e naquele tempo. 'Quem rege a missa 
mestre Romo',  equivalia a esta outra forma de anncio, anos depois:
'Entra em cena o ator Joo Caetano';  ou ento: 'O ator
Martinho cantar uma de suas melhores rias'. Era o tempero certo, o
chamariz delicado e popular. Mestre Romo rege a festa! Quem no conhecia
mestre Romo, com o seu ar circunspecto, olhos no cho, riso triste, e passo
demorado? Tudo isso desaparecia  frente da orquestra; ento a vida
derramava-se por todo o corpo e todos os gestos do mestre; o olhar acendia-se,
o riso iluminava-se: era outro. No que a missa fosse dele; esta, por exemplo,
que ele rege agora no Carmo  de Jos Maurcio; mas ele rege-a com o mesmo amor
que empregaria, se a missa fosse sua.

Acabou a festa;  como se acabasse um claro intenso, e
deixasse o rosto apenas alumiado da luz ordinria. Ei-lo que desce do coro,
apoiado na bengala; vai  sacristia beijar a mo aos padres e aceita um lugar 
mesa do jantar. Tudo isso indiferente e calado. Jantou, saiu, caminhou para a
Rua da Me dos Homens, onde reside, com um preto velho, pai Jos, que  a sua
verdadeira me, e que neste momento conversa com uma vizinha.

 Mestre Romo l vem, pai Jos, disse a vizinha.

 Eh! eh! adeus, sinh, at logo.

Pai Jos deu um salto, entrou em casa, e esperou o senhor,
que da a pouco entrava com o mesmo ar do costume. A casa no era rica
naturalmente; nem alegre. No tinha o menor vestgio de mulher, velha ou moa,
nem passarinhos que cantassem, nem flores, nem cores vivas ou jucundas. Casa
sombria e nua. O mais alegre era um cravo, onde o mestre Romo tocava algumas
vezes, estudando. Sobre uma cadeira, ao p, alguns papis de msica; nenhuma
dele...

Ah! se mestre Romo pudesse seria um grande compositor. Parece
que h duas sortes de vocao, as que tm lngua e as que a no tm. As
primeiras realizam-se; as ltimas representam uma luta constante e estril
entre o impulso interior e a ausncia de um modo de comunicao com os homens.
Romo era destas. Tinha a vocao ntima da msica; trazia dentro de si muitas
peras e missas, um mundo de harmonias novas e originais, que no alcanava
exprimir e pr no papel. Esta era a causa nica de tristeza de mestre Romo.
Naturalmente o vulgo no atinava com ela; uns diziam isto, outros aquilo:
doena, falta de dinheiro, algum desgosto antigo; mas a verdade  esta:  a
causa da melancolia de mestre Romo era no poder compor, no possuir o meio de
traduzir o que sentia. No  que no rabiscasse muito papel e no interrogasse
o cravo, durante horas; mas tudo lhe saa informe, sem idia nem harmonia. Nos
ltimos tempos tinha at vergonha da vizinhana, e no tentava mais nada.

E, entretanto, se pudesse, acabaria ao menos uma certa
pea, um canto esponsalcio, comeado trs dias depois de casado, em 1779. A
mulher, que tinha ento vinte e um anos, e morreu com vinte e trs, no era
muito bonita, nem pouco, mas extremamente simptica, e amava-o tanto como ele a
ela. Trs dias depois de casado, mestre Romo sentiu em si alguma coisa
parecida com inspirao. Ideou ento o canto esponsalcio, e quis comp-lo; mas
a inspirao no pde sair. Como um pssaro que acaba de ser preso, e forceja
por transpor as paredes da gaiola, abaixo, acima, impaciente, aterrado, assim
batia a inspirao do nosso msico, encerrada nele sem poder sair, sem achar
uma porta, nada. Algumas notas chegaram a ligar-se; ele escreveu-as; obra de
uma folha de papel, no mais. Teimou no dia seguinte, dez dias depois, vinte
vezes durante o tempo de casado. Quando a mulher morreu, ele releu essas
primeiras notas conjugais, e ficou ainda mais triste, por no ter podido fixar
no papel a sensao de felicidade extinta.

 Pai Jos, disse ele ao entrar, sinto-me hoje adoentado.

 Sinh comeu alguma coisa que fez mal...

 No; j de manh no estava bom. Vai  botica...

O boticrio mandou alguma coisa, que ele tomou  noite; no
dia seguinte mestre Romo no se sentia melhor.  preciso dizer que ele padecia
do corao:  molstia grave e crnica. Pai Jos ficou aterrado, quando viu que
o incmodo no cedera ao remdio, nem ao repouso, e quis chamar o mdico.

 Para qu? disse o mestre. Isto passa.

O dia no acabou pior; e a noite suportou-a ele bem, no
assim o preto, que mal pde dormir duas horas. A vizinhana, apenas soube do
incmodo, no quis outro motivo de palestra; os que entretinham relaes com o
mestre foram visit-lo. E diziam-lhe que no era nada, que eram macacoas do
tempo; um acrescentava graciosamente que era manha, para fugir aos capotes que
o boticrio lhe dava no gamo,  outro que eram amores. Mestre Romo sorria,
mas consigo mesmo dizia que era o final.

 'Est acabado', pensava ele.

Um dia de manh, cinco depois da festa, o mdico achou-o realmente
mal; e foi isso o que ele lhe viu na fisionomia por trs das palavras
enganadoras:

 Isto no  nada;  preciso no pensar em msicas...

Em msicas! justamente esta palavra do mdico deu ao
mestre um pensamento. Logo que ficou s, com o escravo, abriu a gaveta onde
guardava desde 1779 o canto esponsalcio comeado. Releu essas notas arrancadas
a custo, e no concludas. E ento teve uma idia singular:  rematar a obra
agora, fosse como fosse; qualquer coisa servia, uma vez que deixasse um pouco
de alma na terra.

 Quem sabe? Em 1880, talvez se toque isto, e se conte que
um mestre Romo...

O princpio do canto rematava em um certo l; este l,
que lhe caa bem no lugar, era a nota derradeiramente escrita. Mestre Romo
ordenou que lhe levassem o cravo para a sala do fundo, que dava para o quintal:
era-lhe preciso ar. Pela janela viu na janela dos fundos de outra casa dois
casadinhos de oito dias, debruados, com os braos por cima dos ombros, e duas
mos presas. Mestre Romo sorriu com tristeza.

 Aqueles chegam, disse ele, eu saio. Comporei ao menos
este canto que eles podero tocar...

Sentou-se ao cravo; reproduziu as notas e chegou ao l....

 L... l... l...

Nada, no passava adiante. E contudo, ele sabia msica como
gente.

 L, d... l, mi... l, si, d, r... r... r...

Impossvel! nenhuma inspirao. No exigia uma pea
profundamente original, mas enfim alguma coisa, que no fosse de outro e se
ligasse ao pensamento comeado. Voltava ao princpio, repetia as notas, buscava
reaver um retalho da sensao extinta, lembrava-se da mulher, dos primeiros
tempos. Para completar a iluso, deitava os olhos pela janela para o lado dos
casadinhos. Estes continuavam ali, com as mos presas e os braos passados nos
ombros um do outro; a diferena  que se miravam agora, em vez de olhar para
baixo. Mestre Romo, ofegante da molstia e de impacincia, tornava ao cravo;
mas a vista do casal no lhe suprira a inspirao, e as notas seguintes no
soavam.

 L... l... l...

Desesperado, deixou o cravo, pegou do papel escrito e
rasgou-o. Nesse momento, a moa embebida no olhar do marido, comeou a
cantarolar  toa, inconscientemente, uma coisa nunca antes cantada nem sabida,
na qual coisa um certo l trazia aps si uma linda frase musical,
justamente a que mestre Romo procurara durante anos sem achar nunca. O mestre
ouviu-a com tristeza, abanou a cabea, e  noite expirou.

SINGULAR OCORRNCIA

H ocorrncias bem singulares. Est vendo aquela dama que vai
entrando na Igreja da Cruz? Parou agora no adro para dar uma esmola.

 De preto?

 Justamente; l vai entrando; entrou.

 No ponha mais na carta. Esse olhar est dizendo que a
dama  uma sua recordao de outro tempo, e no h de ser de muito tempo, a
julgar pelo corpo:  moa de truz.

 Deve ter quarenta e seis anos.

 Ah! conservada. Vamos l; deixe de olhar para o cho, e
conte-me tudo. Est viva, naturalmente?

 No.

 Bem; o marido ainda vive.  velho?

 No  casada.

 Solteira?

 Assim, assim. Deve chamar-se hoje D. Maria de tal. Em
1860 florescia com o nome familiar de Marocas. No era costureira, nem
proprietria, nem mestra de meninas; v excluindo as profisses e l chegar. Morava
na Rua do Sacramento. J ento era esbelta, e, seguramente, mais linda do que
hoje; modos srios, linguagem limpa. Na rua, com o vestido afogado, escorrido,
sem espavento, arrastava a muitos, ainda assim.

 Por exemplo, ao senhor.

 No, mas ao Andrade, um amigo meu, de vinte e seis anos,
meio advogado, meio poltico, nascido nas Alagoas, e casado na Bahia, donde
viera em 1859. Era bonita a mulher dele, afetuosa, meiga e resignada; quando os
conheci, tinham uma filhinha de dois anos.

 Apesar disso, a Marocas...?

  verdade, dominou-o. Olhe, se no tem pressa, conto-lhe
uma coisa interessante.

 Diga.


A primeira vez que ele a encontrou, foi  porta da loja Paula Brito, no Rocio.
Estava ali, viu a distncia uma mulher bonita, e esperou, j alvoroado, porque
ele tinha em alto grau a paixo das mulheres. Marocas vinha andando, parando e
olhando como quem procura alguma casa. Defronte da loja deteve-se um instante;
depois, envergonhada e a medo, estendeu um pedacinho de papel ao Andrade, e
perguntou-lhe onde ficava o nmero ali escrito. Andrade disse-lhe que do outro
lado do Rocio, e ensinou-lhe a altura provvel da casa. Ela cortejou com muita
graa; ele ficou sem saber o que pensasse da pergunta.

 Como eu estou.

 Nada mais simples: Marocas no sabia ler. Ele no chegou
a suspeit-lo. Viu-a atravessar o Rocio, que ainda no tinha esttua nem
jardim, e ir  casa que buscava, ainda assim perguntando em outras. De noite
foi ao Ginsio; dava-se a Dama das Camlias; Marocas estava l, e, no
ltimo ato, chorou como uma criana. No lhe digo nada; no fim de quinze dias
amavam-se loucamente. Marocas despediu todos os seus namorados, e creio que no
perdeu pouco; tinha alguns capitalistas bem bons. Ficou s, sozinha, vivendo para
o Andrade, no querendo outra afeio, no cogitando de nenhum outro interesse.

 Como a Dama das Camlias.

 Justo. Andrade ensinou-lhe a ler. Estou mestre-escola,
disse-me ele um dia; e foi ento que me contou a anedota do Rocio. Marocas
aprendeu depressa. Compreende-se; o vexame de no saber, o desejo de conhecer
os romances em que ele lhe falava, e finalmente o gosto de obedecer a um desejo
dele, de lhe ser agradvel... No me encobriu nada; contou-me tudo com um riso
de gratido nos olhos, que o senhor no imagina. Eu tinha a confiana de ambos.
Jantvamos s vezes os trs juntos; e... no sei por que neg-lo,  algumas
vezes os quatro. No cuide que eram jantares de gente pndega; alegres, mas
honestos. Marocas gostava da linguagem afogada, como os vestidos. Pouco a pouco
estabeleceu-se intimidade entre ns; ela interrogava-me acerca da vida do
Andrade, da mulher, da filha, dos hbitos dele, se gostava deveras dela, ou se
era um capricho, se tivera outros, se era capaz de a esquecer, uma chuva de
perguntas, e um receio de o perder, que mostravam a fora e a sinceridade da
afeio... Um dia, uma festa de S. Joo, o Andrade acompanhou a famlia 
Gvea, onde ia assistir a um jantar e um baile; dois dias de ausncia. Eu fui
com eles. Marocas, ao despedir-se, recordou a comdia que ouvira algumas
semanas antes no Ginsio  Janto com minha me  e
disse-me que, no tendo famlia para passar a festa de S. Joo, ia fazer como a
Sofia Arnoult da comdia, ia jantar com um retrato; mas no seria o da me,
porque no tinha, e sim do Andrade. Este dito ia-lhe rendendo um beijo; o
Andrade chegou a inclinar-se; ela, porm, vendo que eu estava ali, afastou-o
delicadamente com a mo.

 Gosto desse gesto.

 Ele no gostou menos. Pegou-lhe na cabea com ambas as
mos, e, paternalmente, pingou-lhe o beijo na testa. Seguimos para a Gvea. De
caminho disse-me a respeito da Marocas as maiores finezas, contou-me as ltimas
frioleiras de ambos, falou-me do projeto que tinha de comprar-lhe uma casa em
algum arrabalde, logo que pudesse dispor de dinheiro; e, de passagem, elogiou a
modstia da moa, que no queria receber dele mais do que o estritamente
necessrio. H mais do que isso, disse-lhe eu, e contei-lhe uma coisa que
sabia, isto , que cerca de trs semanas antes, a Marocas empenhara algumas
jias para pagar uma conta da costureira. Esta notcia abalou-o muito; no
juro, mas creio que ficou com os olhos molhados. Em todo caso, depois de
cogitar algum tempo, disse-me que definitivamente ia arranjar-lhe uma casa e
p-la ao abrigo da misria. Na Gvea ainda falamos da Marocas, at que as
festas acabaram, e ns voltamos. O Andrade deixou a famlia em casa, na Lapa, e
foi ao escritrio aviar alguns papis urgentes. Pouco depois do meio-dia
apareceu-lhe um tal Leandro, ex-agente de certo advogado a pedir-lhe, como de
costume, dois ou trs mil-ris. Era um sujeito reles e vadio. Vivia a explorar
os amigos do antigo patro. Andrade deu-lhe trs mil-ris, e, como o visse
excepcionalmente risonho, perguntou-lhe se tinha visto passarinho verde. O
Leandro piscou os olhos e lambeu os beios: o Andrade, que dava o cavaco por
anedotas erticas, perguntou-lhe se eram amores. Ele mastigou um pouco, e
confessou que sim.

 Olhe; l vem ela saindo; no  ela?

 Ela mesma: afastemo-nos da esquina.

 Realmente, deve ter sido muito bonita. Tem um ar de
duquesa.

 No olhou para c; no olha nunca para os lados. Vai
subir pela Rua do Ouvidor...

 Sim, senhor. Compreendo o Andrade.

 Vamos ao caso. O Leandro confessou que tivera na vspera
uma fortuna rara, ou antes nica, uma coisa que ele nunca esperara achar, nem
merecia mesmo, porque se conhecia e no passava de um pobre-diabo. Mas, enfim,
os pobres tambm so filhos de Deus. Foi o caso que, na vspera, perto das dez
horas da noite, encontrara no Rocio uma dama vestida com simplicidade, vistosa
de corpo, e muito embrulhada num xale grande. A dama vinha atrs dele, e mais
depressa; ao passar rentezinha com ele, fitou-lhe muito os olhos, e foi andando
devagar, como quem espera. O pobre-diabo imaginou que era engano de pessoa;
confessou ao Andrade que, apesar da roupa simples, viu logo que no era coisa
para os seus beios. Foi andando; a mulher, parada, fitou-o outra vez, mas com
tal instncia, que ele chegou atrever-se um pouco; ela atreveu-se o resto...
Ah! um anjo! E que casa, que sala rica! Coisa papa-fina. E depois o
desinteresse... 'Olhe, acrescentou ele, para V. Sa  que era um
bom arranjo'. Andrade abanou a cabea; no lhe cheirava o comboro. Mas o
Leandro teimou; era na Rua do Sacramento, nmero tantos...

 No me diga isso!

 Imagine como no ficou o Andrade. Ele mesmo no soube o
que fez nem o que disse durante os primeiros minutos, nem o que pensou nem o
que sentiu. Afinal teve fora para perguntar se era verdade o que estava
contando; mas o outro advertiu que no tinha nenhuma necessidade de inventar
semelhante coisa; vendo, porm, o alvoroo do Andrade, pediu-lhe segredo, dizendo
que ele, pela sua parte, era discreto. Parece que ia sair; Andrade deteve-o, e
props-lhe um negcio; props-lhe ganhar vinte mil-ris.
'Pronto!'  'Dou-lhe vinte mil-ris, se voc for comigo  casa
dessa moa e disser em presena dela que  ela mesma'.

 Oh!

 No defendo o Andrade; a coisa no era bonita; mas a
paixo, nesse caso, cega os melhores homens. Andrade era digno, generoso,
sincero; mas o golpe fora to profundo, e ele amava-a tanto, que no recuou
diante de uma tal vingana.

 O outro aceitou?

 Hesitou um pouco, estou que por medo, no por dignidade,
mas vinte mil-ris... Ps uma condio: no met-lo em barulhos... Marocas
estava na sala, quando o Andrade entrou. Caminhou para a porta, na inteno de
o abraar; mas o Andrade advertiu-a, com o gesto, que trazia algum. Depois,
fitando-a muito, fez entrar o Leandro; Marocas empalideceu.  ' esta
senhora?' perguntou ele.  'Sim, senhor', murmurou o Leandro com
voz sumida, porque h aes ainda mais ignbeis do que o prprio homem que as
comete. Andrade abriu a carteira com grande afetao, tirou uma nota de vinte
mil-ris e deu-lha; e, com a mesma afetao, ordenou-lhe que se retirasse. O
Leandro saiu. A cena que se seguiu, foi breve, mas dramtica. No a soube
inteiramente, porque o prprio Andrade  que me contou tudo, e, naturalmente,
estava to atordoado, que muita coisa lhe escapou. Ela no confessou nada; mas
estava fora de si, e, quando ele, depois de lhe dizer as coisas mais duras do
mundo, atirou-se para a porta, ela rojou-se-lhe aos ps, agarrou-lhe as mos,
lacrimosa, desesperada, ameaando matar-se; e ficou atirada ao cho, no patamar
da escada; ele desceu vertiginosamente e saiu.

 Na verdade, um sujeito reles, apanhado na rua;
provavelmente eram hbitos dela?

 No.

 No?


Oua o resto. De noite seriam oito horas, o Andrade veio  minha casa, e
esperou por mim. J me tinha procurado trs vezes. Fiquei estupefato, mas como
duvidar, se ele tivera a precauo de levar a prova at  evidncia? No lhe conto
o que ouvi, os planos de vingana, as exclamaes, os nomes que lhe chamou,
todo o estilo e todo o repertrio dessas crises. Meu conselho foi que a
deixasse; que, afinal, vivesse para a mulher e a filha, a mulher to boa, to
meiga... Ele concordava, mas tornava ao furor. Do furor passou  dvida; chegou
a imaginar que a Marocas, com o fim de o experimentar, inventara o artifcio e
pagara ao Leandro para vir dizer-lhe aquilo; e a prova  que o Leandro, no querendo
ele saber quem era, teimou e lhe disse a casa e o nmero. E agarrado a esta
inverossimilhana, tentava fugir  realidade; mas a realidade vinha,  a
palidez de Marocas, a alegria sincera do Leandro, tudo o que lhe dizia que a
aventura era certa. Creio at que ele arrependia-se de ter ido to longe.
Quanto a mim, cogitava na aventura, sem atinar com a explicao. To modesta!
maneiras to acanhadas!

 H uma frase de teatro que pode explicar a aventura, uma
frase de Augier, creio eu: 'a nostalgia da lama'.

 Acho que no; mas v ouvindo. s dez horas apareceu-nos
em casa uma criada de Marocas, uma preta forra, muito amiga da ama. Andava
aflita em procura do Andrade, porque a Marocas, depois de chorar muito,
trancada no quarto, saiu de casa sem jantar, e no voltara mais. Contive o
Andrade, cujo primeiro gesto foi para sair logo. A preta pedia-nos por tudo,
que fssemos descobrir a ama. 'No  costume dela sair?' perguntou o
Andrade com sarcasmo. Mas a preta disse que no era costume. 'Est
ouvindo?' bradou ele para mim. Era a esperana que de novo empolgara o
corao do pobre-diabo. 'E ontem?...' disse eu. A preta respondeu que
na vspera sim; mas no lhe perguntei mais nada, tive compaixo do Andrade,
cuja aflio crescia, e cujo pundonor ia cedendo diante do perigo. Samos em busca
da Marocas; fomos a todas as casas em que era possvel encontr-la; fomos 
polcia; mas a noite passou-se sem outro resultado. De manh voltamos 
polcia. O chefe ou um dos delegados, no me lembra, era amigo do Andrade, que
lhe contou da aventura a parte conveniente; alis a ligao do Andrade e da
Marocas era conhecida de todos os seus amigos. Pesquisou-se tudo; nenhum
desastre se dera durante a noite; as barcas da Praia Grande no viram cair ao
mar nenhum passageiro; as casas de armas no venderam nenhuma; as boticas
nenhum veneno. A polcia ps em campo todos os seus recursos, e nada. No lhe
digo o estado de aflio em que o pobre Andrade viveu durante essas longas
horas, porque todo o dia se passou em pesquisas inteis. No era s a dor de a
perder; era tambm o remorso, a dvida, ao menos, da conscincia, em presena
de um possvel desastre, que parecia justificar a moa. Ele perguntava-me, a
cada passo se no era natural fazer o que fez, no delrio da indignao, se eu
no faria a mesma coisa. Mas depois tornava a afirmar a aventura, e provava-me
que era verdadeira, com o mesmo ardor com que na vspera tentara provar que era
falsa; o que ele queria era acomodar a realidade ao sentimento da ocasio.

 Mas, enfim, descobriram a Marocas?

 Estvamos comendo alguma coisa, em um hotel, eram perto
de oito horas, quando recebemos notcia de um vestgio:  um cocheiro que
levara na vspera uma senhora para o Jardim Botnico, onde ela entrou em uma
hospedaria, e ficou. Nem acabamos o jantar; fomos no mesmo carro ao Jardim
Botnico. O dono da hospedaria confirmou a verso; acrescentando que a pessoa
se recolhera a um quarto, no comera nada desde que chegou na vspera; apenas
pediu uma xcara de caf; parecia profundamente abatida. Encaminhamo-nos para o
quarto, o dono da hospedaria bateu  porta; ela respondeu com voz fraca, e
abriu. O Andrade nem me deu tempo de preparar nada; empurrou-me, e caram nos
braos um do outro. Marocas chorou muito e perdeu os sentidos.

 Tudo se explicou?

 Coisa nenhuma. Nenhum deles tornou ao assunto; livres de
um naufrgio, no quiseram saber nada da tempestade que os meteu a pique. A
reconciliao fez-se depressa. O Andrade comprou-lhe, meses depois, uma casinha
em Catumbi; a Marocas deu-lhe um filho, que morreu de dois anos. Quando ele
seguiu para o Norte, em comisso do governo, a afeio era ainda a mesma, posto
que os primeiros ardores no tivessem j a mesma intensidade. No obstante, ela
quis ir tambm; fui eu que a obriguei a ficar. O Andrade contava tornar ao fim
de pouco tempo, mas, como lhe disse, morreu na provncia. A Marocas sentiu
profundamente a morte, ps luto, e considerou-se viva; sei que nos trs
primeiros anos, ouvia sempre uma missa no dia aniversrio. H dez anos perdi-a
de vista. Que lhe parece tudo isto?

 Realmente, h ocorrncias bem singulares, se o senhor
no abusou da minha ingenuidade de rapaz para imaginar um romance...

 No inventei nada;  a realidade pura.

 Pois, senhor,  curioso. No meio de uma paixo to
ardente, to sincera... Eu ainda estou na minha; acho que foi a nostalgia da
lama.

 No: nunca a Marocas desceu at os Leandros.

 Ento por que desceria naquela noite?

 Era um homem que ela supunha separado, por um abismo, de
todas as suas relaes pessoais; da a confiana. Mas o acaso, que  um deus e
um diabo ao mesmo tempo. . . Enfim, coisas!

GALERIA PSTUMA

NDICE

CAPTULO
PRIMEIRO

CAPTULO II

CAPTULO PRIMEIRO

No, no se descreve a consternao que produziu em todo o
Engenho Velho, e particularmente no corao dos amigos, a morte de Joaquim Fidlis.
Nada mais inesperado. Era robusto, tinha sade de ferro, e ainda na vspera
fora a um baile, onde todos o viram conversador e alegre. Chegou a danar, a
pedido de uma senhora sexagenria, viva de um amigo dele, que lhe tomou do
brao, e lhe disse:

 Venha c, venha c, vamos mostrar a estes crianolas
como  que os velhos so capazes de desbancar tudo.

Joaquim Fidlis protestou sorrindo; mas obedeceu e danou.
Eram duas horas quando saiu, embrulhando os seus sessenta anos numa capa
grossa,  estvamos em junho de 1879  metendo a calva na carapua, acendendo
um charuto e entrando lepidamente no carro.

No carro  possvel que cochilasse; mas, em casa, malgrado
a hora e o grande peso das plpebras, ainda foi  secretria, abriu uma gaveta,
tirou um de muitos folhetos manuscritos,  e escreveu durante trs ou quatro
minutos umas dez ou onze linhas. As ltimas palavras eram estas: 'Em suma,
baile chinfrim; uma velha gaiteira obrigou-me a danar uma quadrilha;  porta
um crioulo pediu-me as festas. Chinfrim!' Guardou o folheto, despiu-se
meteu-se na cama, dormiu e morreu.

Sim, a notcia consternou a todo o bairro. To amado que
ele era, com os modos bonitos que tinha, sabendo conversar com toda a gente, instrudo
com os instrudos, ignorante com os ignorantes, rapaz com os rapazes, e at
moa com as moas. E depois, muito servial, pronto a escrever cartas, a falar
a amigos, a concertar brigas, a emprestar dinheiro. Em casa dele reuniam-se 
noite alguns ntimos da vizinhana, e s vezes de outros bairros; jogavam o
voltarete ou o whist, falavam de poltica. Joaquim Fidlis tinha sido
deputado at  dissoluo da Cmara pelo Marqus de Olinda, em 1863. No
conseguindo ser reeleito, abandonou a vida pblica. Era conservador, nome que a
muito custo admitiu, por lhe parecer galicismo poltico. SAQUAREMA  o que ele
gostava de ser chamado. Mas abriu mo de tudo; parece at que nos ltimos
tempos desligou-se do prprio partido, e afinal da mesma opinio. H razes
para crer que, de certa data em diante, foi um profundo ctico e nada mais.

Era rico e letrado. Formara-se em direito no ano de 1842.
Agora no fazia nada e lia muito. No tinha mulheres em casa. Vivo desde a
primeira invaso da febre amarela, recusou contrair segundas npcias, com
grande mgoa de trs ou quatro damas, que nutriram essa esperana durante algum
tempo. Uma delas chegou a prorrogar perfidamente os seus belos cachos de 1845
at meados do segundo neto; outra, mais moa e tambm viva, pensou ret-lo com
algumas concesses, to generosas quo irreparveis. 'Minha querida
Leocdia, dizia ele nas ocasies em que ela insinuava a soluo conjugal, por
que no continuaremos assim mesmo? O mistrio  o encanto da vida'. Morava
com um sobrinho, o Benjamim, filho de uma irm, rfo desde tenra idade.
Joaquim Fidlis deu-lhe educao e f-lo estudar, at obter diploma de bacharel
em cincias jurdicas, no ano de 1877.

Benjamim ficou atordoado. No podia acabar de crer na
morte do tio. Correu ao quarto, achou o cadver na cama, frio, olhos abertos, e
um leve arregao irnico ao canto esquerdo da boca. Chorou muito e muito. No
perdia um simples parente, mas um pai, um pai terno, dedicado, um corao
nico. Benjamim enxugou, enfim, as lgrimas; e, porque lhe fizesse mal ver os
olhos abertos do morto, e principalmente o lbio arregaado, consertou-lhe
ambas as coisas. A morte recebeu assim a expresso trgica, mas a originalidade
da mscara perdeu-se.

 No me digam isto! bradava da a pouco um dos vizinhos,
Diogo Vilares, ao receber notcia do caso.

Diogo Vilares era um dos cinco principais familiares de
Joaquim Fidlis. Devia-lhe o emprego que exercia desde 1857. Veio ele; vieram
os outros quatro, logo depois, um a um, estupefatos, incrdulos. Primeiro
chegou o Elias Xavier, que alcanara por intermdio do finado, segundo se
dizia, uma comenda; depois entrou o Joo Brs, deputado que foi, no regmen das
suplncias, eleito com o influxo do Joaquim Fidlis. Vieram, enfim, o Fragoso e
o Galdino, que lhe no deviam diplomas, comendas nem empregos, mas outros
favores. Ao Galdino adiantou ele alguns poucos capitais, e ao Fragoso
arranjou-lhe um bom casamento... E morto! morto para todo sempre! De redor da
cama, fitavam o rosto sereno e recordavam a ltima festa, a do outro domingo,
to ntima, to expansiva! E, mais perto ainda, a noite da antevspera, em que
o voltarete do costume foi at s onze horas.

 Amanh no venham, disse-lhes o Joaquim Fidlis; vou ao
baile do Carvalhinho.

 E depois?...

 Depois de amanh, c estou.

E,  sada, deu-lhes ainda um mao de excelentes charutos,
segundo fazia s vezes, com um acrscimo de doces secos para os pequenos, e
duas ou trs pilhrias finas... Tudo esvado! tudo disperso! tudo acabado!

Ao enterro acudiram muitas pessoas gradas, dois senadores,
um ex-ministro, titulares, capitalistas, advogados, comerciantes, mdicos; mas
as argolas do caixo foram seguras pelos cinco familiares e o Benjamim. Nenhum
deles quis ceder a ningum esse ltimo obsquio, considerando que era um dever
cordial e intransfervel. O adeus do cemitrio foi proferido pelo Joo Brs, um
adeus tocante, com algum excesso de estilo para um caso to urgente, mas,
enfim, desculpvel. Deitada a p de terra, cada um se foi arredando da cova,
menos os seis, que assistiram ao trabalho posterior e indiferente dos coveiros.
No arredaram p antes de ver cheia a cova at acima, e depositadas sobre ela
as coroas fnebres.

CAPTULO II

A missa do stimo dia reuniu-os na igreja. Acabada a
missa, os cinco amigos acompanharam  casa o sobrinho do morto. Benjamim
convidou-os a almoar.

 Espero que os amigos do tio Joaquim sero tambm meus
amigos, disse ele.

Entraram, almoaram. Ao almoo falaram do morto; cada um
contou uma anedota, um dito; eram unnimes no louvor e nas saudades. No fim do
almoo, como tivessem pedido uma lembrana do finado, passaram ao gabinete, e
escolheram  vontade, este uma caneta velha, aquele uma caixa de culos, um
folheto, um retalho qualquer ntimo. Benjamim sentia-se consolado.
Comunicou-lhes que pretendia conservar o gabinete tal qual estava. Nem a
secretria abrira ainda. Abriu-a ento, e, com eles, inventariou o contedo de
algumas gavetas. Cartas, papis soltos, programas de concertos, menus de
grandes jantares, tudo ali estava de mistura e confuso. Entre outras coisas
acharam alguns cadernos manuscritos, numerados e datados.

 Um dirio! disse Benjamim.

Com efeito, era um dirio das impresses do finado,
espcie de memrias secretas, confidncias do homem a si mesmo. Grande foi a
comoo dos amigos; l-lo era ainda convers-lo. To reto carter! to discreto
esprito! Benjamim comeou a leitura; mas a voz embargou-se-lhe depressa, e
Joo Brs continuou-a.

O interesse do escrito adormeceu a dor do bito. Era um
livro digno do prelo. Muita observao poltica e social, muita reflexo
filosfica, anedotas de homens pblicos, do Feij, do Vasconcelos, outras
puramente galantes, nomes de senhoras, o da Leocdia, entre outros; um
repertrio de fatos e comentrios. Cada um admirava o talento do finado, as
graas do estilo, o interesse da matria. Uns opinavam pela impresso
tipogrfica; Benjamim dizia que sim, com a condio de excluir alguma coisa, ou
inconveniente ou demasiado particular. E continuavam a ler, saltando pedaos e
pginas, at que bateu meio-dia. Levantaram-se todos; Diogo Vilares ia j
chegar  repartio fora de horas; Joo Brs e Elias tinham onde estar juntos.
Galdino seguia para a loja. O Fragoso precisava mudar a roupa preta, e
acompanhar a mulher  Rua do Ouvidor. Concordaram em nova reunio para
prosseguir na leitura. Certas particularidades tinham-lhes dado uma comicho de
escndalo, e as comiches coam-se:  o que eles queriam fazer, lendo.

 At amanh, disseram.

 At amanh.

Uma vez s, Benjamim continuou a ler o manuscrito. Entre
outras coisas, admirou o retrato da viva Leocdia, obra-prima de pacincia e
semelhana, embora a data coincidisse com a dos amores. Era prova de uma rara
iseno de esprito. De resto, o finado era exmio nos retratos. Desde 1873 ou
1874, os cadernos vinham cheios deles, uns de vivos, outros de mortos, alguns
de homens pblicos, Paula Sousa, Aureliano, Olinda, etc. Eram curtos e
substanciais, s vezes trs ou quatro rasgos firmes, com tal fidelidade e
perfeio, que a figura parecia fotografada. Benjamim ia lendo; de repente deu
com o Diogo Vilares. E leu estas poucas linhas:

DIOGO VILARES.  Tenho-me referido muitas vezes a este amigo,
e f-lo-ei algumas outras mais, se ele me no matar de tdio, coisa em que o
reputo profissional. Pediu-me h anos que lhe arranjasse um emprego,
arranjei-lho. No me avisou da moeda em que me pagaria. Que singular gratido!
Chegou ao excesso de compor um soneto e public-lo. Falava-me do obsquio a
cada passo, dava-me grandes nomes; enfim, acabou. Mais tarde relacionamo-nos
intimamente. Conheci-o ento ainda melhor. C'est le genre ennuyeux. No
 mau parceiro de voltarete. Dizem-me que no deve nada a ningum. Bom pai de
famlia. Estpido e crdulo. Com intervalo de quatro dias, j lhe ouvi dizer de
um ministrio que era excelente e detestvel:  diferena dos interlocutores.
Ri muito e mal. Toda a gente, quando o v pela primeira vez, comea por sup-lo
um varo grave; no segundo dia d-lhe piparotes. A razo  a figura, ou, mais
particularmente, as bochechas, que lhe emprestam um certo ar superior.

A primeira sensao do Benjamim foi a do perigo evitado.
Se o Diogo Vilares estivesse ali? Releu o retrato e mal podia crer; mas no
havia neg-lo, era o prprio nome do Diogo Vilares, era a mesma letra do tio. E
no era o nico dos familiares; folheou o manuscrito e deu com o Elias:

ELIAS XAVIER.  Este Elias  um esprito subalterno,
destinado a servir algum, e a servir com desvanecimento, como os cocheiros de
casa elegante. Vulgarmente trata as minhas visitas ntimas com alguma
arrogncia e desdm: poltica de lacaio ambicioso. Desde as primeiras semanas,
compreendi que ele queria fazer-se meu privado; e no menos compreendi que, no
dia que realmente o fosse, punha os outros no meio da rua. H ocasies em que
me chama a um vo da janela para falar-me secretamente do sol e da chuva. O fim
claro  incutir nos outros a suspeita de que h entre ns coisas particulares,
e alcana isso mesmo, porque todos lhe rasgam muitas cortesias.  inteligente,
risonho e fino. Conversa muito bem. No conheo compreenso mais rpida. No 
poltro nem maldizente. S fala mal de algum, por interesse; faltando-lhe interesse,
cala-se; e a maledicncia legtima  gratuita. Dedicado e insinuante. No tem
idias,  verdade; mas h esta grande diferena entre ele e o Diogo Vilares: 
o Diogo repete pronta e boalmente as que ouve, ao passo que o Elias sabe
faz-las suas e plant-las oportunamente na conversao. Um caso de 1865
caracteriza bem a astcia deste homem. Tendo dado alguns libertos para a guerra
do Paraguai, ia receber uma comenda. No precisava de mim; mas veio pedir a
minha intercesso, duas ou trs vezes, com um ar consternado e splice. Falei
ao ministro, que me disse:  'O Elias j sabe que o decreto est lavrado;
falta s a assinatura do imperador'. Compreendi ento que era um
estratagema para poder confessar-me essa obrigao. Bom parceiro de voltarete;
um pouco brigo, mas entendido.

 Ora o tio Joaquim! exclamou Benjamim levantando-se. E
depois de alguns instantes, reflexionou consigo:  estou lendo um corao,
livro indito. Conhecia a edio pblica, revista a expurgada. Este  o texto
primitivo e interior, a lio exata e autntica. Mas quem imaginaria nunca...
Ora o tio Joaquim!

E, tornando a sentar-se, releu tambm o retrato do Elias,
com vagar, meditando as feies. Posto lhe faltasse observao, para avaliar a
verdade do escrito, achou que em muitas partes, ao menos, o retrato era
semelhante. Cotejava essas notas iconogrficas, to cruas, to secas, com as
maneiras cordiais e graciosas do tio, e sentia-se tomado de um certo terror e
mal-estar. Ele, por exemplo, que teria dito dele o finado? Com esta idia,
folheou ainda o manuscrito, passou por alto algumas damas, alguns homens
pblicos, deu com o Fragoso,  um esboo curto e curtssimo,  logo depois o
Galdino, e quatro pginas adiante o Joo Brs. Justamente o primeiro levara
dele uma caneta, pouco antes, talvez a mesma com que o finado o retratara.
Curto era o esboo, e dizia assim:

FRAGOSO.  Honesto, maneiras aucaradas e bonito. No me
custou cas-lo; vive muito bem com a mulher. Sei que me tem uma extraordinria
adorao,  quase tanta como a si mesmo. Conversao vulgar, polida e chocha.

GALDINO MADEIRA.  O melhor corao do mundo e um carter
sem mcula; mas as qualidades do esprito destroem as outras. Emprestei-lhe
algum dinheiro, por motivo da famlia, e porque me no fazia falta. H no
crebro dele um certo furo, por onde o esprito escorrega e cai no vcuo. No
reflete trs minutos seguidos. Vive principalmente de imagens, de frases
translatas. Os 'dentes da calnia' e outras expresses, surradas como
colches de hospedaria, so os seus encantos. Mortifica-se facilmente no jogo,
e, uma vez mortificado,  faz timbre em perder, e em mostrar que  de
propsito. No despede os maus caixeiros. Se no tivesse guarda-livros, 
duvidoso que somasse os quebrados. Um subdelegado, meu amigo, que lhe deveu
algum dinheiro, durante dois anos, dizia-me com muita graa, que o Galdino
quando o via na rua, em vez de lhe pedir a dvida, pedia-lhe notcias do
ministrio.

JOO BRS.  Nem tolo nem bronco. Muito atencioso, embora
sem maneiras. No pode ver passar um carro de ministro; fica plido e vira os
olhos. Creio que  ambicioso; mas na idade em que est, sem carreira, a ambio
vai-se-lhe convertendo em inveja. Durante os dois anos em que serviu de
deputado, desempenhou honradamente o cargo: trabalhou muito, e fez alguns
discursos bons, no brilhantes, mas slidos, cheios de fatos e refletidos. A
prova de que lhe ficou um resduo de ambio,  o ardor com que anda  cata de
alguns cargos honorficos ou preeminentes; h alguns meses consentiu em ser juiz
de uma irmandade de So Jos, e segundo me dizem, desempenha o cargo com um
zelo exemplar. Creio que  ateu, mas no afirmo. Ri pouco e discretamente. A
vida  pura e severa, mas o carter tem uma ou duas cordas fraudulentas, a que
s faltou a mo do artista; nas coisas mnimas, mente com facilidade.

Benjamim, estupefato, deu enfim consigo mesmo.

Este meu sobrinho, dizia o manuscrito, tem vinte e quatro
anos de idade, um projeto de reforma judiciria, muito cabelo, e ama-me. Eu no
o amo menos. Discreto, leal e bom,  bom at  credulidade. To firme nas
afeies como verstil nos pareceres. Superficial, amigo de novidades, amando
no direito o vocabulrio e as frmulas.

Quis reler, e no pde; essas poucas linhas davam-lhe a sensao
de um espelho. Levantou-se, foi  janela, mirou a chcara e tornou dentro para
contemplar outra vez as suas feies. Contemplou-as; eram poucas, falhas, mas
no pareciam caluniosas. Se ali estivesse um pblico,  provvel que a
mortificao do rapaz fosse menor, porque a necessidade de dissipar a impresso
moral dos outros dar-lhe-ia a fora necessria para reagir contra o escrito;
mas, a ss, consigo, teve de suport-lo sem contraste. Ento considerou se o
tio no teria composto essas pginas nas horas de mau humor; comparou-as a
outras em que a frase era menos spera, mas no cogitou se ali a brandura vinha
ou no de molde.

Para confirmar a conjetura, recordou as maneiras usuais do
finado, as horas de intimidade e riso, a ss com ele, ou de palestra com os
demais familiares. Evocou a figura do tio, com o olhar espirituoso e meigo, e a
pilhria grave; em lugar dessa, to cndida e simptica, a que lhe apareceu foi
a do tio morto, estendido na cama, com os olhos abertos, o lbio arregaado.
Sacudiu-a do esprito, mas a imagem ficou. No podendo rejeit-la, Benjamim
tentou mentalmente fechar-lhe os olhos e consertar-lhe a boca; mas no depressa
o fazia, como a plpebra tornava a levantar-se,  a ironia arregaava o
beio. J no era o homem, era o autor do manuscrito.

Benjamim jantou mal e dormiu mal. No dia seguinte, 
tarde, apresentaram-se os cinco familiares para ouvir a leitura. Chegaram
sfregos, ansiosos; fizeram-lhe muitas perguntas; pediram-lhe com instncia
para ver o manuscrito. Mas Benjamim tergiversava, dizia isto e aquilo,
inventava pretextos; por mal de pecados, apareceu-lhe na sala, por trs deles,
a eterna boca do defunto, e esta circunstncia f-lo ainda mais acanhado.
Chegou a mostrar-se frio, para ficar s, e ver se com eles desaparecia a viso.
Assim se passaram trinta a quarenta minutos. Os cinco olharam enfim uns para os
outros, e deliberaram sair; despediram-se cerimoniosamente, e foram
conversando, para suas casas:

 Que diferena do tio! que abismo! a herana enfunou-o! deix-lo!
Ah! Joaquim
Fidlis! Ah! Joaquim Fidlis!

CAPTULO DOS CHAPUS

GRONTE

Dans quel chapitre, s'il
vous plat?

SGANARELLE

Dans le chapitre des
chapeaux.

MOLIRE.

Musa, canta o despeito de Mariana, esposa do bacharel Conrado
Seabra, naquela manh de abril de 1879. Qual a causa de tamanho alvoroo? Um
simples chapu, leve, no deselegante, um chapu baixo. Conrado, advogado, com
escritrio na Rua da Quitanda, trazia-o todos os dias  cidade, ia com ele s
audincias; s no o levava s recepes, teatro lrico, enterros e visitas de
cerimnia. No mais era constante, e isto desde cinco ou seis anos, que tantos
eram os do casamento. Ora, naquela singular manh de abril, acabado o almoo,
Conrado comeou a enrolar um cigarro, e Mariana anunciou sorrindo que ia
pedir-lhe uma coisa.

 Que , meu anjo?

 Voc  capaz de fazer-me um sacrifcio?

 Dez, vinte...

 Pois ento no v mais  cidade com aquele chapu.

 Por qu?  feio?

 No digo que seja feio; mas  c para fora, para andar
na vizinhana,  tarde ou  noite, mas na cidade, um advogado, no me parece
que...

 Que tolice, iai!

 Pois sim, mas faz-me este favor, faz?

Conrado riscou um fsforo, acendeu o cigarro, e fez-lhe um
gesto de gracejo, para desconversar; mas a mulher teimou. A teima, a princpio
frouxa e splice, tornou-se logo imperiosa e spera. Conrado ficou espantado.
Conhecia a mulher; era, de ordinrio, uma criatura passiva, meiga, de uma
plasticidade de encomenda, capaz de usar com a mesma divina indiferena tanto
um diadema rgio como uma touca. A prova  que, tendo tido uma vida de
andarilha nos ltimos dois anos de solteira, to depressa casou como se afez
aos hbitos quietos. Saa s vezes, e a maior parte delas por instncias do
prprio consorte; mas s estava comodamente em casa. Mveis, cortinas, ornatos
supriam-lhe os filhos; tinha-lhes um amor de me; e tal era a concordncia da
pessoa com o meio, que ela saboreava os trastes na posio ocupada, as cortinas
com as dobras do costume, e assim o resto. Uma das trs janelas, por exemplo,
que davam para a rua vivia sempre meia aberta; nunca era outra. Nem o gabinete
do marido escapava s exigncias montonas da mulher, que mantinha sem
alterao a desordem dos livros, e at chegava a restaur-la. Os hbitos
mentais seguiam a mesma uniformidade. Mariana dispunha de mui poucas noes, e
nunca lera seno os mesmos livros:  a Moreninha de Macedo, sete vezes; Ivanho
e o Pirata de Walter Scott, dez vezes; o Mot de l'nigme, de Madame
Craven, onze vezes.

Isto posto, como explicar o caso do chapu? Na vspera, 
noite, enquanto o marido fora a uma sesso do Instituto da Ordem dos Advogados,
o pai de Mariana veio  casa deles. Era um bom velho, magro, pausado,
ex-funcionrio pblico, ralado de saudades do tempo em que os empregados iam de
casaca para as suas reparties. Casaca era o que ele, ainda agora, levava aos
enterros, no pela razo que o leitor suspeita, a solenidade da morte ou a
gravidade da despedida ltima, mas por esta menos filosfica, por ser um
costume antigo. No dava outra, nem da casaca nos enterros, nem do jantar s
duas horas, nem de vinte usos mais. E to aferrado aos hbitos, que no
aniversrio do casamento da filha, ia para l s seis horas da tarde, jantado e
digerido, via comer, e no fim aceitava um pouco de doce, um clice de vinho e
caf. Tal era o sogro de Conrado; como supor que ele aprovasse o chapu baixo
do genro? Suportava-o calado, em ateno s qualidades da pessoa; nada mais.
Acontecera-lhe, porm, naquele dia, v-lo de relance na rua, de palestra com
outros chapus altos de homens pblicos, e nunca lhe pareceu to torpe. De
noite, encontrando a filha sozinha, abriu-lhe o corao; pintou-lhe o chapu
baixo como a abominao das abominaes, e instou com ela para que o fizesse
desterrar.

Conrado ignorava essa circunstncia, origem do pedido.
Conhecendo a docilidade da mulher, no entendeu a resistncia; e, porque era
autoritrio, e voluntarioso, a teima veio irrit-lo profundamente. Conteve-se
ainda assim; preferiu mofar do caso; falou-lhe com tal ironia e desdm, que a
pobre dama sentiu-se humilhada. Mariana quis levantar-se duas vezes; ele
obrigou-a a ficar, a primeira pegando-lhe levemente no pulso, a segunda subjugando-a
com o olhar. E dizia sorrindo:

 Olhe, iai, tenho uma razo filosfica para no fazer o
que voc me pede. Nunca lhe disse isto; mas j agora confio-lhe tudo.

Mariana mordia o lbio, sem dizer mais nada; pegou de uma
faca, e entrou a bater com ela devagarinho para fazer alguma coisa; mas, nem
isso mesmo consentiu o marido, que lhe tirou a faca delicadamente, e continuou:

 A escolha do chapu no  uma ao indiferente, como
voc pode supor;  regida por um princpio metafsico. No cuide que quem
compra um chapu exerce uma ao voluntria e livre; a verdade  que obedece a
um determinismo obscuro. A iluso da liberdade existe arraigada nos
compradores, e  mantida pelos chapeleiros que, ao verem um fregus ensaiar
trinta ou quarenta chapus, e sair sem comprar nenhum, imaginam que ele est
procurando livremente uma combinao elegante. O princpio metafsico  este: 
o chapu  a integrao do homem, um prolongamento da cabea, um complemento
decretado ab eterno ningum o pode trocar sem mutilao.  uma questo
profunda que ainda no ocorreu a ningum. Os sbios tm estudado tudo desde o
astro at o verme, ou, para exemplificar bibliograficamente, desde Laplace...
Voc nunca leu Laplace? desde Laplace e a Mecnica Celeste at Darwin e
o seu curioso livro das Minhocas, e, entretanto, no se lembraram ainda
de parar diante do chapu e estud-lo por todos os lados. Ningum advertiu que
h uma metafsica do chapu. Talvez eu escreva uma memria a este respeito. So
nove horas e trs quartos; no tenho tempo de dizer mais nada; mas voc reflita
consigo, e ver... Quem sabe? pode ser at que nem mesmo o chapu seja
complemento do homem, mas o homem do chapu...

Mariana venceu-se afinal, e deixou a mesa. No entendera nada
daquela nomenclatura spera nem da singular teoria; mas sentiu que era um
sarcasmo, e, dentro de si, chorava de vergonha. O marido subiu para vestir-se;
desceu da a alguns minutos, e parou diante dela com o famoso chapu na cabea.
Mariana achou-lho, na verdade, torpe, ordinrio, vulgar, nada srio. Conrado
despediu-se cerimoniosamente e saiu.

A irritao da dama tinha afrouxado muito; mas, o
sentimento de humilhao subsistia. Mariana no chorou, no clamou, como
supunha que ia fazer; mas, consigo mesma, recordou a simplicidade do pedido, os
sarcasmos de Conrado, e, posto reconhecesse que fora um pouco exigente, no
achava justificao para tais excessos. Ia de um lado para outro, sem poder
parar; foi  sala de visitas, chegou  janela meia aberta, viu ainda o marido,
na rua,  espera do bond, de costas para casa, com o eterno e torpssimo
chapu na cabea. Mariana sentiu-se tomada de dio contra essa pea ridcula;
no compreendia como pudera suport-la por tantos anos. E relembrava os anos,
pensava na docilidade dos seus modos, na aquiescncia a todas as vontades e
caprichos do marido, e perguntava a si mesma se no seria essa justamente a
causa do excesso daquela manh. Chamava-se tola, moleirona; se tivesse feito
como tantas outras, a Clara e a Sofia, por exemplo, que tratavam os maridos
como eles deviam ser tratados, no lhe aconteceria nem metade, nem uma sombra
do que lhe aconteceu. De reflexo em reflexo, chegou  idia de sair.
Vestiu-se, e foi  casa da Sofia, uma antiga companheira de colgio, com o fim
de espairecer, no de lhe contar nada.

Sofia tinha trinta anos, mais dois que Mariana. Era alta,
forte, muito senhora de si. Recebeu a amiga com as festas do costume; e, posto que
esta lhe no dissesse nada, adivinhou que trazia um desgosto e grande. Adeus,
planos de Mariana! Da a vinte minutos contava-lhe tudo. Sofia riu dela,
sacudiu os ombros; disse-lhe que a culpa no era do marido.

 Bem sei,  minha, concordava Mariana.

 No seja tola, iai! Voc tem sido muito mole com ele.
Mas seja forte uma vez; no faa caso; no lhe fale to cedo; e se ele vier
fazer as pazes, diga-lhe que mude primeiro de chapu.

 Veja voc, uma coisa de nada...

 No fim de contas, ele tem muita razo; tanta como
outros. Olhe a pamonha da Beatriz; no foi agora para a roa, s porque o
marido implicou com um ingls que costumava passar a cavalo de tarde? Coitado
do ingls! Naturalmente nem deu pela falta. A gente pode viver bem com seu marido,
respeitando-se, no indo contra os desejos um do outro, sem pirraas, nem
despotismo. Olhe; eu c vivo muito bem com o meu Ricardo; temos muita harmonia.
No lhe peo uma coisa que ele me no faa logo; mesmo quando no tem vontade
nenhuma, basta que eu feche a cara, obedece logo. No era ele que teimaria
assim por causa de um chapu! Tinha que ver! Pois no! Onde iria ele parar!
Mudava de chapu, quer quisesse, quer no.

Mariana ouvia com inveja essa bela definio do sossego
conjugal. A rebelio de Eva embocava nela os seus clarins; e o contato da amiga
dava-lhe um prurido de independncia e vontade. Para completar a situao, esta
Sofia no era s muito senhora de si, mas tambm dos outros; tinha olhos para
todos os ingleses, a cavalo ou a p. Honesta, mas namoradeira; o termo  cru, e
no h tempo de compor outro mais brando. Namorava a torto e a direito, por uma
necessidade natural, um costume de solteira. Era o troco mido do amor, que ela
distribua a todos os pobres que lhe batiam  porta:  um nquel a um, outro a
outro; nunca uma nota de cinco mil-ris, menos ainda uma aplice. Ora este
sentimento caritativo induziu-a a propor  amiga que fossem passear, ver as
lojas, contemplar a vista de outros chapus bonitos e graves. Mariana aceitou;
um certo demnio soprava nela as frias da vingana. Demais, a amiga tinha o
dom de fascinar, virtude de Bonaparte, e no lhe deu tempo de refletir. Pois
sim, iria, estava cansada de viver cativa. Tambm queria gozar um pouco, etc.,
etc.

Enquanto Sofia foi vestir-se, Mariana deixou-se estar na
sala, irrequieta e contente consigo mesma. Planeou a vida de toda aquela
semana, marcando os dias e horas de cada coisa, como numa viagem oficial.
Levantava-se, sentava-se, ia  janela,  espera da amiga.

 Sofia parece que morreu, dizia de quando em quando.

De uma das vezes que foi  janela, viu passar um rapaz a
cavalo. No era ingls, mas lembrou-lhe a outra, que o marido levou para a
roa, desconfiado de um ingls, e sentiu crescer-lhe o dio contra a raa masculina
 com exceo, talvez, dos rapazes a cavalo. Na verdade, aquele era afetado
demais; esticava a perna no estribo com evidente vaidade das botas, dobrava a
mo na cintura, com um ar de figurino. Mariana notou-lhe esses dois defeitos;
mas achou que o chapu resgatava-os; no que fosse um chapu alto; era baixo,
mas prprio do aparelho eqestre. No cobria a cabea de um advogado indo
gravemente para o escritrio, mas a de um homem que espairecia ou matava o
tempo.

Os taces de Sofia desceram a escada, compassadamente.
Pronta! disse ela da a pouco, ao entrar na sala. Realmente, estava bonita. J
sabemos que era alta. O chapu aumentava-lhe o ar senhoril; e um diabo de
vestido de seda preta, arredondando-lhe as formas do busto, fazia-a ainda mais vistosa.
Ao p dela, a figura de Mariana desaparecia um pouco. Era preciso atentar
primeiro nesta para ver que possua feies mui graciosas, uns olhos lindos,
muita e natural elegncia. O pior  que a outra dominava desde logo; e onde
houvesse pouco tempo de as ver, tomava-o Sofia para si. Este reparo seria
incompleto, se eu no acrescentasse que Sofia tinha conscincia da
superioridade, e que apreciava por isso mesmo as belezas do
gnero Mariana, menos derramadas e aparentes. Se  um defeito, no me compete
emend-lo.

 Onde vamos ns? perguntou Mariana.

 Que tolice! vamos passear  cidade... Agora me lembro,
vou tirar o retrato; depois vou ao dentista. No; primeiro vamos ao dentista.
Voc no precisa de ir ao dentista?

 No.

 Nem tirar o retrato?

 J tenho muitos. E para qu? para d-lo 'quele
senhor'?

Sofia compreendeu que o ressentimento da amiga persistia,
e, durante o caminho, tratou de lhe pr um ou dois bagos mais de pimenta.
Disse-lhe que, embora fosse difcil, ainda era tempo de libertar-se. E
ensinava-lhe um mtodo para subtrair-se  tirania. No convinha ir logo de um
salto, mas devagar, com segurana, de maneira que ele desse por si quando ela
lhe pusesse o p no pescoo. Obra de algumas semanas, trs a quatro, no mais.
Ela, Sofia, estava pronta a ajud-la. E repetia-lhe que no fosse mole, que no
era escrava de ningum, etc. Mariana ia cantando dentro do corao a marselhesa
do matrimnio.

Chegaram  Rua do Ouvidor. Era pouco mais do meio-dia.
Muita gente, andando ou parada, o movimento do costume. Mariana sentiu-se um
pouco atordoada, como sempre lhe acontecia. A uniformidade e a placidez, que
eram o fundo do seu carter e de sua vida, receberam daquela agitao os
repeles do costume. Ela mal podia andar por entre os grupos, menos ainda sabia
onde fixasse os olhos, tal era a confuso das gentes, tal era a variedade das
lojas. Conchegava-se muito  amiga, e, sem reparar que tinham passado a casa do
dentista, ia ansiosa de l entrar. Era um repouso; era alguma coisa melhor do
que o tumulto.

 Esta Rua do Ouvidor! ia dizendo.

 Sim? respondia Sofia, voltando a cabea para ela e os
olhos para um rapaz que estava na outra calada.

Sofia, prtica daqueles mares, transpunha, rasgava ou
contornava as gentes com muita percia e tranqilidade. A figura impunha; os
que a conheciam gostavam de v-la outra vez; os que no a conheciam paravam ou
voltavam-se para admirar-lhe o garbo. E a boa senhora, cheia de caridade,
derramava os olhos  direita e  esquerda, sem grande escndalo, porque Mariana
servia a coonestar os movimentos. Nada dizia seguidamente; parece at que mal
ouvia as respostas da outra: mas falava de tudo, de outras damas,  que iam
ou vinham, de uma loja, de um chapu... Justamente os chapus,  de senhora ou
de homem,  abundavam naquela primeira hora da Rua do Ouvidor.

 Olha este, dizia-lhe Sofia.

E Mariana acudia a v-los, femininos ou masculinos, sem
saber onde ficar, porque os demnios dos chapus sucediam-se como num
caleidoscpio. Onde era o dentista? perguntava ela  amiga. Sofia s  segunda
vez lhe respondeu que tinham passado a casa; mas j agora iriam at ao fim da
rua; voltariam depois. Voltaram finalmente.

 Uf! respirou Mariana entrando no corredor.

 Que , meu Deus? Ora voc! Parece da roa...

A sala do dentista tinha j algumas freguesas. Mariana no
achou entre elas uma s cara conhecida, e para fugir ao exame das pessoas
estranhas, foi para a janela. Da janela podia gozar a rua, sem atropelo. Recostou-se;
Sofia veio ter com ela. Alguns chapus masculinos, parados, comearam a
fit-las; outros, passando, faziam a mesma coisa. Mariana aborreceu-se da
insistncia; mas, notando que fitavam principalmente a amiga, dissolveu-se-lhe
o tdio numa espcie de inveja. Sofia, entretanto, contava-lhe a histria de
alguns chapus,  ou, mais corretamente, as aventuras. Um deles merecia os
pensamentos de Fulana; outro andava derretido por Sicrana, e ela por ele, tanto
que eram certos na Rua do Ouvidor s quartas e sbados, entre duas e trs
horas. Mariana ouvia aturdida. Na verdade, o chapu era bonito, trazia uma
linda gravata, e possua um ar entre elegante e pelintra, mas...

 No juro, ouviu? replicava a outra, mas  o que se diz.

Mariana fitou pensativa o chapu denunciado. Havia agora
mais trs, de igual porte e graa, e provavelmente os quatro falavam delas, e
falavam bem. Mariana enrubesceu muito, voltou a cabea para o outro lado,
tornou logo  primeira atitude, e afinal entrou. Entrando, viu na sala duas
senhoras recm-chegadas, e com elas um rapaz que se levantou prontamente e veio
cumpriment-la com muita cerimnia. Era o seu primeiro namorado.

Este primeiro namorado devia ter agora trinta e trs anos.
Andara por fora, na roa, na Europa, e afinal na presidncia de uma provncia
do sul. Era mediano de estatura, plido, barba inteira e rara, e muito apertado
na roupa. Tinha na mo um chapu novo, alto, preto, grave, presidencial,
administrativo, um chapu adequado  pessoa e s ambies. Mariana, entretanto,
mal pde v-lo. To confusa ficou, to desorientada com a presena de um homem
que conhecera em especiais circunstncias, e a quem no vira desde 1877, que
no pde reparar em nada. Estendeu-lhe os dedos, parece mesmo que murmurou uma
resposta qualquer, e ia tornar  janela, quando a amiga saiu dali.

Sofia conhecia tambm o recm-chegado. Trocaram algumas
palavras. Mariana, impaciente, perguntou-lhe ao ouvido se no era melhor adiar
os dentes para outro dia; mas a amiga disse-lhe que no; negcio de meia hora a
trs quartos. Mariana sentia-se opressa: a presena de um tal homem atava-lhe
os sentidos, lanava-a na luta e na confuso. Tudo culpa do marido. Se ele no
teimasse e no caoasse com ela, ainda em cima, no aconteceria nada. E
Mariana, pensando assim, jurava tirar uma desforra. De memria contemplava a
casa, to sossegada, to bonitinha, onde podia estar agora, como de costume,
sem os safanes da rua, sem a dependncia da amiga...

 Mariana, disse-lhe esta, o Dr. Vioso teima que est
muito magro. Voc no acha que est mais gordo do que no ano passado... No se
lembra dele no ano passado?

Dr. Vioso era o prprio namorado antigo, que palestrava
com Sofia, olhando muitas vezes para Mariana. Esta respondeu negativamente. Ele
aproveitou a fresta para pux-la  conversao; disse que, na verdade, no a
vira desde alguns anos. E sublinhava o dito com um certo olhar triste e
profundo. Depois abriu o estojo dos assuntos, sacou para fora o teatro lrico.
Que tal achavam a companhia? Na opinio dele era excelente, menos o bartono; o
bartono parecia-lhe cansado. Sofia protestou contra o cansao do bartono, mas
ele insistiu, acrescentando que, em Londres, onde o ouvira pela primeira vez,
j lhe parecera a mesma coisa. As damas, sim, senhora; tanto a soprano como a
contralto eram de primeira ordem. E falou das peras, citava os trechos,
elogiou a orquestra, principalmente nos Huguenotes... Tinha visto
Mariana na ltima noite, no quarto ou quinto camarote da esquerda, no era
verdade?

 Fomos, murmurou ela, acentuando bem o plural.

 No Cassino  que a no tenho visto, continuou ele.

 Est ficando um bicho do mato, acudiu Sofia rindo.

Vioso gostara muito do ltimo baile, e desfiou as suas
recordaes; Sofia fez o mesmo s dela. As melhores toilettes foram
descritas por ambos com muita particularidade; depois vieram as pessoas, os
caracteres, dois ou trs picos de malcia; mas to andina, que no fez mal a
ningum. Mariana ouvia-os sem interesse; duas ou trs vezes chegou a
levantar-se e ir  janela; mas os chapus eram tantos e to curiosos, que ela
voltava a sentar-se. Interiormente, disse alguns nomes feios  amiga; no os
ponho aqui por no serem necessrios, e, alis, seria de mau gosto desvendar o
que esta moa pde pensar da outra durante alguns minutos de irritao.

 E as corridas do Jockey Club? perguntou o ex-presidente.

Mariana continuava a abanar a cabea. No tinha ido s
corridas naquele ano. Pois perdera muito, a penltima, principalmente; esteve
animadssima, e os cavalos eram de primeira ordem. As de Epsom, que ele vira,
quando esteve em Inglaterra, no eram melhores do que a penltima do Prado
Fluminense. E Sofia dizia que sim, que realmente a penltima corrida honrava o
Jockey Club. Confessou que gostava muito; dava emoes fortes. A conversao
descambou em dois concertos daquela semana; depois tomou a barca, subiu a serra
e foi a Petrpolis, onde dois diplomatas lhe fizeram as despesas da estada.
Como falassem da esposa de um ministro, Sofia lembrou-se de ser agradvel ao
ex-presidente, declarando-lhe que era preciso casar tambm porque em breve
estaria no ministrio. Vioso teve um estremeo de prazer, e sorriu, e
protestou que no; depois, com os olhos em Mariana, disse que provavelmente no
casaria nunca... Mariana enrubesceu muito e levantou-se.

 Voc est com muita pressa, disse-lhe Sofia. Quantas
so? continuou voltando-se para Vioso.

 Perto de trs! exclamou ele.

Era tarde; tinha de ir  Cmara dos Deputados. Foi falar
s duas senhoras, que acompanhara, e que eram primas suas, e despediu-se; vinha
despedir-se das outras, mas Sofia declarou que sairia tambm. J agora no
esperava mais. A verdade  que a idia de ir  Cmara dos Deputados comeara a
faiscar-lhe na cabea.

 Vamos  Cmara? props ela  outra.

 No, no, disse Mariana; no posso, estou muito cansada.

 Vamos, um bocadinho s; eu tambm estou muito cansada...

Mariana teimou ainda um pouco; mas teimar contra Sofia, 
a pomba discutindo com o gavio,  era realmente insensatez. No teve remdio,
foi. A rua estava agora mais agitada, as gentes iam e vinham por ambas as
caladas, e complicavam-se no cruzamento das ruas. De mais a mais, o obsequioso
ex-presidente flanqueava as duas damas, tendo-se oferecido para arranjar-lhes
uma tribuna.

A alma de Mariana sentia-se cada vez mais dilacerada de
toda essa confuso de coisas. Perdera o interesse da primeira hora; e o
despeito, que lhe dera foras para um vo audaz e fugidio, comeava a afrouxar
as asas, ou afrouxara-as inteiramente. E outra vez recordava a casa, to
quieta, com todas as coisas nos seus lugares, metdicas, respeitosas umas com
as outras, fazendo-se tudo sem atropelo, e, principalmente, sem mudana imprevista.
E a alma batia o p, raivosa... No ouvia nada do que o Vioso ia dizendo,
conquanto ele falasse alto, e muitas coisas fossem ditas para ela. No ouvia,
no queria ouvir nada. S pedia a Deus que as horas andassem depressa. Chegaram
 Cmara e foram para uma tribuna. O rumor das saias chamou a ateno de uns
vinte deputados, que restavam, escutando um discurso de oramento. To depressa
o Vioso pediu licena e saiu, Mariana disse rapidamente  amiga que no lhe
fizesse outra.

 Que outra? perguntou Sofia.

 No me pregue outra pea como esta de andar de um lugar
para outro feito maluca. Que tenho eu com a Cmara? que me importam discursos
que no entendo?

Sofia sorriu, agitou o leque e recebeu em cheio o olhar de
um dos secretrios. Muitos eram os olhos que a fitavam quando ela ia  Cmara,
mas os do tal secretrio tinham uma expresso mais especial, clida e splice.
Entende-se, pois, que ela no o recebeu de supeto; pode mesmo entender-se que
o procurou curiosa. Enquanto acolhia esse olhar legislativo ia respondendo 
amiga, com brandura, que a culpa era dela, e que a sua inteno era boa, era
restituir-lhe a posse de si mesma.

 Mas, se voc acha que a aborreo no venha mais comigo,
concluiu Sofia.

E, inclinando-se um pouco:

 Olha o Ministro da Justia.

Mariana no teve remdio seno ver o Ministro da Justia.
Este agentava o discurso do orador, um governista, que provava a convenincia
dos tribunais correcionais, e, incidentemente, compendiava a antiga legislao
colonial. Nenhum aparte; um silncio resignado, polido, discreto e cauteloso.
Mariana passeava os olhos de um lado para outro, sem interesse; Sofia dizia-lhe
muitas coisas, para dar sada a uma poro de gestos graciosos. No fim de quinze
minutos agitou-se a Cmara, graas a uma expresso do orador e uma rplica da
oposio. Trocaram-se apartes, os segundos mais bravos que os primeiros, e
seguiu-se um tumulto, que durou perto de um quarto de hora.

Esta diverso no o foi para Mariana, cujo esprito
plcido e uniforme, ficou atarantado no meio de tanta e to inesperada
agitao. Ela chegou a levantar-se para sair; mas, sentou-se outra vez. J
agora estava disposta a ir ao fim, arrependida e resoluta a chorar s consigo
as suas mgoas conjugais. A dvida comeou mesmo a entrar nela. Tinha razo no
pedido ao marido; mas era caso de doer-se tanto? era razovel o espalhafato?
Certamente que as ironias dele foram cruis; mas, em suma, era a primeira vez que
ela lhe batera o p, e, naturalmente, a novidade irritou-o. De qualquer modo
porm, fora um erro ir revelar tudo  amiga. Sofia iria talvez cont-lo a
outras... Esta idia trouxe um calafrio a Mariana; a indiscrio da amiga era
certa; tinha-lhe ouvido uma poro de histrias de chapus masculinos e
femininos, coisa mais grave do que uma simples briga de casados. Mariana sentiu
necessidade de lisonje-la, e cobriu a sua impacincia e zanga com uma mscara
de docilidade hipcrita. Comeou a sorrir tambm, a fazer algumas observaes,
a respeito de um ou outro deputado, e assim chegaram ao fim do discurso e da
sesso.

Eram quatro horas dadas. Toca a recolher, disse Sofia; e
Mariana concordou que sim, mas sem impacincia, e ambas tornaram a subir a Rua
do Ouvidor. A rua, a entrada no bond completaram a fadiga do esprito de
Mariana, que afinal respirou quando viu que ia caminho de casa. Pouco antes de
apear-se a outra, pediu-lhe que guardasse segredo sobre o que lhe contara;
Sofia prometeu que sim.

Mariana respirou. A rola estava livre do gavio. Levava a
alma doente dos encontres, vertiginosa da diversidade de coisas e pessoas.
Tinha necessidade de equilbrio e sade. A casa estava perto;  medida que ia
vendo as outras casas e chcaras prximas, Mariana sentia-se restituda a si
mesma. Chegou finalmente; entrou no jardim, respirou. Era aquele o seu mundo;
menos um vaso, que o jardineiro trocara de lugar.

 Joo, bota este vaso onde estava antes, disse ela.

Tudo o mais estava em ordem, a sala de entrada, a de
visitas, a de jantar, os seus quartos, tudo. Mariana sentou-se primeiro, em
diferentes lugares, olhando bem para todas as coisas, to quietas e ordenadas.
Depois de uma manh inteira de perturbao e variedade, a monotonia trazia-lhe
um grande bem, e nunca lhe pareceu to deliciosa. Na verdade, fizera mal...
Quis recapitular os sucessos e no pde; a alma espreguiava-se toda naquela
uniformidade caseira. Quando muito, pensou na figura do Vioso, que achava
agora ridcula, e era injustia. Despiu-se lentamente, com amor, indo certeira
a cada objeto. Uma vez despida, pensou outra vez na briga com o marido. Achou
que, bem pesadas as coisas, a principal culpa era dela. Que diabo de teima por
causa de um chapu, que o marido usara h tantos anos? Tambm o pai era
exigente demais...

'Vou ver a cara com que ele vem', pensou ela.

Eram cinco e meia; no tardaria muito. Mariana foi  sala
da frente, espiou pela vidraa, prestou o ouvido ao bond, e nada.
Sentou-se ali mesmo com o Ivanho nas palmas, querendo ler e no lendo
nada. Os olhos iam at o fim da pgina, e tornavam ao princpio, em primeiro
lugar, porque no apanhavam o sentido, em segundo lugar, porque uma ou outra
vez desviavam-se para saborear a correo das cortinas ou qualquer outra feio
particular da sala. Santa monotonia, tu a acalentavas no teu regao eterno.

Enfim, parou um bond; apeou-se o marido; rangeu a
porta de ferro do jardim. Mariana foi  vidraa, e espiou. Conrado entrava
lentamente, olhando para a direita e a esquerda, com o chapu na cabea, no o
famoso chapu do costume, porm outro, o que a mulher lhe tinha pedido de
manh. O esprito de Mariana recebeu um choque violento, igual ao que lhe dera
o vaso do jardim trocado,  ou ao que lhe daria uma lauda de Voltaire entre as
folhas da Moreninha ou de Ivanhoe... Era a nota desigual no meio
da harmoniosa sonata da vida. No, no podia ser esse chapu. Realmente, que
mania a dela exigir que ele deixasse o outro que lhe ficava to bem? E que no
fosse o mais prprio, era o de longos anos; era o que quadrava  fisionomia do
marido... Conrado entrou por uma porta lateral. Mariana recebeu-o nos braos.

 Ento, passou? perguntou ele, enfim, cingindo-lhe a
cintura.

 Escuta uma coisa, respondeu ela com uma carcia divina,
bota fora esse; antes o outro.

CONTO ALEXANDRINO

NDICE

CAPTULO PRIMEIRO

CAPTULO II

CAPTULO III

CAPTULO IV

CAPTULO PRIMEIRO

NO MAR

 O que, meu caro Stroibus! No, impossvel. Nunca jamais
ningum acreditar que o sangue de rato, dado a beber a um homem, possa fazer do
homem um ratoneiro.

 Em primeiro lugar, Ptias, tu omites uma condio:  
que o rato deve expirar debaixo do escalpelo, para que o sangue traga o seu
princpio. Essa condio  essencial. Em segundo lugar, uma vez que me apontas
o exemplo do rato, fica sabendo que j fiz com ele uma experincia, e cheguei a
produzir um ladro...

 Ladro autntico?

 Levou-me o manto, ao cabo de trinta dias, mas deixou-me
a maior alegria do mundo: a realidade da minha doutrina. Que perdi eu? um pouco
de tecido grosso; e que lucrou o universo? a verdade imortal. Sim, meu caro
Ptias; esta  a eterna verdade. Os elementos constitutivos do ratoneiro esto
no sangue do rato, os do paciente no boi, os do arrojado na guia...

 Os do sbio na coruja, interrompeu Ptias sorrindo.

 No; a coruja  apenas um emblema; mas a aranha, se
pudssemos transferi-la a um homem, daria a esse homem os rudimentos da
geometria e o sentimento musical. Com um bando de cegonhas, andorinhas ou
grous, fao-te de um caseiro um viajeiro. O princpio da fidelidade conjugal
est no sangue da rola, o da enfatuao no dos paves... Em suma, os deuses
puseram nos bichos da terra, da gua e do ar a essncia de todos os sentimentos
e capacidades humanas. Os animais so as letras soltas do alfabeto; o homem  a
sintaxe. Esta  a minha filosofia recente; esta  a que vou divulgar na corte
do grande Ptolomeu.

Ptias sacudiu a cabea, e fixou os olhos no mar. O navio
singrava, em direitura a Alexandria, com essa carga preciosa de dois filsofos,
que iam levar quele regao do saber os frutos da razo esclarecida. Eram
amigos, vivos e qinquagenrios. Cultivavam especialmente a metafsica, mas
conheciam a fsica, a qumica, a medicina e a msica; um deles, Stroibus,
chegara a ser excelente anatomista, tendo lido muitas vezes os tratados do
mestre Herfilo. Chipre era a ptria de ambos; mas, to certo  que ningum 
profeta em sua terra, Chipre no dava o merecido respeito aos dois filsofos.
Ao contrrio, desdenhava-os; os garotos tocavam ao extremo de rir deles. No
foi esse, entretanto, o motivo que os levou a deixar a ptria. Um dia, Ptias,
voltando de uma viagem, props ao amigo irem para Alexandria, onde as artes e
as cincias eram grandemente honradas. Stroibus aderiu, e embarcaram. S agora,
depois de embarcados,  que o inventor da nova doutrina exp-la ao amigo, com
todas as suas recentes cogitaes e experincias.

 Est feito, disse Ptias, levantando a cabea, no
afirmo nem nego nada. Vou estudar a doutrina, e se a achar verdadeira,
proponho-me a desenvolv-la e divulg-la.

 Viva Hlios! exclamou Stroibus. Posso contar que s meu
discpulo.

CAPTULO II

EXPERINCIA

Os garotos alexandrinos no trataram os dois sbios com o escrnio
dos garotos cipriotas. A terra era grave como a bis pousada numa s pata,
pensativa como a esfinge, circunspecta como as mmias, dura como as pirmides;
no tinha tempo nem maneira de rir. Cidade e corte, que desde muito tinham
notcia dos nossos dois amigos, fizeram-lhes um recebimento rgio, mostraram
conhecer os seus escritos, discutiram as suas idias, mandaram-lhes muitos
presentes, papiros, crocodilos, zebras, prpuras. Eles, porm, recusaram tudo,
com simplicidade, dizendo que a filosofia bastava ao filsofo, e que o
suprfluo era um dissolvente. To nobre resposta encheu de admirao tanto aos
sbios como aos principais e  mesma plebe. E alis, diziam os mais sagazes,
que outra coisa se podia esperar de dois homens to sublimes, que em seus
magnficos tratados...

 Temos coisa melhor do que esses tratados, interrompia
Stroibus. Trago uma doutrina, que, em pouco, vai dominar o universo; cuido nada
menos que em reconstituir os homens e os Estados, distribuindo os talentos e as
virtudes.

 No  esse o ofcio dos deuses? objetava um.

 Eu violei o segredo dos deuses, acudia Stroibus. O homem
 a sintaxe da natureza, eu descobri as leis da gramtica divina...

 Explica-te.

 Mais tarde; deixa-me experimentar primeiro. Quando a minha
doutrina estiver completa, divulg-la-ei como a maior riqueza que os homens
jamais podero receber de um homem.

Imaginem a expectao pblica e a curiosidade dos outros
filsofos, embora incrdulos de que a verdade recente viesse aposentar as que
eles mesmos possuam. Entretanto, esperavam todos. Os dois hspedes eram
apontados na rua at pelas crianas. Um filho meditava trocar a avareza do pai,
um pai a prodigalidade do filho, uma dama a frieza de um varo, um varo os
desvarios de uma dama, porque o Egito, desde os Faras at aos Lgides, era a
terra de Putifar, da mulher de Putifar, da capa de Jos, e do resto. Stroibus
tornou-se a esperana da cidade e do mundo.

Ptias, tendo estudado a doutrina, foi ter com Stroibus, e
disse-lhe:

 Metafisicamente, a tua doutrina  um despropsito; mas
estou pronto a admitir uma experincia, contando que seja decisiva. Para isto,
meu caro Stroibus, h s um meio. Tu e eu, tanto pelo cultivo de razo como
pela rigidez do carter, somos o que h mais oposto ao vcio do furto. Pois
bem, se conseguires incutir-nos esse vcio, no ser preciso mais; se no
conseguires nada (e podes cr-lo, porque  um absurdo) recuars de semelhante
doutrina, e tornars s nossas velhas meditaes.

Stroibus aceitou a proposta.

 O meu sacrifcio  o mais penoso, disse ele, pois estou
certo do resultado; mas que no merece a verdade? A verdade  imortal; o homem
 um breve momento...

Os ratos egpcios, se pudessem saber de um tal acordo, teriam
imitado os primitivos hebreus, aceitando a fuga para o deserto, antes do que a
nova filosofia. E podemos crer que seria um desastre. A cincia, como a guerra,
tem necessidades imperiosas; e desde que a ignorncia dos ratos, a sua
fraqueza, a superioridade mental e fsica dos dois filsofos eram outras tantas
vantagens na experincia que ia comear, cumpria no perder to boa ocasio de
saber se efetivamente o princpio das paixes e das virtudes humanas estava
distribudo pelas vrias espcies de animais, e se era possvel transmiti-lo.

Stroibus engaiolava os ratos; depois, um a um, ia-os
sujeitando ao ferro. Primeiro, atava uma tira de pano no focinho do paciente;
em seguida, os ps, finalmente, cingia com um cordel as pernas e o pescoo do
animal  tbua da operao. Isto feito, dava o primeiro talho no peito, com
vagar, e com vagar ia enterrando o ferro at tocar o corao, porque era
opinio dele que a morte instantnea corrompia o sangue e retirava-lhe o
princpio. Hbil anatomista, operava com uma firmeza digna do propsito
cientfico. Outro, menos destro, interromperia muita vez a tarefa, porque as
contores de dor e de agonia tornavam difcil o meneio do escalpelo; mas essa
era justamente a superioridade de Stroibus: tinha o pulso magistral e prtico.

Ao lado dele, Ptias aparava o sangue e ajudava a obra, j
contendo os movimentos convulsivos do paciente, j espiando-lhe nos olhos o
progresso da agonia. As observaes que ambos faziam eram notadas em folhas de
papiro; e assim ganhava a cincia de duas maneiras. s vezes, por divergncia
de apreciao, eram obrigados a escalpelar maior nmero de ratos do que o
necessrio; mas no perdiam com isso, porque o sangue dos excedentes era
conservado e ingerido depois. Um s desses casos mostrar a conscincia com que
eles procediam. Ptias observara que a retina do rato agonizante mudava de cor
at chegar ao azul-claro, ao passo que a observao de Stroibus dava a cor de
canela como o tom final da morte. Estavam na ltima operao do dia; mas o ponto
valia a pena, e, no obstante o cansao, fizeram sucessivamente dezenove
experincias sem resultado definitivo; Ptias insistia pela cor azul, e
Stroibus pela cor de canela. O vigsimo rato esteve prestes a p-los de acordo,
mas Stroibus advertiu, com muita sagacidade, que a sua posio era agora
diferente, retificou-a e escalpelaram mais vinte e cinco. Destes, o primeiro
ainda os deixou em dvida; mas os outros vinte e quatro provaram-lhes que a cor
final no era canela nem azul, mas um lrio roxo, tirando a claro.

A descrio exagerada das experimentaes deu rebate 
poro sentimental da cidade, e excitou a loqela de alguns sofistas; mas o
grave Stroibus (com brandura, para no agravar uma disposio prpria da alma humana)
respondeu que a verdade valia todos os ratos do universo, e no s os ratos,
como os paves, as cabras, os ces, os rouxinis, etc.; que, em relao aos
ratos, alm de ganhar a cincia, ganhava a cidade, vendo diminuda a praga de
um animal to daninho; e, se a mesma considerao no se dava com outros
animais, como, por exemplo, as rolas e os ces, que eles iam escalpelar da a
tempos, nem por isso os direitos da verdade eram menos imprescritveis. A
natureza no h de ser s a mesa de jantar, conclua em forma de aforismo, mas
tambm a mesa de cincia.

E continuavam a extrair o sangue e a beb-lo. No o bebiam
puro, mas diludo em um cozimento de cinamomo, suco de accia e blsamo, que
lhe tirava todo o sabor primitivo. As doses eram dirias e diminutas; tinham,
portanto, de aguardar um longo prazo antes de produzido o efeito. Ptias,
impaciente e incrdulo, mofava do amigo.

 Ento? nada?

 Espera, dizia o outro, espera. No se incute um vcio
como se cose um par de sandlias.

CAPTULO III

VITRIA

Enfim, venceu Stroibus! A experincia provou a doutrina. E
Ptias foi o primeiro que deu mostras da realidade do efeito, atribuindo-se
umas trs idias ouvidas ao prprio Stroibus; este, em compensao, furtou-lhe
quatro comparaes e uma teoria dos ventos. Nada mais cientfico do que essas
estrias. As idias alheias, por isso mesmo que no foram compradas na esquina,
trazem um certo ar comum; e  muito natural comear por elas antes de passar
aos livros emprestados, s galinhas, aos papis falsos, s provncias, etc. A
prpria denominao de plgio  um indcio de que os homens compreendem a
dificuldade de confundir esse embrio da ladroeira com a ladroeira formal.

Duro  diz-lo; mas a verdade  que eles deitaram ao Nilo
a bagagem metafsica, e dentro de pouco estavam larpios acabados.
Concertavam-se de vspera, e iam aos mantos, aos bronzes, s nforas de vinho,
s mercadorias do porto, s boas dracmas. Como furtassem sem estrpito, ningum
dava por eles; mas, ainda mesmo que os suspeitassem, como faz-lo crer aos
outros? J ento Ptolomeu coligira na biblioteca muitas riquezas e raridades;
e, porque conviesse orden-las, designou para isso cinco gramticos e cinco
filsofos, entre estes os nossos dois amigos. Estes ltimos trabalharam com
singular ardor, sendo os primeiros que entravam e os ltimos que saam, e
ficando ali muitas noites, ao claro da lmpada, decifrando, coligindo,
classificando. Ptolomeu, entusiasmado, meditava para eles os mais altos
destinos.

Ao cabo de algum tempo, comearam a notar-se faltas
graves:  um exemplar de Homero, trs rolos de manuscritos persas, dois de
samaritanos, uma soberba coleo de cartas originais de Alexandre, cpias de
leis atenienses, o 2 e o 3 livro da Repblica de Plato, etc., etc. A
autoridade ps-se  espreita; mas a esperteza do rato, transferida a um
organismo superior, era naturalmente maior, e os dois ilustres gatunos zombavam
de espias e guardas. Chegaram ao ponto de estabelecer este preceito filosfico
de no sair dali com as mos vazias; traziam sempre alguma coisa, uma fbula,
quando menos. Enfim, estando a sair um navio para Chipre, pediram licena a
Ptolomeu, com promessa de voltar, coseram os livros dentro de couros de
hipoptamo, puseram-lhe rtulos falsos, e trataram de fugir. Mas a inveja de
outros filsofos no dormia; deu rebate s suspeitas dos magistrados, e
descobriu-se o roubo. Stroibus e Ptias foram tidos por aventureiros,
mascarados com os nomes daqueles dois vares ilustres; Ptolomeu entregou-os 
justia com ordem de os passar logo ao carrasco. Foi ento que interveio
Herfilo, inventor da anatomia.

CAPTULO IV

PLUS ULTRA!

 Senhor, disse ele a Ptolomeu, tenho-me limitado at
agora a escalpelar cadveres. Mas o cadver d-me a estrutura, no me d a
vida; d-me os rgos, no me d as funes. Eu preciso das funes e da vida.

 Que me dizes? redargiu Ptolomeu. Queres estripar os
ratos de Stroibus?

 No, senhor; no quero estripar os ratos.

 Os ces? os gansos? as lebres?

 Nada; peo alguns homens vivos.

 Vivos? no  possvel...

 Vou demonstrar que no s  possvel, mas at legtimo e
necessrio. As prises egpcias esto cheias de criminosos, e os criminosos
ocupam, na escala humana, um grau muito inferior. J no so cidados, nem
mesmo se podem dizer homens, porque a razo e a virtude, que so os dois
principais caractersticos humanos, eles os perderam, infringindo a lei e a
moral. Alm disso, uma vez que tm de expiar com a morte os seus crimes, no 
justo que prestem algum servio  verdade e  cincia? A verdade  imortal; ela
vale no s todos os ratos, como todos os delinqentes do universo.

Ptolomeu achou o raciocnio exato, e ordenou que os
criminosos fossem entregues a Herfilo e seus discpulos. O grande anatomista
agradeceu to insigne obsquio, e comeou a escalpelar os rus. Grande foi o
assombro do povo; mas, salvo alguns pedidos verbais, no houve nenhuma
manifestao contra a medida. Herfilo repetia o que dissera a Ptolomeu,
acrescentando que a sujeio dos rus  experincia anatmica era at um modo
indireto de servir  moral, visto que o terror do escalpelo impediria a prtica
de muitos crimes.

Nenhum dos criminosos, ao deixar a priso, suspeitava o destino
cientfico que o esperava. Saam um por um; s vezes dois a dois, ou trs a
trs. Muitos deles, estendidos e atados  mesa da operao, no chegavam a
desconfiar nada; imaginavam que era um novo gnero de execuo sumria. S
quando os anatomistas definiam o objeto do estudo do dia, alavam os ferros e
davam os primeiros talhos,  que os desgraados adquiriam a conscincia da
situao. Os que se lembravam de ter visto as experincias dos ratos, padeciam
em dobro, porque a imaginao juntava  dor presente o espetculo passado.

Para conciliar os interesses da cincia com os impulsos da
piedade, os rus no eram escalpelados  vista uns dos outros, mas
sucessivamente. Quando vinham aos dois ou aos trs, no ficavam em lugar donde os
que esperavam pudessem ouvir os gritos do paciente, embora os gritos fossem
muitas vezes abafados por meio de aparelhos; mas se eram abafados, no eram
suprimidos, e em certos casos, o prprio objeto da experincia exigia que a
emisso da voz fosse franca. s vezes as operaes eram simultneas; mas ento
faziam-se em lugares distanciados.

Tinham sido escalpelados cerca de cinqenta rus, quando
chegou a vez de Stroibus e Ptias. Vieram busc-los; eles supuseram que era
para a morte judiciria, e encomendaram-se aos deuses. De caminho, furtaram uns
figos, e explicaram o caso alegando que era um impulso da fome; adiante, porm,
subtraram uma flauta, e essa outra ao no a puderam explicar
satisfatoriamente. Todavia, a astcia do larpio  infinita, e Stroibus, para
justificar a ao, tentou extrair algumas notas do instrumento, enchendo de
compaixo as pessoas que os viam passar, e no ignoravam a sorte que iam ter. A
notcia desses dois novos delitos foi narrada por Herfilo, e abalou a todos os
seus discpulos.

 Realmente, disse o mestre,  um caso extraordinrio, um
caso lindssimo. Antes do principal, examinemos aqui o outro ponto...

O ponto era saber se o nervo do latrocnio residia na
palma da mo ou na extremidade dos dedos; problema esse sugerido por um dos
discpulos. Stroibus foi o primeiro sujeito  operao. Compreendeu tudo, desde
que entrou na sala; e, como a natureza humana tem uma parte nfima, pediu-lhes
humildemente que poupassem a vida a um filsofo. Mas Herfilo, com um grande poder
de dialtica, disse-lhe mais ou menos isto:  Ou s um aventureiro ou o
verdadeiro Stroibus; no primeiro caso, tens aqui o nico meio para resgatar o
crime de iludir a um prncipe esclarecido, presta-te ao escalpelo; no segundo
caso, no deves ignorar que a obrigao do filsofo  servir  filosofia, e que
o corpo  nada em comparao com o entendimento.

Dito isto, comearam pela experincia das mos, que
produziu timos resultados, coligidos em livros, que se perderam com a queda
dos Ptolomeus. Tambm as mos de Ptias foram rasgadas e minuciosamente
examinadas. Os infelizes berravam, choravam, suplicavam; mas Herfilo
dizia-lhes pacificamente que a obrigao do filsofo era servir  filosofia, e
que para os fins da cincia, eles valiam ainda mais que os ratos, pois era
melhor concluir do homem para o homem, e no do rato para o homem. E continuou
a rasg-los fibra por fibra, durante oito dias. No terceiro dia arrancaram-lhes
os olhos, para desmentir praticamente uma teoria sobre a conformao interior
do rgo. No falo da extrao do estmago de ambos, por se tratar de problemas
relativamente secundrios, e em todo caso estudados e resolvidos em cinco ou
seis indivduos escalpelados antes deles.

Diziam os alexandrinos que os ratos celebraram esse caso
aflitivo e doloroso com danas e festas, a que convidaram alguns ces, rolas,
paves e outros animais ameaados de igual destino, e outrossim, que nenhum dos
convidados aceitou o convite, por sugesto de um cachorro, que lhes disse
melancolicamente:  'Sculo vir em que a mesma coisa nos acontea'.
Ao que retorquiu um rato: 'Mas at l, riamos!'

PRIMAS DE SAPUCAIA!

H umas ocasies oportunas e fugitivas, em que o acaso nos
inflige duas ou trs primas de Sapucaia; outras vezes, ao contrrio, as primas
de Sapucaia so antes um benefcio do que um infortnio.

Era  porta de uma igreja. Eu esperava que as minhas
primas Claudina e Rosa tomassem gua benta, para conduzi-las  nossa casa, onde
estavam hospedadas. Tinham vindo de Sapucaia, pelo carnaval, e demoraram-se
dois meses na corte. Era eu que as acompanhava a toda a parte, missas, teatros,
Rua do Ouvidor, porque minha me, com o seu reumtico, mal podia mover-se
dentro de casa, e elas no sabiam andar ss. Sapucaia era a nossa ptria comum.
Embora todos os parentes estivessem dispersos, ali nasceu o tronco da famlia.
Meu tio Jos Ribeiro, pai destas primas, foi o nico, de cinco irmos, que l
ficou lavrando a terra e figurando na poltica do lugar. Eu vim cedo para a
Corte, donde segui a estudar e bacharelar-me em So Paulo. Voltei uma s vez a
Sapucaia, para pleitear uma eleio, que perdi.

Rigorosamente, todas estas notcias so desnecessrias
para a compreenso da minha aventura; mas  um modo de ir dizendo alguma coisa,
antes de entrar em matria, para a qual no acho porta grande nem pequena; o
melhor  afrouxar a rdea  pena, e ela que v andando, at achar entrada. H
de haver alguma; tudo depende das circunstncias, regra que tanto serve para o
estilo como para a vida; palavra puxa palavra, uma idia traz outra, e assim se
faz um livro, um governo, ou uma revoluo; alguns dizem mesmo que assim  que
a natureza comps as suas espcies.

Portanto, gua benta e porta de igreja. Era a igreja de
So Jos. A missa acabara; Claudina e Rosa fizeram uma cruz na testa, com o
dedo polegar, molhado na gua benta e descalado unicamente para esse gesto.
Depois ajustaram os manteletes, enquanto eu, ao portal, ia vendo as damas que
saam. De repente, estremeo, inclino-me para fora, chego mesmo a dar dois
passos na direo da rua.

 Que foi, primo?

 Nada, nada.

Era uma senhora, que passara rentezinha com a igreja,
vagarosa, cabisbaixa, apoiando-se no chapelinho de sol; ia pela Rua da
Misericrdia acima. Para explicar a minha comoo,  preciso dizer que era a
segunda vez que a via. A primeira foi no Prado Fluminense, dois meses antes,
com um homem que, pelos modos, era seu marido, mas tanto podia ser marido como
pai. Estava ento um pouco de espavento, vestida de escarlate, com grandes
enfeites vistosos, e umas argolas demasiado grossas nas orelhas; mas os olhos e
a boca resgatavam o resto. Namoramos s bandeiras despregadas. Se disser que
sa dali apaixonado, no meto a minha alma no inferno, porque  a verdade pura.
Sa tonto, mas sa tambm desapontado, perdi-a de vista na multido. Nunca mais
pude dar com ela, nem ningum me soube dizer quem fosse.

Calcule-se o meu enfado, vendo que a fortuna vinha
traz-la outra vez ao meu caminho, e que umas primas fortuitas no me deixavam
lanar-lhe as mos. No ser difcil calcul-lo, porque estas primas de
Sapucaia tomam todas as formas, e o leitor, se no as teve de um modo, teve-as
de outro. Umas vezes copiam o ar confidencial de um cavalheiro informado da
ltima crise do ministrio, de todas as causas aparentes ou secretas,
dissenses novas ou antigas, interesses agravados, conspirao, crise. Outras
vezes, enfronham-se na figura daquele eterno cidado que afirma de um modo
ponderoso e abotoado, que no h leis sem costumes, nisi lege sine moribus.
Outras, afivelam a mscara de um Dangeau de esquina, que nos conta
miudamente as fitas e rendas que esta, aquela, aqueloutra dama levara ao baile
ou ao teatro. E durante esse tempo, a Ocasio passa, vagarosa, cabisbaixa,
apoiando-se no chapelinho de sol: passa, dobra a esquina, e adeus... O
ministrio esfacelava-se; malinas e bruxelas; nisi lege sine moribus...

Estive a pique de dizer s primas, que se fossem embora;
morvamos na Rua do Carmo, no era longe; mas abri mo da idia. J na rua
pensei tambm em deix-las na igreja,  minha espera, e ir ver se agarrava a
Ocasio pela calva. Creio mesmo que cheguei a parar um momento, mas rejeitei
igualmente esse alvitre e fui andando.

Fui andando com elas para o lado oposto ao da minha
incgnita. Olhei para trs repetidas vezes, at perd-la numa das curvas da
rua, com os olhos no cho, como quem reflete, devaneia ou espera uma hora
marcada. No minto dizendo que esta ltima idia trouxe-me a emoo do cime.
Sou exclusivo e pessoal; daria um triste amante de mulheres casadas. No
importa que entre mim e aquela dama existisse apenas uma contemplao fugitiva
de algumas horas; desde que a minha personalidade ia para ela, a partilha
tornava-se-me insuportvel. Sou tambm imaginoso; engenhei logo uma aventura e
um aventureiro, dei-me ao prazer mrbido de afligir-me sem motivo nem
necessidade. As primas iam adiante, e falavam-me de quando em quando; eu
respondia mal, se respondia alguma coisa. Cordialmente, execrava-as.

Ao chegar  porta de casa, consultei o relgio, como se
tivesse alguma coisa que fazer; depois disse s primas que subissem e fossem
almoando. Corri  Rua da Misericrdia. Fui primeiro at  Escola de Medicina;
depois voltei e vim at  Cmara dos Deputados, ento mais devagar, esperando
v-la ao chegar a cada curva da rua; mas nem sombra. Era insensato, no era?
Todavia, ainda subi outra vez a rua, porque adverti que, a p e devagar, mal
teria tempo de ir em meio da Praia de Santa Luzia, se acaso no parara antes; e
a fui, rua acima e praia fora, at ao convento da Ajuda. No encontrei nada,
coisa nenhuma. Nem por isso perdi as esperanas; arrepiei caminho e vim, a
passo lento ou apressado, conforme se me afigurava que era possvel apanh-la
adiante, ou dar tempo a que sasse de alguma parte. Desde que a minha
imaginao reproduzia a dama, todo eu sentia um abalo, como se realmente
tivesse de v-la da a alguns minutos. Compreendi a emoo dos doidos.

Entretanto, nada. Desci a rua sem achar o menor vestgio da
minha incgnita. Felizes os ces, que pelo faro do  com os amigos! Quem
sabe se no estaria ali bem perto, no interior de alguma casa, talvez a prpria
casa dela? Lembrou-me indagar; mas de quem, e como? Um padeiro, encostado ao
portal, espiava-me; algumas mulheres faziam a mesma coisa enfiando os olhos
pelos postigos. Naturalmente desconfiavam do transeunte, do andar vagaroso ou
apressado, do olhar inquisidor, do gesto inquieto. Deixei-me ir at  Cmara
dos Deputados, e parei uns cinco minutos, sem saber que fizesse. Era perto de
meio-dia. Esperei mais dez minutos, depois mais cinco, parado, com a esperana
de v-la; afinal, desesperei e fui almoar.

No almocei em casa. No queria ver os demnios das
primas, que me impediram de seguir a dama incgnita. Fui a um hotel. Escolhi
uma mesa no fim da sala, e sentei-me de costas para as outras; no queria ser
visto nem conversado. Comecei a comer o que me deram. Pedi alguns jornais, mas
confesso que no li nada seguidamente, e apenas entendi trs quartas partes do
que ia lendo. No meio de uma notcia ou de um artigo, escorregava-me o esprito
e caa na Rua da Misericrdia,  porta da igreja, vendo passar a incgnita,
vagarosa, cabisbaixa, apoiando-se no chapelinho de sol.

A ltima vez que me aconteceu essa separao da OUTRA e da
BESTA, estava j no caf, e tinha diante de mim um discurso parlamentar.
Achei-me ainda uma vez  porta da igreja; imaginei ento que as primas no
estavam comigo, e que eu seguia atrs da bela dama. Assim  que se consolam os preteridos
da loteria; assim  que se fartam as ambies malogradas.

No me peam mincias nem preliminares do encontro. Os
sonhos desdenham as linhas finas e o acabado das paisagens; contentam-se de
quatro ou cinco brochadas grossas, mas representativas. Minha imaginao galgou
as dificuldades da primeira fala, e foi direita  Rua do Lavradio ou dos
Invlidos,  prpria casa de Adriana. Chama-se Adriana. No viera  Rua da
Misericrdia por motivo de amores, mas a ver algum, uma parenta ou uma
comadre, ou uma costureira. Conheceu-me, e teve igual comoo. Escrevi-lhe;
respondeu-me. Nossas pessoas foram uma para a outra por cima de uma multido de
regras morais e de perigos. Adriana  casada; o marido conta cinqenta e dois
anos, ela trinta imperfeitos. No amou nunca, no amou mesmo o marido, com quem
casou por obedecer  famlia. Eu ensinei-lhe ao mesmo tempo o amor e a traio;
 o que ela me diz nesta casinha que aluguei fora da cidade, de propsito para
ns.

Ouo-a embriagado. No me enganei;  a mulher ardente e
amorosa, qual me diziam os seus olhos, olhos de touro, como os de Juno, grandes
e redondos. Vive de mim e para mim. Escrevemo-nos todos os dias; e, apesar
disso, quando nos encontramos na casinha,  como se mediara um sculo. Creio
at que o corao dela ensinou-me alguma coisa, embora novio, ou por isso
mesmo. Nesta matria desaprende-se com o uso e o ignorante  que  douto.
Adriana no dissimula a alegria nem as lgrimas; escreve o que pensa, conta o
que o sente; mostra-me que no somos dois, mas um, to-somente um ente
universal, para quem Deus criou o sol e as flores, o papel e a tinta, o correio
e as carruagens fechadas.

Enquanto ideava isto, creio que acabei de beber o caf;
lembra-me que o criado veio  mesa e retirou a xcara e o aucareiro. No sei
se lhe pedi fogo, provavelmente viu-me com o charuto na mo e trouxe-me
fsforos.

No juro, mas penso que acendi o charuto, porque da a um
instante, atravs de um vu de fumaa, vi a cabea meiga e enrgica da minha
bela Adriana, encostada a um sof. Eu estou de joelhos, ouvindo-lhe a narrao
da ltima rusga do marido. Que ele j desconfia; ela sai muitas vezes,
distrai-se, absorve-se, aparece-lhe triste ou alegre, sem motivo, e o marido
comea a amea-la. Amea-la de qu? Digo-lhe que, antes de qualquer excesso,
era melhor deix-lo, para viver comigo, publicamente, um para o outro. Adriana
escuta-me pensativa, cheia de Eva, namorada do demnio, que lhe sussurra de
fora o que o corao lhe diz de dentro. Os dedos afagam-me os cabelos.

 Pois sim! pois sim!

Veio no dia seguinte, consigo mesma, sem marido, sem
sociedade, sem escrpulos, to-somente consigo, e fomos dali viver juntos. Nem
ostentao, nem resguardo. Supusemo-nos estrangeiros, e realmente no ramos
outra coisa; falvamos uma lngua, que nunca ningum antes falara nem ouvira.
Os outros amores eram, desde sculos, verdadeiras contrafaes; ns dvamos a
edio autntica. Pela primeira vez, imprimia-se o manuscrito divino, um grosso
volume que ns dividamos em tantos captulos e pargrafos quantas eram as
horas do dia ou os dias da semana. O estilo era tecido de sol e msica; a
linguagem compunha-se da fina flor dos outros vocabulrios. Tudo o que neles
existia, meigo ou vibrante, foi extrado pelo autor para formar esse livro
nico  livro sem ndice, porque era infinito  sem margens, para que o fastio
no viesse escrever nelas as suas notas,  sem fita, porque j no tnhamos
preciso de interromper a leitura e marcar a pgina.

Uma voz chamou-me  realidade. Era um amigo que acordara
tarde, e vinha almoar. Nem o sonho me deixava esta outra prima de Sapucaia!
Cinco minutos depois despedi-me e sa; eram duas horas passadas.

Vexa-me dizer que ainda fui  Rua da Misericrdia, mas 
preciso narrar tudo: fui e no achei nada. Voltei nos dias seguintes sem outro
lucro, alm do tempo perdido. Resignei-me a abrir mo da aventura, ou esperar a
soluo do acaso. As primas achavam-me aborrecido ou doente; no lhes disse que
no. Da a oito dias foram-se embora, sem me deixar saudades; despedi-me delas
como de uma febre maligna.

A imagem da minha incgnita no me deixou durante muitas
semanas. Na rua, enganei-me vrias vezes. Descobria ao longe uma figura, que
era tal qual a outra; picava os calcanhares at apanh-la e desenganar-me.
Comecei a achar-me ridculo; mas l vinha uma hora ou um minuto, uma sombra ao
longe, e a preocupao revivia. Afinal vieram outros cuidados, e no pensei
mais nisso.

No princpio do ano seguinte, fui a Petrpolis; fiz a
viagem com um antigo companheiro de estudos, Oliveira, que foi promotor em
Minas Gerais, mas abandonara ultimamente a carreira por ter recebido uma
herana. Estava alegre como nos tempos da academia; mas de quando em quando
calava-se, olhando para fora da barca ou da calea, com a atonia de quem regala
a alma de uma recordao, de uma esperana ou de um desejo. No alto da serra
perguntei-lhe para que hotel ia; respondeu que ia para uma casa particular, mas
no me disse aonde, e at desconversou. Cuidei que me visitaria no dia
seguinte; mas nem me visitou, nem o vi em parte alguma. Outro colega nosso
ouvira dizer que ele tinha uma casa para os lados da Rennia.

Nenhuma destas circunstncias voltaria  memria, se no
fosse a notcia que me deram dias depois. Oliveira tirara uma mulher ao marido,
e fora refugiar-se com ela em Petrpolis. Deram-me o nome do marido e o dela. O
dela era Adriana. Confesso que, embora o nome da outra fosse pura inveno
minha, estremeci ao ouvi-lo; no seria a mesma mulher? Vi logo depois que era
pedir muito ao acaso. J faz bastante esse pobre oficial das coisas humanas,
concertando alguns fios dispersos; exigir que os reate a todos, e com os mesmos
ttulos,  saltar da realidade na novela. Assim falou o meu bom senso, e nunca
disse to gravemente uma tolice, pois as duas mulheres eram nada menos que a
mesmssima.

Vi-a trs semanas depois, indo visitar o Oliveira, que
viera doente da Corte. Subimos juntos na vspera; no meio da serra, comeou ele
a sentir-se incomodado; no alto estava febril. Acompanhei-o no carro at a
casa, e no entrei, porque ele dispensou-me o incmodo. Mas no dia seguinte fui
v-lo, um pouco por amizade, outro pouco por avidez de conhecer a incgnita.
Vi-a; era ela, era a minha, era a nica Adriana.

Oliveira sarou depressa, e, apesar do meu zelo em
visit-lo, no me ofereceu a casa; limitou-se a vir ver-me no hotel.
Respeitei-lhe os motivos; mas eles mesmos  que faziam reviver a antiga
preocupao. Considerei que, alm das razes de decoro, havia da parte dele um
sentimento de cime, filho de um sentimento de amor, e que um e outro podiam
ser a prova de um complexo de qualidades finas e grandes naquela mulher. Isto
bastava a transtornar-me; mas a idia de que a paixo dela no seria menor que
a dele, o quadro desse casal que fazia uma s alma e pessoa, excitou em mim
todos os nervos da inveja. Baldei esforos para ver se metia o p na casa;
cheguei a falar-lhe do boato que corria; ele sorria e tratava de outra coisa.

Acabou a estao de Petrpolis, e ele ficou. Creio que
desceu em julho ou agosto. No fim do ano encontramo-nos casualmente; achei-o um
pouco taciturno e preocupado. Vi-o ainda outras vezes, e no me pareceu
diferente, a no ser que, alm de taciturno, trazia na fisionomia uma longa
prega de desgosto. Imaginei que eram efeitos da aventura, e, como no estou
aqui para empulhar ningum, acrescento que tive uma sensao de prazer. Durou
pouco; era o demnio que trago em mim, e costuma fazer desses esgares de
saltimbanco. Mas castiguei-o depressa, e pus no lugar dele o anjo, que tambm
uso, e que se compadeceu do pobre rapaz, qualquer que fosse o motivo da
tristeza.

Um vizinho dele, amigo nosso, contou-me alguma coisa, que
me confirmou a suspeita de desgostos domsticos; mas foi ele mesmo quem me
disse tudo, um dia, perguntando-lhe eu, estouvadamente, o que  que tinha que o
mudara tanto.

 Que hei de ter? Imagina tu que comprei um bilhete de
loteria, e nem tive, ao menos, o gosto de no tirar nada; tirei um escorpio.

E, como eu franzisse a testa interrogativamente:

 Ah! se soubesses metade s das coisas que me tm
acontecido! Tens tempo? Vamos aqui ao Passeio Pblico.

Entramos no jardim, e metemo-nos por uma das alamedas.
Contou-me tudo. Gastou duas horas em desfiar um rosrio infinito de misrias.
Vi atravs da narrao duas ndoles incompatveis, unidas pelo amor ou pelo
pecado, fartas uma da outra, mas condenadas  convivncia e ao dio. Ele nem
podia deix-la nem suport-la. Nenhuma estima, nenhum respeito, alegria rara e
impura; uma vida gorada.

 Gorada, repetia ele, gesticulando afirmativamente com a
cabea. No tem que ver; a minha vida gorou. Hs de lembrar-te dos nossos
planos da academia, quando nos propnhamos, tu a ministro do imprio, eu da
justia. Podes guardar as duas pastas; no serei nada, nada. O ovo, que devia
dar uma guia, no chega a dar um frango. Gorou completamente. H ano e meio
que ando nisso, e no acho sada nenhuma; perdi a energia...

Seis meses depois, encontrei-o aflito e desvairado.
Adriana deixara-o para ir estudar geometria com um estudante da antiga Escola
Central. Tanto melhor, disse-lhe eu. Oliveira olhou para o cho envergonhado;
despediu-se, e correu em procura dela. Achou-a da a algumas semanas, disseram
as ltimas um ao outro, e no fim reconciliaram-se. Comecei ento a visit-los,
com a idia de os separar um do outro. Ela estava ainda bonita e fascinante; as
maneiras eram finas e meigas, mas evidentemente de emprstimo, acompanhadas de
umas atitudes e gestos, cujo intuito latente era atrair-me e arrastar-me.

Tive medo e retra-me. No se mortificou; deitou fora a
capa de renda, restituiu-se ao natural. Vi ento que era ferrenha, manhosa,
injusta, muita vez grosseira; em alguns lances notei-lhe uma nota de perversidade.
Oliveira, nos primeiros tempos, para fazer-me crer que mentira ou exagerara,
suportava tudo rindo; era a vergonha da prpria fraqueza. Mas no pde guardar
a mscara; ela arrancou-lha um dia, sem piedade, denunciando as humilhaes em
que ele caa, quando eu no estava presente. Tive nojo da mulher e pena do
pobre-diabo. Convidei-o abertamente a deix-la, ele hesitou, mas prometeu que
sim.

 Realmente, no posso mais...

Combinamos tudo; mas no momento da separao, no pde.
Ela embebeu-lhe novamente os seus grandes olhos de touro e de basilisco, e
desta vez,   minhas queridas primas de Sapucaia!  desta vez para s deix-lo
exausto e morto.

UMA SENHORA

Nunca encontro esta senhora que me no lembre a profecia
de uma lagartixa ao poeta Heine, subindo os Apeninos: 'Dia vir em que as
pedras sero plantas, as plantas animais, os animais homens e os homens
deuses.' E d-me vontade de dizer-lhe:  A senhora, D. Camila, amou tanto
a mocidade e a beleza, que atrasou o seu relgio, a fim de ver se podia fixar
esses dois minutos de cristal. No se desconsole, D. Camila. No dia da
lagartixa, a senhora ser Hebe, deusa da juventude; a senhora nos dar a beber
o nctar da perenidade com as suas mos eternamente moas.

A primeira vez que a vi, tinha ela trinta e seis anos,
posto s parecesse trinta e dois, e no passasse da casa dos vinte e nove. Casa
 um modo de dizer. No h castelo mais vasto do que a vivenda destes bons
amigos, nem tratamento mais obsequioso do que o que eles sabem dar s suas
hspedes. Cada vez que D. Camila queria ir-se embora, eles pediam-lhe muito que
ficasse, e ela ficava. Vinham ento novos folguedos, cavalhadas, msica, dana,
uma sucesso de coisas belas, inventadas com o nico fim de impedir que esta senhora
seguisse o seu caminho.

 Mame, mame, dizia-lhe a filha crescendo, vamos embora,
no podemos ficar aqui toda a vida.

D. Camila olhava para ela mortificada, depois sorria,
dava-lhe um beijo e mandava-a brincar com as outras crianas. Que outras
crianas? Ernestina estava ento entre quatorze e quinze anos, era muito
espigada, muito quieta, com uns modos naturais de senhora. Provavelmente no se
divertiria com as meninas de oito e nove anos; no importa, uma vez que
deixasse a me tranqila, podia alegrar-se ou enfadar-se. Mas, ai triste! h um
limite para tudo, mesmo para os vinte e nove anos.

D. Camila resolveu, enfim, despedir-se desses dignos
anfitries, e f-lo ralada de saudades. Eles ainda instaram por uns cinco ou
seis meses de quebra; a bela dama respondeu-lhes que era impossvel e, trepando
no alazo do tempo, foi alojar-se na casa dos trinta.

Ela era, porm, daquela casta de mulheres que riem do sol
e dos almanaques. Cor de leite, fresca, inaltervel, deixava s outras o
trabalho de envelhecer. S queria o de existir. Cabelo negro, olhos castanhos e
clidos. Tinha as espduas e o colo feitos de encomenda para os vestidos
decotados, e assim tambm os braos, que eu no digo que eram os da Vnus de
Milo, para evitar uma vulgaridade, mas provavelmente no eram outros. D. Camila
sabia disto; sabia que era bonita, no s porque lho dizia o olhar sorrateiro
das outras damas, como por um certo instinto que a beleza possui, como o
talento e o gnio. Resta dizer que era casada, que o marido era ruivo, e que os
dois amavam-se como noivos; finalmente, que era honesta. No o era, note-se
bem, por temperamento, mas por princpio, por amor ao marido, e creio que um
pouco por orgulho.

Nenhum defeito, pois, exceto o de retardar os anos; mas 
isso um defeito? H, no me lembra em que pgina da Escritura, naturalmente nos
Profetas, uma comparao dos dias com as guas de um rio que no voltam mais.
D.Camila queria fazer uma represa para seu uso. No tumulto desta marcha
contnua entre o nascimento e a morte, ela apegava-se  iluso da estabilidade.
S se lhe podia exigir que no fosse ridcula, e no o era. Dir-me- o leitor
que a beleza vive de si mesma, e que a preocupao do calendrio mostra que
esta senhora vivia principalmente com os olhos na opinio.  verdade; mas como
quer que vivam as mulheres do nosso tempo?

D. Camila entrou na casa dos trinta e no lhe custou
passar adiante. Evidentemente o terror era uma superstio. Duas ou trs amigas
ntimas, nutridas de aritmtica, continuavam a dizer que ela perdera a conta
dos anos. No advertiam que a natureza era cmplice no erro, e que aos quarenta
anos (verdadeiros), D. Camila trazia um ar de trinta e poucos. Restava um
recurso: espiar-lhe o primeiro cabelo branco, um fiozinho de nada, mas branco.
Em vo espiavam; o demnio do cabelo parecia cada vez mais negro.

Nisto enganavam-se. O fio branco estava ali; era a filha
de D. Camila que entrava nos dezenove anos, e, por mal de pecados, bonita. D.
Camila prolongou, quanto pde, os vestidos adolescentes da filha, conservou-a
no colgio at tarde, fez tudo para proclam-la criana. A natureza, porm, que
no  s imoral, mas tambm ilgica, enquanto sofreava os anos de uma,
afrouxava a rdea aos da outra, e Ernestina, moa feita, entrou radiante no
primeiro baile. Foi uma revelao. D. Camila adorava a filha; saboreou-lhe a
glria a tragos demorados. No fundo do copo achou a gota amarga e fez uma
careta. Chegou a pensar na abdicao; mas um grande prdigo de frases feitas
disse-lhe que ela parecia a irm mais velha da filha, e o projeto desfez-se.
Foi dessa noite em diante que D. Camila entrou a dizer a todos que casara muito
criana.

Um dia, poucos meses depois, apontou no horizonte o
primeiro namorado. D. Camila pensara vagamente nessa calamidade, sem encar-la,
sem aparelhar-se para a defesa. Quando menos esperava, achou um pretendente 
porta. Interrogou a filha; descobriu-lhe um alvoroo indefinvel, a inclinao
dos vinte anos, e ficou prostrada. Cas-la era o menos; mas, se os seres so
como as guas da Escritura, que no voltam mais,  porque atrs deles vm
outros, como atrs das guas outras guas; e, para definir essas ondas
sucessivas  que os homens inventaram este nome de netos. D. Camila viu
iminente o primeiro neto, e determinou adi-lo. Est claro que no formulou a
resoluo, como no formulara a idia do perigo. A alma entende-se a si mesma;
uma sensao vale um raciocnio. As que ela teve foram rpidas, obscuras, no mais
ntimo do seu ser, donde no as extraiu para no ser obrigada a encar-las.

 Mas que  que voc acha de mau no Ribeiro? perguntou-lhe
o marido, uma noite,  janela.

D. Camila levantou os ombros.

 Acho-lhe o nariz torto, disse.

 Mau! Voc est nervosa; falemos de outra coisa,
respondeu o marido. E, depois de olhar uns dois minutos para a rua,
cantarolando na garganta, tornou ao Ribeiro, que achava um genro aceitvel, e
se lhe pedisse Ernestina, entendia que deviam ceder-lha. Era inteligente e
educado. Era tambm o herdeiro provvel de uma tia de Cantagalo. E depois tinha
um corao de ouro. Contavam-se dele coisas muito bonitas. Na academia, por
exemplo... D. Camila ouviu o resto, batendo com a ponta do p no cho e rufando
com os dedos a sonata da impacincia; mas, quando o marido lhe disse que o
Ribeiro esperava um despacho do ministro de estrangeiros, um lugar para os
Estados Unidos, no pde ter-se e cortou-lhe a palavra:

 O qu? separar-me de minha filha? No, senhor.

Em que dose entrara neste grito o amor materno e o
sentimento pessoal,  um problema difcil de resolver, principalmente agora,
longe dos acontecimentos e das pessoas. Suponhamos que em partes iguais. A
verdade  que o marido no soube que inventar para defender o ministro de
estrangeiros, as necessidades diplomticas, a fatalidade do matrimnio, e, no
achando que inventar, foi dormir. Dois dias depois veio a nomeao. No terceiro
dia, a moa declarou ao namorado que no a pedisse ao pai, porque no queria
separar-se da famlia. Era o mesmo que dizer: prefiro a famlia ao senhor. 
verdade que tinha a voz trmula e sumida, e um ar de profunda consternao; mas
o Ribeiro viu to-somente a rejeio, e embarcou. Assim acabou a primeira
aventura.

D. Camila padeceu com o desgosto da filha; mas consolou-se
depressa. No faltam noivos, refletiu ela. Para consolar a filha, levou-a a
passear a toda parte. Eram ambas bonitas, e Ernestina tinha a frescura dos
anos; mas a beleza da me era mais perfeita, e apesar dos anos, superava a da
filha. No vamos ao ponto de crer que o sentimento da superioridade  que
animava D. Camila a prolongar e repetir os passeios. No: o amor materno, s
por si, explica tudo. Mas concedamos que animasse um pouco. Que mal h nisso?
Que mal h em que um bravo coronel defenda nobremente a ptria, e as suas
dragonas? Nem por isso acaba o amor da ptria e o amor das mes.

Meses depois despontou a orelha de um segundo namorado.
Desta vez era um vivo, advogado, vinte e sete anos. Ernestina no sentiu por
ele a mesma emoo que o outro lhe dera; limitou-se a aceit-lo. D. Camila
farejou depressa a nova candidatura. No podia alegar nada contra ele; tinha o
nariz reto como a conscincia, e profunda averso  vida diplomtica. Mas haveria
outros defeitos, devia haver outros. D. Camila buscou-os com alma; indagou de
suas relaes, hbitos, passado. Conseguiu achar umas coisinhas midas,
to-somente a unha da imperfeio humana, alternativas de humor, ausncia de
graas intelectuais, e, finalmente, um grande excesso de amor-prprio. Foi
neste ponto que a bela dama o apanhou. Comeou a levantar vagarosamente a
muralha do silncio; lanou primeiro a camada das pausas, mais ou menos longas,
depois as frases curtas, depois os monosslabos, as distraes, as absores,
os olhares complacentes, os ouvidos resignados, os bocejos fingidos por trs da
ventarola. Ele no entendeu logo; mas, quando reparou que os enfados da me
coincidiam com as ausncias da filha, achou que era ali demais e retirou-se. Se
fosse homem de luta, tinha saltado a muralha; mas era orgulhoso e fraco. D.
Camila deu graas aos deuses.

Houve um trimestre de respiro. Depois apareceram alguns
namoricos de uma noite, insetos efmeros, que no deixaram histria. D. Camila
compreendeu que eles tinham de multiplicar-se, at vir algum decisivo que a
obrigasse a ceder; mas ao menos, dizia ela a si mesma, queria um genro que
trouxesse  filha a mesma felicidade que o marido lhe deu. E, uma vez, ou para
robustecer este decreto da vontade, ou por outro motivo, repetiu o conceito em
voz alta, embora s ela pudesse ouvi-lo. Tu, psiclogo sutil, podes imaginar
que ela queria convencer-se a si mesma; eu prefiro contar o que lhe aconteceu
em 186...

Era de manh. D. Camila estava ao espelho, a janela
aberta, a chcara verde e sonora de cigarras e passarinhos. Ela sentia em si a
harmonia que a ligava s coisas externas. S a beleza intelectual 
independente e superior. A beleza fsica  irm da paisagem. D. Camila
saboreava essa fraternidade ntima, secreta, um sentimento de identidade, uma
recordao da vida anterior no mesmo tero divino. Nenhuma lembrana
desagradvel, nenhuma ocorrncia vinha turvar essa expanso misteriosa. Ao
contrrio, tudo parecia embeb-la de eternidade, e os quarenta e dois anos em
que ia no lhe pesavam mais do que outras tantas folhas de rosa. Olhava para
fora, olhava para o espelho. De repente, como se lhe surdisse uma cobra, recuou
aterrada. Tinha visto, sobre a fonte esquerda, um cabelinho branco. Ainda
cuidou que fosse do marido; mas reconheceu depressa que no, que era dela
mesma, um telegrama da velhice, que a vinha a marchas foradas. O primeiro
sentimento foi de prostrao.

D. Camila sentiu faltar-lhe tudo, tudo, viu-se encanecida
e acabada no fim de uma semana.

 Mame, mame, bradou Ernestina entrando na saleta. Est
aqui o camarote que papai mandou.

D. Camila teve um sobressalto de pudor, e instintivamente
voltou para a filha o lado que no tinha o fio branco. Nunca a achou to
graciosa e lpida. Fitou-a com saudade. Fitou-a tambm com inveja, e, para
abafar este sentimento mau, pegou no bilhete do camarote. Era para aquela mesma
noite. Uma idia expele outra; D. Camila anteviu-se no meio das luzes e das gentes,
e depressa levantou o corao. Ficando s, tornou a olhar para o espelho, e
corajosamente arrancou o cabelinho branco, e deitou-o  chcara. Out, damned
spot! Out! Mais feliz do que a outra lady Macbeth, viu assim
desaparecer a ndoa no ar, porque no nimo dela, a velhice era um remorso, e a
fealdade um crime. Sai, maldita mancha! sai!

Mas, se os remorsos voltam, por que no ho de voltar os
cabelos brancos? Um ms depois, D. Camila descobriu outro, insinuado na bela e
farta madeixa negra, e amputou-o sem piedade. Cinco ou seis semanas depois,
outro. Este terceiro coincidiu com um terceiro candidato  mo da filha, e
ambos acharam D. Camila numa hora de prostrao. A beleza, que lhe suprira a
mocidade, parecia-lhe prestes a ir tambm, como uma pomba sai em busca da
outra. Os dias precipitavam-se. Crianas que ela vira ao colo, ou de carrinho
empuxado pelas amas, danavam agora nos bailes. Os que eram homens fumavam; as
mulheres cantavam ao piano. Algumas destas apresentavam-lhe os seus babies,
gorduchos, uma segunda gerao que mamava,  espera de ir bailar tambm, cantar
ou fumar, apresentar outros babies a outras pessoas, e assim por diante.

D. Camila apenas tergiversou um pouco, acabou cedendo. Que
remdio, seno aceitar um genro? Mas, como um velho costume no se perde de um
dia para outro, D. Camila viu paralelamente, naquela festa do corao, um
cenrio e grande cenrio. Preparou-se galhardamente, e o efeito correspondeu ao
esforo. Na igreja, no meio de outras damas; na sala, sentada no sof (o estofo
que forrava este mvel, assim como o papel da parede foram sempre escuros para
fazer sobressair a tez de D. Camila), vestida a capricho, sem o requinte da
extrema juventude, mas tambm sem a rigidez matronal, um meio-termo apenas,
destinado a pr em relevo as suas graas outonias, risonha, e feliz, enfim, a
recente sogra colheu os melhores sufrgios. Era certo que ainda lhe pendia dos
ombros um retalho de prpura.

Prpura supe dinastia. Dinastia exige netos. Restava que
o Senhor abenoasse a unio, e ele abenoou-a, no ano seguinte. D. Camila
acostumara-se  idia; mas era to penoso abdicar, que ela aguardava o neto com
amor e repugnncia. Esse importuno embrio, curioso da vida e pretensioso, era
necessrio na terra? Evidentemente, no; mas apareceu um dia, com as flores de
setembro. Durante a crise, D. Camila s teve de pensar na filha; depois da
crise, pensou na filha e no neto. S dias depois  que pde pensar em si mesma.
Enfim, av. No havia duvidar; era av. Nem as feies que eram ainda
concertadas, nem os cabelos, que eram pretos (salvo meia dzia de fios
escondidos), podiam por si ss denunciar a realidade; mas a realidade existia;
ela era, enfim, av.

Quis recolher-se; e para ter o neto mais perto de si,
chamou a filha para casa. Mas a casa no era um mosteiro, e as ruas e os
jornais com os seus mil rumores acordavam nela os ecos de outro tempo. D.
Camila rasgou o ato de abdicao e tornou ao tumulto.

Um dia, encontrei-a ao lado de uma preta, que levava ao
colo uma criana de cinco a seis meses. D. Camila segurava na mo o chapelinho
de sol aberto para cobrir a criana. Encontrei-a oito dias depois, com a mesma
criana, a mesma preta e o mesmo chapu de sol. Vinte dias depois, e trinta
dias mais tarde, tornei a v-la, entrando para o bond, com a preta e a
criana.  Voc j deu de mamar? dizia ela  preta. Olhe o sol. No v cair.
No aperte muito o menino. Acordou? No mexa com ele. Cubra a carinha, etc.,
etc.

Era o neto. Ela, porm ia to apertadinha, to cuidadosa
da criana, to a mido, to sem outra senhora, que antes parecia me do que
av; e muita gente pensava que era me. Que tal fosse a inteno de D. Camila
no o juro eu ('No jurars', MAT. V, 34). To-somente digo que
nenhuma outra me seria mais desvelada do que D. Camila com o neto;
atriburem-lhe um simples filho era a coisa mais verossmil do mundo.

ANEDOTA PECUNIRIA

Chama-se Falco o meu homem. Naquele dia  quatorze de
abril de 1870  quem lhe entrasse em casa, s dez horas da noite, v-lo-ia passear
na sala, em mangas de camisa, cala preta e gravata branca, resmungando,
gesticulando, suspirando, evidentemente aflito. s vezes, sentava-se; outras,
encostava-se  janela, olhando para a praia, que era a da Gamboa. Mas, em
qualquer lugar ou atitude, demorava-se pouco tempo.

 Fiz mal, dizia ele, muito mal. To minha amiga que ela
era! to amorosa! Ia chorando, coitadinha! Fiz mal, muito mal... Ao menos, que
seja feliz!

Se eu disser que este homem vendeu uma sobrinha, no me
ho de crer; se descer a definir o preo, dez contos de ris, voltar-me-o as
costas com desprezo e indignao. Entretanto, basta ver este olhar felino,
estes dois beios, mestres de clculo, que, ainda fechados, parecem estar
contando alguma coisa, para adivinhar logo que a feio capital do nosso homem
 a voracidade do lucro. Entendamo-nos: ele faz arte pela arte, no ama o
dinheiro pelo que ele pode dar, mas pelo que  em si mesmo! Ningum lhe v
falar dos regalos da vida. No tem cama fofa, nem mesa fina, nem carruagem, nem
comenda. No se ganha dinheiro para esbanj-lo, dizia ele. Vive de migalhas;
tudo o que amontoa  para a contemplao. Vai muitas vezes  burra, que est na
alcova de dormir, com o nico fim de fartar os olhos nos rolos de ouro e maos
de ttulo. Outras vezes, por um requinte de erotismo pecunirio, contempla-os
s de memria. Neste particular, tudo o que eu pudesse dizer, ficaria abaixo de
uma palavra dele mesmo, em 1857.

J ento milionrio, ou quase, encontrou na rua dois
meninos, seus conhecidos, que lhe perguntaram se uma nota de cinco mil-ris,
que lhes dera um tio, era verdadeira. Corriam algumas notas falsas, e os
pequenos lembraram-se disso em caminho. Falco ia com um amigo. Pegou trmulo
na nota, examinou-a bem, virou-a, revirou-a...

  falsa? perguntou com impacincia um dos meninos.

 No;  verdadeira.

 D c, disseram ambos.

Falco dobrou a nota vagarosamente, sem tirar-lhe os olhos
de cima; depois, restituiu-a aos pequenos, e, voltando-se para o amigo, que
esperava por ele, disse-lhe com a maior candura do mundo:

 Dinheiro, mesmo quando no  da gente, faz gosto ver.

Era assim que ele amava o dinheiro, at  contemplao
desinteressada. Que outro motivo podia lev-lo a parar, diante das vitrinas dos
cambistas, cinco, dez, quinze minutos, lambendo com os olhos os montes de
libras e francos, to arrumadinhos e amarelos? O mesmo sobressalto com que
pegou na nota de cinco mil-ris, era um rasgo subtil, era o terror da nota
falsa. Nada aborrecia tanto, como os moedeiros falsos, no por serem
criminosos, mas prejudiciais, por desmoralizarem o dinheiro bom.

A linguagem do Falco valia um estudo. Assim  que, um
dia, em 1864, voltando do enterro de um amigo, referiu o esplendor do prstito,
exclamando com entusiasmo:  'Pegavam no caixo trs mil contos!' E,
como um dos ouvintes no o entendesse logo, concluiu do espanto, que duvidava
dele, e discriminou a afirmao:  'Fulano quatrocentos, Sicrano
seiscentos... Sim, senhor, seiscentos; h dois anos, quando desfez a sociedade
com o sogro, ia em mais de quinhentos; mas suponhamos quinhentos...' E foi
por diante, demonstrando, somando e concluindo:  'Justamente, trs mil
contos!'

No era casado. Casar era botar dinheiro fora. Mas os anos
passaram, e aos quarenta e cinco entrou a sentir uma certa necessidade moral,
que no compreendeu logo, e era a saudade paterna. No mulher, no parentes,
mas um filho ou uma filha, se ele o tivesse, era como receber um pataco de
ouro. Infelizmente, esse outro capital devia ter sido acumulado em tempo; no
podia come-lo a ganhar to tarde. Restava a loteria; a loteria deu-lhe o
prmio grande.

Morreu-lhe o irmo, e trs meses depois a cunhada,
deixando uma filha de onze anos. Ele gostava muito desta e de outra sobrinha,
filha de uma irm viva; dava-lhes beijos, quando as visitava; chegava mesmo ao
delrio de levar-lhes, uma ou outra vez, biscoitos. Hesitou um pouco, mas,
enfim, recolheu a rf; era a filha cobiada. No cabia em si de contente;
durante as primeiras semanas, quase no saa de casa, ao p dela, ouvindo-lhe
histrias e tolices.

Chamava-se Jacinta, e no era bonita; mas tinha a voz
melodiosa e os modos fagueiros. Sabia ler e escrever; comeava a aprender
msica. Trouxe o piano consigo, o mtodo e alguns exerccios; no pde trazer o
professor, porque o tio entendeu que era melhor ir praticando o que aprendera,
e um dia... mais tarde... Onze anos, doze anos, treze anos, cada ano que
passava era mais um vnculo que atava o velho solteiro  filha adotiva, e
vice-versa. Aos treze, Jacinta mandava na casa; aos dezessete era verdadeira
dona. No abusou do domnio; era naturalmente modesta, frugal, poupada.

 Um anjo! dizia o Falco ao Chico Borges.

Este Chico Borges tinha quarenta anos, e era dono de um
trapiche. Ia jogar com o Falco  noite. Jacinta assistia s partidas. Tinha
ento dezoito anos; no era mais bonita, mas diziam todos 'que estava
enfeitando muito'. Era pequenina, e o trapicheiro adorava as mulheres
pequeninas. Corresponderam-se, o namoro fez-se paixo.

 Vamos a elas, dizia o Chico Borges ao entrar, pouco
depois de ave-marias.

As cartas eram o chapu de sol dos dois namorados. No
jogavam a dinheiro; mas o Falco tinha tal sede ao lucro, que contemplava os
prprios tentos, sem valor, e contava-os de dez em dez minutos, para ver se
ganhava ou perdia. Quando perdia, caa-lhe o rosto num desalento incurvel, e
ele recolhia-se pouco a pouco ao silncio. Se a sorte teimava em persegui-lo,
acabava o jogo, e levantava-se to melanclico e cego, que a sobrinha e o
parceiro podiam apertar a mo, uma, duas, trs vezes, sem que ele visse coisa
nenhuma.

Era isto em 1869. No princpio de 1870 Falco props ao
outro uma venda de aes. No as tinha; mas farejou uma grande baixa, e contava
ganhar de um s lance trinta a quarenta contos ao Chico Borges. Este
respondeu-lhe finamente que andava pensando em oferecer-lhe a mesma coisa. Uma
vez que ambos queriam vender e nenhum comprar, podiam juntar-se e propor a
venda a um terceiro. Acharam o terceiro, e fecharam o contrato a sessenta dias.
Falco estava to contente, ao voltar do negcio, que o scio abriu-lhe o
corao e pediu-lhe a mo de Jacinta. Foi o mesmo que, se de repente, comeasse
a falar turco. Falco parou, embasbacado, sem entender. Que lhe desse a
sobrinha? Mas ento...

 Sim; confesso a voc que estimaria muito casar com ela,
e ela... penso que tambm estimaria casar comigo.

 Qual, nada! interrompeu o Falco. No, senhor; est
muito criana, no consinto.

 Mas reflita...

 No reflito, no quero.

Chegou a casa irritado e aterrado. A sobrinha afagou-o
tanto para saber o que era, que ele acabou contando tudo, e chamando-lhe
esquecida e ingrata. Jacinta empalideceu; amava os dois, e via-os to dados,
que no imaginou nunca esse contraste de afeies. No quarto chorou  larga;
depois escreveu uma carta ao Chico Borges, pedindo-lhe pelas cinco chagas de
Nosso Senhor Jesus Cristo, que no fizesse barulho nem brigasse com o tio;
dizia-lhe que esperasse, e jurava-lhe um amor eterno.

No brigaram os dois parceiros; mas as visitas foram
naturalmente mais escassas e frias. Jacinta no vinha  sala, ou retirava-se
logo. O terror do Falco era enorme. Ele amava a sobrinha com um amor de co,
que persegue e morde aos estranhos. Queria-a para si, no como homem, mas como
pai. A paternidade natural d foras para o sacrifcio da separao; a
paternidade dele era de emprstimo, e, talvez, por isso mesmo, mais egosta.
Nunca pensara em perd-la; agora, porm, eram trinta mil cuidados, janelas
fechadas, advertncias  preta, uma vigilncia perptua, um espiar os gestos e
os ditos, uma campanha de D. Bartolo.

Entretanto, o sol, modelo de funcionrios, continuou a servir
pontualmente os dias, um a um, at chegar dos dois meses do prazo marcado para
a entrega das aes. Estas deviam baixar, segundo a previso dos dois; mas as
aes, como as loterias e as batalhas, zombam dos clculos humanos. Naquele
caso, alm de zombaria, houve crueldade, porque nem baixaram, nem ficaram ao
par; subiram at converter o esperado lucro de quarenta contos numa perda de
vinte.

Foi aqui que o Chico Borges teve uma inspirao de gnio.
Na vspera, quando o Falco, abatido e mudo, passeava na sala o seu
desapontamento, props ele custear todo o dficit, se lhe desse a
sobrinha. Falco teve um deslumbramento.

 Que eu...?

 Isso mesmo, interrompeu o outro, rindo.

 No, no...

No quis; recusou trs e quatro vezes. A primeira impresso
fora de alegria, eram os dez contos na algibeira. Mas a idia de separar-se de
Jacinta era insuportvel, e recusou. Dormiu mal. De manh, encarou a situao,
pesou as coisas, considerou que, entregando Jacinta ao outro, no a perdia
inteiramente, ao passo que os dez contos iam-se embora. E, depois, se ela
gostava dele e ele dela, por que razo separ-los? Todas as filhas casam-se, e
os pais contentam-se de as ver felizes. Correu  casa do Chico Borges, e
chegaram a acordo.

 Fiz mal, muito mal, bradava ele na noite do casamento.
To minha amiga que ela era! To amorosa! Ia chorando, coitadinha... Fiz mal,
muito mal.

Cessara o terror dos dez contos; comeara o fastio da
solido. Na manh seguinte, foi visitar os noivos. Jacinta no se limitou a
regal-lo com um bom almoo, encheu-o de mimos e afagos; mas nem estes, nem o
almoo lhe restituram a alegria. Ao contrrio, a felicidade dos noivos
entristeceu-o mais. Ao voltar para casa no achou a carinha meiga de Jacinta.
Nunca mais lhe ouviria as cantigas de menina e moa; no seria ela quem lhe
faria o ch, quem lhe traria,  noite, quando ele quisesse ler, o velho tomo
ensebado do Saint-Clair das Ilhas, ddiva de 1850.

 Fiz mal, muito mal...

Para remediar o mal feito, transferiu as cartas para a
casa da sobrinha, e ia l jogar,  noite, com o Chico Borges. Mas a fortuna,
quando flagela um homem, corta-lhe todas as vazas. Quatro meses depois, os
recm-casados foram para a Europa; a solido alargou-se de toda a extenso do
mar. Falco contava ento cinqenta e quatro anos. J estava mais consolado do
casamento de Jacinta; tinha mesmo o plano de ir morar com eles, ou de graa, ou
mediante uma pequena retribuio, que calculou ser muito mais econmico do que
a despesa de viver s. Tudo se esboroou; ei-lo outra vez na situao de oito
anos antes, com a diferena que a sorte arrancara-lhe a taa entre dois goles.

Vai seno quando cai-lhe outra sobrinha em casa. Era a
filha da irm viva, que morreu e lhe pediu a esmola de tomar conta dela. Falco
no prometeu nada, porque um certo instinto o levava a no prometer coisa
nenhuma a ningum, mas a verdade  que recolheu a sobrinha, to depressa a irm
fechou os olhos. No teve constrangimento; ao contrrio, abriu-lhe as portas de
casa, com um alvoroo de namorado, e quase abenoou a morte da irm. Era outra
vez a filha perdida.

'Esta h de fechar-me os olhos', dizia ele
consigo.

No era fcil. Virgnia tinha dezoito anos, feies lindas
e originais; era grande e vistosa. Para evitar que lha levassem, Falco comeou
por onde acabara da primeira vez:  janelas cerradas, advertncias  preta,
raros passeios, s com ele e de olhos baixos. Virgnia no se mostrou enfadada.

 Nunca fui janeleira, dizia ela, e acho muito feio que uma
moa viva com o sentido na rua.

Outra cautela do Falco foi no trazer para casa seno
parceiros de cinqenta anos para cima ou casados. Enfim, no cuidou mais da
baixa das aes. E tudo isso era desnecessrio, porque a sobrinha no cuidava
realmente seno dele e da casa. s vezes, como a vista do tio comeava a
diminuir muito, lia-lhe ela mesma alguma pgina do Saint-Clair das Ilhas.
Para suprir os parceiros, quando eles faltavam, aprendeu a jogar cartas, e,
entendendo que o tio gostava de ganhar, deixava-se sempre perder. Ia mais
longe: quando perdia muito, fingia-se zangada ou triste, com o nico fim de dar
ao tio um acrscimo de prazer. Ele ria ento  larga, mofava dela, achava-lhe o
nariz comprido, pedia um leno para enxugar-lhe as lgrimas; mas no deixava de
contar os seus tentos de dez em dez minutos, e se algum caa no cho (eram
gros de milho) descia a vela para apanh-lo.

No fim de trs meses, Falco adoeceu. A molstia no foi
grave nem longa; mas o terror da morte apoderou-se-lhe do esprito, e foi ento
que se pde ver toda a afeio que ele tinha  moa. Cada visita que se lhe
chegava, era recebida com rispidez, ou pelo menos com sequido. Os mais ntimos
padeciam mais, porque ele dizia-lhes brutalmente que ainda no era cadver, que
a carnia ainda estava viva, que os urubus enganavam-se de cheiro, etc. Mas
nunca Virgnia achou nele um s instante de mau humor. Falco obedecia-lhe em
tudo, com uma passividade de criana, e quando ria,  porque ela o fazia rir.

 Vamos, tome o remdio, deixe-se disso, vosmec agora 
meu filho...

Falco sorria e bebia a droga. Ela sentava-se ao p da
cama, contando-lhe histrias; espiava o relgio para dar-lhe os caldos ou a
galinha, lia-lhe o sempiterno Saint-Clair. Veio a convalescena. Falco
saiu a alguns passeios, acompanhado de Virgnia. A prudncia com que esta,
dando-lhe o brao, ia mirando as pedras da rua, com medo de encarar os olhos de
algum homem, encantavam o Falco.

'Esta h de fechar-me os olhos', repetia ele
consigo mesmo. Um dia, chegou a pens-lo em voz alta:  No  verdade que voc
me h de fechar os olhos?

 No diga tolices!

Conquanto estivesse na rua, ele parou, apertou-lhe muito
as mos, agradecido, no achando que dizer. Se tivesse a faculdade de chorar,
ficaria provavelmente com os olhos midos. Chegando  casa, Virgnia correu ao
quarto para reler uma carta que lhe entregara na vspera uma D. Bernarda, amiga
de sua me. Era datada de New York, e trazia por nica assinatura este nome:
Reginaldo. Um dos trechos dizia assim:

'Vou daqui no paquete de 25. Espera-me sem falta. No
sei ainda se irei ver-te logo ou no. Teu tio deve lembrar-se de mim; viu-me em
casa de meu tio Chico Borges, no dia do casamento de tua prima...'

Quarenta dias depois, desembarcava este Reginaldo, vindo
de New York, com trinta anos feitos e trezentos mil dollars ganhos.
Vinte e quatro horas depois visitou o Falco, que o recebeu apenas com polidez.
Mas o Reginaldo era fino e prtico; atinou com a principal corda do homem, e
vibrou-a. Contou-lhe os prodgios de negcio nos Estados Unidos, as hordas de
moedas que corriam de um a outro dos dois oceanos. Falco ouvia deslumbrado, e
pedia mais. Ento o outro fez-lhe uma extensa computao das companhias e
bancos, aes, saldos de oramento pblico, riquezas particulares, receita
municipal de New York; descreveu-lhe os grandes palcios do comrcio...

 Realmente,  um grande pas, dizia o Falco, de quando
em quando. E depois de trs minutos de reflexo:  Mas, pelo que o senhor
conta, s h ouro?

 Ouro s, no; h muita prata e papel; mas ali papel e
ouro so a mesma coisa. E moedas de outras naes? Hei de mostrar-lhe uma
coleo que trago. Olhe; para ver o que  aquilo basta pr os olhos em mim. Fui
para l pobre, com vinte e trs anos; no fim de sete anos, trago seiscentos
contos.

Falco estremeceu:  Eu, com a sua idade, confessou ele,
mal chegaria a cem.

Estava encantado. Reginaldo disse-lhe que precisava de
duas ou trs semanas, para lhe contar os milagres do dollar.

 Como  que o senhor lhe chama?

 Dollar.

 Talvez no acredite que nunca vi essa moeda.

Reginaldo tirou do bolso do colete um dollar e
mostrou-lho. Falco, antes de lhe pr a mo, agarrou-o com os olhos. Como
estava um pouco escuro, levantou-se e foi at  janela, para examin-lo bem 
de ambos os lados; depois restituiu-o, gabando muito o desenho e a cunhagem, e
acrescentando que os nossos antigos pataces eram bem bonitos.

As visitas repetiram-se. Reginaldo assentou de pedir a
moa. Esta, porm, disse-lhe que era preciso ganhar primeiro as boas graas do
tio; no casaria contra a vontade dele. Reginaldo no desanimou. Tratou de
redobrar as finezas; abarrotou o tio de dividendos fabulosos.

 A propsito, o senhor nunca me mostrou a sua coleo de
moedas, disse-lhe um dia o Falco.

 V amanh  minha casa.

Falco foi. Reginaldo mostrou-lhe a coleo metida num
mvel envidraado por todos os lados. A surpresa de Falco foi extraordinria;
esperava uma caixinha com um exemplar de cada moeda, e achou montes de ouro, de
prata, de bronze e de cobre. Falco mirou-as primeiro de um olhar universal e
coletivo; depois, comeou a fix-las especificamente. S conheceu as libras, os
dollars e os francos; mas o Reginaldo nomeou-as todas: florins, coroas,
rublos, dracmas, piastras, pesos, rupias, toda a numismtica do trabalho,
concluiu ele poeticamente.

 Mas que pacincia a sua para ajuntar tudo isto! disse
ele.

 No fui eu que ajuntei, replicou o Reginaldo; a coleo
pertencia ao esplio de um sujeito de Filadlfia.

Custou-me uma bagatela: cinco mil dollars.

Na verdade, valia mais. Falco saiu dali com a coleo na
alma; falou dela  sobrinha, e, imaginariamente, desarrumou e tornou a arrumar
as moedas, como um amante desgrenha a amante para touc-la outra vez. De noite
sonhou que era um florim, que um jogador o deitava  mesa do lansquenet,
e que ele trazia consigo para a algibeira do jogador mais de duzentos florins.
De manh, para consolar-se, foi contemplar as prprias moedas que tinha na
burra; mas no se consolou nada. O melhor dos bens  o que se no possui.

Dali a dias, estando em casa, na sala, pareceu-lhe ver uma
moeda no cho. Inclinou-se a apanh-la; no era moeda, era uma simples carta. Abriu
a carta distraidamente e leu-a espantado: era de Reginaldo a Virgnia...

 Basta! interrompe-me o leitor; adivinho o resto.
Virgnia casou com o Reginaldo, as moedas passaram s mos do Falco, e eram
falsas...

No, senhor, eram verdadeiras. Era mais moral que, para
castigo do nosso homem, fossem falsas; mas, ai de mim! eu no sou Sneca, no
passo de um Suetnio que contaria dez vezes a morte de Csar, se ele
ressuscitasse dez vezes, pois no tornaria  vida, seno para tornar ao
imprio.

FULANO

Venha o leitor comigo assistir  abertura do testamento do
meu amigo Fulano Beltro. Conheceu-o? Era um homem de cerca de sessenta anos.
Morreu ontem, dois de janeiro de 1884, s onze horas e trinta minutos da noite.
No imagina a fora de nimo que mostrou em toda a molstia. Caiu na vspera de
finados, e a princpio supnhamos que no fosse nada; mas a doena persistiu, e
ao fim de dois meses e poucos dias a morte o levou.

Eu confesso-lhe que estou curioso de ouvir o testamento.
H de conter por fora algumas determinaes de interesse geral e honrosas para
ele. Antes de 1863 no seria assim, porque at ento era um homem muito metido
consigo, reservado, morando no caminho do Jardim Botnico, para onde ia de
nibus ou de mula. Tinha a mulher e o filho vivos, a filha solteira, com treze
anos. Foi nesse ano que ele comeou a ocupar-se com outras coisas, alm da
famlia, revelando um esprito universal e generoso. Nada posso afirmar-lhe
sobre a causa disto. Creio que foi uma apologia de amigo por ocasio dele fazer
quarenta anos. Fulano Beltro leu no Jornal do Comrcio, no dia cinco de
maro de 1864, um artigo annimo em que se lhe diziam coisas belas e exatas: 
bom pai, bom esposo, amigo e pontual, cidado digno, alma levantada e pura. Que
se lhe fizesse justia, era muito; mas anonimamente, era raro.

 Voc ver, disse Fulano Beltro  mulher, voc ver que
isto  do Xavier ou do Castro; logo rasgaremos o capote.

Castro e Xavier eram dois habituados da casa, parceiros
constantes do voltarete e velhos amigos do meu amigo. Costumavam dizer coisas
amveis, no dia cinco de maro, mas era ao jantar, na intimidade da famlia,
entre quatro paredes; impressos, era a primeira vez que ele se benzia com
elogios. Pode ser que me engane; mas estou que o espetculo da justia, a prova
material de que as boas qualidades e as boas aes no morrem no escuro, foi o
que animou o meu amigo a dispersar-se, a aparecer, a divulgar-se, a dar 
coletividade humana um pouco das virtudes com que nasceu. Considerou que
milhares de pessoas estariam lendo o artigo,  mesma hora em que o lia tambm;
imaginou que o comentavam, que interrogavam, que confirmavam, ouviu mesmo, por
um fenmeno de alucinao que a cincia h de explicar, e que no  raro, ouviu
distintamente algumas vozes do pblico. Ouviu que lhe chamavam homem de bem,
cavalheiro distinto, amigo dos amigos, laborioso, honesto, todos os
qualificativos que ele vira empregados em outros, e que na vida de bicho do
mato em que ia, nunca presumiu que lhe fossem  tipograficamente  aplicados.

 A imprensa  uma grande inveno, disse ele  mulher.

Foi ela, D. Maria Antnia, quem rasgou o capote; o artigo
era do Xavier. Declarou este que s em ateno  dona da casa confessava a
autoria; e acrescentou que a manifestao no sara completa, porque a idia
dele era que o artigo fosse dado em todos os jornais, no o tendo feito por
hav-lo acabado s sete horas da noite. No houve tempo de tirar cpias. Fulano
Beltro emendou essa falta, se falta se lhe podia chamar, mandando transcrever
o artigo no Dirio do Rio e no Correio Mercantil.

Quando mesmo, porm, este fato no desse causa  mudana
de vida do nosso amigo, fica uma coisa de p, a saber, que daquele ano em
diante, e propriamente do ms de maro,  que ele comeou a aparecer mais. Era
at ento um casmurro, que no ia s assemblias das companhias, no votava nas
eleies polticas, no freqentava teatros, nada, absolutamente nada. J
naquele ms de maro, a vinte e dois ou vinte e trs, presenteou a Santa Casa
de Misericrdia com um bilhete da grande loteria de Espanha, e recebeu uma
honrosa carta do provedor, agradecendo em nome dos pobres. Consultou a mulher e
os amigos, se devia publicar a carta ou guard-la, parecendo-lhe que no a
publicar era uma desateno. Com efeito, a carta foi dada a vinte e seis de
maro, em todas as folhas, fazendo uma delas comentrios desenvolvidos acerca
da piedade do doador. Das pessoas que leram esta notcia, muitas naturalmente
ainda se lembravam do artigo do Xavier, e ligaram as duas ocorrncias:
'Fulano Beltro  aquele mesmo que, etc.', primeiro alicerce da
reputao de um homem.

 tarde, temos de ir ouvir o testamento, no posso estar a
contar-lhe tudo. Digo-lhe sumariamente que as injustias da rua comearam a ter
nele um vingador ativo e discursivo; que as misrias, principalmente as
misrias dramticas, filhas de um incndio ou inundao, acharam no meu amigo a
iniciativa dos socorros que, em tais casos, devem ser prontos e pblicos.
Ningum como ele para um desses movimentos. Assim tambm com as alforrias de
escravos. Antes da lei de 28 de setembro de 1871, era muito comum aparecerem na
Praa do Comrcio crianas escravas, para cuja liberdade se pedia o favor dos
negociantes. Fulano Beltro iniciava trs quartas partes das subscries, com
tal xito, que em poucos minutos ficava o preo coberto.

A justia que se lhe fazia, animava-o, e at lhe trazia
lembranas que, sem ela,  possvel que nunca lhe tivessem acudido. No falo do
baile que ele deu para celebrar a vitria de Riachuelo, porque era um baile
planeado antes de chegar a notcia da batalha, e ele no fez mais do que
atribuir-lhe um motivo mais alto do que a simples recreao da famlia, meter o
retrato do almirante Barroso no meio de um trofu de armas navais e bandeiras
no salo de honra, em frente ao retrato do imperador, e fazer,  ceia, alguns
brindes patriticos, como tudo consta dos jornais de 1865.

Mas aqui vai, por exemplo, um caso bem caracterstico da
influncia que a justia dos outros pode ter no nosso procedimento. Fulano
Beltro vinha um dia do Tesouro, aonde tinha ido tratar de umas dcimas. Ao
passar pela igreja da Lampadosa, lembrou-se que fora ali batizado; e nenhum
homem tem uma recordao destas, sem remontar o curso dos anos e dos
acontecimentos, deitar-se outra vez no colo materno, rir e brincar, como nunca
mais se ri nem brinca. Fulano Beltro no escapou a este efeito; atravessou o
adro, entrou na igreja, to singela, to modesta, e para ele to rica e linda.
Ao sair, tinha uma resoluo feita, que ps por obra dentro de poucos dias:
mandou de presente  Lampadosa um soberbo castial de prata, com duas datas,
alm do nome do doador  a data da doao e a do batizado. Todos os jornais
deram esta notcia, e at a receberam em duplicata, porque a administrao da
igreja entendeu (com muita razo) que tambm lhe cumpria divulg-la aos quatro
ventos.

No fim de trs anos, ou menos, entrara o meu amigo nas
cogitaes pblicas; o nome dele era lembrado, mesmo quando nenhum sucesso
recente vinha sugeri-lo, e no s lembrado como adjetivado. J se lhe notava a
ausncia em alguns lugares. J o iam buscar para outros. D. Maria Antnia via
assim entrar-lhe no den a serpente bblica, no para tent-la, mas para tentar
a Ado. Com efeito, o marido ia a tantas partes, cuidava de tantas coisas,
mostrava-se tanto na Rua do Ouvidor,  porta do Bernardo, que afrouxou a
convivncia antiga da casa. D. Maria Antonia disse-lho. Ele concordou que era
assim, mas demonstrou-lhe que no podia ser de outro modo, e, em todo caso, se
mudara de costumes, no mudara de sentimentos. Tinha obrigaes morais com a
sociedade; ningum se pertence exclusivamente; da um pouco de disperso dos
seus cuidados. A verdade  que tinham vivido demasiadamente reclusos; no era
justo nem bonito. No era mesmo conveniente; a filha caminhava para a idade do
matrimnio, e casa fechada cria morrinha de convento; por exemplo, um carro,
por que  que no teriam um carro? D. Maria Antnia sentiu um arrepio de
prazer, mas curto; protestou logo, depois de um minuto de reflexo.

 No; carro para qu? No; deixemo-nos de carro.

 J est comprado, mentiu o marido.

Mas aqui chegamos ao juzo da provedoria. No veio ainda
ningum; esperemos  porta. Tem pressa? So vinte minutos no mximo. Pois 
verdade, comprou uma linda vitria; e, para quem, s por modstia, andou tantos
anos s costas de mula ou apertado num nibus, no era fcil acostumar-se logo
ao novo veculo. A isso atribuo eu as atitudes salientes e inclinadas com que
ele andava, nas primeiras semanas, os olhos que estendia a um lado e outro, 
maneira de pessoa que procura algum ou uma casa. Afinal acostumou-se; passou a
usar das atitudes reclinadas, embora sem um certo sentimento de indiferena ou
despreocupao, que a mulher e a filha tinham muito bem, talvez por serem
mulheres. Elas, alis, no gostavam de sair de carro; mas ele teimava tanto que
sassem, que fossem a toda a parte, e at a parte nenhuma, que no tinham
remdio seno obedecer-lhe; e, na rua, era sabido, mal vinha ao longe a ponta
do vestido de duas senhoras, e na almofada um certo cocheiro, toda a gente
dizia logo:  a vem a famlia de Fulano Beltro. E isto mesmo, sem que ele
talvez o pensasse, tornava-o mais conhecido.

No ano de 1868 deu entrada na poltica. Sei do ano porque
coincidiu com a queda dos liberais e a subida dos conservadores. Foi em maro
ou abril de 1868 que ele declarou aderir  situao, no  socapa, mas
estrepitosamente. Este foi, talvez, o ponto mais fraco da vida do meu amigo.
No tinha idias polticas; quando muito, dispunha de um desses temperamentos
que substituem as idias, e fazem crer que um homem pensa, quando simplesmente
transpira. Cedeu, porm, a uma alucinao de momento. Viu-se na Cmara vibrando
um aparte, ou inclinado sobre a balaustrada, em conversa com o presidente do
Conselho, que sorria para ele, numa intimidade grave de governo. E a  que a
galeria, na exata acepo do termo, tinha de o contemplar. Fez tudo o que pde
para entrar na Cmara; a meio caminho caiu a situao. Voltando do
atordoamento, lembrou-se de afirmar ao Itabora o contrrio do que dissera ao
Zacarias, ou antes a mesma coisa; mas perdeu a eleio, e deu de mo 
poltica. Muito mais acertado andou, metendo-se na questo da maonaria com os
prelados. Deixara-se estar quedo, a princpio; por um lado, era maom; por
outro, queria respeitar os sentimentos religiosos da mulher. Mas o conflito
tomou tais propores que ele no podia ficar calado; entrou nele com o ardor,
a expanso, a publicidade que metia em tudo; celebrou reunies em que falou
muito da liberdade de conscincia e do direito que assistia ao maom de enfiar
uma opa; assinou protestos, representaes, felicitaes, abriu a bolsa e o
corao, escancaradamente.

Morreu-lhe a mulher em 1878. Ela pediu-lhe que a
enterrasse sem aparato, e ele assim o fez, porque a amava deveras e tinha a sua
ltima vontade como um decreto do cu. J ento perdera o filho; e a filha,
casada, achava-se na Europa. O meu amigo dividiu a dor com o pblico; e, se
enterrou a mulher sem aparato, no deixou de lhe mandar esculpir na Itlia um
magnfico mausolu, que esta cidade admirou exposto, na Rua do Ouvidor, durante
perto de um ms. A filha ainda veio assistir  inaugurao. Deixei de os ver
uns quatro anos. Ultimamente surgiu a doena, que no fim de pouco mais de dois
meses o levou desta para a melhor. Note que, at comear a agonia, nunca perdeu
a razo nem a fora d'alma. Conversava com as visitas, mandava-as relacionar,
no esquecia mesmo noticiar s que chegavam, as que acabavam de sair; coisa
intil, porque uma folha amiga publicava-as todas. Na manh do dia em que
morreu ainda ouviu ler os jornais, e num deles uma pequena comunicao
relativamente  sua molstia, o que de algum modo pareceu reanim-lo. Mas para
a tarde enfraqueceu um pouco;  noite expirou.

Vejo que est aborrecido. Realmente demoram-se... Espere;
creio que so eles. So; entremos. C est o nosso magistrado, que comea a ler
o testamento. Est ouvindo? No era preciso esta minuciosa genealogia,
excedente das prticas tabelioas; mas isto mesmo de contar a famlia desde o
quarto av prova o esprito exato e paciente do meu amigo. No esquecia nada. O
cerimonial do saimento  longo e complicado, mas bonito. Comea agora a lista
dos legados. So todos pios; alguns industriais. V vendo a alma do meu amigo.
Trinta contos...

Trinta contos para qu? Para servir de comeo a uma
subscrio pblica destinada a erigir uma esttua de Pedro lvares Cabral.
'Cabral, diz ali o testamento, no pode ser olvidado dos brasileiros, foi
o precursor do nosso imprio.' Recomenda que a esttua seja de bronze, com
quatro medalhes no pedestal, a saber, o retrato do bispo Coutinho, presidente
da Constituinte, o de Gonzaga, chefe da conjurao mineira, e o de dois
cidados da presente gerao 'notveis por seu patriotismo e
liberalidade',  escolha da comisso, que ele mesmo nomeou para levar a
empresa a cabo.

Que ela se realize, no sei; falta-nos a perseverana do
fundador da verba. Dado, porm, que a comisso se desempenhe da tarefa, e que
este sol americano ainda veja erguer-se a esttua de Cabral,  da nossa honra
que ele contemple num dos medalhes o retrato do meu finado amigo. No lhe
parece? Bem, o magistrado acabou, vamos embora.

A SEGUNDA VIDA

Monsenhor Caldas interrompeu a
narrao do desconhecido:

 D licena?  s um instante.

Levantou-se, foi ao interior da casa, chamou o preto velho
que o servia, e disse-lhe em voz baixa:

 Joo, vai ali  estao de urbanos, fala da minha parte
ao comandante, e pede-lhe que venha c com um ou dois homens, para livrar-me de
um sujeito doido. Anda, vai depressa.

E, voltando  sala:

 Pronto, disse ele; podemos continuar.

 Como ia dizendo a Vossa Reverendssima, morri no dia
vinte de maro de 1860, s cinco horas e quarenta e trs minutos da manh.
Tinha ento sessenta e oito anos de idade. Minha alma voou pelo espao, at
perder a terra de vista, deixando muito abaixo a lua, as estrelas e o sol;
penetrou finalmente num espao em que no havia mais nada, e era clareado
to-somente por uma luz difusa. Continuei a subir, e comecei a ver um pontinho
mais luminoso ao longe, muito longe. O ponto cresceu, fez-se sol. Fui por ali
dentro, sem arder, porque as almas so incombustveis. A sua pegou fogo alguma
vez?

 No, senhor.

 So incombustveis. Fui subindo, subindo; na distncia
de quarenta mil lguas, ouvi uma deliciosa msica, e logo que cheguei a cinco
mil lguas, desceu um enxame de almas, que me levaram num palanquim feito de
ter e plumas. Entrei da a pouco no novo sol, que  o planeta dos virtuosos da
terra. No sou poeta, monsenhor; no ouso descrever-lhe as magnificncias
daquela estncia divina. Poeta que fosse, no poderia, usando a linguagem
humana, transmitir-lhe a emoo da grandeza, do deslumbramento, da felicidade,
os xtases, as melodias, os arrojos de luz e cores, uma coisa indefinvel e
incompreensvel. S vendo. L dentro  que soube que completava mais um milheiro
de almas; tal era o motivo das festas extraordinrias que me fizeram, e que
duraram dois sculos, ou, pelas nossas contas, quarenta e oito horas. Afinal,
concludas as festas, convidaram-me a tornar  terra para cumprir uma vida
nova; era o privilgio de cada alma que completava um milheiro. Respondi
agradecendo e recusando, mas no havia recusar. Era uma lei eterna. A nica
liberdade que me deram foi a escolha do veculo; podia nascer prncipe ou
condutor de nibus. Que fazer? Que faria Vossa Reverendssima no meu lugar?

 No posso saber; depende...

 Tem razo; depende das circunstncias. Mas imagine que
as minhas eram tais que no me davam gosto a tornar c. Fui vtima da
inexperincia, monsenhor, tive uma velhice ruim, por essa razo. Ento lembrou-me
que sempre ouvira dizer a meu pai e outras pessoas mais velhas, quando viam
algum rapaz:  'Quem me dera aquela idade, sabendo o que sei hoje!'
Lembrou-me isto, e declarei que me era indiferente nascer mendigo ou potentado,
com a condio de nascer experiente. No imagina o riso universal com que me
ouviram. J, que ali preside a provncia dos pacientes, disse-me que um tal
desejo era disparate; mas eu teimei e venci. Da a pouco escorreguei no espao:
gastei nove meses a atravess-lo at cair nos braos de uma ama de leite, e
chamei-me Jos Maria. Vossa Reverendssima  Romualdo, no?

 Sim, senhor; Romualdo de Sousa Caldas.

 Ser parente do padre Sousa Caldas?

 No, senhor.

 Bom poeta o padre Caldas. Poesia  um dom; eu nunca pude
compor uma dcima. Mas, vamos ao que importa. Conto-lhe primeiro o que me
sucedeu; depois lhe direi o que desejo de Vossa Reverendssima. Entretanto, se
me permitisse ir fumando...

Monsenhor Caldas fez um gesto de assentimento, sem perder
de vista a bengala que Jos Maria conservava atravessada sobre as pernas. Este
preparou vagarosamente um cigarro. Era um homem de trinta e poucos anos,
plido, com um olhar ora mole e apagado, ora inquieto e centelhante. Apareceu
ali, tinha o padre acabado de almoar, e pediu-lhe uma entrevista para negcio
grave e urgente. Monsenhor f-lo entrar e sentar-se; no fim de dez minutos, viu
que estava com um luntico. Perdoava-lhe a incoerncia das idias ou o
assombroso das invenes; pode ser at que lhe servissem de estudo. Mas o
desconhecido teve um assomo de raiva, que meteu medo ao pacato clrigo. Que
podiam fazer ele e o preto, ambos velhos, contra qualquer agresso de um homem
forte e louco? Enquanto esperava o auxlio policial, Monsenhor Caldas
desfazia-se em sorrisos e assentimentos de cabea, espantava-se com ele,
alegrava-se com ele, poltica til com os loucos, as mulheres e os potentados.

Jos Maria acendeu finalmente o cigarro, e continuou:

 Renasci em cinco de janeiro de 1861. No lhe digo nada
da nova meninice, porque a a experincia teve s uma forma instintiva. Mamava
pouco; chorava o menos que podia para no apanhar pancada. Comecei a andar
tarde, por medo de cair, e da me ficou uma tal ou qual fraqueza nas pernas.
Correr e rolar, trepar nas rvores, saltar paredes, trocar murros, coisas to
teis, nada disso fiz, por medo de contuso e sangue. Para falar com franqueza,
tive uma infncia aborrecida, e a escola no o foi menos. Chamavam-me tolo e
moleiro. Realmente, eu vivia fugindo de tudo. Creia que durante esse tempo no
escorreguei, mas tambm no corria nunca. Palavra, foi um tempo de
aborrecimento; e, comparando as cabeas quebradas de outro tempo com o tdio de
hoje, antes as cabeas quebradas. Cresci; fiz-me rapaz, entrei no perodo dos
amores... No se assuste; serei casto, como a primeira ceia. Vossa
Reverendssima sabe o que  uma ceia de rapazes e mulheres?

 Como quer que saiba?...

 Tinha dezenove anos, continuou Jos Maria, e no imagina
o espanto dos meus amigos, quando me declarei pronto a ir a uma tal ceia...
Ningum esperava tal coisa de um rapaz to cauteloso, que fugia de tudo, dos
sonos atrasados, dos sonos excessivos, de andar sozinho a horas mortas, que
vivia, por assim dizer, s apalpadelas. Fui  ceia; era no Jardim Botnico,
obra esplndida. Comidas, vinhos, luzes, flores, alegria dos rapazes, os olhos
das damas, e, por cima de tudo, um apetite de vinte anos. H de crer que no
comi nada? A lembrana de trs indigestes apanhadas quarenta anos antes, na
primeira vida, fez-me recuar. Menti dizendo que estava indisposto. Uma das
damas veio sentar-se  minha direita, para curar-me; outra levantou-se tambm,
e veio para a minha esquerda, com o mesmo fim. Voc cura de um lado, eu curo do
outro, disseram elas. Eram lpidas, frescas, astuciosas, e tinham fama de
devorar o corao e a vida dos rapazes. Confesso-lhe que fiquei com medo e
retra-me. Elas fizeram tudo, tudo; mas em vo. Vim de l de manh, apaixonado
por ambas, sem nenhuma delas, e caindo de fome. Que lhe parece? concluiu Jos
Maria pondo as mos nos joelhos, e arqueando os braos para fora.

 Com efeito...

 No lhe digo mais nada; Vossa Reverendssima adivinhar
o resto. A minha segunda vida  assim uma mocidade expansiva e impetuosa,
enfreada por uma experincia virtual e tradicional. Vivo como Eurico, atado ao
prprio cadver... No, a comparao no  boa. Como lhe parece que vivo?

 Sou pouco imaginoso. Suponho que vive assim como um
pssaro, batendo as asas e amarrado pelos ps...

 Justamente. Pouco imaginoso? Achou a frmula;  isso
mesmo. Um pssaro, um grande pssaro, batendo as asas, assim...

Jos Maria ergueu-se, agitando os braos,  maneira de
asas. Ao erguer-se, caiu-lhe a bengala no cho; mas ele no deu por ela.
Continuou a agitar os braos, em p, defronte do padre, e a dizer que era isso
mesmo, um pssaro, um grande pssaro... De cada vez que batia os braos nas
coxas, levantava os calcanhares, dando ao corpo uma cadncia de movimentos, e
conservava os ps unidos, para mostrar que os tinha amarrados. Monsenhor
aprovava de cabea; ao mesmo tempo afiava as orelhas para ver se ouvia passos
na escada. Tudo silncio. S lhe chegavam os rumores de fora:  carros e
carroas que desciam, quitandeiras apregoando legumes, e um piano da vizinhana.
Jos Maria sentou-se finalmente, depois de apanhar a bengala, e continuou
nestes termos:

 Um pssaro, um grande pssaro. Para ver quanto  feliz a
comparao, basta a aventura que me traz aqui, um caso de conscincia, uma paixo,
uma mulher, uma viva, D. Clemncia. Tem vinte e seis anos, uns olhos que no
acabam mais, no digo no tamanho, mas na expresso, e duas pinceladas de buo,
que lhe completam a fisionomia.  filha de um professor jubilado. Os vestidos
pretos ficam-lhe to bem que eu s vezes digo-lhe rindo que ela no enviuvou
seno para andar de luto. Caoadas! Conhecemo-nos h um ano, em casa de um
fazendeiro de Cantagalo. Samos namorados um do outro. J sei o que me vai
perguntar: por que  que no nos casamos, sendo ambos livres...

 Sim, senhor.

 Mas, homem de Deus!  essa justamente a matria da minha
aventura. Somos livres, gostamos um do outro, e no nos casamos: tal  a
situao tenebrosa que venho expor a Vossa Reverendssima, e que a sua teologia
ou o que quer que seja, explicar, se puder. Voltamos para a Corte namorados.
Clemncia morava com o velho pai, e um irmo empregado no comrcio;
relacionei-me com ambos, e comecei a freqentar a casa, em Mata-cavalos. Olhos,
apertos de mo, palavras soltas, outras ligadas, uma frase, duas frases, e
estvamos amados e confessados. Uma noite, no patamar da escada, trocamos o
primeiro beijo... Perdoe estas coisas, monsenhor; faa de conta que me est
ouvindo de confisso. Nem eu lhe digo isto seno para acrescentar que sa dali
tonto, desvairado, com a imagem de Clemncia na cabea e o sabor do beijo na
boca. Errei cerca de duas horas, planeando uma vida nica; determinei pedir-lhe
a mo no fim da semana, e casar da a um ms. Cheguei s derradeiras mincias, cheguei
a redigir e ornar de cabea as cartas de participao. Entrei em casa depois de
meia-noite, e toda essa fantasmagoria voou, como as mutaes  vista nas
antigas peas de teatro. Veja se adivinha como.

 No alcano...

 Considerei, no momento de despir o colete, que o amor
podia acabar depressa; tem-se visto algumas vezes. Ao descalar as botas,
lembrou-me coisa pior:  podia ficar o fastio. Conclu a toilette de
dormir, acendi um cigarro, e, reclinado no canap, pensei que o costume, a
convivncia, podia salvar tudo; mas, logo depois, adverti que as duas ndoles
podiam ser incompatveis; e que fazer com duas ndoles incompatveis e
inseparveis? Mas, enfim, dei de barato tudo isso, porque a paixo era grande,
violenta; considerei-me casado, com uma linda criancinha... Uma? duas, seis,
oito; podiam vir oito, podiam vir dez; algumas aleijadas. Tambm podia vir uma
crise, duas crises, falta de dinheiro, penria, doenas; podia vir alguma
dessas afeies esprias que perturbam a paz domstica... Considerei tudo e
conclu que o melhor era no casar. O que no lhe posso contar  o meu
desespero; faltam-me expresses para lhe pintar o que padeci nessa noite...
Deixa-me fumar outro cigarro?

No esperou resposta, fez o cigarro, e acendeu-o.
Monsenhor no podia deixar de admirar-lhe a bela cabea, no meio do desalinho
prprio do estado; ao mesmo tempo notou que ele falava em termos polidos, e,
que apesar dos rompantes mrbidos, tinha maneiras. Quem diabo podia ser esse
homem? Jos Maria continuou a histria, dizendo que deixou de ir  casa de
Clemncia, durante seis dias, mas no resistiu s cartas e s lgrimas. No fim
de uma semana correu para l, e confessou-lhe tudo, tudo. Ela ouviu-o com muito
interesse, e quis saber o que era preciso para acabar com tantas cismas, que
prova de amor queria que ela lhe desse.  A resposta de Jos Maria foi uma
pergunta.

 Est disposta a fazer-me um grande sacrifcio? disse-lhe
eu. Clemncia jurou que sim. 'Pois bem, rompa com tudo, famlia e
sociedade; venha morar comigo; casamo-nos depois desse noviciado'.
Compreendo que Vossa Reverendssima arregale os olhos. Os dela encheram-se de
lgrimas; mas, apesar de humilhada, aceitou tudo. Vamos; confesse que sou um
monstro.

 No, senhor...

 Como no? Sou um monstro. Clemncia veio para minha
casa, e no imagina as festas com que a recebi. 'Deixo tudo, disse-me ela;
voc  para mim o universo.' Eu beijei-lhe os ps, beijei-lhe os taces
dos sapatos. No imagina o meu contentamento. No dia seguinte, recebi uma carta
tarjada de preto; era a notcia da morte de um tio meu, em Santa Ana do
Livramento, deixando-me vinte mil contos. Fiquei fulminado. 'Entendo,
disse a Clemncia, voc sacrificou tudo, porque tinha notcia da herana'.
Desta vez, Clemncia no chorou, pegou em si e saiu. Fui atrs dela,
envergonhado, pedi-lhe perdo; ela resistiu. Um dia, dois dias, trs dias, foi
tudo vo; Clemncia no cedia nada, no falava sequer. Ento declarei-lhe que
me mataria; comprei um revlver, fui ter com ela, e apresentei-lho:  este.

Monsenhor Caldas empalideceu. Jos Maria mostrou-lhe o
revlver, durante alguns segundos, tornou a met-lo na algibeira, e continuou:

 Cheguei a dar um tiro. Ela, assustada, desarmou-me e
perdoou-me. Ajustamos precipitar o casamento, e, pela minha parte, impus uma
condio: doar os vinte mil contos  Biblioteca Nacional. Clemncia
atirou-se-me aos braos, e aprovou-me com um beijo. Dei os vinte mil contos. H
de ter lido nos jornais... Trs semanas depois casamo-nos. Vossa Reverendssima
respira como quem chegou ao fim. Qual! Agora  que chegamos ao trgico. O que
posso fazer  abreviar umas particularidades e suprimir outras; restrinjo-me a
Clemncia. No lhe falo de outras emoes truncadas, que so todas as minhas,
abortos de prazer, planos que se esgaram no ar, nem das iluses de saia rota,
nem do tal pssaro... pls... pls... pls...

E, de um salto, Jos Maria ficou outra vez de p, agitando
os braos, e dando ao corpo uma cadncia. Monsenhor Caldas comeou a suar frio.
No fim de alguns segundos, Jos Maria parou, sentou-se, e reatou a narrao,
agora mais difusa, mais derramada, evidentemente mais delirante. Contava os
sustos em que vivia, desgostos e desconfianas. No podia comer um figo s
dentadas, como outrora; o receio do bicho diminua-lhe o sabor. No cria nas
caras alegres da gente que ia pela rua: preocupaes, desejos, dios,
tristezas, outras coisas, iam dissimuladas por umas trs quartas partes delas.
Vivia a temer um filho cego ou surdo-mudo, ou tuberculoso, ou assassino, etc.
No conseguia dar um jantar que no ficasse triste logo depois da sopa, pela
idia de que uma palavra sua, um gesto da mulher, qualquer falta de servio
podia sugerir o epigrama digestivo, na rua, debaixo de um lampio. A
experincia dera-lhe o terror de ser empulhado. Confessava ao padre que,
realmente, no tinha at agora lucrado nada; ao contrrio, perdera at, porque
fora levado ao sangue... Ia contar-lhe o caso do sangue. Na vspera, deitara-se
cedo, e sonhou... Com quem pensava o padre que ele sonhou?

 No atino...

 Sonhei que o Diabo lia-me o Evangelho. Chegando ao ponto
em que Jesus fala dos lrios do campo, o Diabo colheu alguns e deu-mos.
'Toma, disse-me ele; so os lrios da Escritura; segundo ouviste, nem Salomo
em toda a pompa, pode ombrear com eles. Salomo  a sapincia. Sabes o que so
estes lrios, Jos? So os teus vinte anos'. Fitei-os encantado; eram
lindos como no imagina. O Diabo pegou deles, cheirou-os e disse-me que os
cheirasse tambm. No lhe digo nada; no momento de os chegar ao nariz, vi sair
de dentro um rptil fedorento e torpe, dei um grito, e arrojei para longe as
flores. Ento, o Diabo, escancarando uma formidvel gargalhada: 'Jos
Maria, so os teus vinte anos'. Era uma gargalhada assim:  c, c, c,
c, c...

Jos Maria ria  solta, ria de um modo estridente e
diablico. De repente, parou; levantou-se, e contou que, to depressa abriu os
olhos, como viu a mulher diante dele, aflita e desgrenhada. Os olhos de
Clemncia eram doces, mas ele disse-lhe que os olhos doces tambm fazem mal.
Ela arrojou-se-lhe aos ps... Neste ponto a fisionomia de Jos Maria estava to
transtornada que o padre, tambm de p, comeou a recuar, trmulo e plido.
'No, miservel! no! tu no me fugirs!' bradava Jos Maria
investindo para ele. Tinha os olhos esbugalhados, as tmporas latejantes; o
padre ia recuando... recuando... Pela escada acima ouvia-se um rumor de espadas
e de ps.

NOITE DE ALMIRANTE

Deolindo Venta-Grande (era uma
alcunha de bordo) saiu ao Arsenal de Marinha e enfiou pela Rua de Bragana.
Batiam trs horas da tarde. Era a fina flor dos marujos e, demais, levava um
grande ar de felicidade nos olhos. A corveta dele voltou de uma longa viagem de
instruo, e Deolindo veio  terra to depressa alcanou licena. Os
companheiros disseram-lhe, rindo:

 Ah! Venta-Grande! Que noite de almirante vai voc
passar! ceia, viola e os braos de Genoveva. Colozinho de Genoveva...

Deolindo sorriu. Era assim mesmo, uma noite de almirante,
como eles dizem, uma dessas grandes noites de almirante que o esperava em
terra. Comeara a paixo trs meses antes de sair a corveta. Chamava-se
Genoveva, caboclinha de vinte anos, esperta, olho negro e atrevido.
Encontraram-se em casa de terceiro e ficaram morrendo um pelo outro, a tal
ponto que estiveram prestes a dar uma cabeada, ele deixaria o servio e ela o
acompanharia para a vila mais recndita do interior.

A velha Incia, que morava com ela, dissuadiu-os disso;
Deolindo no teve remdio seno seguir em viagem de instruo. Eram oito ou dez
meses de ausncia. Como fiana recproca, entenderam dever fazer um juramento
de fidelidade.

 Juro por Deus que est no cu. E voc?

 Eu tambm.

 Diz direito.

 Juro por Deus que est no cu; a luz me falte na hora da
morte.

Estava celebrado o contrato. No havia descrer da
sinceridade de ambos; ela chorava doidamente, ele mordia o beio para
dissimular. Afinal separaram-se, Genoveva foi ver sair a corveta e voltou para
casa com um tal aperto no corao que parecia que 'lhe ia dar uma
coisa'. No lhe deu nada, felizmente; os dias foram passando, as semanas,
os meses, dez meses, ao cabo dos quais, a corveta tornou e Deolindo com ela.

L vai ele agora, pela rua de Bragana, Prainha e Sade,
at ao princpio da Gamboa, onde mora Genoveva. A casa  uma rotulazinha
escura, portal rachado do sol, passando o Cemitrio dos Ingleses; l deve estar
Genoveva, debruada  janela, esperando por ele. Deolindo prepara uma palavra
que lhe diga. J formulou esta: 'Jurei e cumpri', mas procura outra
melhor. Ao mesmo tempo lembra as mulheres que viu por esse mundo de Cristo,
italianas, marselhesas ou turcas, muitas delas bonitas, ou que lhe pareciam
tais. Concorda que nem todas seriam para os beios dele, mas algumas eram, e
nem por isso fez caso de nenhuma. S pensava em Genoveva. A mesma casinha dela,
to pequenina, e a moblia de p quebrado, tudo velho e pouco, isso mesmo lhe lembrava
diante dos palcios de outras terras. Foi  custa de muita economia que comprou
em Trieste um par de brincos, que leva agora no bolso com algumas bugigangas. E
ela que lhe guardaria? Pode ser que um leno marcado com o nome dele e uma
ncora na ponta, porque ela sabia marcar muito bem. Nisto chegou  Gamboa,
passou o cemitrio e deu com a casa fechada. Bateu, falou-lhe uma voz
conhecida, a da velha Incia, que veio abrir-lhe a porta com grandes
exclamaes de prazer. Deolindo, impaciente, perguntou por Genoveva.

 No me fale nessa maluca, arremeteu a velha. Estou bem
satisfeita com o conselho que lhe dei. Olhe l se fugisse. Estava agora como o
lindo amor.

 Mas que foi? que foi?

A velha disse-lhe que descansasse, que no era nada, uma
dessas coisas que aparecem na vida; no valia a pena zangar-se. Genoveva andava
com a cabea virada...

 Mas virada por qu?

 Est com um mascate, Jos Diogo. Conheceu Jos Diogo,
mascate de fazendas? Est com ele. No imagina a paixo que eles tm um pelo
outro. Ela ento anda maluca. Foi o motivo da nossa briga. Jos Diogo no me
saa da porta; eram conversas e mais conversas, at que eu um dia disse que no
queria a minha casa difamada. Ah! meu pai do cu! foi um dia de juzo. Genoveva
investiu para mim com uns olhos deste tamanho, dizendo que nunca difamou
ningum e no precisava de esmolas. Que esmolas, Genoveva? O que digo  que no
quero esses cochichos  porta, desde as ave-marias... dois dias depois estava
mudada e brigada comigo.

 Onde mora ela?

 Na Praia Formosa, antes de chegar  pedreira, uma rtula
pintada de novo.

Deolindo no quis ouvir mais nada. A velha Incia, um
tanto arrependida, ainda lhe deu avisos de prudncia, mas ele no os escutou e
foi andando. Deixo de notar o que pensou em todo o caminho; no pensou nada. As
idias marinhavam-lhe no crebro, como em hora de temporal, no meio de uma
confuso de ventos e apitos. Entre elas rutilou a faca de bordo, ensangentada
e vingadora. Tinha passado a Gamboa, o Saco do Alferes, entrara na praia
Formosa. No sabia o nmero de casa, mas era perto da pedreira, pintada de
novo, e com auxlio da vizinhana poderia ach-la. No contou com o acaso que
pegou de Genoveva e f-la sentar  janela, cosendo, no momento em que Deolindo
ia passando. Ele conheceu-a e parou; ela, vendo o vulto de um homem, levantou
os olhos e deu com o marujo.

 Que  isso? exclamou espantada. Quando chegou? Entre,
seu Deolindo.

E, levantando-se, abriu a rtula e f-lo entrar. Qualquer
outro homem ficaria alvoroado de esperanas, to francas eram as maneiras da
rapariga; podia ser que a velha se enganasse ou mentisse; podia ser mesmo que a
cantiga do mascate estivesse acabada. Tudo isso lhe passou pela cabea, sem a
forma precisa do raciocnio ou da reflexo, mas em tumulto e rpido. Genoveva
deixou a porta aberta: f-lo sentar-se, pediu-lhe notcias da viagem e achou-o
mais gordo; nenhuma comoo nem intimidade. Deolindo perdeu a ltima esperana.
Em falta de faca, bastavam-lhe as mos para estrangular Genoveva, que era um
pedacinho de gente, e durante os primeiros minutos no pensou em outra coisa.

 Sei tudo, disse ele.

 Quem lhe contou?

Deolindo levantou os ombros.

 Fosse quem fosse, tornou ela, disseram-lhe que eu
gostava muito de um moo?

 Disseram.

 Disseram a verdade.

Deolindo chegou a ter um mpeto; ela f-lo parar s com a
ao dos olhos. Em seguida disse que, se lhe abrira a porta,  porque contava
que era homem de juzo. Contou-lhe ento tudo, as saudades que curtira, as
propostas do mascate, as suas recusas, at que um dia, sem saber como,
amanhecera gostando dele.

 Pode crer que pensei muito e muito em voc. Sinh Incia
que lhe diga se no chorei muito... Mas o corao mudou... Mudou... Conto-lhe
tudo isto, como se estivesse diante do padre, concluiu sorrindo.

No sorria de escrnio. A expresso das palavras  que era
uma mescla de candura e cinismo, de insolncia e simplicidade, que desisto de
definir melhor. Creio at que insolncia e cinismo so mal aplicados. Genoveva
no se defendia de um erro ou de um perjrio; no se defendia de nada;
faltava-lhe o padro moral das aes. O que dizia, em resumo,  que era melhor
no ter mudado, dava-se bem com a afeio do Deolindo, a prova  que quis fugir
com ele; mas, uma vez que o mascate venceu o marujo, a razo era do mascate, e
cumpria declar-lo. Que vos parece? O pobre marujo citava o juramento de
despedida, como uma obrigao eterna, diante da qual consentira em no fugir e
embarcar: 'Juro por Deus que est no cu; a luz me falte na hora da
morte'. Se embarcou, foi porque ela lhe jurou isso. Com essas palavras 
que andou, viajou, esperou e tornou; foram elas que lhe deram a fora de viver.
Juro por Deus que est no cu; a luz me falte na hora da morte...

 Pois, sim, Deolindo, era verdade. Quando jurei, era
verdade. Tanto era verdade que eu queria fugir com voc para o serto. S Deus
sabe se era verdade! Mas vieram outras coisas... Veio este moo e eu comecei a
gostar dele...

 Mas a gente jura  para isso mesmo;  para no gostar de
mais ningum...

 Deixa disso, Deolindo. Ento voc s se lembrou de mim?
Deixa de partes...

 A que horas volta Jos Diogo?

 No volta hoje.

 No?

 No volta; est l para os lados de Guaratiba com a
caixa; deve voltar sexta-feira ou sbado... E por que  que voc quer saber?
Que mal lhe fez ele?

Pode ser que qualquer outra mulher tivesse igual palavra;
poucas lhe dariam uma expresso to cndida, no de propsito, mas
involuntariamente. Vede que estamos aqui muito prximos da natureza. Que mal
lhe fez ele? Que mal lhe fez esta pedra que caiu de cima? Qualquer mestre de
fsica lhe explicaria a queda das pedras. Deolindo declarou, com um gesto de desespero,
que queria mat-lo. Genoveva olhou para ele com desprezo, sorriu de leve e deu
um muxoxo; e, como ele lhe falasse de ingratido e perjrio, no pde disfarar
o pasmo. Que perjrio? Que ingratido? J lhe tinha dito e repetia que quando
jurou era verdade. Nossa Senhora, que ali estava, em cima da cmoda, sabia se
era verdade ou no. Era assim que lhe pagava o que padeceu? E ele que tanto
enchia a boca de fidelidade, tinha-se lembrado dela por onde andou?

A resposta dele foi meter a mo no bolso e tirar o pacote
que lhe trazia. Ela abriu-o, aventou as bugigangas, uma por uma, e por fim deu
com os brincos. No eram nem poderiam ser ricos; eram mesmo de mau gosto, mas
faziam uma vista de todos os diabos. Genoveva pegou deles, contente, deslumbrada,
mirou-os por um lado e outro, perto e longe dos olhos, e afinal enfiou-os nas
orelhas; depois foi ao espelho de pataca, suspenso na parede, entre a janela e
a rtula, para ver o efeito que lhe faziam. Recuou, aproximou-se, voltou a
cabea da direita para a esquerda e da esquerda para a direita.

 Sim, senhor, muito bonito, disse ela, fazendo uma grande
mesura de agradecimento. Onde  que comprou?

Creio que ele no respondeu nada, nem teria tempo para
isso, porque ela disparou mais duas ou trs perguntas, uma atrs da outra, to
confusa estava de receber um mimo a troco de um esquecimento. Confuso de cinco
ou quatro minutos; pode ser que dois. No tardou que tirasse os brincos, e os
contemplasse e pusesse na caixinha em cima da mesa redonda que estava no meio
da sala. Ele pela sua parte comeou a crer que, assim como a perdeu, estando
ausente, assim o outro, ausente, podia tambm perd-la; e, provavelmente, ela
no lhe jurara nada.

 Brincando, brincando,  noite, disse Genoveva.

Com efeito, a noite ia caindo rapidamente. J no podiam
ver o Hospital dos Lzaros e mal distinguiam a ilha dos Meles; as mesmas
lanchas e canoas, postas em seco, defronte da casa, confundiram-se com a terra
e o lodo da praia. Genoveva acendeu uma vela. Depois foi sentar-se na soleira
da porta e pediu-lhe que contasse alguma coisa das terras por onde andara.
Deolindo recusou a princpio; disse que se ia embora, levantou-se e deu alguns
passos na sala. Mas o demnio da esperana mordia e babujava o corao do pobre
diabo, e ele voltou a sentar-se, para dizer duas ou trs anedotas de bordo.
Genoveva escutava com ateno. Interrompidos por uma mulher da vizinhana, que
ali veio, Genoveva f-la sentar-se tambm para ouvir 'as bonitas histrias
que o Sr. Deolindo estava contando'. No houve outra apresentao. A
grande dama que prolonga a viglia para concluir a leitura de um livro ou de um
captulo, no vive mais intimamente a vida dos personagens do que a antiga
amante do marujo vivia as cenas que ele ia contando, to livremente interessada
e presa, como se entre ambos no houvesse mais que uma narrao de episdios.
Que importa  grande dama o autor do livro? Que importava a esta rapariga o
contador dos episdios?

A esperana, entretanto, comeava a desampar-lo e ele
levantou-se definitivamente para sair. Genoveva no quis deix-lo sair antes
que a amiga visse os brincos, e foi mostrar-lhos com grandes encarecimentos. A
outra ficou encantada, elogiou-os muito, perguntou se os comprara em Frana e
pediu a Genoveva que os pusesse.

 Realmente, so muito bonitos.

Quero crer que o prprio marujo concordou com essa
opinio. Gostou de os ver, achou que pareciam feitos para ela e, durante alguns
segundos, saboreou o prazer exclusivo e superfino de haver dado um bom
presente; mas foram s alguns segundos.

Como ele se despedisse, Genoveva acompanhou-o at  porta
para lhe agradecer ainda uma vez o mimo, e provavelmente dizer-lhe algumas
coisas meigas e inteis. A amiga, que deixara ficar na sala, apenas lhe ouviu
esta palavra: 'Deixa disso, Deolindo'; e esta outra do marinheiro:
'Voc ver.' No pde ouvir o resto, que no passou de um sussurro.

Deolindo seguiu, praia fora, cabisbaixo e lento, no j o
rapaz impetuoso da tarde, mas com um ar velho e triste, ou, para usar outra
metfora de marujo, como um homem 'que vai do meio caminho para
terra'. Genoveva entrou logo depois, alegre e barulhenta. Contou  outra a
anedota dos seus amores martimos, gabou muito o gnio do Deolindo e os seus
bonitos modos; a amiga declarou ach-lo grandemente simptico.

 Muito bom rapaz, insistiu Genoveva. Sabe o que ele me
disse agora?

 Que foi?

 Que vai matar-se.

 Jesus!

 Qual o qu! No se mata, no. Deolindo  assim mesmo; diz
as coisas, mas no faz. Voc ver que no se mata. Coitado, so cimes. Mas os
brincos so muito engraados.

 Eu aqui ainda no vi destes.

 Nem eu, concordou Genoveva, examinando-os  luz. Depois
guardou-os e convidou a outra a coser.  Vamos coser um bocadinho, quero acabar
o meu corpinho azul...

A verdade  que o marinheiro no se matou. No dia
seguinte, alguns dos companheiros bateram-lhe no ombro, cumprimentando-o pela
noite de almirante, e pediram-lhe notcias de Genoveva, se estava mais bonita,
se chorara muito na ausncia, etc. Ele respondia a tudo com um sorriso
satisfeito e discreto, um sorriso de pessoa que viveu uma grande noite. Parece
que teve vergonha da realidade e preferiu mentir.

MANUSCRITO DE UM SACRISTO

NDICE

CAPTULO PRIMEIRO

CAPTULO II

CAPTULO III

CAPTULO IV

CAPTULO V

CAPTULO PRIMEIRO

............ Ao dar com o padre Tefilo falando a uma
senhora, ambos sentadinhos no banco da igreja, e a igreja deserta, confesso que
fiquei espantado. Note-se que conversavam em voz to baixa e discreta, que eu,
por mais que afiasse o ouvido e me demorasse a apagar as velas do altar, no
podia apanhar nada, nada, nada. No tive remdio seno adivinhar alguma coisa.
Que eu sou um sacristo filsofo. Ningum me julgue pela sobrepeliz rota e
amarrotada nem pelo uso clandestino das galhetas. Sou um filsofo sacristo.
Tive estudos eclesisticos, que interrompi por causa de uma doena e que
inteiramente deixei por outro motivo, uma paixo violenta, que me trouxe 
misria. Como o seminrio deixa sempre um certo vinco, fiz-me sacristo aos
trinta anos, para ganhar a vida. Venhamos, porm, ao nosso padre e  nossa
dama.

CAPTULO II

Antes de ir adiante, direi que eram primos. Soube depois
que eram primos, nascidos em Vassouras. Os pais dela mudaram-se para a Corte,
tendo Eullia ( o seu nome) sete anos. Tefilo veio depois. Na famlia era uso
antigo que um dos rapazes fosse padre. Vivia ainda na Bahia um tio dele,
cnego. Cabendo-lhe nesta gerao envergar a batina, veio para o seminrio de
S. Jos, no ano de mil oitocentos e cinqenta e tantos, e foi a que o conheci.
Compreende-se o sentimento de discrio que me leva a deixar a data no ar.

CAPTULO III

No seminrio, dizia-nos o lente de retrica:

 A teologia  a cabea do gnero humano, o latim a perna
esquerda, e a retrica a perna direita.

Justamente da perna direita  que o Tefilo coxeava. Sabia
muito as outras coisas: teologia, filosofia, latim, histria sagrada; mas a
retrica  que lhe no entrava no crebro. Ele, para desculpar-se, dizia que a
palavra divina no precisava de adornos. Tinha ento vinte ou vinte e dois anos
de idade, e era lindo como S. Joo.

J nesse tempo era um mstico; achava em todas as coisas
uma significao recndita. A vida era uma eterna missa, em que o mundo servia
de altar, a alma de sacerdote e o corpo de aclito; nada respondia  realidade
exterior. Vivia ansioso de tomar ordens para sair a pregar grandes coisas,
espertar as almas, chamar os coraes  Igreja, e renovar o gnero humano.
Entre todos os apstolos, amava principalmente So Paulo.

No sei se o leitor  da minha opinio; eu cuido que se
pode avaliar um homem pelas suas simpatias histricas; tu sers mais ou menos
da famlia dos personagens que amares deveras. Aplico assim aquela lei de
Helvetius: 'O grau de esprito que nos deleita d a medida exata do grau
de esprito que possumos'. No nosso caso, ao menos, a regra no falhou.
Tefilo amava So Paulo, adorava-o, estudava-o dia e noite, parecia viver
daquele converso que ia de cidade em cidade,  custa de um ofcio mecnico,
espalhando a boa nova aos homens. Nem tinha somente esse modelo, tinha mais dois:
Hildebrando e Loiola. Daqui podeis concluir que nasceu com a fibra da peleja e
do apostolado. Era um faminto de ideal e criao, olhando todas as coisas
correntes por cima da cabea do sculo. Na opinio de um cnego, que l ia ao
seminrio, o amor dos dois modelos ltimos temperava o que pudesse haver
perigoso em relao ao primeiro.

 No v o senhor cair no excesso e no exclusivo,
disse-lhe um dia com brandura; no parea que, exaltando somente a Paulo,
intenta diminuir Pedro. A igreja, que os comemora ao lado um do outro, meteu-os
ambos no Credo; mas veneremos Paulo e obedeamos a Pedro. Super hanc
petram...

Os seminaristas gostavam do Tefilo, principalmente trs,
um Vasconcelos, um Soares e um Veloso, todos excelentes retricos. Eram tambm bons
rapazes, alegres por natureza, graves por necessidade e ambiciosos. Vasconcelos
jurava que seria bispo; Soares contentava-se com algum grande cargo; Veloso
cobiava as meias roxas de cnego e um plpito. Tefilo tentou repartir com
eles o po mstico dos seus sonhos, mas reconheceu depressa que era manjar leve
ou pesado demais, e passou a devor-lo sozinho. At aqui o padre; vamos agora 
dama.

CAPTULO IV

Agora a dama. No momento em que os vi falar baixinho na
igreja, Eullia contava trinta e oito anos de idade. Juro-lhes que era ainda
bonita. No era pobre; os pais deixaram-lhe alguma coisa. Nem casada; recusou
cinco ou seis pretendentes.

Este ponto nunca foi entendido pelas amigas. Nenhuma delas
era capaz de repelir um noivo. Creio at que no pediam outra coisa, quando
rezavam antes de entrar na cama, e ao domingo,  missa, no momento de levantar
a Deus. Por que  que Eullia recusava-os todos? Vou dizer desde j o que soube
depois. Supuseram-lhe, a princpio, um simples desdm,  nariz torcido, dizia
uma delas;  mas, no fim da terceira recusa, inclinaram-se a crer que havia
namoro encoberto, e esta explicao prevaleceu. A prpria me de Eullia no
aceitou outra. No lhe importaram as primeiras recusas; mas, repetindo-se, ela
comeou a assustar-se. Um dia, voltando de um casamento, perguntou  filha, no
carro em que vinham, se no se lembrava que tinha de ficar s.

 Ficar s?

 Sim, um dia hei de morrer. Por ora tudo so flores; c
estou para governar a casa; e voc  s ler, cismar, tocar e brincar; mas eu
tenho de morrer, Eullia, e voc tem de ficar s...

Eullia apertou-lhe muito a mo, sem poder dizer palavra.
Nunca pensara na morte da me; perd-la era perder metade de si mesma. Na
expanso de momento, a me atreveu-se a perguntar-lhe se amava algum e no era
correspondida. Eullia respondeu que no. No simpatizara com os candidatos. A
boa velha abanou a cabea; falou dos vinte e sete anos da filha, procurou
aterr-la com os trinta, disse-lhe que, se nem todos os noivos a mereciam
igualmente, alguns eram dignos de ser aceitos, e que importava a falta de amor?
O amor conjugal podia ser assim mesmo; podia nascer depois, como um fruto da
convivncia. Conhecera pessoas que se casaram por simples interesse de famlia
e acabaram amando-se muito. Esperar uma grande paixo para casar era
arriscar-se a morrer esperando.

 Pois sim, mame, deixe estar...

E, reclinando a cabea, fechou um pouco os olhos para espiar
algum, para ver o namorado encoberto, que no era s encoberto, mas tambm e
principalmente impalpvel. Concordo que isto agora  obscuro; no tenho dvida
em dizer que entramos em pleno sonho.

Eullia era uma esquisita, para usarmos a linguagem da
me, ou romanesca, para empregarmos a definio das amigas. Tinha, em verdade,
uma singular organizao. Saiu ao pai. O pai nascera com o amor do enigmtico,
do arriscado e do obscuro; morreu quando aparelhava uma expedio para ir 
Bahia descobrir a 'cidade abandonada'. Eullia recebeu essa herana
moral, modificada ou agravada pela natureza feminil. Nela dominava
principalmente a contemplao. Era na cabea que ela descobria as cidades
abandonadas. Tinha os olhos dispostos de maneira que no podiam apanhar
integralmente os contornos da vida. Comeou idealizando as coisas, e, se no
acabou negando-as,  certo que o sentimento da realidade esgarou-se-lhe at
chegar  transparncia fina em que o tecido parece confundir-se com o ar.

Aos dezoito anos, recusou o primeiro casamento. A razo 
que esperava outro, um marido extraordinrio, que ela viu e conversou, em sonho
ou alucinao, a mais radiosa figura do universo, a mais sublime e rara, uma
criatura em que no havia falha ou quebra, verdadeira gramtica sem
irregularidades, pura lngua sem solecismos.

Perdo, interrompe-me uma senhora, esse noivo no  obra
exclusiva de Eullia,  o marido de todas as virgens de dezessete anos. Perdo,
digo-lhe eu, h uma diferena entre Eullia e as outras,  que as outras trocam
finalmente o original esperado por uma cpia gravada, antes ou depois da letra,
e s vezes por uma simples fotografia ou litografia, ao passo que Eullia
continuou a esperar o painel autntico. Vinham as gravuras, vinham as
litografias, algumas muito bem acabadas, obra de artista e grande artista, mas
para ela traziam o defeito de ser cpias. Tinha fome e sede de originalidade. A
vida comum parecia-lhe uma cpia eterna. As pessoas do seu conhecimento
caprichavam em repetir as idias umas das outras, com iguais palavras, e s
vezes sem diferente inflexo,  semelhana do vesturio que usavam, e que era
do mesmo gosto e feitio. Se ela visse alvejar na rua um turbante mourisco ou flutuar
um penacho, pode ser que perdoasse o resto; mas nada, coisa nenhuma, uma
constante uniformidade de idias e coletes. No era outro o pecado mortal das
coisas. Mas, como tinha a faculdade de viver tudo o que sonhava, continuou a
esperar uma vida nova e um marido nico.

Enquanto esperava, as outras iam casando. Assim perdeu ela
as trs principais amigas: Jlia Costinha, Josefa e Mariana. Viu-as todas
casadas, viu-as mes, a princpio de um filho, depois de dois, de quatro e de
cinco. Visitava-as, assistia ao viver delas, sereno e alegre, medocre, vulgar,
sem sonhos nem quedas, mais ou menos feliz. Assim se passaram os anos; assim
chegou aos trinta, aos trinta e trs, aos trinta e cinco, e finalmente aos
trinta e oito em que a vemos na igreja, conversando com o padre Tefilo.

CAPTULO V

Naquele dia mandara dizer uma missa por alma da me, que
morrera um ano antes. No convidou ningum: foi ouvi-la sozinha. Ouviu-a,
rezou, depois sentou-se no banco.

Eu, depois de ajudar  missa, voltei para a sacristia, e
vi ali o padre Tefilo, que viera da roa duas semanas antes e andava  cata de
alguma missa para comer. Parece que ele ouviu do outro sacristo ou do mesmo
padre oficiante o nome da pessoa sufragada; viu que era o da tia e correu 
igreja, onde ainda achou a prima no banco. Sentou-se ao p dela, esquecido do
lugar e das posies, e falaram naturalmente de si mesmos. No se viam desde
longos anos. Tefilo visitara-as logo depois de ordenado padre; mas saiu para o
interior e nunca mais soube delas, nem elas dele.

J disse que no pude ouvir nada. Estiveram assim perto de
meia hora. O coadjutor veio espiar, deu com eles e ficou justamente
escandalizado. A notcia do caso chegou, dois dias depois, ao bispo. Tefilo
recebeu uma advertncia amiga, subiu  Conceio e explicou tudo: era uma
prima, a quem no via desde muito. O padre coadjutor, quando soube da
explicao, exclamou com muito critrio que o ser parente no lhe trocava o
sexo nem supria o escndalo.

Entretanto, como eu tinha sido companheiro do Tefilo no
seminrio e gostava dele, defendi-o com muito calor e fiz chegar o meu
testemunho ao Palcio da Conceio. Ele ficou-me grato por isso, e da veio a
intimidade de nossas relaes. Como os dois primos podiam ver-se em casa,
Tefilo passou a visit-la, e ela a receb-lo com muito prazer. No fim de oito
dias, recebeu-me tambm; ao cabo de duas semanas era eu um dos seus familiares.

Dois patrcios que se encontram em plaga estrangeira e
podem finalmente trocar as palavras mamadas na infncia no sentem maior
alvoroo do que estes dois primos, que eram mais que primos: moralmente eram
gmeos. Ele contou-lhe a vida e, como os acontecimentos acarretassem os
sentimentos, ela olhou para dentro da alma do primo e achou que era a sua mesma
alma e que, em substncia, a vida de ambos era a mesma. A diferena  que uma
esperou quieta o que o outro andou buscando por montes e vales; no mais, igual
equvoco, igual conflito com a realidade, idntico dilogo de rabe e japons.

 Tudo o que me cerca  trivial e chocho, dizia-lhe ele.

Com efeito, gastara o ao da mocidade em divulgar uma
concepo que ningum lhe entendeu. Enquanto os trs amigos mais chegados do
seminrio passavam adiante, trabalhando e servindo, afinados pela nota do
sculo, Veloso cnego e pregador, Soares com uma grande vigararia, Vasconcelos
a caminho de bispar, ele Tefilo era o mesmo apstolo e mstico dos primeiros
anos, em plena aurora crist e metafsica. Vivia miseravelmente, costeando a
fome, po magro e batina surrada; tinha instantes e horas de tristeza e de
abatimento: confessou-os  prima...

 Tambm o senhor? perguntou ela.

E as suas mos apertaram-se com energia: entendiam-se. No
tendo achado um astro na loja de um relojoeiro, a culpa era do relojoeiro; tal
era a lgica de ambos. Olharam-se com a simpatia de nufragos,  nufragos e
no desenganados,  porque no o eram. Cruso, na ilha deserta, inventa e
trabalha; eles no; lanados  ilha, estendiam os olhos para o mar ilimitado,
esperando a guia que viria busc-los com as suas grandes asas abertas. Uma era
a eterna noiva sem noivo, outro o eterno profeta sem Israel; ambos punidos e
obstinados.

J disse que Eullia era ainda bonita. Resta dizer que o
padre Tefilo, com quarenta e dois anos, tinha os cabelos grisalhos e as
feies cansadas; as mos no possuam nem a maciez nem o aroma da sacristia,
eram magras e calosas e cheiravam ao mato. Os olhos  que conservavam o fogo
antigo, era por ali que a mocidade interior falava c para fora, e fora 
dizer que eles valiam s por si todo o resto.

As visitas amiudaram-se. Afinal amos passar ali as tardes
e as noites e jantar aos domingos. A convivncia produziu dois efeitos, e at
trs. O primeiro foi que os dois primos, freqentando-se, deram fora e vida um
ao outro; relevem-me esta expresso familiar:  fizeram um pique-nique de
iluses. O segundo  que Eullia, cansada de esperar um noivo humano, volveu os
olhos para o noivo divino e, assim como ao primo viera a ambio de S. Paulo,
veio-lhe a ela a de Santa Teresa. O terceiro efeito  o que o leitor j
adivinhou.

J adivinhou. O terceiro foi o caminho de Damasco,  um
caminho s avessas, porque a voz no baixou do cu, mas subiu da terra;
no chamava a pregar Deus, mas a pregar o homem. Sem metfora, amavam-se. Outra
diferena  que a vocao aqui no foi sbita como em relao ao apstolo das
gentes; foi vagarosa, muito vagarosa, cochichada, insinuada, bafejada pelas
asas da pomba mstica.

Note-se que a fama precedeu ao amor. Sussurrava-se desde
muito que as visitas do padre eram menos de confessor que de pecador. Era
mentira; eu juro que era mentira. Via-os, acompanhava-os, estudava esses dois
temperamentos to espirituais, to cheios de si mesmos, que nem sabiam da fama,
nem cogitavam no perigo da aparncia. Um dia vi-lhes os primeiros sinais do
amor. Ser o que quiserem, uma paixo quarentona, rosa outonia e plida, mas
era, existia, crescia, ia tom-los inteiramente. Pensei em avisar o padre, no por
mim, mas por ele mesmo; mas era difcil, e talvez perigoso. Demais, eu era e
sou gastrnomo e psiclogo; avis-lo era botar fora uma fina matria de estudo
e perder os jantares dominicais. A psicologia, ao menos, merecia um sacrifcio:
calei-me.

Calei-me  toa. O que eu no quis dizer, publicou-o o
corao de ambos. Se o leitor me leu de corrida, conclui por si mesmo a
anedota, conjugando os dois primos; mas, se me leu devagar, adivinha o que
sucedeu. Os dois msticos recuaram; no tiveram horror um do outro nem de si
mesmos, porque essa sensao estava excluda de ambos, mas recuaram, agitados
de medo e de desejo.

 Volto para a roa, disse-me o padre.

 Mas por qu?

 Volto para a roa.

Voltou para a roa e nunca mais c veio. Ela,  claro que
tinha achado o marido que esperava, mas saiu-lhe to impossvel como a vida que
sonhou. Eu, gastrnomo e psiclogo, continuei a ir jantar com Eullia aos
domingos. Considero que alguma coisa deve subsistir debaixo do sol, ou o amor
ou o jantar, se  certo, como quer Schiller, que o amor e a fome governam este
mundo.

EX CATHEDRA

 Padrinho, vosmec assim fica cego.

 O qu?

 Vosmec fica cego; l que  um desespero. No, senhor, d
c o livro.

Caetaninha tirou-lhe o livro das mos. O padrinho deu uma
volta, e foi meter-se no gabinete, onde lhe no faltavam livros; fechou-se por
dentro e continuou a ler. Era o seu mal; lia com excesso, lia de manh, de
tarde e de noite, ao almoo e ao jantar, antes de dormir, depois do banho, lia
andando, lia parado, lia em casa e na chcara, lia antes de ler e depois de
ler, lia toda a casta de livros, mas especialmente direito (em que era
graduado), matemticas e filosofia; ultimamente dava-se tambm s cincias
naturais.

Pior que cego, ficou aluado. Foi pelos fins de 1873, na
Tijuca, que ele comeou a dar sinais de transtorno cerebral; mas, como eram
leves e poucos, s em maro ou abril de 1874  que a afilhada lhe percebeu a
alterao. Um dia, almoando, interrompeu ele a leitura para lhe perguntar:

 Como  que eu me chamo?

 Como  que padrinho se chama? repetiu ela espantada.
Chama-se Fulgncio.

 De hoje em diante, chamar-me-s Fulgencius.

E, enterrando a cara no livro, prosseguiu na leitura.
Caetaninha referiu o caso s mucamas, que lhe declararam desconfiar desde algum
tempo, que ele no andava bom. Imagine-se o medo da moa; mas o medo passou
depressa para s deixar a piedade que lhe aumentou a afeio. Tambm a mania
era restrita e mansa; no passava dos livros. Fulgncio vivia do escrito, do
impresso, do doutrinal, do abstrato, dos princpios e das frmulas. Com o tempo
chegou, no j  superstio, mas  alucinao da teoria. Uma de suas mximas
era que a liberdade no morre onde restar uma folha de papel para decret-la; e
um dia, acordando com a idia de melhorar a condio dos turcos, redigiu uma
constituio, que mandou de presente ao ministro ingls, em Petrpolis. De
outra ocasio, meteu-se a estudar nos livros a anatomia dos olhos, para
verificar se realmente eles podiam ver, e concluiu que sim.

Digam-me se, em tais condies, a vida de Caetaninha podia
ser alegre. No lhe faltava nada,  verdade, porque o padrinho era rico. Foi
ele mesmo que a educou, desde os sete anos, quando perdeu a mulher; ensinou-lhe
a ler e escrever, francs, um pouco de histria e geografia, para no dizer
quase nada, e incumbiu uma das mucamas de lhe ensinar crivo, renda e costura.
Tudo isso  verdade. Mas Caetaninha fizera quatorze anos; e, se nos primeiros
tempos bastavam os brinquedos e as escravas para diverti-la, era chegada a
idade em que os brinquedos perdem de moda e as escravas de interesse, em que
no h leituras nem escrituras que faam de uma casa solitria na Tijuca um
paraso. Descia algumas vezes, raras, e de corrida; no ia a teatros nem
bailes; no fazia nem recebia visitas. Quando via passar na estrada uma
cavalgada de homens e senhoras, punha a alma na garupa dos animais, e deixava-a
ir com eles, ficando-lhe o corpo, ao p do padrinho, que continuava a ler.

Um dia, estando na chcara, viu parar ao porto um rapaz,
montado numa bestinha, e ouviu que lhe perguntava se era ali a casa do doutor
Fulgncio.

 Sim, senhor,  aqui mesmo.

 Podia falar-lhe?

Caetaninha respondeu que ia ver; entrou em casa, e foi ao
gabinete, onde achou o padrinho remoendo, com a mais volupturia e beata das
expresses, um captulo de Hegel.  Mocinho? Que mocinho?  Caetaninha
disse-lhe que era um mocinho vestido de luto.

 De luto? repetiu o velho doutor fechando
precipitadamente o livro; h de ser ele.

Esquecia-me dizer (mas h tempo para tudo) que, trs meses
antes, falecera um irmo de Fulgncio, no Norte, deixando um filho natural. Como
o irmo, dias antes de morrer, lhe escrevera recomendando o rfo que ia
deixar, Fulgncio mandou que este viesse para o Rio de Janeiro. Ouvindo que
estava ali um mocinho de luto, concluiu que era o sobrinho, e no concluiu mal.
Era ele mesmo.

Parece que at aqui nada h que destoe de uma histria
ingenuamente romanesca: temos um velho luntico, uma mocinha solitria e
suspirosa, e vemos despontar inopinadamente um sobrinho. Para no descer da
regio potica em que nos achamos, deixo de dizer que a mula em que o Raimundo
veio montado, foi reconduzida por um preto ao alugador; passo tambm por alto
as circunstncias da acomodao do rapaz, limitando-me a dizer que, como o tio,
 fora de viver lendo, esquecera inteiramente que o mandara buscar, nada havia
em casa preparado para receb-lo. Mas a casa era grande e abastada; uma hora
depois, estava o rapaz aposentado num lindo quarto, donde podia ver a chcara,
a cisterna antiga, o lavadouro, basta folha verde e vasto cu azul.

Creio que ainda no disse a idade do hspede; tem quinze
anos e um ameao de buo;  quase uma criana. Logo, se a nossa Caetaninha
ficou alvoroada, e as mucamas andam de um lado para outro, espiando e falando
do 'sobrinho de sinh velho que chegou de fora',  porque a vida ali no
tem outros episdios, no porque ele seja homem feito. Essa foi tambm a
impresso do dono da casa; mas, aqui vai a diferena. A afilhada no advertia
que o ofcio do buo  virar bigode, ou, se pensou nisso, f-lo to vagamente,
que no vale a pena de o pr aqui. No assim o velho Fulgncio. Compreendeu
este que havia ali a massa de um marido, e resolveu cas-los; mas viu tambm
que, a menos de lhes pegar nas mos e mandar que se amassem, o acaso podia
guiar as coisas por modo diferente.

Uma idia traz outra. A idia de os casar pegou por um
lado com uma de suas opinies recentes. Era esta que as calamidades ou os
simples dissabores nas relaes do corao provinham de que o amor era
praticado de um modo emprico; faltava-lhe a base cientfica. Um homem e uma
mulher, desde que conhecessem as razes fsicas e metafsicas desse sentimento,
estariam mais aptos a receb-lo e nutri-lo com eficcia, do que outro homem e
outra mulher que nada soubessem do fenmeno.

Os meus pequenos esto verdes, dizia ele consigo: tenho
trs a quatro anos diante de mim, e posso comear desde j a prepar-los. Vamos
com lgica; primeiro os alicerces, depois as paredes, depois o teto... em vez
de comear pelo teto... Dia vir em que se aprenda a amar como se aprende a
ler... Nesse dia...

Estava atordoado, deslumbrado, delirante. Foi s estantes,
desceu alguns tomos, astronomia, geologia, fisiologia, anatomia,
jurisprudncia, poltica, lingstica, abriu-os, folheou-os, comparou-os,
extratou daqui e dali, at formular um programa de ensino. Compunha-se este de
vinte captulos, nos quais entravam as noes gerais do universo, uma definio
da vida, demonstrao da existncia do homem e da mulher, organizao das
sociedades, definio e anlise das paixes, definio e anlise do amor, suas
causas, necessidades e efeitos. Em verdade, as matrias eram crespas; ele
entendeu torn-las dceis, tratando-as em frase corriqueira e ch, dando-lhes
um tom puramente familiar, como a astronomia de Fontenelle. E dizia com nfase
que o essencial da fruta era o miolo, no a casca.

Tudo isso era engenhoso; mas aqui vai o mais engenhoso.
No os convidou a aprender. Uma noite, olhando para o cu, disse que as
estrelas estavam brilhando muito; e o que eram as estrelas? acaso sabiam eles o
que eram as estrelas?

 No, senhor.

Daqui a iniciar uma descrio do universo era um passo.
Fulgncio deu o passo, com tal presteza e naturalidade, que os deixou
encantados e eles pediram a viagem toda.

 No, disse o velho; no esgotemos tudo hoje, nem isto se
entende bem seno devagar; amanh ou depois...

Foi assim, sorrateiramente, que ele comeou a executar o
plano. Os dois alunos, assombrados com o mundo astronmico, pediam-lhe todos os
dias que continuasse, e, posto que no fim dessa primeira parte Caetaninha
ficasse um tanto confusa, ainda assim quis ouvir as outras coisas que o
padrinho lhe prometeu.

No digo nada da familiaridade entre os dois alunos, por
ser coisa bvia. Entre quatorze e quinze anos a diferena  to pequena, que os
portadores das duas idades, no tinham mais que dar a mo um ao outro. Foi o
que aconteceu.

No fim de trs semanas pareciam ter sido criados juntos.
S isto bastava a mudar a vida de Caetaninha; mas Raimundo trouxe-lhe mais. No
h dez minutos, vimo-la olhar com saudade as cavalgadas de homens e damas que
passavam na estrada. Raimundo matou-lhe a saudade, ensinando-lhe a montaria,
apesar da relutncia do velho, que temia algum desastre; mas este cedeu e
alugou dois cavalos. Caetaninha mandou fazer uma linda amazona, Raimundo veio 
cidade comprar-lhe as luvas e um chicotinho, com o dinheiro do tio  j se sabe
 que tambm lhe deu as botas e o demais aparelhos masculinos. Da a pouco era
um gosto v-los ambos, galhardos e intrpidos, abaixo e acima da montanha.

Em casa, brincavam  larga, jogavam damas e cartas,
cuidavam de aves e plantas. Brigavam muita vez; mas, segundo as mucamas, eram
brigas de mentira, s para fazerem as pazes depois. Era o pico do arrufo.
Raimundo vinha s vezes  cidade, a mandado do tio. Caetaninha ia esper-lo ao
porto, espiando ansiosa. Quando ele chegava, brigavam, porque ela queria
tirar-lhe os maiores embrulhos, a pretexto de que ele vinha cansado, e ele
queria dar-lhe os mais leves, alegando que ela era fraquinha.

No fim de quatro meses, a vida era totalmente outra.
Pode-se at dizer que s ento  que Caetaninha comeou a usar rosas no cabelo.
Antes disso vinha muita vez despenteada para a mesa do almoo. Agora, no s se
penteava logo cedo, mas at, como digo, trazia rosas, uma ou duas; estas eram,
ou colhidas na vspera, por ela mesma, e guardadas em gua, ou na prpria
manh, por ele, que ia levar-lhas  janela. A janela era alta; mas Raimundo,
pondo-se na ponta dos ps, e levantando o brao, conseguia dar-lhe as rosas em
mo. Foi por esse tempo que ele adquiriu o sestro de mortificar o buo,
puxando-o muito de um e outro lado. Caetaninha chegava a bater-lhe nos dedos,
para lhe tirar to mau costume.

Entretanto, as lies continuavam regularmente. J tinham
uma idia geral do universo, e uma definio da vida, que nenhum deles
entendeu. Assim chegaram ao quinto ms. No sexto, comeou a demonstrao da
existncia do homem. Caetaninha no pde suster o riso, quando o padrinho,
expondo a matria, perguntou-lhes se eles sabiam que existiam e por qu; mas
ficou logo sria, e respondeu que no.

 Nem voc?

 Nem eu, no, senhor, concordou o sobrinho.

Fulgncio iniciou uma demonstrao em regra, profundamente
cartesiana. A seguinte lio foi na chcara. Chovera muito nos dias anteriores;
mas o sol agora alagava tudo de luz, e a chcara parecia uma linda viva, que
troca o vu do luto pelo do noivado. Raimundo, como se quisesse copiar o sol
(copiam-se naturalmente os grandes), despedia das pupilas um olhar vasto e
longo, que Caetaninha recebia, palpitando, como a chcara. Fuso, transfuso,
difuso, confuso e profuso de seres e de coisas.

Enquanto o velho falava, reto, lgico, vagaroso, curtido
de frmulas, com os olhos fixos em parte nenhuma, os dois alunos faziam trinta
mil esforos para escut-lo, mas vinham trinta mil incidentes distra-los. Foi
a princpio um casal de borboletas que brincavam no ar. Faam-me o favor de
dizer o que  que pode haver extraordinrio num casal de borboletas? Concordo
que eram amarelas, mas esta circunstncia no basta a explicar a distrao. O
fato de voarem uma atrs da outra, ora  direita, ora  esquerda, ora abaixo,
ora acima, tambm no d a razo do desvio, visto que nunca as borboletas
voaram em linha reta, como simples militares.

 O entendimento, dizia o velho, o entendimento, segundo
eu j expliquei...

Raimundo olhou para Caetaninha, e achou-a olhando para
ele. Um e outro pareciam confusos e acanhados. Ela foi a primeira que baixou os
olhos ao regao. Depois, levantou-os, a fim de os levar a outra parte, mais
remota, o muro da chcara; na passagem, como os de Raimundo ali estivessem, ela
encarou-os o mais rapidamente que pde. Felizmente, o muro apresentava um
espetculo que a encheu de admirao: um casal de andorinhas (era o dia dos
casais) saltitava nele, com a graa peculiar s pessoas aladas. Saltitavam
piando, dizendo coisas uma  outra, o que quer que fosse, talvez isto  que era
bem bom no haver filosofia nos muros das chcaras. Se no quando, uma delas
voou, provavelmente a dama, e a outra, naturalmente o garo, no se deixou
ficar atrs: esticou as asas e seguiu o mesmo caminho. Caetaninha desceu os
olhos  grama do cho.

Quando a lio acabou, da a alguns minutos, ela pediu ao padrinho
que continuasse, e, recusando este, tomou-lhe o brao e convidou-o a dar um
giro na chcara.

 Est muito sol, contestou o velho.

 Vamos pela sombra.

 Faz muito calor.

Caetaninha props irem continuar na varanda; mas o
padrinho disse-lhe misteriosamente que Roma no se fez num dia, e acabou
declarando que s dois dias depois continuaria a lio. Caetaninha recolheu-se
ao quarto, esteve ali trs quartos de hora fechada, sentada,  janela, de um
lado para outro, procurando as coisas que tinha na mo, e chegando ao cmulo de
ver-se a si mesma, cavalgando, estrada acima, ao lado de Raimundo. De uma vez
aconteceu-lhe ver o rapaz no muro da chcara; mas atentou bem, reconheceu que
era um par de besouros que zumbiam no ar. E dizia um deles ao outro:

 Tu s a flor da nossa raa, a flor do ar, a flor das
flores, o sol e a lua da minha vida.

Ao que respondia o outro:

 Ningum te vence na beleza e na graa; o teu zumbir  um
eco das falas divinas; mas, deixa-me... deixa-me...

 Por que deixar-te, alma destes bosques?

 J te disse, rei dos ares puros, deixa-me.

 No me fales assim, feitio e gala das matas. Tudo por
cima e em volta de ns est dizendo que me deves falar de outra maneira.
Conheces a cantiga dos mistrios azuis?

 Vamos ouvi-la nas folhas verdes da laranjeira.

 As da mangueira so mais bonitas.

 Tu s mais linda que umas e outras.

 E tu, sol da minha vida?

 Lua do meu ser, eu sou o que tu quiseres...

Era assim que os dois besouros falavam. Ela ouviu-os
cismando. Como eles desaparecessem, ela entrou, viu as horas e saiu do quarto.
Raimundo estava fora; ela foi esper-lo ao porto, dez, vinte, trinta,
quarenta, cinqenta minutos. Na volta disseram pouco; uniram-se e separaram-se
duas ou trs vezes. Da ltima vez foi ela que o trouxe  varanda, para
mostrar-lhe um enfeite que julgava perdido e acabava de achar. Faam-lhe a
justia de crer que era pura mentira. Entretanto, Fulgncio antecipou a lio;
deu-a no dia seguinte, entre o almoo e o jantar. Nunca a palavra lhe saiu to
lmpida e singela. E assim devia ser; tratava-se da existncia do homem,
captulo profundamente metafsico, em que era preciso considerar tudo e por
todos os lados.

 Esto entendendo? perguntava ele.

 Perfeitamente.

E a lio seguiu at o fim. No fim, deu-se a mesma coisa
da vspera; Caetaninha, como se tivesse medo de ficar s, pediu-lhe para
continuar ou passear; ele recusou uma e outra coisa, bateu-lhe paternalmente na
cara, e foi encerrar-se no gabinete.

'Para a semana', pensava o velho doutor, dando
volta  chave, 'para a semana entro na organizao das sociedades; todo o
ms que vem e o outro  para a definio e classificao das paixes; em maio,
passaremos ao amor... j ser tempo...'

Enquanto ele dizia isto, e fechava a porta, alguma coisa
ressoava do lado da varanda  um trovo de beijos, segundo disseram as lagartas
da chcara; mas, para as lagartas qualquer pequeno rumor vale um trovo. Quanto
aos autores do rudo nada positivo se sabe. Parece que um maribondo, vendo
Caetaninha e Raimundo unidos nessa ocasio, concluiu da coincidncia para a
conseqncia, e entendeu que eram eles; mas um velho gafanhoto demonstrou a
inanidade do fundamento, alegando que ouvira muitos beijos, outrora, em lugares
onde nem Raimundo nem Caetaninha pusera os ps. Convenhamos que este outro
argumento no prestava para nada; mas, tal  o prestgio de um bom carter, que
o gafanhoto foi aclamado como tendo ainda uma vez defendido a verdade e a
razo. E da pode ser que fosse assim mesmo. Mas um trovo de beijos?
Suponhamos dois; suponhamos trs ou quatro.

A SENHORA DO GALVO

Comearam a rosnar dos amores deste advogado com a viva
do brigadeiro, quando eles no tinham ainda passado dos primeiros obsquios.
Assim vai o mundo. Assim se fazem algumas reputaes ms, e, o que parece
absurdo, algumas boas. Com efeito, h vidas que s tm prlogo; mas toda a
gente fala do grande livro que se lhe segue, e o autor morre com as folhas em
branco. No presente caso, as folhas escreveram-se, formando todas um grosso
volume de trezentas pginas compactas, sem contar as notas. Estas foram postas
no fim, no para esclarecer, mas para recordar os captulos passados; tal  o
mtodo nesses livros de colaborao. Mas a verdade  que eles apenas combinavam
no plano, quando a mulher do advogado recebeu este bilhete annimo:

No  possvel que a senhora se deixe embair mais tempo,
to escandalosamente, por uma de suas amigas, que se consola da viuvez,
seduzindo os maridos alheios, quando bastava conservar os cachos...

Que cachos? Maria Olmpia no perguntou que cachos eram;
eram da viva do brigadeiro, que os trazia por gosto, e no por moda. Creio que
isto se passou em 1853. Maria Olmpia leu e releu o bilhete; examinou a letra,
que lhe pareceu de mulher e disfarada, e percorreu mentalmente a primeira
linha das suas amigas, a ver se descobria a autora. No descobriu nada, dobrou
o papel e fitou o tapete do cho, caindo-lhe os olhos justamente no ponto do
desenho em que dois pombinhos ensinavam um ao outro a maneira de fazer de dois
bicos um bico. H dessas ironias do acaso, que do vontade de destruir o
universo. Afinal meteu o bilhete no vestido, e encarou a mucama, que esperava
por ela, e que lhe perguntou:

 Nhanh no quer mais ver o xale?

Maria Olmpia pegou no xale que a mucama lhe dava e foi
p-lo aos ombros, defronte do espelho. Achou que lhe ficava bem, muito melhor
que  viva. Cotejou as suas graas com as da outra. Nem os olhos nem a boca
eram comparveis; a viva tinha os ombros estreitinhos, a cabea grande, e o
andar feio. Era alta; mas que tinha ser alta? E os trinta e cinco anos de
idade, mais nove que ela? Enquanto fazia essas reflexes, ia compondo, pregando
e despregando o xale.

 Este parece melhor que o outro, aventurou a mucama.

 No sei... disse a senhora, chegando-se mais para a
janela, com os dois nas mos.

 Bota o outro, nhanh.

A nhanh obedeceu. Experimentou cinco xales dos dez que
ali estavam, em caixas, vindos de uma loja da Rua da Ajuda. Concluiu que os
dois primeiros eram os melhores; mas aqui surgiu uma complicao  mnima,
realmente  mas to sutil e profunda na soluo, que no vacilo em recomend-la
aos nossos pensadores de 1906. A questo era saber qual dos dois xales
escolheria, uma vez que o marido, recente advogado, pedia-lhe que fosse
econmica. Contemplava-os alternadamente, e ora preferia um, ora outro. De
repente, lembrou-lhe a aleivosia do marido, a necessidade de mortific-lo,
castig-lo, mostrar-lhe que no era peteca de ningum, nem maltrapilha; e, de
raiva, comprou ambos os xales.

Ao bater das quatros horas (era a hora do marido) nada de
marido. Nem s quatro, nem s quatro e meia. Maria Olmpia imaginava uma poro
de coisas aborrecidas, ia  janela, tornava a entrar, temia um desastre ou
doena repentina; pensou tambm que fosse uma sesso do jri. Cinco horas, e
nada. Os cachos da viva tambm negrejavam diante dela, entre a doena e o
jri, com uns tons de azul-ferrete, que era provavelmente a cor do diabo.
Realmente era para exaurir a pacincia de uma moa de vinte e seis anos. Vinte
e seis anos; no tinha mais. Era filha de um deputado do tempo da Regncia, que
a deixou menina; e foi uma tia que a educou com muita distino. A tia no a
levou muito cedo a bailes e espetculos. Era religiosa, conduziu-a primeiro 
igreja. Maria Olmpia tinha a vocao da vida exterior, e, nas procisses e
missas cantadas, gostava principalmente do rumor, da pompa; a devoo era
sincera, tbia e distrada. A primeira coisa que ela via na tribuna das
igrejas, era a si mesma. Tinha um gosto particular em olhar de cima para baixo,
fitar a multido das mulheres ajoelhadas ou sentadas, e os rapazes, que, por
baixo do coro ou nas portas laterais, temperavam com atitudes namoradas as
cerimnias latinas. No entendia os sermes; o resto, porm, orquestra, canto,
flores, luzes, sanefas, ouros, gentes, tudo exercia nela um singular feitio.
Magra devoo, que escasseou ainda mais com o primeiro espetculo e o primeiro
baile. No alcanou a Candiani, mas ouviu a Ida Edelvira, danou  larga, e
ganhou fama de elegante.

Eram cinco horas e meia, quando o Galvo chegou. Maria
Olmpia, que ento passeava na sala, to depressa lhe ouviu os ps, fez o que
faria qualquer outra senhora na mesma situao: pegou de um jornal de modas, e
sentou-se, lendo, com um grande ar de pouco caso. Galvo entrou ofegante,
risonho, cheio de carinhos, perguntando-lhe se estava zangada, e jurando que
tinha um motivo para a demora, um motivo que ela havia de agradecer, se
soubesse...

 No  preciso, interrompeu ela friamente.

Levantou-se; foram jantar. Falaram pouco; ela menos que
ele, mas em todo o caso, sem parecer magoada. Pode ser que entrasse a duvidar
da carta annima; pode ser tambm que os dois xales lhe pesassem na
conscincia. No fim do jantar, Galvo explicou a demora; tinha ido, a p, ao
teatro Provisrio, comprar um camarote para essa noite: davam os Lombardos.
De l, na volta, foi encomendar um carro...

 Os Lombardos? interrompeu Maria Olmpia.

 Sim; canta o Laboceta, canta a Jacobson; h bailado.
Voc nunca ouviu os Lombardos?

 Nunca.

 E a est por que me demorei. Que  que voc merecia
agora? Merecia que eu lhe cortasse a ponta desse narizinho arrebitado...

Como ele acompanhasse o dito com um gesto, ela recuou a
cabea; depois acabou de tomar o caf. Tenhamos pena da alma desta moa. Os
primeiros acordes dos Lombardos ecoavam nela, enquanto a carta annima
lhe trazia uma nota lgubre, espcie de requiem. E por que  que a carta
no seria uma calnia? Naturalmente no era outra coisa: alguma inveno de
inimigos, ou para afligi-la, ou para faz-los brigar. Era isto mesmo.
Entretanto, uma vez que estava avisada, no os perderia de vista. Aqui
acudiu-lhe uma idia: consultou o marido se mandaria convidar a viva.

 No, respondeu ele; o carro s tem dois lugares, e eu
no hei de ir na bolia.

Maria Olmpia sorriu de contente, e levantou-se. H muito
tempo que tinha vontade de ouvir os Lombardos. Vamos aos Lombardos!
Tr, l, l, l... Meia hora depois foi vestir-se. Galvo, quando a viu pronta
da a pouco, ficou encantado. 'Minha mulher  linda', pensou ele; e
fez um gesto para estreit-la ao peito; mas a mulher recuou, pedindo-lhe que
no a amarrotasse. E, como ele, por umas veleidades de camareiro, pretendeu
consertar-lhe a pluma do cabelo, ela disse-lhe enfastiada:

 Deixa, Eduardo! J veio o carro?

Entraram no carro e seguiram para o teatro. Quem  que
estava no camarote contguo ao deles? Justamente a viva e a me. Esta
coincidncia, filha do acaso, podia fazer crer algum ajuste prvio. Maria
Olmpia chegou a suspeit-lo; mas a sensao da entrada no lhe deu tempo de
examinar a suspeita. Toda a sala voltara-se para v-la, e ela bebeu, a tragos demorados,
o leite da admirao pblica. Demais, o marido teve a inspirao, maquiavlica,
de lhe dizer ao ouvido: 'Antes a mandasses convidar; ficava-nos devendo o
favor'. Qualquer suspeita cairia diante desta palavra. Contudo, ela cuidou
de os no perder de vista  e renovou a resoluo de cinco em cinco minutos,
durante meia hora, at que, no podendo fixar a ateno, deixou-a andar. L vai
ela, inquieta, vai direito ao claro das luzes, ao esplendor dos vesturios, um
pouco  pera, como pedindo a todas as coisas alguma sensao deleitosa em que
se espreguice uma alma fria e pessoal. E volta depois  prpria dona, ao seu
leque, s suas luvas, aos adornos do vestido, realmente magnficos. Nos
intervalos, conversando com a viva, Maria Olmpia tinha a voz e os gestos do
costume, sem clculo, sem esforo, sem sentimento, esquecida da carta.
Justamente nos intervalos  que o marido, com uma discrio rara entre os
filhos dos homens, ia para os corredores ou para o saguo pedir notcias do
ministrio.

Juntas saram do camarote, no fim, e atravessaram os
corredores. A modstia com que a viva trajava podia realar a magnificncia da
amiga. As feies, porm, no eram o que esta afirmou, quando ensaiava os xales
de manh. No, senhor; eram engraadas, e tinham um certo pico original. Os
ombros proporcionais e bonitos. No contava trinta e cinco anos, mas trinta e
um; nasceu em 1822, na vspera da independncia, tanto que o pai, por
brincadeira, entrou a cham-la Ipiranga, e ficou-lhe esta alcunha entre
as amigas. Demais, l estava em Santa Rita o assentamento de batismo.

Uma semana depois, recebeu Maria Olmpia outra carta
annima. Era mais longa e explcita. Vieram outras, uma por semana, durante
trs meses. Maria Olmpia leu as primeiras com algum aborrecimento; as
seguintes foram calejando a sensibilidade. No havia dvida que o marido
demorava-se fora, muitas vezes, ao contrrio do que fazia dantes, ou saa 
noite e regressava tarde; mas, segundo dizia, gastava o tempo no Wallerstein ou
no Bernardo, em palestras polticas. E isto era verdade, uma verdade de cinco a
dez minutos, o tempo necessrio para recolher alguma anedota ou novidade, que
pudesse repetir em casa,  laia de documento. Dali seguia para o Largo de So
Francisco, e metia-se no nibus.

Tudo era verdade. E, contudo, ela continuava a no crer
nas cartas. Ultimamente, no se dava mais ao trabalho de as refutar consigo;
lia-as uma s vez, e rasgava-as. Com o tempo foram surgindo alguns indcios
menos vagos, pouco a pouco, ao modo do aparecimento da terra aos navegantes;
mas este Colombo teimava em no crer na Amrica. Negava o que via; no podendo
neg-lo, interpretava-o; depois recordava algum caso de alucinao, uma anedota
de aparncias ilusrias, e nesse travesseiro cmodo e mole punha a cabea e
dormia. J ento, prosperando-lhe o escritrio, dava o Galvo partidas e
jantares, iam a bailes, teatros, corridas de cavalos. Maria Olmpia vivia
alegre, radiante; comeava a ser um dos nomes da moda. E andava muita vez com a
viva, a despeito das cartas, a tal ponto que uma destas lhe dizia:
'Parece que  melhor no escrever mais, uma vez que a senhora se regala
numa comboraria de mau gosto'. Que era comboraria? Maria Olmpia quis
pergunt-lo ao marido, mas esqueceu o termo, e no pensou mais nisso.

Entretanto, constou ao marido que a mulher recebia cartas
pelo correio. Cartas de quem? Esta notcia foi um golpe duro e inesperado.
Galvo examinou de memria as pessoas que lhe freqentavam a casa, as que
podiam encontr-la em teatros ou bailes, e achou muitas figuras verossmeis. Em
verdade, no lhe faltavam adoradores.

 Cartas de quem? repetia ele mordendo o beio e franzindo
a testa.

Durante sete dias passou uma vida inquieta e aborrecida,
espiando a mulher e gastando em casa grande parte do tempo. No oitavo dia, veio
uma carta.

 Para mim? disse ele vivamente.

 No;  para mim, respondeu Maria Olmpia, lendo o
sobrescrito; parece letra de Mariana ou de Lulu Fontoura...

No queria v-la; mas o marido disse que a lesse; podia ser
alguma notcia grave. Maria Olmpia leu a carta e dobrou-a, sorrindo; ia
guard-la, quando o marido desejou ver o que era.

 Voc sorriu, disse ele gracejando; h de ser algum
epigrama comigo.

 Qual!  um negcio de moldes.

 Mas deixa ver.

 Para qu, Eduardo?

 Que tem? Voc, que no quer mostrar, por algum motivo h
de ser. D c.

J no sorria; tinha a voz trmula. Ela ainda recusou a
carta, uma, duas, trs vezes. Teve mesmo idia de rasg-la, mas era pior, e no
conseguiria faz-lo at o fim. Realmente, era uma situao original. Quando ela
viu que no tinha remdio, determinou ceder. Que melhor ocasio para ler no
rosto dele a expresso da verdade? A carta era das mais explcitas; falava da
viva em termos crus. Maria Olmpia entregou-lha.

 No queria mostrar esta, disse-lhe ela primeiro, como
no mostrei outras que tenho recebido e botado fora; so tolices, intrigas, que
andam fazendo para... Leia, leia a carta.

Galvo abriu a carta e deitou-lhe os olhos vidos. Ela
enterrou a cabea na cintura, para ver de perto a franja do vestido. No o viu
empalidecer. Quando ele, depois de alguns minutos, proferiu duas ou trs
palavras, tinha j a fisionomia composta e um esboo de sorriso. Mas a mulher,
que o no adivinhava, respondeu ainda de cabea baixa; s a levantou da a trs
ou quatro minutos, e no para fit-lo de uma vez, mas aos pedaos, como se
temesse descobrir-lhe nos olhos a confirmao do annimo. Vendo-lhe, ao
contrrio, um sorriso, achou que era o da inocncia, e falou de outra coisa.

Redobraram as cautelas do marido; parece tambm que ele
no pde esquivar-se a um tal ou qual sentimento de admirao para com a
mulher. Pela sua parte, a viva, tendo notcia das cartas, sentiu-se
envergonhada; mas reagiu depressa, e requintou de maneiras afetuosas com a
amiga.

Na segunda ou terceira semana de agosto, Galvo fez-se
scio do Cassino Fluminense. Era um dos sonhos da mulher. A seis de setembro
fazia anos a viva, como sabemos. Na vspera, foi Maria Olmpia (com a tia que chegara
de fora) comprar-lhe um mimo: era uso entre elas. Comprou-lhe um anel. Viu na
mesma casa uma jia engraada, uma meia lua de diamantes para o cabelo, emblema
de Diana, que lhe iria muito bem sobre a testa. De Maom que fosse; todo o
emblema de diamantes  cristo. Maria Olmpia pensou naturalmente na primeira
noite do Cassino; e a tia, vendo-lhe o desejo, quis comprar a jia, mas era
tarde, estava vendida.

Veio a noite do baile. Maria Olmpia subiu comovida as
escadas do Cassino. Pessoas que a conheceram naquele tempo, dizem que o que ela
achava na vida exterior, era a sensao de uma grande carcia pblica, a
distncia; era a sua maneira de ser amada. Entrando no Cassino, ia recolher
nova cpia de admiraes, e no se enganou, porque elas vieram, e de fina
casta.

Foi pelas dez horas e meia que a viva ali apareceu.
Estava realmente bela, trajada a primor, tendo na cabea a meia lua de
diamantes. Ficava-lhe bem o diabo da jia, com as duas pontas para cima,
emergindo do cabelo negro. Toda a gente admirou sempre a viva naquele salo.
Tinha muitas amigas, mais ou menos ntimas, no poucos adoradores, e possua um
gnero de esprito que espertava com as grandes luzes. Certo secretrio de
legao no cessava de a recomendar aos diplomatas novos: 'Causez avec
Mme. Tavares; c'est adorable!' Assim era nas outras noites; assim foi
nesta.

 Hoje quase no tenho tido tempo de estar com voc, disse
ela a Maria Olmpia, perto de meia-noite.

 Naturalmente, disse a outra abrindo e fechando o leque;
e, depois de umedecer os lbios, como para chamar a eles todo o veneno que
tinha no corao:  Ipiranga, voc est hoje uma viva deliciosa... Vem
seduzir mais algum marido?

A viva empalideceu, e no pde dizer nada. Maria Olmpia
acrescentou, com os olhos, alguma coisa que a humilhasse bem, que lhe
respingasse lama no triunfo. J no resto da noite falaram pouco; trs dias
depois romperam para nunca mais.

AS ACADEMIAS DE SIO

NDICE

CAPTULO PRIMEIRO

CAPTULO II

CAPTULO III

CAPTULO IV

Conhecem as academias de Sio? Bem sei que em Sio nunca
houve academias: mas suponhamos que sim, e que eram quatro, e escutem-me.

CAPTULO PRIMEIRO

As estrelas, quando viam subir, atravs da noite, muitos
vaga-lumes cor de leite, costumavam dizer que eram os suspiros do rei de Sio,
que se divertia com as suas trezentas concubinas. E, piscando o olho umas s
outras, perguntavam:

 Reais suspiros, em que  que se ocupa esta noite o lindo
Kalaphangko?

Ao que os vaga-lumes respondiam com gravidade:

 Ns somos os pensamentos sublimes das quatro academias
de Sio; trazemos conosco toda a sabedoria do universo.

Uma noite, foram em tal quantidade os vaga-lumes, que as
estrelas, de medrosas, refugiaram-se nas alcovas, e eles tomaram conta de uma
parte do espao, onde se fixaram para sempre com o nome de Via-lctea.

Deu lugar a essa enorme ascenso de pensamentos o fato de
quererem as quatro academias de Sio resolver este singular problema:  por que
 que h homens femininos e mulheres msculas? E o que as induziu a isso foi a
ndole do jovem rei. Kalaphangko era virtualmente uma dama. Tudo nele respirava
a mais esquisita feminidade: tinha os olhos doces, a voz argentina, atitudes
moles e obedientes e um cordial horror s armas. Os guerreiros siameses gemiam,
mas a nao vivia alegre, tudo eram danas, comdias e cantigas,  maneira do
rei que no cuidava de outra coisa. Da a iluso das estrelas.

Vai seno quando, uma das academias achou esta soluo ao
problema:

 Umas almas so masculinas, outras femininas. A anomalia
que se observa  uma questo de corpos errados.

 Nego, bradaram as outras trs; a alma  neutra; nada tem
com o contraste exterior.

No foi preciso mais para que as vielas e guas de Bangkok
se tingissem de sangue acadmico. Veio primeiramente a controvrsia, depois a
descompostura, e finalmente a pancada. No princpio da descompostura tudo andou
menos mal; nenhuma das rivais arremessou um improprio que no fosse
escrupulosamente derivado do snscrito, que era a lngua acadmica, o latim de
Sio. Mas dali em diante perderam a vergonha. A rivalidade desgrenhou-se, ps
as mos na cintura, baixou  lama,  pedrada, ao murro, ao gesto vil, at que a
academia sexual, exasperada, resolveu dar cabo das outras, e organizou um plano
sinistro... Ventos que passais, se quissseis levar convosco estas folhas de
papel, para que eu no contasse a tragdia de Sio! Custa-me (ai de mim!),
custa-me escrever a singular desforra. Os acadmicos armaram-se em segredo, e
foram ter com os outros, justamente quando estes, curvados sobre o famoso
problema, faziam subir ao cu uma nuvem de vaga-lumes. Nem prembulo, nem
piedade. Caram-lhes em cima, espumando de raiva. Os que puderam fugir, no
fugiram por muitas horas; perseguidos e atacados, morreram na beira do rio, a
bordo das lanchas, ou nas vielas escusas. Ao todo, trinta e oito cadveres.
Cortaram uma orelha aos principais, e fizeram delas colares e braceletes para o
presidente vencedor, o sublime U-Tong. brios da vitria, celebraram o feito
com um grande festim, no qual cantaram este hino magnfico: 'Glria a ns,
que somos o arroz da cincia e a luminria do universo'.

A cidade acordou estupefata. O terror apoderou-se da
multido. Ningum podia absolver uma ao to crua e feia; alguns chegavam
mesmo a duvidar do que viam... Uma s pessoa aprovou tudo: foi a bela Kinnara,
a flor das concubinas rgias.

CAPTULO II

Molemente deitado aos ps da bela Kinnara, o jovem rei
pedia-lhe uma cantiga.

 No dou outra cantiga que no seja esta: creio na alma
sexual.

 Crs no absurdo, Kinnara.

 Vossa Majestade cr ento na alma neutra?

 Outro absurdo, Kinnara. No, no creio na alma neutra,
nem na alma sexual.

 Mas ento em que  que Vossa Majestade cr, se no cr
em nenhuma delas?

 Creio nos teus olhos, Kinnara, que so o sol e a luz do
universo.

 Mas cumpre-lhe escolher:  ou crer na alma neutra, e
punir a academia viva, ou crer na alma sexual, e absolv-la.

 Que deliciosa que  a tua boca, minha doce Kinnara!
Creio na tua boca:  a fonte da sabedoria.

Kinnara levantou-se agitada. Assim como o rei era o homem
feminino, ela era a mulher mscula  um bfalo com penas de cisne. Era o bfalo
que andava agora no aposento, mas da a pouco foi o cisne que parou, e,
inclinando o pescoo, pediu e obteve do rei, entre duas carcias, um decreto em
que a doutrina da alma sexual foi declarada legtima e ortodoxa, e a outra
absurda e perversa. Nesse mesmo dia, foi o decreto mandado  academia
triunfante, aos pagodes, aos mandarins, a todo o reino. A academia ps
luminrias; restabeleceu-se a paz pblica.

CAPTULO III

Entretanto, a bela Kinnara tinha um plano engenhoso e secreto.
Uma noite, como o rei examinasse alguns papis do Estado, perguntou-lhe ela se
os impostos eram pagos com pontualidade.

 Ohim! exclamou ele, repetindo essa palavra que
lhe ficara de um missionrio italiano. Poucos impostos tm sido pagos. Eu no
quisera mandar cortar a cabea aos contribuintes... No, isso nunca... Sangue?
sangue? no, no quero sangue...

 E se eu lhe der um remdio a tudo?

 Qual?

 Vossa Majestade decretou que as almas eram femininas e
masculinas, disse Kinnara depois de um beijo. Suponha que os nossos corpos
esto trocados. Basta restituir cada alma ao corpo que lhe pertence. Troquemos
os nossos...

Kalaphangko riu muito da idia, e perguntou-lhe como  que
fariam a troca. Ela respondeu que pelo mtodo Mukunda, rei dos hindus, que se
meteu no cadver de um brmane, enquanto um truo se metia no dele Mukunda, 
velha lenda passada aos turcos, persas e cristos. Sim, mas a frmula da
invocao? Kinnara declarou que a possua; um velho bonzo achara cpia dela nas
runas de um templo.

 Valeu?

 No creio no meu prprio decreto, redargiu ele rindo;
mas v l, se for verdade, troquemos... mas por um semestre, no mais. No fim
do semestre destrocaremos os corpos.

Ajustaram que seria nessa mesma noite. Quando toda a
cidade dormia, eles mandaram vir a piroga real, meteram-se dentro e deixaram-se
ir  toa. Nenhum dos remadores os via. Quando a aurora comeou a aparecer,
fustigando as vacas rtilas, Kinnara proferiu a misteriosa invocao; a alma
desprendeu-se-lhe, e ficou pairando,  espera que o corpo do rei vagasse
tambm. O dela cara no tapete.

 Pronto? disse Kalaphangko.

 Pronto, aqui estou no ar, esperando. Desculpe Vossa
Majestade a indignidade da minha pessoa...

Mas a alma do rei no ouviu o resto. Lpida e cintilante,
deixou o seu vaso fsico e penetrou no corpo de Kinnara, enquanto a desta se
apoderava do despojo real. Ambos os corpos ergueram-se e olharam um para o
outro, imagine-se com que assombro. Era a situao do Buoso e da cobra, segundo
conta o velho Dante; mas vede aqui a minha audcia. O poeta manda calar Ovdio
e Lucano, por achar que a sua metamorfose vale mais que a deles dois. Eu
mando-os calar a todos trs. Buoso e a cobra no se encontram mais, ao passo
que os meus dois heris, uma vez trocados, continuam a falar e a viver juntos 
coisa evidentemente mais dantesca, em que me pese  modstia.

 Realmente, disse Kalaphangko, isto de olhar para mim
mesmo e dar-me majestade  esquisito. Vossa Majestade no sente a mesma coisa?

Um e outro estavam bem, como pessoas que acham finalmente
uma casa adequada. Kalaphangko espreguiava-se todo nas curvas femininas de
Kinnara. Esta inteiriava-se no tronco rijo de Kalaphangko. Sio tinha,
finalmente, um rei.

CAPTULO IV

A primeira ao de Kalaphangko (daqui em diante entenda-se
que  o corpo do rei com a alma de Kinnara, e Kinnara o corpo da bela siamesa
com a alma do Kalaphangko) foi nada menos que dar as maiores honrarias  academia
sexual. No elevou os seus membros ao mandarinato, pois eram mais homens de
pensamento que de ao e administrao, dados  filosofia e  literatura, mas
decretou que todos se prosternassem diante deles, como  de uso aos mandarins.
Alm disso, fez-lhes grandes presentes, coisas raras ou de valia, crocodilos
empalhados, cadeiras de marfim, aparelhos de esmeralda para almoo, diamantes,
relquias. A academia, grata a tantos benefcios, pediu mais o direito de usar
oficialmente o ttulo de Claridade do Mundo, que lhe foi outorgado.

Feito isso, cuidou Kalaphangko da fazenda pblica, da
justia, do culto e do cerimonial. A nao comeou de sentir o peso grosso,
para falar como o excelso Cames, pois nada menos de onze contribuintes
remissos foram logo decapitados. Naturalmente os outros, preferindo a cabea ao
dinheiro, correram a pagar as taxas, e tudo se regularizou. A justia e a
legislao tiveram grandes melhoras. Construram-se novos pagodes; e a religio
pareceu at ganhar outro impulso, desde que Kalaphangko, copiando as antigas
artes espanholas, mandou queimar uma dzia de pobres missionrios cristos que
por l andavam; ao que os bonzos da terra chamaram a prola do reinado.

Faltava uma guerra. Kalaphangko, com um pretexto mais ou menos
diplomtico, atacou a outro reino, e fez a campanha mais breve e gloriosa do
sculo. Na volta a Bangkok, achou grandes festas esplndidas. Trezentos barcos,
forrados de seda escarlate e azul, foram receb-lo. Cada um destes tinha na
proa um cisne ou um drago de ouro, e era tripulado pela mais fina gente da
cidade; msicas e aclamaes atroaram os ares. De noite, acabadas as festas,
sussurrou ao ouvido a bela concubina:

 Meu jovem guerreiro, paga-me as saudades que curti na
ausncia; dize-me que a melhor das festas  a tua meiga Kinnara.

Kalaphangko respondeu com um beijo.

 Os teus beios tm o frio da morte ou do desdm,
suspirou ela.

Era verdade, o rei estava distrado e preocupado; meditava
uma tragdia. Ia-se aproximando o termo do prazo em que deviam destrocar os
corpos, e ele cuidava em iludir a clusula, matando a linda siamesa. Hesitava
por no saber se padeceria com a morte dela visto que o corpo era seu, ou mesmo
se teria de sucumbir tambm. Era esta a dvida de Kalaphangko; mas a idia da
morte sombreava-lhe a fronte, enquanto ele afagava ao peito um frasquinho com
veneno, imitado dos Brgias.

De repente, pensou na douta academia; podia consult-la,
no claramente, mas por hiptese. Mandou chamar os acadmicos; vieram todos
menos o presidente, o ilustre U-Tong, que estava enfermo. Eram treze;
prosternaram-se e disseram ao modo de Sio:

 Ns, desprezveis palhas, corremos ao chamado de
Kalaphangko.

 Erguei-vos, disse benevolamente o rei.

 O lugar da poeira  o cho, teimaram eles com os
cotovelos e joelhos em terra.

 Pois serei o vento que subleva a poeira, redargiu
Kalaphangko; e, com um gesto cheio de graa e tolerncia, estendeu-lhes as
mos.

Em seguida, comeou a falar de coisas diversas, para que o
principal assunto viesse de si mesmo; falou nas ltimas notcias do ocidente e
nas leis de Manu. Referindo-se a U-Tong, perguntou-lhes se realmente era um
grande sbio, como parecia; mas, vendo que mastigavam a resposta, ordenou-lhes
que dissessem a verdade inteira. Com exemplar unanimidade, confessaram eles que
U-Tong era um dos mais singulares estpidos do reino, esprito raso, sem valor,
nada sabendo e incapaz de aprender nada. Kalaphangko estava pasmado. Um estpido?

 Custa-nos diz-lo, mas no  outra coisa;  um esprito
raso e chocho. O corao  excelente, carter puro, elevado...

Kalaphangko, quando voltou a si do espanto, mandou embora
os acadmicos, sem lhes perguntar o que queria. Um estpido? Era mister tir-lo
da cadeira sem molest-lo. Trs dias depois, U-Tong compareceu ao chamado do
rei. Este perguntou-lhe carinhosamente pela sade; depois disse que queria
mandar algum ao Japo estudar uns documentos, negcio que s podia ser
confiado a pessoa esclarecida. Qual dos seus colegas da academia lhe parecia
idneo para tal mister? Compreende-se o plano artificioso do rei: era ouvir
dois ou trs nomes, e concluir que a todos preferia o do prprio U-Tong; mas
eis aqui o que este lhe respondeu:

 Real Senhor, perdoai a familiaridade da palavra: so
treze camelos, com a diferena que os camelos so modestos, e eles no;
comparam-se ao sol e  lua. Mas, na verdade, nunca a lua nem o sol cobriram
mais singulares pulhas do que esses treze... Compreendo o assombro de Vossa
Majestade; mas eu no seria digno de mim se no dissesse isto com lealdade,
embora confidencialmente...

Kalaphangko tinha a boca aberta. Treze camelos? Treze,
treze. U-Tong ressalvou to-somente o corao de todos, que declarou excelente;
nada superior a eles pelo lado do carter. Kalaphangko, com um fino gesto de
complacncia, despediu o sublime U-Tong, e ficou pensativo. Quais fossem as
suas reflexes, no o soube ningum. Sabe-se que ele mandou chamar os outros
acadmicos, mas desta vez separadamente, a fim de no dar na vista, e para
obter maior expanso. O primeiro que chegou, ignorando alis a opinio de
U-Tong, confirmou-a integralmente com a nica emenda de serem doze os camelos,
ou treze, contando o prprio U-Tong. O segundo no teve opinio diferente, nem
o terceiro, nem os restantes acadmicos. Diferiam no estilo; uns diziam
camelos, outros usavam circunlquios e metforas, que vinham a dar na mesma
coisa. E, entretanto, nenhuma injria ao carter moral das pessoas. Kalaphangko
estava atnito.

Mas no foi esse o ltimo espanto do rei. No podendo
consultar a academia, tratou de deliberar por si, no que gastou dois dias, at
que a linda Kinnara lhe segredou que era me. Esta notcia f-lo recuar do
crime. Como destruir o vaso eleito da flor que tinha de vir com a primavera
prxima? Jurou ao cu e  terra que o filho havia de nascer e viver. Chegou ao
fim do semestre; chegou o momento de destroar os corpos.

Como da primeira vez, meteram-se no barco real,  noite, e
deixaram-se ir guas abaixo, ambos de m vontade, saudosos do corpo que iam
restituir um ao outro. Quando as vacas cintilantes da madrugada comearam de
pisar vagarosamente o cu, proferiram eles a frmula misteriosa, e cada alma
foi devolvida ao corpo anterior. Kinnara, tornando ao seu, teve a comoo
materna, como tivera a paterna quando ocupava o corpo de Kalaphangko.
Parecia-lhe at que era ao mesmo tempo me e pai da criana.

 Pai e me? repetiu o prncipe restitudo  forma
anterior.

Foram interrompidos por uma deleitosa msica, ao longe.
Era algum junco ou piroga que subia o rio, pois a msica aproximava-se
rapidamente. J ento o sol alagava de luz as guas e as margens verdes, dando
ao quadro um tom de vida e renascena, que de algum modo fazia esquecer aos
dois amantes a restituio fsica. E a msica vinha chegando, agora mais
distinta, at que, numa curva do rio, apareceu aos olhos de ambos um barco
magnfico, adornado de plumas e flmulas. Vinham dentro os quatorze membros da
academia (contando U-Tong) e todos em coro mandavam aos ares o velho hino:
'Glria a ns, que somos o arroz da cincia e a claridade do mundo!'

A bela Kinnara (antigo Kalaphangko) tinha os olhos
esbugalhados de assombro. No podia entender como  que quatorze vares reunidos
em academia eram a claridade do mundo, e separadamente uma multido de camelos.
Kalaphangko, consultado por ela, no achou explicao. Se algum descobrir
alguma, pode obsequiar uma das mais graciosas damas do Oriente, mandando-lha em
carta fechada, e, para maior segurana, sobrescrita ao nosso cnsul em Xangai,
China.

FIM
