MISCELNEA, A Esttua de Jos de Alencar,1906

A Esttua de Jos de
Alencar

Texto-fonte:

Obra Completa, Machado de Assis,

Rio de Janeiro: Nova
Aguilar, V.II, 1994.

Publicado originalmente em Pginas Recolhidas, Rio de Janeiro: Editora Garnier, 1906.

Discurso proferido na
cerimnia do lanamento

da primeira pedra da
esttua de Jos de Alencar

Senhores,

Tenho ainda presente a essa em que, por algumas
horas ltimas, pousou o corpo de Jos de Alencar. Creio que jamais o espetculo
da morte me fez to singular impresso. Quando entrei na adolescncia, fulgiam
os primeiros raios daquele grande engenho; vi-os depois em tanta cpia e com
tal esplendor que eram j um sol, quando entrei na mocidade. Gonalves Dias e
os homens do seu tempo estavam feitos; lvares de Azevedo, cujo livro era a boa-nova
dos poetas, falecera antes de revelado ao mundo. Todos eles influam
profundamente no nimo juvenil que apenas balbuciava alguma coisa; mas a ao
crescente de Alencar dominava as outras. A sensao que recebi no primeiro
encontro pessoal com ele foi extraordinria; creio ainda agora que no lhe
disse nada, contentando-me de fit-lo com os olhos assombrados do menino Heine
ao ver passar Napoleo. A fascinao no diminuiu com o trato do homem e do
artista. Da o espanto da morte. No podia crer que o autor de tanta vida
estivesse ali, dentro de um fretro, mudo e inbil por todos os tempos dos
tempos. Mas o mistrio e a realidade impunham-se; no havia mais que enterr-lo
e ir convers-lo em seus livros.

Hoje, senhores, assistimos ao incio de outro
monumento, este agora de vida, destinado a dar  cidade,  ptria e ao mundo a
imagem daquele que um dia acompanhamos ao cemitrio. Volveram anos; volveram
coisas; mas a conscincia humana diz-nos que, no meio das obras e dos tempos
fugidios, subsiste a flor da poesia, ao passo que a conscincia nacional nos
mostra na pessoa do grande escritor o robusto e vivaz representante da
literatura brasileira.

No  aqui o lugar adequado  narrao da carreira
do autor de Iracema. Todos vs sabeis que foi rpida, brilhante e cheia;
podemos dizer que ele saiu da Academia para a celebridade. Quem o l agora, em
dias e horas de escolha, e nos livros que mais lhe aprazem, no tem idia da
fecundidade extraordinria que revelou to depressa entrou na vida. Desde logo ps
mos  crnica, ao romance,  crtica e ao teatro, dando a todas essas formas
do pensamento um cunho particular e desconhecido. No romance que foi a sua
forma por excelncia, a primeira narrativa, curta e simples, mal se espaou da
segunda e da terceira. Em trs saltos estava o Guarani diante de ns; e
da veio a sucesso crescente de fora, de esplendor, de variedade. O esprito
de Alencar percorreu as diversas partes de nossa terra, o norte e o sul, a
cidade e o serto, a mata e o pampa, fixando-as em suas pginas, compondo assim
com as diferenas da vida, das zonas e dos tempos a unidade nacional da sua
obra.

Nenhum escritor teve em mais alto grau a alma
brasileira. E no  s porque houvesse tratado assuntos nossos. H um modo de
ver e de sentir, que d a nota ntima da nacionalidade, independente da face
externa das coisas. O mais francs dos trgicos franceses  Racine, que s fez
falar a antigos. Schiller  sempre alemo, quando recompe Filipe II e Joana
d'Arc. O nosso Alencar juntava a esse dom a natureza dos assuntos tirados da
vida ambiente e da histria local. Outros o fizeram tambm; mas a expresso do
seu gnio era mais vigorosa e mais ntima. A imaginao que sobrepujava nele o
esprito de anlise, dava a tudo o calor dos trpicos e as galas viosas de
nossa terra. O talento descritivo, a riqueza, o mimo e a originalidade do
estilo completavam a sua fisionomia literria.

No lembro aqui as letras polticas, os dias de
governo e de tribuna. Toda essa parte de Alencar fica para a biografia. A
glria contenta-se da outra parte. A poltica era incompatvel com ele, alma
solitria. A disciplina dos partidos e a natural sujeio dos homens s
necessidades e interesses comuns no podiam ser aceitas a um esprito que em
outra esfera dispunha da soberania e da liberdade. Primeiro em Atenas, era-lhe
difcil ser segundo ou terceiro em Roma. Quando um ilustre homem de Estado respondendo a Alencar, j ento apeado do Governo, comparou a carreira poltica 
do soldado, que tem de passar pelos servios nfimos e ganhar os postos
gradualmente, dando-se a si mesmo como exemplo dessa lei, usou de uma imagem
feliz e verdadeira, mas ininteligvel para o autor das Minas de Prata.
Um ponto h que notar, entretanto, naquele curto estdio poltico. O autor do Gacho
carecia das qualidades necessrias  tribuna, mas quis ser orador, e foi
orador. Sabemos que se bateu galhardamente com muitas das primeiras vozes do
parlamento.

Desenganado dos homens e das coisas, Alencar volveu
de todo s suas queridas letras. As letras so boas amigas; no lhe fizeram
esquecer inteiramente as amarguras,  certo; senti-lhe mais de uma vez a alma
enojada e abatida. Mas a arte, que  a liberdade, era a fora medicatriz do seu
esprito. Enquanto a imaginao inventava, compunha e polia novas obras, a
contemplao mental ia vencendo as tristezas do corao, e o misantropo amava
os homens.

Agora que os anos vo passando sobre o bito do
escritor,  justo perpetu-lo, pela mo do nosso ilustre estaturio nacional.
Concluindo o livro de Iracema, escreveu Alencar esta palavra melanclica:
'A jandaia cantava ainda no olho do coqueiro, mas no repetia j o mavioso
nome de Iracema. Tudo passa sobre a terra'. Senhores, a filosofia
do livro no podia ser outra, mas a posteridade  aquela jandaia que no deixa
o coqueiro, e que ao contrrio da que emudeceu na novela, repete e repetir o
nome da linda tabajara e do seu imortal autor. Nem tudo passa sobre a terra.
