Crtrica, Raimundo Correia: Sinfonias, 1883

Raimundo Correia: Sinfonias

Texto-Fonte:

Obra Completa de Machado de Assis,

Rio
de Janeiro: Nova Aguilar, vol. III, 1994.

Introduo
a Sinfonias, Rio de Janeiro, 1883.

[Escrito
em julho de 1882]

Suponho
que o leitor, antes de folhear o livro, deixa cair um olhar curioso nesta
primeira pgina. Sabe que no vem achar aqui uma crtica severa, tal no  o
ofcio dos prefcios;  vem apenas lobrigar, atravs da frase atenuada ou
calculada, os impulsos de simpatia ou de fervor; e, na medida da confiana que
o prefacista lhe merecer, assim ler ou no a obra. Mas para os leitores
maliciosos  que se fizeram os prefcios astutos, desses que trocam todas as
voltas, e vo aguardar o leitor onde este no espera por eles.  o nosso caso.
Em vez de lhe dizer, desde logo, o que penso do poeta, com palavras que a
incredulidade pode converter em puro obsquio literrio, antecipo uma pgina do
livro; e, com essa outra malcia, dou-lhe a melhor das opinies, porque 
impossvel que o leitor no sinta a beleza destes versos do Dr. Raimundo
Correia:

MAL
SECRETO

Se a
clera que espuma, a dor que mora

N' alma,
e destri cada iluso que nasce,

Tudo o
que punge, tudo o que devora

O
corao, no rosto se estampasse;

Se se pudesse
o esprito que chora,

Ver
atravs da mscara da face,

Quanta
gente, talvez, que inveja agora

Nos
causa, ento piedade nos causasse!

Quanta
gente que ri, talvez, consigo

Guarda um
atroz, recndito inimigo,

Como
invisvel chaga cancerosa!

Quanta gente
que ri talvez existe,

Cuja
ventura nica consiste

Em
parecer aos outros venturosa!

A est o
poeta, com a sua sensibilidade, o seu verso natural e correntio, o seu amor 
arte de dizer as coisas, fugindo  vulgaridade, sem cair na afetao. Ele pode
no ser sempre a mesma coisa, no conceito e no estilo, mas  poeta, e fio que
esta seja a opinio dos leitores, para quem o nome do Dr. Raimundo Correia for
inteira novidade. Para outros, naturalmente a maioria, o nome do Dr. Raimundo
Correia est apenso a um livro, sado dos prelos de So Paulo, em 1879, quando
o poeta tinha apenas 19 anos. Esse livro, Primeiros Sonhos,  uma
coleo de ensaios poticos, alguns datados de 1877, versos de adolescncia, em
que, no Hrcules menino, mas Baco infante, agita no ar os pmpanos,  espera
de crescer para invadir a ndia. No posso dizer longamente o que  esse livro;
confesso que h nele o cheiro romntico da decadncia, e um certo aspecto
flcido; mas, tais defeitos, a mesma afetao de algumas pginas, a vulgaridade
de outras, no suprimem a individualidade do poeta, nem excluem movimento e a
melodia da estrofe. Creio mesmo que algumas composies daquele livro podiam
figurar neste sem desdizer do tom nem quebrar-lhe a unidade.

No foram
esses os primeiros versos que li do Dr. Raimundo Correia. Li os primeiros neste
mesmo ano de 1882, uns versos satricos, triolets sonoros, modelados com
apuro, que no me pareceram versos de qualquer. Semanas depois, conheci
pessoalmente o poeta, e confesso uma desiluso. Tinha deduzido dos versos
lindos um mancebo expansivo, alegre e vibrante, aguado como as suas rimas,
coruscante como os seus esdrxulos, e achei uma figura concentrada, pensativa,
que sorri s vezes, ou faz crer que sorri, e no sei se riu nunca. Mas a desiluso
no foi uma queda. A figura trazia a nota simptica; o acanho das maneiras
vestia a modstia sincera, de boa raa, lastro do engenho, necessrio ao
equilbrio. Achei o poeta deste livro, ou de uma parte deste livro:  um
contemplativo e um artista, corao mordido daquele amor misterioso e cruel que
 a um tempo a dor e o feitio das vtimas.

Mas,
enfim, Baco conquistou a ndia? No digo tanto, porque preciso ser sincero,
ainda mesmo nos prefcios. Trocou os pmpanos da puercia, jungiu ao carro as
panteras que o levaro  terra indiana, e no a vencer, se no quiser. Em
termos chos, o Raimundo Correia no d ainda neste livro tudo o que se pode
esperar do seu talento, mas d muito mais do que dera antes; afirma-se,
toma lugar entre os primeiros da nova gerao. Estuda e trabalha. Dizem-me que
compe com grande facilidade, e, todavia, o livro no  sobejo, ao passo que os
versos manifestam o labor de artista sincero e paciente, que no pensa no
pblico se no para respeit-lo. No quero transcrever mais nada; o leitor
sentir que h no Dr. Raimundo Correia a massa de um artista, lendo, entre
outras pginas, 'No Banho', o 'Anoitecer', 'No
Circo', e os sonetos sob o ttulo de 'Perfis Romnticos',
galeria de mulheres,  maneira de Banville. No  sempre puro o estilo, nem a
linguagem escoimada de descuidos, e a direo do esprito podia s vezes ser
outra; mas as boas qualidades dominam, e isto j  um saldo a favor.

Uma parte
desta coleo  militante, no contemplativa, porque o Dr. Raimundo Correia, em
poltica, tem opinies radicais:  republicano e revolucionrio. Creio que o
artista a  menor e as idias menos originais; as apstrofes parecem-me mais
violentas do que espontneas, e o poeta mais agressivo do que apaixonado. Note
o leitor que no ponho em dvida a sinceridade dos sentimentos do Dr. Raimundo
Correia; limito-me a citar a forma lrica e a expresso potica; do mesmo modo
que no desrespeito as suas convices polticas, dizendo que uma parte, ao
menos, do atual excesso ir-se- com o tempo.

E agora,
passe o leitor aos versos, leia-os como se devem ler moos, com simpatia. Onde
achar que falta a comoo, advirta que a forma  esmerada, e, se as tradues,
que tambm as h, lhe parecerem numerosas, reconhea ao menos que ele as perfez
com o amor dos originais, e, em muitos casos, com habilidade de primeira ordem.
 um poeta; e, no momento em que os velhos cantores brasileiros vo
desaparecendo na morte, outros no silncio, deixa que estes venham a ti;
anima-os, que eles trabalham para todos.
