Conto, O capito Mendona, 1870

O capito Mendona

Texto-fonte:

http://www2.uol.com.br/machadodeassis/

Publicado originalmente em Jornal
das Famlias, 1870.

I

Estando um pouco arrufado com a dama dos meus pensamentos,
achei-me eu uma noite sem destino nem vontade de preencher o tempo alegremente,
como convm em tais situaes. No queria ir para casa porque seria entrar em
luta com a solido e a reflexo, duas senhoras que se encarregam de pr termo a
todos os arrufos amorosos.

Havia espetculo no Teatro de S. Pedro. No quis saber que
pea se representava; entrei, comprei uma cadeira e fui tomar conta dela,
justamente quando se levantava o pano para comear o primeiro ato. O ato
prometia; comeava por um homicdio e acabava por um juramento. Havia uma
menina, que no conhecia pai nem me, e era arrebatada por um embuado que eu
suspeitei ser a me ou o pai da menina. Falava-se vagamente de um marqus
incgnito, e aparecia a orelha de um segundo e prximo assassinato na pessoa de
uma condessa velha. O ato acabou com muitas palmas.

Apenas caiu o pano houve a balbrdia do costume; os
espectadores marcavam as cadeiras e saam para tomar ar. Eu, que felizmente
estava em lugar onde no podia ser incomodado, estendi as pernas e entrei a
olhar para o pano da boca, no qual, sem esforo da minha parte, apareceu a
minha arrufada senhora com os punhos fechados e ameaando-me com olhos
furiosos.

 Que lhe parece a pea, sr. Amaral?

Voltei-me para o lado de onde ouvira proferir o meu nome.
Estava  minha esquerda um sujeito, j velho, vestido com uma sobrecasaca
militar, e sorrindo amavelmente para mim.

 Admira-se de lhe saber o nome? perguntou o sujeito.

 Com efeito, respondi eu; no me lembro de o ter visto...

 A mim nunca me viu; cheguei ontem do Rio Grande do Sul.
Tambm eu nunca o tinha visto, e no entanto conheci-o logo.

 Adivinho, respondi; dizem-me que me pareo muito com meu
pai. Conheceu-o, no?

 Pudera! fomos companheiros darmas. O coronel Amaral e o
capito Mendona passavam no exrcito por ser a imagem da perfeita amizade.

 Agora me recordo de que meu pai me falava muito no
capito Mendona.

 Sou eu.

 Falava-me com muito interesse; dizia que era o seu
melhor e mais fiel amigo.

 Era injusto o coronel, disse o capito abrindo a caixa
de rap, eu fui mais do que isso, fui o nico amigo fiel que ele teve. Mas seu
pai era cauteloso, talvez no quisesse ofender ningum. Era um tanto fraco seu
pai; a nica rixa que tivemos foi por eu uma noite chamar-lhe tolo. O coronel
reagiu, mas convenceu-se finalmente... Quer uma pitada?

 Obrigado.

Admirou-me que o mais fiel amigo de meu pai tratasse to
desdenhosamente a sua memria, e entrei logo a suspeitar da amizade que os
ligara no exrcito. Confirmou-me esta suspeita a lembrana de que meu pai,
quando falava no capito Mendona, dizia ser um excelente homem... com uma
aduela de menos.

Contemplei o capito enquanto ele sorvia a pitada e
sacudia com o leno a camisa ligeiramente maculada por um clssico e legtimo
pingo. Era um homem de boa presena, gesto militar, olhar um tanto vago, barba
de fonte a fonte, passando por baixo do queixo, como convm a um militar que se
respeita. A roupa era toda nova, e o velho capito mostrava estar acima das
necessidades da vida.

A expresso da cara no era m; mas o olhar vago e as
sobrancelhas espessas e salientes transtornavam o rosto.

Conversamos do passado; o capito contou-me a campanha
contra Rosas, e a parte que nela tomou com meu pai. A sua conversa era animada
e pitoresca; lembrava-se de muitos episdios, entremeava tudo com anedotas
engraadas.

Ao cabo de vinte minutos o pblico comeou a inquietar-se
com a extenso do intervalo e a orquestra dos taces executou a sinfonia do
desespero.

Justamente nesse momento veio um sujeito chamar o capito
para ir a um camarote. O capito quis adiar a visita para outro intervalo, mas,
instando o sujeito, cedeu e apertou-me a mo dizendo:

 At j.

Fiquei outra vez s; os taces cederam lugar s rabecas, e
ao cabo de alguns minutos comeou o segundo ato.

Como aquilo para mim no era distrao nem ocupao,
acomodei-me o melhor que pude na cadeira e cerrei os olhos ouvindo um monlogo
do protagonista, que cortava o corao e a gramtica.

No tardou que fosse despertado pela voz do capito. Abri
os olhos e vi-o de p.

 Quer saber de uma coisa? perguntou ele. Eu vou cear;
acompanha-me?

 No posso, queira desculpar-me, respondi.

 No admito desculpa; faa de conta que eu sou o coronel
e digo: Pequeno, vamos cear!

 Mas  que eu espero...

 No espera ningum!

O dilogo provocou alguns murmrios  roda de ns. Vendo a
disposio anfitrinica do capito, achei prudente acompanh-lo para no dar
lugar a uma manifestao pblica.

Samos.

 Cear a esta hora, disse o capito, no  prprio de um
rapaz como o senhor; mas eu c sou velho e militar.

No repliquei.

A falar verdade eu no tinha preferncia pelo teatro nem
por coisa nenhuma; queria passar o tempo. Conquanto no me arrastasse nenhuma
simpatia para o capito, a maneira por que me tratava e a circunstncia de ter
sido companheiro darmas de meu pai, faziam com que a companhia dele fosse
naquele momento mais aceitvel que a de outro qualquer.

Alm destas razes todas, a vida que eu levava era to
montona que a diverso do capito Mendona devia encher uma boa pgina com
matria nova. Digo a diverso do capito Mendona, porque o meu companheiro
tinha no sei que no gesto e nos olhos que me parecia excntrico e original.
Encontrar um original ao meio de tantas cpias de que anda farta a vida humana,
no  uma fortuna?

Acompanhei, portanto, o meu capito, que continuou a falar
durante o caminho todo, arrancando-me apenas de longe em longe um monosslabo.

No fim de algum tempo paramos defronte de uma casa velha e
escura.

 Vamos entrar, disse Mendona.

 Que rua  esta? perguntei eu.

 Pois no sabe? Oh! como anda com a cabea a juros! Esta
 a Rua da Guarda Velha.

 Ah!

O velho bateu trs pancadas; da a alguns segundos rangia
a porta nos gonzos e ns entrvamos num corredor escuro e mido.

 Ento no trouxeste luz? perguntou Mendona a algum que
eu no via.

 Vim com pressa.

 Bem; fecha a porta. D c a mo, sr. Amaral; esta
entrada  um pouco esquisita, mas l em cima estaremos melhor.

Dei-lhe a mo.

 Est trmula, observou o capito Mendona.

Eu tremia, com efeito; pela primeira vez surgiu-me no
esprito a suspeita de que o pretendido amigo de meu pai no fosse mais que um
ladro, e aquilo uma ratoeira armada aos nscios.

Mas era tarde para retroceder; qualquer demonstrao de
medo seria pior. Por isso, respondi alegremente:

 Se lhe parecer que no h de tremer quem entre por um
corredor como este, o qual, haja de perdoar, parece o corredor do inferno.

 Quase acertou, disse o capito, guiando-me pela escada
acima.

 Quase?

 Sim; no  o inferno, mas  o purgatrio.

Estremeci ao ouvir estas ltimas palavras; todo o meu
sangue precipitou-se para o corao, que comeou a bater apressado. A
singularidade da figura do capito, a singularidade da casa, tudo se acumulava
para encher-me de terror. Felizmente chegamos acima e entramos para uma sala
iluminada a gs, e mobiliada como todas as casas deste mundo.

Para gracejar e conservar toda a independncia do meu
esprito, disse sorrindo:

 Est feito, o purgatrio tem boa cara; em vez de
caldeiras tem sofs.

 Meu rico senhor, respondeu o capito, olhando fixamente
para mim, coisa que pela primeira vez acontecia, porque o seu olhar era sempre
vesgo; meu rico senhor, se pensa que desse modo arranca o meu segredo est
muito enganado. Convidei-o para cear; contente-se com isto.

No respondi; as palavras do capito desvaneceram as
minhas suspeitas acerca da inteno com que ele ali me trouxera, mas criaram
outras impresses; suspeitei que o capito estivesse doido; e o menor incidente
confirmava-me a suspeita.

 Moleque! disse o capito; e, quando o moleque apareceu,
continuou: prepara a ceia; tira vinho da caixa n 25; vai; quero tudo pronto em
um quarto de hora.

O moleque foi executar as ordens de Mendona. Este,
voltando-se para mim, disse:

 Sente-se e leia alguns destes livros. Vou mudar de
roupa.

 No volta ao teatro? perguntei eu.

 No.

II

Poucos minutos depois caminhvamos para a sala de jantar,
que ficava nos fundos da casa. A ceia era farta e apetitosa; no centro campeava
um soberbo assado frio; pastelinhos, doces, velhas botelhas de vinho,
completavam a ceia do capito.

  um banquete, disse eu.

 Qual!  uma ceia ordinria... no vale nada.

Havia trs cadeiras.

 Sente-se aqui, disse-me ele indicando a do meio, e
sentando-se ele prprio na que ficava  minha esquerda. Compreendi que havia
mais um conviva, mas no perguntei. Tambm no era preciso; da a poucos
segundos saa de uma porta em
frente uma moa alta e plida, que me cumprimentou e se dirigiu para a cadeira
que ficava  minha direita.

Levantei-me, e fui apresentado pelo capito  menina, que
era filha dele, e acudia ao nome de Augusta.

Confesso que a presena da moa me tranqilizou um pouco.
No s deixara de estar a ss com um homem to singular como o capito
Mendona, mas tambm a presena da moa naquela casa indicava que o capito, se
era doido como eu suspeitava, era ao menos um doido manso.

Tratei de ser amvel com a minha vizinha, enquanto o
capito trinchava o peixe com uma habilidade e destreza que bem indicavam a sua
proficincia nos misteres da boca.

 Devemos ser amigos, disse eu a Augusta, pois que nossos
pais o foram tambm.

Augusta levantou para mim dois belssimos olhos verdes.
Depois sorriu e abaixou a cabea com ar de casquilhice ou de modstia, porque
ambas as coisas podiam ser. Contemplei-a nessa posio; era uma formosa cabea,
perfeitamente modelada, um perfil correto, uma pele fina, clios longos, e
cabelos cor de ouro, urea coma, como os poetas dizem do sol.

Durante esse tempo Mendona tinha concludo a tarefa; e
comeava a servir-nos. Augusta brincava com a faca, talvez para mostrar-me a
finura da mo e o torneado do brao.

 Ests muda, Augusta? perguntou o capito servindo-a de
peixe.

 Qual, papai! estou triste.

 Triste? Ento que tens?

 No sei; estou triste sem causa.

Tristeza sem causa traduz-se muitas vezes por
aborrecimento. Eu traduzi assim o dito da moa, e senti-me ferido no meu
amor-prprio, alis sem razo fundada. Para alegrar a moa tratei de alegrar a
situao. Esqueci o estado do esprito do pai, que me parecia profundamente
abalado, e entrei a conversar como se estivesse entre amigos velhos.

Augusta pareceu gostar da conversa; o capito tambm
entrou a rir como um homem de juzo; eu estava num dos meus melhores dias;
acudiam-me os ditos engenhosos e as observaes de algum chiste. Filho do
sculo, sacrifiquei ao trocadilho, com tal felicidade que inspirei o desejo de
ser imitado pela moa e pelo pai.

Quando a ceia acabou reinava entre ns a maior intimidade.

 Quer voltar ao teatro? perguntou-me o capito.

 Qual! respondi.

 Quer dizer que prefere a nossa companhia, ou antes... a
companhia de Augusta.

Esta franqueza do velho pareceu-me um pouco indiscreta.
Estou certo de que fiquei rubro. No aconteceu o mesmo a Augusta, que sorriu
dizendo:

 Se assim , no lhe devo nada, porque eu tambm prefiro
agora a sua companhia ao melhor espetculo deste mundo.

A franqueza de Augusta admirou-me ainda mais que a de
Mendona. Mas no era fcil mergulhar-me em reflexes profundas quando os belos
olhos verdes da moa estavam pregados nos meus, parecendo dizer-me:

 Seja amvel como at agora.

 Vamos para a outra sala, disse o capito levantando-se.

Fizemos o mesmo. Dei o brao a Augusta, enquanto o capito
nos guiava para outra sala, que no era a de visitas. Sentamo-nos, menos o
velho, que foi acender um cigarro numa das velas do candelabro, enquanto eu
lanava um olhar rpido pela sala, que me pareceu de todo ponto estranha. A
moblia era antiga, no s no molde, seno tambm na idade. No centro havia uma
mesa redonda, grande, coberta com um tapete verde. Numa das paredes havia
pendurados alguns animais empalhados. Na parede fronteira a essa havia apenas
uma coruja, tambm empalhada, e com olhos de vidro verde, que, apesar de fixos,
pareciam acompanhar todos os movimentos que a gente fazia.

Aqui voltaram os meus sustos. Olhei, entretanto, para
Augusta, e esta olhou para mim. Aquela moa era o nico lao que havia entre
mim e o mundo, porque tudo naquela casa me parecia realmente fantstico; e eu
j no duvidava do carter purgatorial que me fora indicado pelo capito.

Estivemos silenciosos alguns minutos; o capito fumava o
cigarro passeando com as mos atrs das costas, posio que pode indicar a
meditao de um filsofo ou a taciturnidade de um nscio.

De repente parou defronte de ns, sorriu, e perguntou-me:

 No acha formosa esta pequena?

 Formosssima, respondi.

 Que lindos olhos, no so?

 Lindssimos, com efeito, e raros.

 Faz-me honra esta produo, no?

Respondi com um sorriso aprovador. Quanto a Augusta,
limitou-se a dizer com adorvel simplicidade:

 Papai  mais vaidoso do que eu; gosta de ouvir dizer que
sou bonita. Quem no sabe disso?

 H de notar, disse-me o capito sentando-se, que esta
pequena  franca de mais para o seu sexo e idade...

 No lhe acho defeito...

 Nada de evasivas; a verdade  essa. Augusta no se
parece com as outras moas que pensam muito bem de si, mas sorriem quando lhes
fazem algum cumprimento, e franzem o sobrolho quando no lhos fazem.

 Direi que  uma adorvel exceo, respondi eu sorrindo
para a moa, que me agradeceu sorrindo tambm.

 Isso , disse o pai; mas exceo completa.

 Uma educao racional, continuei eu, pode muito bem...

 No s a educao, tornou Mendona, mas at a origem. A
origem  tudo, ou quase tudo.

No entendi o que queria dizer o homem. Augusta parece que
entendeu, porque entrou a olhar para o teto sorrindo maliciosamente. Olhei para
o capito; o capito olhava para a coruja.

Reanimou-se a conversa por espao de alguns minutos, ao
cabo dos quais o capito, que parecia ter uma idia fixa, perguntou-me:

 Ento acha esses olhos bonitos?

 J lho disse; so to formosos quanto raros.

 Quer que lhos d? perguntou o velho.

Inclinei-me dizendo:

 Seria muito feliz em possuir to raras prendas; mas...

 Nada de cerimnias; se quer, dou-lhos; seno, limito-me
a mostrar-lhos.

Dizendo isto, levantou-se o capito e aproximou-se de
Augusta, que inclinou a cabea sobre as mos dele. O velho fez um pequeno
movimento, a moa ergueu a cabea, o velho apresentou-me nas mos os dois belos
olhos da moa.

Olhei para Augusta. Era horrvel. Tinha no lugar dos olhos
dois grandes buracos como uma caveira. Desisto de descrever o que senti; no
pude dar um grito; fiquei gelado. A cabea da moa era o que mais hediondo pode
criar a imaginao
humana; imaginem uma
caveira viva, falando, sorrindo, fitando em mim os dois buracos vazios, onde
pouco antes nadavam os mais belos olhos do mundo. Os buracos pareciam ver-me; a
moa contemplava o meu espanto com um sorriso anglico.

 Veja-os de perto, dizia o velho diante de mim; palpe-os;
diga-me se j viu obra to perfeita.

Que faria eu seno obedecer-lhe? Olhei para os olhos que o
velho tinha na mo. Aqui foi pior; os dois olhos estavam fitos em mim, pareciam
compreender-me tanto quanto os buracos vazios do rosto da moa; separados do
rosto, no os abandonara a vida; a retina tinha a mesma luz e os mesmos
reflexos. Daquele modo as duas mos do velho olhavam para mim como se foram um
rosto.

No sei que tempo se passou; o capito tornou a
aproximar-se de Augusta; esta abaixou a cabea, e o velho introduziu os olhos
no seu lugar.

Era horrvel tudo aquilo.

 Est plido! disse Augusta, obrigando-me a olhar para
ela, j restituda ao estado anterior.

  natural... balbuciei eu; vejo coisas...

 Incrveis? perguntou o capito esfregando as mos.

 Efetivamente, incrveis, respondi; no pensava...

 Isto  nada! exclamou o capito; e eu folgo muito que
ache incrveis essas coisas poucas que viu, porque  sinal de que eu vou fazer
pasmar o mundo.

Tirei o leno para limpar o suor que me caa em bagas. Durante esse tempo Augusta levantou-se e saiu da sala.

 V a graa com que ela anda? perguntou o capito. Aquilo
tudo  obra minha...  obra do meu gabinete.

 Ah!

  verdade;  por ora a minha obra-prima; e creio que no
h que dizer-lhe; pelo menos o senhor parece estar encantado...

Curvei a cabea em sinal de assentimento. Que faria eu,
pobre mortal sem fora, contra um homem e uma rapariga que me pareciam dispor
de foras desconhecidas aos homens?

Todo o meu empenho era sair daquela casa; mas por maneira
que os no molestasse. Desejava que as horas tivessem asas; mas  nas crises
terrveis que elas correm fatalmente lentas. Dei ao diabo os meus arrufos, que
foram a causa do encontro com semelhante sujeito.

Parece que o capito adivinhara aquelas minhas reflexes,
porque continuou, depois de algum silncio:

 Deve estar encantado, ainda que um tanto assustado e
arrependido da sua condescendncia. Mas isso  puerilidade; nada perdeu em vir
aqui, antes ganhou; fica sabendo coisas que s mais tarde saber o mundo. No
lhe parece melhor?

 Parece, respondi sem saber o que dizia.

O capito continuou:

 Augusta  a minha obra-prima.  um produto qumico;
gastei trs anos para dar ao mundo aquele milagre; mas a perseverana vence
tudo, e eu sou dotado de um carter tenaz. Os primeiros ensaios foram maus;
trs vezes saiu a pequena dos meus alambiques, sempre imperfeita. A quarta foi
esforo de cincia. Quando aquela perfeio apareceu ca-lhe aos ps. O criador
admirava a criatura!

Parece que eu tinha pintado o pasmo nos olhos, porque o
velho disse:

 Vejo que se espanta de tudo isto, e acho natural. Que
poderia o senhor saber de semelhante coisa?

Levantou-se, deu alguns passos, e sentou-se outra vez.
Nesse momento entrou o moleque trazendo caf.

A presena do moleque fez-me criar alma nova; imaginei que
fosse ali dentro a nica criatura verdadeiramente humana com quem me pudesse
entender. Entrei a fazer-lhe sinais, mas no consegui ser entendido. O moleque
saiu, e fiquei a ss com o meu interlocutor.

 Beba o seu caf, meu amigo, disse-me ele, vendo que eu
hesitava, no por medo, mas porque realmente no tinha vontade de tomar coisa
nenhuma.

Obedeci como pude.

III

Augusta tornou  sala.

O velho voltou-se para contempl-la; nenhum pai olhou
ainda para sua filha com mais amor do que aquele. Via-se bem que o amor era
realado pelo orgulho; havia no olhar do capito uma certa altivez que em geral
no acompanha a ternura paterna.

No era um pai, era um autor.

Quanto  moa, parecia tambm orgulhosa de si. Sentia bem
quanto o pai a admirava. Conhecia que todo o orgulho do velho estava nela, e
por compensao todo o orgulho dela estava no autor dos seus dias. Se a
Odissia tivesse a mesma forma, teria o mesmo sentir, quando Homero a
contemplasse.

Coisa singular! Impressionava-me aquela mulher, apesar da
sua origem misteriosa e diablica; eu sentia ao p dela uma sensao nova, que
no sei se era amor, se admirao, se fatal simpatia.

Quando fitava os olhos dela dificilmente podia afastar os
meus, e contudo j tinha visto os seus lindssimos olhos nas mos do pai, j
tinha contemplado com terror os buracos vazios como os olhos da morte.

Ainda que lentamente, adiantava-se a noite; ia amortecendo
o rudo de fora; entrvamos no silncio absoluto que to tristemente quadrava
com a sala em que me eu achava e os interlocutores com quem me entretinha.

Era natural retirar-me; levantei-me e pedi licena ao
capito para sair.

 Ainda  cedo, respondeu.

 Mas eu voltarei amanh.

 Voltar amanh e quando quiser; mas por hoje  cedo. Nem
sempre se encontra um homem como eu; um irmo de Deus, um deus na terra, porque
eu tambm posso criar como ele; e at melhor, porque eu fiz Augusta e ele nem
sempre faz criaturas como esta. Os hotentotes, por exemplo...

 Mas, disse eu, tenho pessoas que me esperam...

  possvel, disse o capito sorrindo, mas por agora no
h de ir...

 Por que no? interrompeu Augusta. Acho que pode ir, com
a condio de que volta amanh.

 Voltarei.

 Jura-me?

 Juro.

Augusta estendeu-me a mo.

 Est dito! disse ela; mas se faltar...

 Morre, acrescentou o pai.

Senti um calafrio ao ouvir a ltima palavra de Mendona.
Entretanto, sa, despedindo-me o mais alegre e cordialmente que pude.

 Venha  noite, disse o capito.

 At amanh, respondi.

Quando cheguei  rua respirei. Estava livre. Acabara-se-me
aquela tortura que nunca havia imaginado. Apressei o passo e entrei em casa,
meia hora depois.

Foi-me impossvel conciliar o sono. A cada instante via o
meu capito com os olhos de Augusta nas mos, e a imagem da moa flutuava entre
o nevoeiro da minha imaginao como uma criatura de Ossian.

Quem era aquele homem e aquela menina? A menina era
realmente um produto qumico do velho? Ambos mo haviam afirmado, e at certo
ponto tive a prova disso. Podia sup-los doidos, mas o episdio dos olhos
desvanecia essa idia. Estaria eu ainda no mundo dos vivos, ou comeara j a
entrar na regio dos sonhos e do desconhecido?

S a fortaleza do meu esprito resistiu a tamanhas provas;
outro, que fosse mais fraco, teria enlouquecido. E seria melhor. O que tornava
a minha situao mais dolorosa e impossvel de suportar era justamente a
perfeita solidez da minha razo. Do conflito da minha razo com os meus
sentidos resultava a tortura em que me eu achava; os meus olhos viam, a minha
razo negava. Como conciliar aquela evidncia com aquela incredulidade?

No dormi. No dia seguinte saudei o sol como um amigo
ansiosamente esperado. Vi que estava no meu quarto; o criado trouxe-me o
almoo, que era todo composto de coisas deste mundo; cheguei  janela e dei com
os olhos no edifcio da cmara dos deputados; no tinha que ver mais; eu estava
ainda na terra, e na terra estava ainda aquele maldito capito e mais a filha.

Ento refleti.

Quem sabe se eu no podia conciliar tudo? Lembrei-me de
todas as pretenses da qumica e da alquimia. Ocorreu-me um conto fantstico de
Hoffmann em que um alquimista pretende ter alcanado o segredo de produzir
criaturas humanas. A criao romntica de ontem no podia ser a realidade de
hoje? E se o capito tinha razo no era para mim grande glria denunci-lo ao
mundo?

H em todos os homens alguma coisa da mosca do carroo;
confesso que, prevendo o triunfo do capito, lembrei-me logo de ir agarrado s
abas da sua imortalidade. Era difcil crer na obra do homem; mas quem acreditou
em Galileu? quantos no deixaram de crer em Colombo? A incredulidade de hoje 
a sagrao de amanh. A verdade desconhecida no deixa de ser verdade. 
verdade por si mesma, no o  pelo consenso pblico. Ocorreu-me a imagem dessas
estrelas que os astrnomos descobrem agora sem que elas tenham deixado de
existir muitos sculos antes.

Razes de coronel ou razes de cabo de esquadra, o certo 
que eu as dei a mim prprio e foi em virtude delas, no menos que pela
fascinao do olhar da moa, que eu l me apresentei em casa do capito  rua
da Guarda Velha apenas anoiteceu.

O capito estava  minha espera.

 No sa de propsito, disse-me ele; contava que viesse,
e queria dar-lhe o espetculo de uma composio qumica. Trabalhei o dia todo
para preparar os ingredientes.

Augusta recebeu-me com uma graa verdadeiramente adorvel.
Beijei-lhe a mo como se fazia antigamente s senhoras, costume que se trocou
pelo aperto de mo, alis digno de um sculo grave.

 Tive saudades suas, disse-me ela.

 Sim?

 Aposto que as no teve de mim?

 Tive.

 No acredito.

 Por qu?

 Porque eu no sou filha bastarda. Todas as outras
mulheres so filhas bastardas, eu s posso gabar-me de ser filha legtima,
porque sou filha da cincia e da vontade do homem.

No me admirava menos a linguagem que a beleza de Augusta.
Evidentemente era o pai quem lhe incutia semelhantes idias. A teoria que ela
acabava de expor era to fantstica como o seu nascimento. O certo  que a
atmosfera daquela casa j me punha no mesmo estado que os dois habitantes dela.
Foi assim que alguns segundos depois repliquei:

 Conquanto eu admire a cincia do capito, lembro-lhe que
ainda assim ele no fez mais do que aplicar elementos da natureza  composio
de um ente que at agora parecia excludo da ao dos reagentes qumicos e dos
instrumentos de laboratrio.

 Tem razo at certo ponto, disse o capito; mas acaso
sou eu menos admirvel?

 Pelo contrrio; e nenhum mortal at hoje pode gabar-se
de ter ombreado com o senhor.

Augusta sorriu agradecendo-me. Notei mentalmente o
sorriso, e parece que a idia transluziu no meu rosto, porque o capito,
sorrindo tambm, disse:

 A obra saiu perfeita, como v, depois de muitos ensaios.
O penltimo ensaio era completo, mas faltava uma coisa  obra; e eu queria que
ela sasse to completa como a que o outro fez.

 Que lhe faltava ento? perguntei eu.

 No v, continuou o capito, como Augusta sorri de
contente quando lhe fazem alguma aluso  beleza?

  verdade.

 Pois bem, a penltima Augusta que me saiu do laboratrio
no tinha isso; esquecera-me incutir-lhe a vaidade. A obra podia ficar assim, e
estou que seria, aos olhos de muitos, mais perfeita do que esta. Mas eu no
penso assim; o que eu queria era fazer uma obra igual  do outro. Por isso,
reduzi outra vez tudo ao estado primitivo, e tratei de introduzir na massa
geral uma dose maior de mercrio.

No creio que o meu rosto me trasse naquele momento; mas
o meu esprito fez uma careta. Estava disposto a crer na origem qumica de
Augusta, mas hesitava ouvindo os pormenores da composio.

O capito continuou, olhando ora para mim, ora para a
filha, que parecia extasiada ouvindo a narrao do pai:

 Sabe que a qumica foi chamada pelos antigos, entre
outros nomes, cincia de Hermes. Acho intil lembrar-lhe que Hermes  o nome
grego de Mercrio, e mercrio  o nome de um corpo qumico. Para introduzir na
composio de uma criatura humana a conscincia, deita-se no alambique uma ona
de mercrio. Para fazer a vaidade dobra-se a dose do mercrio, porque a
vaidade, segundo a minha opinio, no  mais que a irradiao da conscincia; 
contrao da conscincia chamo eu modstia.

 Parece-lhe ento, disse eu, que homem vaidoso  aquele
que recebeu uma grande dose de mercrio no seu organismo?

 Sem dvida nenhuma. Nem pode ser outra coisa; o homem 
um composto de molculas e corpos qumicos; quem os souber reunir tem alcanado
tudo.

 Tudo?

 Tem razo; tudo, no; porque o grande segredo consiste
em uma descoberta que eu fiz e constitui por assim dizer o princpio da vida.
Isso  que h de morrer comigo.

 Por que no o declara antes para adiantamento da
humanidade?

O capito levantou os ombros desdenhosamente; foi a nica
resposta que obtive.

Augusta tinha-se levantado e foi ao piano tocar alguma
coisa que me pareceu ser uma sonata alem. Eu pedi licena ao capito para
fumar um charuto, enquanto o moleque veio receber ordens relativas ao ch.

IV

Acabado o ch, disse-me o capito:

 Doutor, preparei hoje uma experincia em honra sua. Sabe
que o diamante no  mais que o carvo de pedra cristalizado. H tempos tentou
um sbio qumico reduzir o carvo de pedra a diamante, e li num artigo de
revista que conseguiria apenas compor um p de diamante, e nada mais. Eu
alcancei o resto; vou mostrar-lhe um pedao de carvo de pedra e transform-lo
em diamante.

Augusta bateu palmas de contente. Admirado dessa alegria
sbita, perguntei-lhe sorrindo a causa.

 Gosto muito de ver uma operao qumica, respondeu ela.

 Deve ser interessante, disse eu.

 E . No sei at se papai era capaz de me fazer uma
coisa.

 O que ?

 Eu lhe direi depois.

Dai a cinco minutos estvamos todos no laboratrio do
capito Mendona, que era uma sala pequena e escura, cheia dos instrumentos
competentes. Sentamo-nos, Augusta e eu, enquanto o pai preparava a
transformao anunciada.

Confesso que, apesar da minha curiosidade de homem de
cincia, dividia a minha ateno entre a qumica do pai e as graas da filha.
Augusta tinha efetivamente um aspecto fantstico; quando entrou no laboratrio
respirou largamente e com prazer, como quando se respira o ar embalsamado dos
campos. Via-se que era o seu ar natal. Travei-lhe da mo, e ela com esse
estouvamento prprio da castidade ignorante, puxou a minha mo para si,
fechou-a entre as suas, e p-las no regao. Nesse momento passou o capito ao
p de ns; viu-nos e sorriu  socapa.

 V, disse-me ela inclinando-se ao meu ouvido, meu pai
aprova.

 Ah! disse eu, meio alegre, meio espantado de ver aquela
franqueza da parte de uma menina.

No entanto, o capito trabalhava ativamente na
transformao do carvo de pedra em diamante. Para no ofender a vaidade do inventor fazia-lhe eu de quando em quando alguma observao, a que ele respondia
sempre. A minha ateno, porm, estava toda voltada para Augusta. No era
possvel ocult-lo; eu j a amava; e por cmulo de ventura era amado tambm. O
casamento seria o desenlace natural daquela simpatia. Mas deveria eu casar-me,
sem deixar de ser bom cristo? Esta idia transtornou um pouco o meu esprito.
Escrpulos de conscincia!

A moa era um produto qumico; seu nico batismo foi um
banho de slfur. A cincia daquele homem explicava tudo; mas a minha
conscincia recuava. E por qu? Augusta era to bela como as outras mulheres 
talvez mais bela , pela mesma razo que a folha da rvore pintada  mais bela
que a folha natural. Era um produto de arte; o saber do autor despojou o tipo
humano de suas incorrees para criar um tipo ideal, um exemplar nico. Ar
triste! era justamente essa idealidade que nos separaria aos olhos do mundo!

No sei dizer que tempo gastou o capito na transformao
do carvo; eu deixava correr o tempo olhando para a moa e contemplando os seus
belos olhos em que havia todas as graas e vertigens do mar.

De repente o cheiro acre do laboratrio comeou a aumentar
de intensidade; eu que no estava acostumado senti-me um pouco incomodado, mas
Augusta pediu-me que ficasse ao p dela, sem o que teria sado.

 No tarda! no tarda! exclamou o capito com entusiasmo.

A exclamao era um convite que nos fazia; eu deixei-me
estar ao p da filha. Seguiu-se um silncio prolongado. Fui interrompido no meu
xtase pelo capito, que dizia:

 Pronto! aqui est!

E efetivamente trouxe um diamante na palma da mo, perfeitssimo
e da melhor gua. O volume era metade do carvo que servira de base  operao
qumica. Eu,  vista da criao de Augusta, j me no admirava de nada. Aplaudi
o capito; quanto  filha, saltou-lhe ao pescoo e deu-lhe dois apertadssimos
abraos.

 J vejo, meu caro sr. capito, que deste modo deve ficar
rico. Pode transformar em diamante todo o carvo que lhe parecer.

 Para qu? perguntou-me ele. Aos olhos de um naturalista
o diamante e o carvo de pedra valem a mesma coisa.

 Sim, mas aos olhos do mundo...

 Aos olhos do mundo o diamante  a riqueza, bem sei; mas
 a riqueza relativa. Suponha, meu rico sr. Amaral, que as minas de carvo do
mundo inteiro, por meio de um alambique monstro, se transformam em diamante. De um dia para outro o mundo caa na misria. O carvo  a riqueza; o diamante  o
suprfluo.

 Concordo.

 Fao isto para mostrar que posso e sei; mas no o direi
a ningum.  segredo que fica comigo.

 No trabalha ento por amor  cincia?

 No; tenho algum amor  cincia, mas  um amor
platnico. Trabalho para mostrar que sei e posso criar. Quanto aos outros
homens, importa-me pouco que saibam ou no. Chamar-me-o egosta; eu digo que
sou filsofo. Quer este diamante como prova da minha estima e amostra do meu
saber?

 Aceito, respondi.

 Aqui o tem; mas lembre-se sempre que esta pedra
rutilante, to procurada no mundo, e de tanto valor, capaz de lanar a guerra
entre os homens, esta pedra no  mais que um pedao de carvo.

Guardei o brilhante, que era lindssimo, e acompanhei o
capito e a filha que saam do laboratrio. O que naquele momento me
impressionava mais que tudo era a moa. Eu no trocaria por ela todos os
diamantes clebres do mundo. Cada hora que passava ao p dela aumentava a minha
fascinao. Sentia invadir-me o delrio do amor; mais um dia e eu estaria unido
quela mulher irresistivelmente; separar-nos seria a morte para mim.

Quando chegamos  sala, o capito Mendona perguntou 
filha, batendo uma pancada na testa:

  verdade! No me disseste que tinhas de pedir-me uma
coisa?

 Sim; mas agora  tarde; amanh. O doutor aparece, no?

 Sem dvida.

 Afinal, disse Mendona, o doutor h de acostumar-se aos
meus trabalhos... e acreditar ento...

 J creio. No posso negar a evidncia; quem tem razo 
o senhor; o resto do mundo no sabe nada.

Mendona ouvia-me radiante de orgulho; o seu olhar, mais
vago que nunca, parecia refletir a vertigem do esprito.

 Tem razo, disse ele, depois de alguns minutos; eu estou
muito acima dos outros homens. A minha obra-prima...

  esta, disse eu apontando para Augusta.

 Por ora, respondeu o capito; mas eu medito coisas mais
pasmosas; por exemplo, creio que descobri o meio de criar gnios.

 Como?

 Pego num homem de talento, notvel ou medocre, ou at
num homem nulo, e fao dele um gnio.

 Isso  fcil...

 Fcil, no;  apenas possvel. Aprendi isto... Aprendi?
no, descobri isto, guiado por uma palavra que encontrei num livro rabe do
sculo dcimo sexto. Quer v-lo?

No tive tempo de responder; o capito saiu e voltou da a
alguns segundos com um livro in-flio na mo, grosseiramente impresso em
caracteres rabes feitos com tinta vermelha. Explicou-me a sua idia, mas por
alto; eu no lhe prestei grande ateno; os meus olhos estavam embebidos nos de
Augusta.

Quando sai era meia-noite. Augusta com voz suplicante e
terna disse-me:

 Vem amanh?

 Venho!

O velho estava de costas; eu levei a mo dela aos meus
lbios e imprimi-lhe um longo e apaixonado beijo.

Depois sa correndo: tinha medo dela e de mim.

V

No dia seguinte recebi um bilhete do capito Mendona,
logo de manh:

Grande notcia! Trata-se da nossa felicidade, da sua, da
minha e da de Augusta. Venha  noite sem falta.

No faltei.

Fui recebido por Augusta, que me apertou as mos com fogo.
Estvamos ss; ousei dar-lhe um beijo na face. Ela corou muito, mas
retribuiu-me imediatamente o beijo.

 Recebi hoje um bilhete misterioso de seu pai...

 J sei, disse a moa; trata-se com efeito da nossa
felicidade.

Passava-se isto no patamar da escada.

 Entre! entre! gritou o velho capito.

Entramos.

O capito estava na sala fumando um cigarro e passeando
com as mos nas costas, como na primeira noite em que o vira. Abraou-me, e
mandou que me sentasse.

 Meu caro doutor, disse-me ele depois que nos sentamos
ambos, ficando Augusta de p encostada  cadeira do pai; meu caro doutor, raras
vezes a fortuna cai a ponto de fazer a completa felicidade de trs pessoas. A
felicidade  a mais rara coisa deste mundo.

 Mais rara que as prolas, disse eu sentenciosamente.

 Muito mais, e de maior valia. Dizem que Csar comprou
por seis milhes de sestrcios uma prola, para presentear Sevlia. Quanto no
daria ele por essa outra prola, que recebeu de graa, e que lhe deu o poder do
mundo?

 Qual?

 O gnio. A felicidade  o gnio.

Fiquei um pouco aborrecido com a conversa do capito. Eu
cuidava que a felicidade de que se tratava para mim e Augusta era o nosso
casamento. Quando o homem me falou no gnio, olhei para a moa com olhos to
aflitos, que ela veio em meu auxilio dizendo ao pai:

 Mas, papai, comece pelo princpio.

 Tens razo; desculpa se o sbio faz esquecer o pai.
Trata-se, meu caro amigo  dou-lhe este nome , trata-se de um casamento.

 Ah!

 Minha filha confessou-me hoje de manh que o ama
loucamente e  igualmente amada. Daqui ao casamento  um passo.

 Tem razo; amo loucamente sua filha, e estou pronto a
casar-me com ela, se o capito consente.

 Consinto, aplaudo e agradeo.

Preciso acaso dizer que a resposta do capito, ainda que
prevista, encheu de felicidade o meu corao ambicioso? Levantei-me e apertei
alegremente a mo do capito.

 Compreendo! compreendo! disse o velho; j passaram por
mim essas coisas. O amor  quase tudo na vida; a vida tem duas grandes faces: o
amor e a cincia. Quem no compreender isto no  digno de ser homem. O poder e
a glria no impedem que a caveira de Alexandre seja igual  caveira de um
truo. As grandezas da terra no valem uma flor nascida  beira dos rios. O
amor  o corao, a cincia a cabea; o poder  simplesmente a espada...

Interrompi esta enfadonha preleo acerca das grandezas
humanas dizendo a Augusta que desejava fazer a sua felicidade e ajudar com ela
a tornar tranqila e alegre a velhice do pai.

 L por isso no se incomode, meu genro. Eu hei de ser
feliz, quer queiram quer no. Um homem de minha tmpera nunca  infeliz. Tenho
a felicidade nas mos, no a fao depender de vos preconceitos sociais.

Poucas palavras mais trocamos neste assunto, at que
Augusta tomou a palavra dizendo:

 Mas, papai, ainda lhe no falou das nossas condies.

 No te impacientes, pequena; a noite  grande.

 De que se trata? perguntei eu.

Mendona respondeu:

 Trata-se de uma condio lembrada por minha filha; e que
o doutor naturalmente aceita.

 Pois no!

 Minha filha, continuou o capito, deseja uma aliana
digna de si e de mim.

 No lhe parece que eu possa?...

  excelente para o caso, mas falta-lhe uma pequena
coisa...

 Riqueza?

 Ora, riqueza! isso tenho eu de sobra... se quiser. O que
lhe falta, meu rico,  justamente o que me sobra.

Fiz um gesto de compreender o que ele dizia, mas
simplesmente por formalidade, porque eu no compreendia nada.

O capito tirou-me do embarao.

 Falta-lhe gnio, disse.

 Ah!

 Minha filha pensa muito bem que a descendente de um
gnio, s de outro gnio pode ser esposa. No hei de entregar a minha obra s
mos grosseiras de um hotentote; e posto que, na planta geral dos outros
homens, o senhor seja efetivamente um homem de talento  aos meus olhos no
passa de um animal muito mesquinho , pela mesma razo de que quatro
candelabros alumiam uma sala e no poderiam alumiar a abbada celeste.

 Mas...

 Se lhe no agrada a figura, dou-lhe outra mais vulgar: a
mais bela estrela do cu nada vale desde que aparece o sol. O senhor ser uma
bonita estrela, mas eu sou o sol, e diante de mim vale tanto uma estrela como
um fsforo, como um vaga-lume.

O capito dizia isto com um ar diablico, e o olhar mais
vago que nunca. Receei que realmente o meu capito, apesar de sbio, tivesse um
acesso de loucura. Como sair-lhe das garras? e teria eu nimo de faz-lo diante
de Augusta, a quem me prendia uma simpatia fatal?

Interveio a moa.

 Bem sabemos de tudo isto, disse ela ao pai; mas no se
trata de dizer que ele nada vale; trata-se de dizer que h de valer muito...
tudo.

 Como assim? perguntei.

 Introduzindo-lhe o gnio.

Apesar da conversa que a este respeito tivemos na noite
anterior, no compreendi logo a explicao de Mendona; mas ele teve a caridade
de me expor claramente a sua idia.

 Depois de profundas e pacientes investigaes, cheguei a
descobrir que o talento  uma pequena quantidade de ter encerrado numa
cavidade do crebro; o gnio  o mesmo ter em poro centuplicada. Para dar
gnio a um homem de talento basta inserir na referida cavidade do crebro mais
noventa e nove quantidades de ter puro.  justamente a operao que vamos
fazer.

Deixo a imaginao do leitor calcular a soma de espanto
que me causou este feroz projeto do meu futuro sogro; espanto que redobrou
quando Augusta disse:

  uma verdadeira felicidade que papai houvesse feito
esta descoberta. Faremos hoje mesmo a operao, sim?

Seriam dois loucos? ou andaria eu num mundo de fantasmas?
Olhei para ambos; ambos estavam risonhos e tranqilos como se houvessem dito a
coisa mais natural deste mundo.

Tranqilizou-se-me o nimo a pouco e pouco; refleti que
era um homem robusto, e que no seria um velho e uma moa dbil que me haviam
de forar a uma operao que eu considerava um simples e puro assassinato.

 A operao ser hoje, disse Augusta depois de alguns
instantes.

 Hoje, no, respondi; mas amanh a esta hora com toda a
certeza.

 Por que no hoje? perguntou a filha do capito.

 Tenho muito que fazer.

O capito sorriu com ar de quem no engolia a plula.

 Meu genro, eu sou velho e conheo todos os recursos da
mentira. O adiamento que nos pede  uma evasiva grosseira. Pois no  muito
melhor ser hoje um grande luzeiro da humanidade, um mulo de Deus, do que ficar
at amanh simples homem como os outros?

 Sem dvida; mas amanh teremos mais tempo...

 Eu apenas lhe peo meia hora.

 Pois bem, ser hoje; mas eu desejo simplesmente dispor
agora de uns trs quartos de hora, findos os quais volto e fico  sua
disposio.

O velho Mendona fingiu aceitar a proposta.

 Pois sim; mas para ver que eu no me descuidei do
senhor, ande c ao laboratrio ver a soma de ter que pretendo introduzir-lhe
no crebro.

Fomos ao laboratrio; Augusta ia pelo meu brao; o capito
caminhava adiante com uma lanterna na mo. O laboratrio estava iluminado com
trs velas em forma de tringulo. Noutra ocasio perguntaria eu a razo daquela
disposio especial das velas; mas naquele momento todo o meu desejo era estar
longe de semelhante casa.

E contudo uma fora me prendia, e dificilmente poderia eu
arrancar-me dali; era Augusta. Aquela moa exercia sobre mim uma presso a um
tempo doce e dolorosa; sentia-me escravo dela, a minha vida como que se fundia
na sua; era uma fascinao vertiginosa.

O capito sacou de um caixo de madeira preta um frasco
contendo ter. Disse-me ele que havia no frasco, porque eu no vi coisa
nenhuma, e fazendo esta observao, respondeu-me ele:

 Pois precisa ver o gnio? Afirmo-lhe que h aqui dentro
noventa e nove doses de ter, as quais, juntas  nica dose que a natureza lhe
deu, formaro cem doses perfeitas.

A moa pegou no frasco e o examinou contra a luz. Pela
minha parte, limitei-me a convencer o homem por meio da minha simplicidade.

 Afirma-me, disse-lhe eu, que  gnio de primeira ordem?

 Afirmo-lho. Mas por que se h de fiar em palavras? O
senhor vai saber o que .

Dizendo isto puxou-me pelo brao com tamanha fora que eu
vacilei. Compreendi que era chegada a crise fatal. Procurei desvencilhar-me do
velho, mas senti cair-me na cabea trs ou quatro gotas de um lquido gelado;
perdi as foras, fraquearam-me as pernas; ca no cho sem movimento.

Aqui no poderei descrever cabalmente a minha tortura; eu
via e ouvia tudo sem poder articular uma palavra nem fazer um gesto.

 Queria lutar comigo, magano? dizia o qumico; lutar com aquele
que te vai fazer feliz! Era ingratido antecipada; amanh tu me hs de abraar
contentssimo.

Voltei os olhos para Augusta; a filha do capito preparava
um longo estilete, enquanto o velho tratava de introduzir sutilmente no frasco
um finssimo tubo de borracha destinado a transportar o ter do frasco para o
interior do meu crebro.

No sei que tempo durou a preparao do meu suplcio; sei
que ambos se aproximaram de mim; o capito trazia o estilete e a filha o
frasco.

 Augusta, disse o pai, toma cuidado no se derrame ter
nenhum; olha, traz aquela luz; bem; senta-te a no banquinho. Eu vou furar-lhe
a cabea. Apenas sacar o estilete, introduze-lhe o tubo e abre a pequena mola.
Bastam dois minutos; aqui tens o relgio.

Ouvi aquilo tudo banhado em suores frios. De repente os
olhos foram-se-me enterrando; as feies do capito assumiram propores
descomunais e fantsticas; uma luz verde e amarela enchia todo o quarto; pouco
a pouco os objetos iam perdendo as formas, e tudo em volta de mim ficou mergulhado
numa penumbra crepuscular.

Senti uma dor agudssima no alto do crnio; corpo estranho
penetrou at o interior do crebro. No sei de mais nada. Creio que desmaiei.

Quando dei acordo de mim o laboratrio estava deserto; pai
e filha tinham desaparecido. Pareceu-me ver em frente de mim uma cortina. Uma
voz forte e spera soou aos meus ouvidos:

 Ol! acorde!

 Que ?

 Acorde! quem tem sono dorme em casa, no vem ao teatro.

Abri de todo os olhos; vi em frente de mim um sujeito
desconhecido; eu achava-me sentado numa cadeira no teatro de S. Pedro.

 Ande, disse o sujeito, quero fechar as portas.

 Pois o espetculo acabou?

 H dez minutos.

 E eu dormi esse tempo todo?

 Como uma pedra.

 Que vergonha!

 Realmente, no fez grande figura; todos que estavam
perto riam de o ver dormir enquanto se representava. Parece que o sono foi
agitado...

 Sim, um pesadelo... Queira perdoar; vou-me embora.

E sa protestando no recorrer, em casos de arrufo, aos
dramas ultra-romnticos: so pesados demais.

Quando ia pr o p na rua, chamou-me o porteiro, e
entregou-me um bilhete do capito Mendona. Dizia assim:

Meu caro doutor.

Entrei h pouco e vi-o dormir com to boa vontade que
achei mais prudente ir-me embora pedindo-lhe que me visite quando quiser, no
que me dar muita honra.

10 horas da noite.

Apesar de saber que o Mendona da realidade no era o do
sonho, desisti de o ir visitar. Berrem os praguentos, embora  tu s a rainha
do mundo,  superstio.

t
