Conto, Trs conseqncias, 1883

Trs conseqncias

Texto-fonte:

Obra Completa, Machado de Assis, vol. II,

Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.

Publicado originalmente em A Estao, em 31/07/1883.

D. Mariana Vaz est no derradeiro
ms do primeiro ano de viva. So 15 de dezembro de 1880, e o marido faleceu no
dia 2 de janeiro, de madrugada, depois de uma bela festa do ano-bom, em que
tudo danou na fazenda, at os escravos. No me peam grandes notcias do
finado Vaz; ou, se insistem por elas, ponham os olhos na viva. A tristeza do
primeiro dia  a de hoje. O luto  o mesmo. Nunca mais a alegria sorriu sequer
na casa que vira a felicidade e a desgraa de D. Mariana.

Vinte e cinco anos, realmente, e
vinte e cinco anos bonitos, no deviam andar de preto, mas cor-de-rosa ou azul,
verde ou granada. Preto  que no. E, todavia,  a cor dos vestidos da jovem
Mariana, uma cor to pouco ajustada aos olhos dela, no porque estes tambm no
sejam pretos, mas por serem moralmente azuis. No sei se me fiz
entender. Olhos lindos, rasgados, eloqentes; mas, por agora quietos e mudos.
No menos eloqente, e no menos calado  o rosto da pessoa.

Est a findar o ano da viuvez.
Poucos dias faltam. Mais de um cavalheiro pretende a mo dela. Recentemente,
chegou formado o filho de um fazendeiro importante da localidade; e  crena
geral que ele restituir ao mundo a bela viva. O juiz municipal, que rene 
mocidade a viuvez, prope-se a uma troca de consolaes. H um mdico e um
tenente-coronel indigitados como possveis candidatos. Tudo vo trabalho! D.
Mariana deixa-os andar, e continua fiel  memria do morto. Nenhum deles possui
a fora capaz de o fazer esquecer;  no, esquecer seria impossvel; ponhamos
substituir.

Mas, como ia dizendo, estava-se no
derradeiro ms do primeiro ano. Era tempo de aliviar o luto. D. Mariana cuidou
seriamente em mandar arranjar alguns vestidos escuros, apropriados  situao.
Tinha uma amiga na corte, e determinou-se a escrever-lhe, remetendo-lhe as medidas.
Foi aqui que interveio a tia dela, protetora do juiz municipal:

 Mariana, voc por que no manda
vir vestidos claros?

 Claros? Mas, titia, no v que
uma viva...

 Viva, sim; mas voc no vai
ficar viva toda a vida.

 Como no?

A tia foi s do cabo:

 Mariana, voc h de casar um
dia; por que no escolhe j um bom marido? Sei de um, que  o melhor de todos,
um homem honesto, srio, o Dr. Costa...

Mariana interrompeu-a; pediu-lhe
que, pelo amor de Deus, no lhe tocasse em tal assunto. Moralmente, estava
casada. O casamento dela subsistia. Nunca seria infiel ao seu Fernando. A tia
levantou os ombros; depois lembrou-lhe que fora casada duas vezes.

 Oh! titia! so modos de ver.

A tia voltou  carga, nesse dia 
noite, e no outro. O juiz municipal recebeu uma carta dela, dizendo que
aparecesse para ver se tentava alguma coisa. Ele foi. Era, na verdade, um rapaz
srio, muito simptico, e distinto. Mariana, vendo o plano concertado entre os
dois, resolveu vir em pessoa  corte. A tia tentou dissuadi-la, mas perdeu
tempo e latim. Mariana, alm de fiel  memria do marido, era obstinada; no
podia suportar a idia de lhe imporem coisa nenhuma. A tia, no podendo
dissuadi-la, acompanhou-a.

Na corte tinha algumas amigas e
parentas. Elas acolheram a jovem viva com muitas atenes, deram-lhe agasalho,
carinhos, conselhos. Uma prima levou-a a uma das melhores modistas. D. Mariana
disse-lhe o que queria:  sortir-se de vestidos escuros, apropriados ao estado
de viva. Escolheu vinte, sendo dois inteiramente pretos, doze escuros e
simples para uso de casa, e seis mais enfeitados. Escolheu tambm chapus
noutra casa. Mandou fazer os chapus, e esperou as encomendas para seguir com
elas.

Enquanto esperava, como a
temperatura ainda permitia ficar na corte, Mariana andou de um lado para outro,
vendo uma infinidade de coisas que no via desde os dezessete anos. Achou a
corte animadssima. A prima quis lev-la ao teatro, e s o conseguiu depois de
muita teima; Mariana gostou muito.

Ia freqentes vezes  Rua do
Ouvidor, j porque lhe era necessrio provar os vestidos, j porque queria
despedir-se por alguns anos de tanta coisa bonita. So as suas palavras. Na Rua
do Ouvidor, onde a sua beleza era notada, correu logo que era uma viva recente
e rica. Cerca de vinte coraes palpitaram logo, com a veemncia prpria do
caso. Mas, que poderiam eles alcanar, eles da rua, se os da prpria roda da
prima no alcanavam nada? Com efeito, dois amigos do marido desta, rapazes da
moda, fizeram a sua roda  viva, sem maior proveito. Na opinio da prima, se
fosse um s talvez domasse a fera; mas eram dois, e fizeram-na fugir.

Mariana chegou a ir a Petrpolis.
Gostou muito; era a primeira vez que l ia, e desceu cortada de saudades. A
corte consolou-a; Botafogo, Laranjeiras, Rua do Ouvidor, movimento de bonds,
gs, damas e rapazes, cruzando-se, carros de toda a sorte, tudo isto lhe
parecia cheio de vida e movimento.

Mas os vestidos fizeram-se, e os
chapus enfeitaram-se. O calor comeou a apertar muito; era necessrio seguir
para a fazenda. Mariana pegou dos chapus e dos vestidos, meteu-se com a tia na
estrada de ferro e seguiu. Parou um dia na vila, onde o juiz municipal a
cumprimentou, e caminhou para casa.

Em casa, depois de descansada, e
antes de dormir teve saudades da corte. Dormiu tarde e mal. A vida agitada da
corte perpassava no esprito da moa como um espetculo mgico. Ela via as
damas que desciam ou subiam a Rua do Ouvidor, as lojas, os rapazes, os bonds,
os carros; via as lindas chcaras dos arredores, onde a natureza se casava 
civilizao, lembrava-se da sala de jantar da prima, ao rs-do-cho, dando para
o jardim, com dois rapazes  mesa,  os tais dois que a reqestaram  toa. E
ficava triste, custava-lhe fechar os olhos.

Dois dias depois, apareceu na
fazenda o juiz municipal, a visit-la. D. Mariana recebeu-o com muito carinho.
Tinha no corpo o primeiro dos vestidos de luto aliviado. Era escuro, muito
escuro, com fitas pretas e tristes; mas ficava-lhe to bem! Desenhava-lhe o
corpo com tanta graa, que aumentava a graa dos olhos e da boca.

Entretanto, o juiz municipal no
lhe disse nada, nem com a boca nem com os olhos. Conversaram da corte, dos
esplendores da vida, dos teatros, etc.; depois, por iniciativa dele, falaram do
caf e dos escravos. Mariana notou que ele no tinha as finezas dos dois
rapazes da casa da prima, nem mesmo o tom elegante dos outros da Rua do
Ouvidor; mas achou-lhe em troca, muita distino e gravidade.

Dois dias depois, o juiz
despediu-se; ela instou para que ele ficasse. Tinha-lhe notado no colete alguma
coisa anloga aos coletes da Rua do Ouvidor. Ele ficou mais dois dias; e
tornaram a falar, no s do caf, como de outros assuntos menos pesados.

Afinal, seguiu o juiz municipal,
no sem prometer que voltaria trs dias depois, aniversrio natalcio da tia de
Mariana. Nunca ali se festejara tal dia; mas a fazendeira no achou outro meio
de examinar bem se as gravatas do juiz municipal eram semelhantes s da Rua do
Ouvidor. Pareceu-lhe que sim; e durante os trs dias de ausncia no pensou em
outra coisa. O jovem magistrado, ou de propsito, ou casualmente, fez-se
esperar; chegou tarde; Mariana, ansiosa, no pde conter a alegria, quando ele
transps a porteira.

Bom! disse consigo a tia; est
cada.

E cada ficou. Casaram-se trs
meses depois. A tia, experiente e filsofa, acreditou e fez crer que, se
Mariana no tem vindo em pessoa comprar os vestidos, ainda agora estaria viva;
a Rua do Ouvidor e os teatros restituram-lhe a idia matrimonial. Parece que
era assim mesmo porque o jovem casal pouco tempo depois vendeu a fazenda e veio
para c. Outra conseqncia da vinda  corte:  a tia ficou com os vestidos.
Que diabo fazia Mariana com tanto vestido escuro? Deu-os  boa velha. Terceira
e ltima conseqncia: um pequerrucho.

Tudo por ter vindo ao atrito da
felicidade alheia.
