ROMANCE, Quincas Borba,1891

Quincas
Borba

Texto-fonte:
Obra Completa, Machado de
Assis,
Rio
de Janeiro: Editora Nova Aguilar, 1994.

Publicado originalmente em
folhetins, de 1886 a 1891, em A Estao.

Publicado em volume pela Garnier,
Rio de Janeiro, no mesmo ano de 1891,
com
substanciais diferenas com relao aos folhetins.
O
que aqui vai  justamente a edio em livro.

PRLOGO DA 3
EDIO

A segunda edio deste
livro acabou mais depressa que a primeira. Aqui sai ele em terceira, sem outra
alterao alm da emenda de alguns erros tipogrficos, tais e to poucos que,
ainda conservados, no encobririam o sentido.

Um amigo e confrade
ilustre tem teimado comigo para que d a este livro o seguimento de outro. Com
as Memrias Pstumas de Brs Cubas, donde este proveio, far voc uma
trilogia, e a Sofia de Quincas Borba ocupar exclusivamente a terceira
parte. Algum tempo cuidei que podia ser, mas relendo agora estas pginas
concluo que no. A Sofia est aqui toda. Continu-la seria repeti-la, e acaso
repetir o mesmo seria pecado. Creio que foi assim que me tacharam este e alguns
outros dos livros que vim compondo pelo tempo fora no silncio da minha vida.
Vozes houve, generosas e fortes, que ento me defenderam; j lhes agradeci em
particular; agora o fao cordial e publicamente.

1889.

M. de
A.

CAPTULO PRIMEIRO

Rubio fitava a
enseada,  eram oito horas da manh. Quem o visse, com os polegares metidos no
cordo do chambre,  janela de uma grande casa de Botafogo, cuidaria que ele
admirava aquele pedao de gua quieta; mas, em verdade, vos digo que pensava em
outra coisa. Cotejava o passado com o presente. Que era, h um ano? Professor.
Que  agora? Capitalista. Olha para si, para as chinelas (umas chinelas de
Tnis, que lhe deu recente amigo, Cristiano Palha), para a casa, para o jardim,
para a enseada, para os morros e para o cu; e tudo, desde as chinelas at o
cu, tudo entra na mesma sensao de propriedade.

 Vejam como Deus
escreve direito por linhas tortas, pensa ele. Se mana Piedade tem casado com
Quincas Borba, apenas me daria uma esperana colateral. No casou; ambos
morreram, e aqui est tudo comigo; de modo que o que parecia uma desgraa...

CAPTULO II

Que abismo que h entre
o esprito e o corao! O esprito do ex-professor, vexado daquele pensamento,
arrepiou caminho, buscou outro assunto, uma canoa que ia passando; o corao,
porm, deixou-se estar a bater de alegria. Que lhe importa a canoa nem o
canoeiro, que os olhos de Rubio acompanham, arregalados? Ele, corao, vai
dizendo que, uma vez que a mana Piedade tinha de morrer, foi bom que no
casasse; podia vir um filho ou uma filha...  Bonita canoa!  Antes assim! 
Como obedece bem aos remos do homem!  O certo  que eles esto no Cu!

CAPTULO III

Um criado trouxe o
caf. Rubio pegou na xcara e, enquanto lhe deitava acar, ia disfaradamente
mirando a bandeja, que era de prata lavrada. Prata, ouro, eram os metais que
amava de corao; no gostava de bronze, mas o amigo Palha disse-lhe que era
matria de preo, e assim se explica este par de figuras que aqui est na sala,
um Mefistfeles e um Fausto. Tivesse, porm, de escolher,
escolheria a bandeja,  primor de argentaria, execuo fina e acabada. O criado
esperava teso e srio. Era espanhol; e no foi sem resistncia que Rubio o
aceitou das mos de Cristiano; por mais que lhe dissesse que estava acostumado
aos seus crioulos de Minas, e no queria lnguas estrangeiras em casa, o amigo
Palha insistiu, demonstrando-lhe a necessidade de ter criados brancos. Rubio
cedeu com pena. O seu bom pajem, que ele queria pr na sala, como um pedao da
provncia, nem o pde deixar na cozinha, onde reinava um francs, Jean; foi
degradado a outros servios.

 Quincas Borba est
muito impaciente? perguntou Rubio bebendo o ltimo gole de caf, e lanando um
ltimo olhar  bandeja.

 Me parece que
s.

 L vou solt-lo.

No foi; deixou-se
ficar, algum tempo, a olhar para os mveis. Vendo as pequenas gravuras inglesas,
que pendiam da parede por cima dos dois bronzes, Rubio pensou na bela Sofia,
mulher do Palha, deu alguns passos, e foi sentar-se no pouf, ao centro da
sala, olhando para longe...

 Foi ela que me
recomendou aqueles dois quadrinhos, quando andvamos, os trs, a ver coisas para
comprar. Estava to bonita! Mas o que eu mais gosto dela so os ombros, que vi
no baile do coronel. Que ombros! Parecem de cera; to lisos, to brancos! Os
braos tambm; oh! os braos! Que bem feitos!

Rubio suspirou, cruzou
as pernas, e bateu com as borlas do chambre sobre os joelhos. Sentia que no era
inteiramente feliz; mas sentia tambm que no estava longe a felicidade
completa. Recompunha de cabea uns modos, uns olhos, uns requebros sem
explicao, a no ser esta, que ela o amava, e que o amava muito. No era velho;
ia fazer quarenta e um anos; e, rigorosamente, parecia menos. Esta observao
foi acompanhada de um gesto; passou a mo pelo queixo, barbeado todos os dias,
coisa que no fazia dantes, por economia e desnecessidade. Um simples professor!
Usava suas, (mais tarde deixou crescer a barba toda),  to macias, que dava
gosto passar os dedos por elas... E recordava assim o primeiro encontro, na
estao de Vassouras, onde Sofia e o marido entraram no trem da estrada de
ferro, no mesmo carro em que ele descia de Minas; foi ali que achou aquele par
de olhos viosos, que pareciam repetir a exortao do profeta: Todos vs que
tendes sede, vinde s guas. No trazia idias adequadas ao convite,  verdade;
vinha com a herana na cabea, o testamento, o inventrio, coisas que  preciso
explicar primeiro, a fim de entender o presente e o futuro. Deixemos Rubio na
sala de Botafogo, batendo com as borlas do chambre nos joelhos, e cuidando na
bela Sofia. Vem comigo, leitor; vamos v-lo, meses antes,  cabeceira do Quincas
Borba.

CAPTULO IV

Este Quincas Borba, se
acaso me fizeste o favor de ler as Memrias Pstumas de Brs Cubas, 
aquele mesmo nufrago da existncia, que ali aparece, mendigo, herdeiro
inopinado, e inventor de uma filosofia. Aqui o tens agora em Barbacena. Logo que
chegou, enamorou-se de uma viva, senhora de condio mediana e parcos meios de
vida; mas, to acanhada, que os suspiros no namorado ficavam sem eco. Chamava-se
Maria da Piedade. Um irmo dela, que  o presente Rubio, fez todo o possvel
para cas-los. Piedade resistiu, um pleuris a levou.

Foi esse trechozinho de
romance que ligou os dois homens. Saberia Rubio que o nosso Quincas Borba
trazia aquele grozinho de sandice, que um mdico sups achar-lhe? Seguramente,
no; tinha-o por homem esquisito. , todavia, certo que o grozinho no se
despegou do crebro de Quincas Borba,  nem antes, nem depois da molstia que
lentamente o comeu. Quincas Borba tivera ali alguns parentes, mortos j agora em
1867; o ltimo foi o tio que o deixou por herdeiro de seus bens. Rubio ficou
sendo o nico amigo do filsofo. Regia ento uma escola de meninos, que fechou
para tratar do enfermo. Antes de professor, metera ombros a algumas empresas,
que foram a pique.

Durou o cargo de
enfermeiro mais de cinco meses, perto de seis. Era real o desvelo de Rubio,
paciente, risonho, mltiplo, ouvindo as ordens do mdico, dando os remdios s
horas marcadas, saindo a passeio com o doente, sem esquecer nada, nem o servio
da casa, nem a leitura dos jornais, logo que chegava a mala da Corte ou a de
Ouro Preto.

 Tu s bom, Rubio,
suspirava Quincas Borba.

 Grande faanha! Como
se voc fosse mau!

A opinio ostensiva do
mdico era que a doena do Quincas Borba iria saindo devagar. Um dia, o nosso
Rubio, acompanhando o mdico at  porta da rua, perguntou-lhe qual era o
verdadeiro estado do amigo. Ouviu que estava perdido, completamente perdido;
mas, que o fosse animando. Para que tornar-lhe a morte mais aflitiva pela
certeza?...

 L isso, no, atalhou
Rubio; para ele, morrer  negcio fcil. Nunca leu um livro que ele escreveu,
h anos, no sei que negcio de filosofia...

 No; mas filosofia 
uma coisa, e morrer de verdade  outra; adeus.

CAPTULO V

Rubio achou um rival
no corao de Quincas Borba,  um co, um bonito co, meio tamanho, plo cor de
chumbo, malhado de preto. Quincas Borba levava-o para toda parte, dormiam no
mesmo quarto. De manh, era o co que acordava o senhor, trepando ao leito, onde
trocavam as primeiras saudaes. Uma das extravagncias do dono foi dar-lhe o
seu prprio nome; mas, explicava-o por dois motivos, um doutrinrio, outro
particular.

 Desde que Humanitas,
segundo a minha doutrina,  o princpio da vida e reside em toda a parte, existe
tambm no co, e este pode assim receber um nome de gente, seja cristo ou
muulmano...

 Bem, mas por que no
lhe deu antes o nome de Bernardo? disse Rubio com o pensamento em um rival
poltico da localidade.

 Esse agora  o motivo
particular. Se eu morrer antes, como presumo, sobreviverei no nome do meu bom
cachorro. Ris-te, no?

Rubio fez um gesto
negativo.

 Pois devias rir, meu
querido. Porque a imortalidade  o meu lote ou o meu dote, ou como melhor nome
haja. Viverei perpetuamente no meu grande livro. Os que, porm, no souberem
ler, chamaro Quincas Borba ao cachorro, e...

O co, ouvindo o nome,
correu  cama. Quincas Borba, comovido, olhou para Quincas Borba:

 Meu pobre amigo! meu
bom amigo! meu nico amigo!

 nico?

 Desculpa-me, tu
tambm o s, bem sei, e agradeo-te muito; mas a um doente perdoa-se tudo.
Talvez esteja comeando o meu delrio. Deixa ver o espelho.

Rubio deu-lhe o
espelho. O doente contemplou por alguns segundos a cara magra, o olhar febril,
com que descobria os subrbios da morte, para onde caminhava a passo lento, mas
seguro. Depois, com um sorriso plido e irnico:

 Tudo o que est c
fora corresponde ao que sinto c dentro; vou morrer, meu caro Rubio... No
gesticules, vou morrer. E que  morrer, para ficares assim espantado?

 Sei, sei que voc tem
umas filosofias... Mas falemos do jantar; que h de ser hoje?

Quincas Borba sentou-se
na cama, deixando pender as pernas, cuja extraordinria magreza se adivinhava
por fora das calas.

 Que ? Que quer?
acudiu Rubio.

 Nada, respondeu o
enfermo sorrindo. Umas filosofias! Com que desdm me dizes isso! Repete, anda,
quero ouvir outra vez. Umas filosofias!

 Mas no  por
desdm... Pois eu tenho capacidade para desdenhar de filosofias? Digo s que
voc pode crer que a morte no vale nada, porque ter razes, princpios...

Quincas Borba procurou
com os ps as chinelas; Rubio chegou-lhas; ele calou-as e ps-se a andar para
esticar as pernas. Afagou o co e acendeu um cigarro. Rubio quis que se
agasalhasse, e trouxe-lhe um fraque, um colete, um chambre, um capote, 
escolha. Quincas Borba recusou-os com um gesto. Tinha outro ar agora; os olhos
metidos para dentro viam pensar o crebro. Depois de muitos passos, parou, por
alguns segundos, diante de Rubio.

CAPTULO VI

 Para entenderes bem o
que  a morte e a vida, basta contar-te como morreu minha av.

 Como foi?

 Senta-te.

Rubio obedeceu, dando
ao rosto o maior interesse possvel, enquanto Quincas Borba continuava a andar.

 Foi no Rio de
Janeiro, comeou ele, defronte da Capela Imperial, que era ento Real, em dia de
grande festa; minha av saiu, atravessou o adro, para ir ter  cadeirinha, que a
esperava no Largo do Pao. Gente como formiga. O povo queria ver entrar as
grandes senhoras nas suas ricas traquitanas. No momento em minha av saa do
adro para ir  cadeirinha, um pouco distante, aconteceu espantar-se uma das
bestas de uma sege; a besta disparou, a outra imitou-a, confuso, tumulto, minha
av caiu, e tanto as mulas como a sege passaram-lhe por cima. Foi levada em
braos para uma botica da Rua Direita, veio um sangrador, mas era tarde; tinha a
cabea rachada, uma perna e o ombro partidos, era toda sangue; expirou minutos
depois.

 Foi realmente uma
desgraa, disse Rubio.

 No.

 No?

 Ouve o resto. Aqui
est como se tinha passado o caso. O dono da sege estava no adro, e tinha fome,
muita fome, porque era tarde, e almoara cedo e pouco. Dali pde fazer sinal ao
cocheiro; este fustigou as mulas para ir buscar o patro. A sege no meio do
caminho achou um obstculo e derribou-o; esse obstculo era minha av. O
primeiro ato dessa srie de atos foi um movimento de conservao: Humanitas
tinha fome. Se, em vez de minha av, fosse um rato ou um co,  certo que minha
av no morreria, mas o fato era o mesmo; Humanitas precisa comer. Se em vez de
um rato ou de um co, fosse um poeta, Byron ou Gonalves Dias, diferia o caso no
sentido de dar matria a muitos necrolgios; mas o fundo subsistia. O universo
ainda no parou por lhe faltarem alguns poemas mortos em flor na cabea de um
varo ilustre ou obscuro; mas Humanitas (e isto importa, antes de tudo),
Humanitas precisa comer.

Rubio escutava, com a
alma nos olhos, sinceramente desejoso de entender; mas no dava pela necessidade
a que o amigo atribua a morte da av. Seguramente o dono da sege, por muito
tarde que chegasse  casa, no morria de fome, ao passo que a boa senhora morreu
de verdade, e para sempre. Explicou-lhe, como pde, essas dvidas, e acabou
perguntando-lhe:

 E que Humanitas 
esse?

 Humanitas  o
princpio. Mas no, no digo nada, tu no s capaz de entender isto, meu caro
Rubio; falemos de outra coisa.

 Diga sempre.

Quincas Borba, que no
deixara de andar, parou alguns instantes.

 Queres ser meu
discpulo?

 Quero.

 Bem, irs entendendo
aos poucos a minha filosofia; no dia em que a houveres penetrado inteiramente,
ah! nesse dia ters o maior prazer da vida, porque no h vinho que embriague
como a verdade. Cr-me, o Humanitismo  o remate das coisas; e eu, que o
formulei, sou o maior homem do mundo. Olha, vs como o meu bom Quincas Borba
est olhando para mim? No  ele,  Humanitas...

 Mas que Humanitas 
esse?

 Humanitas  o
princpio. H nas coisas todas certa substncia recndita e idntica, um
princpio nico, universal, eterno, comum, indivisvel e indestrutvel,  ou,
para usar a linguagem do grande Cames:

Uma verdade que nas
coisas anda,
Que mora no visbil e
invisbil.

Pois essa substncia ou
verdade, esse princpio indestrutvel  que  Humanitas. Assim lhe chamo, porque
resume o universo, e o universo  o homem. Vais entendendo?

 Pouco; mas, ainda
assim, como  que a morte de sua av...

 No h morte. O
encontro de duas expanses, ou a expanso de duas formas, pode determinar a
supresso de uma delas; mas, rigorosamente, no h morte, h vida, porque a
supresso de uma  a condio da sobrevivncia da outra, e a destruio no
atinge o princpio universal e comum. Da o carter conservador e benfico da
guerra. Supe tu um campo de batatas e duas tribos famintas. As batatas apenas
chegam para alimentar uma das tribos, que assim adquire foras para transpor a
montanha e ir  outra vertente, onde h batatas em abundncia; mas, se as duas
tribos dividirem em paz as batatas do campo, no chegam a nutrir-se
suficientemente e morrem de inanio. A paz nesse caso,  a destruio; a guerra
 a conservao. Uma das tribos extermina a outra e recolhe os despojos. Da a
alegria da vitria, os hinos, aclamaes, recompensas pblicas e todos os demais
efeitos das aes blicas. Se a guerra no fosse isso, tais demonstraes no
chegariam a dar-se, pelo motivo real de que o homem s comemora e ama o que lhe
 aprazvel ou vantajoso, e pelo motivo racional de que nenhuma pessoa canoniza
uma ao que virtualmente a destri. Ao vencido, dio ou compaixo; ao vencedor,
as batatas.

 Mas a opinio do
exterminado?

 No h exterminado.
Desaparece o fenmeno; a substncia  a mesma. Nunca viste ferver gua? Hs de
lembrar-te que as bolhas fazem-se e desfazem-se de contnuo, e tudo fica na
mesma gua. Os indivduos so essas bolhas transitrias.

 Bem; a opinio da
bolha...

 Bolha no tem
opinio. Aparentemente, h nada mais contristador que uma dessas terrveis
pestes que devastam um ponto do globo? E, todavia, esse suposto mal  um
benefcio, no s porque elimina os organismos fracos, incapazes de resistncia,
como porque d lugar  observao,  descoberta da droga curativa. A higiene 
filha de podrides seculares; devemo-la a milhes de corrompidos e infectos.
Nada se perde, tudo  ganho. Repito, as bolhas ficam na gua. Vs este livro? 
Dom Quixote. Se eu destruir o meu exemplar, no elimino a obra que
continua eterna nos exemplares subsistentes e nas edies posteriores. Eterna e
bela, belamente eterna, como este mundo divino e supradivino.

CAPTULO VII

Quincas Borba calou-se
de exausto, e sentou-se ofegante. Rubio acudiu, levando-lhe gua e pedindo que
se deitasse para descansar; mas o enfermo, aps alguns minutos, respondeu que
no era nada. Perdera o costume de fazer discursos,  o que era. E, afastando
com o gesto a pessoa de Rubio, a fim de poder encar-la sem esforo, empreendeu
uma brilhante descrio do mundo e suas excelncias. Misturou idias prprias e
alheias, imagens de toda sorte, idlicas, picas, a tal ponto que Rubio
perguntava a si mesmo como  que um homem, que ia morrer dali a dias, podia
tratar to galantemente aqueles negcios.

 Ande repousar um
pouco.

Quincas Borba refletiu.

 No, vou dar um
passeio.

 Agora no; voc est
muito cansado.

 Qual! Passou.

Ergueu-se e ps
paternalmente as mos sobre os ombros de Rubio.

 Voc  meu amigo?

 Que pergunta!

 Diga.

 Tanto ou mais do que
este animal, respondeu Rubio, em um arroubo de ternura.

Quincas Borba
apertou-lhe as mos.

 Bem.

CAPTULO VIII

No dia seguinte,
Quincas Borba acordou com a resoluo de ir ao Rio de Janeiro, voltaria no fim
de um ms, tinha certos negcios... Rubio ficou espantado. E a molstia, e o
mdico? O doente respondeu que o mdico era um charlato, e que a molstia
precisava espairecer, tal qual a sade. Molstia e sade eram dois caroos do
mesmo fruto, dois estados de Humanitas.

 Vou a alguns negcios
pessoais, concluiu o enfermo, e levo, alm disso, um plano to sublime, que nem
mesmo voc poder entend-lo. Desculpe-me esta franqueza; mas eu prefiro ser
franco com voc a s-lo com qualquer outra pessoa.

Rubio fiou do tempo
que este projeto lhe passasse, como tantos outros; mas enganou-se. Acrescia que,
em verdade, o doente parecia estar melhorando; no ia  cama, saa  rua,
escrevia. No fim de uma semana, mandou chamar o tabelio.

 Tabelio? repetiu o
amigo.

 Sim, quero registrar
o meu testamento. Ou vamos l os dois...

Foram os trs, porque o
co no deixava partir o amo e senhor sem acompanh-lo. Quincas Borba registrou
o testamento, com as formalidades do estilo, e tornou tranqilo para casa.
Rubio sentia bater-lhe o corao violentamente.

 Est claro que eu no
o deixo ir s para a Corte, disse ele ao amigo.

 No, no  preciso.
Demais, Quincas Borba no vai, e no o confio a outra pessoa, seno a voc.
Deixo a casa como est. Daqui a um ms estou de volta. Vou amanh; no quero que
ele pressinta a minha sada. Cuide dele, Rubio.

 Cuido, sim.

 Jura?

 Por esta luz que me
alumia. Ento sou alguma criana?

 D-lhe leite s horas
apropriadas, as comidas todas do costume, e os banhos; e quando sair a passeio
com ele, olhe que no v fugir. No, o melhor  que no saia... no saia...

 V sossegado.

Quincas Borba chorava
pelo outro Quincas Borba. No quis v-lo  sada. Chorava deveras; lgrimas de
loucura ou de afeio, quaisquer que fossem, ele as ia deixando pela boa terra
mineira, como o derradeiro suor de uma alma obscura, prestes a cair no abismo.

CAPTULO IX

Horas depois, teve
Rubio um pensamento horrvel. Podiam crer que ele prprio incitara o amigo 
viagem, para o fim de o matar mais depressa, e entrar na posse do legado, se 
que realmente estava incluso no testamento. Sentiu remorsos. Por que no
empregou todas as foras para cont-lo? Viu o cadver de Quincas Borba, plido,
hediondo, fitando nele um olhar vingativo; resolveu, se acaso o fatal desfecho
se desse em viagem, abrir mo do legado.

Pela sua parte o co
vivia farejando, ganindo, querendo fugir; no podia dormir quieto, levantava-se
muitas vezes,  noite, percorria a casa, e tornava ao seu canto. De manh,
Rubio chamava-o  cama, e o co acudia alegre; imaginava que era o prprio
dono; via depois que no era, mas aceitava as carcias, e fazia-lhe outras, como
se Rubio tivesse de levar as suas ao amigo, ou traz-lo para ali. Demais,
havia-se-lhe afeioado tambm, e para ele era a ponte que o ligava  existncia
anterior. No comeu durante os primeiros dias. Suportando menos a sede, Rubio
pde alcanar que bebesse leite; foi a nica alimentao por algum tempo. Mais
tarde, passava as horas, calado, triste, enrolado em si mesmo, ou ento com o
corpo estendido e a cabea entre as mos.

Quando o mdico voltou,
ficou espantado da temeridade do doente; deviam t-lo impedido de sair; a morte
era certa.

 Certa?

 Mais tarde ou mais
cedo. Levou o tal cachorro?

 No, senhor, est
comigo; pediu que cuidasse dele, e chorou, olhe que chorou que foi um nunca
acabar. Verdade , disse ainda Rubio para defender o enfermo, verdade  que o
cachorro merece a estima do dono: parece gente.

O mdico tirou o largo
chapu de palha para concertar a fita; depois sorriu. Gente? Com que ento
parecia gente? Rubio insistia, depois explicava; no era gente como a outra
gente, mas tinha coisas de sentimento, e at de juzo. Olhe, ia contar-lhe
uma...

 No, homem, no;
logo, logo; vou a um doente de erisipela... Se vierem cartas dele, e no forem
reservadas, desejo v-las, ouviu? E lembranas ao cachorro, concluiu saindo.

Algumas pessoas
comearam a mofar do Rubio e da singular incumbncia de guardar um co em vez
de ser o co que o guardasse a ele. Vinha a risota, choviam as alcunhas. Em que
havia de dar o professor! sentinela de cachorro! Rubio tinha medo da opinio
pblica. Com efeito, parecia-lhe ridculo; fugia aos olhos estranhos, olhava com
fastio para o animal, dava-se ao diabo, arrenegava da vida. No tivesse a
esperana de um legado, pequeno que fosse... Era impossvel que lhe no deixasse
uma lembrana.

CAPTULO X

Sete semana depois,
chegou a Barbacena esta carta, datada do Rio de Janeiro, toda do punho do
Quincas Borba:

Meu caro senhor e
amigo,
Voc h de ter
estranhado o meu silncio. No lhe tenho escrito por certos motivos
particulares, etc. Voltarei breve; mas quero comunicar-lhe desde j um negcio
reservado, reservadssimo.
Quem sou eu, Rubio?
Sou Santo Agostinho. Sei que h de sorrir, porque voc  um ignaro, Rubio; a
nossa intimidade permitia-me dizer palavra mais crua, mas fao-lhe esta
concesso, que  a ltima. Ignaro!
Oua, ignaro. Sou Santo
Agostinho; descobri isto anteontem: oua e cale-se. Tudo coincide nas nossas
vidas. O santo e eu passamos uma parte do tempo nos deleites e na heresia,
porque eu considero heresia tudo o que no  a minha doutrina de Humanitas;
ambos furtamos, ele, em pequeno, umas pras de Cartago, eu, j rapaz, um relgio
do meu amigo Brs Cubas. Nossas mes eram religiosas e castas. Enfim, ele
pensava, como eu, que tudo que existe  bom, e assim o demonstra no captulo
XVI, livro VII das Confisses, com a diferena que, para ele, o mal  um
desvio da vontade, iluso prpria de um sculo atrasado, concesso ao erro, pois
que o mal nem mesmo existe, e s a primeira afirmao  verdadeira; todas as
coisas so boas, omnia bona, e adeus.
Adeus, ignaro. No
contes a ningum o que te acabo de confiar, se no queres perder as orelhas.
Cala-te, guarda, e agradece a boa fortuna de ter por amigo um grande homem, como
eu, embora no me compreendas. Hs de compreender-me. Logo que tornar a
Barbacena, dar-te-ei em termos explicados, simples, adequados ao entendimento de
um asno, a verdadeira noo do grande homem. Adeus; lembranas ao meu pobre
Quincas Borba. No esqueas de lhe dar leite; leite e banhos; adeus, adeus...
Teu do corao

QUINCAS BORBA

Rubio mal sustinha o
papel nos dedos. Passados alguns segundos, advertiu que podia ser um gracejo do
amigo, e releu a carta; mas a segunda leitura confirmou a primeira impresso.
No havia dvida; estava doido. Pobre Quincas Borba! Assim, as esquisitices, a
freqente alterao de humor, os mpetos sem motivo, as ternuras sem proporo,
no eram mais que prenncios da runa total do crebro. Morria antes de morrer.
To bom! To alegre! Tinha impertinncias,  verdade; mas a doena explicava-as.
Rubio enxugou os olhos, midos de comoo. Depois, veio a lembrana do possvel
legado, e ainda mais o afligiu, por lhe mostrar que bom amigo ia perder.

Quis ainda uma vez ler
a carta, agora devagar, analisando as palavras, desconjuntando-as, para ver bem
o sentido e descobrir se realmente era uma troa de filsofo. Aquele modo de o
descompor brincando, era conhecido; mas o resto confirmava a suspeita do
desastre. J quase no fim, parou enfiado. Dar-se-ia que, provada a alienao
mental do testador, nulo ficaria o testamento, e perdidas as deixas? Rubio teve
uma vertigem. Estava ainda com a carta aberta nas mos, quando viu aparecer o
doutor, que vinha por notcias do enfermo; o agente do correio dissera-lhe haver
chegado uma carta. Era aquela?

  esta, mas...

 Tem alguma
comunicao reservada?...

 Justamente, traz uma
comunicao reservada, reservadssima; negcios pessoais. D licena?

Dizendo isto, Rubio
meteu a carta no bolso; o mdico saiu, ele respirou. Escapara ao perigo de
publicar to grave documento, por onde se podia provar o estado mental de
Quincas Borba. Minutos depois, arrependeu-se, devia ter entregado a carta,
sentiu remorsos, pensou em mand-la  casa do mdico. Chamou por um escravo;
quando este acudiu, j ele mudara outra vez de idia; considerou que era
imprudncia; o doente viria em breve,  dali a dias,  perguntaria pela carta,
argi-lo-ia de indiscreto, de delator... Remorsos fceis, de pouca dura.

 No quero nada, disse
ao escravo. E outra vez pensou no legado. Calculou o algarismo. Menos de dez
contos, no. Compraria um pedao de terra, uma casa, cultivaria isto ou aquilo,
ou lavraria ouro. O pior  se era menos, cinco contos... Cinco? Era pouco; mas,
enfim, talvez no passasse disso. Cinco que fossem, era um arranjo menor, e
antes menor que nada. Cinco contos... Pior seria se o testamento ficasse nulo.
V, cinco contos!

CAPTULO XI

No comeo da semana
seguinte, recebendo os jornais da Corte (ainda assinaturas do Quincas Borba) leu
Rubio esta notcia em um deles:

Faleceu ontem o Sr.
Joaquim Borba dos Santos, tendo suportado a molstia com singular filosofia. Era
homem de muito saber, e cansava-se em batalhar contra esse pessimismo amarelo e
enfezado que ainda nos h de chegar aqui um dia;  a molstia do sculo. A
ltima palavra dele foi que a dor era uma iluso, e que Pangloss no era to
tolo como o inculcou Voltaire... J ento delirava. Deixa muitos bens. O
testamento est em Barbacena.

CAPTULO XII

 Acabou de sofrer!
suspirou Rubio.

Em seguida, atentando
na notcia, viu que falava de um homem que tinha apreo, considerao, a quem se
atribua uma peleja filosfica. Nenhuma aluso  demncia. Ao contrrio, o final
dizia que ele delirara a ltima hora, efeito da molstia. Ainda bem! Rubio leu
novamente a carta, e a hiptese da troa pareceu outra vez mais verossmil.
Concordou que ele tinha graa; com certeza, quis debic-lo; foi a Santo
Agostinho, como iria a Santo Ambrsio ou a Santo Hilrio, e escreveu uma carta
enigmtica, para confundi-lo, at voltar a rir-se do logro. Pobre amigo! Estava
so,  so e morto. Sim, j no padecia nada. Vendo o cachorro,
suspirou:

 Coitado do Quincas
Borba! Se pudesse saber que o senhor morreu...

Depois,
consigo:

 Agora, que j acabou
a obrigao, vou d-lo  comadre Anglica.

CAPTULO XIII

A notcia correra a
cidade; o vigrio, o farmacutico da casa, o mdico, todos mandaram saber se era
verdadeira. O agente do correio, que a lera nas folhas, trouxe em mo prpria ao
Rubio uma carta que viera na mala para ele; podia ser do finado, conquanto a
letra do sobrescrito fosse outra.

 Ento afinal o homem
espichou a canela? disse ele, enquanto Rubio abria a carta, corria  assinatura
e lia: Brs Cubas. Era um simples bilhete:

O meu pobre amigo
Quincas Borba faleceu ontem em minha casa, onde apareceu h tempos esfrangalhado
e srdido: frutos da doena. Antes de morrer pediu-me que lhe escrevesse, que
lhe desse particularmente esta notcia, e muitos agradecimentos; que o resto se
faria, segundo as praxes do foro.

Os agradecimentos
fizeram empalidecer o professor; mas as praxes do foro restituram-lhe o sangue.
Rubio fechou a carta sem dizer nada; o agente falou de uma coisa e outra,
depois saiu. Rubio ordenou a um escravo que levasse o cachorro de presente 
comadre Anglica, dizendo-lhe que, como gostava de bichos, l ia mais um; que o
tratasse bem, porque ele estava acostumado a isso; finalmente que o nome do
cachorro era o mesmo que o do dono, agora morto, Quincas Borba.

CAPTULO XIV

Quando o testamento foi
aberto, Rubio quase caiu para trs. Adivinhais por qu. Era nomeado herdeiro
universal do testador. No cinco, nem dez, nem vinte contos, mas tudo, o capital
inteiro, especificados os bens, casas na Corte, uma em Barbacena, escravos,
aplices, aes do Banco do Brasil e de outras instituies, jias, dinheiro
amoedado, livros,  tudo finalmente passava s mos do Rubio, sem desvios, sem
deixas a nenhuma pessoa, nem esmolas, nem dvidas. Uma s condio havia no
testamento, a de guardar o herdeiro consigo o seu pobre cachorro Quincas Borba,
nome que lhe deu por motivo da grande afeio que lhe tinha. Exigia do dito
Rubio que o tratasse como se fosse a ele prprio testador, nada poupando em seu
benefcio, resguardando-o de molstias, de fugas, de roubo ou de morte que lhe
quisessem dar por maldade; cuidar finalmente como se co no fosse, mas pessoa
humana. Item, impunha-lhe a condio, quando morresse o cachorro, de lhe dar
sepultura decente em terreno prprio, que cobriria de flores e plantas
cheirosas; e mais desenterraria os ossos do dito cachorro, quando fosse tempo
idneo, e os recolheria a uma urna de madeira preciosa para deposit-los no
lugar mais honrado da casa.

CAPTULO XV

Tal era a clusula.
Rubio achou-a natural, posto que s tivesse pensamento para cuidar na herana.
Espreitara uma deixa, e sai-lhe do testamento a massa toda dos bens. No podia
acabar de crer; foi preciso que lhe apertassem muito as mos, com fora,  a
fora dos parabns,  para no supor que era mentira.

 Sim, senhor, lavre um
tento, dizia-lhe o dono da farmcia que ministrara os remdios a Quincas Borba.

Herdeiro j era muito;
mas universal... Esta palavra inchava as bochechas  herana. Herdeiro de tudo,
nem uma colherinha menos. E quanto seria tudo? ia ele pensando. Casas, aplices,
aes, escravos, roupa, loua, alguns quadros, que ele teria na Corte, porque
era homem de muito gosto, tratava de coisas de arte com grande saber. E livros?
devia ter muitos livros, citava muitos deles. Mas em quanto andaria tudo? Cem
contos? Talvez duzentos. Era possvel; trezentos mesmo no havia que admirar.
Trezentos contos! trezentos! E o Rubio tinha mpetos de danar na rua. Depois
aquietava-se; duzentos que fossem, ou cem, era um sonho que Deus Nosso Senhor
lhe dava, mas um sonho comprido, para no acabar mais.

A lembrana do cachorro
pde tomar p no torvelinho de pensamentos que iam pela cabea do nosso homem.
Rubio achava que a clusula era natural, mas desnecessria, porque ele e o co
eram dois amigos, e nada mais certo que ficarem juntos, para recordar o terceiro
amigo, o extinto, o autor da felicidade de ambos. Havia, sem dvida, umas
particularidades na clusula, uma histria de urna, e no sabia que mais; mas
tudo se havia de cumprir, ainda que o cu viesse abaixo... No, com a ajuda de
Deus, emendava ele. Bom cachorro! excelente cachorro!

Rubio no esquecia que
muitas vezes tentara enriquecer com empresas que morreram em flor. Sups-se
naquele tempo um desgraado, um caipora, quando a verdade era que "mais vale
quem Deus ajuda do que quem cedo madruga". Tanto no era impossvel enriquecer,
que estava rico.

 Impossvel, o qu?
exclamou em voz alta. Impossvel  a Deus pecar. Deus no falta a quem promete.

Ia assim, descendo e
subindo as ruas da cidade, sem guiar para casa, sem plano, com o sangue aos
pulos. De repente, surgiu-lhe este grave problema:  se iria viver no Rio de
Janeiro, ou se ficaria em Barbacena. Sentia ccegas de ficar, de brilhar onde
escurecia, de quebrar a castanha na boca aos que antes faziam pouco caso dele, e
principalmente aos que se riram da amizade do Quincas Borba. Mas, logo depois,
vinha a imagem do Rio de Janeiro, que ele conhecia, com os seus feitios,
movimento, teatros em toda a parte, moas bonitas, "vestidas  francesa".
Resolveu que era melhor, podia subir muitas e muitas vezes  cidade natal.

CAPTULO XVI

 Quincas Borba! Quincas
Borba! eh! Quincas Borba! bradou entrando em
casa.

Nada de cachorro. S
ento  que ele se lembrou de hav-lo mandado dar  comadre Anglica. Correu 
casa da comadre, que era distante. De caminho acudiram-lhe todas as idias
feias, algumas extraordinrias. Uma idia feia  que o co tivesse fugido. Outra
extraordinria  que algum inimigo, sabedor da clusula e do presente, fosse ter
com a comadre, roubasse o cachorro, e o escondesse ou matasse. Neste caso, a
herana... Passou-lhe uma nuvem pelos olhos; depois comeou a ver mais claro.

 No conheo negcios
de justia, pensava ele, mas parece que no tenho nada com isso. A clusula
supe o co vivo ou em casa; mas, se ele fugir ou morrer, no se h de inventar
um co; logo, a inteno principal... Mas so capazes de fazer chicana os meus
inimigos. No cumprida a clusula...

Aqui a testa e as
costas das mos do nosso amigo ficaram em gua. Outra nuvem pelos olhos. E o
corao batia-lhe rpido, rpido. A clusula comeava a parecer-lhe
extravagante. Rubio pegava-se com os santos, prometia missas, dez missas... Mas
l estava a casa da comadre. Rubio picou o passo; viu algum; era ela? era, era
ela, encostada  porta e rindo.

 Que figura que o
senhor vem fazendo, meu compadre? Meio tonto, jogando com os braos.

CAPTULO XVII

 Sinh comadre, o
cachorro? perguntou Rubio com indiferena, mas plido.

 Entre, e abanque-se,
respondeu ela. Que cachorro?

 Que cachorro? tornou
Rubio cada vez mais plido. O que lhe mandei. Pois no se lembra que lhe mandei
um cachorro para ficar aqui alguns dias, descansando, a ver se... em suma, um
animal de muita estimao. No  meu. Veio para... Mas no se lembra?

 Ah! no me fale nesse
bicho! respondeu ela precipitando as palavras.

Era pequena, tremia por
qualquer coisa, e quando se apaixonava, engrossavam-lhe as veias do pescoo.
Repetiu que lhe no falasse no bicho.

 Mas que lhe fez ele,
sinh comadre?

 Que me fez? Que  que
me faria o pobre animal? No come nada, no bebe, chora que parece gente, e anda
s com o olho para fora, a ver se foge.

Rubio respirou. Ela
continuou a dizer os enfadamentos do cachorro; ele ansioso, queria v-lo.

 Est l no fundo, no
cercado grande; est sozinho para que os outros no bulam com ele. Mas o
compadre vem busc-lo? No foi isso o que disseram. Pareceu-me ouvir que era
para mim, que era dado.

 Daria cinco ou seis,
se pudesse, respondeu Rubio. Este no posso; sou apenas depositrio. Mas deixe
estar, prometo-lhe um filho. Creia que o recado veio torto.

Rubio ia andando; a
comadre, em vez de o guiar, acompanhava-o. L estava o co, dentro do cercado,
deitado  distncia de um alguidar de comida. Ces, aves, saltavam de todos os
lados, c fora; a um lado havia um galinheiro, mais longe porcos; mais longe
ainda, uma vaca deitada, sonolenta, com duas galinhas ao p, que lhe picavam a
barriga, arrancando carrapato.

 Olhe o meu pavo!
dizia a comadre.

Mas Rubio tinha os
olhos no Quincas Borba, que farejava impaciente, e que se atirou para ele, logo
que um moleque abriu a porta do cercado. Foi uma cena de delrio; o cachorro
pagava as carcias do Rubio, latindo, pulando, beijando-lhe as mos.

 Meu Deus! que
amizade!

 No imagina, sinh
comadre. Adeus, prometo-lhe um filho.

CAPTULO XVIII

Rubio e o cachorro,
entrando em casa, sentiram, ouviram a pessoa e as vozes do finado amigo.
Enquanto o cachorro farejava por toda a parte, Rubio foi sentar-se na cadeira,
onde estivera quando Quincas Borba referiu a morte da av com explicaes
cientficas. A memria dele recomps, ainda que de embrulho e esgaradamente, os
argumentos do filsofo. Pela primeira vez, atentou bem na alegoria das tribos
famintas e compreendeu a concluso: "Ao vencedor, as batatas!" Ouviu
distintamente a voz roufenha do finado expor a situao das tribos, a luta e a
razo da luta, o extermnio de uma e a vitria da outra, e murmurou
baixinho:

 Ao vencedor, as
batatas!

To simples! to claro!
Olhou para as calas de brim surrado e o rodaque cerzido, e notou que at h
pouco fora, por assim dizer, um exterminado, uma bolha; mas que ora no, era um
vencedor. No havia dvida; as batatas fizeram-se para a tribo que elimina a
outra, a fim de transpor a montanha e ir s batatas do outro lado. Justamente o
seu caso. Ia descer de Barbacena para arrancar e comer as batatas da capital.
Cumpria-lhe ser duro e implacvel, era poderoso e forte. E levantando-se de
golpe, alvoroado, ergueu os braos exclamando:

 Ao vencedor, as
batatas!

Gostava da frmula,
achava-a engenhosa, compendiosa e eloqente, alm de verdadeira e profunda.
Ideou as batatas em suas vrias formas, classificou-as pelo sabor, pelo aspecto,
pelo poder nutritivo, fartou-se antemo do banquete da vida. Era tempo de acabar
com as razes pobres e secas, que apenas enganavam o estmago, triste comida de
longos anos; agora o farto, o slido, o perptuo, comer at morrer, e morrer em
colchas de seda, que  melhor que trapos. E voltava  afirmao de ser duro e
implacvel, e  frmula da alegoria. Chegou a compor de cabea um sinete para
seu uso, com este lema: AO VENCEDOR, AS BATATAS.

Esqueceu o projeto do
sinete; mas a frmula viveu no esprito de Rubio, por alguns dias:  Ao
vencedor, as batatas! No a compreenderia antes do testamento; ao contrrio,
vimos que a achou obscura e sem explicao. To certo  que a paisagem depende
do ponto de vista, e que o melhor modo de apreciar o chicote  ter-lhe o cabo na
mo.

CAPTULO XIX

No esquea dizer que
Rubio tomou a si mandar dizer uma missa por alma do finado, embora soubesse ou
pressentisse que ele no era catlico. Quincas Borba no dizia pulhices a
respeito de padres, nem desconceituava doutrinas catlicas; mas no falava nem
da igreja nem dos seus servos. Por outro lado, a venerao de Humanitas fazia
desconfiar ao herdeiro que essa era a religio do testador. No obstante, mandou
dizer a missa, considerando que no era ato da vontade do morto, mas prece de
vivos; considerou mais que seria um escndalo na cidade se ele, nomeado herdeiro
pelo defunto, deixasse de dar ao seu protetor os sufrgios que no se negam aos
mais miserveis e avaros deste mundo.

Se algumas pessoas
deixaram de comparecer para no assistir  glria do Rubio, muitas outras
foram,  e no da ral,  as quais viram a compuno verdadeira do antigo mestre
de meninos.

CAPTULO XX

Regulados os
preliminares para a liquidao da herana, Rubio tratou de vir ao Rio de
Janeiro, onde se fixaria, logo que tudo estivesse acabado. Havia que fazer em
ambas as cidades; mas as coisas prometiam correr depressa.

CAPTULO XXI

Na estao de
Vassouras, entraram no trem Sofia e o marido, Cristiano de Almeida e Palha. Este
era um rapago de trinta e dois anos; ela ia entre vinte e sete e vinte e oito.
Vieram sentar-se nos dois bancos fronteiros ao do Rubio, acomodaram as
cestinhas e embrulhos de lembranas que traziam de Vassouras, onde tinham ido
passar uma semana; abotoaram o guarda-p, trocaram algumas palavras, baixo.

Depois que o trem
continuou a andar, foi que o Palha reparou na pessoa do Rubio, cujo rosto,
entre tanta gente carrancuda ou aborrecida, era o nico plcido e satisfeito.
Cristiano foi o primeiro que travou conversa, dizendo-lhe que as viagens de
estrada de ferro cansavam muito, ao que Rubio respondeu que sim; para quem
estava acostumado  costa de burro, acrescentou, a estrada de ferro cansava e
no tinha graa; no se podia negar, porm, que era um progresso...

 Decerto, concordou o
Palha. Progresso e grande.

 O senhor  lavrador?

 No, senhor.

 Mora na cidade?

 De Vassouras? No;
viemos aqui passar uma semana. Moro mesmo na Corte. No teria jeito para
lavrador, conquanto ache que  uma posio boa e honrada.

Da lavoura passaram ao
gado,  escravatura e  poltica. Cristiano Palha maldisse o governo, que
introduzira na fala do trono uma palavra relativa  propriedade servil; mas, com
grande espanto seu, Rubio no acudiu  indignao. Era plano deste vender os
escravos que o testador lhe deixara, exceto um pajem; se alguma coisa perdesse,
o resto da herana cobriria o desfalque. Demais, a fala do trono, que ele tambm
lera, mandava respeitar a propriedade atual. Que lhe importavam escravos
futuros, se os no compraria? O pajem ia ser forro, logo que ele entrasse na
posse dos bens. Palha desconversou, e passou  poltica, s Cmaras,  guerra do
Paraguai, tudo assuntos gerais, ao que Rubio atendia, mais ou menos. Sofia
escutava apenas; movia to-somente os olhos, que sabia bonitos, fitando-os ora
no marido, ora no interlocutor.

 Vai ficar na Corte ou
volta para Barbacena? perguntou o Palha no fim de vinte minutos de conversao.

 Meu desejo  ficar, e
fico mesmo, acudiu Rubio; estou cansado da provncia; quero gozar a vida. Pode
ser at que v  Europa, mas no sei ainda.

Os olhos do Palha
brilharam instantaneamente.

 Faz muito bem; eu
faria o mesmo, se pudesse; por agora, no posso. Provavelmente, j l foi?

 Nunca fui.  por isso
que tive c umas idias, ao sair de Barbacena; ora adeus!  preciso a gente
tirar a morrinha do corpo. No sei ainda quando ser; mas hei de...

 Tem razo. Dizem que
h l muita coisa esplndida; no admira, so mais velhos que ns; mas l
chegaremos; e h coisas em que estamos a par deles, e at acima. A nossa Corte,
no digo que possa competir com Paris ou Londres, mas  bonita, ver...

 J vi.

 J?

 H muitos anos.

 H de ach-la melhor;
tem feito progressos rpidos. Depois, quando for  Europa...

 A senhora j foi 
Europa? interrompeu Rubio, dirigindo-se a Sofia.

 No, senhor.

 Esqueceu-me
apresentar-lhe minha mulher, acudiu Cristiano. Rubio inclinou-se
respeitosamente; e, voltando-se para o marido, disse-lhe sorrindo:

 Mas no me apresenta
a mim?

Palha sorriu tambm;
entendeu que nenhum deles sabia o nome um do outro, e deu-se pressa em dizer o
seu.

 Cristiano de Almeida
e Palha.

 Pedro Rubio de
Alvarenga; mas Rubio  como todos me chamam.

A troca dos nomes
p-los ainda mais a gosto. Sofia no interveio, porm, na conversa; afrouxou a
rdea aos olhos, que se deixaram ir ao sabor de si mesmos. Rubio falava,
risonho, e ouvia atento as palavras do Palha, agradecido da amizade com que o
tratava um moo que ele nunca tinha visto. Chegou a dizer-lhe que bem podiam ir
juntos  Europa.

 Oh! eu no poderei ir
nestes primeiros anos, respondeu o Palha.

 Tambm no digo j;
eu no irei to cedo. O desejo que me deu, quando sa de Barbacena, foi simples
desejo, sem prazo; irei, no h dvida, mas l para diante, quando Deus quiser.

Palha acudiu,
rpido:

 Ah! eu, quando digo
que s daqui a anos, acrescento tambm que a vontade de Deus pode ordenar o
contrrio. Quem sabe se daqui a meses? A Divina Providncia  que manda o
melhor.

O gesto que acompanhou
estas palavras era convicto e pio; mas nem Sofia o viu (olhava para os ps), nem
o prprio Rubio escutou as ltimas palavras. O nosso amigo estava morto por
dizer a causa que o trazia  capital. Tinha a boca cheia da confidncia, prestes
a entorn-la no ouvido do companheiro de viagem,  e s por um resto de
escrpulo, j frouxo,  que ainda a retinha. E por que ret-la, se no era
crime, e ia ser caso pblico?

 Tenho de cuidar
primeiro de um inventrio, murmurou finalmente.

 O senhor seu pai?

 No; um amigo. Um
grande amigo, que se lembrou de fazer-me seu herdeiro universal.

 Ah!

 Universal. Creia que
h amigos neste mundo; como aquele, poucos. Aquilo era ouro. E que cabea! que
inteligncia! que instruo! Viveu doente os ltimos tempos, donde lhe veio
alguma impertinncia, alguns caprichos. Sabe, no? rico e doente, sem famlia,
tinha naturalmente exigncias... Mas ouro puro, ouro de lei. Aquilo quando
estimava, estimava de uma vez. ramos amigos, e no me disse nada. Vai um dia,
quando morreu, abriu-se o testamento, e achei-me com tudo.  verdade. Herdeiro
universal! Olhe que no h uma deixa no testamento para outra pessoa. Tambm no
tinha parente. O nico parente que teria, seria eu, se ele chegasse a casar com
uma irm minha, que morreu, coitada! Fiquei s amigo; mas, ele soube ser amigo,
no acha?

 Seguramente, afirmou
o Palha.

J os olhos deste no
brilhavam, refletiam profundamente. Rubio metera-se por um mato cerrado, onde
lhe cantavam todos os passarinhos da fortuna; regalava-se em falar da herana;
confessou que no sabia ainda a soma total, mas podia calcular por longe...

 O melhor  no
calcular nada, atalhou Cristiano. Nunca ser menos de cem contos?

 Upa!

 Pois da para cima, 
esperar calado. E outra coisa...

 Creio que no menos
de trezentos...

 Outra coisa. No
repita o seu caso a pessoas estranhas. Agradeo-lhe a confiana que lhe mereci,
mas no se exponha ao primeiro encontro. Discrio e caras serviais nem sempre
andam juntas.

CAPTULO XXII

Chegados  estao da
Corte, despediram-se quase familiarmente. Palha ofereceu a sua casa em Santa
Teresa; o ex-professor ia para a Hospedaria Unio, e prometeram visitar-se.

CAPTULO XXIII

No dia seguinte, estava
Rubio ansioso por ter ao p de si o recente amigo da estrada de ferro, e
determinou ir a SantaTeresa,  tarde; mas foi o prprio Palha que o procurou
logo de manh. Ia cumpriment-lo, ver se estava bem ali, ou se preferia a casa
dele, que ficava no alto. Rubio no aceitou a casa, mas aceitou o advogado, um
contraparente do Palha, que este lhe indicou, como um dos primeiros, apesar de
muito moo.

  aproveit-lo,
enquanto ele no exige que lhe paguem a fama.

Rubio f-lo almoar, e
acompanhou-o ao escritrio do advogado, apesar dos protestos do co, que queria
ir tambm. Tudo se ajustou.

 V jantar logo
comigo, em Santa Teresa, disse o Palha ao despedir-se. No tem que hesitar, l o
espero, concluiu retirando-se.

CAPTULO XXIV

Rubio tinha vexame,
por causa de Sofia; no sabia haver-se com senhoras. Felizmente, lembrou-se da
promessa que a si mesmo fizera de ser forte e implacvel. Foi jantar. Abenoada
resoluo! Onde acharia iguais horas? Sofia era, em casa, muito melhor que no
trem de ferro. L vestia a capa, embora tivesse os olhos descobertos; c trazia
 vista os olhos e o corpo, elegantemente apertado em um vestido de cambraia,
mostrando as mos que eram bonitas, e um princpio de brao. Demais, aqui era a
dona da casa, falava mais, desfazia-se em obsquios; Rubio desceu meio tonto.

CAPTULO XXV

Jantou l muitas vezes.
Era tmido e acanhado. A freqncia atenuou a impresso dos primeiros dias. Mas
trazia sempre guardado, e mal guardado, certo fogo particular, que ele no podia
extinguir. Enquanto durou o inventrio, e principalmente a denncia dada por
algum contra o testamento, alegando que o Quincas Borba, por manifesta
demncia, no podia testar, o nosso Rubio distraiu-se; mas a denncia foi
destruda, e o inventrio caminhou rapidamente para a concluso. Palha festejou
o acontecimento com um jantar em que tomaram parte, alm dos trs, o advogado, o
procurador e o escrivo. Sofia tinha nesse dia os mais belos olhos do mundo.

CAPTULO XXVI

 Parece que ela os
compra em alguma fbrica misteriosa, pensou Rubio, descendo o morro; nunca os
vi como hoje.

Seguiu-se a mudana
para a casa de Botafogo, uma das herdadas; foi preciso alfai-la, e ainda aqui o
amigo Palha prestou grandes servios ao Rubio, guiando-o com o gosto, com a
notcia, acompanhando-o s lojas e leiles. s vezes, como j sabemos, iam os
trs; porque h coisas, dizia graciosamente Sofia, que s uma senhora escolhe
bem. Rubio aceitava agradecido, e demorava o mais que podia as compras,
consultando sem propsito, inventando necessidades, tudo para ter mais tempo a
moa ao p de si. Esta deixava-se estar, falando, explicando, demonstrando.

CAPTULO XXVII

Tudo isso passava agora
pela cabea do Rubio, depois do caf, no mesmo lugar em que o deixamos sentado,
a olhar para longe, muito longe. Continuava a bater com as borlas do chambre.
Afinal lembrou-se de ir ver o Quincas Borba, e solt-lo. Era a sua obrigao de
todos os dias. Levantou-se e foi ao jardim, ao fundo.

CAPTULO XXVIII

 Mas que pecado  este
que me persegue? pensava ele andando. Ela  casada, d-se bem com o marido, o
marido  meu amigo, tem-me confiana, como ningum... Que tentaes so
estas?

Parava, e as tentaes
paravam tambm. Ele, um Santo Anto leigo, diferenava-se do anacoreta em amar
as sugestes do diabo, uma vez que teimassem muito. Da a alternao dos
monlogos:

  to bonita! e
parece querer-me tanto! Se aquilo no  gostar, no sei o que seja gostar.
Aperta-me a mo com tanto agrado, com tanto calor... No posso afastar-me; ainda
que eles me deixem, eu  que no resisto.

Quincas Borba
sentiu-lhe os passos, e comeou a latir. Rubio deu-se pressa em solt-lo; era
soltar-se a si mesmo por alguns instantes daquela perseguio.

 Quincas Borba!
exclamou, abrindo-lhe a porta.

O co atirou-se fora.
Que alegria! que entusiasmo! que saltos em volta do amo! chega a lamber-lhe a
mo de contente, mas Rubio d-lhe um tabefe, que lhe di; ele recua um pouco,
triste, com a cauda entre as pernas; depois o senhor d um estalinho com os
dedos, e ei-lo que volta novamente com a mesma alegria.

 Sossega! sossega!

Quincas Borba vai atrs
dele pelo jardim fora, contorna a casa, ora andando, ora aos saltos. Saboreia a
liberdade, mas no perde o amo de vista. Aqui fareja, ali pra a coar uma
orelha, acol cata uma pulga na barriga, mas de um salto galga o espao e o
tempo perdido, e cose-se outra vez com os calcanhares do senhor. Parece-lhe que
Rubio no pensa em outra coisa, que anda agora de um lado para outro unicamente
para faz-lo andar tambm, e recuperar o tempo em que esteve retido. Quando
Rubio estaca, ele olha para cima,  espera; naturalmente, cuida dele;  algum
projeto, sarem juntos ou coisa assim agradvel. No lhe lembra nunca a
possibilidade de um pontap ou de um tabefe. Tem o sentimento da confiana, e
muito curta a memria das pancadas. Ao contrrio, os afagos ficam-lhe impressos
e fixos, por mais distrados que sejam. Gosta de ser amado. Contenta-se de crer
que o .

A vida ali no 
completamente boa nem completamente m. H um moleque que o lava todos os dias
em gua fria, usana do diabo, a que ele se no acostuma. Jean, o cozinheiro,
gosta do co, o criado espanhol no gosta nada. Rubio passa muitas horas fora
de casa, mas no o trata mal, e consente que v acima, que assista ao almoo e
ao jantar, que o acompanhe  sala ou ao gabinete. Brinca s vezes com ele; f-lo
pular. Se chegam visitas de alguma cerimnia, manda-o levar para dentro ou para
baixo e, resistindo ele sempre, o espanhol toma-o a princpio com muita
delicadeza, mas vinga-se da a pouco, arrastando-o por uma orelha ou por uma
perna, atira-o ao longe, e fecha-lhe todas as comunicaes com a casa:

 Perro del
infierno!

Machucado, separado do
amigo, Quincas Borba vai ento deitar-se a um canto, e fica ali muito tempo,
calado; agita-se um pouco, at que acha posio definitiva, e cerra os olhos.
No dorme, recolhe as idias, combina, relembra; a figura vaga do finado amigo
passa-lhe acaso ao longe, muito ao longe, aos pedaos, depois mistura-se  do
amigo atual, e parecem ambas uma s pessoa; depois outras idias...

Mas j so muitas
idias,  so idias demais; em todo caso so idias de cachorro, poeira de
idias,  menos ainda que poeira, explicar o leitor. Mas a verdade  que este
olho que se abre de quando em quando para fixar o espao, to expressivamente,
parece traduzir alguma coisa, que brilha l dentro, l muito ao fundo de outra
coisa que no sei como diga, para exprimir uma parte canina, que no  a cauda
nem as orelhas. Pobre lngua humana!

Afinal adormece. Ento
as imagens da vida brincam nele, em sonho, vagas, recentes, farrapo daqui
remendo dali. Quando acorda, esqueceu o mal; tem em si uma expresso, que no
digo seja melancolia, para no agravar o leitor. Diz-se de uma paisagem que 
melanclica, mas no se diz igual coisa de um co. A razo no pode ser outra
seno que a melancolia da paisagem est em ns mesmos, enquanto que atribu-la
ao co  deix-la fora de ns. Seja o que for,  alguma coisa que no a alegria
de h pouco; mas venha um assobio do cozinheiro, ou um gesto do senhor, e l vai
tudo embora, os olhos brilham, o prazer arregaa-lhe o focinho, e as pernas voam
que parecem asas.

CAPTULO XXIX

Rubio passou o resto
da manh alegremente. Era domingo; dois amigos vieram almoar com ele, um rapaz
de vinte e quatro anos, que roa as primeiras aparas dos bens da me, e um homem
de quarenta e quatro ou quarenta e seis, que no tinha que roer.

Carlos Maria chamava-se
o primeiro, Freitas o segundo. Rubio gostava de ambos, mas diferentemente; no
era s a idade que o ligava mais ao Freitas, era tambm a ndole deste homem.
Freitas elogiava tudo, saudava cada prato e cada vinho com uma frase particular,
delicada, e saa de l com as algibeiras cheias de charutos, provando assim que
os preferia a quaisquer outros. Tinha-lhe sido apresentado em certo armazm da
Rua Municipal, onde jantaram uma vez juntos. Contaram-lhe ali a histria do
homem, a sua boa e m fortuna, mas no entraram em particularidades. Rubio
torceu o nariz; era naturalmente algum nufrago, cuja convivncia no lhe traria
nenhum prazer pessoal nem considerao pblica. Mas o Freitas atenuou logo essa
primeira impresso; era vivo, interessante, anedtico, alegre como um homem que
tivesse cinqenta contos de renda. Como Rubio falasse das bonitas rosas que
possua, ele pediu-lhe licena para ir v-las: era doido por flores. Poucos dias
depois apareceu l, disse que ia ver as belas rosas, eram poucos minutos, no se
incomodasse o Rubio, se tinha que fazer. Rubio, ao contrrio, gostou de ver
que o homem no se esquecera da conversao, desceu ao jardim onde ele ficara
esperando, e foi mostrar-lhe as rosas. Freitas achou-as admirveis; examinava-as
com tal afinco que era preciso arranc-lo de uma roseira para lev-lo a outra.
Sabia o nome de todas, e ia apontando muitas espcies que o Rubio no tinha nem
conhecia,  apontando e descrevendo, assim e assim, deste tamanho (indicava o
tamanho abrindo e arredondando o dedo polegar e o ndex), e depois nomeava as
pessoas que possuam bons exemplares. Mas as do Rubio eram das melhores
espcies; esta, por exemplo, era rara, e aquela tambm, etc. O jardineiro
ouvia-o com espanto. Tudo examinado, disse Rubio:

 Venha tomar alguma
coisa. Que h de ser?

Freitas contentou-se
com qualquer coisa. Chegando acima, achou a casa muito bem posta. Examinou os
bronzes, os quadros, os mveis, olhou para o mar.

 Sim, senhor! disse
ele, o senhor vive como um fidalgo.

Rubio sorriu; fidalgo,
ainda por comparao,  palavra que se ouve bem. Veio o criado espanhol com a
bandeja de prata, vrios licores, e clices, e foi um bom momento para Rubio.
Ofereceu, ele mesmo, este ou aquele licor; recomendou afinal um que lhe deram
como superior a tudo que, em tal ramo, poderia existir no mercado. Freitas
sorriu incrdulo.

 Talvez seja
encarecimento, disse ele.

Tomou o primeiro trago,
saboreou-o devagar, depois segundo, depois terceiro. No fim, pasmado, confessou
que era um primor. Onde  que comprara aquilo? Rubio respondeu que um amigo,
dono de um grande armazm de vinhos, o presenteara com uma garrafa; ele, porm,
gostou tanto que j encomendara trs dzias. No tardou que se estreitassem as
relaes. E o Freitas vai ali almoar ou jantar muitas vezes,  mais vezes ainda
do que quer ou pode,  porque  difcil resistir a um homem to obsequioso, to
amigo de ver caras amigas.

CAPTULO XXX

Rubio perguntou-lhe
uma vez:

 Diga-me, Sr. Freitas,
se me desse na cabea ir  Europa, o senhor era capaz de acompanhar-me?

 No.

 Por que no?

 Porque eu sou amigo
livre, e bem podia ser que discordssemos logo no itinerrio.

 Pois tenho pena,
porque o senhor  alegre.

 Engana-se, senhor;
trago esta mscara risonha, mas eu sou triste. Sou um arquiteto de runas. Iria
primeiro s runas de Atenas; depois ao teatro, ver o Pobre das Runas,
um drama de lgrimas; depois, aos tribunais de falncias, onde os homens
arruinados...

E Rubio ria-se;
gostava daqueles modos expansivos e francos.

CAPTULO XXXI

Queres o avesso disso,
leitor curioso? V este outro convidado para o almoo, Carlos Maria. Se aquele
tem os modos "expansivos e francos,  no bom sentido laudatrio,  claro  que
ele os tem contrrios. Assim, no te custar nada v-lo entrar na sala, lento,
frio e superior, ser apresentado ao Freitas, olhando para outra parte. Freitas
que j o mandou cordialmente ao diabo por causa da demora ( perto do meio-dia),
corteja-o agora rasgadamente, com grandes aleluias ntimas.

Tambm podes ver por ti
mesmo que o nosso Rubio, se gosta mais do Freitas, tem o outro em maior
considerao; esperou-o at agora, e esper-lo-ia at amanh. Carlos Maria  que
no tem considerao a nenhum deles. Examinai-o bem;  um galhardo rapaz de
olhos grandes e plcidos, muito senhor de si, ainda mais senhor dos outros. Olha
de cima; no tem o riso jovial, mas escarninho. Agora, ao sentar-se  mesa, ao
pegar no talher, ao abrir o guardanapo, em tudo se v que ele est fazendo um
insigne favor ao dono da casa,  talvez dois,  o de lhe comer o almoo, e o de
lhe no chamar pasccio.

E, malgrado essa
disparidade de caracteres, o almoo foi alegre. Freitas devorava, com alguma
pausa  certo,  e confessando a si mesmo que o almoo, se tivesse vindo  hora
marcada (onze) talvez no trouxesse o mesmo sabor. Agora orava pelos primeiros
bocados que acodem  fome do nufrago. Ao cabo de uns dez minutos, pde comear
a falar, cheio de riso, multiplicando-se em gestos e olhares, desfiando um
rosrio de ditos agudos e anedotas picarescas. Carlos Maria ouviu a maior parte
deles com seriedade, para humilh-lo, a ponto que Rubio, que realmente achava
graa no Freitas, j no ousava rir. Para o fim do almoo, Carlos Maria afrouxou
um tanto a gravata do esprito, expandiu-se, referiu algumas aventuras amorosas
de outros; Freitas, para lisonje-lo, pediu-lhe uma ou duas dele mesmo. Carlos
Maria estourou de riso.

 Que papel quer o
senhor que eu faa? disse ele.

Freitas explicou-se;
no era uma apologia, eram fatos, pedia-lhe fatos; no havia inconveniente, nem
ningum era capaz de supor...

 O senhor d-se bem
com a residncia aqui em Botafogo? interrompeu Carlos Maria dirigindo-se ao dono
da casa.

Freitas, interrompido,
mordeu os beios, e, pela segunda vez, mandou o moo ao diabo. Colou-se ao
espaldar, teso, grave, olhando para um painel da parede. Rubio respondeu que se
dava bem, que a praia era linda.

 A vista  bonita, mas
nunca pude tolerar o mau cheiro que h aqui, em certas ocasies, disse Carlos
Maria. Que lhe parece? continuou voltando-se para o Freitas.

Freitas desencostou-se,
e disse tudo o que pensava, que um e outro podiam ter razo; mas insistiu em que
a praia, a despeito de tudo, era magnfica; discorreu sem amuo, nem vexame; fez
at o obsquio de chamar a ateno do Carlos Maria para um pedacinho de fruta
que lhe ficara na ponta do bigode.

Chegaram ao fim, era
pouco mais de uma hora. Rubio, calado, recompunha mentalmente o almoo, prato a
prato, via com gosto os copos e os seus resduos de vinho, as migalhas esparsas,
o aspecto final da mesa, em vsperas de caf. De quando em quando dava um olhar
 casaca do criado. Chegou a apanhar o rosto de Carlos Maria em flagrante
prazer, quando tirava as primeiras fumaas de um dos charutos que ele mandara
distribuir. Nisto entrou o criado com uma cestinha coberta por um leno de
cambraia, e uma carta, que acabavam de trazer.

CAPTULO XXXII

 Quem  que manda
isto? perguntou Rubio.

 D. Sofia.

Rubio no conhecia a
letra; era a primeira vez que ela lhe escrevia Que podia ser? Via-se-lhe a
comoo no rosto e nos dedos. Enquanto ele abria a carta, Freitas familiarmente
descobria a cestinha: eram morangos. Rubio leu trmulo estas linhas:

Mando-lhe estas
frutinhas para o almoo, se chegarem a tempo; e, por ordem do Cristiano, fica
intimado a vir jantar conosco, hoje, sem falta. Sua verdadeira amiga

SOFIA.

 Que frutas so?
perguntou Rubio fechando a carta.

 Morangos.

 Chegaram tarde.
Morangos? repetiu ele sem saber o que dizia.

 No  preciso corar,
meu caro amigo, disse-lhe rindo o Freitas, logo que o criado saiu. Estas coisas
acontecem a quem ama...

 A quem ama? repetiu
Rubio corando deveras. Mas, pode ler a carta, veja...

Ia mostr-la, recuou e
meteu-a no bolso. Estava fora de si, meio confuso, meio alegre; Carlos Maria
deleitou-se em dizer-lhe que ele no podia encobrir que o mimo era de alguma
namorada. E no achava que repreender; o amor era lei universal: se era alguma
senhora casada, louvava-lhe a discrio...

 Mas pelo amor de
Deus! interrompeu o anfitrio.

 Viva? Estamos no
mesmo caso, continuou Carlos Maria; a discrio aqui  ainda um merecimento. O
maior pecado, depois do pecado,  a publicao do pecado. Eu, se fosse
legislador, propunha que se queimassem todos os homens convencidos de
indiscrio nestas matrias; e haviam de ir para a fogueira, como os rus da
Inquisio, com a diferena que, em vez de sambenito, levariam uma capa de penas
de papagaio...

Freitas no podia
ter-se com riso e batia na mesa,  maneira de aplauso; Rubio, meio enfiado,
acudia que no era casada nem viva...

 Solteira ento?
replicou o moo. Um casrio em breve? V, que  tempo. Morangos de noivado,
continuou, pegando alguns entre os dedos. Cheiram a alcova de donzela e a latim
de padre.

Rubio no sabia mais
que dissesse; afinal tornou atrs e explicou-se; eram da senhora de um seu amigo
particular. Carlos Maria piscou o olho; Freitas interveio dizendo que, agora,
sim senhor, estava explicado; mas que, a princpio, o mistrio, o arranjo da
cestinha, o ar dos prprios morangos,  morangos adlteros, disse ele, rindo 
todas essas coisas davam ao negcio um aspecto imoral e pecaminoso; mas tudo
ficara acabado.

Tomaram em silncio o
caf; depois passaram  sala. Rubio desfazia-se em obsquios, mas preocupado.
Corridos alguns minutos, estava satisfeito com a primeira suposio dos dois
convivas: a de um amor adltero; achou at que se defendera com demasiado calor.
Uma vez que no dissesse o nome de ningum, podia ter confessado que era, em
verdade, um negcio ntimo. Mas tambm podia acontecer que o prprio calor da
negativa deixasse alguma dvida no nimo dos dois, alguma suspeita... Aqui
sorriu consolado.

Carlos Maria consultou
o relgio; eram duas horas, ia-se embora. Rubio agradeceu-lhe muito e muito o
obsquio e pediu-lhe que repetisse; podiam passar alguns domingos assim em boa
palestra amigvel.

 Apoiado! bradou
Freitas aproximando-se.

Tinha metido meia dzia
de charutos no bolso, e, ao sair, disse ao ouvido do Rubio:

 C vai a lembrana do
costume; seis dias de delcias, uma delcia por dia.

 Leve mais.

 No; virei busc-los
depois.

Rubio acompanhou-os ao
porto de ferro. Quincas Borba, logo que ouviu vozes, correu do fundo do jardim
e veio saud-los, particularmente ao senhor; fez festas a Carlos Maria, quis
lamber-lhe a mo; o rapaz afastou-se com repugnncia. Rubio deu um pontap no
cachorro, que o fez gritar e fugir. Afinal despediram-se todos.

 O senhor para onde
vai? perguntou Carlos Maria ao Freitas.

Freitas calculou que
ele iria a alguma visita para os lados de So Clemente, e quis acompanh-lo.

 Vou at o fim da
praia, disse.

 Eu volto para trs,
tornou o outro.

CAPTULO XXXIII

Rubio viu-os ir,
entrou, meteu-se na sala, e ainda uma vez leu o bilhete de Sofia. Cada palavra
dessa pgina inesperada era um mistrio; a assinatura uma capitulao.
Sofia apenas; nenhum outro nome da famlia ou do casal. Verdadeira
amiga era evidentemente uma metfora. Quanto s primeiras palavras:
Mando-lhe estas frutinhas para o almoo respiravam a candidez de uma alma
boa e generosa. Rubio viu, sentiu, palpou tudo pela nica fora do instinto e
deu por si beijando o papel,  digo mal, beijando o nome, o nome dado na pia de
batismo, repetido pela me, entregue ao marido como parte da escritura moral do
casamento, e agora roubado a todas essas origens e posses para lhe ser mandado a
ele, no fim duma folha de papel... Sofia! Sofia! Sofia!

CAPTULO XXXIV

 Por que veio to
tarde? perguntou-lhe Sofia, logo que ele apareceu  porta do jardim, em Santa
Teresa.

 Depois do almoo, que
acabou s duas horas, estive arranjando uns papis. Mas no  to tarde assim,
continuou Rubio vendo o relgio; so quatro horas e meia.

 Sempre  tarde para
os amigos, replicou Sofia em ar de censura.

Rubio caiu em si; mas
no teve tempo de emendar a mo. Diante dele, ao p da casa, estavam sentadas em
bancos de ferro umas quatro senhoras, caladas, olhando para ele, curiosas; eram
visitas de Sofia que esperavam a vinda de um capitalista Rubio. Sofia foi
apresent-lo a elas. Trs delas eram casadas, uma solteira, ou mais que
solteira. Contava trinta e nove anos, e uns olhos pretos, cansados de esperar.
Era filha de um Major Siqueira, que da a alguns minutos apareceu no jardim.

 O nosso Palha j me
tinha falado em Vossa Excelncia, disse o major depois de apresentado ao Rubio.
Juro que  seu amigo s direitas. Contou-me o acaso que os ligou. Geralmente, as
melhores amizades so essas. Eu, em trinta e tantos, pouco antes da Maioridade,
tive um amigo, o melhor dos meus amigos daquele tempo, que conheci assim por um
acaso, na botica do Bernardes, por alcunha o Joo das pantorrilhas...
Creio que usou delas, em rapaz, entre 1801 e 1812. O certo  que a alcunha
ficou. A botica era na Rua de So Jos, ao desembocar na da Misericrdia...
Joo das pantorrilhas... Sabe que era um modo de engrossar a perna...
Bernardes era o nome dele, Joo Alves Bernardes... Tinha a botica na Rua de So
Jos. Conversava-se ali muito,  tarde, e  noite. Ia a gente com o seu capote,
e bengalo; alguns levavam lanterna. Eu no; levava s o meu capote... Ia-se de
capote; o Bernardes,  Joo Alves Bernardes era o nome todo dele  era filho de
Maric, mas criou-se aqui no Rio de Janeiro... Joo das pantorrilhas era
a alcunha; diziam que ele andara de pantorrilhas, em rapaz, e parece que foi um
dos petimetres da cidade. Nunca me esqueci: Joo das pantorrilhas...
Ia-se de capote...

A alma do Rubio
bracejava debaixo deste aguaceiro de palavras; mas, estava num beco sem sada
por um lado nem por outro. Tudo muralhas. Nenhuma porta aberta, nenhum corredor,
e a chuva a cair. Se pudesse olhar para as moas veria, ao menos, que era objeto
de curiosidade de todas, principalmente da filha do major, D. Tonica; mas no
podia: escutava, e o major chovia a cntaros. Foi o Palha que lhe trouxe um
guarda-chuva. Sofia tinha ido dizer ao marido que o Rubio acabara de chegar;
da a nada estava o Palha no jardim, e saudava o amigo, dizendo-lhe que viera
tarde. O major, que explicava ainda uma vez a alcunha do boticrio, abandonou a
presa, e foi ter com as moas; depois saiu  rua.

CAPTULO XXXV

As senhoras casadas
eram bonitas; a mesma solteira no devia ter sido feia, aos vinte e cinco anos;
mas Sofia primava entre todas elas.

No seria tudo o que o
nosso amigo sentia, mas era muito. Era daquela casta de mulheres que o tempo,
como um escultor vagaroso, no acaba logo, e vai polindo ao passar dos longos
dias. Essas esculturas lentas so miraculosas; Sofia rastejava os vinte e oito
anos; estava mais bela que aos vinte e sete; era de supor que s aos trinta
desse o escultor os ltimos retoques, se no quisesse prolongar ainda o
trabalho, por dois ou trs anos.

Os olhos, por exemplo,
no so os mesmos da estrada de ferro, quando o nosso Rubio falava com o Palha,
e eles iam sublinhando a conversao... Agora, parecem mais negros, e j no
sublinham nada; compem logo as coisas, por si mesmos, em letra vistosa e gorda,
e no  uma linha nem duas, so captulos inteiros. A boca parece mais fresca.
Ombros, mos, braos, so melhores, e ela ainda os faz timos por meio de
atitudes e gestos escolhidos. Uma feio que a dona nunca pde suportar,  coisa
que o prprio Rubio achou a princpio que destoava do resto da cara,  o
excesso de sobrancelhas,  isso mesmo, sem ter diminudo, como que lhe d ao
todo um aspecto muito particular.

Traja bem; comprime a
cintura e o tronco no corpinho de l fina cor de castanha, obra simples, e traz
nas orelhas duas prolas verdadeiras,  mimo que o nosso Rubio lhe deu pela
Pscoa.

A bela dama  filha de
um velho funcionrio pblico. Casou aos vinte anos com este Cristiano de Almeida
e Palha, zango da praa, que ento contava vinte e cinco. O marido ganhava
dinheiro, era jeitoso, ativo, e tinha o faro dos negcios e das situaes. Em
1864, apesar de recente no ofcio, adivinhou,  no se pode empregar outro
termo,  adivinhou as falncias bancrias.

 Ns temos coisa, mais
dia menos dia; isto anda por arames. O menor brado de alarme leva tudo.

O pior  que ele
despendia todo o ganho e mais. Era dado  boa-chira; reunies freqentes,
vestidos caros e jias para a mulher, adornos de casa, mormente se eram de
inveno ou adoo recente,  levavam-lhe os lucros presentes e futuros. Salvo
em comidas, era escasso consigo mesmo. Ia muita vez ao teatro sem gostar dele, e
a bailes, em que se divertia um pouco,  mas ia menos por si que para aparecer
com os olhos da mulher, os olhos e os seios. Tinha essa vaidade singular;
decotava a mulher sempre que podia, e at onde no podia, para mostrar aos
outros as suas venturas particulares. Era assim um rei Candaules, mais restrito
por um lado, e, por outro, mais pblico.

E aqui faamos justia
 nossa dama. A princpio, cedeu sem vontade aos desejos do marido; mas tais
foram as admiraes colhidas, e a tal ponto o uso acomoda a gente s
circunstncias, que ela acabou gostando de ser vista, muito vista, para recreio
e estmulo dos outros. No a faamos mais santa do que , nem menos. Para as
despesas da vaidade, bastavam-lhe os olhos, que eram ridentes, inquietos,
convidativos, e s convidativos: podemos compar-los  lanterna de uma
hospedaria em que no houvesse cmodos para hspedes. A lanterna fazia parar
toda a gente, tal era a lindeza da cor, e a originalidade dos emblemas; parava,
olhava e andava. Para que escancarar as janelas? Escancarou-as, finalmente; mas
a porta, se assim podemos chamar ao corao, essa estava trancada e retrancada.

CAPTULO XXXVI

 Meu Deus! como 
bonita! Sinto-me capaz de fazer um escndalo! pensava Rubio,  noite, ao canto
de uma janela, de costas para fora, olhando para Sofia, que olhava para ele.

Cantava uma senhora. Os
trs maridos de fora, que ali estavam de visita, interromperam o voltarete, em
ateno  cantora, e vieram  sala, por alguns instantes; a cantora era mulher
de um deles. Palha, que a acompanhava ao piano, no via a contemplao mtua da
esposa e do capitalista. No sei se todas as outras pessoas estavam no mesmo
caso. Uma delas, sim, essa sei que os via: D. Tonica, a filha do major.

 Meu Deus! como 
bonita! Sinto-me capaz de fazer um escndalo! continuava a pensar o Rubio,
encostado  janela, de costas para fora, com os olhos esquecidos na bela dama,
que olhava para ele.

CAPTULO XXXVII

Entende-se bem que D.
Tonica observasse a contemplao dos dois. Desde que Rubio ali chegou, no
cuidou ela mais que de atra-lo. Os seus pobres olhos de trinta e nove anos,
olhos sem parceiros na terra, indo j a resvalar do cansao na desesperana,
acharam em si algumas fagulhas. Volv-los uma e muitas vezes, requebrando-os,
era o longo ofcio dela. No lhe custou nada arm-los contra o capitalista.

O corao, meio
desenganado, agitou-se outra vez. Alguma coisa lhe dizia que esse mineiro rico
era destinado pelo Cu a resolver o problema do matrimnio. Rico era ainda mais
do que ela pedia; no pedia riquezas, pedia um esposo. Todas as suas campanhas
fizeram-se sem a considerao pecuniria; nos ltimos tempos ia baixando,
baixando, baixando; a ltima foi contra um estudantinho pobre... Mas quem sabe
se o Cu no lhe destinava justamente um homem rico? D. Tonica tinha f em sua
madrinha, Nossa Senhora da Conceio, e investiu a fortaleza com muita arte e
valor.

 Todas as outras so
casadas, pensou ela.

No tardou em perceber
que os olhos de Rubio e os de Sofia caminhavam uns para os outros; notou,
porm, que os de Sofia eram menos freqentes e menos demorados, fenmeno que lhe
pareceu explicvel, pelas cautelas naturais da situao. Podia ser que se
amassem... Esta suspeita afligiu-a; mas o desejo e a esperana mostraram-lhe que
um homem, depois de um ou mais amores, podia muito bem vir a casar. A questo
era capt-lo; a perspectiva de casar e ter famlia podia ser que acabasse de
matar qualquer outra inclinao da parte dele, se alguma houvesse.

Ei-la que redobra
esforos. Todas as suas graas foram chamadas a postos, e obedeceram, ainda que
murchas. Gestos de ventarola, apertos de lbios, olhos oblquos, marchas,
contramarchas para mostrar bem a elegncia do corpo e a cintura fina que tinha,
tudo foi empregado. Era o velho formulrio em ao; nada lhe rendera at ali,
mas a loteria  assim mesmo; l vem um bilhete que resgata os perdidos.

Agora, porm,  noite,
por ocasio do canto ao piano,  que D. Tonica deu com eles embebidos um no
outro. No teve mais dvida; no eram olhares aparentemente fortuitos, breves,
como at ali, era uma contemplao que eliminava o resto da sala. D.Tonica
sentiu o grasnar do velho corvo da desesperana. Quoth the Raven: NEVER
MORE.

Ainda assim continuou a
luta; chegou a conseguir que Rubio viesse sentar-se ao p dela, por alguns
minutos, e tratou de dizer coisas bonitas, frases que lhe ficaram de romances,
outras que a prpria melancolia da situao lhe ia inspirando. Rubio ouvia e
respondia, mas inquieto, quando Sofia deixava a sala, e no menos quando tornava
a ela. Uma das vezes a distrao foi excessiva. D. Tonica confessava-lhe que
tinha muita vontade de ver Minas, principalmente Barbacena. Que tais eram os
ares?

 Os ares, repetiu
maquinalmente o outro.

Olhava para Sofia, que
estava ento em p, de costas para ele, falando a duas senhoras sentadas. Rubio
admirou-lhe ainda uma vez a figura, o busto bem talhado, estreito embaixo, largo
em cima, emergindo das cadeiras amplas, como uma grande braada de folhas sai de
dentro de um vaso. A cabea podia ento dizer-se que era como uma magnlia
nica, direita, espetada no centro do ramo. Era isto que Rubio mirava, quando
D. Tonica lhe perguntou pelos ares de Barbacena, e ele repetiu a palavra dela,
sem lhe dar sequer a mesma forma interrogativa.

CAPTULO XXXVIII

Rubio estava resoluto.
Nunca a alma de Sofia pareceu convidar a dele, com tamanha instncia, a voarem
juntas at s terras clandestinas, donde elas tornam, em geral, velhas e
cansadas. Algumas no tornam. Outras param a meio caminho. Grande nmero no
passa da beira dos telhados...

CAPTULO XXXIX

A lua era magnfica. No
morro, entre o cu e a plancie, a alma menos audaciosa era capaz de ir contra
um exrcito inimigo, e destro-lo. Vede o que no seria com este exrcito
amigo. Estavam no jardim. Sofia enfiara o brao no dele, para irem ver a lua.
Convidara D. Tonica, mas a pobre dama respondeu que tinha um p dormente, que j
ia, e no foi.

Os dois ficaram calados
algum tempo. Pelas janelas abertas viam-se as outras pessoas conversando, e at
os homens, que tinham acabado o voltarete. O jardim era pequeno; mas a voz
humana tem todas as notas, e os dois podiam dizer poemas sem ser ouvidos.

Rubio lembrou-se de
uma comparao velha, muito velha, apanhada em no sei que dcima de 1850, ou de
qualquer outra pgina em prosa de todos os tempos. Chamou aos olhos de Sofia as
estrelas da terra, e s estrelas os olhos do cu. Tudo isso baixinho e trmulo.

Sofia ficou pasmada. De
sbito endireitou o corpo, que at ali viera pesando no brao do Rubio. Estava
to acostumada  timidez do homem... Estrelas? olhos? Quis dizer que no
caoasse com ela, mas no achou como dar forma  resposta, sem rejeitar uma
convico que tambm era sua, ou ento sem anim-lo a ir adiante. Da um longo
silncio.

 Com uma diferena,
continuou Rubio. As estrelas so ainda menos lindas que os seus olhos, e afinal
nem sei mesmo o que elas sejam; Deus, que as ps to alto,  porque no podero
ser vistas de perto, sem perder muito da formosura... Mas os seus olhos, no;
esto aqui, ao p de mim, grandes, luminosos, mais luminosos que o cu...

Loquaz, destemido,
Rubio parecia totalmente outro. No parou ali; falou ainda muito, mas no
deixou o mesmo crculo de idias. Tinha poucas; e a situao, apesar da
repentina mudana do homem, tendia antes a cerce-las, que a inspirar-lhe novas.
Sofia  que no sabia que fizesse. Trouxera ao colo um pombinho, manso e quieto,
e sai-lhe um gavio,  um gavio adunco e faminto.

Era preciso responder,
faz-lo parar, dizer que ia por onde ela no queria ir, e tudo isso, sem que ele
se zangasse, sem que se fosse embora... Sofia procurava alguma coisa; no
achava, porque esbarrava na questo, para ela insolvel: se era melhor mostrar
que entendia, ou que no entendia. Aqui lembraram-lhe os prprios gestos dela,
as palavrinhas doces, as atenes particulares; conclua que, em tal situao,
no podia ignorar o sentido das finezas do homem. Mas confessar que entendia, e
no despedi-lo de casa, eis a o ponto melindroso.

CAPTULO XL

Em cima, as estrelas
pareciam rir daquela situao inextricvel.

 V que a lua os
visse! A lua no sabe escarnecer; e os poetas, que a acham saudosa, tero
percebido que ela amou outrora algum astro vagabundo, que a deixou ao cabo de
muitos sculos. Pode ser at que ainda se amem. Os seus eclipses (perdoe-me a
astronomia) talvez no sejam mais que entrevistas amorosas. O mito de Diana
descendo a encontrar-se com Endimio bem pode ser verdadeiro. Descer  que 
demais. Que mal h em que os dois se encontrem ali mesmo no cu, como os grilos
entre as folhagens c de baixo? A noite, me caritativa, encarrega-se de velar a
todos.

Depois, a lua 
solitria. A solido faz a pessoa sria. As estrelas, em chusma, so como as
moas entre quinze e vinte anos, alegres, palreiras, rindo e falando a um tempo
de tudo e de todos.

No nego que so
castas; mas tanto pior,  tero rido do que no entendem... Castas estrelas! 
assim que lhes chama Otelo, o terrvel, e Tristram Shandy, o jovial. Esses
extremos do corao e do esprito esto de acordo num ponto: as estrelas so
castas. E elas ouviam tudo (castas estrelas!) tudo o que a boca temerria de
Rubio ia entornando na alma pasmada de Sofia. O recatado de longos meses era
agora (castas estrelas!) nada menos que um libertino. Dissreis que o Diabo
andara a enganar a moa com as duas grandes asas de arcanjo que Deus lhe ps; de
repente, meteu-as na algibeira e desbarretou-se para mostrar as duas pontas
malignas, fincadas na testa. E rindo, daquele riso oblquo dos maus, propunha
comprar-lhe no s a alma, mas a alma e o corpo... Castas estrelas!

CAPTULO XLI

 Vamos para dentro,
murmurou Sofia.

Quis tirar o brao; mas
o dele reteve-lho com fora. No; ir para qu? Estavam ali bem, muito bem... Que
melhor? Ou seria que ele a estivesse aborrecendo? Sofia acudiu que no, ao
contrrio; mas precisava ir fazer sala s visitas... H quanto tempo estavam
ali!

  No h dez
minutos, disse o Rubio. Que so dez minutos?

 Mas podem ter dado
pela nossa ausncia...

Rubio estremeceu
diante deste possessivo: nossa ausncia. Achou-lhe um princpio de
cumplicidade. Concordou que podiam dar pela nossa ausncia. Tinha razo,
deviam separar-se; s lhe pedia uma coisa, duas coisas: a primeira  que no
esquecesse aqueles dez minutos sublimes; a segunda  que, todas as noites, s
dez horas, fitasse o Cruzeiro, ele o fitaria tambm, e os pensamentos de ambos
iriam achar-se ali juntos, ntimos, entre Deus e os homens.

O convite era potico,
mas s o convite. Rubio ia devorando a moa com olhos de fogo, e segurava-lhe
uma das mos para que ela no fugisse. Nem os olhos nem o gesto tinham poesia
nenhuma. Sofia esteve a ponto de dizer alguma palavra spera, mas engoliu-a
logo, ao advertir que Rubio era um bom amigo da casa. Quis rir, mas no pde;
mostrou-se ento arrufada, logo depois resignada, afinal suplicante; pediu-lhe
pela alma da me dele, que devia estar no Cu... Rubio no sabia do Cu nem da
me, nem de nada. Que era me? que era Cu? parecia dizer a cara dele.

 Ai, no me quebre os
dedos! suspirou baixinho a moa.

Aqui  que ele comeou
a voltar a si; afrouxou a presso, sem soltar-lhe os dedos.

 V, disse ele, mas
primeiro...

Inclinava-se para
beijar a mo, quando uma voz, a alguns passos, veio acord-lo inteiramente.

CAPTULO XLII

 Ol! esto apreciando
a lua? Realmente, est deliciosa; est uma noite para namorados... Sim,
deliciosa... H muito que no vejo uma noite assim... Olhem s para baixo, os
bicos de gs... Deliciosa! para namorados... Os namorados gostam sempre da Lua.
No meu tempo, em Icara...

Era Siqueira, o
terrvel major. Rubio no sabia que dissesse; Sofia, passados os primeiros
instantes, readquiriu a posse de si mesma; respondeu que, em verdade, a noite
era linda; depois contou que Rubio teimava em dizer que as noites do Rio no
podiam comparar-se s de Barbacena, e, a propsito disso, referira uma anedota
de um Padre Mendes... No era Mendes?

 Mendes, sim; o Padre
Mendes, murmurou Rubio.

O major mal podia
conter o assombro. Tinha visto as duas mos presas, a cabea do Rubio meio
inclinada, o movimento rpido de ambos, quando ele entrou no jardim; e sai-lhe
de tudo isto um Padre Mendes... Olhou para Sofia; viu-a risonha, tranqila,
impenetrvel. Nenhum medo, nenhum acanhamento; falava com tal simplicidade, que
o major pensou ter visto mal. Mas Rubio estragou tudo. Vexado, calado, no fez
mais que tirar o relgio para ver as horas, lev-lo ao ouvido, como se lhe
parecesse que no andava, depois limp-lo com o leno, devagar, devagar, sem
olhar para um nem para outro...

 Bem, conversem, vou
ver as amigas, que no podem estar ss. Os homens j acabaram o maldito
voltarete?

 J, respondeu o major
olhando curiosamente para Sofia. J, e at perguntaram por este senhor; por isso
 que eu vim ver se o achava no jardim. Mas estavam aqui h muito tempo?

 Agora mesmo, disse
Sofia.

Depois, batendo
carinhosamente no ombro do major, passou do jardim  casa; no entrou pela porta
da sala de visitas, mas por outra que dava para a de jantar; de maneira que,
quando chegou quela pelo interior, era como se acabasse de dar ordens para o
ch.

Rubio, voltando a si,
ainda no achou que dizer, e contudo urgia dizer alguma coisa. Boa idia era a
anedota do Padre Mendes; o pior  que no havia padre nem anedota, e ele era
incapaz de inventar nada. Pareceu-lhe bastante isto:

 O padre! o Mendes!
Muito engraado o Padre Mendes!

 Conheci-o, disse o
major sorrindo. O Padre Mendes? Conheci-o; morreu cnego. Esteve algum tempo em
Minas?

 Creio que esteve,
murmurou o outro espantado.

 Era filho aqui de
Saquarema; era um que no tinha este olho, continuou o major levando o dedo ao
olho esquerdo. Conheci-o muito, se  que  o mesmo; pode ser que seja outro.

 Pode ser.

 Morreu cnego. Era
homem de bons costumes, mas amigo de ver moas bonitas, como se mira um painel
de mestre; e que maior mestre que Deus? dizia ele. Esta D. Sofia, por exemplo,
nunca ele a viu na rua que me no dissesse: Hoje vi aquela bonita senhora do
Palha... Morreu cnego; era filho de Saquarema... E, na verdade, tinha bom
gosto... Realmente, a mulher do nosso Palha  um primor, bela de cara e de
figura; eu ainda a acho mais bem feita que bonita... Que lhe parece?

 Parece que sim...

 E boa pessoa,
excelente dona de casa, continuou o major acendendo um charuto.

A luz do fsforo deu 
cara do major uma expresso de escrnio, ou de outra coisa menos dura, mas no
menos adversa. Rubio sentiu correr-lhe um frio pela espinha. Teria ouvido?
visto? adivinhado? Estava ali um indiscreto, um mexeriqueiro? A cara do homem
no explicava este ponto; em todo caso, era mais seguro crer no pior. Aqui temos
o nosso heri como algum que, depois de navegar cosido com a praia, longos
anos, acha-se um dia entre as ondas do alto mar; felizmente o medo tambm 
oficial de idias, e deu-lhe ali uma, lisonjear o interlocutor. No hesitou em
ach-lo gracioso e interessante, e dizer-lhe que tinha uma casa s suas ordens,
na Praia de Botafogo, nmero tantos. Dava-lhe muita honra em travar relaes com
ele. Contava poucos amigos aqui: o Palha, a quem devia grandes obsquios; D.
Sofia, que era uma senhora de rara gravidade, e mais trs ou quatro pessoas.
Vivia s; podia ser at que se retirasse para Minas.

 J?

 No digo j, mas pode
ser que me no demore. Sabe que uma pessoa que viveu toda a sua vida em um
lugar, custa-lhe muito a acostumar-se em outro.

 Isso conforme.

 Sim, conforme... Mas
 a regra.

 Regra ser, mas o
senhor vai ser uma exceo. A Corte  o diabo; apanha-se uma paixo como se
apanha uma constipao; basta uma fresta de ar, fica-se perdido. Olhe, eu no me
dava de apostar que o senhor, antes de seis meses, est casado...

 No viu nada, pensou
Rubio.

E depois,
alegre:

 Pode ser, mas tambm
em Minas h casamentos; nem l faltam padres.

 Falta o Padre Mendes,
acudiu rindo o major.

Rubio sorriu
constrangido, no entendendo se a palavra do major era inocente ou maliciosa.
Este  que colheu as rdeas ao assunto, e tratou de outras coisas, do tempo, da
cidade, do Ministrio, da guerra e do Marechal Lpez. E vede o contraste da
ocasio: esse aguaceiro, maior que o da entrada, pareceu um raio de sol ao nosso
Rubio. Ei-lo que espaneja a alma ao calor do discurso infinito do major,
intercalando alguma palavrinha, se pode, e sempre cabeceando com aplauso. E
pensava outra vez que no, que ele no vira nada.

 Papai! Papai est a?
disse uma voz  porta que dava para o jardim.

Era D. Tonica; vinha
cham-lo para irem embora. O ch estava na mesa,  verdade; mas no podia
esperar mais, tinha dor de cabea, disse ela ao pai, baixinho. Depois estendeu
os dedos ao Rubio; este pediu-lhe que ficasse ainda alguns minutos; o estimvel
major...

 Perde o seu tempo,
interrompeu o major; ela  que me governa.

Rubio ofereceu-lhe a
casa com instncia; exigiu at que lhe marcasse um dia, naquela mesma semana,
mas o major acudiu que no podia dispor de dia certo; iria, logo que lhe fosse
possvel. A vida dele era muito trabalhosa; tinha os negcios do arsenal,
que j eram muitos, e tinha mais...

 Papai! vamos!

 Vamos. Est vendo?
No posso conversar um instante. J te despediste? Onde est o meu chapu?

CAPTULO XLIII

Ladeira abaixo, D.
Tonica foi ouvindo o resto do discurso do pai, que mudou de assunto, sem mudar
de estilo,  difuso e derramado. Ouvia sem entender. Ia metida em si mesma,
absorta, remoendo a noite, recompondo os olhares de Sofia e de Rubio.

Chegaram  casa na Rua
do Senado; o pai foi dormir; a filha no se deitou logo, deixou- se estar em uma
cadeirinha, ao p da cmoda, onde tinha uma imagem da Virgem. No trazia idias
de paz nem de candura. Sem conhecer o amor, tinha notcia do adultrio, e a
pessoa de Sofia pareceu-lhe hedionda. Via nela agora um monstro, metade gente,
metade cobra, e sentiu que a aborrecia, que era capaz de vingar-se
exemplarmente, de dizer tudo ao marido.

 Conto-lhe tudo,  ia
pensando  ou de viva voz, ou por uma carta... Carta no; digo-lhe tudo um dia,
em particular.

E, imaginando o
colquio, antevia o espanto do homem, depois o agastamento, depois os
improprios, as palavras duras que ele havia de dizer  mulher, miservel,
indigna, vil... Todos esses nomes soavam bem aos ouvidos do seu desejo; ela
fazia derivar por eles a prpria clera; fartava-se de a rebaixar assim, de a
pr debaixo dos ps do marido, j que o no podia fazer por si mesma... Vil,
indigna, miservel...

Durou muito tempo essa
exploso de raiva interior,  perto de vinte minutos; mas a alma cansou, e
tornou a si. A imaginao no podia mais, e a realidade prxima atraiu-lhe a
vista. Olhou em volta de si, mirou a alcova de solteira, arrumadinha com arte, 
dessa arte engenhosa que faz da chita seda e de um retalho velho uma fita, que
recama, enlaa, alegra o mais que pode a nudez das coisas, enfeita as paredes
tristes, aprimora os trastes modestos e poucos. E tudo ali parecia feito para
receber um noivo amado.

Onde li eu que uma
tradio antiga fazia esperar a uma virgem de Israel, durante certa noite do
ano, a concepo divina? Seja onde for, comparemo-la  desta outra, que s
difere daquela em no ter noite fixa, mas todas, todas, todas... O vento,
zunindo fora, nunca lhe trouxe o varo esperado, nem a madrugada alva e menina
lhe disse em que ponto da Terra  que ele mora. Era s esperar, esperar...

Agora, aquietada a
imaginao e o ressentimento, mira e remira a alcova solitria; recorda as
amigas do colgio e de famlia, as mais ntimas, casadas todas. A derradeira
delas desposou aos trinta anos um oficial de marinha, e foi ainda o que
reverdeceu as esperanas  amiga solteira, que no pedia tanto, posto que a
farda de aspirante foi a primeira coisa que lhe seduziu os olhos, aos quinze
anos... Onde iam eles? Mas l passaram cinco anos, cumpriu os trinta e nove, e
os quarenta no tardam. Quarentona, solteirona; D. Tonica teve um calafrio.
Olhou ainda, recordou tudo, ergueu-se de golpe, deu duas voltas e atirou-se 
cama chorando...

CAPTULO XLIV

No vades crer que a
dor aqui foi mais verdadeira que a clera; foram iguais em si mesmas, os efeitos
 que foram diversos. A clera deu em nada; a humilhao debulhou-se em lgrimas
legtimas. E contudo no faltaram a esta senhora mpetos de estrangular Sofia,
calc-la aos ps, arrancar-lhe o corao aos pedaos, dizendo-lhe na cara os
nomes crus que atribua ao marido... Tudo imaginaes! Crede-me: h tiranos de
inteno. Quem sabe? Na alma desta senhora passou agora um tnue fio de
Calgula...

CAPTULO XLV

E enquanto uma chora,
outra ri;  a lei do mundo, meu rico senhor;  a perfeio universal. Tudo
chorando seria montono, tudo rindo cansativo; mas uma boa distribuio de
lgrimas e polcas, soluos e sarabandas, acaba por trazer  alma do mundo a
variedade necessria, e faz-se o equilbrio da vida.

A outra que ri  a alma
do Rubio. Escutai a cantiga alegre, brilhante, com que ela desce o morro,
dizendo as coisas mais ntimas s estrelas, espcie de rapsdia feita de uma
linguagem que ningum nunca alfabetou, por ser impossvel achar um sinal que lhe
exprima os vocbulos. C embaixo, as ruas desertas parecem-lhe povoadas, o
silncio  um tumulto, e de todas as janelas debruam-se vultos de mulher, caras
bonitas e grossas sobrancelhas, todas Sofias e uma Sofia nica. Uma ou outra
vez, Rubio acha que foi temerrio, indiscreto, recorda o caso do jardim, a
resistncia, o enfado da moa, e chega a arrepender-se; tem ento calafrios,
fica aterrado com a idia de que podem fechar-lhe a porta, e cortar inteiramente
as relaes; tudo porque precipitou os acontecimentos. Sim, devia esperar; a
ocasio no era prpria; visitas, muitas luzes, que lembrana foi aquela de
falar de amores, sem cautelas, desbragadamente?... Achava-lhe razo: era bem
feito que o despedisse logo.

 Fui um maluco! dizia
em voz alta.

No pensava no jantar,
que foi lauto, nem nos vinhos, que eram generosos, nem na eletricidade prpria
de uma sala em que h senhoras galantes; achava-se maluco, completamente maluco.

Logo depois, a mesma
alma, que se acusava, defendia-se. Sofia parecia t-lo animado ao que fez; os
olhos freqentes, depois fixos, os modos, os requebros, a distino de o mandar
sentar ao p de si,  mesa de jantar, de s cuidar dele, de lhe dizer
melodiosamente coisas afveis, que era tudo isso mais que exortaes e
solicitaes? E a boa alma explicava a contradio da moa, depois, no jardim:
era a primeira vez que ouvia tais palavras, fora do grmio conjugal, e ali perto
de todos, devia tremer naturalmente; demais, ele expandira-se muito, e
precipitou tudo. Nenhuma graduao; devia ter ido p ante p, e nunca
segurar-lhe as mos com tanta fora que chegasse a molest-la. Em concluso,
achava-se grosseiro. Voltava o receio de lhe fecharem a porta; depois, tornava
s consolaes da esperana,  anlise das aes da moa,  prpria inveno do
Padre Mendes, mentira de cumplicidade; pensava tambm na estima do marido...
Aqui estremeceu. A estima do marido deu-lhe remorsos. No s merecia a confiana
dele, mas acrescia certa dvida pecuniria, e umas trs letras que Rubio
aceitou por ele.

 No posso, no devo,
ia dizendo a si mesmo, no  bonito ir adiante. Tambm  verdade que, a rigor,
no sou autor de nada; ela  que, desde muito, me anda desafiando. Pois que
desafie agora! Sim,  preciso resistir-lhe... Emprestei o dinheiro quase sem
pedido, porque ele precisava muito e eu devia-lhe obsquios; as letras, sim, as
letras foi ele que me pediu que assinasse, mas no me pediu mais nada. Sei que 
honrado, que trabalha muito; o diabo da mulher  que fez mal em meter-se de
permeio, com os lindos olhos e a figura... Que admirvel figura, meu pai do Cu!
Hoje ento estava divina. Quando o brao dela roava no meu,  mesa, apesar da
minha manga...

Confuso, incerto, ia a
cuidar na lealdade que devia ao amigo, mas a conscincia partia-se em duas, uma
increpando a outra, a outra explicando-se, e ambas desorientadas...

Deu por si na Praa da
Constituio. Viera andando  toa. Pensou em ir ao teatro, mas era tarde. Ento
dirigiu-se ao Largo de So Francisco para meter-se em um tlburi e ir para
Botafogo. Achou trs, que vieram logo ao encontro dele, oferecendo os seus
servios e louvando principalmente o cavalo, um bom cavalo,  um animal
excelente.

CAPTULO XLVI

O rumor das vozes e dos
veculos acordou um mendigo que dormia nos degraus da igreja. O pobre diabo
sentou-se, viu o que era, depois tornou a deitar-se, mas acordado, de barriga
para o ar, com os olhos fitos no cu. O cu fitava-o tambm, impassvel como
ele, mas sem as rugas do mendigo, nem os sapatos rotos, nem os andrajos, um cu
claro, estrelado, sossegado, olmpico, tal qual presidiu s bodas de Jac e ao
suicdio de Lucrcia. Olhavam-se numa espcie de jogo do siso, com certo ar de
majestades rivais e tranqilas, sem arrogncia, nem baixeza, como se o mendigo
dissesse ao cu:

 Afinal, no me hs de
cair em cima.

E o cu:

 Nem tu me hs de
escalar.

CAPTULO XLVII

Rubio no era
filsofo; a comparao que ali fez entre os seus cuidados e os do maltrapilho
apenas lhe trouxe  alma uma sombra de inveja. Aquele malandro no pensa em
nada, disse ele consigo; daqui a pouco est dormindo, enquanto eu...

 Meu amo, entre, que o
animal  bom. Vamos l em quinze minutos.

Os outros dois
cocheiros diziam-lhe a mesma coisa, quase por iguais palavras:

 Meu amo, venha aqui e
ver...

 Olhe o meu
cavalinho...

 Faa favor; so treze
minutos de viagem. Em treze minutos est em casa.

Rubio, depois de
hesitar ainda, deu consigo dentro do tlburi que lhe ficava  mo, e mandou
tocar para Botafogo. Ento lembrou-se de um velho episdio esquecido, ou foi o
episdio que lhe deu inconscientemente a soluo. Uma ou outra coisa, Rubio
guiou o pensamento, com o fim de escapar s sensaes daquela noite.

L iam longos anos. Ele
era ento muito rapaz, e pobre. Um dia, s oito horas da manh, saiu de casa,
que era na Rua do Cano (Sete de Setembro), entrou no Largo de So Francisco de
Paula; dali desceu pela Rua do Ouvidor. Ia com alguns cuidados; morava em casa
de um amigo, que comeava a trat-lo como hspede de trs dias, e ele j o era
de quatro semanas. Dizem que os de trs dias cheiram mal; muito antes disso
cheiram mal os defuntos, ao menos nestes climas quentes... Certo  que o nosso
Rubio, singelo como um bom mineiro, mas desconfiado como um paulista, ia cheio
de cuidados, pensando em retirar-se quanto antes. Pode crer-se que desde que
saiu de casa, entrou no Largo de So Francisco, e desceu a Rua do Ouvidor at a
dos Ourives, no viu nem ouviu coisa nenhuma.

Na esquina da Rua dos
Ourives deteve-o um ajuntamento de pessoas, e um prstito singular. Um homem,
judicialmente trajado, lia em voz alta um papel, a sentena. Havia mais o juiz,
um padre, soldados, curiosos. Mas, as principais figuras eram dois pretos. Um
deles, mediano, magro, tinha as mos atadas, os olhos baixos, a cor fula, e
levava uma corda enlaada no pescoo; as pontas do barao iam nas mos de outro
preto. Este outro olhava para a frente e tinha a cor fixa e retinta. Sustentava
com galhardia a curiosidade pblica. Lido o papel, o prstito seguiu pela Rua
dos Ourives adiante; vinha do aljube e ia para o Largo do Moura.

Rubio naturalmente
ficou impressionado. Durante alguns segundos esteve como agora  escolha de um
tlburi. Foras ntimas ofereciam-lhe o seu cavalo: umas que voltasse para trs
ou descesse para ir aos seus negcios,  outras que fosse ver enforcar o preto.
Era to raro ver um enforcado! Senhor, em vinte minutos est tudo findo! 
Senhor, vamos tratar de outros negcios! E o nosso homem fechou os olhos, e
deixou-se ir ao acaso. O acaso, em vez de lev-lo pela Rua do Ouvidor abaixo at
 da Quitanda, torceu-lhe o caminho pela dos Ourives, atrs do prstito. No
iria ver a execuo, pensou ele; era s ver a marcha do ru, a cara do carrasco,
as cerimnias... No queria ver a execuo. De quando em quando, parava tudo,
chegava gente s portas e janelas, e o oficial de justia relia a sentena.
Depois, o prstito continuava a andar com a mesma solenidade. Os curiosos iam
narrando o crime,  um assassinato em Mata-Porcos. O assassino era dado como
homem frio e feroz. A notcia dessas qualidades fez bem a Rubio; deu-lhe fora
para encarar o ru, sem delquios de piedade. No era j a cara do crime; o
terror dissimulava a perversidade. Sem reparar, deu consigo no largo da
execuo. J ali havia bastante gente. Com a que vinha formou-se multido
compacta.

 Voltemos, disse ele
consigo.

Verdade  que o ru
ainda no subira  forca; no o matariam de relance; sempre era tempo de fugir.
E, dado que ficasse, por que no fecharia os olhos, como fez certo Alpio diante
do espetculo das feras? Note-se bem que Rubio nada sabia desse tal rapaz
antigo; ignorava, no s que fechara os olhos, mas tambm que os abrira logo
depois, devagarinho e curioso...

Eis o ru que sobe 
forca. Passou pela turba um frmito. O carrasco ps mos  obra. Foi aqui que o
p direito de Rubio descreveu uma curva na direo exterior, obedecendo a um
sentimento de regresso; mas o esquerdo, tomado de sentimento contrrio,
deixou-se estar; lutaram alguns instantes...  Olhe o meu cavalo!  Veja,  um
rico animal!  No seja mau!  No seja medroso! Rubio esteve assim alguns
segundos, os que bastaram para que chegasse o momento fatal. Todos os olhos
fixaram-se no mesmo ponto, como os dele. Rubio no podia entender que bicho era
que lhe mordia as entranhas, nem que mos de ferro lhe pegavam da alma e
retinham ali. O instante fatal foi realmente um instante; o ru esperneou,
contraiu-se, o algoz cavalgou-o de um modo airoso e destro; passou pela multido
um rumor grande, Rubio deu um grito, e no viu mais nada.

CAPTULO XLVIII

 Vossa Senhoria h de
ter visto que o cavalinho  bom...

Rubio abriu os olhos,
meio fechados, e deu com o cocheiro que sacudia ao de leve a pontinha do chicote
para espertar o animal. Interiormente zangou-se com o homem, que o veio tirar de
recordaes antigas. No eram belas, mas eram antigas,  antigas e enfermeiras,
porque lhe davam a beber um elixir que de todo parecia cur-lo do presente. E
vai o cocheiro empurra-o e acorda-o. Iam subindo a Rua da Lapa; o cavalo, em
verdade, comia o espao como se fosse a descer.

 Este cavalo tem-me
uma amizade, continuou o cocheiro, que se no acredita. Podia contar coisas
extraordinrias. H pessoas que at dizem que  mentira minha; mas, no, senhor,
no . Quem no sabe que cavalo e cachorro so os animais que mais gostam da
gente? Cachorro parece que ainda gosta mais...

Cachorro trouxe 
memria de Rubio o Quincas Borba, que l devia estar em casa,  espera dele,
ansioso. Rubio no esquecia a condio do testamento; jurava cumpri-la  risca.
Convm dizer que, de envolta com o receio de v-lo fugir, entrava o de vir a
perder os bens. No valiam afirmaes do advogado; no h, dizia-lhe este, no
h no testamento clusula reversvel para outrem, no caso de fuga do cachorro;
os bens no podiam sair-lhe das mos. Que lhe importava a fuga, se era at
melhor, um cuidado menos? Rubio aceitava aparentemente a explicao, mas l
ficava a dvida, o exemplo de longas demandas, a variedade das opinies
jurdicas sobre uma s matria, a ao de algum invejoso ou inimigo, e, o que
resumia tudo, o terror de ficar sem nada. Da os rigores da recluso; da tambm
o remorso de ter passado a tarde e a noite sem pensar uma s vez no Quincas
Borba.

 Sou um ingrato! disse
consigo.

Emendou-se logo; mais
ingrato era no ter pensado no outro Quincas Borba, que lhe deixou tudo. Vai
seno quando, ocorreu-lhe que os dois Quincas Borba podiam ser a mesma criatura,
por efeito da entrada da alma do defunto no corpo do cachorro, menos a purgar os
seus pecados que a vigiar o dono. Foi uma preta de So Joo del-Rei que lhe
meteu, em criana, essa idia de transmigrao. Dizia ela que a alma cheia de
pecados ia para o corpo de um bruto; chegou a jurar que conhecera um escrivo
que acabou feito gamb...

 Vossa Senhoria no se
esquea de dizer onde  a casa, disse-lhe repentinamente o cocheiro.

 Pare.

CAPTULO XLIX

O co ladrou de dentro;
mas, logo que Rubio entrou, recebeu-o com grande alegria; e por mais importuno
que fosse, Rubio desfez-se em carcias. A possibilidade de estar ali o testador
dava-lhe arrepios. Subiram juntos a escada de pedra; ali ficaram por alguns
instantes,  luz do lampio que Rubio mandara deixar aceso. Rubio era mais
crdulo que crente; no tinha razes para atacar nem para defender nada:  terra
eternamente virgem para se lhe plantar qualquer coisa. A vida da Corte deu-lhe
at uma particularidade: entre incrdulos, chegava a ser incrdulo...

Olhou para o co,
enquanto esperava que lhe abrissem a porta. O co olhava para ele, de tal jeito
que parecia estar ali dentro o prprio e defunto Quincas Borba; era o mesmo
olhar meditativo do filsofo, quando examinava negcios humanos... Novo arrepio;
mas o medo, que era grande, no era to grande que lhe atasse as mos. Rubio
estendeu-as sobre a cabea do animal, coando-lhe as orelhas e a nuca.

 Pobre Quincas Borba!
Gosta de seu senhor, no gosta? Rubio  muito amigo de Quincas Borba...

E o co movia devagar a
cabea, para a esquerda e para a direita, ajudando a distribuio das carcias
s duas orelhas pendentes; depois levantava o queixo, para que lhe coasse
embaixo, e o dono obedecia; mas ento os olhos do co, meio fechados de gosto,
tinham um ar dos olhos do filsofo, na cama, contando-lhe coisas de que ele
entendia pouco ou nada... Rubio fechava os seus. Abriram-lhe a porta;
despediu-se do co, mas com tais carinhos, que era o mesmo que pedir-lhe que
entrasse. O criado espanhol incumbiu-se de o levar para baixo.

 No lhe d pancadas,
recomendou Rubio.

No lhe deu pancadas;
mas s a descida era dolorosa, e o co amigo gemeu por muito tempo no jardim.
Rubio entrou, despiu-se e deitou-se. Ah! tinha vivido um dia cheio de sensaes
diversas e contrrias, desde as recordaes da manh, e o almoo aos dois
amigos, at aquela ltima idia de metempsicose, passando pela lembrana do
enforcado, e por uma declarao de amor no aceita, mal repelida, parece que
adivinhada por outros... Misturava tudo; o esprito ia de um para outro lado
como bola de borracha entre mos de crianas. Contudo, a sensao maior era a do
amor. Rubio estava admirado de si mesmo, e arrependia-se; mas o arrependimento
era obra da conscincia, ao passo que a imaginao no soltava por nenhum preo
a figura da bela Sofia... Uma, duas, trs horas... Sofia ao longe, os latidos do
co embaixo... O sono esquivo... Onde iam j as trs horas? Trs e meia...
Enfim, depois de muito cuidar, apareceu-lhe o sono, espremeu as clssicas
papoulas, e foi um instante; Rubio dormiu antes das quatro.

CAPTULO L

No, senhora minha,
ainda no acabou este dia to comprido; no sabemos o que se passou entre Sofia
e o Palha, depois que todos se foram embora. Pode ser at que acheis aqui melhor
sabor que no caso do enforcado.

Tende pacincia;  vir
agora outra vez a Santa Teresa. A sala est ainda alumiada, mas por um bico de
gs; apagaram-se os outros, e ia apagar-se o ltimo, quando o Palha mandou que o
criado esperasse um pouco l dentro. A mulher ia a sair, o marido deteve-a, ela
estremeceu.

 A nossa festa esteve
bem bonita, disse ele.

 Esteve.

 O Siqueira  um
cacete, mas pacincia;  alegre. A filha no estava mal arranjada. Viste o Ramos
como devorava tudo o que se lhe ps no prato? Tu vers que ele um dia engole a
mulher.

 A mulher? disse
Sofia, sorrindo.

  gorda, concordo;
mas a primeira era muito mais gorda, e creio que no morreu, ele engoliu-a, com
certeza.

Sofia, reclinada no
canap, ria das graas do marido. Criticaram ainda alguns episdios da tarde e
da noite; depois, Sofia, acariciando os cabelos do marido, disse-lhe de
repente:

 E voc ainda no sabe
do melhor episdio da noite.

 Que foi?

 Adivinhe.

Palha ficou algum tempo
calado, olhando para a mulher, a ver se adivinhava qual tinha sido o melhor
episdio da noite. No podia acertar; acudia-lhe isto ou aquilo, nada; Sofia
abanava a cabea.

 Mas ento que foi?

 No sei; adivinha.

 No posso. Dize logo.

 Com uma condio,
acudiu ela; no quero zangas nem barulhos...

Palha foi ficando mais
srio. Zangas? barulhos? Que diabo podia ser? pensava ele. J se no ria; tinha
s um resto de sorriso forado e resignado. Olhou bem para ela, e perguntou-lhe
o que era.

 Voc promete o que
lhe disse?

 V l. Que foi?

 Pois saiba que ouvi
nada menos que uma declarao de amor.

Palha empalideceu. No
prometera deixar de empalidecer. Gostava da mulher, como sabemos, at o ponto
singular de public-la; no podia ouvir a frio a notcia. Sofia viu a palidez, e
gostou da m impresso causada; para sabore-la mais, inclinou o busto, soltou o
cabelo atrs, que a incomodava um pouco, recolheu os grampos em um leno, depois
sacudiu a cabea, respirou largo, e pegou nas mos do marido, que ficara de p.

  verdade, meu velho,
namoraram-te a mulher.

 Mas quem foi o
patife? disse ele impaciente.

 Mau, se vamos assim,
no digo nada. Quem foi? Quer saber quem foi? H de ouvir sossegado. Foi o
Rubio.

 O Rubio?

 Nunca imaginei tanto.
Parecia-me acanhado e respeitoso; fica sabendo que no  o hbito que faz o
monge. De tantos homens que aqui vm no ouvi nunca o menor dito. Olham para
mim; naturalmente, porque no sou feia... Para que ests andando assim de um
lado para outro? Pra, que no quero levantar a voz... Bem, assim... Vamos ao
caso. No me fez declarao positiva...

 Ah! no? acudiu
vivamente o marido.

 No, mas vem a dar na
mesma.

E depois de contar o
que se passara no jardim, desde que ali chegaram os dois, at que o major
apareceu:

 Foi s isto,
concluiu; mas  bastante para ver que se ele no disse amor  porque no lhe
chegou a lngua, mas chegou-lhe a mo, que me apertou os dedos... S isso, e 
demais. Ainda bem que te no zangas; mas  preciso trancar-lhe a porta,  ou de
uma vez ou aos poucos; eu preferia logo, mas estou por tudo. Como achas melhor?

Mordendo o beio
inferior, Palha ficou a olhar para ela a modo de estpido. Sentou-se no canap
calado. Considerava o negcio. Achava natural que as gentilezas da esposa
chegassem a cativar um homem,  e Rubio podia ser esse homem; mas confiava
tanto no Rubio, que o bilhete que Sofia mandara a este, acompanhando os
morangos, foi redigido por ele mesmo; a mulher limitou-se a copi-lo, assin-lo
e mand-lo. Nunca, entretanto, lhe passou pela cabea que o amigo chegasse a
declarar amor a algum, menos ainda a Sofia, se  que era amor deveras; podia
ser gracejo de intimidade. Rubio olhava para ela muita vez,  certo; parece
tambm que Sofia, em algumas ocasies, pagava os olhares com outros...
Concesses de moa bonita! Mas, enfim, contanto que lhe ficassem os olhos,
podiam ir alguns raios deles. No havia de ter cimes do nervo ptico, ia
pensando o marido.

Sofia levantou-se, foi
pr o leno com os grampos em cima do piano, e deu uma olhada ao espelho para
ver-se com a trana cada. Quando voltou ao canap, o marido pegou-lhe na mo,
rindo.

 Parece-me que te
amofinaste mais do que o caso merecia. Comparar os olhos de uma moa s
estrelas, e as estrelas aos olhos, afinal de contas  coisa que at se pode
fazer  vista de todos, em famlia, e em prosa ou verso para o pblico. A culpa
 de quem tem olhos bonitos. Demais, apesar do que me contas, sabes que ele 
ainda matuto...

 Ento o diabo tambm
 matuto, porque ele pareceu-me nada menos que o diabo. E pedir-me que a certa
hora olhasse para o Cruzeiro, a fim de que as nossas almas se encontrassem ?

 Isso, sim, isso j
cheira a namoro, concordou Palha; mas bem vs que  um pedido de alma cndida. 
assim que as moas falam aos quinze anos;  assim que falam os tolos em todos os
tempos, e os poetas tambm; mas ele nem  moa nem poeta.

 Creio que no; mas
segurar-me nas mos para reter-me no jardim?

Palha teve um calafrio;
a idia do contato das mos e da fora empregada para reter a mulher  que o
mortificava mais. Francamente, se pudesse, era capaz de ir ter com ele, e
deitar-lhe as mos ao gasnate. Outras idias, porm, acudiram e dissiparam o
efeito da primeira; de modo que, cuidando Sofia hav-lo irritado, viu-o dar de
ombros com desprezo, e responder-lhe que efetivamente era um ato de grosseria.

 E depois, Sofia, que
lembrana foi essa de convid-lo a ir ver a lua, no me dirs?

 Chamei D. Tonica para
ir conosco.

 Mas, uma vez que D.
Tonica recusou, devias ter achado meios e modos de no ir ao jardim. So coisas
que acodem logo. Tu  que deste ocasio...

Sofia olhou para ele,
contraindo as grossas sobrancelhas; ia responder, mas calou-se. Palha continuou
a desenvolver a mesma ordem de consideraes; a culpa era dela, no devia ter
dado ocasio...

 Mas voc mesmo no me
tem dito que devemos trat-lo com atenes particulares? Seguramente, que eu no
iria ao jardim, se pudesse imaginar o que se passou. Mas nunca esperei que um
homem to pacato, to no sei como, se tirasse dos seus cuidados para vir
dizer-me coisas esquisitas...

 Pois daqui em diante
evita a lua e o jardim, disse o marido, procurando sorrir...

 Mas, Cristiano, como
queres tu que lhe fale a primeira vez que ele c vier? No tenho cara para
tanto; olha, o melhor de tudo  acabar com as relaes.

Palha atravessou uma
perna sobre a outra e comeou a rufar no sapato. Durante alguns segundos ficaram
calados. Palha cuidava na proposta de acabar com as relaes, no que quisesse
aceit-la, mas no sabia como responder  mulher, que mostrava tanto
ressentimento, e se portava com tal dignidade. Era preciso nem desaprov-la, nem
aceitar a proposta, e no lhe acudia nada. Levantou-se, meteu as mos nas
algibeiras das calas e, depois de alguns passos, parou defronte de Sofia.

 Talvez nos estejamos
a incomodar com um simples efeito de vinhos. Olha que ele no mandou o seu
quinho ao vigrio; cabea fraca, um pouco de abalo, e entornou o que tinha
dentro... Sim, eu no nego que lhe possas ter causado certa impresso, como
tantas outras senhoras. H dias foi a um baile no Catete, e voltou encantado das
senhoras que l vira, de uma principalmente, a viva Mendes...

Sofia
interrompeu-o:

 Por que  que no
convidou essa beleza a ver o Cruzeiro?

 No jantou l,
naturalmente, e no havia jardim nem lua. O que eu quero dizer  que o nosso
amigo no estaria em si. Talvez se ache agora arrependido do que fez,
envergonhado, sem saber como se h de explicar, ou se no explicar nada... 
muito possvel at que se ausente...

 Era melhor.

 ...Se o no
chamarmos, concluiu Palha.

 Mas para que
cham-lo?

 Sofia, disse-lhe o
marido, sentando-se ao p dela. No quero entrar em minudncias; digo s que no
permito que algum te falte ao respeito...

Houve uma pequena
pausa; Sofia olhava para ele, esperando.

 No permito, e ai
daquele que o fizesse, assim como ai de ti se o consentires; sabes que sou de
ferro, a este respeito, e que a certeza da tua amizade ou,  v logo tudo,  do
amor que me tens  que me tranqiliza. Pois bem, nada me abala relativamente ao
Rubio. Cr que o Rubio  nosso amigo, devo-lhe obrigaes.

 Alguns presentes,
algumas jias, camarotes no teatro, no so motivos para que eu fite o Cruzeiro
com ele.

 Prouvera a Deus que
fosse s isso! suspirou o zango.

 Que mais?

 No entremos em
minudncias... H outras coisas... Conversaremos depois... Mas fica certa que
nada me faria recuar, se visse no que contaste alguma gravidade. No h nenhuma.
O homem  um simplrio.

 No.

 No?

Sofia levantou-se;
tambm no queria entrar em minudncias. O marido pegou-lhe na mo, ela ficou de
p e calada. Palha, com a cabea reclinada nas costas do sof, olhava sorrindo,
sem achar que dizer. Ao cabo de alguns minutos, ponderou a mulher que era tarde,
que ia mandar apagar tudo.

 Bem, tornou o Palha
depois de breve silncio; escrevo-lhe amanh que no ponha aqui os ps.

Olhou para a mulher
esperando alguma recusa. Sofia coava as sobrancelhas, e no respondeu nada.
Palha repetiu a soluo; e pode ser que desta vez com sinceridade. A mulher
ento com ar de tdio:

 Ora Cristiano... Quem
 que te pede cartas? J estou arrependida de haver falado nisto. Contei-te um
ato de desrespeito, e disse que era melhor cortar as relaes,  aos poucos ou
de uma vez.

 Mas como se ho de
cortar as relaes de uma vez?

Fechar-lhe a porta,
mas no digo tanto; basta, se queres, aos poucos...

Era uma concesso;
Palha aceitou-a; mas imediatamente ficou sombrio, soltou a mo da mulher, com um
gesto de desespero. Depois, agarrando-a pela cintura, disse em voz mais alta do
que at ento:

 Mas, meu amor, eu
devo-lhe muito dinheiro.

Sofia tapou-lhe a boca
e olhou assustada para o corredor.

 Est bom, disse,
acabemos com isto. Verei como ele se comporta, e tratarei de ser mais fria...
Nesse caso, tu  que no deves mudar, para que no parea que sabes o que se
deu. Verei o que posso fazer.

 Voc sabe, apertos do
negcio, algumas faltas...  preciso tapar um buraco daqui, outro dali... o
diabo!  por isso que... Mas riamos, meu bem; no vale nada. Sabes que confio em
ti.

 Vamos, que  tarde.

 Vamos, repetiu o
Palha dando-lhe um beijo na face.

 Estou com muita dor
de cabea, murmurou ela. Creio que foi do sereno, ou desta histria... Estou com
muita dor de cabea.

CAPTULO LI

Banhado, barbeado, meio
vestido, Palha lia os jornais,  espera do almoo, quando viu entrar a mulher no
gabinete, um tanto plida.

 Ests pior?

Sofia respondeu com um
gesto dos lbios, que tanto negava como afirmava. Palha acreditou que, pelo dia
adiante, passaria o incmodo; a agitao da vspera, o jantar tarde... Depois,
pediu que lhe deixasse acabar de ler um artigo relativo a certo negcio da
praa. Era uma briga entre dois comerciantes, a propsito de uns saques; na
vspera escrevera um deles, hoje vinha a resposta do outro. Resposta completa,
disse ele acabando a leitura; e explicou longamente  mulher a questo dos
saques, o mecanismo da operao, a situao dos dois adversrios, os boatos da
praa, tudo com o vocabulrio tcnico. Sofia ouvia e suspirava; mas para o
despotismo da profisso no h suspiros de mulher, nem cortesia de homem.
Felizmente, o almoo estava na mesa.

Ficando s, a nossa
amiga, que apenas tomou um caldo, l para as duas horas, foi sentar-se  porta
de casa, no jardim. Naturalmente, voltou a pensar no lance da vspera. No
estava bem em si nem fora de si, nem com Deus nem com o diabo. Arrependia-se de
haver contado o episdio ao marido, e ao mesmo tempo irritava-se com as
tentativas de explicao que este lhe deu. No meio das reflexes, ouviu
distintamente as palavras do major: "Ol! esto apreciando a lua?" como se as
folhas as tivessem guardado, e repetido agora que a aragem comeava a mov-las.
Sofia teve um calafrio. Siqueira era indiscreto,  indiscreto em farejar e
indagar dos negcios alheios; s-lo-ia ao ponto de public-los? Sofia
considerava-se j objeto de suspeita ou de calnia. Formava planos. No
visitaria ningum; ou iria para fora, para Nova Friburgo ou mais longe. A
exigncia do marido em receber o Rubio, como dantes, era excessiva; maiormente
pela causa dada. No querendo obedecer nem desobedecer, cuidava em deixar a
cidade, pretextando o que quer que fosse.

 A culpa foi minha!
suspirou ela consigo.

A culpa eram as
atenes especiais com o homem, carinhos, lembranas, obsquios famlias, e na
vspera, aqueles olhos to longamente pregados nele. Se no fosse isso... Ia-se
assim perdendo em reflexes multiplicadas. Tudo a aborrecia, plantas, mveis,
uma cigarra que cantava, um rumor de vozes, na rua, outro de pratos, em casa, o
andar das escravas, e at um pobre preto velho que, em frente  casa dela,
trepava com dificuldade um pedao de morro. As cautelas do preto buliam-lhe com
os nervos.

CAPTULO LII

Nisto passou um rapaz
alto, que a cortejou sorrindo e vagarosamente. Sofia cortejou-o tambm um pouco
espantada da pessoa e da ao.

 Quem  este sujeito?
pensou ela.

E entrou a cogitar
donde  que o conhecia, porque, em verdade, a cara no lhe era estranha, nem as
maneiras, nem os olhos plcidos e grandes. Onde  que o teria visto? Percorreu
vrias casas, sem acertar com a verdadeira; afinal pensou em certo baile,  no
ms anterior,  em casa de um advogado que fazia anos. Era isso; viu-o l,
danaram uma quadrilha, por simples condescendncia dele, que no danava nunca;
lembrava-se de lhe ter ouvido muitas palavras agradveis, relativamente  beleza
da mulher, que, dizia ele, consistia principalmente nos olhos e nos ombros. Os
dela, como sabemos, eram magnficos. E quase no tratou de outro assunto,  os
ombros e os olhos;  a propsito de uns e outros contou vrias anedotas
sucedidas com ele, algumas sem interesse, mas falava to bem! e o assunto era
to dela!  verdade; lembrava-se agora que, apenas ele a deixou, Palha veio ter
com ela, sentou-se na cadeira, ao lado, e disse-lhe o nome do rapaz, porque ela
no ouvira bem  pessoa que lho apresentara: era Carlos Maria,  o prprio do
almoo do nosso Rubio.

  a primeira figura
do salo, disse-lhe o marido com orgulho de ver que se ocupara tanto tempo com
ela.

 Entre os homens,
explicou Sofia.

 Entre as senhoras s
tu, acudiu ele mirando-se no colo da mulher, e circulando depois os olhos pela
sala, com uma expresso de posse e domnio, que a mulher j conhecia e que lhe
fazia bem.

Quando acabou de
recordar tudo, j iria longe o rapaz; ao menos, foi uma interrupo na srie de
tdios que lhe tomavam a alma. Tinha uma dor nas costas, que se calara por
instantes. Voltou logo, teimosa, aborrecida; Sofia reclinou-se na cadeira e
fechou os olhos. Quis ver se passava pelo sono, mas no pde. Os pensamentos
eram to teimosos como a dor, e ainda mais ruins que ela. De quando em quando um
bater de asas, rpido, quebrava o silncio: eram as pombas de uma casa vizinha
que tornavam ao pombal. Sofia a princpio abriu os olhos, umas duas vezes;
depois, acostumou-se ao rumor, e deixou-os fechados, a ver se dormia. Passado
algum tempo, ouviu passos na rua, e levantou a cabea, supondo que era Carlos
Maria que regressava; era um carteiro que lhe trazia uma carta da roa.
Entregou-lha em mo. Ao sair do jardim, tropeou o carteiro no p de um banco e
caiu de bruos, espalhando as cartas no cho. Sofia no pde conter o riso.

CAPTULO LIII

Perdoem-lhe esse riso.
Bem sei que o desassossego, a noite mal passada, o terror da opinio, tudo
contrasta com esse riso inoportuno. Mas, leitora amada, talvez a senhora nunca
visse cair um carteiro. Os deuses de Homero,  e mais eram deuses,  debatiam
uma vez no Olimpo, gravemente, e at furiosamente. A orgulhosa Juno, ciosa dos
colquios de Ttis e Jpiter em favor de Aquiles, interrompe o filho de Saturno.
Jpiter troveja e ameaa; a esposa treme de clera. Os outros gemem e suspiram.
Mas quando Vulcano pega da urna de nctar, e vai coxeando servir a todos, rompe
no Olimpo uma enorme gargalhada inextinguvel. Por qu? Senhora minha, com
certeza nunca viu cair um carteiro.

s vezes, nem  preciso
que ele caia; outras vezes nem  sequer preciso que exista. Basta imagin-lo ou
record-lo. A sombra da sombra de uma lembrana grotesca projeta-se no meio da
paixo mais aborrecvel, e o sorriso vem s vezes  tona da cara, leve que seja,
 um nada. Deixemo-la rir, e ler a sua carta da roa.

CAPTULO LIV

Quinze dias depois,
estando Rubio em casa, apareceu-lhe o marido de Sofia. Vinha perguntar-lhe o
que era feito dele? onde se tinha metido que no aparecia? estivera doente? ou
j no cuidava dos pobres? Rubio mastigava as palavras, sem acabar de compor
uma frase nica. No meio disto, Palha viu que havia na sala um homem mirando os
quadros, e abafou a voz.

 Desculpe, no vi que
estava com visitas, disse ele.

 Desculpar o qu?  um
amigo, como o senhor. Doutor, aqui est o meu amigo Cristiano de Almeida e
Palha. Creio que j lhe falei dele. Este  o meu amigo Dr. Camacho,  Joo de
Souza Camacho.

Camacho fez um sinal de
cabea, disse uma ou duas frase e quis sair; mas Rubio acudiu, que no, senhor,
que ficasse. Eram ambos amigos; e depois a lua no tardava a iluminar a bela
enseada de Botafogo.

A lua,  outra vez a
lua,  e esta frase: Creio que j lhe falei dele, atordoaram de tal jeito
o recm-chegado, que no lhe foi possvel proferir uma palavra durante algum
tempo. Bom  acrescentar que o dono da casa tambm no sabia que dissesse.
Estavam os trs sentados, Rubio no canap, Palha e Camacho em cadeiras defronte
um do outro. Camacho, que conservara a bengala na mo, p-la verticalmente nos
joelhos, batendo no nariz e olhando para o teto. Fora, rumor de carros, tropel
de cavalos e algumas vozes. Eram sete horas e meia da noite, ou mais, perto de
oito. O silncio foi mais longo do que era lcito na ocasio; nem Rubio nem
Palha davam por ele. Camacho  que, aborrecido, foi  janela, e exclamou dali
para os dois:

 L vem o luar
entrando!

Rubio fez um gesto,
Palha outro; mas quo diferentes! Rubio era para transportar-se  janela; Palha
ia a agarr-lo pela gola. Cedia menos  divulgao possvel da aventura do que 
lembrana da violncia com que ele pegara nas mos da mulher para atra-la a si.
Um e outro contiveram-se; logo depois, Rubio, cruzando a perna esquerda sobre a
direita, voltou-se para o Palha, e perguntou-lhe:

 Sabe que vou
deix-los?

CAPTULO LV

Tudo esperava o outro,
menos isto. Da o espanto em que se dissolveu a clera; da tambm uma sombrinha
de pesar, que  o que o leitor menos espera. Deix-los? Naturalmente ia-se
embora do Rio de Janeiro; era o castigo que a si mesmo impunha, pela ao ruim
que praticara, em Santa Teresa; logo, vexara-se, arrependera-se. No tinha cara
de aparecer  esposa do amigo. Tal foi a primeira concluso do Palha; mas vieram
outras hipteses. Por exemplo, a paixo podia persistir, e a sada dele era um
modo de afastar-se da pessoa amada. Tambm podia acontecer que entrasse a algum
plano de casamento.

A ltima hiptese
trouxe  fisionomia do Palha um elemento novo, que no sei como chame.
Desapontamento? J o elegante Garrett no achava outro termo para tais
sensaes, e nem por ser ingls o desprezava. V desapontamento. Misturem-lhe o
pesar da separao, no esqueam a clera que primeiro trovejou surdamente, e
no faltar quem ache que a alma deste homem  uma colcha de retalhos. Pode ser;
moralmente as colchas inteirias so to raras! O principal  que as cores se
no desmintam umas s outras,  quando no possam obedecer  simetria e
regularidade. Era o caso do nosso homem. Tinha o aspecto baralhado  primeira
vista; mas atentando bem, por mais opostos que fossem os matizes, l se achava a
unidade moral da pessoa.

CAPTULO LVI

Mas, por que  que
Rubio ia deix-los? Que razo? Que negcio?

 No dia seguinte
ao do caso de Santa Teresa, acordou opresso. Almoou mal. No cuidou de nada;
calou as chinelas africanas sem interesse, no mirou as alfaias belas, ou
simplesmente ricas, que lhe enchiam a casa. No pde suportar as carcias do co
mais de dois minutos; to depressa o recebeu na sala, como o mandou embora. Ele
 que enganou os criados e tornou  sala; mas, tal foi o tabefe que recebeu na
orelha, que no repetiu os afagos: estirou-se no cho com os olhos no amigo.

Rubio estava
arrependido, irritado, envergonhado. No captulo X deste livro ficou escrito que
os remorsos deste homem eram fceis, mas de pouca dura; faltou explicar a
natureza das aes que os podiam fazer curtos ou compridos. L tratava-se
daquela carta escrita pelo finado Quincas Borba, to expressiva do estado mental
do autor, e que ele ocultou do mdico, podendo ser til  cincia ou  justia.
Se entrega a carta, no teria remorsos, nem talvez legado,  o pequeno legado
que ento esperava do enfermo. No caso presente, era uma tentativa de adultrio.
Certo que ele suspirava h muito, e tinha mpetos interiores; mas foi s a
animao indiscreta da moa, e a prpria excitao do momento que o levou a
fazer a declarao repelida. Passados os vapores da noite, no era s vexame que
sentia, mas tambm remorsos. A moral  uma, os pecados so diferentes.

Saltemos por cima de
tudo o que ele sentiu e pensou durante os primeiros dias. Chegou a esperar
alguma coisa no domingo, um bilhete como o do anterior,  com morangos ou sem
eles. Na segunda-feira estava determinado a ir a Minas passar uns dois meses;
tinha necessidade de restaurar a alma aos ventos de Barbacena. No contava com o
Dr. Camacho.

 Deixar-nos? perguntou
finalmente o Palha.

 Creio que sim; vou a
Minas.

Camacho, voltando da
janela, sentou-se na cadeira em que estivera antes.

 Que Minas? disse ele
sorrindo.  Deixe-se de Minas por ora; l ir quando for preciso, e no se
demorar muito que o seja.

Palha no ficou menos
admirado das palavras deste que das do outro. Donde surgira semelhante homem,
com ar de dominar o Rubio? Olhou para ele; era pessoa de estatura mdia, rosto
estreito, pouca barba, queixo comprido, orelhas de pavilho largo e aberto. Foi
tudo o que pde observar rapidamente. Viu tambm que a roupa era fina, sem luxo,
e que os ps no estavam mal calados. No examinou os olhos, nem o sorriso, nem
as maneiras; no chegou a reparar no princpio de calva, nem nas mos magras e
cabeludas.

CAPTULO LVII

Camacho era homem
poltico. Formado em direito em 1844, pela Faculdade do Recife, voltara para a
provncia natal, onde comeou a advogar; mas a advocacia era um pretexto. J na
academia, escrevera um jornal poltico, sem partido definido, mas com muitas
idias colhidas aqui e ali, e expostas em estilo meio magro e meio inchado.
Pessoa que recolheu esses primeiros frutos de Camacho fez um ndice dos seus
princpios e aspiraes:  ordem pela liberdade, liberdade pela ordem;  a
autoridade no pode abusar da lei, sem esbofetear-se a si prpria;  a vida dos
princpios  a necessidade moral das naes novas como das naes velhas; 
dai-me boa poltica, dar-vos-ei boas finanas (Baro Louis); 
mergulhemos no Jordo constitucional;  dai passagem aos valentes, homens do
poder; eles sero os vossos sustentculos, etc., etc.

Na provncia natal,
essa ordem de idias teve de ceder a outras; e o mesmo se pode dizer do estilo.
Fundou ali um jornal; mas, sendo a poltica local menos abstrata, Camacho aparou
as asas e desceu s nomeaes de delegados, s obras provinciais, s
gratificaes,  luta com a folha adversa, e aos nomes prprios e imprprios. A
adjetivao exigiu grande apuro. Nefasto, esbanjador, vergonhoso, perverso,
foram os termos obrigados, enquanto atacou o governo; mas, logo que, por uma
mudana de presidente, passou a defend-lo, as qualificaes mudaram tambm:
enrgico, ilustrado, justiceiro, fiel aos princpios, verdadeira glria da
administrao, etc., etc. Esse tiroteio durou trs anos. No fim deles, a paixo
poltica dominava a alma do jovem bacharel.

Membro da assemblia
provincial, logo depois da Cmara dos Deputados, presidente de uma provncia de
segunda ordem, onde, por natural mudana do destino, leu nas folhas da oposio
todos os nomes que escrevera outrora, nefasto, esbanjador, vergonhoso, perverso,
Camacho teve dias grandes e pequenos, andou fora e dentro da Cmara, orou,
escreveu, lutou constantemente. Acabou por vir morar na capital do Imprio.
Deputado da conciliao dos partidos, viu governar o Marqus de Paran, e instou
por algumas nomeaes, em que foi atendido; mas, se  certo que o marqus lhe
pedia conselhos, e usava confiar-lhe os planos que trazia, ningum podia
afirm-lo, porque ele, em se tratando da prpria considerao, mentia sem
dificuldade.

O que se pode crer 
que queria ser ministro, e trabalhou por obt-lo. Agregou-se a vrios grupos,
segundo lhe parecia acertado; na Cmara discorria largamente sobre matrias de
administrao, acumulava algarismos, artigos de legislao, pedaos de
relatrio, trechos de autores franceses, embora mal traduzidos. Mas, entre a
espiga e a mo, est o muro de que fala o poeta; e por mais que o nosso homem
estendesse a mo do seu desejo para colh-la, a espiga l ficava do lado oposto,
donde a arrancavam outras mos, mais ou menos sfregas, ou at descuidadas.

H solteires na
poltica. Camacho ia entrando nessa categoria melanclica, em que todos os
sonhos nupciais se evaporam com o tempo; mas no tinha a superioridade de
abandon-la. Ningum que organizasse um gabinete se atrevia, ainda que o
desejasse, a dar-lhe uma pasta. Camacho ia-se sentindo cair; para simular
influncia, tratava familiarmente os poderosos do dia, contava em voz alta as
visitas aos ministros e a outras dignidades do Estado.

No lhe faltava que
comer. A famlia era pequena; mulher, uma filha, que ia nos dezoito anos, um
afilhado de nove, e para isso dava a advocacia. Mas trazia a poltica no sangue;
no lia, no cuidava em outra coisa. De literatura, cincias naturais, histria,
filosofia, artes, no se preocupava absolutamente nada. Tambm no conhecia
grandes coisas de direito; guardava algum do que lhe dera a academia, mais a
legislao posterior e prticas forenses. Com isso ia arrazoando e ganhando.

CAPTULO LVIII

Dias antes, indo passar
a noite em casa de um conselheiro, viu ali Rubio. Falava-se da chamada dos
conservadores ao poder, e da dissoluo da Cmara. Rubio assistira  reunio em
que o Ministrio ltabora pediu os oramentos. Tremia ainda ao contar as suas
impresses, descrevia a Cmara, tribunas, galerias cheias que no cabia um
alfinete, o discurso de Jos Bonifcio, a moo, a votao... Toda essa
narrativa nascia de uma alma simples; era claro. A desordem dos gestos, o calor
da palavra tinham a eloqncia da sinceridade. Camacho escutava-o atento. Teve
modo de o levar a um canto da janela, e fazer-lhe consideraes graves sobre a
situao. Rubio opinava de cabea, ou por palavras soltas e aprobatrias.

 Os conservadores no
se demoram no poder, disse-lhe finalmente Camacho.

 No?

 No; eles no querem
a guerra, e tm de cair por fora. Veja como andei bem no programa da folha.

 Que folha?

 Conversaremos depois.

No dia seguinte,
almoaram no Hotel de la Bourse, a convite de Camacho. Este referiu ao
outro que fundara, meses antes, uma folha com o nico programa de continuar a
guerra a todo transe... Andava muito acesa a dissenso entre liberais;
pareceu-lhe que o melhor modo de servir ao prprio partido era dar-lhe um
terreno neutro e nacional.

 E isto agora
serve-nos, concluiu ele, porque o governo inclina-se  paz. J amanh sai um
artigo meu, furibundo.

Rubio ouvia tudo,
quase sem tirar os olhos do outro, comendo rapidamente, nos intervalos em que o
prprio Camacho inclinava a cabea ao prato. Folgava de ver-se confidente
poltico; e, para dizer tudo, a idia de entrar em luta para colher alguma coisa
depois, um lugar na Cmara, por exemplo, espanejou as asas de ouro no crebro do
nosso amigo. Camacho no lhe disse mais nada; procurou-o no dia seguinte, e no
o achou. Agora, pouco depois de entrar, vinha o Palha interromp-los.

CAPTULO LIX

 Sim, mas eu preciso
ir a Minas, teimou Rubio.

 Para qu? perguntou
Camacho.

Palha fez-lhe igual
pergunta. Para que iria a Minas, salvo se era negcio de pouco tempo? Ou j
estava aborrecido da Corte?

 No, aborrecido no
estou; ao contrrio...

Ao contrrio, gostava
muito dela; mas a terra natal,  por menos bonita que seja,  um lugarejo,  d
saudades  gente;  ainda mais quando a pessoa veio de l homem. Queria ver
Barbacena. Barbacena era a primeira terra do mundo. Durante alguns minutos,
Rubio pde subtrair-se  ao dos outros. Tinha a terra natal em si mesmo:
ambies, vaidades da rua, prazeres efmeros, tudo cedia ao mineiro saudoso da
provncia. Se a alma dele foi alguma vez dissimulada, e escutou a voz do
interesse, agora era a simples alma de um homem arrependido do gozo, e mal
acomodado na prpria riqueza.

Palha e Camacho olharam
um para o outro... Oh! esse olhar foi como um bilhete de visita trocado entre as
duas conscincias. Nenhuma disse o seu segredo, mas viram os nomes no carto, e
cumprimentaram-se. Sim, era preciso impedir que o Rubio sasse; Minas podia
ret-lo. Concordaram que l fosse; mas depois,  alguns meses depois;  e talvez
o Palha fosse tambm. Nunca vira Minas; seria excelente ocasio.

 O senhor? perguntou
Rubio.

 Sim, eu; h muito que
desejo ir a Minas e a So Paulo. Olhe, h mais de ano que estivemos vai no
vai... Sofia  companheira para estas viagens. Lembra-se quando nos encontramos
no trem da estrada de ferro?... Vnhamos de Vassouras; mas este projeto de Minas
nunca nos deixou. Iremos os trs.

Rubio agarrou-se s
eleies prximas; mas aqui interveio Camacho, afirmando que no era preciso,
que a serpente devia ser esmagada c mesmo na capital; no faltaria tempo depois
para ir matar saudades e receber a recompensa. Rubio agitou-se no canap. A
recompensa era, com certeza, o diploma de deputado. Viso magnfica, ambio que
nunca teve, quando era um pobre diabo... Ei-la que o toma, que lhe agua todos
os apetites de grandeza e de glria. Entretanto, ainda insistiu por poucos dias
de viagem, e, para ser exato, devo jurar que o fez sem desejo de que lhe
aceitassem a proposta.

A lua estava ento
brilhante; a enseada, vista pelas janelas, apresentava aquele aspecto sedutor
que nenhum carioca pode crer que exista em outra parte do mundo. A figura de
Sofia passou ao longe, na encosta do morro, e diluiu-se no luar; a ltima sesso
da Cmara, tumultuosa, ressoou aos ouvidos de Rubio... Camacho foi at  janela
e voltou logo.

 Mas quantos dias?
perguntou ele.

 Isso  que no sei,
mas poucos.

 Em todo o caso,
amanh conversaremos.

Camacho despediu-se.
Palha ficou ainda alguns instantes, para dizer-lhe que seria esquisito voltar a
Minas, sem que eles liquidassem as contas... Rubio interrompeu-o. Contas? Quem
lhe pedia contas?

 Bem se v que o
senhor no  homem de comrcio, redargiu Cristiano.

 No sou,  verdade;
mas as contas pagam-se quando se pode. Entre ns, tem sido isto. Ou, quem sabe?
Seja franco; precisa de algum dinheiro?

 No, no preciso.
Obrigado. Tenho que propor um negcio, mas h de ser mais demoradamente. Vim
v-lo para no botar anncios nos jornais: "Desapareceu um amigo, por nome
Rubio, que tem um cachorro...

Rubio gostou da
faccia. Palha saiu e ele foi acompanh-lo at a esquina da Rua Marqus de
Abrantes. Ao despedir-se prometeu visit-lo em Santa Teresa, antes de ir a
Minas.

CAPTULO LX

Pobre Minas! Rubio
voltou para casa, sozinho, a passo lento, pensando no modo de l no ir agora. E
as palavras dos dois andavam-lhe no crebro, como peixinhos de ouro em globo de
vidro, abaixo, acima, rutilantes: "aqui  que se deve esmagar a cabea da
cobra"; "Sofia  companheira para estas viagens". Pobre Minas!

No dia seguinte recebeu
um jornal que nunca vira antes, a Atalaia. O artigo editorial desancava o
Ministrio; a concluso, porm, estendia-se a todos os partidos e  nao
inteira:  Mergulhemos no Jordo constitucional. Rubio achou-o
excelente; tratou de ver onde se imprimia a folha para assin-la. Era na Rua da
Ajuda; l foi, logo que saiu de casa; l soube que o redator era o Dr. Camacho.
Correu ao escritrio dele.

Mas, em caminho, na
mesma rua:

 Deolindo! Deolindo!
bradou angustiadamente uma voz de mulher  porta de uma colchoaria.

Rubio ouviu o grito,
voltou-se, viu o que era. Era um carro que descia e uma criana de trs ou
quatro anos que atravessava a rua. Os cavalos vinham quase em cima dela, por
mais que o cocheiro os sofreasse. Rubio atirou-se aos cavalos e arrancou o
menino ao perigo. A me, quando o recebeu das mos do Rubio, no podia falar;
estava plida, trmula. Algumas pessoas puseram-se a altercar com o cocheiro,
mas um homem calvo, que vinha dentro, ordenou-lhe que fosse andando. O cocheiro
obedeceu. Assim, quando o pai, que estava no interior da colchoaria, veio fora,
j o carro dobrava a esquina de So Jos.

 Ia quase morrendo,
disse a me. Se no fosse este senhor, no sei o que seria do meu pobre filho.

Era uma novidade no
quarteiro. Vizinhos entravam a ver o que sucedera ao pequeno; na rua, crianas
e moleques espiavam pasmados. A criana tinha apenas um arranho no ombro
esquerdo, produzido pela queda.

 No foi nada, disse
Rubio; em todo caso, no deixem o menino sair  rua;  muito pequenino.

 Obrigado, acudiu o
pai; mas onde est o seu chapu?

Rubio advertiu ento
que perdera o chapu. Um rapazinho esfarrapado, que o apanhara, estava  porta
da colchoaria, aguardando a ocasio de restitu-lo. Rubio deu-lhe uns cobres em
recompensa, coisa em que o rapazinho no cuidara, ao ir apanhar o chapu. No o
apanhou seno para ter uma parte na glria e nos servios. Entretanto, aceitou
os cobres, com prazer; foi talvez a primeira idia que lhe deram da venalidade
das aes.

 Mas espere, tornou o
colchoeiro, o senhor feriu-se?

Com efeito, a mo do
nosso amigo tinha sangue, um ferimento na palma, coisa pequena; s agora
comeava a senti-lo. A me do pequeno correu a buscar uma bacia e uma toalha,
apesar de dizer o Rubio que no era nada, que no valia a pena. Veio a gua;
enquanto ele lavava a mo, o colchoeiro correu  farmcia prxima, e trouxe um
pouco de arnica. Rubio curou-se, atou o leno na mo; a mulher do colchoeiro
escovou-lhe o chapu; e, quando ele saiu, um e outro agradeceram-lhe muito o
benefcio da salvao do filho. A outra gente, que estava  porta e na calada,
fez-lhe alas.

CAPTULO LXI

 Que  que tem a na
mo? inquiriu Camacho, logo que Rubio entrou no escritrio.

Rubio narrou o
incidente da Rua da Ajuda. O advogado fez-lhe muitas perguntas sobre a criana,
os pais, o nmero da casa; mas, o prprio Rubio ps termo s respostas.

 No sabe, ao menos, o
nome do pequeno?

 Ouvi chamar Deolindo.
Vamos ao que importa. Venho assinar a sua folha; recebi um nmero, e quero
contribuir para...

Camacho acudiu que no
precisava de assinaturas. Em assinaturas, a folha ia bem. O que ela precisava
era de material tipogrfico e desenvolvimento no texto; ampliar a matria,
pr-lhe mais noticirio, variedades, traduo de algum romance para o folhetim,
movimento do porto, da praa, etc. Tinha anncios, como viu.

 Sim, senhor.

 Estou com o capital
quase subscrito. Bastam dez pessoas, e j somos oito; eu e mais sete. Faltam
dois. Com mais duas pessoas est completo o capital.

 Quanto ser? pensou
Rubio.

Camacho batia com um
canivete na beira da escrivaninha, calado, olhando s furtadelas para o outro.
Rubio passou uma vista  sala, poucos mveis, alguns autos sobre um tamborete
ao p do advogado, estante com livros, Lobo, Pereira e Sousa, Dalloz,
Ordenaes do Reino, um retrato na parede, diante da escrivaninha.

 Conhece? disse
Camacho apontando para o retrato.

 No, senhor.

 Veja se conhece.

 No posso saber.
Nunes Machado?

 No, acudiu o
ex-deputado dando  cara um ar pesaroso. No pude obter um bom retrato dele.
Vendem-se a umas litografias que me no parecem boas. No; aquele  o marqus.

 De Barbacena?

 No, de Paran;  o
grande marqus, meu particular amigo. Tentou conciliar os partidos, e foi por
isso que me achei com ele. Morreu cedo; a obra no pde ir adiante. Hoje, se ele
a quisesse, ter-me-ia contra si. No! nada de conciliaes; guerra de morte.
Havemos de destru-los; leia a Atalaia, meu bom companheiro de lutas;
receb-la- em casa...

 No, senhor.

 Por que no?

Rubio baixou os olhos
diante do nariz interrogativo do Camacho.

 No, senhor; sou
firme, desejo ajudar os amigos. Receber a folha de graa...

 Mas, se j lhe disse
que de assinaturas vamos bem, retorquiu Camacho.

 Sim, senhor, mas no
disse tambm que faltam duas pessoas para o capital?

 Duas, sim; temos
oito.

 Quanto  o capital?

 O capital  de
cinqenta contos; cinco por pessoa.

 Pois entro com cinco.

Camacho agradeceu-lho
em nome das idias. Tinha inteno de convid-lo para entrar com eles; era um
direito adquirido pela convico, pela fidelidade, pelo amor aos negcios
pblicos do seu recente amigo. Uma vez que espontaneamente se alistou, pedia-lhe
que o desculpasse. Mostrou-lhe a lista dos outros; Camacho era o primeiro;
entrava com a folha, o material existente, as assinaturas, e o trabalho
hercleo... Ia a emendar-se, mas repetiu corajosamente: trabalho hercleo. Podia
dizer que o era, sem deslustre, nem mentira; esganou cobras, em criana. J
agora era um vcio; gostava da luta, morreria nela, envolvido na bandeira...

CAPTULO LXII

Rubio despediu-se. No
corredor passou por ele uma senhora alta, vestida de preto, com um arrudo de
seda e vidrilhos. Indo a descer a escada ouviu a voz do Camacho, mais alta do
que at ento:  Oh! senhora baronesa!

No primeiro degrau
parou. A voz argentina da senhora comeou a dizer as primeiras palavras; era uma
demanda. Baronesa! E o nosso Rubio ia descendo a custo, de manso, para no
parecer que ficara ouvindo. O ar metia-lhe pelo nariz acima um aroma fino e
raro, coisa de tontear, o aroma deixado por ela. Baronesa! Chegou  porta da
rua; viu parado um coup; o lacaio, em p, na calada, o cocheiro na
almofada, olhando; fardados ambos... Que novidade podia haver em tudo isso?
Nenhuma. Uma senhora titular, cheirosa e rica, talvez demandista para matar o
tdio. Mas o caso particular  que ele, Rubio, sem saber por que, e apesar do
seu prprio luxo, sentia-se o mesmo antigo professor de Barbacena...

CAPTULO LXIII

Na rua, encontrou Sofia
com uma senhora idosa e outra moa. No teve olhos para ver bem as feies
destas; todo ele foi pouco para Sofia. Falaram-se acanhadamente, dois minutos
apenas, e seguiram o seu caminho. Rubio parou adiante, e olhou para trs; mas
as trs senhoras iam andando sem voltar a cabea. Depois do jantar, consigo:

 Irei l
hoje?

Reflexionou muito sem
adiantar nada. Ora que sim, ora que no. Achara-lhe um modo esquisito; mas
lembrava-se que sorriu,  pouco, mas sorriu. Ps o caso  sorte. Se o primeiro
carro que passasse viesse da direita, iria; se viesse da esquerda, no. E
deixou-se estar na sala, no pouf central, olhando. Veio logo um tlburi
da esquerda. Estava dito; no ia a Santa Teresa. Mas aqui a conscincia reagiu;
queria os prprios termos da proposta: um carro. Tlburi no era carro. Devia
ser o que vulgarmente se chama carro, uma calea inteira ou meia, ou ainda uma
vitria. Da a pouco vieram chegando da direita muitas caleas, que voltavam de
um enterro. Foi.

CAPTULO LXIV

Sofia deu-lhe a mo
gentilmente, sem sombra de rancor. As duas senhoras do passeio estavam com ela,
em trajes caseiros; apresentou-as. A moa era prima, a velha era tia,  aquela
tia da roa, autora da carta que Sofia recebeu no jardim das mos do carteiro,
que logo depois deu uma queda. A tia chamava-se D. Maria Augusta; tinha uma
fazendola, alguns escravos e dvidas, que lhe deixara o marido, alm das
saudades. A filha era Maria Benedita,  nome que a vexava, por ser de velha,
dizia ela; mas a me retorquia-lhe que as velhas foram algum dia moas e
meninas, e que os nomes adequados s pessoas eram imaginaes de poetas e
contadores de histrias. Maria Benedita era o nome da av dela, afilhada de Lus
de Vasconcelos, o vice-rei. Que queria mais?

Contaram isto ao
Rubio, sem que ela se vexasse. Sofia, ou por atenuar o caso, ou por outro
motivo, acrescentou que os mais feios nomes eram lindos, segundo a pessoa. Maria
Benedita era lindssimo.

 No lhe parece?
concluiu voltando-se para Rubio.

 Deixa de caoada,
prima! acudiu Maria Benedita, rindo.

Podemos crer que a
velha nem Rubio entenderam o dito,  a velha, porque comeava a cochilar, 
Rubio porque afagava um cozinho que tinham dado a Sofia, pequeno, delgado,
leve, bulioso, olhos negros, com um guizo ao pescoo. Mas, insistindo a dona da
casa, ele respondeu que sim, sem saber o que era. Maria Benedita deu um muxoxo.
Em verdade, no era uma beleza; no lhe pedissem olhos que fascinam, nem dessas
bocas que segredam alguma coisa, ainda caladas; era natural, sem acanho de
roceira; e tinha um donaire particular, que corrigia as incoerncias do vestido.

Nascera na roa e
gostava da roa. A roa era perto, Iguau. De longe em longe vinha  cidade,
passar alguns dias; mas, ao cabo dos dois primeiros, j estava ansiosa por
tornar a casa. A educao foi sumria: ler, escrever, doutrina e algumas obras
de agulha. Nos ltimos tempos (ia em dezenove anos), Sofia apertou com ela para
aprender piano; a tia consentiu; Maria Benedita veio para a casa da prima, e ali
esteve uns dezoito dias. No pde mais; doeram-lhe as saudades da me e voltou
para a roa, deixando consternado o professor, que anunciou nela, desde os
primeiros dias, um grande talento musical.

 Oh! sem dvida, um
grande talento!

Maria Benedita riu-se
quando a prima lhe contou isto, e nunca mais pde ver a srio o homem. s vezes,
no meio de uma lio, deitava a rir: Sofia contraa as sobrancelhas, a modo de
ralho, e o pobre homem perguntava o que era, e de si mesmo explicava que havia
de ser alguma lembrana de moa, e continuava a lio. Nem piano nem francs, 
outra lacuna, que Sofia mal podia desculpar. D. Maria Augusta no compreendia a
consternao da sobrinha. Para que francs? A sobrinha dizia-lhe que era
indispensvel para conversar, para ir s lojas, para ler um
romance...

 Sempre fui feliz sem
francs, respondia a velha; e os meia-lnguas da roa so a mesma coisa: no
vivem pior que os crioulos.

Um dia
acrescentou:

 Nem por isso lhe ho
de faltar noivos. Pode casar, j lhe disse que pode casar quando quiser, que eu
tambm casei; e at deixar-me na roa, sozinha, morrer como uma besta velha...

 Mame!

 No tenha pena;  s
aparecer o noivo. Em aparecendo, v com ele, e deixe-me ficar. Olha Maria Jos o
que fez comigo? Vive l pelo Cear.

 Mas se o marido 
juiz de direito, ponderava Sofia.

 Torto que seja! Para
mim  a mesma coisa. C fica o frangalho da velha. Casa, Maria Benedita, casa
depressa; eu morrerei com Deus. No terei filhos, mas terei Nossa Senhora, que 
me de todos. Casa, anda, casa!

Toda essa rabugem era
clculo; tinha em mira arredar a filha do matrimnio, excitando-lhe o terror e a
piedade. Quando menos, retardar-lho. No creio que revelasse esse pecado ao
professor, nem que chegasse a entend-lo: era obra de um egosmo idoso e
melindroso. D. Maria Augusta fora longamente querida; a me era doida por ela, o
marido amou-a at o ltimo dia com a mesma intensidade. Mortos ambos, todas as
suas saudades filiais e matrimoniais foram postas na cabea das duas filhas.

Uma fugira-lhe,
casando. Ameaada da solido, se a outra casasse tambm, D. Maria Augusta fazia
tudo o que podia por evitar o desastre.

CAPTULO LXV

Curta foi a visita de
Rubio. s nove horas levantou-se ele discretamente, esperando qualquer palavra
de Sofia, um pedido para que ficasse ainda algum tempo, que esperasse o marido
que j vinha, um espanto que fosse: J! mas nem isso. Sofia estendeu-lhe
a mo, em que ele mal pde tocar. Contudo, a moa, durante a visita, mostrou-se
to natural, to sem azedume... No teve seguramente os olhos longos e loquazes,
como dantes; parecia at que no houvera nada, nem bem nem mal, nem morangos,
nem lua. Rubio tremia, no achava palavras; ela achava todas as que queria, e,
se era preciso olhar para ele, fazia-o direitamente, tranqilamente.

 Lembranas ao nosso
Palha, murmurou ele de chapu e bengala na mo.

 Obrigada! Foi fazer
uma visita; parece que ouo passos; h de ser ele.

No era ele; era Carlos
Maria. Rubio ficou espantado de o ver ali, mas achou logo que a presena da
fazendeira e da filha explicaria tudo; podia ser at que fossem aparentados.

 Ia saindo, quando o
senhor entrou, disse-lhe Rubio depois de o ver sentado ao p de D. Maria
Augusta.

 Ah! respondeu o
outro, olhando para o retrato de Sofia.

Sofia foi at  porta
despedir-se do Rubio; disse-lhe que o marido ficaria com pena de no estar em
casa; mas que a visita era imperiosa. Negcios... Iria pedir-lhe desculpa.

 Que desculpa? acudiu
Rubio.

Parece que quis dizer
ainda alguma coisa; mas o aperto de mo de Sofia e a reverncia que esta lhe fez
deram-lhe o sinal de despedida. Rubio inclinou-se, atravessou o jardim, ouvindo
a voz de Carlos Maria, na sala:

 Vou denunciar seu
marido, minha senhora;  homem de muito mau gosto.

Rubio parou.

 Por qu? disse Sofia.

 Tem este seu retrato
na sala, continuou Carlos Maria; a senhora  muito mais bela, infinitamente mais
bela que a pintura. Comparem, minhas senhoras.

CAPTULO LXVI

 Como ele diz aquelas
coisas to naturalmente! pensou Rubio, em casa, relembrando as palavras de
Carlos Maria. Desfazer no retrato s para elogiar a pessoa! Note-se que o
retrato  muito parecido.

CAPTULO LXVII

De manh, na cama, teve
um sobressalto. O primeiro jornal que abriu foi a Atalaia. Leu o artigo
editorial, uma correspondncia, e algumas notcias. De repente, deu com o seu
nome.

 Que  isto?

Era o seu prprio nome
impresso, rutilante, multiplicado, nada menos que uma notcia do caso da Rua da
Ajuda. Depois do sobressalto, aborrecimento. Que diacho de idia aquela de
imprimir um fato particular, contado em confiana? No quis ler nada; desde que
percebeu o que era, deitou a folha ao cho, e pegou em outra. Infelizmente,
perdera a serenidade, lia por alto, pulava algumas linhas, no entendia outras,
ou dava por si no fim de uma coluna sem saber como viera escorregando at ali.

Ao levantar-se,
sentou-se na poltrona, ao p da cama, e pegou da Atalaia. Lanou os olhos
pela notcia: era mais de uma coluna. Coluna e tanto para coisa to diminuta!
pensou consigo. E a fim de ver como  que Camacho enchera o papel, leu tudo, um
pouco s pressas, vexado dos adjetivos e da descrio dramtica do caso.

 Foi bem feito! disse
em voz alta. Quem me mandou ser linguarudo?

Passou ao banho,
vestiu-se, penteou-se, sem esquecer a bisbilhotice da folha, acanhado com a
publicao de um negcio, que ele reputava mnimo, e ainda mais pelo
encarecimento que lhe dera o escritor, como se tratasse de dizer bem ou mal em
poltica. Ao caf, pegou novamente na folha, para ler outras coisas, nomeaes
do governo, um assassinato em Garanhuns, meteorologia, at que a vista
desastrada foi cair na notcia, e leu-a ento com pausa. Aqui confessou Rubio
que bem podia crer na sinceridade do escritor. O entusiasmo da linguagem
explicava-se pela impresso que lhe ficou do fato; tal foi ela que lhe no
permitiu ser mais sbrio. Naturalmente  o que foi. Rubio recordou a sua
entrada no escritrio do Camacho, o modo por que falou; e da tornou atrs, ao
prprio ato. Estirado no gabinete, evocou a cena; o menino, o carro, os cavalos,
o grito, o salto que deu, levado de um mpeto irresistvel.  Agora mesmo no
podia explicar o negcio; foi como se lhe tivesse passado uma sombra pelos
olhos... Atirou-se  criana, e aos cavalos, cego e surdo, sem atender ao
prprio risco... E podia ficar ali, embaixo dos animais, esmagado pelas rodas,
morto ou ferido; ferido que fosse... Podia ou no podia? Era impossvel negar
que a situao foi grave... A prova  que os pais e a vizinhana...

Rubio interrompeu as
reflexes para ler ainda a notcia. Que era bem escrita, era. Trechos havia que
releu com muita satisfao. O diabo do homem parecia ter assistido  cena. Que
narrao! que viveza de estilo! Alguns pontos estavam acrescentados,  confuso
de memria,  mas o acrscimo no ficava mal. E certo orgulho que lhe notou ao
repetir-lhe o nome? "O nosso amigo, o nosso distintssimo amigo, o nosso valente
amigo...

Ao almoo, riu-se de si
mesmo; achou-se mortificado em demasia. Afinal, que tinha que o outro desse aos
seus leitores uma notcia que era verdadeira, que era interessante, dramtica, 
e seguramente,  no vulgar? Saindo, recebeu alguns cumprimentos; Freitas
chamou-lhe So Vicente de Paula. E o nosso amigo sorria, agradecia, diminua-se,
no era nada...

 Nada? replicou
algum. D-me muitos desses nadas. Salvar uma criana com risco da prpria
vida...

Rubio ia concordando,
ouvindo, sorrindo; contava a cena a alguns curiosos, que a queriam da prpria
boca do autor. Certos ouvintes respondiam com proezas suas,  um que salvara uma
vez um homem, outro uma menina, prestes a afogar-se no boqueiro do Passeio,
estando a tomar banho. Vinham tambm suicdios malogrados, por interveno do
ouvinte, que tomou a pistola ao infeliz, e f-lo jurar... Cada gloriazinha
oculta picava o ovo, e punha a cabea de fora, olho aberto, sem penas, em volta
da glria mxima do Rubio. Tambm teve invejosos, alguns que nem o conheciam,
s por ouvi-lo louvar em voz alta. Rubio foi agradecer a notcia ao Camacho,
no sem alguma censura pelo abuso de confiana, mas uma censura mole, ao canto
da boca. Dali foi comprar uns tantos exemplares da folha para os amigos de
Barbacena. Nenhuma outra transcreveu a notcia; ele, a conselho do Freitas,
f-la reimprimir nos a pedidos do Jornal do Comrcio,
entrelinhada.

CAPTULO LXVIII

Maria Benedita
consentiu finalmente em aprender francs e piano. Durante quatro dias a prima
teimou com ela, a todas as horas, de tal arte e maneira, que a me da moa
resolveu apressar a volta  fazenda, para evitar que ela acabasse aceitando. A
filha resistiu muito; respondia que eram coisas suprfluas, que moa de roa no
precisa de prendas da cidade. Uma noite, porm, estando ali Carlos Maria,
pediu-lhe este que tocasse alguma coisa; Maria Benedita fez-se vermelha. Sofia
acudiu com uma mentira:

 No lhe pea isso;
ainda no tocou depois que veio. Diz que agora s toca para os roceiros.

 Pois faa de conta
que somos roceiros, insistiu o moo.

Mas passou logo a outra
coisa, ao baile da baronesa do Piau (a mesma que o nosso amigo Rubio encontrou
no escritrio do Camacho), um baile esplndido, oh! esplndido! A baronesa
prezava-o muito, disse ele. No dia seguinte, Maria Benedita declarou  prima que
estava pronta a aprender piano e francs, rabeca e at russo, se quisesse. A
dificuldade era vencer a me. Esta, quando soube da resoluo da filha, ps as
mos na cabea. Que francs? que piano? Bradou que no, ou ento que deixasse de
ser sua filha; podia ficar, tocar, cantar, falar cabinda ou a lngua do diabo
que os levasse a todos. Palha  que a persuadiu finalmente; disse-lhe que, por
mais suprfluas que lhe parecessem aquelas prendas, eram o mnimo dos adornos de
uma educao de sala.

 Mas eu criei minha
filha na roa e para a roa, interrompeu a tia.

 Para a roa? Quem
sabe l para que cria os filhos? Meu pai destinava-me a padre;  por isso que
arranho algum latim. A senhora no h de viver sempre; os seus negcios andam
atrapalhados. Pode acontecer que Maria Benedita fique ao desamparo... Ao
desamparo, no digo; enquanto vivermos somos todos uma s pessoa. Mas no 
melhor prevenir? Podia ser at que, se lhe faltssemos todos, ela vivesse 
larga, s com ensinar francs e piano. Basta que os saiba para estar em
condies melhores.  bonita, como a senhora foi no seu tempo; e possui raras
qualidades morais. Pode achar marido rico. Sabe a senhora se j tenho algum em
vista, pessoa sria?

 Sim? Ento ela vai
aprender francs, piano e namoro?

 Que namoro? Refiro-me
a um pensamento ntimo, a um plano que me parece adequado  felicidade dela e de
sua me... Pois eu havia... Ora, tia Augusta!

Palha mostrou-se to
mortificado, que a tia deixou o tom spero pelo tom seco. Resistiu ainda; mas a
noite deu-lhe bons conselhos. O estado dos seus negcios, e a possibilidade de
um genro abastado fizeram mais que outras razes. Os melhores genros da roa
aliavam-se a outras fazendas, a famlias de representao e riqueza segura. Dois
dias depois acharam um modus vivendi. Maria Benedita ficaria com a prima;
iriam de quando em quando  roa, e a tia tambm viria  capital, para v-las.
Palha chegou a dizer que, logo que o estado da praa o permitisse, arranjaria
meio de liquidar-lhe os negcios e transport-la para aqui. Mas a isto a boa
senhora abanou a cabea.

No se pense que tudo
isso foi to fcil como a fica escrito. Na prtica, vieram os bices,
amofinaes, saudades, rebelies de Maria Benedita. Dezoito dias depois da volta
da me  fazenda, quis ir visit-la, e a prima acompanhou-a; estiveram l uma
semana. A me, dois meses depois, veio passar uns dias aqui. Sofia acostumava
habilmente a prima s distraes da cidade; teatros, visitas, passeios, reunies
em casa, vestidos novos, chapus lindos, jias. Maria Benedita era mulher, posto
que mulher esquisita; gostou de tais coisas, mas tinha para si que, logo que
quisesse, podia arrebentar todos esses liames, e andar para a roa. A roa vinha
ter com ela, s vezes, em sonho ou simples devaneio. Depois dos primeiros
saraus, quando voltava para casa, no eram as sensaes da noite que lhe enchiam
a alma, eram as saudades de Iguau. Cresciam-lhe mais a certas horas do dia,
quando a quietao da casa e da rua era completa. Ento batia as asas para a
varanda da velha casa, onde bebia caf, ao p da me; pensava na escravaria, nos
mveis antigos, nas botinas chinelas que lhe mandara o padrinho, um fazendeiro
rico de So Joo del-Rei,  e que l ficaram em casa. Sofia no consentiu que
ela as trouxesse.

Os mestres de francs e
piano eram homens sabedores do ofcio. Sofia teve modo de dizer-lhes em
particular que a prima vexava-se de aprender to tarde, e pediu-lhes que no
falassem nunca de tal discpula. Prometeram que sim; o de piano apenas referiu o
pedido a alguns colegas da arte, que lhe acharam graa, e contaram outras
anedotas da clientela. O certo  que Maria Benedita aprendia com singular
facilidade, estudava com afinco, quase todas as horas, a tal ponto que a mesma
prima julgava acertado interromp-la.

 Descansa, filha de
Deus!

 Deixa recobrar o
tempo perdido, respondia ela rindo.

Ento Sofia inventava
passeios,  toa, para faz-la descansar. Ora um bairro, ora outro. Em certas
ruas, Maria Benedita no perdia tempo: lia as tabuletas francesas, e perguntava
pelos substantivos novos, que a prima, algumas vezes, no sabia dizer o que
eram, to estritamente adequado era o seu vocabulrio s coisas do vestido, da
sala e do galanteio.

Mas no era s nessas
disciplinas que Maria Benedita fazia progressos rpidos. A pessoa ajustara-se ao
meio, mais depressa do que fariam crer o gosto natural e a vida da roa. J
competia com a outra, embora houvesse nesta um desgarre, e no sei que expresso
particular que, para assim dizer, dava cor a todas as linhas e gestos da figura.
No obstante essa diferena,  certo que a outra era vista e notada ao p dela,
de tal jeito que Sofia, que comeara por louv-la em toda a parte, no a
deslouvava agora, mas ouvia calada as admiraes. Falava bem;  mas, quando
calava, era por muito tempo; dizia que eram os seus "calundus". Contradanava
sem vida, que  a perfeio desse gnero de recreio; gostava muito de ver polcar
e valsar. Sofia, imaginando que era por medo que a prima no valsava nem
polcava, quis dar-lhe algumas lies em casa, sozinhas, com o marido ao piano;
mas a prima recusava sempre.

 Isso  ainda um
bocadinho de casca da roa, disse-lhe uma vez Sofia.

Maria Benedita sorriu
de um modo to particular, que a outra no insistiu. No foi riso de vexame, nem
de despeito, nem de desdm. Desdm, por qu? Contudo,  certo que o riso parecia
vir de cima. No menos o  que Sofia polcava e valsava com ardor, e ningum se
pendurava melhor do ombro do parceiro; Carlos Maria, que era raro danar, s
valsava com Sofia,  dois ou trs giros, dizia ele;  Maria Benedita contou uma
noite quinze minutos.

CAPTULO LXIX

Os quinze minutos foram
contados no relgio do Rubio, que estava ao p da Maria Benedita, e a quem ela
perguntou duas vezes que horas eram, no princpio e no fim da valsa. A prpria
moa inclinou-se para ver bem o ponteiro dos minutos.

 Est com sono?
perguntou Rubio.

Maria Benedita olhou
para ele de soslaio. Viu-lhe o rosto plcido, sem inteno nem riso.

 No, respondeu;
digo-lhe at que estou com medo que prima Sofia se lembre de ir cedo para casa.

 No vai cedo. J
acabou a desculpa de Santa Teresa, por causa da subida. A casa fica perto daqui.

De fato, as duas
moravam agora na Praia do Flamengo, e o baile era na Rua dos Arcos.

 de saber que tinham
decorrido oito meses desde o princpio do captulo anterior, e muita coisa
estava mudada. Rubio  scio do marido de Sofia, em uma casa de importao, 
Rua da Alfndega, sob a firma Palha & Cia. Era o negcio que este ia
propor-lhe, naquela noite, em que achou o Dr. Camacho na casa de Botafogo.
Apesar de fcil, Rubio recuou algum tempo. Pediam-lhe uns bons pares de contos
de ris, no entendia de comrcio, no lhe tinha inclinao. Demais, os gastos
particulares eram j grandes; o capital precisava do regmen do bom juro e
alguma poupana, a ver se recobrava as cores e as carnes primitivas. O regmen
que lhe indicavam no era claro; Rubio no podia compreender os algarismos do
Palha, clculos de lucros, tabelas de preo, direitos da alfndega, nada; mas, a
linguagem falada supria a escrita. Palha dizia coisas extraordinrias,
aconselhava ao amigo que aproveitasse a ocasio para pr o dinheiro a caminho,
multiplic-lo. Se tinha medo, era diferente; ele, Palha, faria o negcio com
John Roberts, scio que foi da casa Wilkinson, fundada em 1844, cujo chefe
voltou para a Inglaterra, e era agora membro do Parlamento.

Rubio no cedeu logo,
pediu prazo, cinco dias. Consigo era mais livre; mas desta vez a liberdade s
servia para atordo-lo. Computou os dinheiros despendidos, avaliou os rombos
feitos no cabedal, que lhe deixara o filsofo. Quincas Borba, que estava com ele
no gabinete, deitado, levantou casualmente a cabea e fitou-o. Rubio
estremeceu; a suposio de que naquele Quincas Borba podia estar a alma do outro
nunca se lhe varreu inteiramente do crebro. Desta vez chegou a ver-lhe um tom
de censura nos olhos; riu-se, era tolice; cachorro no podia ser homem.
Insensivelmente, porm, abaixou a mo e coou as orelhas ao animal, para
capt-lo.

Atrs dos motivos de
recusa, vieram outros contrrios. E se o negcio rendesse? Se realmente lhe
multiplicasse o que tinha? Acrescia que a posio era respeitvel, e podia
trazer-lhe vantagens na eleio, quando houvesse de propor-se ao Parlamento,
como o velho chefe da casa Wilkinson. Outra razo mais forte ainda era o receio
de magoar o Palha, de parecer que lhe no confiava dinheiros, quando era certo
que, dias antes, recebera parte da dvida antiga, e a outra parte restante devia
ser-lhe restituda dentro de dois meses.

Nenhum desses motivos
era pretexto de outro; vinham de si mesmos. Sofia s apareceu no fim, sem deixar
de estar nele, desde o princpio, idia latente, inconsciente, uma das causas
ltimas do ato, e a nica dissimulada. Rubio abanou a cabea para expedi-la, e
levantou-se. Sofia (dona astuta!) recolheu-se  inconscincia do homem,
respeitosa da liberdade moral, e deixou-o resolver por si mesmo que entraria de
scio com o marido, mediante certas clusulas de segurana. Foi assim que se fez
a sociedade comercial; assim  que Rubio legalizou a assiduidade das suas
visitas.

 Senhor Rubio, disse
Maria Benedita depois de alguns segundos de silncio, no lhe parece que minha
prima  bem bonita?

 No desfazendo na
senhora, acho.

 Bonita e bem
feita.

Rubio aceitou o
complemento. Um e outro acompanharam com os olhos o par de valsistas, que
passeava ao longo do salo. Sofia estava magnfica. Trajava de azul escuro,
muito decotada,  pelas razes ditas no captulo XXXV; os braos nus, cheios,
com uns tons de ouro claro, ajustavam-se s espduas e aos seios, to
acostumados ao gs do salo. Diadema de prolas feitias, to bem acabadas, que
iam de par com as duas prolas naturais, que lhe ornavam as orelhas, e que
Rubio lhe dera um dia.

Ao lado dela, Carlos
Maria no ficava mal. Era um rapaz galhardo, como sabemos, e trazia os mesmos
olhos plcidos do almoo do Rubio. No tinha as maneiras sbditas, nem as
curvas reverentes dos outros rapazes; exprimia-se com a graa de um rei
benvolo. Entretanto, se,  primeira vista, parecia fazer apenas um obsquio
quela senhora, no  menos certo que ia desvanecido, por trazer ao lado a mais
esbelta mulher da noite. Os dois sentimentos no se contradiziam; fundiam-se
ambos na adorao que este moo tinha de si mesmo. Assim, o contato de Sofia era
para ele como a prosternao de uma devota. No se admirava de nada. Se um dia
acordasse imperador, s se admiraria da demora do Ministrio em vir
cumpriment-lo.

 Vou descansar um
pouco, disse Sofia.

 Est cansada ou...
aborrecida? perguntou-lhe o braceiro.

 Oh! cansada apenas!

Carlos Maria,
arrependido de haver suposto a outra hiptese, deu-se pressa em elimin-la.

 Sim, creio; por que 
que estaria aborrecida? Mas eu afirmo que  capaz de fazer-me o sacrifcio de
passear ainda algum tempo. Cinco minutos?

 Cinco minutos.

 Nem mais um que seja?
Pela minha parte passearia a eternidade.

Sofia abaixou a cabea.

 Com a senhora, note
bem.

Sofia deixou-se ir com
os olhos no cho, sem contestar, sem concordar, sem agradecer, ao menos. Podia
no ser mais que uma galanteria, e as galanterias  de uso que se agradeam. J
lhe tinha ouvido outrora palavras anlogas, dando-lhe a primazia entre as
mulheres deste mundo. Deixou de as ouvir durante seis meses,  quatro que ele
gastou em Petrpolis, dois em que lhe no apareceu. Ultimamente  que tornou a
freqentar a casa, a dizer-lhe finezas daquelas, ora em particular, ora  vista
de toda a gente. Deixou-se ir; e ambos foram andando calados, calados, calados,
 at que ele rompeu o silncio, notando-lhe que o mar defronte  casa dela
batia com muita fora, na noite anterior.

 Passou l? perguntou
Sofia.

 Estive l; ia pelo
Catete, j tarde, e lembrou-me descer  Praia do Flamengo. A noite era clara;
fiquei cerca de uma hora, entre o mar e a sua casa. A senhora aposto que nem
sonhava comigo? Entretanto, eu quase que ouvia a sua respirao.

Sofia tentou sorrir;
ele continuou:

 O mar batia com
fora,  verdade, mas o meu corao no batia menos rijamente;  com esta
diferena que o mar  estpido, bate sem saber por que, e o meu corao sabe que
batia pela senhora.

 Oh! murmurou Sofia.

Com espanto? Com
indignao? Com medo? So muitas perguntas a um tempo. Estou que a prpria dama
no poderia responder exatamente, tal foi o abalo que lhe trouxe a declarao do
moo. Em todo caso, no foi com incredulidade. No posso dizer mais seno que a
exclamao saiu to frouxa, to abafada que ele mal pde ouvi-la. Pela sua
parte, Carlos Maria disfarou bem, ante os olhos de toda a sala; nem antes, nem
durante, nem depois das palavras, mostrou no rosto a menor comoo; tinha at
umas sombras de riso custico, um riso de seu uso, quando mofava de algum;
parecia ter dito um epigrama. Contudo, mais de um olho de mulher espreitava a
alma de Sofia, estudava o gesto da moa, tal ou qual acanhado, e as plpebras
teimosamente cadas.

 A senhora est
perturbada, disse ele; disfarce com o leque.

Sofia maquinalmente
entrou a abanar-se e levantou os olhos. Viu que muitos outros a fitavam, e
empalideceu. Os minutos iam correndo, com a mesma brevidade dos anos; os
primeiros cinco e os segundos iam longe; estavam no dcimo terceiro, atrs deste
iam apontando as asas de outro, e mais outro. Sofia disse ao braceiro que queria
sentar-se.

 Vou deix-la e
retiro-me.

 No, disse ela
precipitadamente.

Depois,
emendou-se:

 O baile est bonito.

 Est, mas eu quero
levar comigo a melhor recordao da noite. Qualquer outra palavra que oua agora
ser como o coaxar das rs, depois do canto de um lindo pssaro, um dos seus
pssaros l de casa. Onde quer que a deixe?

 Ao lado de minha
prima.

CAPTULO LXX

Rubio cedeu a cadeira,
e acompanhou Carlos Maria, que atravessou a sala, e foi at o gabinete da
entrada, onde estavam os sobretudos e uns dez homens conversando. Antes que o
rapaz entrasse no gabinete, Rubio pegou-lhe do brao, familiarmente, para lhe
perguntar alguma coisa,  fosse o que fosse,  mas, em verdade, para ret-lo
consigo, e procurar sond-lo. Comeava a crer possvel ou real uma idia que o
atormentava desde muitos dias. Agora, a conversao dilatada, os modos dela...

Carlos Maria no tinha
notcia da longa paixo do mineiro, guardada, mortificada, no se podendo
confessar a ningum,  esperando os benefcios do acaso,  contentando-se de
pouco, da simples vista da pessoa, dormindo mal as noites, dando dinheiro para
as operaes mercantis... Que ele no tinha cimes do marido. Nunca a intimidade
do casal lhe excitara os dios contra o legtimo senhor. E l iam meses e meses,
sem alterao do sentimento, nem morte da esperana. Mas a possibilidade de um
rival de fora veio atordo-lo; aqui  que o cime trouxe ao nosso amigo uma
dentada de sangue.

 Que ? disse Carlos
Maria voltando-se.

Ao mesmo tempo entrou
no gabinete, onde os dez homens tratavam de poltica, porque este baile,  ia-me
esquecendo diz-lo,  era dado em casa de Camacho, a propsito dos anos da
mulher. Quando os dois ali entraram, a conversao era geral, o assunto o mesmo,
e todos falavam para todos,  um turbilho de ditos, de pareceres, de afirmaes
diversas... Um, que era doutrinrio, conseguiu dominar os outros, que se calaram
por instantes, fumando.

 Podem fazer tudo,
disse o doutrinrio, mas a punio moral  certa. As dvidas dos partidos
pagam-se com juros at o ltimo real e at a ltima gerao. Princpios no
morrem; os partidos que o esquecem expiram no lodo e na ignomnia.

Outro, meio calvo, no
acreditava na punio moral, e dizia por que; mas um terceiro aludiu  demisso
de uns coletores, e os espritos, meio tontos com a doutrina, tomaram p. Os
coletores no tinham outra culpa, alm da opinio; e nem ao menos se podia
defender o ato com o merecimento dos substitutos. Um destes trazia s costas um
desfalque; outro era cunhado de um tal Marques que dera um tiro de garrucha no
delegado, em So Jos dos Campos... E os novos tenentes-coronis? Verdadeiros
rus de polcia.

 J se vai embora?
perguntou Rubio ao moo, quando o viu tirar o sobretudo dentre os outros.

 J; estou com sono.
Ajude-me a enfiar esta manga. Estou com sono.

 Mas ainda  cedo;
fique. O nosso Camacho no deseja que os rapazes saiam; quem  que h de danar
com as moas?

Carlos Maria replicou
sorrindo que era pouco dado a danas. Valsara com D. Sofia, por ser mestra no
ofcio; seno, nem isso. Estava com sono; preferia a cama  orquestra. E
estendeu-lhe a mo com benignidade; Rubio apertou-lha, meio incerto.

No sabia que pensasse.
O fato de sair, de a deixar no baile, em vez de esperar para acompanh-la 
carruagem, como de outras vezes... Podia ser engano dele... E pensava, recordava
a noite de Santa Teresa, quando ele ousou declarar  moa o que sentia
pegando-lhe na bela mo delicada... O major interrompera-os; mas por que no
insistiu ele mais tarde? Nem ela o maltratou, nem o marido percebera coisa
nenhuma... Aqui voltava a idia do possvel rival;  certo que se retirara com
sono, mas os modos dela... Rubio ia  porta do salo, para ver Sofia, depois
chegava-se a um canto, ou  mesa do voltarete, inquieto, aborrecido.

CAPTULO LXXI

Em casa, ao
despentear-se, Sofia falou daquele sarau como de uma coisa enfadonha. Bocejava,
doam-lhe as pernas. Palha discordava; era m disposio dela. Se lhe doam as
pernas  porque danara muito. Ao que retorquiu a mulher que, se no danasse,
teria morrido de tdio. E ia tirando os grampos, deitando-os num vaso de
cristal; os cabelos caam-lhe aos poucos sobre os ombros, mal cobertos pela
camisola de cambraia. Palha, por trs dela, disse-lhe que o Carlos Maria valsava
muito bem. Sofia estremeceu; fitou-o no espelho, o rosto era plcido. Concordou
que no valsava mal.

 No, senhora, valsa
muito bem.

 Voc louva os outros
porque sabe que ningum  capaz de o desbancar. Anda, meu vaidoso, j te
conheo.

Palha estendendo a mo
e pegando-lhe no queixo, obrigou-a a olhar para ele. Vaidoso por qu? por que 
que ele era vaidoso?

 Ai, gemeu Sofia; no
me machuques.

Palha beijou-lhe a
espdua; ela sorriu, sem tdio, sem dor de cabea, ao contrrio daquela noite de
Santa Teresa, em que relatou ao marido os atrevimentos do Rubio.  que os
morros sero doentios, e as praias saudveis.

No dia seguinte, Sofia
acordou cedo, ao som dos trilos da passarada de casa, que parecia dar-lhe um
recado de algum. Deixou-se estar na cama, e fechou os olhos para ver melhor.

Ver melhor o qu? No,
seguramente, os morros doentios. A praia era outra coisa. Posta  janela, dali a
meia hora, Sofia contemplava as ondas que vinham morrer defronte, e, ao longe,
as que se levantavam e desfaziam  entrada da barra. A imaginosa dama perguntava
a si mesma se aquilo era a valsa das guas, e deixava-se ir por essa torrente
abaixo, sem velas nem remos. Deu consigo olhando para a rua, ao p do mar, como
procurando os sinais do homem que ali estivera, na antevspera, alta noite...
No juro, mas cuido que achou os sinais. Ao menos,  certo que cotejou o achado
com o texto da conversao:

A noite era clara;
fiquei cerca de uma hora, entre o mar e a sua casa. A senhora aposto que nem
sonhava comigo? Entretanto, eu quase que ouvia a sua respirao. O mar batia com
fora,  verdade, mas o meu corao no batia menos rijamente; com esta
diferena que o mar  estpido, bate sem saber por que, e o meu corao sabe que
batia pela senhora."

Sofia teve um calafrio,
procurou esquecer o texto, mas o texto ia-se repetindo: "A noite era clara..."

CAPTULO LXXII

Entre duas frases,
sentiu que algum lhe punha a mo no ombro; era o marido, que acabava de tomar
caf e ia para a cidade. Despediram-se afetuosamente; Cristiano recomendou-lhe
Maria Benedita, que acordara muito aborrecida.

 J de p! exclamou
Sofia.

 Quando eu desci, j a
achei na sala de jantar. Acordou com a mania de ir para a roa; teve um sonho...
no sei que...

 Calundus! concluiu
Sofia.

E com os dedos hbeis e
leves concertou a gravata ao marido, puxou-lhe a gola do fraque para diante, e
despediram-se outra vez. Palha desceu e saiu; Sofia deixou-se estar  janela.
Antes de dobrar a esquina, ele voltou a cabea, e, na forma do costume, disseram
adeus com a mo.

CAPTULO LXXIII

"A noite era clara;
fiquei cerca de uma hora entre o mar e a sua casa. A senhora aposto
que...

Quando Sofia pde
arrancar-se de todo  janela, o relgio de baixo batia nove horas. Zangada,
arrependida, jurou a si mesma, pela alma da me, no pensar mais em semelhante
episdio. Considerou que no valia nada; o erro foi deixar que o rapaz chegasse
ao fim dos seus atrevimentos. Verdade  que, procedendo assim, evitou algum
grande escndalo, porque ele era capaz de a acompanhar at a cadeira e dizer-lhe
o resto ao p de outras pessoas. E o resto repetia-se ainda uma vez na memria
dela, como um trecho musical teimoso, as mesmas palavras, e a mesma voz: "A
noite era clara; fiquei cerca de uma hora...

CAPTULO LXXIV

Enquanto ela repetia a
declarao da vspera, Carlos Maria abria os olhos, estirava os membros, e,
antes de ir para o banho, vestir-se e dar um passeio a cavalo, reconstruiu a
vspera. Tinha esse costume; achava sempre nos sucessos do dia anterior algum
fato, algum dito, alguma nota que lhe fazia bem. A  que o esprito se
demorava; a eram as estalagens do caminho, onde ele descavalgava, para beber
vagarosamente um gole d'gua fresca. Se no havia sucesso nenhum desses,  ou se
os havia s contrrios, nem por isso as sensaes eram desconfortativas;
bastava-lhe o sabor de alguma palavra que ele mesmo houvesse dito,  de algum
gesto que fizesse, a contemplao subjetiva, o gosto de ter sentido viver, 
para que a vspera no fosse um dia perdido.

Na vspera figurava
Sofia. Parece at que foi o principal da reconstruo, a fachada do edifcio,
larga e magnfica. Carlos Maria saboreou de memria toda a conversao da noite,
mas, quando se lembrou da confisso de amor, sentiu-se bem e mal. Era um
compromisso, um estorvo, uma obrigao; e, posto que o benefcio corrigisse o
tdio, o rapaz ficou entre uma e outra sensao, sem plano. Ao recordar-se da
notcia que lhe deu de haver ido  Praia do Flamengo, na outra noite, no pde
suster o riso, porque no era verdade. Nascera-lhe a idia da prpria
conversao; mas nem l foi nem pensara nisso. Afinal susteve o riso, e at
arrependeu-se dele; o fato de haver mentido trouxe-lhe uma sensao de
inferioridade, que o abateu. Chegou a pensar em retificar o que dissera, logo
que estivesse com Sofia, mas reconheceu que a emenda era pior que o soneto, e
que h bonitos sonetos mentirosos.

Depressa ergueu a alma.
Viu de memria a sala, os homens, as mulheres, os leques impacientes, os bigodes
despeitados, e estirou-se todo num banho de inveja e admirao. De inveja
alheia, note-se bem; ele carecia desse sentimento ruim. A inveja e a admirao
dos outros  que lhe davam ainda agora uma delcia ntima. A princesa do baile
entregava-se-lhe. Definia assim a superioridade de Sofia, posto lhe conhecesse
um defeito capital,  a educao. Achava que as maneiras polidas da moa vinham
da imitao adulta, aps o casamento, ou pouco antes, que ainda assim no subiam
muito do meio em que vivia.

CAPTULO LXXV

Outras mulheres vieram
ali,  as que o preferiam aos demais homens no trato e na contemplao da
pessoa. Se as requestava ou requestara todas? No se sabe. Algumas, v:  certo,
porm, que se deleitava com todas elas. Tais havia de provada honestidade que
folgavam de o trazer ao p de si, para gostar o contato de um belo homem, sem a
realidade nem o perigo da culpa,  como o espectador que se regala das paixes
de Otelo, e sai do teatro com as mos limpas da morte de Desdmona.

Vinham todas rodear o
leito de Carlos Maria, tecendo-lhe a mesma grinalda. Nem todas seriam moas em
flor; mas a distino supria a juvenilidade. Carlos Maria recebia-as, como um
deus antigo devia receber, quieto no mrmore, as lindas devotas e suas
oferendas. No burburinho geral distinguia as vozes de todas,  no todas a um
tempo,  mas s trs e s quatro.

A derradeira delas foi
a da recente Sofia; escutou-a ainda namorado, mas sem o alvoroo do princpio,
porque a lembrana das outras donas, pessoas de qualidade, diminua agora a
importncia desta. Contudo, no podia negar que era muito atrativa e que valsava
perfeitamente. Chegaria a amar com fora? Nisto apareceu-lhe outra vez a mentira
da praia. Levantou-se aborrecido da cama.

 Quem diabo me mandou
dizer semelhante coisa?

Tornou a sentir o
desejo de restabelecer a verdade; e desta vez mais seriamente que da outra.
Mentir, pensava ele, era para os lacaios e seus congneres.

Da a meia hora,
trepava ao cavalo e saa de casa, que era na Rua dos Invlidos. Catete adiante,
lembrou-se que a casa de Sofia era na Praia do Flamengo; nada mais natural que
torcer a rdea, descer uma das ruas perpendiculares ao mar, e passar pela porta
da valsista. Ach-la-ia talvez  janela; v-la-ia corar, cumpriment-lo. Tudo
isto passou pela cabea ao rapaz, em poucos segundos; chegou a dar um jeito 
rdea, mas a alma,  no o cavalo,  a alma empinou; era ir muito depressa atrs
dela. Deu outro jeito  rdea, e continuou o passeio.

CAPTULO LXXVI

Montava bem. Toda a
gente que passava, ou estava s portas, no se fartava de mirar a postura do
moo, o garbo, a tranqilidade rgia com que se deixava ir. Carlos Maria,  e
este era o ponto em que cedia  multido,  recolhia as admiraes todas, por
nfimas que fossem. Para ador-lo, todos os homens faziam parte da humanidade.

CAPTULO LXXVII

 J de p! repetiu
Sofia, ao ver a prima lendo os jornais.

Maria Benedita teve um
sobressalto, mas aquietou-se logo; dormira mal, e acordou cedo. No estava para
aquelas folias at to tarde, disse ela; mas a outra replicou logo que era
preciso acostumar-se, a vida do Rio de Janeiro no era a mesma da roa, dormir
com as galinhas e acordar com os galos. Depois perguntou-lhe que impresses
trouxera do baile; Maria Benedita levantou os ombros com indiferena, mas
verbalmente respondeu que boas. As palavras saam-lhe poucas e moles. Sofia,
entretanto, ponderou-lhe que danara muito, salvo polcas e valsas. E por que no
havia de polcar e valsar tambm? A prima lanou-lhe uns olhos maus.

 No gosto.

 Qual no gosta! 
medo.

 Medo?

 Falta de costume,
explicou Sofia.

 No gosto que um
homem me aperte o corpo ao seu corpo, e ande comigo, assim,  vista dos outros.
Tenho vexame.

Sofia tornou-se sria;
no se defendeu nem continuou, falou da roa, perguntou se era certo o que lhe
dissera Cristiano, que ela queria ir para casa. Ento a prima, que folheava os
jornais,  toa, respondeu animadamente que sim; no podia viver sem a me.

 Mas por qu? Voc no
estava to contente conosco?

Maria Benedita no
disse nada; passeou os olhos em um dos jornais, como se procurasse alguma
notcia, trincando o beio, trmula, inquieta. Sofia teimou em querer saber a
causa daquela mudana repentina; pegou-lhe nas mos, achou-as frias.

 Voc precisa casar,
disse finalmente. Tenho j um noivo.

Era Rubio; o Palha
queria acabar por a, casando o scio com a prima; tudo ficava em casa, dizia
ele  mulher. Esta tomou a si guiar o negcio. Acudia-lhe agora a promessa;
tinha um noivo pronto.

 Quem? perguntou Maria
Benedita.

 Uma pessoa.

Cr-lo-eis, psteros?
Sofia no pde soltar o nome de Rubio. J uma vez dissera ao marido hav-lo
proposto, e era mentira. Agora, indo a prop-lo deveras, o nome no lhe saiu da
boca. Cimes? Seria singular que esta mulher, que no tinha amor quele homem,
no quisesse d-lo de noivo  prima, mas a natureza  capaz de tudo, amigo e
senhor. Inventou o cime de Otelo e o do cavaleiro Desgrieux, podia inventar
este outro de uma pessoa que no quer ceder o que no quer possuir.

 Mas quem? repetiu
Maria Benedita.

 Direi depois,
deixe-me arranjar as coisas, respondeu Sofia, e mudou de conversa.

Maria Benedita trocou
de rosto; a boca encheu-se-lhe de riso, um riso de alegria e de esperana. Os
olhos agradeceram a promessa, e disseram palavras que ningum podia ouvir nem
entender, palavras obscuras:

 Gosta de valsar;  o
que .

Gosta de valsar quem?
Provavelmente a outra. Tinha valsado tanto na vspera, com o mesmo Carlos Maria,
que bem se poderia achar na dana um pretexto; Maria Benedita conclua agora que
era o prprio e nico motivo. Conversaram muito nos intervalos,  certo, mas
naturalmente era dela que falavam, uma vez que a prima tinha a peito cas-la e
s lhe pedia que deixasse arranjar as coisas. Talvez ele a achasse feia, ou sem
graa. Uma vez, porm, que a prima queria arranjar as coisas... Tudo isso diziam
os olhos gaios da menina.

CAPTULO LXXVIII

Rubio  que no perdeu
a suspeita assim to facilmente. Pensou em falar a Carlos Maria, interrog-lo, e
chegou a ir  Rua dos Invlidos, no dia seguinte, trs vezes; no o encontrando,
mudou de parecer. Encerrou-se por alguns dias; o Major Siqueira arrancou-o 
solido. Ia participar-lhe que se mudara para a Rua Dois de Dezembro. Gostou
muito da casa do nosso amigo, das alfaias, do luxo, de todas as mincias, ouros
e bambinelas. Sobre este assunto discorreu longamente, relembrando alguns mveis
antigos. Parou de repente, para dizer que o achava aborrecido; era natural,
faltava-lhe ali um complemento.

 O senhor  feliz, mas
falta-lhe aqui uma coisa; falta-lhe mulher. O senhor precisa casar. Case-se, e
diga que eu o engano.

Rubio lembrou-se de
Santa Teresa,  daquela famosa noite da conversao com Sofia,  e sentiu
correr-lhe um frio pelas costas; mas a voz do major no tinha nenhum sarcasmo.
Tampouco era animada de interesse. A filha estava ainda qual a deixamos no
captulo XLIII, com a diferena que os quarenta anos vieram. Quarentona,
solteirona. Gemeu-os consigo, logo de manh, no dia em que os completou; no ps
fita nem rosa no cabelo. Nenhuma festa; to-somente um discurso do pai, ao
almoo, lembrando-lhe a vida de criana, anedotas da me e da av, um domin de
baile de mscaras, um batizado de 1848, a solitria de um Coronel Clodomiro,
vrias coisas assim de mistura, para entreter as horas. D. Tonica mal podia
ouvi-lo; metida em si mesma, ia roendo o po da solitude moral, ao passo que se
arrependia dos ltimos esforos empregados na busca de um marido. Quarenta anos;
era tempo de parar.

Nada disso lembrava
agora ao major. Era sincero; achou que a casa de Rubio no tinha alma. E
repetiu, ao despedir-se:

 Case-se, e diga que
eu o engano.

CAPTULO LXXIX

 E por que no?
perguntou uma voz, depois que o major saiu.

Rubio, apavorado,
olhou em volta de si; viu apenas o cachorro, parado, olhando para ele. Era to
absurdo crer que a pergunta viria do prprio Quincas Borba,  ou antes do outro
Quincas Borba, cujo esprito estivesse no corpo deste, que o nosso amigo sorriu
com desdm; mas, ao mesmo tempo, executando o gesto do captulo XLIX, estendeu a
mo, e coou amorosamente as orelhas e a nuca do cachorro,  ato prprio a dar
satisfao ao possvel esprito do finado.

Era assim que o nosso
amigo se desdobrava, sem pblico, diante de si mesmo.

CAPTULO LXXX

Mas a voz repetiu:  E
por que no?  Sim, por que no havia de casar, continuou ele raciocinando.
Mataria a paixo que o ia comendo aos poucos, sem esperana nem consolao.
Demais, era a porta de um mistrio. Casar, sim; casar logo e bem.

Estava ao porto,
quando esta idia comeou a abotoar; foi dali para dentro, subindo os degraus de
pedra, abrindo a porta, sem conscincia de nada. Ao fechar a porta,  que um
pulo do Quincas Borba, que o viera acompanhando, f-lo dar por si. Onde ficara o
major? Quis descer para v-lo, mas advertiu a tempo que acabava de o acompanhar
at  rua. As pernas tinham feito tudo; elas  que o levaram por si mesmas,
direitas, lcidas, sem tropeo, para que ficasse  cabea to-somente a tarefa
de pensar. Boas pernas! pernas amigas! muletas naturais do esprito!

Santas pernas! Elas o
levaram ainda ao canap, estenderam-se com ele, devagarinho, enquanto o esprito
trabalhava a idia do casamento. Era um modo de fugir a Sofia; podia ser ainda
mais.

Sim, podia ser tambm
um modo de restituir  vida a unidade que perdera, com a troca do meio e da
fortuna; mas esta considerao no era propriamente filha do esprito nem das
pernas, mas de outra causa, que ele no distinguia bem nem mal, como a aranha.
Que sabe a aranha a respeito de Mozart? Nada; entretanto, ouve com prazer uma
sonata do mestre. O gato, que nunca leu Kant,  talvez um animal metafsico. Em
verdade, o casamento podia ser o lao da unidade perdida. Rubio sentia-se
disperso; os prprios amigos de trnsito, que ele amava tanto, que o cortejavam
tanto, davam-lhe  vida um aspecto de viagem, em que a lngua mudasse com as
cidades, ora espanhol, ora turco. Sofia contribua para esse estado; era to
diversa de si mesma, ora isto, ora aquilo, que os dias iam passando sem acordo
fixo, nem desengano perptuo.

Rubio no tinha que
fazer; para matar os dias longos e vazios, ia s sesses do jri,  Cmara dos
Deputados,  passagem dos batalhes, dava grandes passeios, fazia visitas
desnecessrias,  noite, ou ia aos teatros, sem prazer. A casa era ainda um bom
repouso ao esprito, com o seu luxo rutilante e os sonhos que vagavam no
ar.

Ultimamente, ocupava-se
muito em ler; lia romances, mas s os histricos de Dumas pai, ou os
contemporneos de Feuillet, estes com dificuldade, por no conhecer bem a lngua
original. Dos primeiros sobravam tradues. Arriscava-se a algum mais, se lhe
achava o principal dos outros, uma sociedade fidalga e rgia. Aquelas cenas da
corte de Frana, inventadas pelo maravilhoso Dumas, e os seus nobres espadachins
e aventureiros, as condessas e os duques de Feuillet, metidos em estufas ricas,
todos eles com palavras muito compostas, polidas, altivas ou graciosas,
faziam-lhe passar o tempo s carreiras. Quase sempre, acabava com o livro cado
e os olhos no ar, pensando. Talvez algum velho marqus defunto lhe repetisse
anedotas de outras eras.

CAPTULO LXXXI

Antes de cuidar da
noiva, cuidou do casamento. Naquele dia e nos outros, comps de cabea as pompas
matrimoniais, os coches,  se ainda os houvesse antigos e ricos, quais ele via
gravados nos livros de usos passados. Oh! grandes e soberbos coches! Como ele
gostava de ir esperar o imperador, nos dias de grande gala,  porta do pao da
cidade, para ver chegar o prstito imperial, especialmente o coche de Sua
Majestade, vastas propores, fortes molas, finas e velhas pinturas, quatro ou
cinco parelhas guiadas por um cocheiro grave e digno! Outros vinham, menores em
grandeza, mas ainda assim to grandes que enchiam os olhos.

Um desses outros, ou
ainda algum menor, podia servir-lhe s bodas, se toda a sociedade no estivesse
j nivelada pelo vulgar coup. Mas, enfim, iria de coup;
imaginava-o forrado magnificamente, de qu? De uma fazenda que no fosse comum,
que ele mesmo no distinguia, por ora; mas que daria ao veculo o ar que no
tinha. Parelha rara. Cocheiro fardado de ouro. Oh! mas um ouro nunca visto.
Convidados de primeira ordem, generais, diplomatas, senadores, um ou dois
ministros, muitas sumidades do comrcio; e as damas, as grandes dunas? Rubio
nomeava-as de cabea; via-as entrar, ele no alto da escada de um palcio, com o
olhar perdido por aquele tapete abaixo,  elas atravessando o saguo, subindo os
degraus com os seus sapatinhos de cetim, breves e leves,  a princpio, poucas,
 depois mais, e ainda mais. Carruagens aps carruagens... L vinham os condes
de Tal, um varo guapo e uma singular dama... "Caro amigo, aqui estamos",
dir-lhe-ia o conde, no alto; e, mais tarde, a condessa: "Senhor Rubio, a festa
 esplndida...

De repente, o
internncio... Sim, esquecera-se que o internncio devia cas-los; l estaria
ele, com as suas meias roxas de monsenhor, e os grandes olhos napolitanos, em
conversao com o ministro da Rssia. Os lustres de cristal e ouro alumiando os
mais belos colos da cidade, casacas direitas, outras curvas ouvindo os leques
que se abriam e fechavam, dragonas e diademas, a orquestra dando sinal para uma
valsa. Ento os braos negros, em ngulo, iam buscar os braos nus, enluvados
at o cotovelo, e os pares saam girando pela sala, cinco, sete, dez, doze,
vinte pares. Ceia esplndida. Cristais da Bomia, loua da Hungria, vasos de
Svres, criadagem lesta e fardada, com as iniciais do Rubio na gola.

CAPTULO LXXXII

Esses sonhos iam e
vinham. Que misterioso Prspero transformava assim uma ilha banal em mascarada
sublime? "Vai, Ariel, traze aqui os teus companheiros, para que eu mostre a este
jovem casal alguns feitios da minha feitiaria. As palavras seriam as mesmas
da comdia; a ilha  que era outra, a ilha e a mascarada. Aquela era a prpria
cabea do nosso amigo; esta no se compunha de deusas nem de versos, mas de
gente humana e prosa de sala. Mais rica era. No esqueamos que o Prspero de
Shakespeare era um duque de Milo; e eis a, talvez, por que se meteu na ilha do
nosso amigo.

Em verdade, as noivas
que apareciam ao lado do Rubio, naqueles sonhos de bodas, eram sempre
titulares. Os nomes eram os mais sonoros e fceis da nossa nobiliarquia. Eis
aqui a explicao: poucas semanas antes, Rubio apanhou um almanaque de
Laemmert, e, entrando a folhe-lo, deu com o captulo dos titulares. Se ele
sabia de alguns, estava longe de os conhecer a todos. Comprou um almanaque, e
lia-o muitas vezes, deixando escorregar os olhos por ali abaixo, desde os
marqueses at os bares, voltava atrs, repetia os nomes bonitos, trazia a
muitos de cor. s vezes, pegava da pena e de uma folha de papel, escolhia um
ttulo moderno ou antigo, e escrevia-o repetidamente, como se fosse o prprio
dono e assinasse alguma coisa:

Marqus de Barbacena
Marqus de Barbacena

Marqus de Barbacena

Marqus de Barbacena
Marqus de Barbacena

Marqus de Barbacena

Ia assim, at o fim da
lauda, variando a letra, ora grossa, ora mida, cada para trs, em p, de todos
os feitios. Quando acabava a folha, pegava nela, e comparava as assinaturas;
deixava o papel e perdia-se no ar. Da a jerarquia das noivas. O pior  que
todas traziam a cara de Sofia;  podiam parecer-se nos primeiros instantes com
alguma vizinha, ou com a moa que ele cumprimentara,  tarde, na rua; podiam
comear muito magras ou gordas;  mas no tardavam em mudar de figura, encher ou
desbastar o corpo, e sobre isto vinha rutilar o rosto da bela Sofia, com os seus
mesmos olhos amotinados ou quietos. No havia fugir, ainda casando? Rubio
chegou a pensar na morte do Palha; foi em certo dia, ao sair da casa dele,
tendo-lhe ouvido a ela uma poro de coisas bonitas e vagas. Grande foi a
sensao de ventura, posto que ele repelisse logo a idia, como um ruim agouro.
Dias depois, trocadas as maneiras, tornava ele definitivamente aos seus planos.
Mais de uma vez, era o prprio Palha que o acordava daqueles sonhos conjugais.

 Tem onde ir hoje 
noite?

 No.

 Pegue l uma entrada
para o Teatro Lrico; camarote n 8, primeira ordem  esquerda.

Rubio chegava mais
cedo, ia esperar por eles, e dava o brao a Sofia. Se ela estava de bom humor, a
noite era das melhores do mundo. Se no, era um martrio, para repetir as
prprias palavras dele, ao co, um dia:

 Vim ontem de um
martrio, meu pobre amigo.

 Case-se, e diga que
eu o engano, latiu-lhe Quincas Borba.

 Sim, meu pobre amigo,
acudiu ele pegando-lhe nas patas dianteiras e colocando-as sobre os joelhos.
Voc tem razo; precisa de uma boa amiga que lhe d cuidados que no posso ou
no sei dar. Quincas Borba, voc ainda se lembra do nosso Quincas Borba? Bom
amigo meu, grande amigo, eu tambm fui amigo dele, dois grandes amigos. Se fosse
vivo, seria o padrinho do meu casamento, levantaria os brindes,  ao menos, o de
honra, aos noivos;  e seria por um copo de ouro e diamantes, que eu lhe
mandaria fazer de propsito... Grande Quincas Borba!

E o esprito de Rubio
pairava sobre o abismo.

CAPTULO LXXXIII

Um dia, como houvesse
sado mais cedo de casa, e no soubesse onde passar a primeira hora, caminhou
para o armazm. Desde uma semana que no ia  Praia do Flamengo, por haver Sofia
entrado em um dos seus perodos de sequido. Achou o Palha de luto; morrera a
tia da mulher, D. Maria Augusta, na fazenda; a notcia chegara na antevspera, 
tarde.

 A me daquela
mocinha?

 Justo.

Palha falou da defunta
com muitos encarecimentos; depois contou a dor de Maria Benedita; estava que
metia pena. Perguntou-lhe por que  que no ia ao Flamengo, logo  noite, para
ajud-los a distra-la? Rubio prometeu ir.

 V,  favor que nos
faz; a pobre pequena vale tudo. No imagina que primor ali est. Boa educao,
muito severa; e quanto a prendas de sociedade, se no as teve em criana,
ressarciu o tempo perdido com rapidez extraordinria. Sofia  a mestra. E dona
de casa? Isso, meu amigo, no sei se em tal idade se achar pessoa to completa.
J agora fica conosco. Tem uma irm, Maria Jos, casada com um juiz de direito,
no Cear; tem tambm o padrinho, em So Joo del-Rei. A defunta fazia-lhe muitos
elogios; no creio que ele a mande buscar, mas ainda que mande, no a dou. J
agora  nossa. No h de ser pelo que o padrinho lhe quiser deixar em testamento
que nos desfaremos dela. Aqui ficar, concluiu tirando com o dedo um pouco de
poeira da gola do Rubio.

Rubio agradeceu.
Depois, como estavam no escritrio, ao fundo, olhou por entre as grades, e viu
entrar uns fardos no armazm. Perguntou que traziam.

 So uns morins
ingleses.

 Morins ingleses,
repetiu Rubio, com indiferena.

 A propsito, sabe que
a casa Morais & Cunha paga a todos os credores, integralmente?

Rubio no sabia nada,
nem se a casa existia, nem se eles eram credores dela; ouviu a notcia,
respondeu que estimava muito, e disps-se a ir embora. Mas o scio reteve-o
ainda alguns instantes. Estava alegre agora; parecia que no lhe morrera
ningum. Voltou a tratar de Maria Benedita. Tinha inteno de cas-la bem; nem
ela era moa de dar lrias a pelintras, nem se deixava ir por fantasias tolas;
era ajuizada, merecia um bom esposo, pessoa sria.

 Sim, senhor, ia
dizendo Rubio.

 Olhe, murmurou de
repente o scio; no se admire do que lhe vou dizer. Creio que voc  que casa
com ela.

 Eu? acudiu Rubio,
espantado. No, senhor. E em seguida, para atenuar o efeito da recusa: No nego
que seja moa digna e perfeita; mas... por ora... no penso em casar...

 Ningum lhe diz que
seja amanh ou depois; casamento no  coisa que se improvise. O que eu digo 
que tenho c um palpite. So coisas; palpites. Sofia nunca lhe contou este meu
palpite?

 Nunca.

  esquisito, disse-me
que lhe falara uma vez, ou duas, no me lembro bem.

 Pode ser, sou muito
distrado. Que queriam casar-me com a moa?

 No, que eu tinha um
palpite. Mas, deixemos isto. Demos tempo ao tempo.

 Adeus.

 Adeus; v cedo.

CAPTULO LXXXIV

Com que ento, Sofia
queria cas-lo? saiu pensando o Rubio; era naturalmente o processo mais
expedito para descartar-se dele. Cas-lo, faz-lo seu primo. Rubio palmilhou
muita rua, antes que chegasse a esta outra hiptese:  talvez Sofia no se
houvesse esquecido, mas mentisse de propsito ao marido para no dar andamento
ao projeto. Neste caso o sentimento era outro. Esta explicao pareceu-lhe
lgica: a alma voltou  serenidade anterior.

CAPTULO LXXXV

Mas no h serenidade
moral que corte uma polegada sequer s abas do tempo, quando a pessoa no tem
maneira de o fazer mais curto. Ao contrrio, a nsia de ir ao Flamengo,  noite,
vinha tornar as horas mais arrastadas. Era cedo, cedo para tudo, para ir  Rua
do Ouvidor, para voltar a Botafogo. O Dr. Camacho estava em Vassouras defendendo
um ru no jri. No havia divertimento algum pblico, festa nem sermo. Nada.
Rubio, profundamente aborrecido, trocava as pernas,  toa, lendo as tabuletas,
ou detendo-se ao simples incidente de um atropelo de carros. Em Minas, no se
aborrecia tanto, por qu? No achou soluo ao enigma, uma vez que o Rio de
Janeiro tinha mais em que se distrair, e que o distraa deveras; mas havia aqui
horas de um tdio mortal.

Felizmente, h um deus
para os enojados. Acudiu  memria de Rubio que o Freitas,  aquele Freitas to
alegre,  estava gravemente enfermo; Rubio chamou um tlburi e foi visit-lo 
Praia Formosa, onde morava. Gastou ali perto de duas horas, conversando com o
doente; este adormeceu, ele despediu-se da me,  um caco de velha,  e  porta
antes de sair:

 A senhora h de ter
tido seus apertos de dinheiro, disse Rubio; e, vendo-a morder o beio e baixar
os olhos: No se envergonhe; necessidade aflige, mas no envergonha. Eu o que
queria era que a senhora aceitasse alguma coisa, que lhe vou deixar para acudir
 despesa; pagar um dia, se puder...

Tinha aberto a
carteira, tirou seis notas de vinte mil-ris, fez um bolo de todas elas, e
deixou-lho na mo. Abriu a porta e saiu. A velha, espantada, nem teve alma para
agradecer; s ao rodar do tlburi,  que correu  janela, mas j no podia ver o
benfeitor.

CAPTULO LXXXVI

Tudo aquilo saiu to
espontaneamente ao Rubio, que ele s teve tempo de refletir, depois que o
tlburi comeou a andar. Parece que chegou a levantar a cortina do postigo; a
velha ia entrando; viu-lhe ainda o resto do brao. Rubio sentiu toda a vantagem
de no estar invlido. Reclinou-se, desabafou o peito com um grande suspiro e
olhou para a praia; logo depois inclinou-se. Na vinda, mal pudera v-la.

 Vossa Senhoria est
gostando, disse-lhe o cocheiro contente com o bom fregus que tinha.

 Acho bonito.

 Nunca veio aqui?

 Creio que vim, h
muitos anos, quando estive no Rio de Janeiro pela primeira vez. Que eu sou de
Minas... Pare, moo.

O cocheiro fez parar o
cavalo: Rubio desceu, e disse-lhe que fosse andando devagar.

Em verdade, era
curioso. Aquelas grandes braadas de mato, brotando do lodo, e postas ali ao p
da cara do Rubio, davam-lhe vontade de ir ter com elas. To perto da rua!
Rubio nem sentia o sol. Esquecera o doente e a me do doente. Assim sim, 
dizia ele consigo,  fosse o mar todo uma coisa daquele feitio, alastrado de
terras e verduras, e valia a pena navegar. Para l daquilo ficava a Praia dos
Lzaros e a de So Cristvo. Uma pernada apenas.

 Praia Formosa,
murmurou ele; bem posto nome.

Entretanto, a praia ia
mudando de aspecto. Dobrava para o Saco do Alferes, vinham as casas edificadas
do lado do mar. De quando em quando, no eram casas, mas canoas, encalhadas no
lodo, ou em terra, fundo para o ar. Ao p de uma dessas canoas, viu meninos
brincando, em camisa e descalos, em volta de um homem que estava de barriga
para baixo. Todos eles riam; um ria mais que os outros porque no acabava de
fixar o p do homem no cho. Era um pequerrucho de trs anos; agarrava-se-lhe 
perna e ia-a estendendo at nivel-la com o cho, mas o homem fazia um gesto e
levava pelo ar o p e o menino.

Rubio deteve-se alguns
minutos diante daquilo. O sujeito, vendo-se objeto de ateno, redobrou o
esforo no brinco; perdeu a naturalidade. Os outros meninos mais idosos
detiveram-se a olhar espantados. Mas Rubio no distinguia nada; via tudo
confusamente. Foi ainda a p durante largo tempo; passou o Saco do Alferes,
passou a Gamboa, parou diante do cemitrio dos Ingleses, com os seus velhos
sepulcros trepados pelo morro, e afinal chegou  Sade. Viu ruas esguias, outras
em ladeira, casas apinhadas ao longe e no alto dos morros, becos, muita casa
antiga, algumas do tempo do rei, comidas, gretadas, estripadas, o caio encardido
e a vida l dentro. E tudo isso lhe dava uma sensao de nostalgia... Nostalgia
do farrapo, da vida escassa, acalcanhada e sem vexame. Mas durou pouco; o
feiticeiro que andava nele transformou tudo. Era to bom no ser pobre!

CAPTULO LXXXVII

Rubio chegou ao fim da
Rua da Sade. Ia  toa com os olhos espraiados e desatentos. Rente com ele,
passou uma mulher, no bonita, nem singela sem elegncia, antes pobre que
remediada, mas fresca de feies; contaria vinte e cinco anos, e levava pela mo
um menino. Este atrapalhou-se nas pernas do Rubio.

 Que  isso, nhonh?
disse a moa, puxando o filho pelo brao.

Rubio inclinara-se ao
pequeno, para ampar-lo.

 Muito obrigada,
desculpe, disse ela sorrindo; e cumprimentou-o.

Rubio tirou o chapu,
sorriu tambm. A viso da famlia apoderou-se dele outra vez.  Case-se e diga
que eu o engano!"  Parou, olhou para trs, viu ir a moa, tique-tique, e
o menino ao p dela, amiudando as perninhas, para ajustar-se ao passo da me.
Depois, foi andando lentamente, pensando em vrias mulheres que podia escolher
muito bem, para executar, a quatro mos, a sonata conjugal, msica sria,
regular e clssica. Chegou a pensar na filha do major, que apenas sabia umas
velhas mazurcas. De repente, ouvia a guitarra do pecado, tangida pelos dedos de
Sofia, que o deliciavam, que o estonteavam, a um tempo; e l se ia toda a
castidade do plano anterior. Teimava novamente, forcejava por trocar as
composies; pensava na moa da Sade, modos to bonitos, criancinha pela mo...

CAPTULO LXXXVIII

A vista do tlburi
fez-lhe lembrar o doente da Praia Formosa.

 Pobre Freitas!
suspirou.

Logo depois, pensou
tambm no dinheiro que deixara  me do enfermo, e achou que fizera bem. Talvez
a idia de haver dado uma ou duas notas demais esvoaou por alguns segundos no
crebro do nosso amigo; ele a sacudiu depressa, no sem se zangar consigo, e,
para esquec-la de todo, exclamou ainda em voz alta:

 Boa velha! pobre
velha!

CAPTULO LXXXIX

Como a idia tornasse
ainda, Rubio atirou-se depressa ao tlburi; entrou e sentou-se, falando ao
cocheiro, para fugir a si mesmo.

 Dei uma caminhada
grande; mas, sim, senhor, isto aqui  bonito,  curioso; aquelas praias, aquelas
ruas,  diferente dos outros bairros. Gosto disto. Hei de vir mais vezes.

O cocheiro sorriu para
si de um modo to particular, que o nosso Rubio desconfiou. No atinava com o
motivo do riso; talvez lhe houvesse escapado alguma palavra que no Rio de
Janeiro tivesse mau sentido, mas repetiu-as e no descobriu nada; eram todas
usadas e comuns. Entretanto, o cocheiro sorria ainda, com o mesmo ar do
princpio, meio subserviente, meio velhaco. Rubio esteve a pique de o
interrogar, mas recuou a tempo. Foi o outro que reatou a conversao.

 Vossa Senhoria est
ento muito admirado do bairro? disse ele. H de deixar que eu no acredite, sem
se zangar, que no  para ofender a Vossa Senhoria, nem eu sou pessoa que agrave
um fregus srio; mas no creio que esteja admirado do bairro.

 Por qu? aventurou
Rubio.

O cocheiro meneou a
cabea para um e outro lado, e insistiu em no crer,  no porque o bairro no
fosse digno de apreo, mas porque naturalmente j o conhecia muito. Rubio
ratificou a primeira afirmao; tinha ido ali muitos anos antes, quando esteve
da outra vez no Rio de Janeiro, mas no se lembrava de nada. E o cocheiro ria;
e,  medida que o fregus ia demonstrando, ele ia ficando mais familiar, fazia
negativas com o nariz, com os beios, com a mo.

 J sei disso,
concluiu ele. Nem eu sou homem que no veja as coisas. Vossa Senhoria pensa que
no vi a maneira por que olhou para aquela moa que passou ainda agora? Basta s
isso para mostrar que Vossa Senhoria tem faro e gosta...

Rubio, lisonjeado,
sorriu um pouco; mas emendou-se logo:

 Que moa?

 Que lhe dizia eu?
redargiu o homem. Vossa Senhoria  fino, e faz muito bem; mas eu sou pessoa de
segredo, e c o carro tem servido para estas idas e vindas. No h muitos dias
trouxe um belo moo, muito bem vestido, pessoa fina,  j se sabe, negcio de
rabo de saia.

 Mas eu... interrompeu
Rubio.

Mal podia conter-se; a
suposio agradava-lhe; o cocheiro cuidou que ele dissimulava a culpa.

 Olhe, eu bem digo, 
continuou ele; tal qual o moo da Rua dos Invlidos. Vossa Senhoria pode ficar
descansado; no digo nada; c estou para outras. Ento, quer que eu acredite que
 por gosto que uma pessoa, que tem carro s ordens, vem andando a p desde a
Praia Formosa at aqui? Vossa Senhoria veio ao lugar marcado, a pessoa no
veio.

 Que pessoa? Fui ver
um doente, um amigo que est para morrer.

 Tal qual o moo da
Rua dos Invlidos, repetiu o homem. Esse veio ver uma costureira da mulher, como
se fosse casado...

 Da Rua dos Invlidos?
perguntou Rubio, que s agora atentava no nome da rua.

 No digo mais nada,
acudiu o cocheiro. Era da Rua dos Invlidos, bonito, um moo de bigodes e olhos
grandes, muito grandes. Oh! eu tambm, se fosse mulher, era capaz de
apaixonar-me por ele... Ela no sei donde era, nem diria ainda que soubesse; sei
s que era um peixo.

E vendo que o fregus o
escutava com os olhos arregalados:

 Oh! Vossa Senhoria
no imagina! Era de boa altura, bonito corpo, a cara meio coberta por um vu,
coisa papa-fina. A gente, por ser pobre, no deixa de apreciar o que  bom.

 Mas... como foi?
murmurou Rubio.

 Ora, como foi! Ele
chegou como Vossa Senhoria, no meu tlburi, apeou-se e entrou numa casa de
rtula; disse que ia ver a costureira da mulher. Como eu no lhe perguntei nada,
e ele tinha vindo calado toda a viagem, muito cheio de si, compreendi logo a
finura. Agora, podia ser verdade, porque  mesmo uma costureira que mora na casa
da Rua da Harmonia...

 Da Harmonia? repetiu
Rubio.

 Mau! Vossa Senhoria
est arrancando o meu segredo; mudemos de assunto; no digo mais nada.

Rubio olhava atnito
para o homem, que de fato se calou por dois ou trs minutos, mas logo depois
continuou:

 Tambm no h muita
coisa mais. O moo entrou; eu fiquei esperando; meia hora depois vi um vulto de
mulher, ao longe, e desconfiei logo que ia para l. Meu dito, meu feito; ela
veio, veio devagar, olhando disfaradamente para todos os lados; ao passar pela
casa, no lhe digo nada, nem precisou bater; foi como nas mgicas, a rtula
abriu-se por si, e ela enfiou por ali dentro. Se eu j conheo isto. Em que 
que Vossa Senhoria quer que a gente ganhe algum cobrinho mais? O preo da tabela
mal d para comer;  precise fazer estes ganchos.

CAPTULO XC

 No, no podia ser
ela, refletiu Rubio, em casa, vestindo-se de preto.

Desde que chegara, no
pensou em outra coisa que no fosse o caso contado pelo cocheiro do tlburi.
Tentou esquec-lo, arranjando papis, ou lendo, ou dando estalinhos com os dedos
para ver pular o Quincas Borba; mas a viso perseguia-o. Dizia-lhe a razo que
h muitas senhoras de boa figura, e nada provava que a da Rua da Harmonia fosse
ela; mas o bom efeito era curto. Da a pouco, desenhava-se ao longe, cabisbaixa,
vagarosa, uma pessoa, que era nem mais nem menos a prpria Sofia, e andava, e
entrava de repente pela porta de uma casa, que se fechava logo... A viso foi
tal, em certa ocasio, que o nosso amigo ficou a olhar para a parede, como se
ali estivesse a rtula da Rua da Harmonia. De imaginao, fez uma srie de
aes:  bateu, entrou, lanou a mo ao gasnate da costureira, e pediu-lhe a
verdade ou a vida. A pobre mulher, ameaada da morte, confessou tudo; levou-o a
ver a dama, que era outra, no era Sofia. Quando Rubio voltou a si, sentiu-se
vexado.

 No, no podia ser
ela.

Vestiu o colete, e foi
aboto-lo diante de uma das janelas, que dava para os fundos, no momento em que
uma caravana de formigas ia passando pelo peitoril. Quantas vira passar outrora!
Mas, desta vez, nunca soube como, pegou de uma toalha, deu dois golpes,
atropelou as tristes formigas, matando uma poro delas. Talvez alguma lhe
pareceu "boa figura e bonita de corpo". Logo depois arrependeu-se do ato; e
realmente, que tinham as formigas com as suas suspeitas? Felizmente, comeou a
cantar uma cigarra, com tal propriedade e significao, que o nosso amigo parou
no quarto boto do colete. S... fia, fia, fia, fia, fia, fia... S...
fia, fia, fia, fia...

Oh! precauo sublime e
piedosa da natureza, que pe uma cigarra viva ao p de vinte formigas mortas,
para compens-las. Essa reflexo  do leitor. Do Rubio no pode ser. Nem era
capaz de aproximar as coisas, e concluir delas  nem o faria agora que est a
chegar ao ltimo boto do colete, todo ouvidos, todo cigarra... Pobres formigas
mortas! Ide agora ao vosso Homero gauls, que vos pague a fama; a cigarra  que
se ri, emendando o texto:

Vous marchiez? J'en suis
fort aise.
Eh bien! mourez
maintenant.

CAPTULO XCI

Soou a campainha de
jantar; Rubio comps o rosto, para que os seus habituados (tinha sempre quatro
ou cinco) no percebessem nada. Achou-os na sala de visitas, conversando, 
espera; ergueram-se todos, foram apertar-lhe a mo, alvoroadamente. Rubio teve
aqui um impulso inexplicvel,  dar-lhes a mo a beijar. Reteve-se a tempo,
espantado de si prprio.

CAPTULO XCII

De noite, correu 
Praia do Flamengo. No pde falar a Maria Benedita, que estava em cima, no
quarto, com duas moas da vizinhana, amigas dela. Sofia veio receb-lo  porta,
e levou-o para o gabinete, onde duas costureiras faziam os vestidos de luto. O
marido acabava de chegar; ainda no descera.

 Sente-se aqui, disse
ela.

Tomou conta dele;
estava divina. As palavras saam-lhe carinhosas e graves, entrecortadas de
sorrisos amigos e honestos. Falou-lhe da tia, da prima, do tempo, dos criados,
dos espetculos, da falta d'gua, de uma multido de coisas diversas, vulgares
ou no, mas que passando pela boca da moa, mudavam de natureza e de aspecto.
Rubio ouvia fascinado. Ela, para no estar vadia, ia cosendo uns folhos; e,
quando a conversao fazia pausa, Rubio era pouco para comer-lhe as mos geis,
que pareciam brincar com a agulha.

 Sabe que estou
formando uma comisso de senhoras? perguntou ela.

 No sabia; para qu?

 No leu a notcia
daquela epidemia numa cidade das Alagoas?

Contou-lhe haver ficado
to penalizada, que resolveu logo organizar uma comisso de senhoras, para pedir
esmolas. A morte da tia interrompeu os primeiros passos; mas ia continuar,
passada a missa do stimo dia. E perguntou que lhe parecia.

 Parece-me bem. No h
homens na comisso?

 H s senhoras. Os
homens apenas do dinheiro, concluiu rindo.

Rubio, de cabea,
subscreveu logo uma quantia grossa, para obrigar os que viessem depois. Era tudo
verdade. Era tambm verdade que a comisso ia pr em evidncia a pessoa de
Sofia, e dar-lhe um empurro para cima. As senhoras escolhidas no eram da roda
da nossa dama, e s uma a cumprimentava; mas, por intermdio de certa viva, que
brilhara entre 1840 e 1850, e conservava do seu tempo as saudades e o apuro,
conseguira que todas entrassem naquela obra de caridade. Desde alguns dias no
pensara em outra coisa. s vezes,  noite, antes do ch, parecia dormir na
cadeira de balano; no dormia, fechava os olhos para considerar-se a si mesma,
no meio das companheiras, pessoas de qualidade. Compreende-se que este fosse o
assunto principal da conversao; mas, Sofia tornava de quando em quando ao
presente amigo. Por que  que ele fazia fugidas to longas, oito, dez, quinze
dias, e mais? Rubio respondeu que por nada, mas to comovido, que uma das
costureiras bateu no p da outra. Da em diante, ainda quando o silncio era
largo, cortado apenas pelo som das agulhas no merin, das tesouradas, dos
rasgados, uma e outra no perdiam de vista a pessoa do nosso amigo, com os olhos
fisgados na dona da casa.

Veio uma visita de
psames,  um homem, diretor de banco. Foram chamar logo o Palha, que desceu a
receb-lo. Sofia pediu licena ao Rubio, por alguns segundos; ia ver Maria
Benedita.

CAPTULO XCIII

Rubio, ficando s com
as duas mulheres, entrou a andar de um lado para outro, abafando os passos, para
no incomodar ningum. Da sala vinha uma ou outra palavra do Palha: "Em todo o
caso, pode crer..."  "Nem a administrao de um banco  coisa de
brincadeira..."  "Positivamente..." O diretor falava pouco, seco e baixo.

Uma das costureiras
dobrou a costura, arrecadou apressadamente retalhos, tesouras, carretis de
linha, de retrs. Era tarde; ia-se embora.

 Dondon, espera um
bocado que eu vou tambm.

 No, no posso. O
senhor faz favor de dizer que horas so?

 So oito e meia,
respondeu Rubio.

 Jesus!  muito tarde.

Rubio, para dizer
alguma coisa, perguntou-lhe por que no esperava, como a outra pedia.

 S espero D. Sofia,
acudiu Dondon com respeito; mas o senhor sabe onde  que esta mora? Mora na Rua
do Passeio. E eu vou dar com os ossos na Rua da Harmonia. Olha que daqui  Rua
da Harmonia  um estiro.

CAPTULO XCIV

Sofia desceu logo,
achou Rubio transtornado, fugindo com os olhos. Perguntou-lhe o que era; ele
respondeu que nada, dor de cabea. Dondon saiu, o diretor do banco despedia-se;
Palha agradecia-lhe a fineza, estimava-lhe a sade. Onde estava o chapu?
Achou-o; deu-lhe tambm o sobretudo; e, parecendo que ele procurava outra coisa,
perguntou se era a bengala.

 No, senhor,  o
guarda-chuva. Creio que  este;  este. Adeus.

 Ainda uma vez,
obrigado, muito obrigado, disse o Palha. Ponha o seu chapu, est mido, no
faa cerimnias. Obrigado, muito obrigado, concluiu apertando-lhe a mo nas
suas, e curvado em ngulo.

Voltando ao gabinete,
deu com o scio, que teimava em sair. Instou tambm; disse-lhe que tomasse uma
xcara de ch, que lhe passava logo; Rubio recusou tudo.

 A sua mo est fria,
observou a moa ao Rubio, apertando-lha; por que no espera? gua de melissa 
muito bom. Vou buscar.

Rubio deteve-a; no
era preciso; conhecia aqueles achaques, curavam-se com sono. Palha quis mandar
vir um tlburi; mas o outro acudiu dizendo que o ar da noite lhe faria bem, e
que no Catete acharia conduo.

CAPTULO XCV

 Vou agarr-la antes
de chegar ao Catete, disse Rubio subindo pela Rua do Prncipe.

Calculou que a
costureira teria ido por ali. Ao longe, descobriu alguns vultos de um e outro
lado; um deles pareceu-lhe de mulher. H de ser ela, pensou; e picou o passo.
Entende-se naturalmente que levava a cabea atordoada: Rua da Harmonia,
costureira, uma dama, e todas as rtulas abertas. No admira que, fora de si, e
andando rpido, desse um encontro em certo homem que ia devagar, cabisbaixo.
Nem lhe pediu desculpa; alargou o passo, vendo que a mulher tambm andava
depressa.

CAPTULO XCVI

E o homem empurrado,
apenas sentiu o empurro. Caminhava absorto, mas contente, espraiando a alma,
desabafado de cuidados e fastios. Era o diretor de banco, o que acabava de fazer
a visita de psames ao Palha. Sentiu o empurro, e no se zangou; concertou o
sobretudo e a alma, e l foi andando tranqilamente.

Convm dizer, para
explicar a indiferena do homem, que ele tivera, no espao de uma hora, comoes
opostas. Fora primeiro  casa de um ministro de Estado, tratar do requerimento
de um irmo. O ministro, que acabava de jantar, fumava calado e pacfico. O
diretor exps atrapalhadamente o negcio, tornando atrs, saltando adiante,
ligando e desligando as frases. Mal sentado, para no perder a linha do
respeito, trazia na boca um sorriso constante e venerador; e curvava-se, pedia
desculpas. O ministro fez algumas perguntas; ele, animado, deu respostas longas,
extremamente longas, e acabou entregando um memorial. Depois ergueu-se,
agradeceu, apertou a mo ao ministro, este acompanhou-o at  varanda. A fez o
diretor duas cortesias,  uma em cheio, antes de descer a escada,  outra em
vo, j embaixo, no jardim; em vez do ministro, viu s a porta de vidro fosco, e
na varanda, pendente do teto, o lampio de gs. Enterrou o chapu, e saiu. Saiu
humilhado, vexado de si mesmo. No era o negcio que o afligia, mas os
cumprimentos que fez, as desculpas que pediu, as atitudes subalternas, um
rosrio de atos sem proveito. Foi assim que chegou  casa do Palha.

Em dez minutos, tinha a
alma espanada e restituda a si mesma, tais foram as mesuras do dono da casa, os
apoiados de cabea, e um raio de sorriso perene, no contando
oferecimentos de ch e charutos. O diretor fez-se ento severo, superior, frio,
poucas palavras; chegou a arregaar com desdm a venta esquerda, a propsito de
uma idia do Palha, que a recolheu logo, concordando que era absurda. Copiou do
ministro o gesto lento. Saindo, no foram dele as cortesias, mas do dono da
casa.

Estava outro, quando
chegou  rua; da o andar sossegado e satisfeito, o espraiar da alma devolvida a
si prpria, e a indiferena com que recebeu o embate do Rubio. L se ia a
memria dos seus rapaps; agora o que ele rumina saborosamente so os rapaps de
Cristiano Palha.

CAPTULO XCVII

Quando Rubio chegou 
esquina do Catete, a costureira conversava com um homem, que a esperara, e que
lhe deu logo depois o brao; viu-os ir ambos, conjugalmente, para o lado da
Glria. Casados? amigos? Perderam-se na primeira dobra da rua, enquanto Rubio
ficou parado, recordando as palavras do cocheiro, a rtula, o moo de bigodes, a
senhora de bonito corpo, a Rua da Harmonia... Rua da Harmonia; ela dissera Rua
da Harmonia.

Deitou-se tarde. Parte
do tempo esteve  janela, matutando, charuto aceso, sem acabar de explicar
aquele negcio. Dondon era por fora a terceira nos amores; devia ser, tinha
olhos sonsos, pensava Rubio.

 Amanh vou l, saio
mais cedo, vou esper-la na esquina; dou-lhe cem mil-ris, duzentos, quinhentos;
ela h de confessar-me tudo.

Quando cansou, olhou
para o cu; l estava o Cruzeiro... Oh! se ela houvesse consentido em fitar o
Cruzeiro! Outra teria sido a vida de ambos. A constelao pareceu confirmar este
modo de sentir, fulgurando extraordinariamente; e Rubio quedou-se a mir-la, a
compor mil cenas lindas e namoradas,  a viver do que podia ter sido. Quando a
alma se fartou de amores nunca desabrochados, acudiu  mente do nosso amigo que
o Cruzeiro no era s uma constelao, era tambm uma ordem honorfica. Daqui
passou a outra srie de pensamentos. Achou genial a idia de fazer do Cruzeiro
uma distino nacional e privilegiada. J tinha visto a venera ao peito de
alguns servidores pblicos. Era bela, mas principalmente rara.

 Tanto melhor! disse
ele em voz alta.

Era perto de duas horas
quando saiu da janela; fechou-a e foi meter-se na cama, dormiu logo; acordou ao
som da voz do criado espanhol, que lhe trazia um bilhete.

CAPTULO XCVIII

Rubio sentou-se na
cama estremunhado, no reparou na letra do sobrescrito; abriu o bilhete, e leu:

Ficamos ontem muito
inquietos, depois que o senhor saiu. Cristiano no vai l agora, porque acordou
tarde, e tem de ir ao inspetor da alfndega. Mande-nos dizer se passou melhor.
Lembranas de Maria Benedita e da
Sua amiga e
obrigada

SOFIA

 Diga ao portador que
espere.

Da a vinte minutos a
resposta chegou  mo do moleque que trouxera o bilhete; foi o prprio Rubio
que lha entregou, perguntando-lhe como tinham passado as senhoras. Soube que
bem; deu-lhe dez tostes, recomendando-lhe que, quando precisasse algum
dinheiro, viesse procur-lo. O rapaz, espantado, arregalou os olhos e prometeu
tudo.

 Adeus! disse-lhe
benevolamente o Rubio.

E ficou parado,
enquanto o portador descia os poucos degraus. Indo este a meio do jardim, ouviu
bradar:

 Espera!

Voltou para acudir ao
chamado; Rubio j tinha descido os degraus; foram um ao outro, e pararam,
calados. Correram dois minutos, sem que Rubio abrisse a boca. Afinal, perguntou
alguma coisa,  se as senhoras tinham passado bem. Era a mesma pergunta de h
pouco; o criado confirmou a resposta. Depois, Rubio deixou vagar os olhos pelo
jardim. As rosas e as margaridas estavam lindas e frescas, alguns cravos
desabrochavam, outras flores e folhagens, begnias e trepadeiras, todo esse
pequeno mundo parecia estender os olhos invisveis ao Rubio, e
bradar-lhe:

 Alma sem vigor, acaba
de uma vez com o teu desejo; colhe-nos, manda-nos...

 Bem, disse finalmente
Rubio; lembranas s senhoras. No se esquea do que lhe disse; precisando de
mim, venha c. Guardou a carta?

 Est aqui, sim,
senhor.

  melhor met-la no
bolso, mas olhe no machuque.

 No machuco, no,
senhor, retorquiu o criado acomodando a carta.

CAPTULO XCIX

Saiu o moleque; Rubio
ficou passeando no jardim, com as mos nos bolsos do chambre, e os olhos nas
flores. Que tinha que mandasse algumas? Era um presente natural, e at de
obrigao para pagar uma cortesia com outra. Fez mal; correu ao porto, mas j o
moleque ia longe; Rubio advertiu que o luto exclua as lembranas alegres, e
ficou tranqilo.

Seno quando, ao
recomear o passeio, viu uma carta ao p de um canteiro. Inclinou-se, apanhou-a,
leu o sobrescrito... A letra era dela, to-s dela; comparou-a com a do bilhete
que recebera; era a mesma. O nome era o do diabo: Carlos Maria.

 Sim, foi isso, pensou
ele ao cabo de alguns minutos, o portador da minha carta trouxe esta, e deixou-a
cair.

E, mirando a carta, de
um e outro lado, perguntava-lhe pelo contedo. Oh! o contedo! Que iria ali
escrito dentro daquele papel homicida? Perversidade, luxria, toda a linguagem
do mal e da demncia, resumidas em duas ou trs linhas. Ergueu-a ante os olhos,
para ver se podia ler alguma palavra; o papel era grosso; no se podia ler nada.
Ao lembrar-se que o portador, dando por falta da carta, voltaria a procur-la,
meteu-a atrapalhadamente no bolso, e correu para dentro.

Em casa, tirou-a e
mirou-a outra vez; as mos hesitavam, reproduzindo o estado da conscincia. Se
abrisse a carta, saberia tudo. Lida e queimada, ningum mais conheceria o texto,
ao passo que ele teria acabado por uma vez com essa terrvel fascinao que o
fazia penar ao p daquele abismo de oprbrios... No sou eu que o digo,  ele;
ele  que junta esse e outros nomes ruins, ele o que pra no meio da sala, com
os olhos no tapete, em cuja trama figura um turco indolente, cachimbo na boca,
olhando para o Bsforo... Devia ser o Bsforo.

 Infernal carta!
rosnou surdamente, repetindo uma frase ouvida no teatro, semanas antes; frase
esquecida, que vinha agora exprimir a analogia moral do espetculo e do
espectador.

Teve mpetos de
abri-la; era s um gesto, um ato; ningum o via, os quadros da parede estavam
quietos, indiferentes, o turco do tapete continuava a fumar e a olhar para o
Bsforo. Contudo, sentia escrpulos; a carta, posto que achada no jardim, no
lhe pertencia, mas ao outro. Era como se fosse um embrulho de dinheiro; no
devolveria o dinheiro ao dono? Despeitado, meteu-a outra vez no bolso. Entre
mandar a carta ao destinatrio e entreg-la a Sofia, adotou afinal o segundo
alvitre; tinha a vantagem de poder ler a verdade nas feies da prpria autora.

 Digo-lhe que achei
uma carta, assim e assim, pensou Rubio; e antes de lhe dar a carta, vejo bem na
cara dela, se fica aterrada ou no. Talvez empalidea; ento ameao-a, falo-lhe
da Rua da Harmonia; juro-lhe que estou disposto a gastar trezentos, oitocentos,
mil contos, dois mil, trinta mil contos, se tanto for preciso para estrangular o
infame..."

CAPTULO C

Nenhum dos habituados
da casa compareceu ao almoo. Rubio esperou ainda uns dez minutos, chegou a
mandar um criado ao porto, a ver se vinha algum. Ningum; teve de almoar
sozinho.

Em geral, no podia
suportar as refeies solitrias; estava to afeito  linguagem dos amigos, s
observaes, s graas, no menos que aos respeitos e consideraes, que comer
s era o mesmo que no comer nada. Agora, porm, era como um Saul que precisasse
de algum Davi, para expelir o esprito maligno que se metera nele. J queria mal
ao portador da carta, porque a deixara cair; ignorar era um benefcio. E depois
a conscincia vacilava,  ia da entrega da carta  recusa e  guarda indefinida.
Rubio tinha medo de saber; ora queria, ora no queria ler nada no rosto de
Sofia. O desejo de saber tudo era, em resumo, a esperana de descobrir que no
havia nada.

Davi apareceu enfim,
entre o queijo e o caf, na pessoa do Dr. Camacho, que voltara de Vassouras, na
vspera,  noite. Como o Davi da Escritura, trazia um jumento carregado de pes,
um cntaro de vinho e um cabrito. Deixara gravemente enfermo um deputado
mineiro, que estava em Vassouras e preparou a candidatura do Rubio, escrevendo
s influncias de Minas. Foi o que lhe disse aos primeiros golos de caf.

 Candidato, eu?

 Pois ento quem?

Camacho demonstrou que
no podia haver melhor. Tinha servios em Minas, no tinha?

 Alguns.

 Aqui os tem de grande
relevncia. Mantendo comigo o rgo dos princpios, tem recebido solidariamente
os golpes que me do, alm dos sacrifcios que todos fazemos pelo lado
pecunirio. Sobre isto, no me diga nada. Digo-lhe que hei de fazer o que puder.
Demais, o senhor  a melhor soluo da divergncia.

 Divergncia?

 Sim, o Dr.
Hermenegildo, de Catas-Altas, e o Coronel Romualdo; dizem que ambos, em caso de
vaga, querem apresentar-se;  dividir os votos...

 Seguramente; mas
teimam?

 Creio que no
teimaro, quando eu lhes mandar daqui confirmao dos chefes, porque foi uma das
coisas que me lanaram  cara,  que eu no tinha poderes; confessei que, para
aquele caso imprevisto, no; mas que possua a confiana dos chefes, os quais me
aprovariam. Creia que est feito. Ento que pensa? Pensa que trabalho aqui
sacrificando tempo e dinheiro, e algum talento, para no valer a um amigo, que
tantas provas tem dado de fidelidade aos princpios? Oh! isso no. Ho de
ouvir-me, e adotar o que lhes proponho.

Rubio, comovido, fez
ainda outras perguntas acerca da luta e da vitria, se eram precisas despesas
j, ou carta de recomendao e pedido, e como  que se havia de ter notcia
freqente do enfermo, etc. Camacho respondia a tudo; mas recomendava-lhe
cautela. Em poltica, disse ele, uma coisa de nada desvia o curso da campanha e
d a vitria ao adversrio. Contudo, ainda que no sasse vencedor, tinha Rubio
a vantagem de ficar com o seu nome sufragado; e o precedente contava-se por um
servio.

 Firmeza e pacincia,
concluiu.

E logo em
seguida:

 Eu prprio que sou,
seno um exemplo de pacincia e firmeza? A minha provncia est entregue a um
grupo de bandidos; no h outro nome para a gente dos Pinheiros; e alm disso
(digo-lhe isto com dor e em particular) tenho amigos que me intrigam, uns
ganhadores, que querem ver se o partido me repele e se me tomam o lugar... Uns
biltres! Ah! meu caro Rubio, isto de poltica pode ser comparado  paixo de
Nosso Senhor Jesus Cristo; no falta nada, nem o discpulo que nega, nem o
discpulo que vende. Coroa de espinhos, bofetadas, madeiro, e afinal morre-se na
cruz das idias, pregado pelos cravos da inveja, da calnia e da ingratido...

Esta frase, cada no
calor da conversa, pareceu-lhe digna de um artigo; reteve-a de memria; antes de
dormir, escreveu-a em uma tira de papel. Mas, na ocasio da conversa, enquanto a
repetia consigo para fix-la, Rubio dizia que se animasse, que ele era homem
para grandes campanhas. E no fugisse de caretas.

 De caretas?
Seguramente que no. Nem de papes verdadeiros, se os h. C os espero! Que se
acautelem no dia em que subirmos! Ho de pagar tudo. Oua-me este conselho: em
poltica, no se perdoa nem se esquece nada. Quem fez uma, paga; creia que a
vingana  um prazer, continuou sorrindo; h muita delcia... Enfim, contados os
males e os bens da poltica, os bens ainda so superiores. H ingratos, mas os
ingratos demitem-se, prendem-se, perseguem-se...

Rubio ouvia subjugado.
Camacho impunha; faiscavam-lhe os olhos. Os antemas brotavam-lhe como da boca
de Isaas; as palmas do triunfo verdejavam-lhe nas mos. Cada gesto parecia um
princpio. Quando abria os braos, ferindo o ar, era como se desdobrasse um
programa inteiro. Ia-se embriagando de esperanas, e tinha o vinho alegre. De
uma vez, parou diante de Rubio:

 Vamos l, deputado;
ensaie um discurso, pedindo o encerramento da discusso: Sr.
presidente... Vamos, diga comigo: Sr. presidente, peo a V. Ex....

Rubio interrompeu-o,
erguendo-se; teve uma espcie de vertigem. Via-se na Cmara, entrando para
prestar juramento, todos os deputados de p; e teve um calafrio. O passo era
difcil. Contudo, atravessou a sala, subiu  mesa da presidncia, prestou o
juramento de estilo... Talvez a voz lhe fraqueasse na ocasio...

CAPTULO CI

Foi nesse estado que o
veio achar a notcia da morte do Freitas. Chorou uma lgrima s escondidas;
tomou a si custear as despesas do enterro, e acompanhou o defunto, na tarde
seguinte, ao cemitrio. A velha me do finado, quando o viu entrar na sala, quis
ajoelhar-se aos ps dele; Rubio abraou-a a tempo de impedir-lhe o gesto. Esse
ato do nosso amigo fez grande impresso nos convidados. Um deles veio
apertar-lhe a mo; depois a um canto, baixinho, contou-lhe a injustia da
demisso que recebera, dias antes; demisso acintosa, por causa de intrigas...

 Imagine V. Ex. que
aquilo  (com perdo da palavra) um covil de patifes...

Chegou a hora de sair o
enterro; as despedidas da me foram dolorosas: beijos, soluos, exclamaes,
tudo de mistura, e lancinante. As mulheres no conseguiram arranc-la dali;
foram precisos dois homens e o emprego de fora; ela gritava e teimava por
tornar ao cadver: meu filho! meu pobre filho!

 Um escndalo!
insistia o demitido. O prprio ministro dizem que no gostou do ato; mas V. Ex.
sabe, para no desmoralizar o diretor...

 Pan... pan... pan...
soavam os martelos surdamente, pregando o caixo.

Rubio acedeu ao pedido
que lhe faziam de pegar em uma das argolas, e deixou o demitido. Fora, alguma
gente parada; os vizinhos, s janelas, debruavam-se uns sobre os outros, com os
olhos cheios daquela curiosidade que a morte inspira aos vivos. Ao demais, havia
o coup do Rubio, que se destacava das caleas velhas. J se falava
muito daquele amigo do finado, e a presena confirmou a notcia. O defunto era
agora apreciado com certa considerao.

No cemitrio, no se
contentou Rubio com deitar a p de terra, ato em que foi primeiro, por
solicitao de todos; esperou que os coveiros enchessem a cova com as suas
grandes ps do ofcio. Tinha os olhos midos; acabou, saiu, ladeado pelos
outros, e,  porta, com uma s chapelada para a direita e para a esquerda,
saudou a todas as cabeas descobertas e curvas. Ao entrar no coup, ainda
ouviu estas palavras, a meia voz:

 Parece que  senador
ou desembargador, ou coisa assim...

CAPTULO CII

Era noite entrada.
Rubio vinha por ali abaixo, recordando o pobre diabo que enterrara, quando, na
Rua de So Cristvo, cruzou com outro coup, que levava duas ordenanas
atrs. Era um ministro que ia para o despacho imperial. Rubio ps a cabea de
fora, recolheu-a e ficou a ouvir os cavalos das ordenanas, to iguaizinhos, to
distintos, apesar do estrpito dos outros animais. Era tal a tenso do esprito
do nosso amigo, que ainda os ouvia, quando j a distncia no permitia
audincia. Catrapus... catrapus... catrapus...

CAPTULO CIII

Ao stimo dia da morte
de D. Maria Augusta, rezou-se a missa de uso, em So Francisco de Paula; Rubio
l foi, l viu Carlos Maria. Tanto bastou para precipitar a devoluo da carta;
trs dias depois, meteu-a no bolso e correu ao Flamengo. Eram duas horas da
tarde. Maria Benedita fora visitar as amigas da vizinhana, que a tinham
acompanhado nos primeiros dias de aflio; Sofia estava s, vestida para sair.

 Mas, no importa,
disse ela convidando-o a sentar-se; fico ou saio mais tarde.

Rubio retorquiu que a
demora era curta; vinha dar-lhe um papel.

 Em todo caso,
sente-se; tambm se pode dar um papel sentado.

Estava to bonita, que
ele hesitou em dizer-lhe as palavras duras que trazia de cor. O luto ia-lhe
muito bem, e o vestido parecia uma luva. Sentada, via-se-lhe metade do p,
sapato raso, meia de seda, coisas todas que pediam misericrdia e perdo. Quanto
 espada daquela bainha,  assim chama  alma um velho autor,  parecia no ter
gume nem campanhas; era uma ingnua faca de marfim. Rubio esteve a pique de
fraquear; a primeira palavra arrastou as outras.

 Que papel? perguntou
Sofia.

 Um papel que suponho
grave, respondeu ele contendo-se;  no se recorda ou no sabe que perdeu uma
carta?

 No.

 Costuma escrever
cartas?

 Tenho escrito
algumas; mas no me lembra se grave. Deixe ver.

Rubio tinha os olhos
desvairados. No disse nem fez nada. Levantou-se para sair, no saiu. Depois de
alguns instantes de silncio e inquietao, continuou sem raiva:

 No  segredo para a
senhora que lhe quero bem. A senhora sabe disto, e no me despede, nem me
aceita, anima-me com os seus bonitos modos. No me esqueci ainda de Santa
Teresa, nem da nossa viagem no trem de ferro, quando vnhamos os dois, com seu
marido no meio. Lembra-se? Foi a minha desgraa aquela viagem; desde aquele dia
a senhora me prendeu. A senhora  m, tem gnio de cobra; que mal lhe fiz eu? V
que no goste de mim; mas, podia desenganar-me logo...

 Cale-se, vem gente,
interrompeu Sofia erguendo-se tambm e olhando para o lado da porta.

No vinha ningum;
entretanto, podiam ouvi-lo, porque a voz do Rubio ia aquecendo e crescendo.
Cresceu ainda mais. J no pleiteava esperanas; abria e despejava a alma.

 No me importa que
ouam, bradou ele; podem ouvir-me; agora digo tudo, a senhora bota-me para fora
e tudo acaba. No, no se pode fazer sofrer assim um homem...

 Cale-se, pelo amor de
Deus!

 Qual Deus! Oua-me o
resto, porque eu estou disposto a no guardar nada...

Desatinada, receando
deveras que algum criado ouvisse, Sofia levantou a mo e tapou-lhe a boca. Ao
contato daquela epiderme querida, Rubio perdeu a voz. Sofia retirou a mo, e
disps-se a deixar a sala; mas, chegando  porta, parou. Rubio caminhara at 
janela, para convalescer da exploso.

CAPTULO CIV

Sofia, depois de estar
alguns segundos  escuta, tornou  sala, e foi sentar-se com grande rumor de
saias, na otomana de cetim azul, compra de poucos dias. Rubio voltou-se, e deu
com ela, abanando repreensivamente a cabea. Antes que ele falasse, Sofia ps o
dedo na boca, pedindo-lhe silncio; depois chamou-o com a mo; Rubio e
obedeceu.

 Sente-se naquela
cadeira, disse ela; e continuou, depois de o ver sentado: Tenho razo para
zangar-me com o senhor; no o fao, porque sei que  bom, e estou que  sincero;
arrependa-se do que me disse, e tudo lhe ser perdoado.

Sofia bateu com o leque
no lado direito do vestido para o abaixar e compor; depois levantou os braos
sacudindo as pulseiras de vidro preto; finalmente, pousou-os sobre os joelhos e,
abrindo e fechando as varetas do leque, aguardou a resposta. Ao contrrio do que
esperava, Rubio abanou a cabea negativamente.

 No tenho de que me
arrepender, disse ele; e prefiro que me no perdoe. A senhora ficar c dentro,
quer queira, quer no; podia mentir, mas que  que rende a mentira? A senhora 
que no tem sido sincera comigo, porque me tem enganado...

Sofia retesou o busto.

 ...No se zangue; no
desejo ofend-la; mas, deixe-me dizer que a senhora  que me tem enganado e
muito, e sem compaixo. Que ame a seu marido, v; perdoava-lhe; mas que...

 Mas que? repetiu ela
espantada.

Rubio meteu a mo no
bolso, tirou a carta, e entregou-lha. Sofia, ao ler o nome de Carlos Maria,
ficou sem pinga de sangue; ele viu-lhe a palidez. Dominando-se logo, perguntou o
que era, que queria dizer essa carta.

 A letra  sua.

  minha. Mas que
diria eu aqui dentro? continuou tranqila. Quem lhe deu isto?

Rubio quis referir o
achado; mas entendeu ter alcanado o bastante; cortejou-a para sair.

 Perdo, disse ela,
abra o senhor mesmo a carta.

 No tenho mais nada
que fazer aqui.

 Fique, abra a carta,
aqui a tem; leia tudo,  dizia a moa pegando-lhe na manga; mas, Rubio puxou
violentamente o brao, foi buscar o chapu, e saiu. Sofia, com medo dos criados,
deixou-se ficar na sala.

CAPTULO CV

To nervosa esteve
durante os primeiros instantes, que no cuidou da carta. Afinal, virou-a de um
lado para outro, sem adivinhar o contedo; mas, pouco a pouco, j senhora de si,
lembrou-se que devia ser a circular da comisso das Alagoas. Rasgou a
sobrecarta: era a circular. Como  que semelhante papel fora ter s mos dele? E
donde lhe vinha a suspeita? De si mesmo ou de fora? Correria algum boato? Foi
ter com o criado que levara a circular a Carlos Maria e perguntou-lhe se a
entregara. Soube que no. Quando o criado chegou  Rua dos Invlidos, no achou
o papel no bolso e, com medo, no dissera nada  ama.

Sofia tornou  sala,
disposta a no sair. Recolheu a carta e a sobrecarta, para mostr-las a Rubio,
a fim de que ele visse bem que no era nada; mas, provavelmente, suporia a
substituio do papel. Maldito homem! murmurou. E comeou a andar  toa.

Uma revoada de memrias
entrou na alma de Sofia. A imagem de Carlos Maria veio postar-se ante ela, com
os seus grandes olhos de espectro querido e aborrecido. Sofia quis arred-lo,
mas no pde; ele acompanhava-a de um lado para outro, sem perder o tom esbelto
e msculo, nem o ar de riso sublime. s vezes, via-o inclinar-se, articulando as
mesmas palavras de certa noite de baile, que lhe custaram a ela horas de
insnia, dias de esperana, at que se perderam na irrealidade. Nunca Sofia
compreendera o malogro daquela aventura. O homem parecia querer-lhe deveras, e
ningum o obrigava a declar-lo to atrevidamente, nem a passar-lhe pelas
janelas, alta noite, segundo lhe ouviu. Recordou ainda outros encontros,
palavras furtadas, olhos clidos e compridos, e no chegava a entender que toda
essa paixo acabasse em nada. Provavelmente, no haveria nenhuma; puro
galanteio;  quando muito, um modo de apurar as suas foras atrativas...
Natureza de pelintra, de cnico, de ftil.

Que lhe importava o
mistrio? Era um sujeito ftil. Cresceu-lhe o nojo e o desdm. Chegou a rir-se
dele; podia encar-lo sem remorsos. E foi andando por ali fora, vingando-se do
bobo,  chamava-lhe bobo,  e fitando no ar os olhos de imaculada. Em verdade,
era ocupar-se demais com tal assunto; comeou a maldizer do Rubio, que evocara
semelhante homem do esquecimento, por causa daquela triste circular... Depois,
tornou s primeiras lembranas, s palavras de Carlos Maria. Se todos a achavam
bela, por que no o acharia ele, que lho disse? Talvez o tivesse a seus ps, se
no se houvesse mostrado to agradecida, to rasteira...

De repente, a criada,
que estava na outra sala, ouvindo rumor de alguma coisa que se quebrava, correu
 de visitas, e viu a ama sozinha, de p.

 No  nada, disse-lhe
esta.

 Pareceu-me que
ouvi...

 Foi aquele boneco que
caiu; apanhe os cacos.

 O chins! exclamou a
criada.

De feito, era um
mandarim de porcelana, pobre diabo que estava muito quieto, em cima de uma
estante. Sofia achou-se com ele entre os dedos, sem saber como, nem desde
quando; ao cuidar na sua voluntria humilhao, teve um impulso,  parece que
raiva de si mesma,  e deu com o boneco em terra. Pobre mandarim! no lhe valeu
ser de porcelana; no lhe valeu sequer ser dado pelo Palha.

 Mas, minha ama, como
 que o chins...

 V-se embora!

Sofia recordou todo o
seu proceder diante de Carlos Maria, as aquiescncias fceis, os perdes
antecipados, os olhos com que o buscava, os apertos de mo to fortes... Era
isso; tinha-se-lhe lanado aos ps. Depois, o sentimento foi mudando. Apesar de
tudo, era natural que ele gostasse dela, e a conformidade moral de ambos no
traria o abandono de um. Talvez a culpa fosse outra. Escavou razes possveis,
algum gesto duro e frio, alguma falta de ateno para com ele; lembrou-se que,
uma vez, por medo de o receber sozinha, mandou dizer que no estava em casa.
Sim, podia ser isso. Carlos Maria era orgulhoso; a menor desfeita pungia-o.
Soube que era mentira... Essa era a culpa.

CAPTULO CVI

... ou, mais
propriamente, captulo em que o leitor, desorientado, no pode combinar as
tristezas de Sofia com a anedota do cocheiro. E pergunta confuso:  Ento a
entrevista da Rua da Harmonia, Sofia, Carlos Maria, esse chocalho de rimas
sonoras e delinqentes  tudo calnia? Calnia do leitor e do Rubio, no do
pobre cocheiro, que no proferiu nomes, no chegou sequer a contar uma anedota
verdadeira.  o que terias visto, se lesses com pausa. Sim, desgraado, adverte
bem que era inverossmil que um homem, indo a uma aventura daquelas, fizesse
parar o tlburi diante da casa pactuada. Seria pr uma testemunha ao crime. H
entre o cu e a terra muitas mais ruas do que sonha a tua filosofia,  ruas
transversais, onde o tlburi podia ficar esperando.

 Bem; o cocheiro no
soube compor. Mas que interesse tinha em inventar a anedota?

Conduzira Rubio a uma
casa, onde o nosso amigo ficou quase duas horas, sem o despedir; viu-o sair,
entrar no tlburi, descer logo e vir a p, ordenando-lhe que o acompanhasse.
Concluiu que era timo fregus; mas, ainda assim no se lembrou de inventar
nada. Passou, porm, uma senhora com um menino,  a da Rua da Sade,  e Rubio
quedou-se a olhar para ela com vistas de amor e melancolia. Aqui  que o
cocheiro o teve por lascivo, alm de prdigo, e encomendou-lhe as suas prendas.
Se falou em Rua da Harmonia foi por sugesto do bairro donde vinham; e, se disse
que trouxera um moo da Rua dos Invlidos,  que naturalmente transportara de l
algum, na vspera,  talvez o prprio Carlos Maria,  ou porque l morasse, ou
porque l tivesse a cocheira,  qualquer outra circunstncia que lhe ajudou a
inveno, como as reminiscncias do dia servem de matria aos sonhos da noite.
Nem todos os cocheiros so imaginativos. J  muito concertar farrapos da
realidade.

Resta s a coincidncia
de morar na Rua da Harmonia uma das costureiras do luto. Aqui, sim, parece um
propsito do acaso. Mas a culpa  da costureira; no lhe faltaria casa mais para
o centro da cidade, se quisesse deixar a agulha e o marido. Ao contrrio disso,
ama-os sobre todas as coisas deste mundo. No era razo para que eu cortasse o
episdio, ou interrompesse o livro.

CAPTULO CVII

Das reflexes de Sofia
 que no h que explicar. Todas tinham o p na verdade. Era certo e certssimo
que Carlos Maria no correspondera s primeiras esperanas,  nem s segundas e
terceiras,  porque as houve em quadras diversas, ainda que menos verdes e
bastas. Quanto  causa disso, vimos que Sofia,  mngua de uma, atribuiu-lhe
sucessivamente trs. No chegou a pensar em alguns amores que ele porventura
trouxesse e lhe tornassem inspidos quaisquer outros. Seria uma quarta causa, e
talvez a verdadeira.

CAPTULO CVIII

Durante alguns meses,
Rubio deixou de ir ao Flamengo. No foi resoluo fcil de cumprir. Custou-lhe
muita hesitao, muito arrependimento; mais de uma vez chegou a sair com o
propsito de visitar Sofia e pedir-lhe perdo. De qu? No sabia; mas queria ser
perdoado. Em todas as tentativas desse gnero, a lembrana de Carlos Maria
fazia-o recuar. De certo ponto em diante, foi o prprio lapso de tempo que o
tolheu; era esquisito aparecer l um dia, como um triste filho prdigo,
unicamente para suplicar o calor dos belos olhos da dona da casa. Ia ao armazm,
visitar o Palha; este, ao fim de cinco semanas, reprochou-lhe a ausncia; e,
passados dois meses, perguntou-lhe se era formal propsito.

 Tenho tido muito que
fazer, acudiu Rubio; estes negcios polticos tomam todo o tempo a uma pessoa.
Vou l domingo.

Sofia aparelhou-se para
receb-lo. Espiaria a ocasio de lhe dizer o que era a carta, jurando por todas
as coisas santas, para que ele visse que a verdade no era contra ela. Planos
perdidos; Rubio no compareceu. Veio outro domingo, vieram outros domingos...
No obstante, Sofia remeteu-lhe um dia a subscrio para as Alagoas; ele assinou
cinco contos de ris.

  muito, disse-lhe o
scio, no armazm, quando ele lhe foi levar o papel.

 No dou menos.

 Mas olhe que pode dar
muito, sem dar tanto. Parece-lhe ento que esta subscrio  feita entre meia
dzia de pessoas? Anda nas mos de muitas senhoras e de alguns homens; est nos
mostradores das lojas, na Praa do Comrcio, etc. Assine menos.

 Como, se est
escrito?

 Deste 5 pode-se fazer
muito bem um 3. Trs contos j  uma boa assinatura. H maiores, mas so de
pessoas obrigadas pelo cargo ou pelos milhes; o Bonfim, por exemplo, assinou
dez contos.

Rubio no pde reter
um risinho irnico; abanou a cabea, e no recuou dos cinco contos. S
emendaria, escrevendo o algarismo 1 atrs,  quinze contos,  mais que o Bonfim.

 Seguramente, que pode
dar cinco, dez ou quinze contos, tornou o Palha; mas o seu capital precisa
cautelas, voc est entrando muito por ele... Repare que j lhe rende menos.

Palha era agora o
depositrio dos ttulos de Rubio (aes, aplices, escrituras) que estavam
fechados na burra do armazm. Cobrava-lhe os juros, os dividendos e os aluguis
de trs casas, que lhe fizera comprar algum tempo antes, a vil preo, e que lhe
rendiam muito. Guardava tambm uma poro de moedas de ouro, porque Rubio tinha
a mania de as colecionar, para a contemplao. Conhecia, mais que o dono, a soma
total dos bens, e assistia aos rombos feitos na caravela, sem temporal, mar de
leite. Trs contos bastavam, insistiu ele; e provou a sinceridade pelo fato de
ser justamente marido da fundadora da comisso. Mas o Rubio no desistiu dos
cinco; aproveitou a ocasio para pedir-lhe mais dez; precisava de dez contos.
Palha coou a cabea.

 Voc desculpe,
disse-lhe ao cabo de alguns instantes, mas para que  que os quer? No est
certo que vai perd-los, ou arrisc-los, ao menos?

Rubio riu da objeo.

 Se eu estivesse certo
de que os perdia, no vinha busc-los. Pode ser arriscado, mas no  sem
arriscar que se ganha. Preciso deles para um negcio,  quero dizer, trs
negcios. Dois so emprstimos seguros, e no passam de um conto e quinhentos.
Os oito contos e quinhentos so para uma empresa. Por que abana a cabea, se no
sabe de que se trata?

 Por isso mesmo. Se
voc me consultasse, se me dissesse que empresa e que pessoas eram, eu veria
logo se podia arriscar-se; e receio muito que nada preste, a no ser o dinheiro
que se perder. Lembra-se das aes daquela Companhia Unio dos Capitais
Honestos? Disse-lhe logo que este ttulo era enftico, um modo de embair a
gente, e dar emprego a sujeitos necessitados. Voc no quis crer, e caiu. As
aes esto por baixo, e j este semestre no h dividendos.

 Pois venda justamente
essas aes; contento-me com o slido. Ou ento d-me da caixa da nossa casa...
Passo logo por aqui, se voc quiser,  ou mande-me l a Botafogo. Caucione umas
aplices, se lhe parecer melhor...

  No, no fao
nada; no dou os dez contos, atalhou fogosamente o Palha. Basta de ceder a tudo;
o meu dever  resistir. Emprstimos seguros? Que emprstimos so esses? No v
que lhe levam o dinheiro, e no lhe pagam as dvidas? Sujeitos que vo ao ponto
de jantar diariamente com o prprio credor, como um tal Carneiro que l tenho
visto. Dos outros no sei se lhe devem tambm;  possvel que sim. Vejo que 
demais. Falo-lhe por ser amigo; no dir algum dia que no foi avisado em tempo.
De que h de viver, se estragar o que possui? A nossa casa pode cair.

 No cai, acudiu o
Rubio.

 Pode cair; tudo pode
cair. Eu vi cair o banqueiro Souto, em 1864.

Rubio remoa os
conselhos do scio, no por serem bons nem provveis, mas por achar neles uma
inteno maviosa, revestida de forma crua. Agradeceu-os de corao, mas
rejeitou-os; precisava dos dez contos. Podia ter mais tento, dali em diante, e
afirmava-lhe que seria menos fcil. De resto, possua de sobra, tinha dinheiro
para dar e vender...

 Para vender s,
emendou o Palha.

E, depois de um
instante:

 Bem, agora  tarde,
amanh levo-lhe os dez contos. E por que os no h de ir buscar l  nossa casa
ao Flamengo? Que mal lhe fizemos ns? Ou que lhe fizeram elas? porque a zanga
parece ser com elas, visto que o vejo aqui. Que foi, para castig-las? concluiu
rindo.

Rubio desviou os olhos
do scio, cuja palavra lhe parecia afiada de ironia,  como de pessoa que
soubesse tudo, e risse dele. Quando lhos tornou, viu o mesmo semblante
interrogativo, e respondeu:

 No me fizeram nada;
l irei amanh  noite.

 V jantar.

 Jantar, no posso,
tenho uns amigos em casa; vou de noite. E querendo rir:  No as castigue, que
no me fizeram nada.

 Algum o possui,
refletiu Palha logo que ele saiu; algum, por inveja s nossas relaes...
Tambm pode ser que Sofia lhe fizesse alguma coisa para arred-lo de casa...

Rubio assomou outra
vez  porta; no tivera tempo de chegar  esquina. Voltava para dizer que,
precisando do dinheiro cedo, viria busc-lo ao armazm; de noite iria ento
visit-los. Precisava do dinheiro at s duas horas da tarde.

CAPTULO CIX

Nessa noite, Rubio
sonhou com Sofia e Maria Benedita. Viu-as num grande terreiro, apenas vestidas
de saia, costas inteiramente despidas; o marido de Sofia, armado de um azorrague
de cinco pontas de couro, rematando em bicos de ferro, castigava-as
despiedadamente. Elas gritavam, pediam misericrdia, torciam-se, alagadas em
sangue, as carnes caam-lhes aos bocados. Agora, por que razo Sofia era a
imperatriz Eugnia, e Maria Benedita uma aia sua,  o que no sei dizer com
exatido. "So sonhos, sonhos, Penseroso!" exclamava um personagem do nosso
lvares de Azevedo. Mas eu prefiro a reflexo do velho Polonius, acabando de
ouvir uma fala tresloucada de Hamlet: "Desvario embora, l tem seu mtodo".
Tambm h mtodo aqui, nessa mistura de Sofia e Eugnia; e ainda h mtodo no
que se lhe seguiu, e que parece mais extravagante.

Sim, Rubio, indignado,
mandou logo cessar o castigo, enforcar o Palha e recolher as vtimas. Uma delas,
Sofia, aceitou um lugar na carruagem aberta que esperava pelo Rubio, e l foram
a galope, ela garrida e s, ele glorioso e dominador. Os cavalos, que eram dois
 sada, eram da a pouco, oito, quatro belas parelhas. Ruas e janelas cheias de
gente, flores chovendo em cima deles, aclamaes... Rubio sentiu que era o
Imperador Lus Napoleo; o cachorro ia no carro aos ps de Sofia...

Tudo acabou sem fim,
nem fracasso. Rubio abriu os olhos; talvez alguma pulga o mordeu; qualquer
coisa: "Sonhos, sonhos, Penseroso!" Ainda agora prefiro o dito de Polonius:
"Desvario embora, l tem seu mtodo!"

CAPTULO CX

Rubio fez os dois
emprstimos e o negcio. O negcio era uma Empresa Melhoradora dos Embarques e
Desembarques no Porto do Rio de Janeiro. Um dos emprstimos tinha por fim pagar
certa conta atrasada de papel da Atalaia, dvida urgente. A folha estava
ameaada de parar.

 Perfeitamente, disse
Camacho, quando Rubio lhe foi levar o dinheiro  casa. Muito obrigado. Veja
voc como, por uma misria desta ordem, podia emudecer o nosso rgo. So os
espinhos naturais da carreira. O povo no est educado; no reconhece, no apia
os que trabalham por ele, os que descem  arena todos os dias em defesa das
liberdades constitucionais. Imagine que, de momento, no dispnhamos deste
dinheiro, tudo estava perdido, cada um ia para os seus negcios, e os princpios
ficavam sem o seu leal expositor.

 Nunca! protestou
Rubio.

 Tem razo;
redobraremos de esforos. A Atalaia ser como o Anteu da fbula. De cada
vez que cair, erguer-se- com mais vida.

Dito isto, Camacho
mirou o mao de notas. Um conto e duzentos no? perguntou; e meteu-o no bolso do
fraque. Continuou a dizer que estavam seguros agora, a folha ia de vento em
popa. Tinha certas reformas materiais em vista; foi ainda mais longe:

 Precisamos
desenvolver o programa, dar um empurro aos correligionrios, atac-los, se for
preciso...

 Como?

 Ora, como? atacando.
Atacar  um modo de dizer; corrigir.  evidente que o rgo do partido est
afrouxando. Chamo rgo do partido, porque a nossa folha  rgo das idias do
partido; compreende a diferena?

 Compreendo.

 Vai afrouxando,
continuou Camacho apertando um charuto entre os dedos, antes de o acender; ns
precisamos de acentuar os princpios, mas francamente, nobremente, dizendo a
verdade. Creia que os chefes precisam ouvi-la a seus prprios amigos e
aderentes. Nunca rejeitei a conciliao dos partidos, pugnei por ela; mas
conciliao no  jogo de empulha. Para lhe dar um exemplo, na minha provncia a
gente dos Pinheiros tem o apoio do governo, unicamente para me deslocar; e os
meus correligionrios da Corte, em vez de a combater, visto que o governo lhe d
fora, que pensa que fazem? Do tambm apoio aos Pinheiros.

 Tm ao menos alguma
influncia os Pinheiros?

 Nenhuma, respondeu
Camacho fechando violentamente a caixa de fsforos que ia a abrir. H um ru de
polcia entre eles, e h outro que at foi aprendiz de barbeiro. Matriculou-se,
 verdade, na Faculdade do Recife, creio que em 1855, por morte do padrinho que
lhe deixou alguma coisa, mas tal  o escndalo da carreira desse homem que, logo
depois de receber o diploma de bacharel, entrou na assemblia provincial.  uma
besta;  to bacharel como eu sou papa.

Entenderam-se sobre as
modificaes polticas da folha. Camacho lembrou ao Rubio que a candidatura
deste naufragara por causa justamente da oposio dos chefes. De alguns, emendou
logo. Rubio concordou; assim lho tinha dito o amigo em tempo, e a lembrana
avivou o ressentimento do desastre. Podia, devia estar na Cmara. Os tais  que
o no quiseram; mas haviam de ver, pensava Rubio; tinham de amargar o mal
feito. Deputado, senador, ministro, v-lo-iam tudo, com olhos tortos e
espantados. A cabea de nosso amigo, tanto que o outro lhe ps a fasca, foi
ardendo de si mesma, no por dio, nem inveja, mas de ambio ingnua, de
cordial certeza, viso antecipada e deslumbrante das grandezas. Camacho estimou
ach-lo de acordo.

 A nossa gente  de
igual opinio, disse ele. Creio que no faz mal uma pequena ameaa aos amigos.

Nessa mesma noite,
leu-lhe o artigo em que advertia o partido da convenincia de no ceder s
perfdias do poder, apoiando em algumas provncias certa gente corrupta e sem
valor. Eis aqui a concluso:

Os partidos devem ser
unidos e disciplinados. H quem pretenda (mirabile dictu!) que essa
disciplina e unio no podem ir ao ponto de rejeitar os benefcios que caem das
mos dos adversrios. Risum teneatis! Quem pode proferir tal blasfmia
sem que lhe tremam as carnes? Mas suponhamos que assim seja, que a oposio
possa, uma ou outra vez, fechar os olhos aos desmandos do governo,  postergao
das leis, aos excessos da autoridade,  perversidade e aos sofismas. Quid
inde? Tais casos,  alis raros,  s podiam ser admitidos quando
favorecessem os elementos bons, no os maus. Cada partido tem os seus dscolos e
sicofantas.  interesse dos nossos adversrios ver-nos afrouxar, a troco da
animao dada  parte corrupta do partido. Esta  a verdade; neg-lo 
provocar-nos  guerra intestina, isto ,  dilacerao da alma nacional... Mas,
no, as idias no morrem; elas so o lbaro da justia. Os vendilhes sero
expulsos do templo; ficaro os crentes e os puros, os que pem acima dos
interesses mesquinhos, locais e passageiros a vitria indefectvel dos
princpios. Tudo que no for isto ter-nos- contra si. Alea jacta est.

CAPTULO CXI

Rubio aplaudiu o
artigo; achava-o excelente. Talvez pouco enrgico. Vendilhes, por
exemplo, era bem dito; mas ficava melhor vis vendilhes.

 Vis vendilhes? H s
um inconveniente, ponderou Camacho.  a repetio dos vv. Vis ven... Vis
vendilhes; no sente que o som fica desagradvel?

 Mas l em cima h
vs vis...

 Vae victis.
Mas  uma frase latina. Podemos arranjar outra coisa: vis mercadores.

 Vis mercadores  bom.

 Contudo,
mercadores no tem a fora de vendilhes.

 Ento, por que no
deixa vendilhes? Vis vendilhes  forte; ningum repara no som. Olhe, eu nunca
dou por isso. Gosto de energia. Vis vendilhes

 Vis vendilhes, vis
vendilhes, repetiu Camacho,  meia voz. J estou achando melhor. Vis
vendilhes. Aceito, concluiu emendando. E releu: Os vis vendilhes sero
expulsos do templo; ficaro os crentes e os puros, os que pem acima dos
interesses mesquinhos, locais e passageiros a vitria indefectvel dos
princpios. Tudo que no for isto ter-nos- contra si. Alea jacta est.

 Muito bem! disse
Rubio, sentindo-se algum tanto autor do artigo.

 Parece-lhe bem?
perguntou Camacho, sorrindo. H pessoas que ainda me acham no estilo a frescura
do meu tempo de estudante. No sei, no digo nada; a disposio, sim,  a mesma.
Hei de castig-los; havemos de castig-los.

CAPTULO CXII

Aqui  que eu quisera
ter dado a este livro o mtodo de tantos outros,  velhos todos,  em que a
matria do captulo era posta no sumrio: "De como aconteceu isto assim, e mais
assim. A est Bernardim Ribeiro; a esto outros livros gloriosos. Das lnguas
estranhas, sem querer subir a Cervantes nem a Rabelais, bastavam-me Fielding e
Smollet, muitos captulos dos quais s pelo sumrio esto lidos. Pegai em Tom
Jones, livro IV, cap. I, lede este ttulo: Contendo cinco folhas de
papel.  claro,  simples, no engana a ningum; so cinco folhas, mais
nada, quem no quer no l, e quem quer l, para os ltimos  que o autor
conclui obsequiosamente: "E agora, sem mais prefcio, vamos ao seguinte
captulo".

CAPTULO CXIII

Se tal fosse o mtodo
deste livro, eis aqui um ttulo que explicaria tudo: "De como Rubio, satisfeito
da emenda feita no artigo, tantas frases comps e ruminou, que acabou por
escrever todos os livros que lera".

L haver leitor a quem
s isso no bastasse. Naturalmente, quereria toda a anlise da operao mental
do nosso homem, sem advertir que, para tanto, no chegariam as cinco folhas de
papel de Fielding. H um abismo entre a primeira frase de que Rubio era
co-autor at a autoria de todas as obras lidas por ele;  certo que o que mais
lhe custou foi ir da frase ao primeiro livro;  deste em diante a carreira
fez-se rpida. No importa; a anlise seria ainda assim longa e fastidiosa. O
melhor de tudo  deixar s isto; durante alguns minutos, Rubio se teve por
autor de muitas obras alheias.

CAPTULO CXIV

Ao contrrio, no sei
se o captulo que se segue poderia estar todo no ttulo.

CAPTULO CXV

Rubio foi mantendo o
propsito de no tornar a ver Sofia; pelo menos, no ia ao Flamengo. Viu-a um
dia passar de carro, com uma das damas da comisso das Alagoas; ela inclinou-se
risonha, dizendo-lhe adeus com a mo. Ele retribuiu o cumprimento, tirando o
chapu, com tal ou qual alvoroo, mas no ficou parado como lhe aconteceria
dantes; apenas lanou um olhar ao carro que ia andando. Tambm ele foi andando,
 e pensando no lance da carta, no compreendendo aquele gesto de mo, sem dio
nem vexame,  como se nada houvesse entre eles. Podia ser que o servio da
comisso e a companheira que levava explicassem a benevolncia graciosa de
Sofia; mas Rubio no cogitou desta hiptese.

 Estar assim to
falta de brio? perguntava ele. Pois no se lembra da carta que achei, mandada
por ela ao tal gamenho da Rua dos Invlidos?  muito;  demais. Parece um
desafio, um modo de dizer que no faz caso, que escrever todas as cartas que
quiser. Que as escreva, mas gaste algum dinheiro em registr-las no correio; 
barato.

Achou algum pico em si
mesmo, e riu-se. Isto, e um homem que passou rasgando-lhe uma cortesia,
tiraram-lhe o amargor das saudades, e ele esqueceu o assunto, para cuidar de
outro, que o levava ao Banco do Brasil.

Ao entrar no Banco
esbarrou no scio, que saiu.

 Creio que vi agora D.
Sofia, disse-lhe Rubio.

 Onde?

 Na Rua dos Ourives;
ia de carro, com outra senhora, que no conheo. Como tem voc passado?

 Viu-a, e no se
lembrou de nada, observou Palha, sem responder  pergunta. No se lembrou que
ela faz anos, quarta-feira, depois de amanh. No lhe peo que v jantar, no
ouso tanto, seria convid-lo a aborrecer-se; mas uma xcara de ch bebe-se
depressa. Faz-me esse favor?

Rubio no respondeu
logo.

 Vou at jantar, disse
finalmente. Quarta-feira? Conte comigo. Tinha-me esquecido, confesso; mas ando
com tanta coisa na cabea... Espere por mim daqui a meia hora, no armazm.

Antes de meia hora
estava l, pedindo-lhe dois contos de ris. Palha j no resistia ao
desmoronamento do capital; e, se uma ou outra vez, dizia alguma palavrinha
frouxa, agora entregou-lhe o dinheiro com indiferena. Rubio no tornou  casa
sem comprar um magnfico brilhante, que, na quarta-feira, enviou a Sofia,
acompanhado de um bilhete de visita, e duas palavras de felicitao.

Sofia estava s, no
quarto de vestir, calando os sapatos, quando a criada lhe entregou o pacote.
Era o terceiro presente do dia; a criada esperou que ela o abrisse para ver
tambm o que era. Sofia ficou deslumbrada, quando abriu a caixa e deu com a rica
jia,  uma bela pedra, no centro de um colar. Esperava alguma coisa bonita;
mas, depois dos ltimos sucessos, mal podia crer que ele fosse to generoso.
Batia-lhe o corao.

 O portador est a?

 J foi. Que bonito,
minha ama!

Sofia fechou a caixa, e
acabou de calar-se. Deteve-se algum tempo, sentada, sozinha, recordando coisas
idas, e levantou-se pensando:

 Aquele homem
adora-me.

Tratou de vestir-se;
mas, ao passar por diante do espelho, deixou-se estar alguns instantes.
Comprazia-se na contemplao de si mesma, das suas ricas formas, dos braos nus
de cima a baixo, dos prprios olhos contempladores. Fazia vinte e nove anos,
achava que era a mesma dos vinte e cinco, e no se enganava. Cingido e apertado
o colete, diante do espelho, acomodou os seios com amor, e deixou espraiar-se o
colo magnfico. Lembrou-se ento de ver como lhe ficava o brilhante; tirou o
colar e p-lo ao pescoo. Perfeito. Voltou-se da esquerda para a direita e
vice-versa, aproximou-se, afetou-se, aumentou a luz do camarim; perfeito. Fechou
a jia e guardou-a.

 Aquele homem
adora-me, repetiu.

 Provavelmente, ele l
estar, pensou Rubio indo jantar ao Flamengo; duvido que tenha dado melhor
presente que eu.

Carlos Maria l estava,
efetivamente, conversando, entre uma das comissrias das Alagoas e Maria
Benedita. Poucos eram os convivas; houve propsito em escolher e limitar. No
estava ali o Major Siqueira, nem a filha, nem as senhoras e os homens que Rubio
conheceu naquele outro jantar de Santa Teresa. Da comisso das Alagoas viam-se
algumas damas; via-se mais o diretor do banco,  o da visita ao ministro,  com
a senhora e as filhas,  outro personagem bancrio, um comerciante ingls, um
deputado, um desembargador, um conselheiro, alguns capitalistas, e pouco mais.

Posto que evidentemente
gloriosa, Sofia esqueceu por um instante os outros, quando viu Rubio entrar na
sala e caminhar para ela. Ou mudana, ou descostume, achou-lhe outro ar, passo
firme, cabea levantada, o avesso, em suma, do antigo gesto encolhido e
diminuto. Sofia apertou-lhe a mo com fora e sussurrou um agradecimento.  mesa
f-lo sentar ao p de si, tendo do outro lado a presidente da comisso. Rubio
olhava superiormente para tudo. A qualidade dos convivas no lhe produziu
impresso, nem o ar cerimonioso, nem o luxo da mesa; nada disso o deslumbrou. O
mesmo cuidado particular de Sofia, embora lhe fosse agradvel, no o tonteava,
como outrora. E da parte dela era mais apurada a ateno, e os olhos
excepcionalmente meigos e serviais. Rubio procurou Carlos Maria; l estava
entre as mesmas moas da sala,  Maria Benedita e a comissria das Alagoas.
Verificou que s se ocupava com elas, no olhava para Sofia, nem esta para ele.

 Talvez disfarcem,
pensou.

Pareceu-lhe, ao
levantarem-se da mesa, que trocavam um olhar; mas o movimento geral da reunio
podia iludi-lo, e Rubio no fez maior cabedal da observao. Sofia dera-se
pressa em tomar-lhe o brao. De caminho, disse-lhe ela:

 Tenho esperado pelo
senhor desde aquele dia, e nunca mais veio aqui. Era meu direito exigi-lo, para
explicar-me. Logo falaremos.

Rubio foi da a pouco
para o gabinete dos fumantes. Ouviu calado, com os olhos erradios. Quando os
outros saram, Rubio deixou-se estar s, meio reclinado em um sof de couro,
sem pensar. A imaginao  que fazia o seu ofcio, um tanto pachorrenta, agora,
 talvez porque ele tivesse comido muito. L fora iam entrando os convidados da
noite; enchia-se a casa, crescia o burburinho da conversao, sem que o nosso
amigo descesse dos seus belos sonhos. O prprio som do piano, que fez calar
todos os rumores, no o atraiu  terra. Mas um farfalhar de sedas, entrando no
gabinete, f-lo erguer-se de golpe, acordado.

 A est, disse Sofia,
recolhe-se aqui para fugir ao aborrecimento; nem quer ouvir boa msica. Pensei
que tivesse ido embora. Vim ter com o senhor.

E sem mais demora,
porque no podia perder um minuto, referiu-lhe o que sabemos da carta achada no
jardim de Botafogo; lembrou-lhe que, antes de a abrir, pedira-lhe que ele mesmo
a abrisse e lesse. Que melhor prova de inocncia? A palavra saa-lhe rpida,
sria, digna e comovida. Ocasio houve em que os olhos se lhe tornaram midos;
ela enxugou-os, e ficaram vermelhos. Rubio pegou-lhe na mo, e viu ainda uma
lgrima,  uma pequena lgrima,  escorregar at o canto da boca. Jurou ento
que sim, acreditava em tudo. Que idia aquela de chorar? Sofia enxugou ainda os
olhos, e estendeu-lhe a mo agradecida.

 At j, disse ela.

O piano continuava;
Rubio notou-lhe esta circunstncia. Enquanto ouviam tocar, no viriam ter com
eles.

 Mas eu  que no
posso estar ausente tanto tempo, acudiu Sofia. Demais, tenho ordens que dar. At
j.

 Olhe, escute,
insistiu Rubio.

Sofia parou.

 Escute; deixe-me
dizer-lhe, e no sei se pela ltima vez...

 Pela ltima vez?

 Quem sabe? Pode ser
que ltima. Importa-me pouco que esse homem viva ou no, mas posso ach-lo aqui
alguma vez, e no me sinto disposto a brigar.

 H de encontr-lo
todos os dias. Cristiano ainda lhe no disse o que h? Vai casar com Maria
Benedita.

Rubio deu um passo
para trs.

 Casam-se, continuou
ela. O fato  de admirar porque surgiu quando menos contvamos com isto;  ou
eram muito fingidos, ou foi coisa que lhes deu de repente. Casam-se. Maria
Benedita contou-me uma histria, que me foi confirmada por outra pessoa; mas,
afinal, a histria  sempre a mesma. Gostaram um do outro, e adeus. Casam-se
brevemente. Quando ele falou a Cristiano, Cristiano respondeu que dependia de
mim... Como se fosse me dela! Consenti logo, e desejo que sejam felizes. Ele
parece bom rapaz; ela  excelente criatura; ho de ser felizes, por fora.  bom
negcio, sabe? Ele est de posse de todos os bens do pai e da me. Maria
Benedita no tem nada, em dinheiro; mas tem a educao que lhe dei. H de
lembrar-se que, quando veio para minha companhia, era um bicho-do-mato; no
sabia quase nada; fui eu que a eduquei. Minha tia merecia tudo, e ela tambm.
Pois,  verdade, casam-se muito breve. No os viu hoje sempre juntos? No h
ainda participao oficial; mas os ntimos da famlia podem saber.

Para quem tinha tanta
pressa, eis a um discurso demasiado comprido. Sofia deu por isso um pouco
tarde; repetiu a Rubio que at logo, que fosse para a sala. O piano acabara;
ouvia-se um burburinho discreto de aplauso e conversao.

CAPTULO CXVI

Iam casar? Mas como 
ento qu?... Maria Benedita,  era Maria Benedita que casava com Carlos Maria;
mas ento Carlos Maria... Compreendia agora; era tudo engano, confuso; o que
parecia ser com uma pessoa era com outra, e a est como a gente pode chegar 
calnia e ao crime.

Assim reflexionava
Rubio, saindo para a sala de jantar, onde os copeiros adereavam a mesa da
ceia. E continuou, andando ao comprido da sala: " Ora vejam! E o Palha queria
justamente casar-me com a prima, mal sabendo que o destino lhe guardava outro
noivo. No  feio rapaz;  muito mais bonito que ela. Ao p de Sofia, Maria
Benedita vale pouco ou nada; mas a simpatia  assim mesmo... Casam-se, e
breve... Ser de estrondo o casamento? Deve ser; o Palha vive agora um pouco
melhor...  e Rubio lanava os olhos aos mveis, porcelanas, cristais,
reposteiros.  H de ser de estrondo. E depois o noivo  rico..." Rubio pensou
na carruagem e nos cavalos que levaria; tinha visto uma parelha soberba, no
Engenho Velho, dias antes, que estava mesmo ao pintar. Ia fazer a encomenda de
outra assim, fosse por que preo; tinha tambm de presentear a noiva. Ao pensar
nela viu-a entrar na sala.

 Prima Sofia onde
est? perguntou ela ao Rubio.

 No sei; esteve aqui
h pouco.

E, como a visse
disposta a ir adiante, pediu-lhe uma palavra, e que se no zangasse. Maria
Benedita esperou; ele, sem hesitao, deu-lhe os parabns. Sabia que ia casar...
Maria Benedita ficou muito vermelha, e murmurou que no divulgasse nada. No
havia ento nenhum criado ali; Rubio pegou-lhe na mo e fechou-a entre as suas.

 Eu sou da casa,
disse; a senhora merece ser feliz, e espero que seja.

Um pouco assustada,
Maria Benedita puxou a mo e libertou-a; mas, para o no aborrecer, sorriu. No
era preciso tanto; ele estava encantado. Sabemos que a moa no era bonita. Pois
estava linda,  fora de felicidade. A natureza parecia haver posto nela as suas
mais finas idias. Sorrindo igualmente, Rubio continuou:

 Foi sua prima que me
disse; recomendou-me segredo. No direi nada antes do tempo. Mas que tem que
diga  senhora? A senhora  boa e merece tudo. No  preciso esconder os olhos;
casar no  vergonha. Vamos l; levante a cabea e ria.

Maria Benedita ps nele
os olhos radiantes.

 Isso! aplaudiu
Rubio. Que mal h em confessar-se a um amigo? Deixe-me dizer-lhe a verdade;
creio que a senhora ser feliz, mas admito que ele ainda ser mais feliz. No?
Ver se no  verdade; ele mesmo lhe h de dizer o que sentir, e, se for
sincero, a senhora reconhecer que eu estou apenas profetizando. Bem sei que no
tem balana para medir os sentimentos; enfim, o que eu quero dizer  que a
senhora  uma linda e boa criatura... V, v-se embora; se no, fico dizendo
verdades, e a senhora est corando muito...

De fato, Maria Benedita
corava de gosto, ouvindo a linguagem de Rubio. Em casa, achara aquiescncia,
nada mais. O prprio Carlos Maria no era assim terno; gostava dela com
circunspeo. Falava-lhe da felicidade conjugal, como de uma taxa que ia receber
do destino,  pagamento devido, integral e certo. Tambm no era preciso que a
tratasse de outro modo, para que ela o adorasse sobre todas as coisas deste
mundo. Rubio repetiu a despedida, e ficou a olhar para ela, como para uma
filha. Viu-a ir assim, atravessar a sala, viva e satisfeita,  to diversa do
que achara em outros tempos, a desaparecer por uma das portas. No pde reter
esta palavra:

 Linda e boa criatura!

CAPTULO CXVII

A histria do casamento
de Maria Benedita  curta; e, posto Sofia a ache vulgar, vale a pena diz-la.
Fique desde j admitido que, se no fosse a epidemia das Alagoas, talvez no
chegasse a haver casamento; donde se conclui que as catstrofes so teis, e at
necessrias. Sobejam exemplos; mas basta um contozinho que ouvi em criana, e
que aqui lhes dou em duas linhas. Era uma vez uma choupana que ardia na estrada;
a dona,  um triste molambo de mulher,  chorava o seu desastre, a poucos
passos, sentada no cho. Seno quando, indo a passar um homem brio, viu o
incndio, viu a mulher, perguntou-lhe se a casa era dela.

  minha, sim, meu
senhor;  tudo o que eu possua neste mundo.

 D-me ento licena
que acenda ali o meu charuto?

O padre que me contou
isto certamente emendou o texto original; no  preciso estar embriagado para
acender um charuto nas misrias alheias. Bom Padre Chagas!  Chamava-se Chagas.
 Padre mais que bom, que assim me incutiste por muitos anos essa idia
consoladora, de que ningum, em seu juzo, faz render o mal dos outros; no
contando o respeito que aquele bbado tinha ao princpio da propriedade,  a
ponto de no acender o charuto sem pedir licena  dona das runas. Tudo idias
consoladoras. Bom Padre Chagas!

CAPTULO CXVIII

Adeus, Padre Chagas!
Vou  histria do casamento. Que Maria Benedita gostava de Carlos Maria,  coisa
vista ou pressentida desde aquele baile da Rua dos Arcos, em que ele e Sofia
valsaram tanto. Vimo-la na manh seguinte, pronta a ir para a roa; a prima
apaziguou-a com a promessa de que lhe estava arranjando um noivo. Maria Benedita
cuidou que era o valsista da vspera, e ficou esperando. No lhe confessou nada,
 por vergonha, a princpio,  e depois, por lhe no fazer perder o efeito da
novidade, quando Sofia houvesse de descobrir o nome da pessoa. Se confessasse
desde logo, podia acontecer tambm que a outra afrouxasse na tarefa, e l se
perdia a causa. No faamos caso disto; so pequenos clculos de moa.

Sobreveio a epidemia
das Alagoas. Sofia organizou a comisso, que trouxe novas relaes  famlia
Palha. Includa entre as senhoras que formavam uma das subcomisses, Maria
Benedita trabalhou com todas, mas granjeou em especial a estima de uma delas, D.
Fernanda, esposa de um deputado. D. Fernanda tinha pouco mais de trinta anos,
era jovial, expansiva, corada e robusta; nascera em Porto Alegre, casara com um
bacharel das Alagoas, deputado agora por outra provncia, e, segundo corria,
prestes a ser ministro de Estado. A naturalidade do marido foi o pretexto para
met-la na comisso; e bem acertado foi, porque ela pedia como quem manda, no
tinha acanhamento nem admitia recusa. Carlos Maria, que era seu primo, foi
visit-la logo que ela chegou ao Rio de Janeiro. Achou-a mais formosa ainda que
em 1865, ltimo ano em que a vira, e talvez fosse verdade; concluiu que o ar do
Sul era feito para enrijar as pessoas, duplicar-lhe as graas, e prometeu ir l
acabar os seus dias.

 Vamos para l, que
lhe arranjarei casamento, disse ela. Conheo uma moa de Pelotas, que  um
bijou, e s casa com moo da Corte.

 Comigo, naturalmente?

 Da Corte e de olhos
grandes. Olhe que no estou brincando.  uma guasca de primeira ordem. Tenho
aqui o retrato dela.

D. Fernanda abriu o
lbum e mostrou o retrato da pessoa.

 No  feia, concordou
ele.

 S?

 Sim,  bonita.

 Onde  que voc bota
os seus chinelos velhos, primo?

Carlos Maria sorriu sem
responder; no gostou da expresso. Quis passar a outro assunto. Mas D. Fernanda
tornou ao casamento da amiga de Pelotas. Mirava o retrato, coloria-o de
palavras, dizendo como eram os olhos, os cabelos, a tez; e depois fez uma
pequena biografia de Sonora. Tinha este bonito nome. O padre que a batizou
hesitou em dar-lho, apesar do respeito e influncia do pai da menina, rico
estancieiro; mas, afinal cedeu, considerando que as virtudes da pessoa podiam
levar o nome ao rol dos santos.

 Cr que ela v ao rol
dos santos? perguntou Carlos Maria.

 Se casar com voc,
creio.

 No me explica nada;
casando com o diabo suceder a mesma coisa, e com mais certeza, por causa do
martrio. Santa Sonora, no  feio nome, responde bem ao sentido. Santa
Sonora... Em todo caso, prima...

 Voc tem raa de
judeu; cale-se, interrompeu ela. Recusa ento a minha guasca? continuou indo pr
o lbum no seu lugar.

 No recuso; deixe-me
ir indo com o meu celibato, que  meio caminho do Cu.

D. Fernanda soltou uma
gargalhada.

 Deus de misericrdia!
Voc acredita mesmo que vai para o Cu?

 J c estou, h vinte
minutos. Pois que  esta sala, tranqila, fresca, to longe da gente que anda l
fora? Aqui conversamos os dois, sem ouvir blasfmias, sem aturar espritos
aleijados, tsicos, escrofulosos, insuportveis, o prprio Inferno, em suma.
Aqui  o Cu,  ou um pedao do Cu; uma vez que ns cabemos nele, vale pelo
infinito. Conversamos de Santa Sonora, de So Carlos Maria e de Santa Fernanda,
que para contrastar com So Gonalo, fez-se casamenteira das moas. Onde  que
h outro cu como este?

 Em Pelotas.

 Pelotas fica to
longe! suspirou ele estendendo as pernas e pondo os olhos no lustre da sala.

 Est bom,  s a
primeira investida; darei outras, at voc acabar de querer.

Carlos Maria sorriu e
olhou para as borlas cadas do cordo de seda que ela trazia  cintura, atado
por um lao frouxo; ou para ver as borlas, ou para notar a gentileza do corpo.
Viu bem, ainda uma vez, que a prima era uma bela criatura. A plstica levou-lhe
os olhos,  o respeito os desviou; mas, no foi s a amizade que o fez demorar
ainda ali, e o trouxe novamente quela casa. Carlos Maria amava a conversao
das mulheres, tanto quanto, em geral, aborrecia a dos homens. Achava os homens
declamadores, grosseiros, cansativos, pesados, frvolos, chulos, triviais. As
mulheres, ao contrrio, no eram grosseiras, nem declamadoras, nem pesadas. A
vaidade nelas ficava bem, e alguns defeitos no lhes iam mal; tinham, ao demais,
a graa e a meiguice do sexo. Das mais insignificantes, pensava ele, h sempre
alguma coisa que extrair. Quando as achava inspidas ou estpidas, tinha para si
que eram homens mal acabados.

Entretanto, as relaes
de D. Fernanda e Maria Benedita iam-se estreitando. Esta, alm de acanhada, anda
triste por aquele tempo; foi justamente a disparidade de carter e de situao
que as prendeu uma  outra. D. Fernanda possua, em larga escala, a qualidade da
simpatia; amava os fracos e os tristes, pela necessidade de os fazer ledos e
corajosos. Contavam-se dela muitos atos de piedade e dedicao.

 A senhora que tem?
perguntou ela um dia  amiguinha. Quase nunca ri, anda sempre com os olhos
espantados, pensando...

Maria Benedita
respondeu que no tinha nada, que era o seu modo; e sorria dizendo isto, por
simples condescendncia. Aludiu  perda da me, como uma das causas de suas
melancolias. D. Fernanda entrou a lev-la a toda parte, a traz-la para jantar,
a dar-lhe lugar no camarote, se ia ao teatro; e graas a isso, e ao seu gnio
galhofeiro, sacudiu da alma da moa os corvos aborrecidos que l avoejavam.
Costume e afeio depressa as fizeram ntimas. No obstante, Maria Benedita
continuou a calar o seu mistrio.

 Seja qual for o
mistrio, pensou um dia D. Fernanda, acho que o melhor  cas-la com o Carlos
Maria; a Sonora que espere.

 Voc precisa casar,
Maria Benedita, disse-lhe dali a dois dias, de manh, na chcara, em
Mata-Cavalos; Maria Benedita tinha ido ao teatro com ela e passara l a noite. 
No quero estremecimentos; precisa casar e h de casar... Desde anteontem que
estou para lhe dizer isto, mas estas coisas conversadas em sala ou na rua, no
tm fora. Aqui na chcara  diferente. E se voc tem nimo de trepar comigo um
pedao do morro, ento  que ficaremos bem. Vamos?

 Est fazendo
calor...

  mais potico,
menina. Ah! carioca sem sangue! Vocs s tm gua nas veias. Pois fiquemos aqui
neste banco. Sente-se; assim, eu fico aqui ao p, armada para tudo. Casa ou
morre. No me replique. Voc no  feliz,  continuou mudando o tom; por mais
que faa, eu vejo que voc passa a vida sem gosto. Venha c, diga-me com
franqueza, tem inclinao a algum? Se tem, confesse, que eu mando procurar a
pessoa.

 No tenho.

 No? Pois 
justamente o que nos serve. No precisa pr escritos no corao; conheo um bom
inquilino...

Maria Benedita
voltou-se de todo para ela, com os lbios entreabertos e os olhos escancarados.
Parecia recear da proposta ou ansiar por ela. D. Fernanda, no atinando com o
verdadeiro estado da amiga, pegou-lhe na mo primeiro, e pediu que lhe dissesse
tudo. De fora que amava a algum, era claro, via-se-lhe nos olhos, cumpria
confess-lo, instava, rogava,  intimaria, se preciso fosse. A mo de Maria
Benedita esfriara, os olhos cavavam o cho, e, por alguns instantes, nenhuma
delas disse nada.

 Vamos, fale, repetiu
D. Fernanda.

 No tenho que dizer.

D. Fernanda fazia
gestos de incredulidade; apertava-a cada vez mais, passou-lhe a mo pela
cintura, e ligou-a muito a si; disse-lhe baixinho, dentro do ouvido, que era
como se fosse sua prpria me. E beijava-a na face, na orelha, na nuca,
encostava-lhe a cabea ao ombro, acarinhava-a com a outra mo. Tudo, tudo,
queria saber tudo. Se o namorado estava na lua, mandaria busc-lo  lua,  fosse
onde fosse,  exceto no cemitrio, mas, se estivesse no cemitrio, dar-lhe-ia
outro muito melhor, que faria esquecer o primeiro em poucos dias. Maria Benedita
ouvia agitada, palpitante, no sabendo por onde escapasse,  prestes a dizer, e
calando a tempo, como se defendesse o seu pudor. No negava, no confessava;
mas, como tambm no sorria, e tremia de comoo, era fcil adivinhar meia
verdade, ao menos.

 Mas ento no sou sua
amiga, no tem confiana em mim? Faa de conta que sou sua me.

Maria Benedita pouco
mais resistiu; gastara as foras e sentia a necessidade de revelar alguma coisa.
D. Fernanda escutou-a comovida. O sol vinha j lambendo as cercanias do banco,
no tardou que lhes trepasse aos sapatos,  barra dos vestidos e aos joelhos;
mas nenhuma deu por ele. O amor as absorvia; a exposio de uma tinha para a
outra um enlevo raro. Era uma paixo no sabida, no compartida, no adivinhada;
paixo que ia perdendo de ndole e de espcie para se converter em adorao
pura. A princpio, quando ela via a pessoa amada, passava por dois estados muito
diversos,  um que no podia definir, alvoroo, tonteira, pancadas no corao,
quase um desmaio; o segundo era de contemplao. Agora era quase que s este.
Tinha chorado muito, consigo, perdera noites e noites de saudades; pagou caro a
ambio das suas esperanas. Mas no perderia nunca a certeza de que ele era
superior a todos os demais homens, um ente divino, que, ainda no fazendo caso
dela, mereceria sempre ser adorado.

 Bem, disse D.
Fernanda, quando a amiga se calou de todo. Vamos ao essencial, que  no ficar
penando  toa. No, queridinha, isto de adorar a um homem que no faz caso da
gente,  poesia. Deixe-se de poesia. Olhe que s voc perde no negcio, porque
ele casa com outra, os anos passam, a paixo monta na garupa deles, e um dia,
quando voc menos pensar, acorda sem amor nem marido. E quem  esse brbaro?

 Isso no digo,
respondeu Maria Benedita, levantando-se do banco.

 Pois no diga, acudiu
D. Fernanda, pegando-lhe nos pulsos e fazendo-a sentar nos seus joelhos. A
questo principal  casar;  no podendo ser com esse, ser com outro.

 No, no caso.

 S com ele?

 Nem sei se com ele,
respondeu Maria Benedita, depois de alguns instantes. Gosto dele, como gosto de
Deus, que est no Cu.

 Virgem Santssima!
Que blasfmia! Duas blasfmias, menina; a primeira  que no se deve amar a
ningum como a Deus,  a segunda  que um marido, ainda sendo mau, sempre 
melhor que o melhor dos sonhos.

CAPTULO CXIX

"Um marido, ainda mau,
 sempre melhor que o melhor dos sonhos.

 A mxima no era
idealista; Maria Benedita protestou contra ela. Pois no era melhor sonhar que
chorar? Os sonhos acabam ou alteram-se, enquanto que os maus maridos podem viver
muito.  A senhora diz isso, concluiu Maria Benedita, porque Deus lhe destinou
um anjo... Olhe, l vem ele.

 Deixe estar que h de
ter tambm o seu anjo; conheo um magnfico para voc; todos os anjos me
procuram.

Tefilo, marido de D.
Fernanda, que as vira a distncia, veio ter com elas; trazia na mo um dirio
amarrotado. No saudou a hspede; foi direito  mulher.

 Voc quer saber o que
me fizeram, Nan? disse ele com os dentes cerrados. Saiu hoje o meu discurso do
dia 5. Veja esta frase; eu tinha dito: Na dvida, abstm-te,  o conselho do
sbio. E puseram: Na dvida abstm-te...  insuportvel! Nota que
tratava-se justamente de um crdito do Ministrio da Marinha, alegando-se no
debate que muitas despesas estavam feitas. De modo que pode parecer chulice da
minha parte;  como se aconselhasse o calote. Em todo caso,  disparate.

 Mas voc no leu as
provas?

 Li, mas o autor  o
menos apto para as ler bem. Na dvida abstm-te, continuou ele com os
olhos na folha. E bufando:  Isto s com...

Estava consternado. Era
homem de talento, de gravidade e de trabalho; mas, naquele instante, todas as
grandes obras, os mais temerosos problemas, as batalhas mais decisivas, as
revolues mais profundas, o sol e a lua, e todas as constelaes, e todas as
alimrias, e todas as geraes humanas, valiam menos do que a troca de um
u por um i. Maria Benedita olhava para ele sem entend-lo. Cuidava
padecer a maior tristura; mas ali estava outra to grande como a sua, e muito
mais aflitiva. Assim, a melancolia roaz de uma pobre criatura era tanto como um
erro tipogrfico. Tefilo, que s ento deu por ela, estendeu-lhe a mo; estava
fria. Ningum finge as mos frias; devia padecer deveras. Instantes depois,
atirou a folha ao cho, com um gesto violento, e foi-se embora.

 Mas, Tefilo,
emenda-se amanh, disse-lhe D. Fernanda, levantando-se.

Tefilo, sem voltar
atrs, deu de ombros, desesperado. A mulher correu a ele; a amiga seguiu-a
espantada. Ficou s o banco, j agora livre delas, recebendo em cheio os raios
do sol, que no ama nem faz discursos. D. Fernanda levou o marido para um
gabinete, e,  fora de beijos, consolou-o daquele golpe. Ao almoo, j ele
sorria, ainda que de um sorriso plido; a mulher, para desvi-lo da preocupao,
aventou o plano de casar Maria Benedita, e havia de ser com um deputado, se
existisse na Cmara algum solteiro, qualquer que fosse a opinio. Podia ser
governista, oposicionista, ambas as coisas, ou nada,  contanto que fosse
marido. Sobre este tema fez algumas reflexes, vivas, lpidas, que encheram o
tempo e destinavam-se a matar a lembrana da troca de letras. Pia criatura!
Tefilo, entendendo a mulher, ia-se fazendo alegre, e concordava na convenincia
de casar Maria Benedita.

 O pior, acudiu a
mulher olhando para a amiga,  que ela ama a algum, cujo nome no quer dizer.

 Nem  preciso,
atalhou o marido enxugando os beios; v-se bem que ela gosta de teu primo.

CAPTULO CXX

No domingo seguinte, D.
Fernanda foi  igreja de Santo Antnio dos Pobres. Acabada a missa, viu surgir
do movimento dos fiis que se cumprimentavam entre si, ou saudavam o altar, nada
menos que o primo, ereto, risonho, gravemente trajado, estendendo-lhe a mo.

 Veio tambm  missa?
perguntou espantada.

 Vim.

 Vem sempre?

 Nem sempre, muitas
vezes.

 Francamente, no
esperava tanta devoo em voc. Os homens so, em geral, uns mpios. Tefilo no
pisa na igreja, a no ser para batizar os filhos. Voc ento  religioso?

 No posso responder
com certeza; mas tenho horror  banalidade, que  dizer mal da religio. E
basta; vim  missa, no vim confessar-me; agora vou conduzi-la  casa e, se me
oferecer almoo, almoarei com vocs. Salvo se quiserem vir almoar comigo; 
nesta rua, como sabe.

 Iria eu s, se
pudesse ser, para lhe dar uma notcia muito comprida.

 Vamos ento devagar,
disse Carlos Maria  porta da igreja, oferecendo-lhe o brao. E dois passos
adiante:  Notcia importante?

 Importante e
deliciosa.

 Querem ver que Deus,
sempre misericordioso, vai levar para si o nosso querido Tefilo, deixando aqui
ao desamparo a mais gentil de todas as vivas... No precisa fazer essa cara,
prima; deixe estar o brao. Vamos  notcia. Chegou a moa de Pelotas, aposto?

 No direi o que , se
voc me no jurar ouvir seriamente.

 Seriamente.

D. Fernanda
confessou-lhe que hesitava em cas-lo com a patrcia de Pelotas; no queria
remorsos; descobrira aqui algum que tinha ao primo um imenso amor. Carlos Maria
sorriu, iniciou um gracejo, mas a notcia esporeou-lhe o esprito. Imenso amor?
Imenso amor, paixo violenta, confirmou a prima, acrescentando que talvez a
definio j no coubesse bem ao atual sentimento da pessoa. Agora era uma
adorao quieta e calada. Tinha chorado por ele noites e noites, enquanto as
esperanas lhe duraram... E D. Fernanda foi assim repetindo a confidncia de
Maria Benedita. Restava s o nome; Carlos Maria quis sab-lo, ela negou-lho. No
podia revel-lo. Para que dar-lhe o gosto de saber quem era que o adorava, se
no corria ao encontro da alma dela? Melhor era deix-la no mistrio. J no
chorava agora; modesta e desambiciosa, perdera as esperanas de ser amada, e com
o tempo ficou apenas uma devota, mas uma devota sem-par, que nem sequer esperava
ser ouvida ou agraciada um dia por um olhar benvolo do seu deus querido.

 Prima, voc...

 Eu qu?...

Carlos Maria concluiu
dizendo que a advogada era digna da causa. Realmente, se essa moa o adorava a
tal ponto, era justo e natural que a prima se interessasse por ela com tanto
calor. Mas por que no dizer o nome?

 Agora no digo; pode
ser que algum dia... Mas voc compreende que me custaria muito cas-lo com a
minha patrcia, sabendo que outra pessoa o ama tanto. E da bem pode ser que
esta de c no padea muito, se o vir casado. Sim, senhor, parece absurdo, mas 
preciso conhec-la; digo que, uma vez que voc seja feliz,  capaz de abenoar a
bela rival.

 J no  romantismo,
 misticismo, redargiu Carlos Maria depois de alguns passos, com os olhos no
cho. No est nas cordas do nosso tempo. Tem alguma prova de semelhante estado
da alma?

 Tenho... A sua casa 
aquela, no? perguntou D. Fernanda parando.

 .

 Bonito prdio, e
slido.

 Muito slido.

 Uma, duas, trs,
quatro... Sete janelas. O salo vai de ponta a ponta? Bem bom para um baile.

E andando:

 Eu, se tivesse aqui
uma casa maior que a minha, daria um grande baile, antes de voltar para o Rio
Grande. Gosto de festas. Os meus dois filhos no me do grande trabalho. A
propsito, ando com vontade de meter o Lopo no colgio; onde acharei um bom
colgio?

Carlos Maria pensava na
devota incgnita. Estava longe, muito longe do ensino e seus estabelecimentos.
Que bom que era sentir-se um deus adorado, e adorado  maneira evanglica,
metida a devota no aposento, fechada a porta, em secreto, no nas sinagogas, 
vista de todos. "E teu pai que v o que se passa em secreto te dar a paga" Oh!
ele daria a paga, se soubesse quem era. Casada, seria? No, no podia ser, no
iria confess-lo a ningum; viva ou solteira, antes solteira. Cheirava-lhe a
solteira. Em que aposento se fechava para rezar, para evoc-lo, chor-lo e
abeno-lo? J nem teimava pelo nome; mas o aposento, ao menos.

 Onde acharei um bom
colgio? repetiu D. Fernanda.

 Colgio? No sei;
estou pensando na desconhecida. Compreende bem que uma pessoa que me adora, em
silncio, sem esperanas,  objeto de alguma ateno. Alta ou baixa?

 Maria Benedita.

Carlos Maria estacou o
passo.

 Aquela moa?... No 
possvel. Tenho-lhe falado muitas vezes, e nunca descobri nada. Achei-a sempre
fria. H de ser engano. Ouviu-lhe o meu nome?

 No, por mais que lhe
pedisse. Confessou o milagre, sem nomear o santo, mas que milagre! Gabe-se de
ser adorado como ningum... De quem  aquela casa?

 Voc costuma exagerar
as coisas, prima; pode no ser tanto. Adorado como ningum? E de que modo soube
que era eu?

 Tefilo foi o
primeiro que descobriu; ela, dizendo-se-lhe isto, ficou como uma pitanga.
Negou-o ainda depois, comigo; e desde esse dia no voltou l a casa.

Tal foi o incio dos
amores. Carlos Maria folgou de se ver assim amado em silncio, e toda a
preveno se converteu em simpatia. Comeou a v-la, saboreou a confuso da
moa, os medos, a alegria, a modstia, as atitudes quase implorativas, um
composto de atos e sentimentos que eram a apoteose do homem amado. Tal foi o
incio, tal o desfecho. Assim os vimos, naquela noite dos anos de D. Sofia, a
quem ele dissera antes coisas to doces. So assim os homens; as guas que
passam, e os ventos que rugem no so outra coisa.

CAPTULO CXXI

 Bem, vai casar, tanto
melhor! pensou Rubio.

Entre aquela noite e o
dia do casamento, Rubio apanhou no ar algumas olhadas de Sofia, suspeitas de
tentao; Carlos Maria, se lhe correspondeu, foi antes por polidez que outra
coisa. Rubio concluiu que o caso era fortuito; lembrava-se ainda da lgrima de
Sofia, na noite dos anos, quando lhe explicou a histria da carta.

Oh! boa lgrima
inesperada! Tu, que bastaste a persuadir um homem, podes no ser explicvel a
outros, e assim vai o mundo. Que importa que os olhos no fossem costumados ao
choro, nem que a noite parecesse exaltar sentimentos muito diversos da
melancolia? Rubio a viu cair; ainda agora a v de memria. Mas a confiana de
Rubio no vinha s da lgrima, vinha tambm da presente Sofia, que nunca fora
to solcita nem to dada com ele. Parecia arrependida de todo o mal causado,
prestes a san-lo, ou por afeio tardia, ou pelo prprio malogro da primeira
aventura. H delitos virtuais, que dormem. H peras remissas na cabea de um
maestro, que s esperam os primeiros compassos da inspirao.

CAPTULO CXXII

 Ainda bem que se
casa! repetiu o Rubio.

No se demorou o
casamento: trs semanas. Na manh do dia aprazado, Carlos Maria abriu os olhos
com algum espanto. Era ele mesmo que ia casar? No havia dvida; mirou-se ao
espelho, era ele. Relembrou os ltimos dias, a marcha rpida dos sucessos, a
realidade da afeio que tinha  noiva, e, enfim, a felicidade pura que lhe ia
dar. Esta derradeira idia enchia-o de grande e rara satisfao. Ia-as ruminando
ainda, a cavalo, no passeio habitual da manh; desta vez escolhera o bairro do
Engenho Velho.

Posto se achasse
costumado aos olhos admirativos, via agora em toda a gente um aspecto parecido
com a notcia de que ele ia casar. As casuarinas de uma chcara, quietas antes
que ele passasse por elas, disseram-lhe coisas muito particulares, que os
levianos atribuiriam  aragem que passava tambm, mas que os sapientes
reconheceriam ser nada menos que a linguagem nupcial das casuarinas. Pssaros
saltavam de um lado para outro, pipilando um madrigal. Um casal de borboletas, 
que os japes tm por smbolo da fidelidade, por observarem que, se pousam de
flor em flor, andam quase sempre aos pares,  um casal delas acompanhou por
muito tempo o passo do cavalo, indo pela cerca de uma chcara que beirava o
caminho, volteando aqui e ali, lpidas e amarelas. De envolta com isto, um ar
fresco, cu azul, caras alegres de homens montados em burros, pescoos
estendidos pela janela fora das diligncias, para v-lo e ao seu garbo de noivo.
Certo, era difcil crer que todos aqueles gestos e atitudes da gente, dos bichos
e das rvores exprimissem outro sentimento que no fosse a homenagem nupcial da
natureza.

As borboletas
perderam-se em uma das moitas mais densas da cerca. Seguiu-se outra chcara,
despida de rvores, porto aberto, e ao fundo, fronteando com o porto, uma casa
velha, que encarquilhava os olhos sob a forma de cinco janelas de peitoril,
cansadas de perder moradores. Tambm elas tinham visto bodas e festins; o sculo
ainda as achou verdes de novidade e de esperana.

No cuideis que esse
aspecto contristou a alma do cavaleiro. Ao contrrio, ele possua o dom
particular de remoar as runas e viver da vida primitiva das coisas. Gostou at
de ver a casa velhusca, desbotada, em contraste com as borboletas to vivas de
h pouco. Parou o cavalo; evocou as mulheres que por ali entraram, outras galas,
outros rostos, outras maneiras. Porventura as prprias sombras das pessoas
felizes e extintas vinham agora cumpriment-lo tambm, dizendo-lhe pela boca
invisvel todos os nomes sublimes que pensavam dele. Chegou a ouvi-las e sorrir.
Mas uma voz estrdula veio mesclar-se ao concerto;  um papagaio, em gaiola
pendente da parede externa da casa: "Papagaio real, para Portugal; quem passa?
Currup, pap. Grr... Grrr..." As sombras fugiram, o cavalo foi andando, Carlos
Maria aborrecia o papagaio, como aborrecia o macaco, duas contrafaes da pessoa
humana, dizia ele.

 A felicidade que
eu lhe der ser assim tambm interrompida? reflexionou andando.

Cambaxirras voaram de
um para outro lado da rua, e pousaram cantando a sua lngua prpria; foi uma
reparao. Essa lngua sem palavras era inteligvel, dizia uma poro de coisas
claras e belas. Carlos Maria chegou a ver naquilo um smbolo de si mesmo. Quando
a mulher, aturdida dos papagaios do mundo, viesse caindo de fastio, ele a faria
erguer aos trilos da passarada divina, que trazia em si, idias de ouro, ditas
por uma voz de ouro. Oh! como a tornaria feliz! J a antevia
ajoelhada, com os braos postos nos seus joelhos, a cabea nas mos e os olhos
nele, gratos, devotos, amorosos, toda implorativa, toda nada.

CAPTULO CXXIII

Ora bem, aquele quadro,
na mesma hora em que aparecia aos olhos da imaginao do noivo, reproduzia-se no
esprito da noiva, tal qual. Maria Benedita, posta  janela, fitando as ondas
que se quebravam ao longe e na praia, via-se a si mesma, ajoelhada aos ps do
marido, quieta, contrita, como  mesa da comunho para receber a hstia da
felicidade. E dizia consigo: "Oh! como ele me far feliz!" Frase e
pensamento eram outros, mas a atitude e a hora eram as mesmas.

CAPTULO CXXIV

Casaram-se; trs meses
depois foram para a Europa. Ao despedir-se deles, D. Fernanda estava to alegre
como se viesse receb-los de volta; no chorava. O prazer de os ver felizes era
maior que o desgosto da separao.

 Voc vai contente?
perguntou a Maria Benedita, pela ltima vez, junto  amurada do paquete.

 Oh! muito!

A alma de D. Fernanda
debruou-se-lhe dos olhos, fresca, ingnua, cantando um trecho italiano, 
porque a soberba guasca preferia a msica italiana,  talvez esta ria da
Lucia:  bell'alma innamorata. Ou este pedao do
Barbeiro:

Ecco ridente in cielo

Spunta la bella aurora.

CAPTULO CXXV

Sofia no foi a bordo,
adoeceu e mandou o marido. No vo crer que era pesar nem dor; por ocasio do
casamento, houve-se com grande discrio, cuidou do enxoval da noiva e
despediu-se dela com muitos beijos chorados. Mas ir a bordo pareceu-lhe
vergonha. Adoeceu; e, para no desmentir do pretexto, deixou-se estar no quarto.
Pegou de um romance recente; fora-lhe dado pelo Rubio. Outras coisas ali lhe
lembravam o mesmo homem, tetias de toda a sorte, sem contar jias guardadas.
Finalmente, uma singular palavra que lhe ouvira, na noite do casamento da prima,
at essa veio ali para o inventrio das recordaes do nosso amigo.

 A senhora  j a
rainha de todas, disse-lhe ele em voz baixa; espere que ainda a farei
imperatriz.

Sofia no pde entender
esta frase enigmtica. Quis supor que era uma aliciao de grandeza para
torn-la sua amante; mas excluiu tal inteno por demasiado vaidosa. Rubio,
posto no fosse agora o mesmo homem encolhido e tmido de outros tempos, no se
mostrava to cheio de si que lhe pudesse atribuir to alta presuno. Mas que
era ento a frase? Talvez um modo figurado de dizer que a amaria ainda mais.
Sofia acreditava possvel tudo. No lhe faltavam galanteios; chegou a ouvir
aquela declarao de Carlos Maria, provavelmente ouvira outras, a que deu
somente a ateno da vaidade. E todas passaram; Rubio  que persistia. Tinha
pausas, filhas de suspeitas; mas as suspeitas iam como vinham.

"Ele merece ser
amado", leu Sofia na pgina aberta do romance, quando ia continuar a
leitura; fechou o livro, fechou os olhos, e perdeu-se em si mesma. A escrava que
entrou da a pouco, trazendo-lhe um caldo, sups que a senhora dormia e
retirou-se p ante p.

CAPTULO CXXVI

Entretanto, Rubio e
Palha desciam do paquete para a lancha e tornavam ao Cais Pharoux. Vinham
cuidosos e calados. Palha foi o primeiro que abriu a boca:

 Ando h tempos para
dizer-lhe uma coisa importante, Rubio.

CAPTULO CXXVII

Rubio acordou. Era a
primeira vez que ia a um paquete. Voltava com a alma cheia dos rumores de bordo,
a lufa-lufa das gentes que entravam e saam, nacionais, estrangeiros, estes de
vria casta, franceses, ingleses, alemes, argentinos, italianos, uma confuso
de lnguas, um cafarnaum de chapus, de malas, cordoalha, sofs, binculos a
tiracolo, homens que desciam ou subiam por escadas para dentro do navio,
mulheres chorosas, outras curiosas, outras cheias de riso, e muitas que traziam
de terra flores ou frutas,  tudo aspectos novos. Ao longe, a barra por onde
tinha de ir o paquete. Para l da barra, o mar imenso, o cu fechado e a
solido. Rubio renovou os sonhos do mundo antigo, criou uma Atlntida, sem nada
saber da tradio. No tendo noes de geografia, formava uma idia confusa dos
outros pases, e a imaginao rodeava-os de um nimbo misterioso. Como no lhe
custava viajar assim, navegou de cor algum tempo, naquele vapor alto e comprido,
sem enjo, sem vagas, sem ventos, sem nuvens.

CAPTULO CXXVIII

 A mim? perguntou
Rubio depois de alguns segundos.

 A voc, confirmou o
Palha. Devia t-la dito h mais tempo, mas estas histrias de casamento, de
comisso das Alagoas, etc., atrapalharam-me, e no tive ocasio; agora, porm,
antes do almoo... Voc almoa comigo.

 Sim, mas que ?

 Uma coisa importante.

Dizendo isto, tirou um
cigarro, abriu-o, desfiou o fumo com os dedos, enrolou a palha outra vez, e
riscou um fsforo, mas o vento apagou o fsforo. Ento pediu ao Rubio que lhe
fizesse o favor de segurar o chapu, para poder acender outro. Rubio obedeceu
impaciente. Bem pode ser que o scio, esticando a espera, quisesse justamente
fazer-lhe crer que se tratava de um terremoto; a realidade viria a ser um
benefcio. Puxadas duas fumaas:

 Estou com meu plano
de liquidar o negcio; convidaram-me a para uma casa bancria, lugar de
diretor, e creio que aceito.

Rubio respirou.

 Pois sim; liquidar
j?

 No, l para o fim do
ano que vem.

 E  preciso liquidar?

 C para mim, . Se a
histria do banco no fosse segura, no me animaria a perder o certo pelo
duvidoso; mas  segurssima.

 Ento no fim do ano
que vem soltamos os laos que nos prendem...

Palha tossiu.

 No, antes, no fim
deste ano.

Rubio no entendeu;
mas o scio explicou-lhe que era til desligarem j a sociedade, a fim de que
ele sozinho liquidasse a casa. O banco podia organizar-se mais cedo ou mais
tarde; e para que sujeitar o outro s exigncias da ocasio? Demais, o Dr.
Camacho afirmava que, em breve, Rubio estaria na Cmara, e que a queda do
Ministrio era certa.

 Seja o que for,
concluiu;  sempre melhor desligarmos a sociedade com tempo. Voc no vive do
comrcio; entrou com o capital necessrio ao negcio,  como podia d-lo a outro
ou guard-lo.

 Pois sim, no tenho
dvida, concordou o Rubio.

E depois de alguns
instantes:

 Mas diga-me uma
coisa, essa proposta traz algum motivo oculto?  rompimento de pessoas, de
amizade... Seja franco, diga tudo...

 Que caraminhola 
essa? redargiu o Palha. Separao de amizade, de pessoas... Mas voc est
tonto. Isto  do balano do mar. Pois eu, que tenho trabalhado tanto por voc,
eu que o fao amigo dos meus amigos, que o trato como um parente, como um irmo,
havia de brigar  toa? Aquele mesmo casamento de Maria Benedita com o Carlos
Maria devia ser com voc, bem sabe, se no fosse a sua recusa. A gente pode
romper um lao sem romper os outros. O contrrio seria despropsito. Ento todos
os amigos de sociedade ou de famlia so scios de comrcio? E os que no forem
comerciantes?

Rubio achou excelente
a razo, e quis abraar o Palha. Este apertou-lhe a mo satisfeitssimo; ia
ver-se livre de um scio, cuja prodigalidade crescente podia trazer-lhe algum
perigo. A casa estava slida; era fcil entregar ao Rubio a parte que lhe
pertencesse, menos as dvidas pessoais e anteriores. Restavam ainda algumas
daquelas que o Palha confessou  mulher, na noite de Santa Teresa, cap. L. Pouco
tinha pago; geralmente era o Rubio que abanava as orelhas ao assunto. Um dia, o
Palha, querendo dar-lhe  fora algum dinheiro, repetiu o velho provrbio: "Paga
o que deves, v o que te fica". Mas o Rubio, gracejando:

 Pois no pagues, e v
se te no fica ainda mais.

  boa! redargiu o
Palha rindo e guardando o dinheiro no bolso.

CAPTULO CXXIX

No havia banco, nem
lugar de diretor, nem liquidao; mas como justificaria o Palha a proposta de
separao, dizendo a pura verdade? Da a inveno, tanto mais pronta, quanto o
Palha tinha amor aos bancos, e morria por um. A carreira daquele homem era cada
vez mais prspera e vistosa. O negcio corria-lhe largo; um dos motivos da
separao era justamente no ter que dividir com outro os lucros futuros. Palha,
alm do mais, possua aes de toda a parte, aplices de ouro do emprstimo
Itabora, e fizera uns dois fornecimentos para a guerra, de sociedade com um
poderoso, nos quais ganhou muito. J trazia apalavrado um arquiteto para lhe
construir um palacete. Vagamente pensava em baronia.

CAPTULO CXXX

 Quem diria que a
gente do Palha nos trataria deste modo? J no valemos nada. Escusa de os
defender...

 No defendo, estou
explicando; h de ter havido confuso.

 Fazer anos, casar a
prima, e nem um triste convite ao major, ao grande major, ao impagvel major, ao
velho amigo major. Eram os nomes que me davam; eu era impagvel, amigo velho,
grande e outros nomes. Agora, nada, nem um triste convite, um recado de boca, ao
menos, por um moleque: "Nhanh faz anos, ou casa prima, diz que a casa est s
suas ordens, e que vo com luxo. No iramos; luxo no  para ns. Mas era
alguma coisa, era recado, um moleque, ao impagvel major...

 Papai!

Rubio, vendo a
interveno de D. Tonica, animou-se a defender longamente a famlia Palha. Era
em casa do major, no j na Rua Dois de Dezembro, mas na dos Barbonos, modesto
sobradinho. Rubio passava, ele estava  janela, e chamou-o. D. Tonica no teve
tempo de sair da sala, para dar, ao menos, uma vista d'olhos ao espelho; mal
pde passar a mo pelo cabelo, compor o lao de fita ao pescoo e descer o
vestido para cobrir os sapatos, que no eram novos.

 Digo-lhe que pode ter
havido confuso, insistiu Rubio; tudo anda por l muito atrapalhado com esta
comisso das Alagoas.

 Lembra bem,
interrompeu o Major Siqueira; por que no meteram minha filha na comisso das
Alagoas? Qual! H j muito que reparo nisto; antigamente no se fazia festa sem
ns. Ns ramos a alma de tudo. De certo tempo para c comeou a mudana;
entraram a receber-nos friamente, e o marido, se pode esquivar-se, no me
cumprimenta. Isto comeou h tempos; mas antes disso sem ns  que no se fazia
nada. Que est o senhor a falar de confuso? Pois se na vspera dos anos dela,
j desconfiando que no nos convidariam, fui ter com ele ao armazm. Poucas
palavras; disfarava. Afinal disse-lhe assim: "Ontem, l em casa, eu e Tonica
estivemos discutindo sobre a data dos anos de D. Sofia; ela dizia que tinha
passado, eu disse que no, que era hoje ou amanh." No me respondeu, fingiu que
estava absorvido em uma conta, chamou o guarda-livros, e pediu explicaes. Eu
entendi o bicho, e repeti a histria: fez a mesma coisa. Sa. Ora o Palha, um
p-rapado! J o envergonho. Antigamente: major, um brinde. Eu fazia muitos
brindes, tinha certo desembarao. Jogvamos o voltarete. Agora est nas
grandezas; anda com gente fina. Ah! vaidades deste mundo! Pois no vi outro dia
a mulher dele, num coup, com outra? A Sofia de coup! Fingiu que
me no via, mas arranjou os olhos de modo que percebesse se eu a via, se a
admirava. Vaidades desta vida! Quem nunca comeu azeite, quando come se lambuza.

 Perdo, mas os
trabalhos da comisso exigem certo aparato.

 Sim, acudiu Siqueira,
 por isso que minha filha no entrou na comisso;  para no estragar as
carruagens...

 Demais, o
coup podia ser da outra senhora que ia com ela.

O major deu dois
passos, com as mos atrs, e parou diante de Rubio.

 Da outra... ou do
Padre Mendes. Como vai o padre? Boa vida, naturalmente.

 Mas, papai, pode no
haver nada, interrompeu D. Tonica. Ela sempre me trata bem, e quando estive
doente no ms passado, mandou saber pelo moleque, duas vezes...

 Pelo moleque! bradou
o pai. Pelo moleque! Grande favor! "Moleque, vai ali  casa daquele reformado e
pergunta-lhe se a filha tem passado melhor; no vou, porque estou lustrando as
unhas!" Grande favor! Tu no lustras as unhas! tu trabalhas! tu s digna filha
minha! pobre, mas honesta!

Aqui o major chorou,
mas suspendeu de repente as lgrimas. A filha, comovida, sentiu-se tambm
vexada. Certo, a casa dizia a pobreza da famlia, poucas cadeiras, uma mesa
redonda velha, um canap gasto; nas paredes duas litografias encaixilhadas em
pinho pintado de preto, uma era o retrato do major em 1857, a outra representava
o Verons em Veneza, comprado na Rua do Senhor dos Passos. Mas o trabalho
da filha transparecia em tudo; os mveis reluziam de asseio, a mesa tinha um
pano de crivo, feito por ela, o canap uma almofada. E era falso que D. Tonica
no lustrasse as unhas; no teria o p nem a camura, mas acudia-lhes com um
retalho de pano todas as manhs.

CAPTULO CXXXI

Rubio tratou-os com
simpatia. No continuou a defender a gente Palha, para no desesperar o major.
Pouco depois, despediu-se, prometendo, sem convite, que l iria jantar "um dia
destes".

 Jantar de pobre,
acudiu o major; se puder avisar, avise.

 No quero banquetes;
virei quando me der na cabea.

Despediu-se. D. Tonica,
depois de ir at o patamar, sem chegar  frente por causa dos sapatos, foi 
janela para v-lo sair.

CAPTULO CXXXII

Logo que Rubio dobrou
a esquina da Rua das Mangueiras, D. Tonica entrou e foi ao pai, que se estendera
no canap, para reler o velho Saint-Clair das ilhas ou os desterrados da ilha
da Barra. Foi o primeiro romance que conheceu; o exemplar tinha mais de
vinte anos; era toda a biblioteca do pai e da filha. Siqueira abriu o primeiro
volume, e deitou os olhos ao comeo do cap. II, que j trazia de cor. Achava-lhe
agora um sabor particular, por motivo dos seus recentes desgostos:

Enchei bem os vossos
copos, exclamou Saint-Clair, e bebamos de uma vez; eis o brinde que vos
proponho.  sade dos bons e valentes oprimidos, e ao castigo dos seus
opressores. Todos acompanharam Saint-Clair, e foi de roda a sade.

 Sabe de uma coisa,
papai? Papai compra amanh latas de conserva, ervilha, peixe, etc., e ficam
guardadas. No dia em que ele aparecer para jantar, pe-se no fogo,  s aquecer,
e daremos um jantarzinho melhor.

 Mas eu s tenho o
dinheiro do teu vestido.

 O meu vestido?
Compra-se no ms que vem, ou no outro. Eu espero.

 Mas no ficou
ajustado?

 Desajusta-se; eu
espero.

 E se no houver outro
do mesmo preo?

 H de haver; eu
espero, papai.

CAPTULO CXXXIII

Ainda no disse, 
porque os captulos atropelam-se debaixo da pena,  mas aqui est um para dizer
que, por aquele tempo, as relaes de Rubio tinham crescido em nmero. Camacho
pusera-o em contato com muitos homens polticos, a comisso das Alagoas com
vrias senhoras, os bancos e companhias com pessoas do comrcio e da praa, os
teatros com alguns freqentadores e a Rua do Ouvidor com toda a gente. J ento
era um nome repetido. Conhecia-se o homem. Quando apareciam as barbas e o par de
bigodes longos, uma sobrecasaca bem justa, um peito largo, bengala de unicrnio,
e um andar firme e senhor, dizia-se logo que era o Rubio,  um ricao de Minas.

Tinham-lhe feito uma
lenda. Diziam-no discpulo de um grande filsofo, que lhe legara imensos bens, 
um, trs, cinco mil contos. Estranhavam alguns que ele no tratasse nunca de
filosofia, mas a lenda explicava esse silncio pelo prprio mtodo filosfico do
mestre, que consistia em ensinar somente aos homens de boa vontade. Onde estavam
esses discpulos? Iam  casa dele, todos os dias,  alguns duas vezes, de manh
e de tarde; e assim ficavam definidos os comensais. No seriam discpulos, mas
eram de boa vontade. Roam fome,  espera, e ouviam calados e risonhos os
discursos do anfitrio. Entre os antigos e os novos, houve tal ou qual
rivalidade, que os primeiros acentuaram bem, mostrando maior intimidade, dando
ordens aos criados, pedindo charutos, indo ao interior, assobiando, etc. Mas o
costume os fez suportveis entre si, e todos acabaram na doce e comum confisso
das qualidades do dono da casa. Ao cabo de algum tempo, tambm os novos lhe
deviam dinheiro, ou em espcie,  ou em fiana no alfaiate, ou endosso de
letras, que ele pagava s escondidas, para no vexar os devedores.

Quincas Borba andava ao
colo de todos. Davam estalinhos, para v-lo saltar; alguns chegavam a beijar-lhe
a testa; um deles, mais hbil, achou modo de o ter  mesa, ao jantar ou almoo,
sobre as pernas, para lhe dar migalhas de po.

 Ah! isso no!
protestou Rubio  primeira vez.

 Que tem? retorquiu o
comensal. No h pessoas estranhas.

Rubio refletiu um
instante.

 Verdade  que est a
dentro um grande homem, disse ele.

 O filsofo, o outro
Quincas Borba, continuou o conviva, circulando o olhar pelos novatos, para
mostrar a intimidade das relaes entre ele e Rubio; mas, no logrou sozinho a
vantagem, porque os outros amigos da mesma era, repetiram, em coro:

  verdade, o
filsofo.

E Rubio explicou aos
novatos a aluso ao filsofo, e a razo do nome do co, que todos lhe atribuam.
Quincas Borba (o defunto) foi descrito e narrado como um dos maiores homens do
tempo,  superior aos seus patrcios. Grande filsofo, grande alma, grande
amigo. E no fim, depois de algum silncio, batendo com os dedos na borda da
mesa, Rubio exclamou:

 Eu o faria ministro
de Estado!

Um dos convivas
exclamou, sem convico, por simples ofcio:

 Oh! sem dvida!

Nenhum daqueles homens
sabia, entretanto, o sacrifcio que lhes fazia o Rubio. Recusava jantares,
passeios, interrompia conversaes aprazveis, s para correr  casa e jantar
com eles. Um dia achou meio de conciliar tudo. No estando ele em casa s seis
horas em ponto, os criados deviam pr o jantar para os amigos. Houve protestos;
no, senhor, esperariam at sete ou oito horas. Um jantar sem ele no tinha
graa.

 Mas  que no posso
vir, explicou Rubio.

Assim se cumpriu. Os
convivas ajustaram bem os relgios pelos da casa de Botafogo. Davam seis horas,
todos  mesa. Nos dois primeiros dias houve tal ou qual hesitao; mas os
criados tinham ordens severas. s vezes, Rubio chegava pouco depois. Eram ento
risos, ditos, intrigas alegres. Um queria esperar, mas os outros... Os outros
desmentiam o primeiro; ao contrrio, foi este que os arrastou, tal fome trazia,
 a ponto que, se alguma coisa restava, eram os pratos. E Rubio ria com todos.

CAPTULO CXXXIV

Fazer um captulo s
para dizer que, a princpio, os convivas, ausente o Rubio, fumavam os prprios
charutos, depois do jantar,  parecer frvolo aos frvolos; mas os considerados
diro que algum interesse haver nesta circunstncia em aparncia mnima.

De fato, uma noite, um
dos mais antigos lembrou-se de ir ao gabinete de Rubio; l fora algumas vezes,
ali se guardavam as caixas de charutos, no quatro nem cinco, mas vinte e trinta
de vrias fbricas e tamanhos, muitas abertas. Um criado (o espanhol) acendeu o
gs. Os outros convivas seguiram o primeiro, escolheram charutos e os que ainda
no conheciam o gabinete admiraram os mveis bem feitos e bem dispostos. A
secretria captou as admiraes gerais; era de bano, um primor de talha, obra
severa e forte. Uma novidade os esperava: dois bustos de mrmore, postos sobre
ela, os dois Napolees, o primeiro e o terceiro.

 Quando veio isto?

 Hoje ao meio-dia,
respondeu o criado.

Dois bustos magnficos.
Ao p do olhar aquilino do tio, perdia-se no vago o olhar cismtico do sobrinho.
Contou o criado que o amo, apenas recebidos e colocados os bustos, deixara-se
estar grande espao em admirao, to deslembrado do mais, que ele pde mir-los
tambm, sem admir-los.  No me dicen nada estos dos pcaros, concluiu o
criado fazendo um gesto largo e nobre.

CAPTULO CXXXV

Rubio protegia
largamente as letras. Livros que lhe eram dedicados, a ser grafado em iniciais maia). entravam para o
prelo com a garantia de duzentos e trezentos exemplares. Tinha diplomas e
diplomas de sociedades literrias, coreogrficas, pias, e era juntamente scio
de uma Congregao Catlica e de um Grmio Protestante, no se tendo lembrado de
um quando lhe falaram do outro; o que fazia era pagar regularmente as
mensalidades de ambos. Assinava jornais sem os ler. Um dia, ao pagar o semestre
de um, que lhe haviam mandado,  que soube, pelo cobrador, que era do partido do
governo; mandou o cobrador ao diabo.

CAPTULO CXXXVI

O cobrador no foi ao
diabo; recebeu o preo do semestre e, como possua a observao natural dos
cobradores, resmungou na rua:

 Ora aqui est um
homem que detesta a folha e paga. Quantos a adoram e no pagam!

CAPTULO CXXXVII

Mas  oh lance da
fortuna! oh eqidade da natureza!  os desperdcios do nosso amigo, se no
tinham remdio, tinham compensao. J o tempo no passava por ele como por um
vadio sem idias. Rubio,  falta delas, tinha agora imaginao. Outrora vivia
antes dos outros que de si, no achava equilbrio interior, e o cio esticava as
horas, que no acabavam mais. Tudo ia mudando; agora a imaginao tendia a
pousar um pouco. Sentado na loja do Bernardo, gastava toda uma manh, sem que o
tempo lhe trouxesse fadiga, nem a estreiteza da Rua do Ouvidor lhe tapasse o
espao. Repetiam-se as vises deliciosas, como a das bodas (Cap. LXXXI) em
termos a que a grandeza no tirava a graa. Houve quem o visse, mais de uma vez,
saltar da cadeira e ir at  porta ver bem pelas costas alguma pessoa que
passava. Conhec-la-ia? Ou seria algum que, casualmente, tinha as feies da
criatura imaginria que ele estivera mirando? So perguntas demais para um s
captulo; basta dizer que uma dessas vezes nem passou ningum, ele prprio
reconheceu a iluso, voltou para dentro, comprou uma tetia de bronze para dar 
filha do Camacho, que fazia anos, e ia casar em breve, e saiu.

CAPTULO CXXXVIII

E Sofia? interroga
impaciente a leitora, tal qual Orgon: Et Tartufe? A, amiga minha, a
resposta  naturalmente a mesma,  tambm ela comia bem, dormia largo e fofo, 
coisas que, alis, no impedem que uma pessoa ame, quando quer amar. Se esta
ltima reflexo  o motivo secreto da vossa pergunta, deixai que vos diga que
sois muito indiscreta, e que eu no me quero seno com dissimulados.

Repito, comia bem,
dormia largo e fofo. Chegara ao fim da comisso das Alagoas, com elogios da
imprensa; a Atalaia chamou-lhe "o anjo da consolao". E no se pense que
este nome a alegrou, posto que a lisonjeasse; ao contrrio, resumindo em Sofia
toda a ao da caridade, podia mortificar as novas amigas, e fazer-lhe perder em
um dia o trabalho de longos meses. Assim se explica o artigo que a mesma folha
trouxe no nmero seguinte, nomeando, particularizando e glorificando as outras
comissrias  estrelas de primeira grandeza".

Nem todas as relaes
subsistiram, mas a maior parte delas estavam atadas, e no faltava  nossa dona
o talento de as tornar definitivas. O marido  que pecava por turbulento,
excessivo, derramado, dando bem a ver que o cumulavam de favores, que recebia
finezas inesperadas e quase imerecidas. Sofia, para emend-lo, vexava-o com
censuras e conselhos, rindo:

 Voc esteve hoje
insuportvel; parecia um criado.

"Cristiano, fique mais
senhor de si, quando tivermos gente de fora, no se ponha com os olhos fora da
cara, saltando de um lado para outro, assim com ar de criana que recebe
doce...

Ele negava, explicava
ou justificava-se; afinal, conclua que sim, que era preciso no parecer estar
abaixo dos obsquios; cortesia, afabilidade, mais nada...

 Justo, mas no vs
cair no extremo oposto, acudiu Sofia; no vs ficar casmurro...

Palha era ento as duas
coisas; casmurro, a princpio, frio, quase desdenhoso; mas, ou a reflexo, ou o
impulso inconsciente, restitua ao nosso homem a animao habitual, e com ela,
segundo o momento, a demasia e o estrpito. Sofia  que, em verdade, corrigia
tudo. Observava, imitava. Necessidade e vocao fizeram-lhe adquirir, aos
poucos, o que no trouxera do nascimento nem da fortuna. Ao demais, estava
naquela idade mdia em que as mulheres inspiram igual confiana s sinhazinhas
de vinte e s sinhs de quarenta. Algumas morriam por ela; muitas a cumulavam de
louvores.

Foi assim que a nossa
amiga, pouco a pouco, espanou a atmosfera. Cortou as relaes antigas,
familiares, algumas to ntimas que dificilmente se poderiam dissolver; mas a
arte de receber sem calor, ouvir sem interesse e despedir-se sem pesar, no era
das suas menores prendas; e uma por uma, se foram indo as pobres criaturas
modestas, sem maneiras, nem vestidos, amizades de pequena monta, de pagodes
caseiros, de hbitos singelos e sem elevao. Com os homens fazia exatamente o
que o major contara, quando eles a viam passar de carruagem,  que era sua, 
entre parnteses. A diferena  que j nem os espreitava para saber se a viam.
Acabara a lua-de-mel da grandeza; agora torcia os olhos duramente para outro
lado, conjurando, de um gesto definitivo, o perigo de alguma hesitao. Punha
assim os velhos amigos na obrigao de lhe no tirarem o chapu.

CAPTULO CXXXIX

Rubio ainda quis valer
ao major, mas o ar de fastio com que Sofia o interrompeu foi tal, que o nosso
amigo preferiu perguntar-lhe se, no chovendo na seguinte manh, iriam sempre
passear  Tijuca.

 J falei a Cristiano;
disse-me que tem um negcio, que fique para domingo que vem.

Rubio, depois de um
instante:

 Vamos ns dois.
Samos cedo, passeamos, almoamos l; s trs ou quatro horas estamos de
volta...

Sofia olhou para ele,
com tamanha vontade de aceitar o convite, que Rubio no esperou resposta
verbal.

 Est assentado,
vamos, disse ele.

 No.

 Como no?

E repetiu a pergunta,
porque Sofia no lhe quis explicar a negativa, alis, to bvia. Obrigada a
faz-lo, ponderou que o marido ficaria com inveja, era capaz de adiar o negcio,
s para ir tambm. No queria atrapalhar os negcios dele, e podiam esperar oito
dias. O olhar de Sofia acompanhava essa explicao, como um clarim acompanharia
um padre-nosso. Vontade tinha, oh! se tinha vontade de ir na manh seguinte, com
Rubio, estrada acima, bem posta no cavalo, no cismando  toa, nem potica, mas
valente, fogo na cara, toda deste mundo, galopando, trotando, parando. L no
alto, desmontaria algum tempo; tudo s, a cidade ao longe e o cu por cima.
Encostada ao cavalo, penteando-lhe as crinas com os dedos, ouviria Rubio
louvar-lhe a afoiteza e o garbo... Chegou a sentir um beijo na nuca...

CAPTULO CXL

Pois que se trata de
cavalos, no fica mal dizer que a imaginao de Sofia era agora um corcel brioso
e petulante, capaz de galgar morros e desbaratar matos. Outra seria a
comparao, se a ocasio fosse diferente; mas corcel  o que vai melhor. Traz a
idia do mpeto, do sangue, da disparada, ao mesmo tempo que a da serenidade com
que torna ao caminho reto, e por fim  cavalaria.

CAPTULO CXLI

 Est dito, vamos
amanh, repetiu Rubio, que espreitava o rosto aceso de Sofia.

Mas o corcel viera
fatigado da carreira, e deixou-se estar sonolento na cavalaria. Sofia era j
outra; passara a vertigem da empresa, o ardor sonhado, o gosto de subir com ele
a estrada da Tijuca. Dizendo-lhe Rubio que pediria ao marido que a deixasse ir
ao passeio, redargiu sem alma.

 Est tonto! Fica para
o domingo que vem!

E fixou os olhos no
trabalho de linha que fazia,  frioleira  o nome,  enquanto Rubio voltava os
seus para um trechozinho de jardim mofino, ao p da saleta de trabalho onde
estavam. Sofia, sentada no ngulo da janela, ia meneando os dedos. Rubio viu em
duas rosas vulgares uma festa imperial, e esqueceu a sala, a mulher e a si. No
se pode dizer, ao certo, que tempo estiveram assim calados, alheios e remotos um
do outro. Foi uma criada que os despertou, trazendo-lhes caf. Bebido o caf,
Rubio concertou as barbas, tirou o relgio e despediu-se. Sofia, que espreitava
a sada, ficou satisfeita, mas encobriu o gosto com o espanto.

 J!

 Devo estar com um
sujeito antes das quatro horas, explicou Rubio. Estamos entendidos; passeio de
amanh gorado. Vou mandar desavisar os cavalos. Mas ser certo no domingo que
vem?

 Certo, certo, no
posso afirmar; mas resolvendo-se em tempo o Cristiano, creio que sim. Sabe que
meu marido  o homem dos impedimentos.

Sofia acompanhou-o at
 porta, estendeu-lhe a mo indiferente, respondeu sorrindo alguma coisa chocha,
tornou  salinha em que estivera,  ao mesmo ngulo, da mesma janela. No
continuou logo o trabalho, ps uma perna sobre outra, fazendo descer, por
hbito, a saia do vestido, e lanou uma olhada ao jardim, onde as duas rosas
tinham dado ao nosso amigo uma viso imperial. Sofia no viu mais que duas
flores mudas. Fitou-as, no obstante, algum tempo; em seguida, pegou da
frioleira, trabalhou um pouco, deteve-se outro pouco, deixando as mos no
regao; e voltou  obra, outra vez, para tornar a deix-la. De repente,
levantou-se e atirou as linhas e a navette  cestinha de junco, onde
guardava os seus petrechos de trabalho. A cesta era ainda uma lembrana de
Rubio.

 Que homem aborrecido!

Dali foi encostar-se 
janela, que dava para o jardim mofino, onde iam murchando as duas rosas
vulgares. Rosas, quando recentes, importam-se pouco ou nada com as cleras dos
outros; mas, se definham, tudo lhes serve para vexar a alma humana. Quero crer
que este costume nasce da brevidade da vida. "Para as rosas, escreveu algum, o
jardineiro  eterno. E que melhor maneira de ferir o eterno que mofar das suas
iras? Eu passo, tu ficas; mas eu no fiz mais que florir e aromar, servi a donas
e a donzelas, fui letra de amor, ornei a botoeira dos homens, ou expiro no
prprio arbusto, e todas as mos, e todos os olhos me trataram e me viram com
admirao e afeto. Tu no,  eterno; tu zangas-te, tu padeces, tu choras, tu
afliges-te! a tua eternidade no vale um s dos meus minutos.

Assim, quando Sofia
chegou  janela que dava para o jardim, ambas as rosas riram-se a ptalas
despregadas. Uma delas disse que era bem feito! bem feito! bem feito!

 Tens razo em te
zangares, formosa criatura, acrescentou, mas h de ser contigo, no com ele. Ele
que vale? Um triste homem sem encantos, pode ser que bom amigo, e talvez
generoso, mas repugnante, no? E tu, requestada de outros, que demnio te leva a
dar ouvidos a esse intruso da vida? Humilha-te,  soberba criatura, porque s tu
mesma a causa do teu mal. Tu juras esquec-lo, e no o esqueces. E  preciso
esquec-lo? No te basta fit-lo, escut-lo, para desprez-lo? Esse homem no
diz coisa nenhuma,  singular criatura, e tu...

 No  tanto assim,
interrompeu a outra rosa, com a voz irnica e descansada; ele diz alguma coisa,
e di-la desde muito, sem desaprend-la, nem troc-la;  firme, esquece a dor,
cr na esperana. Toda a sua vida amorosa  como o passeio  Tijuca, de que
vocs conversavam h pouco: "Fica para o domingo que vem!" Eia, piedade ao
menos; s piedosa,  bonssima Sofia! Se hs de amar a algum, fora do
matrimnio, ama-o a ele, que te ama e  discreto Anda, arrepende-te do gesto de
h pouco. Que mal te fez ele, e que culpa lhe cabe se s bonita? E quando haja
culpa, a cesta  que a no tem, s porque ele a comprou, e menos ainda as linhas
e a navette que tu mesma mandaste comprar pela criada. Tu s m, Sofia,
s injusta...

CAPTULO CXLII

Sofia deixou-se estar
ouvindo, ouvindo... Interrogou outras plantas, e no lhe disseram coisa
diferente. H desses acertos maravilhosos. Quem conhece o solo e o subsolo da
vida, sabe muito bem que um trecho de muro, um banco, um tapete, um
guarda-chuva, so ricos de idias ou de sentimentos, quando ns tambm o somos,
e que as reflexes de parceria entre os homens e as coisas compem um dos mais
interessantes fenmenos da terra. A expresso: "Conversar com os seus botes",
parecendo simples metfora,  frase de sentido real e direto. Os botes operam
sincronicamente conosco; formam uma espcie de senado, cmodo e barato, que vota
sempre as nossas moes.

CAPTULO CXLIII

Fez se o passeio 
Tijuca, sem outro incidente mais que uma queda do cavalo, ao descerem. No foi
Rubio que caiu, nem o Palha, mas a senhora deste, que vinha pensando em no sei
que, e chicoteou o animal com raiva; ele espantou-se e deitou-a em terra. Sofia
caiu com graa. Estava singularmente esbelta, vestida de amazona, corpinho
tentador de justeza. Otelo exclamaria, se a visse: "Oh! minha bela guerreira!"
Rubio limitara-se a isto, ao comear o passeio: "A senhora  um anjo!"

CAPTULO CXLIV

 Fiquei com o joelho
dorido, disse ela entrando em casa e coxeando.

 Deixa ver.

No quarto de vestir,
Sofia levantou o p sobre um banquinho e mostrou ao marido o joelho pisado;
inchara um pouco, muito pouco, mas tocando-lhe, fazia-a gemer. Palha, no
querendo machuc-la, chegou-lhe a pontinha dos beios apenas.

 Fiquei descomposta
quando ca?

 No. Pois com um
vestido to comprido... Mal se pde ver o bico do p. No houve nada, acredita.

 Jura que no?

 Que desconfiada que
voc , Sofia! Juro por tudo o que h mais sagrado, pela luz que me alumia, por
Deus Nosso Senhor. Ests satisfeita?

Sofia ia cobrindo o
joelho.

 Deixa ver outra vez.
Creio que no ser nada maior; bota um pouco de qualquer coisa. Manda perguntar
 botica.

 Est bom, deixa-me ir
despir, disse ela forcejando por descer o vestido.

Mas o Palha baixara os
olhos do joelho at ao resto da perna, onde pegava com o cano da bota. De feito,
era um belo trecho da natureza. A meia de seda mostrava a perfeio do contorno.
Palha, por graa, ia perguntando  mulher se se machucara aqui, e mais aqui, e
mais aqui, indicando os lugares com a mo que ia descendo. Se aparecesse um
pedacinho desta obra-prima, o cu e as rvores ficariam assombrados, concluiu
ele enquanto a mulher descia o vestido e tirava o p do banco.

 Pode ser, mas no
havia s o cu e as rvores, disse ela; havia tambm os olhos do Rubio.

 Ora, o Rubio! 
verdade; ele nunca mais teve aquelas tolices de Santa Teresa?

 Nunca; mas, enfim,
no me agradaria... Jura de verdade, Cristiano?

 O que voc quer  que
eu v subindo de sagrado em sagrado, at  coisa mais sagrada. Jurei por Deus;
no bastou. Juro por voc; est satisfeita?

Pieguices de lascivo.
Saiu finalmente do quarto da mulher e foi para o seu. Aquele pudor medroso e
incrdulo de Sofia fazia-lhe bem. Mostrava que ela era sua, totalmente sua; mas,
por isso mesmo que ele a possua, considerava que era de grande senhor no se
afligir com a vista casual e instantnea de um pedao oculto do seu reino. E
lastimava que o casual tivesse parado na ponta da bota. Era apenas a fronteira;
as primeiras vilas do territrio, antes da cidade machucada pela queda, dariam
idia de uma civilizao sublime e perfeita. E ensaboando-se, esfregando a cara,
o colo e a cabea na vasta bacia de prata, escovando-se, enxugando-se,
aromando-se, Palha imaginava o pasmo e a inveja da nica testemunha do desastre,
se este fosse menos incompleto.

CAPTULO CXLV

Foi por esse tempo que
Rubio ps em espanto a todos os seus amigos. Na tera-feira seguinte ao domingo
do passeio (era ento janeiro de 1870) avisou a um barbeiro e cabeleireiro da
Rua do Ouvidor que o mandasse barbear  casa, no outro dia, s nove horas da
manh. L foi um oficial francs, chamado Lucien, que entrou para o gabinete de
Rubio, segundo as ordens dadas ao criado.

 Uhm!... rosnou
Quincas Borba, de cima dos joelhos do Rubio.

Lucien cumprimentou o
dono da casa: este, porm, no viu a cortesia, como no ouvira o sinal do
Quincas Borba. Estava em uma longa cadeira de extenso, ermo do esprito, que
rompera o teto e se perdera no ar. A quantas lguas iria? Nem condor nem guia o
poderia dizer. Em marcha para a lua,  no via c embaixo mais que as
felicidades perenes, chovidas sobre ele, desde o bero, onde o embalaram fadas,
at  Praia de Botafogo, aonde elas o trouxeram, por um cho de rosas e bogaris.
Nenhum revs, nenhum malogro, nenhuma pobreza;  vida plcida, cosida de gozo,
com rendas de suprfluo. Em marcha para a lua!

O barbeiro relanceou os
olhos pelo gabinete, onde fazia principal figura a secretria, e sobre ela os
dois bustos de Napoleo e Lus Napoleo. Relativamente a este ltimo, havia,
ainda, pendentes da parede, uma gravura ou litografia representando a Batalha
de Solferino, e um retrato da imperatriz Eugnia.

Rubio tinha nos ps um
par de chinelas de damasco, bordadas a ouro; na cabea, um gorro com borla de
seda preta. Na boca, um riso azul claro.

CAPTULO CXLVI

 Senhor...

 Uhm! repetiu Quincas
Borba, de p nos joelhos do senhor.

Rubio voltou a si e
deu com o barbeiro. Conhecia-o por t-lo visto ultimamente na loja; ergueu-se da
cadeira. Quincas Borba latia, como a defend-lo contra o intruso.

 Sossega! cala a boca!
disse-lhe Rubio; e o cachorro foi, de orelha baixa, meter-se por trs da cesta
de papis. Durante esse tempo, Lucien desembrulhava os seus aparelhos.

 O senhor vai perder
uma bela barba, dizia ele em francs. Conheo pessoas que fizeram a mesma coisa,
mas para servir a alguma dama. Tenho sido confidente de homens respeitveis...

 Justamente!
interrompeu Rubio.

No entendera nada;
posto soubesse algum francs, mal o compreendia lido,  como sabemos,  e no o
entendia falado. Mas, fenmeno curioso, no respondeu por impostura; ouviu as
palavras, como se fossem cumprimento ou aclamao; e, ainda mais curioso
fenmeno, respondendo-lhe em portugus, cuidava falar francs.

 Justamente! repetiu.
Quero restituir a cara ao tipo anterior;  aquele.

E, como apontasse para
o busto de Napoleo III, respondeu-lhe o barbeiro pela nossa lngua:

 Ah! o imperador!
Bonito busto, em verdade. Obra fina. O senhor comprou isto aqui ou mandou vir de
Paris? So magnficos. L est o primeiro, o grande; este era um gnio. Se no
fosse a traio, oh! os traidores, v o senhor? os traidores so piores que as
bombas de Orsini.

 Orsini! um coitado!

 Pagou caro.

 Pagou o que devia.
Mas no h bombas nem Orsini contra o destino de um grande homem, continuou
Rubio. Quando a fortuna de uma nao pe na cabea de um grande homem a coroa
imperial, no h maldades que valham... Orsini! um bobo!

Em poucos minutos,
comeou o barbeiro a deitar abaixo as barbas de Rubio, para lhe deixar somente
a pra e os bigodes de Napoleo III; encarecia-lhe o trabalho; afirmava que era
difcil compor exatamente uma coisa como a outra. E  medida que lhe cortava as
barbas, ia-as gabando:  Que lindos fios! Era um grande e honesto sacrifcio que
fazia, em verdade...

 Seu" barbeiro, voc
 pernstico, interrompeu Rubio. J lhe disse o que quero; ponha-me a cara como
estava. Ali tem o busto para gui-lo.

 Sim, senhor,
cumprirei as suas ordens, e ver que semelhana vai sair.

E zs, zs, deu os
ltimos golpes s barbas de Rubio, e comeou a rapar-lhe as faces e os queixos.
Durou longo tempo a operao, o barbeiro ia tranqilamente rapando, comparando,
dividindo os olhos entre o busto e o homem. s vezes, para melhor cotej-los,
recuava dois passos, olhava-os alternadamente, inclinava-se, pedia ao homem que
se virasse de um lado ou de outro, e ia ver o lado correspondente do busto.

 Vai bem? perguntava
Rubio.

Lucien pedia-lhe com um
gesto que se calasse, e prosseguia. Recortou a pra, deixou os bigodes, e
escanhoou  vontade, lentamente, amigamente, aborrecidamente, adivinhando com os
dedos alguma pontinha imperceptvel de cabelo no queixo ou na face. s vezes
Rubio, cansado de estar a olhar para o teto, enquanto o outro lhe aperfeioava
os queixos, pedia para descansar. Descansando, apalpava o rosto e sentia pelo
tato a mudana.

 Os bigodes  que no
esto muito compridos, observava.

 Falta arranjar-lhes
as guias: aqui trago os ferrinhos para encurv-los bem sobre o lbio, e depois
faremos as guias. Ah! eu prefiro compor dez trabalhos originais a uma s cpia.

Volveram ainda dez
minutos, antes que os bigodes e a pra fossem bem retocados. Enfim, pronto.
Rubio deu um salto, correu ao espelho, no quarto, que ficava ao p; era o
outro, eram ambos, era ele mesmo, em suma.

 Justamente! exclamou
tornando ao gabinete, onde o barbeiro, tendo arrecadado os aparelhos, fazia
festas ao Quincas Borba.

E indo  secretria,
abriu uma gaveta, tirou uma nota de vinte mil-ris, e deu-lha.

 No tenho troco,
disse o outro.

 No precisa dar
troco, acudiu Rubio com um gesto soberano; tire o que houver de pagar  casa, e
o resto  seu.

CAPTULO CXLVII

Ficando s, Rubio
atirou-se a uma poltrona, e viu passar muitas coisas suntuosas. Estava em
Biarritz ou Compigne, no se sabe bem; Compigne, parece. Governou um grande
Estado, ouviu ministros e embaixadores, danou, jantou,  e assim outras aes
narradas em correspondncias de jornais, que ele lera e lhe ficaram de memria.
Nem os ganidos de Quincas Borba logravam espert-lo. Estava longe e alto.
Compigne era no caminho da lua. Em marcha para a lua!

CAPTULO CXLVIII

Quando desceu da lua,
ouviu os ganidos do cachorro e sentiu frio nos queixos. Correu ao espelho e
verificou que a diferena entre a cara barbada e a cara lisa era grande, mas
que, assim lisa, no lhe ficava mal. Os comensais chegaram  mesma concluso.

 Est perfeitamente
bem! H muito que devia ter feito isso. No  que as barbas grandes lhe tirassem
a nobreza do rosto; mas, assim como est agora, tem o que tinha, e mais um tom
moderno...

 Moderno, repetiu o
anfitrio.

Fora, igual espanto.
Todos achavam sinceramente que este outro aspecto lhe ia melhor que o anterior.
Uma s pessoa, o Dr. Camacho, posto julgasse que os bigodes e a pra ficavam
muito bem ao amigo, ponderou que era de bom aviso no alterar o rosto,
verdadeiro espelho da alma, cuja firmeza e constncia devia reproduzir.

 No  por lhe falar
de mim, concluiu; mas, nunca me h de ver a cara de outro modo.  uma
necessidade moral da minha pessoa. Minha vida, sacrificada aos princpios, 
porque eu nunca tentei conciliar princpios, mas homens,  minha vida, digo, 
uma imagem fiel da minha cara, e vice-versa.

Rubio ouvia com
seriedade, e acenava de cabea que sim, que devia ser assim por fora. Sentia-se
ento imperador dos franceses, incgnito, de passeio; descendo  rua, voltou ao
que era. Dante, que viu tantas coisas extraordinrias, afirma ter assistido no
inferno ao castigo de um esprito florentino, que uma serpente de seis ps
abraou de tal modo, e to confundidos ficaram, que afinal j se no podia
distinguir bem se era um ente nico, se dois. Rubio era ainda dois. No se
misturavam nele a prpria pessoa com o imperador dos franceses. Revezavam-se;
chegavam a esquecer-se um do outro. Quando era s Rubio, no passava do homem
do costume. Quando subia a imperador, era s imperador. Equilibravam-se, um sem
outro, ambos integrais.

CAPTULO CXLIX

 Que mudana  essa?
perguntou Sofia, quando ele lhe apareceu no fim da semana.

 Vim saber do seu
joelho; est bom?

 Obrigada.

Eram duas horas da
tarde. Sofia acabava de vestir-se para sair, quando a criada lhe fora dizer que
estava ali Rubio,  to mudado de cara que parecia outro. Desceu a v-lo
curiosa; achara-o na sala, de p, lendo os cartes de visita.

 Mas que mudana 
essa? repetiu ela.

Rubio, sem nenhum
sentimento imperial, respondeu que supunha ficarem-lhe melhor os bigodes e a
pra.

 Ou estou mais feio?
concluiu.

 Est melhor, muito
melhor.

E Sofia disse consigo
que talvez fosse ela a causa da mudana. Sentou-se no sof, e comeou a enfiar
os dedos nas luvas.

 Vai sair?

 Vou, mas o carro
ainda no veio.

Caiu-lhe uma das luvas.
Rubio inclinou-se para apanh-la, ela fez a mesma coisa, ambos pegaram na luva,
e teimando em levant-la sucedeu que as caras encontraram-se no ar, o nariz dela
bateu no dele, e as bocas ficaram intactas para rir, como riram.

 Machuquei-a?

 No! eu  que lhe
pergunto...

E riram outra vez.
Sofia calou a luva, Rubio fitou-lhe um p que se mexia disfaradamente, at
que o criado veio dizer que a carruagem chegara. Ergueram-se, e ainda uma vez
riram.

CAPTULO CL

Teso, descoberto, o
lacaio abriu a portinhola do coup, quando Sofia assomou  porta. Rubio
ofereceu a mo para ajud-la a entrar, ela aceitou o obsquio e entrou.

 Agora, at...

No pde acabar a
frase; Rubio entrara aps ela e sentara-se-lhe ao lado; o lacaio fechou a
portinhola, trepou  almofada, e o carro partiu.

CAPTULO CLI

To rpido foi tudo,
que Sofia perdeu a voz e o movimento; mas, ao cabo de alguns
segundos:

 Que  isto?... Sr.
Rubio, mande parar o carro.

 Parar? Mas a senhora
no me disse que ia sair e esperava por ele?

 No ia sair com o
senhor... No v que... Mande parar...

Desatinada, quis
ordenar ao cocheiro que parasse; mas o receio de um possvel escndalo f-la
deter-se a meio caminho. O coup entrara na Rua Bela da Princesa. Sofia
novamente pediu a Rubio que advertisse na inconvenincia de irem assim,  vista
de Deus e de todo mundo. Rubio respeitou o escrpulo, e props que descessem as
cortinas.

 Eu acho que no faz
mal que nos vejam, explicou Rubio; mas, fechando as cortinas, ningum nos v.
Se quer?

Sem aguardar resposta,
desceu as cortinas de um e outro lado, e ficaram os dois a ss, porque, se de
dentro podiam ver uma ou outra pessoa que passasse, de fora ningum os via. Ss,
completamente ss, como naquele dia em que s mesmas duas horas da tarde, em
casa dela, Rubio lhe lanou em rosto os seus desesperos. L, ao menos, a moa
estava livre; aqui, dentro do carro fechado, no podia calcular as
conseqncias.

Rubio, entretanto,
acomodara as pernas e no dizia nada.

CAPTULO CLII

Sofia encolhera-se
muito ao canto. Podia ser estranheza da situao, podia ser medo; mas era
principalmente repugnncia. Nunca esse homem lhe fez sentir tanta averso, asco,
ou outra coisa menos dura, se querem, mas que se reduzia  incompatibilidade, 
como direi que no agrave os ouvidos?   incompatibilidade da epiderme. Onde
iam os sonhos de h poucos dias? Ao simples convite de um passeio, a ss, 
Tijuca, subiu com ele a montanha, a galope, desmontou, ouviu palavras de
adorao, e sentiu um beijo na nuca. Onde iam essas imaginaes? Onde iam os
olhos fixos e grandes, as mos amigas e longas, os ps inquietos, as palavras
meigas e os ouvidos cheios de misericrdia? Tudo esqueceu, tudo desapareceu,
agora que ambos se achavam deveras ss, insulados pelo carro e pelo escndalo.

E os cavalos
continuavam a andar, sacudindo as patas, arrastando lentamente o carro, pelas
pedras da Rua Bela da Princesa. Que faria ela chegando ao Catete? Iria  cidade
com ele? Pensou em seguir para a casa de alguma amiga; deixa-lo-ia dentro, diria
ao cocheiro que se fosse embora. Contaria tudo ao marido. No meio daquela
agonia, atravessaram-lhe o crebro algumas memrias banais, ou estranhas 
situao, como a notcia de um roubo de jias lida de manh nos jornais, a
ventania da vspera, um chapu. Afinal fixou-se em um s cuidado. Que lhe ia
dizer o Rubio? Viu que ele continuava a olhar para a frente, calado, com o
casto da bengala no queixo. No lhe ficava mal a atitude, tranqila, sria,
quase indiferente; mas ento para que se meteu no carro? Sofia quis romper o
silncio; por duas vezes moveu nervosamente as mos; quase que a irritou a
quietao do homem, cuja ao s podia ser explicada pela paixo antiga e
violenta. Depois, imaginou que ele prprio estaria arrependido, e disse-lho em
bons termos.

 No vejo que me possa
arrepender de coisa nenhuma, acudiu ele, voltando-se. Quando a senhora disse que
era mau irmos assim,  vista do pblico, abaixei as cortinas. No concordei, mas
obedeci.

 Chegamos ao Catete,
atalhou ela; quer que o leve a casa? No podemos ir juntos para a cidade.

 Podemos andar  toa.

 Como?

  toa, os cavalos vo
andando e ns vamos conversando, sem que nos ouam nem adivinhem...

 Pelo amor de Deus!
no me fale assim; deixe-me, saia do carro, ou eu saio aqui mesmo, e o senhor
toma conta dele. Que  que quer dizer? Bastam poucos minutos... Olhe, j
dobramos para o lado da cidade; mande ir para Botafogo, vou deix-lo  porta de
casa...

 Mas eu sa h pouco
de casa, vou para a cidade. Que mal h em levar-me at l? Se  para que no nos
vejam, apeio-me, em qualquer lugar,  na Praia de Santa Luzia, por exemplo,  do
lado do mar...

 O melhor  descer
aqui mesmo.

 Mas por que no
iremos at  cidade?

 No, no pode ser.
Peo-lhe por tudo que lhe for mais sagrado! No faa escndalo; vamos, diga-me o
que  preciso para obter uma coisa to simples? Quer que me ajoelhe aqui mesmo?

Apesar da estreiteza do
espao, ia dobrando os joelhos; mas Rubio deu-se pressa em faz-la sentar-se
outra vez.

 No  preciso que se
ajoelhe, disse com brandura.

 Obrigada; peo-lhe
ento por Deus, por sua me, que est no Cu...

 Deve estar no Cu,
confirmou Rubio. Era uma santa senhora! As mes so sempre boas; mas daquela,
ningum que a conheceu poder dizer outra coisa seno que era uma santa. E
prendada, como poucas. Que dona de casa! Hspedes, para ela, tanto fazia cinco
como cinqenta, era a mesma coisa, cuidava de tudo a tempo e a hora, e criou
fama. Os escravos davam-lhe o nome de Sinh Me, porque era, realmente,
me para todos. Deve estar no Cu!

 Bem, bem, atalhou
Sofia. Pois faa-me isto por amor de sua me; faz?

 Isto qu?

 Apear-se aqui mesmo.

 E ir a p para a
cidade? No posso.  cisma sua; ningum nos v. E depois estes seus cavalos so
magnficos. J reparou como atiram as patas, lentamente, pls... pls... pls...
pls...

Cansada de pedir, Sofia
calou-se, cruzou os braos e coseu-se ainda mais, se era possvel, ao cantinho
do carro.

 Agora me lembro,
pensou ela; mando parar  porta do armazm do Cristiano; digo-lhe o modo por que
este homem se introduziu no coup, os pedidos que lhe fiz e as respostas
que me deu. Antes isso que faz-lo apear misteriosamente em qualquer rua.

Entretanto, Rubio
estava quieto. De vez em quando volvia no dedo o anel de brilhante,  um
solitrio esplndido. No olhava para ela, no lhe dizia nem pedia nada. Iam
como um casal de aborrecidos. Sofia comeava a no entender que razo o teria
levado a entrar no carro. Necessidade de transporte no podia ser. Vaidade,
tambm no; fechara as cortinas,  sua primeira queixa de publicidade. Nenhuma
palavra amorosa, uma aluso remota que fosse, a medo, cheia de venerao e
splica. Era um inexplicvel, um monstro.

CAPTULO CLIII

 Sofia... disse de
repente Rubio; e continuou com pausa:  Sofia, os dias passam, mas nenhum homem
esquece a mulher que verdadeiramente gostou dele, ou ento no merece o nome de
homem. Os nossos amores no sero esquecidos nunca,  por mim, est claro, e
estou certo que nem por ti. Tudo me deste, Sofia; a tua prpria vida correu
perigo. Verdade  que eu te vingaria, minha bela. Se a vingana pode alegrar os
mortos, terias o maior prazer possvel. Felizmente, o meu destino protegeu-nos,
e pudemos amar sem peias nem sangue...

A moa olhava
espantada.

 No te espantes,
continuou ele; no nos vamos separar; no, no te falo de separao. No me
digas que morrerias; sei que havias de chorar muitas lgrimas. Eu no,  que no
vim ao mundo para chorar,  mas nem por isso a minha dor seria menor; ao
contrrio, as dores guardadas no corao doem mais que as outras. Lgrimas so
boas porque a pessoa desabafa. Querida amiga, falo-te assim, porque  preciso
termos cautela; a nossa insacivel paixo pode esquecer esta necessidade. Temos
facilitado muito, Sofia; como nascemos um para o outro, parece-nos que estamos
casados, e facilitamos. Ouve, querida, ouve, alma da minha alma... A vida 
bela! a vida  grande! a vida  sublime! Contigo, porm, que nome haver que lhe
possa dar? Lembras-te da nossa primeira entrevista?

Rubio disse esta
ltima palavra, querendo pegar-lhe na mo. Sofia recuou a tempo; estava
desorientada, no entendia e tinha medo. A voz dele crescia, o cocheiro podia
ouvir alguma coisa... E aqui uma suspeita a abalou: talvez o intento de Rubio
fosse justamente fazer-se ouvir, para obrig-la pelo terror,  ou ento para que
a abocanhassem. Teve mpeto de atirar-se a ele, gritar que lhe acudissem, e
salvar-se pelo escndalo.

Ele baixinho, depois de
curta pausa:

 A mim lembra-me, como
se fosse ontem. Tu chegaste de carro, no era este; era um carro de praa, uma
calea. Desceste medrosa, com o vu pela cara; tremias como varas verdes... Mas
os meus braos te ampararam... O sol daquele dia devia ter parado, como quando
obedeceu a Josu... E contudo, minha flor, aquelas horas foram compridas como
diabo, no sei por qu; a rigor, deviam ser curtas. Era talvez porque a nossa
paixo no acabava mais, no acabou, nem h de acabar nunca... Em compensao,
no vimos mais o sol; ia caindo para o outro lado das montanhas quando minha
Sofia, ainda medrosa, saiu para a rua, e pegou de outra calea. Outra ou a
mesma? Creio que foi a mesma. No imaginas como fiquei; parecia tonto, beijei
tudo em que havias tocado; cheguei a beijar a soleira da porta. Creio que j te
contei isto. A soleira da porta. E estive quase quase a ir de rastos, beijar os
degraus da escada... No o fiz, recolhi-me, fechei-me para que se no perdesse o
teu cheiro; violeta, se bem me recordo...

No, no era possvel
que o intuito de Rubio fosse fazer crer ao cocheiro uma aventura mentirosa. A
voz era to sumida que Sofia mal podia escut-la; mas, se lhe custava entender
as palavras, no chegava a compreender o sentido delas. A que vinha aquela
histria no sucedida? Quem quer que a ouvisse, aceitaria tudo por verdade, tal
era a nota sincera, a meiguice dos termos e a verossimilhana dos pormenores. E
ele continuou suspirando as belas reminiscncias...

 Mas que caoada 
essa? atalhou finamente Sofia.

No lhe respondeu o
nosso amigo;  tinha a imagem diante dos olhos, no ouviu a pergunta, e foi
andando. Citou-lhe um concerto de Gottschalk. O divino pianista melodiava ao
piano; eles ouviam, mas o demnio da msica levou os olhos de um para outro, e
ambos esqueceram o resto. Quando a msica cessou, as palmas romperam, e eles
acordaram. Ai tristes! acordaram com o olhar do Palha em cima deles, um olho de
ona brava. Nessa noite cuidou que ele a matasse.

 Senhor Rubio...

 Napoleo, no;
chama-me Lus. Sou o teu Lus, no  verdade, galante criatura? Teu, teu...
Chama-me teu; o teu Lus, o teu querido Lus. Ai, se tu soubesses o gosto que me
ds quando te ouo essas duas palavras: "Meu Lus!" Tu s a minha Sofia,  a
doce, a mimosa Sofia da minha alma. No percamos estes momentos; vamos dizer
nomes ternos; mas baixo, baixinho, para que os malandros da almofada do carro
no escutem. Para que h de haver cocheiros neste mundo? Se o carro andasse por
si, a gente falava  vontade, e iria ao fim da Terra.

J ento iam costeando
o Passeio Pblico; Sofia no deu por isso. Olhava fixamente para Rubio; no
podia ser clculo de perverso, nem lhe atribua mofa... Delrio, sim,  o que
era; tinha a sinceridade da palavra, como pessoa que v ou viu realmente as
coisas que relata.

  preciso p-lo fora
daqui, pensou a moa. E aparelhando-se de coragem:  Onde estaremos ns?
perguntou-lhe.  ocasio de separar-nos. Veja do lado de l; onde estamos?
Parece que  o convento; estamos no Largo da Ajuda. Diga ao cocheiro que pare;
ou, se quer, pode apear-se no Largo da Carioca. Meu marido...

 Vou nome-lo
embaixador, disse Rubio. Ou senador, se quiser. Senador  melhor; ficam os dois
aqui. Embaixador que fosse, no consentiria que tu o acompanhasses, e as ms
lnguas... Tu sabes a oposio que sofro, as calnias... Ah! ruim gente!
Convento da Ajuda, disseste? Que tens tu com ele? Queres ser freira?

 No; digo que j
passamos o convento da Ajuda. Vou deix-lo no Largo da Carioca. Ou vamos at o
armazm de meu marido?

Sofia tornou a
apegar-se ao segundo alvitre; no se faria suspeita ao cocheiro, provaria melhor
a sua inocncia ao Palha, narrando-lhe tudo, desde a entrada inesperada no carro
at o delrio. E que delrio era esse? Sofia pensou que o motivo podia ser ela
prpria, e esta conjetura f-la sorrir de piedade.

 Para qu? disse
Rubio. Vou apear-me aqui mesmo,  mais seguro. Para que h de ele desconfiar de
ns e maltratar-te? Posso castig-lo, mas sempre me ficaria o remorso do mal que
ele te causaria. No, linda flor amiga; o vento que se atrevesse a tocar em tua
pessoa, acredita que eu mandaria pr fora do espao, como um vento indigno. Tu
ainda no conheces bem o meu poder, Sofia; anda, confessa.

Como Sofia no
confessasse nada, Rubio chamou-lhe de bonita, e ofereceu-lhe o solitrio que
tinha no dedo; ela, porm, conquanto amasse as jias e tivesse a intuio dos
solitrios, recusou medrosamente a oferta.

 Compreendo o
escrpulo, disse ele; mas no perdes por isso, porque hs de receber outra pedra
ainda mais bela, e pela mo de teu marido. Far-te-ei duquesa. Ouviste? O ttulo
 dado a ele, mas tu  que s a causa. Duque... Duque de qu? Vou ver um ttulo
bonito; ou ento escolhe tu mesma, porque  para ti, no  para ele,  para ti,
minha mimosa. No  preciso escolher j, vai para casa e pensa. No te vexes;
manda-me dizer o que achares mais bonito, e fao lavrar imediatamente o decreto.
Tambm podes fazer outra coisa: escolhe, e diz-me no nosso primeiro encontro, no
lugar do costume. Quero ser o primeiro que te chame duquesa. Querida duquesa...
O decreto vir depois. Duquesa de minha alma!

 Sim, sim, disse ela
desvairadamente, mas avisemos o cocheiro que nos leve at a casa de Cristiano.

 No, apeio-me aqui...
Pra! pra!

Rubio ergueu as
cortinas, e o lacaio veio abrir a portinhola. Sofia, para tirar toda a suspeita
a este, pediu novamente ao Rubio que fosse com ela  casa do marido; disse-lhe
que este precisava falar-lhe com urgncia. Rubio olhou um pouco espantado para
ela, para o lacaio e para a rua; e respondeu que no, que iria depois.

CAPTULO CLIV

Apenas separados,
deu-se em ambos um contraste.

Rubio, na rua, voltou
a cabea para todos os lados, a realidade apossava-se dele e o delrio
esvaa-se. Andava, estacava diante de uma loja, atravessava a rua, detinha um
conhecido, pedia-lhe notcias e opinies; esforo inconsciente para sacudir de
si a personalidade emprestada.

Ao contrrio, Sofia,
passado o susto e o espanto, mergulhou no devaneio; todas as referncias e
histrias mentirosas de Rubio como que lhe davam saudades,  saudades de qu? 
"saudades do Cu", que  o que dizia o Padre Bernardes do sentimento de um bom
cristo. Nomes diversos relampejavam no azul daquela possibilidade. Quanto
pormenor interessante! Sofia reconstruiu a calea velha, onde entrou rpida,
donde desceu trmula, para esgueirar-se pelo corredor dentro, subir a escada, e
achar um homem,  que lhe disse os mimos mais apetitosos deste mundo, e os
repetiu agora, ao p dela, no carro; mas no era, no podia ser o Rubio. Quem
seria? Nomes diversos relampejavam no azul daquela possibilidade.

CAPTULO CLV

Espalhou-se a nova da
mania de Rubio. Alguns, no o encontrando nas horas do delrio, faziam
experincias, a ver se era verdadeiro o boato; encaminhavam a conversao para
os negcios de Frana e do imperador. Rubio resvalava ao abismo, e
convencia-os.

CAPTULO CLVI

Passaram-se alguns
meses, veio a guerra franco-prussiana, e as crises de Rubio tornaram-se mais
agudas e menos espaadas. Quando as malas da Europa chegavam cedo, Rubio saa
de Botafogo, antes do almoo, e corria a esperar os jornais; comprava a
Correspondncia de Portugal, e ia l-la no Carceler. Quaisquer que fossem
as notcias, dava-lhes o sentido da vitria. Fazia a conta dos mortos e feridos,
e achava sempre um grande saldo a seu favor. A queda de Napoleo III foi para
ele a captura do rei Guilherme, a revoluo de 4 de Setembro um banquete de
bonapartistas.

Em casa, os amigos do
jantar no se metiam a dissuadi-lo. Tambm no confirmavam nada, por vergonha
uns dos outros; sorriam e desconversavam. Todos, entretanto, tinham as suas
patentes militares, o Marechal Torres, o Marechal Pio, o Marechal Ribeiro, e
acudiam pelo ttulo. Rubio via-os fardados; ordenava um reconhecimento, um
ataque, e no era necessrio que eles sassem a obedecer; o crebro do anfitrio
cumpria tudo. Quando Rubio deixava o campo de batalha para tornar  mesa, esta
era outra. J sem prataria, quase sem porcelana nem cristais, ainda assim
aparecia aos olhos de Rubio regiamente esplndida. Pobres galinhas magras eram
graduadas em faises; picados triviais, assados de m morte traziam o sabor das
mais finas iguarias da Terra. Os comensais faziam algum reparo, entre si,  ou
ao cozinheiro,  mas Luculo ceava sempre com Luculo. Toda a mais casa, gasta
pelo tempo e pela incria, tapetes desbotados, moblias truncadas e
descompostas, cortinas enxovalhadas, nada tinha o seu atual aspecto, mas outro,
lustroso e magnfico. E a linguagem era tambm diversa, rotunda e copiosa, e
assim os pensamentos, alguns extraordinrios, como os do finado amigo Quincas
Borba,  teorias que ele no entendera, quando lhas ouvira outrora em Barbacena,
e que ora repetia com lucidez, com alma,  s vezes, empregando as mesmas frases
do filsofo. Como explicar essa repetio do obscuro, esse conhecimento do
inextricvel, quando os pensamentos e as palavras pareciam ter ido com os ventos
de outros dias? E por que todas essas reminiscncias desapareciam com a volta da
razo?

CAPTULO CLVII

A compaixo de Sofia, 
explicado o mal de Rubio pelo amor que ele lhe tinha,  era um sentimento
mdio, no simpatia pura nem egosmo ferrenho, mas participando de ambos. Uma
vez que evitasse alguma situao idntica  do coup, tudo ia bem. Nas
horas em que Rubio estava lcido, escutava-o e falava-lhe com interesse,  at
porque a doena, dando-lhe audcia nos momentos de crise, dobrava-lhe a timidez
nas horas normais. No sorria, como o Palha, quando Rubio subia ao trono ou
comandava um exrcito. Crendo-se autora do mal, perdoava-lho; a idia de ter
sido amada at  loucura, sagrava-lhe o homem.

CAPTULO CLVIII

 Por que no o tratam?
perguntou uma noite D. Fernanda, que ali o conhecera no ano anterior; pode ser
que se cure.

 Parece que no 
coisa grave, acudiu o Palha; tem desses acessos, mas assim mansos, como viu,
idias de grandeza, que passam logo; e repare que, fora daquilo, conversa
perfeitamente. Contudo, pode ser... Que acha V.Ex.?

Tefilo, o marido de D.
Fernanda, respondeu que sim, que era possvel.

 Que fazia ele, ou que
faz agora? continuou o deputado.

 Nada, nem agora nem
antes. Era rico,  mas gastador. Conhecemo-lo quando veio de Minas, e fomos, por
assim dizer, o seu guia no Rio de Janeiro, aonde no voltara desde longos anos.
Bom homem. Sempre com luxo, lembra-se? Mas no h riqueza inesgotvel, quando se
entra pelo capital; foi o que ele fez. Hoje creio que tenha pouco...

 Podia salvar-lhe esse
pouco, fazendo-se nomear curador, enquanto ele se trata. No sou mdico, mas
pode ser que esse amigo fique bom.

 No digo que no.
Realmente,  pena... D-se com todos e presta seus servios. Sabe que esteve
para ser nosso parente? Pois no? Quis casar com Maria Benedita.

 A propsito de Maria
Benedita, interrompeu D. Fernanda, ia-me esquecendo que trago uma carta dela
para mostrar  senhora; recebi-a ontem. J h de saber que, em breve, esto de
volta? Est aqui.

Entregou a carta a
Sofia, que a abriu sem entusiasmo, e a leu com tdio. Era mais que uma vulgar
carta transatlntica, era um depsito moral, uma confisso ntima e completa de
pessoa feliz e agradecida. Contava os mais recentes episdios da viagem,
desordenadamente, porque os viajantes eram sobrepostos a tudo, e as mais belas
obras do homem ou da natureza valiam menos que os olhos que as miravam. s
vezes, um incidente de hospedaria ou de rua comia mais papel e trazia mais
interesse que outros, pela razo de pr em relevo as qualidades do marido. Maria
Benedita amava tanto ou ainda mais que no primeiro dia. No fim, a medo, em
post-scriptum, pedindo que o no dissesse a ningum, confessava que era
me.

Sofia dobrou o papel,
no j com tdio, seno com despeito, e por dois motivos que se contradizem; mas
a contradio  deste mundo. Cotejada aquela carta com as que recebera de Maria
Benedita, dir-se-ia que ela era apenas uma conhecida, sem outro lao de sangue
ou de afeto; e, contudo, no quereria ser confidente daquela felicidade
cochichada do outro lado do oceano, cheia de mincias, de adjetivos, de
exclamaes, do nome de Carlos Maria, dos olhos de Carlos Maria, dos ditos de
Carlos Maria, finalmente do filho de Carlos Maria. Parecia acinte, e quase fazia
crer na cumplicidade de D. Fernanda.

Hbil, sabendo domar-se
a tempo, Sofia dissimulou o despeito, e restituiu sorrindo a carta da prima.
Quis dizer que, pelo texto, a felicidade de Maria Benedita devia estar intacta
como a levara daqui, mas a voz no lhe passou da garganta. D. Fernanda  que se
incumbiu da concluso:

 V-se bem que 
feliz!

 Parece que sim.

CAPTULO CLIX

Se a manh seguinte no
fosse chuvosa, outra seria a disposio de Sofia. O sol nem sempre  oficial de
boas idias; mas, ao menos, permite sair, e a troca do espetculo muda as
sensaes. Quando Sofia acordou, j a chuva caa grossa e contnua, e o cu e o
mar era tudo um, to baixas estavam as nuvens, to espessa era a cerrao.

Tdio por dentro e por
fora. Nada em que espraiasse a vista e descansasse a alma. Sofia meteu a alma em
um caixo de cedro, encerrou o de cedro no caixo de chumbo do dia, e deixou-se
estar sinceramente defunta. No sabia que os defuntos pensam, que um enxame de
noes novas vem substituir as velhas, e que eles saem criticando o mundo como
os espectadores saem do teatro criticando a pea e os atores. A defunta sentiu
que algumas noes e sensaes continuavam a vida. Vinham de mistura, mas tinham
um ponto de partida comum,  a carta da vspera e as recordaes que lhe trouxe
de Carlos Maria.

Em verdade, cuidara ter
arredado para longe essa figura aborrecida, e ei-la que reaparecia, que sorria,
que a fitava, que lhe sussurrava ao ouvido as mesmas palavras do vadio egosta e
enfatuado, que a convidou um dia  valsa do adultrio e a deixou sozinha no meio
do salo.  volta dessa vinham outras; Maria Benedita, por exemplo, um caco de
gente, que ela foi buscar  roa para lhe dar lustre de cidade, e que esqueceu
todos os benefcios para s se lembrar das suas ambies. E D. Fernanda tambm,
madrinha dos seus amores, que de caso pensado, trouxera na vspera a carta de
Maria Benedita com o post-scriptum confidencial. No advertiu que o
prazer da amiga bastava a explicar o esquecimento da parte reservada da carta;
menos ainda indagou se a natureza moral de D. Fernanda comportava essa
suposio. Vieram assim outras cogitaes e imagens, e tornaram as primeiras, e
todas se iam ligando e desligando. Entre elas, apareceu uma lembrana da
vspera. O marido de D. Fernanda envolvera Sofia em um grande olhar de
admirao. Ela, em verdade, estava nos seus melhores dias; o vestido sublinhava
admiravelmente a gentileza do busto, o estreito da cintura e o relevo delicado
das cadeiras;  era foulard, cor de palha.

 Cor de palha,
acentuou Sofia rindo, quando D. Fernanda o elogiou, pouco depois de entrar; cor
de palha, como uma lembrana deste senhor.

No  fcil dissimular
o prazer da lisonja; o marido sorriu cheio de vaidade, procurando ler nos olhos
dos outros o efeito daquela prova minuciosa de amor. Tefilo elogiou tambm o
vestido, mas era difcil mir-lo sem mirar tambm o corpo da dona; dali, os
olhos compridos que lhe deitou, sem concupiscncia,  certo, e quase sem
reincidncia. Pois essa lembrana da vspera, um gesto sem convite, uma
admirao sem desejo, veio meter-se de permeio agora, quando Sofia cuidava na
maldade da outra.

Carlos Maria,
Tefilo... Outros nomes relampejavam no cu daquela possibilidade, como ficou
expresso no cap. CLIV. E vieram todos agora, porque a chuva, continuando a cair,
o cu e o mar estavam ainda unidos pela mesma cerrao. Vieram todos esses
nomes, com os prprios sujeitos correspondentes, e at vieram sujeitos sem
nomes,  os adventcios e ignorados,  que uma s vez passaram por ela, cantaram
o hino da admirao e receberam o bolo da boa vontade. Por que no reteve algum
de tantos, para ouvi-lo cantar e enriquec-lo? No  que os bolos enriqueam a
ningum, mas h outras moedas de maior valia. Por que no reteve um de tantos
nomes elegantes e at egrgios? Essa pergunta sem palavras correu-lhe assim
pelas veias, pelos nervos, pelo crebro, sem outra resposta mais que a agitao
e a curiosidade.

CAPTULO CLX

Nisto, a chuva cessou
um pouco, e um raio de sol logrou romper o nevoeiro,  um desses raios midos
que parecem vir de olhos que choraram. Sofia cuidou que ainda podia sair; estava
inquieta por ver, por andar, por sacudir aquele torpor, e esperou que o sol
varresse a chuva e tomasse conta do cu e da terra; mas o grande astro percebeu
que a inteno dela era constitu-lo lanterna de Digenes, e disse ao raio
mido: "Volta, volta ao meu seio, raio casto e virtuoso; no vs tu conduzi-la
onde o seu desejo a quer levar. Que ame, se lhe parece; que responda aos
bilhetes namorados,  se os recebe e no queima,  no lhe sirvas tu de archote,
luz do meu seio, filho das minhas entranhas, raio, irmo dos meus raios..."

E o raio obedeceu,
recolhendo-se ao foco central, um pouco espantado do temor do sol, que tem visto
tantas coisas ordinrias e extraordinrias. Ento o vu de nuvens fez-se outra
vez espesso, e mais escuro, e a chuva tornou a cair em grandes btegas.

CAPTULO CLXI

Sofia resignou-se 
recluso. J agora tinha a alma to confusa e difusa como o espetculo exterior.
Todas as imagens e nomes perdiam-se no mesmo desejo de amar.  justo dizer que
ela, quando regressava desses estados de conscincia vagos e obscuros, tentava
fugir-lhes e guiava o esprito para diverso assunto; mas sucedia-lhe como aos
que tm sono e forcejam por velar: os olhos fecham-se de cada vez que espertam e
tornam a espertar para se fecharem outra vez. Afinal, deixou a vista da chuva e
do nevoeiro; estava cansada, e para repousar, foi abrir as folhas do ltimo
nmero da Revista dos Dois Mundos. Um dia, no melhor dos trabalhos da
comisso das Alagoas, perguntara-lhe uma das elegantes do tempo, casada com um
senador.

 Est lendo o romance
de Feuillet, na Revista dos Dois Mundos?

 Estou, acudiu Sofia;
 muito interessante.

No estava lendo, nem
conhecia a Revista; mas, no dia seguinte, pediu ao marido que a
assinasse; leu o romance, leu os que saram depois, e falava de todos os que
lera ou ia lendo. Abertas as folhas daquele nmero, e acabada uma novela, Sofia
recolheu-se ao quarto e atirou-se  cama. Passara mal a noite, no lhe custou
pegar no sono,  profundo, largo e sem sonhos,  exceto para o fim, em que teve
um pesadelo. Estava diante da mesma parede de cerrao daquele dia, mas no mar,
 proa de uma lancha, deitada de bruos, escrevendo com o dedo na gua um nome 
Carlos Maria. E as letras ficavam gravadas, e para maior nitidez, tinham
os sulcos de espuma. At aqui nada havia que atordoasse, a no ser o mistrio;
mas  sabido que os mistrios dos sonhos parecem fatos naturais. Eis que a
parede da cerrao se rasga, e nada menos que o prprio dono do nome aparece aos
olhos de Sofia, caminha para ela, toma-a nos braos e diz-lhe muitas palavras de
ternura, anlogas s que ela, alguns meses antes, ouvira ao Rubio. E no a
afligiram, como as deste; ao contrrio, escutou-as com prazer, meio cada para
trs, como se desmaiasse. J no era lancha, mas carruagem, onde ela se ia com o
primo, mos presas, namorada de uma linguagem de ouro e sndalo. Tambm aqui no
h que aterre. O terror veio quando a carruagem parou, muitos vultos mascarados
a cercaram, mataram o cocheiro, arrancaram as portinholas, apunhalaram Carlos
Maria e deitaram o cadver ao cho. Depois, um deles, que parecia ser o chefe de
todos, tomou o lugar do defunto, tirou a mscara e disse a Sofia que se no
assustasse, que ele a amava cem mil vezes mais que o outro. Logo em seguida,
pegou-lhe nos pulsos e deu-lhe um beijo, mas um beijo mido de sangue, cheirando
a sangue. Sofia soltou um grito de horror e acordou. Tinha ao p do leito o
marido.

 Que foi? perguntou
ele.

 Ah! respirou Sofia.
Gritei, no gritei?

Palha no respondeu
nada; olhava  toa, pensava em negcios. Ento um receio assaltou a mulher, se
haveria efetivamente falado, murmurado alguma palavra, um nome qualquer,  o
mesmo que escrevera na gua. E logo, espreguiando os braos para o ar, f-los
cair sobre os ombros do marido, cruzou as pontas dos dedos na nuca, e murmurou
meio alegre, meio triste:

 Sonhei que estavam
matando voc.

Palha ficou
enternecido. Hav-la feito padecer por ele, ainda que em sonhos, encheu-o de
piedade, mas de uma piedade gostosa, um sentimento particular, ntimo, profundo,
 que o faria desejar outros pesadelos, para que o assassinassem aos olhos dela,
e para que ela gritasse angustiada, convulsa, cheia de dor e de pavor.

CAPTULO CLXII

No dia seguinte, o sol
apareceu claro e quente, o cu lmpido, e o ar fresco. Sofia meteu-se no carro e
saiu a visitas e a passeio para desforrar-se da recluso. J o prprio dia lhe
fez bem. Vestiu-se cantarolando. O trato das senhoras que a receberam em suas
casas,  e das que achou na Rua do Ouvidor, a agitao externa, as notcias da
sociedade, a boa feio de tanta gente fina e amiga, bastaram a espancar-lhe da
alma os cuidados da vspera.

CAPTULO CLXIII

Assim, pois, o que
parecia vontade imperiosa reduzia-se a veleidade pura, e, com algumas horas de
intervalo, todos os maus pensamentos se recolheram s suas alcovas. Se me
perguntardes por algum remorso de Sofia, no sei que vos diga. H uma escala de
ressentimento e de reprovao. No  s nas aes que a conscincia passa
gradualmente da novidade ao costume, e do temor  indiferena. Os simples
pecados de pensamento so sujeitos a essa mesma alterao, e o uso de cuidar nas
coisas afeioa tanto a elas,  que, afinal, o esprito no as estranha, nem as
repele. E nestes casos h sempre um refgio moral na iseno exterior, que ,
por outros termos mais explicativos, o corpo sem mcula.

CAPTULO CLXIV

Um s incidente afligiu
Sofia naquele dia puro e brilhante,  foi um encontro com Rubio. Tinha entrado
em uma livraria da Rua do Ouvidor para comprar um romance; enquanto esperava o
troco, viu entrar o amigo. Rapidamente voltou o rosto e percorreu com os olhos
os livros da prateleira,  uns livros de anatomia e de estatstica;  recebeu o
dinheiro, guardou-o, e, de cabea baixa, rpida como uma flecha, saiu  rua, e
enfiou para cima. O sangue s lhe sossegou, quando a Rua dos Ourives ficou para
trs.

Dias depois, indo a
entrar em casa de D. Fernanda, deu com ele no saguo. Cuidou que subisse, e
disps-se a subir tambm, ainda que receosa; mas Rubio descia, apertaram-se as
mos familiarmente, e despediram-se at  tarde.

 Ele vem aqui muitas
vezes? perguntou Sofia a D. Fernanda, depois de lhe contar o encontro do saguo.

 Esta  a quarta vez,
quarta ou quinta; mas s da segunda vez apareceu delirando. Das outras  como
viu agora, sossegado, e at conversador. H nele sempre alguma coisa que mostra
no estar completamente bem. No reparou nos olhos um pouco vagos?  isso; no
mais, conversa bem. Creia, D. Sofia; aquele homem pode sarar. Por que no faz
com que seu marido tome isto a peito?

 Cristiano tem projeto
de o mandar examinar e tratar; mas, deixe estar que eu o apresso.

 Pois sim. Ele parece
ser muito amigo da senhora e do Sr. Palha.

 Ter-lhe- dito alguma
inconvenincia no delrio, a meu respeito? pensou Sofia. Convir revelar-lhe a
verdade?

Concluiu que no; o
prprio mal do Rubio explicaria as inconvenincias. Prometeu que apressaria o
marido, e nessa mesma tarde exps o negcio ao Palha.  uma grande amolao,
redargiu este. E perguntou que negcio tinha D. Fernanda em tornar quele
negcio. Que o tratasse ela mesma! Era uma atrapalhao ter de cuidar do outro,
de o acompanhar, e, provavelmente, de recolher e gerir algum resto de dinheiro
que ainda houvesse, fazendo-se curador, como dissera o Dr. Tefilo. Um
aborrecimento de todos os diabos.

 J ando com grande
carga sobre mim, Sofia. E depois como h de ser? Havemos de traz-lo para casa?
Parece que no. Met-lo onde? Em alguma casa de sade... Sim, mas se no puderem
aceit-lo? No hei de mand-lo para a Praia Vermelha... E as responsabilidades?
Voc prometeu que me falaria?

 Prometi, e afirmei
que voc faria isto, respondeu Sofia sorrindo. Talvez no custe tanto como
parece.

Sofia insistiu ainda. A
compaixo de D. Fernanda tinha-a impressionado muito; achou-lhe um qu distinto
e nobre, e advertiu que se a outra, sem relaes estreitas nem antigas com
Rubio, assim se mostrava interessada, era de bom-tom no ser menos generosa.

CAPTULO CLXV

Tudo se fez
sossegadamente. Palha alugou uma casinha na Rua do Prncipe, cerca do mar, onde
meteu o nosso Rubio, alguns trastes, e o cachorro amigo. Rubio adotou a
mudana sem desgosto, e, desde que lhe tornou o delrio, com entusiasmo. Estava
nos seus paos de Saint-Cloud.

No sucedeu assim aos
amigos da casa, que receberam a notcia da mudana como um decreto de exlio.
Tudo na antiga habitao fazia parte deles: o jardim, a grade, os canteiros, os
degraus de pedra, a enseada. Traziam tudo de cor. Era entrar, pendurar o chapu,
e ir esperar na sala. Tinham perdido a noo da casa alheia e do obsquio
recebido. Depois, a vizinhana. Cada um daqueles amigos do Rubio estava afeito
a ver as pessoas do lugar, as caras da manh, e as da tarde, alguns chegavam a
cumpriment-las, como aos seus prprios vizinhos. Pacincia! iriam agora para
Babilnia, como os desterrados de Sio. Onde quer que estivesse o Eufrates,
achariam salgueiros em que pendurassem as harpas saudosas,  ou mais
propriamente, cabides em que pusessem os chapus. A diferena entre eles e os
profetas  que, ao cabo de uma semana, pegariam outra vez dos instrumentos, e os
tangeriam com a mesma graa e fora; cantariam os velhos hinos, to novos como
no primeiro dia, e Babel acabaria por ser a mesma Sio, perdida e resgatada.

 O nosso amigo precisa
de repouso por algum tempo, disse-lhes o Palha, em Botafogo, na vspera da
mudana. Ho de ter reparado que no anda bom; tem suas horas de esquecimento,
de transtorno, de confuso; vai tratar-se, por enquanto  preciso que descanse.
Arranjei-lhe uma casa pequena, mas pode ser que, ainda assim, passe para um
estabelecimento de sade.

Ouviram atnitos. Um
deles, o Pio, voltando a si mais depressa que os outros, respondeu que h mais
tempo se devia ter feito aquilo; mas, para faz-lo, era preciso ter influncia
decisiva no nimo de Rubio.

 Muitas vezes lhe
disse, por boas maneiras, que era indispensvel consultar um mdico, por me
parecer que tinha alguma coisa no estmago... Era um modo de desviar o sentido,
compreende? Mas ele respondia sempre que no tinha nada, digeria bem...  Mas
come menos, dizia-lhe eu; h dias em que no come quase nada; est mais magro,
um pouco amarelo..." Compreende que no podia dizer-lhe a verdade. Cheguei a
consultar um mdico, meu amigo; mas o nosso bom Rubio no o quis receber.

Os outros quatro iam
confirmando de cabea toda aquela inveno; era o mais que se lhes podia pedir e
tudo o que lhes consentia o atordoamento do golpe. Acabaram perguntando o nmero
da nova casa, para irem saber dele. Pobre amigo! Quando se arrancaram dali, e se
despediram uns dos outros, deu-se um fenmeno com que no contavam;  que eles
mesmos mal podiam separar-se. No que os ligasse amizade nem estima; o prprio
interesse os fazia antipticos. Mas o costume de se verem todos os dias, ao
almoo e ao jantar,   mesma mesa, como que os tinha fundido uns nos outros; a
necessidade os fez suportveis, o tempo os tornou mutuamente precisos. Em
resumo, eram os olhos de cada um que iam padecer com a ausncia das caras de
uso, do gesto, das suas, dos bigodes, da calva, dos sestros particulares, do
modo de comer, de falar e de estar dos companheiros. Era mais que separao, era
desarticulao.

CAPTULO CLXVI

Rubio notou que eles
no o acompanharam  casa nova, e mandou-os chamar; nenhum veio, e a ausncia
encheu de tristeza o nosso amigo,  durante as primeiras semanas. Era a famlia
que o abandonava. Rubio procurou recordar se lhes fizera algum mal, por obra ou
por palavra, e no achou nada.

CAPTULO CLXVII

 Conversei com o
homem; achei-lhe idias delirantes. Conquanto no seja alienista, acho que pode
ficar bom... Mas quer saber uma descoberta interessante?

 Cr que fique bom?
disse D. Fernanda, sem atender  pergunta do Dr. Falco.

Era deputado o Dr.
Falco, deputado e mdico, amigo da casa, varo sabedor, ctico e frio. D.
Fernanda tinha-lhe pedido o favor de examinar o Rubio, pouco depois que este se
transportou para a casa da Rua do Prncipe.

 Sim, creio que fique
bom, desde que seja regularmente tratado. Pode ser que a doena no tenha
antecedentes na famlia. Mande ver um especialista. Mas no quer saber a minha
interessante descoberta?

 Qual ?

 Talvez tenha parte na
molstia uma pessoa sua conhecida, respondeu ele sorrindo.

 Quem?

 D. Sofia.

 Como assim?

 Ele falou-me dela com
entusiasmo, disse-me que era a mais esplndida mulher do mundo, e que a nomeara
duquesa, por no poder nome-la imperatriz; mas que no brincassem com ele, que
era capaz de fazer como o tio, divorciar-se e casar com ela. Conclu que ter
tido paixo pela moa; e depois a intimidade, Sofia para aqui, Sofia para ali...
Desculpe-me, mas eu creio que os dois se amaram...

 Oh! no!

 D. Fernanda, creio
que se amaram. Que admira? Eu mal a conheo; a senhora parece que no a conhece
h muito tempo, nem viveu na intimidade dela. Pode ser que se tivessem amado, e
que alguma paixo violenta... Suponhamos que ela o mandasse pr fora de casa...
 verdade que tem a mania das grandezas; mas tudo se pode juntar...

D. Fernanda no olhava
para ele, vexada de lhe ouvir aquela suposio; evitava discuti-la pelo melindre
do assunto. Achava a suspeita sem fundamento, absurda, inverossmil; no
chegaria a crer naquele amor esprio, ainda que o ouvisse ao prprio Rubio. Um
desvairado, em suma. Quando o no fosse,  ainda provvel que lhe no desse f.
Sim, no lhe daria f. No podia crer que Sofia houvesse amado aquele homem, no
por ele, mas por ela, to correta e pura. Era impossvel. Quis defend-la; mas,
apesar da intimidade do Dr . Falco, recuou segunda vez do assunto, e repetiu a
pergunta de h pouco:

 Parece-lhe ento que
ele pode ficar bom?

 Pode, mas no basta o
meu exame. A senhora sabe que, nestas coisas,  melhor um especialista.

Pouco depois, saindo 
rua, Falco sorria da resistncia de D. Fernanda em aceitar a sua hiptese. "Com
certeza, houve alguma coisa, dizia ele consigo; boa cara, e, se no  um
petimetre,  apessoado, e tem fogo nos olhos. Com certeza..." E repetia algumas
frases de Rubio, evocava o gesto e a modulao terna da voz, e cada vez mais se
lhe ia agravando a suspeita. "Com certeza..." Era j impossvel que se no
tivessem amado; a oposio de D. Fernanda parecia-lhe ingnua,  se no era
antes um recurso para desconversar e no tocar na matria. Havia de ser
isso...

Neste ponto, sem
querer, o deputado estacou. Uma suspeita nova assaltara-lhe o esprito. Aps
alguns instantes rpidos, abanou a cabea voluntariamente, como a desmentir-se,
como a achar-se absurdo, e foi andando. Mas a suspeita era teimosa, e a que
ocupa deveras o interior do homem, no faz caso da cabea nem dos seus gestos.
"Quem sabe se D. Fernanda no suspirou tambm por ele? Essa dedicao no seria
um prolongamento de amor, etc.?" E assim foram nascendo perguntas, que achavam
no ntimo do Dr. Falco resposta afirmativa. Resistiu ainda, era amigo da casa,
tinha respeito a D. Fernanda, conhecia-a honesta; mas,  ia pensando,  bem
podia ser que um sentimento oculto, recatado,  quem sabe at se provocado pela
mesma paixo da outra...? H dessas tentaes. O contgio da lepra corrompe o
mais puro sangue; um triste bacilo destri o mais robusto organismo.

Pouco a pouco, as
veleidades de resistncia foram cedendo  noo da possibilidade, da
probabilidade e da certeza. Em verdade, tinha notcia de algumas obras de
caridade de D. Fernanda; mas aquele caso era novo. Essa dedicao especial a um
homem que no era familiar da casa, nem velho amigo, nem parente, aderente,
colega do marido, qualquer coisa que o fizesse partcipe da vida domstica,
pelas relaes, pelo sangue ou pelo costume, no era explicvel sem algum motivo
secreto. Amor, seguramente; curiosidade de mulher honesta, que pode descambar no
vcio e no remorso. Aquela teria recuado a tempo; ficou-lhe a simpatia
mrbida... E da, quem sabe?

CAPTULO CLXVIII

E da, quem sabe?
repetiu o Dr. Falco na manh seguinte. A noite no apagara a desconfiana do
homem. E da, quem sabe? Sim, no seria s simpatia mrbida. Sem conhecer
Shakespeare, ele emendou Hamlet: "H entre o cu e a terra, Horcio, muitas
coisas mais do que sonha a vossa v filantropia". Ali andou dedo de amor.
E no chasqueava nem lastimava nada. J disse que era ctico; mas, como era
tambm discreto, no transmitiu a ningum a sua concluso.

CAPTULO CLXIX

A volta de Carlos Maria
e da mulher interrompeu as preocupaes de D. Fernanda, relativamente a Rubio.
Esta foi a bordo receb-los, conduziu-os  Tijuca onde um velho amigo da famlia
de Carlos Maria alugara e trastejara uma casa, por ordem dele. Sofia no foi a
bordo; mandou o coup esper-los no Cais Pharoux, mas D. Fernanda j ali
tinha uma calea, que os levou, e mais a ela e ao Palha. De tarde, Sofia foi
visitar os recm-chegados.

D. Fernanda no cabia
em si de contente. As cartas de Maria Benedita os davam por felizes; ela no
pde ler desde logo nos olhos e nas maneiras do casal a confirmao do escrito.
Pareciam satisfeitos. Maria Benedita no reteve as lgrimas, quando abraou a
amiga, nem esta as suas, e ambas se apertaram como duas irms de sangue. No dia
seguinte, D. Fernanda perguntou a Maria Benedita se ela e o marido eram felizes,
e, sabendo que sim, pegou-lhe nas mos e fitou-a longamente sem achar palavra.
No logrou mais que repetir a pergunta:

 Vocs so felizes?

 Somos, respondia
Maria Benedita.

 No sabe que bem me
faz a sua resposta. No  s porque eu teria remorsos, se vocs no tivessem a
felicidade que eu imaginei dar-lhes, mas tambm porque  bem bom ver os outros
felizes. Ele gosta de voc como no primeiro dia?

 Creio que mais,
porque eu o adoro!

D. Fernanda no
entendeu esta palavra. Creio que mais, porque eu o adoro! Em verdade, a
concluso no parecia estar nas premissas; mas era o caso de emendar outra vez
Hamlet: "H entre o cu e a terra, Horcio, muitas coisas mais do que sonha a
vossa v dialtica. Maria Benedita comeou a contar-lhe a viagem, a
desfiar as suas impresses e reminiscncias; e, como o marido viesse ter com
elas, pouco depois, recorria  memria dele para preencher as lacunas.

 Como foi, Carlos
Maria?

Carlos Maria lembrava,
explicava, ou retificava, mas sem interesse, quase impaciente. Adivinhara que
Maria Benedita acabava de confiar  outra as suas venturas, e mal podia encobrir
o efeito desagradvel que isto lhe trazia. Para que dizer que era feliz com ele,
se no podia ser outra coisa? E por que divulgar os seus carinhos e palavras, as
suas misericrdias de deus grande e amigo?

A volta ao Rio de
Janeiro foi uma condescendncia sua. Maria Benedita queria ter aqui o filho; o
marido cedeu,  a custo, mas cedeu. A custo, por qu?  difcil explic-lo, no
menos que entend-lo. Relativamente  maternidade, Carlos Maria tinha idias
pessoais e singulares, recnditas, no confiadas a ningum. Achava impudica a
natureza em fazer da gestao humana um fenmeno pblico, franco s vistas,
crescente at ao aleijo, sugestivo at ao desrespeito. Da vinha o desejo da
solido, do mistrio e da ausncia. Viveria de boa mente os ltimos tempos no
interior de uma casa nica, posta no alto de um morro, vedada ao mundo, donde a
mulher baixasse um dia com o filho nos braos e a divindade nos olhos.

No fez sobre isto
nenhuma proposta  mulher. Teria de discutir, e ele no gostava de discutir;
preferia ceder. Maria Benedita tinha naturalmente o sentimento contrrio:
considerava-se a si mesma um templo divino e recatado, em que vivia um deus,
filho de outro deus. A gestao ia cheia de tdios, de dores, de incmodos que
ela ocultava o mais que podia ao marido; mas tudo isso dava maior preo 
criaturinha futura. Acolhia o mal com resignao,  se no  que o agasalhava
com alegria,  uma vez que era a condio da vinda do fruto. Fazia cordialmente
o ofcio da espcie. E repetia sem palavras a resposta de Maria de Nazar: "Eu
sou a serva do Senhor: faa-se em mim a sua vontade".

CAPTULO CLXX

 Voc que tem?
perguntou Maria Benedita ao marido, logo que ficaram ss.

 Eu? Nada. Por qu?

 Parecia estar
aborrecido.

 No, no estava
aborrecido.

 Estava, sim, insistiu
ela.

Carlos Maria sorriu,
sem responder. Maria Benedita j lhe conhecia esse sorriso especial,
inexpressivo, sem ternura nem censura, superficial e plido. No teimou em
querer saber, mordeu os beios e retirou-se.

No quarto, durante
algum tempo, no cuidou de outra coisa que no fosse aquele sorriso descorado e
mudo, sinal de algum aborrecimento, cuja culpa no podia ser seno ela. E
percorria toda a conversao, todos os gestos que fizera, e no achava nada que
explicasse a frieza, ou o que quer que era de Carlos Maria. Talvez ela se
mostrasse excessiva nas palavras; era seu costume, se estava contente, pr o
corao nas mos e distribu-lo a amigos e estranhos. Carlos Maria reprovava
essa generosidade, porque dava um ar de sorte grande ao seu estado moral e
domstico, e porque lhe parecia banal e inferior. Maria Benedita recordava-se
que, em Paris, na colnia brasileira, sentira mais de uma vez esse efeito de
suas expanses, e reprimira-se. Mas D. Fernanda estaria no mesmo caso? No era a
autora da felicidade de ambos? Rejeitou essa hiptese, e tratou de ver outra.
No a achando,  voltou  primeira, e, segundo lhe sucedia sempre, deu razo ao
marido. Em verdade, por mais ntima e grata que fosse, no devia contar  boa
amiga as mincias da vida; era leviandade sua...

Nuseas vieram
interromp-la neste ponto das reflexes. A natureza lembrava-lhe uma razo de
Estado,  a razo da espcie,  mais instante e superior aos tdios do marido.
Ela cedeu  necessidade; mas, poucos minutos depois, estava ao p de Carlos
Maria, contornando-lhe o pescoo com o brao direito. Ele, sentado, lia uma
revista inglesa; pegou-lhe na mo, pendente sobre o peito, e acabou a pgina.

 Voc me perdoa?
perguntou a mulher, quando o viu fechar o folheto. Daqui em diante vou ser menos
tagarela.

Carlos Maria pegou-lhe
nas duas mos, sorrindo, e respondeu com a cabea que sim. Foi como se lanasse
uma onda de luz sobre ela; a alegria penetrou-lhe a alma. Dir-se-ia que o
prprio feto repercutiu a sensao e abenoou o pai.

CAPTULO CLXXI

 Perfeitamente! Assim
 que eu os quero ver! bradou uma voz do lado da varanda.

Maria Benedita
afastou-se rapidamente do marido. A varanda, que comunicava para a sala, por
trs portas, tinha uma destas aberta. Dali viera a voz; dali espiava e ria a
cabea de Rubio. Era a primeira vez que o viam. Carlos Maria, sem se levantar,
olhava para ele, srio, esperando. E a cabea ria, com os seus fartos bigodes de
ponta de agulha, mirando um e outro, e repetindo:

 Perfeitamente! Assim
 que eu os quero ver!

Rubio entrou,
estendeu-lhes a mo, que eles receberam sem carinho, disse muitas frases de
admirao e louvor a Maria Benedita, ela to galante, ele to galhardo; notou
que ambos tivessem o nome de Maria, espcie de predestinao, e acabou
noticiando a queda do Ministrio.

 Caiu o Ministrio?
perguntou involuntariamente Carlos Maria.

 No se fala em outra
coisa na cidade. Vou abancar-me, sem pedir licena, j que no me oferecem
cadeira, continuou ele, sentando-se, tirando a bengala que trazia debaixo do
brao e firmando as mos sobre ela. Pois  verdade, o Ministrio pediu demisso.
Vou organizar outro. H de entrar o Palha, o nosso Palha,  seu primo Palha, e o
senhor tambm, se lhe d gosto, ser ministro. Preciso de um bom gabinete, todo
gente amiga e forte, capaz de dar a vida por mim. Hei de chamar o Morny, o Pio,
o Camacho, o Rouher, o Major Siqueira. A senhora lembra-se do major? Creio que
fica com a guerra; no conheo homem mais apto para os negcios militares.

Maria Benedita,
aborrecida e impaciente, andava pela sala,  espera que o marido mandasse alguma
coisa; este disse-lhe com os olhos que se fosse embora; ela no aguardou outro
gesto, pediu licena ao hspede e retirou-se. Rubio, depois que ela saiu,
elogiou-a novamente,  uma flor, disse ele; e emendou-se rindo: duas flores,
creio que h ali duas flores. Nosso Senhor as abenoe! Carlos Maria estendeu-lhe
a mo em ar de despedida.

 Meu caro senhor...

 Posso inclu-lo no
Ministrio? perguntou Rubio.

No ouvindo resposta,
entendeu que sim, e prometeu-lhe uma boa pasta. O major iria para a guerra, e o
Camacho para a justia. No os conhecia acaso? "Dois grandes homens, Camacho
ainda maior que o outro". E obedecendo a Carlos Maria, que ia andando na direo
da porta, Rubio retirava-se sem se sentir; mas no foi to pronto. Na varanda,
antes de descer os degraus, referiu vrios fatos da guerra. Por exemplo, tinha
restitudo a Alemanha aos alemes; era bonito e poltico. J havia dado Veneza
aos italianos. No precisava mais territrio; as provncias do Reno, sim, mas
havia tempo de as ir buscar.

 Meu caro senhor...
insistiu Carlos Maria estendendo-lhe a mo.

Despediu-o e fechou a
porta; Rubio proferiu ainda algumas palavras e desceu os degraus. Maria
Benedita, que os espreitava do fundo, veio ter com o marido, reteve-o pela mo,
e ficou a ver o Rubio que atravessava o jardim. No ia direito, nem apressado,
nem calado; detinha-se, gesticulava, apanhava um galho seco, vendo mil coisas no
ar, mais galantes que a dona da casa, mais galhardas que o dono. Da vidraa
miravam o nosso amigo, e, em certo lance grotesco, Maria Benedita no pde
suster o riso; Carlos Maria, porm, olhava plcido.

CAPTULO CLXXII

 Mas se a queda do
Ministrio  verdadeira, disse ela, sabe voc quem est ministro?

 Quem? perguntou
Carlos Maria com os olhos.

 Seu primo Tefilo.
Nan contou-me que ele andava com suas esperanas, e foi por isso que ficou este
ano na Corte. Desconfiou, ou j se falava na sada do Ministrio; talvez
desconfiasse. No me lembra bem o que ela me disse; mas parece que entra.

 Pode ser.

 Olha, l vai Rubio;
parou, est olhando para cima, espera talvez a diligncia ou o carro. Ele tinha
carro. L vai andando...

CAPTULO CLXXIII

 Com qu, o Tefilo
est ministro! exclamou Carlos Maria.

E, depois de um
instante:

 Creio que dar um bom
ministro. Voc queria ver-me tambm ministro?

 Se voc gostasse, que
remdio?

 De maneira que, por
teu voto, no o era? perguntou Carlos Maria.

 Que hei de responder?
pensou ela, escrutando o rosto do marido.

Ele, rindo:

 Confessa que me
adorarias, ainda que eu fosse uma simples ordenana de ministro.

 Justamente! exclamou
a moa, lanando-lhe os braos aos ombros.

Carlos Maria afagou-lhe
os cabelos, e murmurou srio:  Bernadotte foi rei, e Bonaparte imperador. Voc
queria ser a rainha-me da Sucia?

Maria Benedita no
entendeu a pergunta nem ele a explicou. Para explic-la seria mister dizer que
possivelmente trazia ela no seio um Bernadotte; mas esta suposio significava
um desejo, e o desejo uma confisso de inferioridade. Carlos Maria espalmou
outra vez as mos sobre a cabea da mulher, com um gesto que parecia dizer:
Maria, tu escolheste a melhor parte..." E ela pareceu entender o sentido
daquele gesto.

 Sim! sim!

O marido sorriu e
tornou  revista inglesa. Ela, encostada  poltrona, passava-lhe os dedos pelos
cabelos, muito ao de leve e caladinha para no perturb-lo. Ele ia lendo, lendo,
lendo. Maria Benedita foi atenuando a carcia, retirando os dedos aos poucos,
at que saiu da sala, onde Carlos Maria continuou a ler um estudo de Sir Charles
Little, M.P., sobre a famosa estatueta de Narciso, do Museu de Npoles.

CAPTULO CLXXIV

Quando Rubio foi 
casa de D. Fernanda,  tardinha, ouviu do criado que no podia subir. A senhora
estava incomodada; o senhor estava com ela; parece que esperavam o mdico. O
nosso amigo no teimou, e retirou-se.

Era o contrrio; era o
senhor que estava doente, e a senhora que o acompanhava; mas o criado no podia
trocar o recado que lhe deram. Outro criado desconfiou,  certo, que o doente
fosse ele e no ela, porque o vira entrar abatido. Em cima, no quarto deles,
havia algum rumor de vozes, ora alto, ora baixo, com intervalos de silncio. Uma
criadinha, que subira p ante p, desceu dizendo que ouvira lastimar-se o amo;
provavelmente a senhora estava perdida. Embaixo, um palavrear surdo, ouvidos
compridos, conjeturas; notavam que de cima no pedissem gua, qualquer remdio,
um caldo, ao menos. A mesa posta, o criado engravatado, o cozinheiro orgulhoso e
ansioso... Justamente, um dos melhores jantares!

Que era? Tefilo tinha
ainda o gesto abatido com que entrou; estava sentado em um canap, sem colete,
olhos fixos. Ao p dele, sentada tambm, segurando-lhe uma das mos, D. Fernanda
pedia-lhe que sossegasse, que no valia a pena. E inclinava-se para ver-lhe o
rosto, chamava-o para si, queria que ele encostasse a cabea ao ombro dela...

 Deixa, deixa,
murmurava o marido.

 No vale a pena,
Tefilo! Pois agora um Ministrio...? Valer tanto um cargo de pouco tempo,
cheio de desgostos, insultos, trabalhos, para qu? No  melhor a vida
tranqila? V que haja injustia; creio que sim, voc tem servios; mas ser
tamanha perda assim? Anda, querido, sossega; vamos jantar.

Tefilo mordia os
beios, puxando uma das suas. No ouvira nada do que a mulher dissera, nem
exortaes nem consolaes. Ouvira as conversas da noite anterior e daquela
manh, as combinaes polticas, os nomes lembrados, os recusados e os aceitos.
Nenhuma combinao o incluiu, posto que ele falasse com muita gente acerca do
verdadeiro aspecto da situao. Era ouvido com ateno por uns, com impacincia
por outros. Uma vez, os culos do organizador pareceram interrog-lo; mas foi
rpido o gesto e ilusrio. Tefilo recompunha agora a agitao de tantas horas e
lugares,  lembrava os que o olhavam de esguelha, os que sorriam, os que traziam
a mesma cara que ele. Para o fim j no falava; as ltimas esperanas
estalavam-lhe nos olhos como lamparina de madrugada. Ouvira os nomes dos
ministros, fora obrigado a ach-los bons; mas que fora no lhe era precisa para
articular alguma palavra! Receava que lhe descobrissem o abatimento ou despeito,
e todos os seus esforos concluam por acentu-los ainda mais. Empalidecia,
tremiam-lhe os dedos.

CAPTULO CLXXV

 Anda, vamos jantar,
repetiu D. Fernanda.

Tefilo deu um golpe no
joelho, com a mo aberta, e levantou-se, dizendo palavras soltas e raivosas,
andando de um lado para outro, batendo o p, ameaando. D. Fernanda no pde
vencer a violncia daquele novo acesso, esperou que fosse curto, e foi curto;
Tefilo chegou-se a uma poltrona, sacudiu a cabea e caiu outra vez prostrado.
D. Fernanda pegou de uma cadeira e sentou-se ao p dele.

 Tens razo, Tefilo;
mas  preciso ser homem. s moo e forte, tens ainda futuro, e talvez grande
futuro. Quem sabe se, entrando agora no Ministrio, no perderias mais tarde?
Entrars em outro. s vezes, o que parece desgraa  felicidade.

Tefilo apertou-lhe a
mo agradecido.

  perfdia, 
intriga, murmurava ele, olhando para ela; eu conheo toda essa canalha. Se eu
contasse a voc tudo, tudo... Mas para qu? Prefiro esquecer... No  por causa
de uma miservel pasta que estou aborrecido, continuou ele depois de alguns
instantes. Pastas no valem nada. Quem sabe trabalhar e tem talento pode zombar
das pastas, e mostrar que  superior a elas. A maior parte dessa gente, Nana,
no me chega aos calcanhares. Disso estou certo e eles tambm. Scia de
intrigantes! Onde acharo mais sinceridade, mais fidelidade, mais ardor para a
luta? Quem trabalhou mais na imprensa, no tempo do ostracismo? Desculpam-se;
dizem que os gabinetes j vm organizados de So Cristvo... Ah! eu quisera
falar ao imperador!

 Tefilo!

 Eu diria ao
imperador: "Senhor, Vossa Majestade no sabe o que  essa poltica de
corredores, esses arranjos de camarilha. Vossa Majestade quer que os melhores
trabalhem nos seus conselhos, mas os medocres  que se arranjam... O
merecimento fica para o lado."  o que lhe hei de dizer um dia; pode ser at que
amanh...

Calou-se. Depois de
longa pausa, ergueu-se e foi ao gabinete de trabalho, que ficava ao p do
quarto; a mulher acompanhou-o. Era j escuro, acendeu o bico de gs, e circulou
pelo gabinete os olhos velados de melancolia. Havia ali quatro largas estantes
cheias de livros, de relatrios, de oramentos, de balanos do Tesouro. A
secretria estava em ordem. Trs armrios altos, sem portas, guardavam os
manuscritos, notas, lembranas, clculos, apontamentos, tudo empilhado e
rotulado metodicamente:  crditos extraordinrios,  crditos
suplementares,  crditos de guerra,  crditos de marinha, 
emprstimo de 1868,  estradas de ferro,  dvida interna,
 exerccio de 61  62, de 62  63, de 63 
64, etc. Era ali que trabalhava de manh e de noite, somando, calculando,
recolhendo os elementos dos seus discursos e pareceres, porque era membro de
trs comisses parlamentares, e trabalhava geralmente por si e pelos seis
colegas: estes ouviam e assinavam. Um deles, quando os pareceres eram extensos,
assinava-os sem ouvir.

 Homem, voc  mestre
e basta, dizia-lhe, d c a pena.

Tudo ali respirava
ateno, cuidado, trabalho assduo, meticuloso e til. Da parede, em ganchos,
pendiam os jornais da semana, que eram depois tirados, guardados e finalmente
encadernados semestralmente, para consultas. Os discursos do deputado, impressos
e brochados em 4. enfileiravam-se em uma estante. Nenhum quadro ou busto,
adereo, nada para recrear, nada para admirar; tudo seco, exato, administrativo.

 De que vale tudo
isto? perguntou Tefilo  mulher, aps alguns instantes de contemplao triste.
Horas cansadas, longas horas da noite at madrugada, s vezes... No se dir que
este gabinete  de homem vadio; aqui trabalha-se. Voc  testemunha que eu
trabalho. Tudo para qu?

 Consola-te
trabalhando, murmurou ela.

Ele, acerbo:

 Ruim consolao! No,
no, acabo com isto, passo a ignorar tudo. Olha, na Cmara, todos me consultam,
at os ministros  porque sabem que eu aplico-me deveras s coisas da
administrao. Que prmio? Vir para c, em maio, aplaudir os novos
senhores?

 Pois no aplaudas
nada, disse-lhe mansamente a mulher. Queres fazer-me um obsquio? Vamos 
Europa, em maro ou abril, e voltemos daqui a um ano. Pede licena  Cmara,
donde quer que estejamos,  de Varsvia, por exemplo; tenho muita vontade de ir
a Varsvia, continuou sorrindo e fechando-lhe graciosamente a cara entre as
mos. Diga que sim; responda que  para eu escrever hoje mesmo para o Rio
Grande, o vapor sai amanh. Est dito; vamos a Varsvia?

 No brinques, Nan,
que isto no  objeto de brincadeira.

 Falo seriamente. J
h muito tempo que ando para propor a voc uma viagem, a ver se descansa desta
papelada infernal.  demais, Tefilo! Voc mal se pode arranjar para uma visita.
Passeio,  raro. Quase no conversa. Os nossos filhos apenas vem seu pai,
porque aqui no se entra quando voc trabalha...  preciso descansar; peo-lhe
um ano de repouso. Olhe que  srio. Vamos para a Europa em maro.

 No pode ser,
balbuciou ele.

 Por que no?

No podia ser. Era
convid-lo a sair da prpria pele. Poltica valia tudo. Que tambm houvesse
poltica l fora, sim; mas que tinha ele com ela? Tefilo no sabia nada do que
ia por fora, exceto a nossa dvida em Londres, e meia dzia de economistas.
Contudo, agradeceu  mulher a inteno da proposta:

 Tu s boa.

E um sentimento vago de
esperana restitua  voz do deputado a brandura que perdera naquela grande
crise moral. Os papis sopravam-lhe nimo. Toda aquela massa de estudos
aparecia-lhe como a terra adubada e semeada aos olhos do lavrador. No tardaria
a grelar; o trabalho teria a recompensa; um dia, mais tarde ou mais cedo, o
grelo brotaria e a rvore daria frutos. Era justamente o que a mulher havia dito
por outras palavras diretas e prprias; mas s agora  que ele via a
possibilidade da colheita. Lembrou-se das exploses de clera, de indignao, de
desespero, das queixas de h pouco, ficou vexado. Quis rir, f-lo mal. Ao jantar
e ao caf entreteve-se com os filhos, que naquela noite recolheram-se mais
tarde. Nuno, que j andava no colgio, onde ouvira falar da mudana de gabinete,
disse ao pai que queria ser ministro. Tefilo ficou srio.

 Meu filho, disse ele,
escolhe outra coisa, menos ministro.

 Diz que  bonito,
papai; diz que anda de carro com soldado atrs.

 Pois eu te dou um
carro.

 Papai j foi
ministro?

Tefilo tentou sorrir e
olhou para a mulher, que aproveitou a ocasio para mandar deitar os filhos.

 J, j fui ministro,
respondeu o pai beijando a testa ao Nuno; mas no quero mais,  muito feio, d
trabalho. Tu hs de ser capelo.

 Que  capelo?

 Capelo  cama,
respondeu D. Fernanda; vai dormir, Nuno.

CAPTULO CLXXVI

Ao almoo, no dia
seguinte, Tefilo recebeu uma carta por uma ordenana.

 Ordenana?

 Sim, senhor, diz que
vem da parte do Sr. presidente do conselho.

Tefilo abriu a carta,
com a mo trmula. Que podia ser? Tinha lido nos jornais a relao dos novos
ministros; o gabinete estava completo. No havia divergncia de nomes. Que podia
ser? D. Fernanda, defronte do marido, procurava ler-lhe no rosto o texto da
carta. Via uma claridade; percebeu que a boca sofreava um sorriso de satisfao,
 de esperana, ao menos.

 Diga que espere,
ordenou Tefilo ao criado.

Foi ao gabinete, e
tornou minutos depois com a resposta. Sentou-se  mesa, calado, dando tempo a
que o criado entregasse a carta  ordenana. Desta vez, como estava prevenido,
ouviu as patas do cavalo, e logo depois a galope, rua fora, e sentiu-se bem.

 L, disse
ele.

D. Fernanda leu a carta
do presidente do conselho; era um pedido para ir falar-lhe s duas horas da
tarde.

 Mas ento o
Ministrio...?

 Est completo, deu-se
pressa em dizer o deputado; os ministros esto nomeados.

No acreditava de todo
o que dizia. Imaginava alguma vaga da ltima hora, e a necessidade urgente de a
preencher.

 H de ser alguma
conferncia poltica, ou talvez queira conversar sobre o oramento,  ou
incumbir-me algum estudo.

Dizendo isto, para
iludir a mulher, sentiu a probabilidade das hipteses, e outra vez se abateu;
mas, trs minutos depois, as borboletas da esperana volteavam diante dele, no
duas, nem quatro, mas um turbilho, que cegava o ar.

CAPTULO CLXXVII

D. Fernanda esperou,
cheia de nsias, como se o Ministrio fosse para ela, e lhe viesse dar qualquer
gosto, que no fosse amargo e complicado. Uma vez, porm, que satisfizesse o
marido, tudo iria pelo melhor. Tefilo tornou s cinco horas e meia. Pelo
aspecto reconheceu que vinha satisfeito. Correu a apertar-lhe as mos.

 Que h?

 Pobre Nan! A vamos
com a trouxa s costas. O marqus pediu-me instantemente que aceitasse uma
presidncia de primeira ordem. No podendo meter-me no gabinete, onde tinha
lugar marcado, desejava, queria e pedia que eu partilhasse a responsabilidade
poltica e administrativa do governo, assumindo uma presidncia. No podia, em
nenhum caso, dispensar o meu prestgio (so palavras dele), e espera que na
Cmara assuma o lugar de chefe da maioria. Que dizes?

 Que arranjemos a
trouxa, respondeu D. Fernanda.

 Achas que podia
recusar?

 No.

 No podia. Voc sabe,
no se podem negar servios destes a um governo amigo; ou ento deixa-se a
poltica. Tratou-me muito bem o marqus; eu j sabia que era homem superior; mas
que risonho e afvel! no imaginas. Quer tambm que comparea a uma reunio, os
ministros e alguns amigos, poucos, meia dzia. Confiou-me j o programa do
gabinete, em reserva...

 Quando samos?

 No sei; hei de estar
com ele amanh,  noite. A reunio  amanh s oito horas... Mas no te parece
que fiz bem, aceitando?

 Decerto.

 Sim; se recusasse
censurar-me-iam, e com razo. Em poltica, a primeira coisa que se perde  a
liberdade. Agora voc  que se quisesse, podia ficar; daqui a cinco meses,  ou
quatro,  abrem-se as Cmaras; mal terei tempo de chegar e olhar.

CAPTULO CLXXVIII

D. Fernanda anuiu 
proposta; no interrompia a educao do filho; era uma separao de quatro
meses. Tefilo partiu da a dias. Na manh do dia do embarque, logo cedo, foi
despedir-se do gabinete de trabalho. Deitou os ltimos olhos aos livros,
relatrios, oramentos, manuscritos, a toda essa parte da famlia, que s tinha
lngua e interesse para ele. Havia atado os papis e os folhetos para que se no
extraviassem, e fez  mulher grandes recomendaes. Parado no centro, circulou a
vista pelas estantes, e dispersou a alma por todas elas. Despedia-se assim dos
seus santos e amigos, com verdadeiras saudades. D. Fernanda, que estava ao p
dele, no viveu ali mais que os dez minutos da despedida. Tefilo viveu muitos
anos.

 Deixa estar, eu
cuidarei deles, eu mesma os espanarei todos os dias.

Tefilo deu-lhe um
beijo... Outra mulher receb-lo-ia triste, por ver que ele amava tanto os livros
que parecia am-los mais que a ela. Mas D. Fernanda sentiu-se venturosa.

CAPTULO CLXXIX

Rubio, desde o dia da
crise ministerial, no tornou  casa de D. Fernanda; nada soube, nem da
presidncia, nem do embarque de Tefilo. Vivia entre o co e um criado, sem
grandes crises, nem longos repousos. O criado fazia o servio irregularmente,
comia gratificaes, e recebia, amide, o ttulo de marqus. Ao demais,
divertia-se. Quando lhe dava ao amo para conversar com as paredes, o criado
corria a espi-lo; assistia ao dilogo, porque o Rubio incumbia-se das palavras
delas, respondendo como se houvessem feito alguma pergunta. De noite, ia 
palestra com os amigos da vizinhana.

 Como vai o gira?

 O gira vai bem. Hoje
convidou o cachorro para cantar; o cachorro ladrou muito, e ele gostou que se
pelou, mas assim um gosto de figuro. Ele, quando est de pancada, parece que 
como quem governa o mundo. Ainda ontem, almoando, disse para mim: "Marqus
Raimundo... quero que tu..." e embrulhou o resto, que no entendi nada. No fim
deu-me dez tostes.

 Voc guardou logo...

 Ora!

Quando Rubio voltava
do delrio, toda aquela fantasmagoria palavrosa tornava-se, por instantes, uma
tristeza calada. A conscincia, onde ficavam rastos do estado anterior,
forcejava por despeg-los de si. Era como a ascenso dolorosa que um homem
fizesse do abismo, trepando pelas paredes, arrancando a pele, deixando as unhas,
para chegar acima, para no tombar outra vez e perder-se. Ia ento  vista dos
amigos, uns novos, outros velhos, como a gente do major e a do Camacho, por
exemplo.

Este, desde algum
tempo, era menos conversado. A mesma poltica no lhe dava matria aos discursos
de outrora. No escritrio, quando via Rubio assomar  porta, fazia um gesto de
impacincia, que sofreava logo; o outro notava essa mudana, e perdia-se em
conjeturas, se lhe escapara alguma ofensa, por descuido,  ou se comeava a
aborrec-lo. E para desfazer o tdio ou o ressentimento, falava macio, risonho,
abrindo longas pausas respeitosas,  espera que ele dissesse qualquer coisa. Em
vo apelava para o Marqus de Paran, cujo retrato continuava a pender da
parede; repetia os nomes que lhe ouvira,  o grande marqus! o estadista
consumado! Camacho ia apoiando de cabea, e escrevendo sem parar, consultando os
autos e os praxistas, Lobo, Coelho da Rocha, citando, riscando, pedindo-lhe
desculpa. Tinha um libelo que dar naquele dia. Interrompia-se para ir  estante.

 Com licena...

Rubio arredava as
pernas para deix-lo passar; ele tirava um volume das Ordenaes do
Reino, e folheava, folheava, pulando adiante, voltando atrs,  toa, sem
buscar nada, unicamente para o fim de despedir o importuno; mas o importuno ia
ficando, por isso mesmo, e entreolhavam-se disfarados. Camacho tornava ao
libelo. Para ler, sentado, inclinava-se muito  esquerda, donde lhe vinha a luz,
dando as costas ao Rubio.

 Aqui  escuro,
aventurou Rubio um dia.

E no ouviu resposta,
to atento parecia o advogado na leitura dos autos. Realmente, pode ser
importunao, pensou o nosso amigo. Espreitava-lhe o rosto duro e srio, o gesto
com que pegava da pena para continuar o interminvel libelo. Vinte minutos mais
de silncio absoluto. No fim desse prazo, Rubio viu-o deixar a pena, retesar o
busto, esticar os braos e passar as mos pelos olhos. Disse-lhe com
interesse:

 Cansado, no?

Camacho fez um gesto
afirmativo, e preparou-se para continuar; ento o nosso homem levantou-se e
aproveitou o intervalo para dizer adeus.

 Voltarei, quando
estiver menos atarefado.

Estendeu-lhe a mo;
Camacho segurou-lha ao de leve, e tornou ao papel. Rubio desceu a escada,
aturdido, magoado com a frieza do seu ilustre amigo. Que lhe teria feito?

CAPTULO CLXXX

Daquela vez, teve a
fortuna de encontrar o Major Siqueira.

 Ia agora mesmo  sua
casa, disse-lhe; vai para l?

 Vou; mas j no
estamos na mesma casa; mudamo-nos para os Cajueiros, Rua da Princesa...

 Seja onde for, vamos.

Rubio precisava de um
pedao de corda que o atasse  realidade, porque o esprito sentia-se outra vez
presa da vertigem. Entretanto, falou com tal acerto e propriedade, que o major o
achou em pleno juzo, e disse-lhe:

 Sabe que tenho uma
grande notcia que lhe dar?

 Vamos a ela.

 H de ser quando
chegarmos.

Chegaram. Era uma casa
assobradada; D. Tonica veio abrir-lhes a cancela. Trazia um vestido novo e
brincos.

 Olhe bem para ela,
disse o major pegando na filha pelo queixo.

D. Tonica recuou
envergonhada.

 Estou olhando,
respondeu Rubio.

 No se v logo que 
uma pessoa que vai casar?

 Ah! parabns!

  verdade, vai casar.
Custou, mas acertou. Achou por a um noivo, que a adora, como todos eles; eu,
quando fui novo, adorei a minha defunta, que foi uma coisa nunca vista... Vai
casar. Arranjou um noivo. Custou, mas acertou. Pessoa sria, meia-idade; vem
aqui passar as noites. De manh, quando passa para a repartio, creio que bate
na janela, ou ela j o espera; eu finjo que no percebo...

D. Tonica dizia com a
cabea que no, mas sorrindo de modo que parecia dizer que sim. Estava to
buliosa! Nem se lembrava j que requestara o Rubio, que este fora uma das
ltimas, e por fim a ltima das suas esperanas. Tinham entrado na sala; D.
Tonica foi  janela, voltou, cabea alta, andando  toa, reconciliada com a
vida.

 Boa pessoa, repetiu o
major, boa criatura... Tonica, vai buscar o retrato... Anda, vai buscar o teu
noivo...

D. Tonica foi buscar o
retrato. Era uma fotografia; representava um homem de meia-idade, cabelo curto,
raro, olhando espantado para a gente, cara chupada, pescoo fino e palet
abotoado.

 Que lhe parece?

 Muito bem.

D. Tonica recebeu o
retrato e fitou-o alguns instantes; mas, tirou logo os olhos, e deixou-se estar
sentada, enquanto a imaginao saiu a esperar o Rodrigues. Chamava-se Rodrigues.
Era mais baixo que ela,  coisa que o retrato no dava,  e empregado em uma
repartio do Ministrio da Guerra. Vivo, com dois filhos, um que estava no
batalho dos menores, outro que era tuberculoso,  doze anos,  condenado 
morte. Que importa? Era o noivo; todas as noites, ao recolher-se, D. Tonica
ajoelhava-se ante a imagem de Nossa Senhora, sua madrinha, agradecia-lhe o favor
e pedia-lhe que a fizesse feliz. Sonhava j com um filho; havia de chamar-lhe
lvaro.

CAPTULO CLXXXI

Rubio escutou calado
um discurso do major. O casamento era dali a ms e meio; o noivo tinha que
perfazer os arranjos da casa, no era capitalista, vivia do ordenado e recorrera
a emprstimos. A casa era a mesma e no exigia trastes novos nem ricos; mas, h
sempre algumas necessidades... Em suma, dali a ms e meio, ou pelo menos, cinco
semanas, estariam unidos pelos santos laos do matrimnio.

 E fico eu livre do
trambolho, concluiu o major.

 Oh! protestou Rubio.

A filha ria-se; estava
acostumada s graas do pai, e to disposta  alegria que nada a vexava; ainda
mesmo que o pai se referisse aos seus quarenta anos passados no lhe daria
grande golpe. Todas as noivas tm quinze anos.

 Ver como ele h de
procur-la depois, com saudades, disse Rubio a D. Tonica.

 Qual! Talvez eu me
case tambm!

Rubio levantou-se
repentino, e deu alguns passos; o major no viu a expresso do rosto, no
percebeu que o esprito do homem ia talvez descarrilhar, e que ele mesmo o
pressentia. Disse-lhe que se sentasse, e contou-lhe os seus tempos de casado e
de campanha. Quando chegou  narrao da batalha de Monte-Caseros, com as
marchas e contramarchas prprias do seu discurso, tinha diante de si Napoleo
III. Calado a princpio, Rubio proferiu algumas palavras de aplauso, citou
Solferino e Magenta, prometeu ao Siqueira uma condecorao. Pai e filha
entreolharam-se; o major disse que vinha muita chuva. Com efeito, escurecera um
pouco. Era melhor que Rubio fosse, antes de cair gua; no trouxera
guarda-chuva, o dele era velho e nico...

 A vem o meu coche,
redargiu Rubio tranqilamente.

 No vem, foi
esper-lo no Campo. No vs da o coche, Tonica?

D. Tonica fez um gesto
vago e sem vontade. No queria mentir, mas tinha medo, e desejava que Rubio
sasse. Da casa era impossvel ver o Campo da Aclamao. J ento o pai pegava
no Rubio pelo brao e o encaminhava para a porta.

 Volte amanh, depois,
quando quiser.

 Mas por que no hei
de esperar aqui at que venha o coche? perguntou Rubio. A imperatriz no pode
apanhar chuva...

 A imperatriz j foi.

 Fez mal. Eugnia fez
muito mal. General... Para que h de o senhor ficar sempre em major? General, vi
o retrato do seu genro; quero dar-lhe o meu. Mande s Tulherias. Onde est o
coche?

 Est no Campo,
esperando.

 Mande cham-lo.

D. Tonica, que estava 
janela, disse para dentro:

 L vem Rodrigues.

E tornou a olhar para a
rua, inclinando-se, sorrindo, enquanto na sala o pai continuava a guiar o Rubio
para a porta, sem violncia, mas tenaz. Este parava, repreendia:

 General, sou seu
imperador!

 Decerto, mas
acompanhe-me Vossa Majestade...

Tinham chegado  porta;
o major abriu a cancela, justamente quando o Rodrigues punha o p na soleira. D.
Tonica entrou para receber o noivo, mas a porta estava atravancada com o pai e
Rubio. Rodrigues tirou o chapu, mostrando o cabelo, spero e grisalho; tinha
nas faces chupadas umas pintinhas de sarda, mas o riso era bom e humilde,  mais
humilde ainda que bom,  e, no obstante a trivialidade do gesto e da pessoa,
era agradvel. Os olhos no mostravam o espanto da fotografia; este efeito
provinha da nfase que ele ps em todo o corpo, a fim de que o retrato
sasse bonito.

 Este senhor  o meu
futuro genro, disse o major a Rubio. No  verdade que viu no Campo um coche e
um esquadro de cavalaria? perguntou ao Rodrigues, piscando um olho.

 Parece que sim,
senhor.

 Pois ento? continuou
Siqueira, voltando-se para Rubio. V, v, dobre a Rua de So Loureno, e
caminhe direito para o Campo. Adeus, at amanh.

Rubio desceu trs
degraus,  eram cinco,  e parou diante do recm-chegado, fitou-o alguns
instantes e declarou que estimava muito conhec-lo, que fosse bom esposo e bom
genro. Como se chamava?

 Joo Jos Rodrigues.

 Rodrigues. Hei de
mandar-lhe uma fitinha aqui para a casaca.  o meu presente de npcias.
Lembre-me, Siqueira.

Siqueira pegou-lhe no
brao para faz-lo descer os dois ltimos degraus, e p-lo na rua.

 No Campo, dizes tu?

 No Campo.

 Adeus.

Da rua, ainda Rubio
olhou para as janelas, com os dedos no chapu, a fim de cumprimentar D. Tonica;
mas D. Tonica estava na sala, onde Rodrigues acabava de entrar, fresco e
delicioso, como a primeira rosa de vero.

CAPTULO CLXXXII

Rubio no cuidou mais
do coche nem do esquadro de cavalaria. Foi dar consigo abaixo, andou por vrias
ruas, at que subiu pela de So Jos. Desde o pao imperial, vinha gesticulando
e falando a algum que supunha trazer pelo brao, e era a imperatriz. Eugnia ou
Sofia? Ambas em uma s criatura,  ou antes a segunda com o nome da primeira.
Homens que iam passando, paravam; do interior das lojas corria gente s portas.
Uns riam-se, outros ficavam indiferentes; alguns, depois de verem o que era,
desviavam os olhos para poup-los  aflio que lhes dava o espetculo do
delrio. Uma turba de moleques acompanhava o Rubio, alguns to prximos, que
lhe ouviam as palavras. Crianas de toda a sorte vinham juntar-se ao grupo.
Quando eles viram a curiosidade geral, entenderam dar voz  multido, e comeou
a surriada:

  gira!  gira!

Esse vozear chamou a
ateno de outras pessoas, muitas janelas dos sobrados comearam a abrir-se,
apareceram curiosos de ambos os sexos e todas as idades, um fotgrafo, um
estofador, trs e quatro figuras juntas, cabeas por cima de outras, todas
inclinadas, espiando, acompanhando o homem, que falava  parede, com o seu gesto
cheio de grandeza e de obsquio.

  gira!  gira!
berravam os vadios.

Um deles, muito menor
que todos, apegava-se s calas de outro, taludo. Era j na Rua da Ajuda. Rubio
continuava a no ouvir nada; mas, de uma vez que ouviu, sups que eram
aclamaes, e fez uma cortesia de agradecimento. A surriada aumentava. No meio
do rumor, distinguiu-se a voz de uma mulher  porta de uma
colchoaria:

 Deolindo! vem para
casa, Deolindo!

Deolindo, a criana que
se agarrava s calas da outra mais velha, no obedeceu; pode ser que nem
ouvisse, tamanha era a grita, e tal a alegria do pequerrucho, clamando com a
vozinha mida:

  gira!  gira!

 Deolindo!

Deolindo tratou de
esconder-se entre os outros, para escapar s vistas da me que o chamava; esta,
porm, correu ao grupo, e arrancou-o de l. Em verdade, era pequeno demais para
andar em tumultos de rua.

 Mame, deixa eu
ver...

 Qual ver! anda!

Meteu-o em casa, e
ficou  porta, a olhar para a rua. Rubio estacara o passo; ela pde v-lo bem,
com os seus gestos e palavras, o peito alto, e uma barretada que deu em volta.

 Os malucos tm graa,
s vezes, disse ela sorrindo a uma vizinha.

Os rapazes continuavam
a bradar e a rir, e Rubio foi andando, com o mesmo coro atrs de si. Deolindo,
 porta da loja, vendo o grupo alongar-se, pedia chorosamente  me que o
deixasse ir tambm, ou ento que o levasse. Quando perdeu as esperanas,
enfeixou todas as energias em um s gritozinho esganiado:

  gira!

CAPTULO CLXXXIII

A vizinha riu-se. A me
riu-se tambm. Confessou que o filho era uma pestezinha, um endiabrado, que no
sossegava; no podia perd-lo de vista. Qualquer distrao, estava na rua. E
isto desde pequenino; tinha ainda dois anos, quando escapou de morrer embaixo de
um carro, ali mesmo; esteve por um fio. Se no fosse um homem que passava, um
senhor bem vestido, que acudiu depressa, at com perigo de vida, estaria morto e
bem morto. Nisto o marido, que vinha pela calada oposta, atravessou a rua, e
interrompeu a conversao. Trazia o cenho carregado, mal cumprimentou a vizinha,
e entrou; a mulher foi ter com ele. Que era? O marido contou a surriada.

 Passou por aqui,
disse ela.

 No conheceste o
homem?

 No.

O marido cruzou os
braos e ficou a olhar, fixo, calado. A mulher perguntou-lhe quem era.

  aquele homem que
nos salvou o Deolindo da morte.

A mulher estremeceu.

 Viste bem? perguntou.

 Perfeitamente. Se eu
j o tinha encontrado outras vezes, mas ento no estava assim. Coitado! E a
molecada berrava atrs dele. Qual! no h polcia nesta terra.

O que lhe doa  mulher
no era tanto o mal do homem, nem ainda a surriada; mas a parte que teve nesta o
filho,  a mesma criana que o homem salvara da morte. Realmente, como podia o
menino reconhec-lo, nem saber que lhe devia a vida? Doa-lhe o encontro, a
coincidncia. Afinal, contentou-se de pr todas as culpas em si. Se tivesse tido
mais cuidado, o pequeno no haveria sado, e no entraria na troa. Tremia de
quando em quando, e estava inquieta. O marido pegou na cabea do filho, e
deu-lhe dois beijos.

 Voc viu a cena toda?
perguntou  mulher.

 Vi.

 Eu ainda quis dar o
brao ao homem, e traz-lo para aqui; mas, tive vergonha; os moleques eram
capazes de dar-me uma vaia. Desviei o rosto, porque ele podia conhecer-me.
Coitado! Nota que no parecia ouvir nada, e seguia satisfeito, creio que at
ria... Que triste coisa que  perder o juzo!

A mulher pensava na
travessura do filho; no a referiu ao marido, pediu  vizinha que no aludisse a
ela, e, de noite, s pregou olho tarde. Metera-se-lhe em cabea que, anos
depois, o filho endoidecia, era castigado pela mesma troa, e que ela cuspia
para o cu, indignada, blasfemando.

CAPTULO CLXXXIV

Duas horas depois da
cena da Rua da Ajuda chegou Rubio  casa de D. Fernanda. Os vadios foram-se
dispersando, a pouco e pouco, e os claros no se preenchiam; os trs ltimos
juntaram os seus adeuses em um berro nico e formidvel. Rubio continuou
sozinho, mal percebido pelos moradores das casas, porque a gesticulao diminua
ou mudava de feitio. No se dirigia  parede,  suposta imperatriz; mas era
ainda imperador. Caminhava, parava, murmurava, sem grandes gestos, sonhando
sempre, sempre, sempre, envolvido naquele vu, atravs do qual todas as coisas
eram outras, contrrias e melhores; cada lampio tinha um aspecto de camarista,
cada esquina uma feio de reposteiro. Rubio seguia direito  sala do trono,
para receber um embaixador qualquer, mas o pao era interminvel, cumpria
atravessar muitas salas e galerias, verdade  que sobre tapetes,  e por entre
alabardeiros, altos e robustos.

Das gentes que o viam e
paravam na rua, ou se debruavam das janelas, muitas suspendiam por instantes os
seus pensamentos tristes ou enfastiados, as preocupaes do dia, os tdios, os
ressentimentos, este uma dvida, outro uma doena, desprezos de amor, vilanias
de amigo. Cada misria esquecia-se, o que era melhor que consolar-se; mas o
esquecimento durava um relmpago. Passado o enfermo, a realidade empolgava-os
outra vez, as ruas eram ruas, porque os paos suntuosos iam com Rubio. E mais
de um tinha pena do pobre diabo; comparando as duas fortunas, mais de um
agradecia ao Cu a parte que lhe coube,  amarga, mas consciente. Preferiam o
seu casebre real ao alcar fantasmagrico.

CAPTULO CLXXXV

Rubio foi recolhido a
uma casa de sade. Palha esquecera a obrigao que Sofia lhe imps, e Sofia no
se lembrou mais da promessa feita  rio-grandense. Cuidavam ambos de outra casa,
um palacete em Botafogo, cuja reconstruo estava prestes a acabar, e que eles
queriam inaugurar, no inverno, quando as Cmaras trabalhassem, e toda a gente
houvesse descido de Petrpolis. Mas agora a promessa foi cumprida; Rubio deu
entrada no estabelecimento, onde ficou ocupando uma sala e um quarto especiais,
recomendado pelo Dr. Falco e pelo Palha. No resistiu a nada; acompanhou-os com
satisfao, e entrou nos seus aposentos, como se os conhecesse desde muito.
Quando eles se despediram, dizendo que j voltavam, Rubio convidou-os para uma
revista militar, no sbado.

 Pois sim, sbado,
assentiu Falco.

 Sbado  bom dia,
continuou Rubio. No faltes, duque de Palha.

 No falto, disse o
Palha andando.

 Olha, mandar-te-ei um
dos meus coches, novo em folha;  preciso que tua mulher pouse o seu lindo corpo
onde ningum ainda ousou sentar-se. Almofadas de damasco e veludo, arreios de
prata e rodas de ouro; os cavalos descendem do prprio cavalo que meu tio
montava em Marengo. Adeus, duque de Palha.

CAPTULO CLXXXVI

 Para mim,  claro,
saiu pensando o Dr. Falco, aquele homem foi amante da mulher deste sujeito.

CAPTULO CLXXXVII

L ficou o homem.
Quincas Borba tentara entrar na carruagem que levou o amigo, e porfiou em
acompanh-la, correndo; foi necessria toda a fora do criado para agarr-lo,
cont-lo e tranc-lo em casa. Era a mesma situao de Barbacena; mas a vida, meu
rico senhor, compe-se rigorosamente de quatro ou cinco situaes, que as
circunstncias variam e multiplicam aos olhos. Rubio pediu instantemente que
lhe mandassem o co. D. Fernanda, alcanado o consentimento do diretor, cuidou
de satisfazer o desejo do doente. Quis escrever a Sofia, mas foi ela prpria ao
Flamengo.

CAPTULO CLXXXVIII

  Mando ver, 
aqui perto, props Sofia.

 Vamos ns mesmas. Que
tem? J pensei em uma coisa. Valer a pena conservar a casa pronta e alugada,
quando a cura pode prolongar-se? Melhor  deix-la, vender os trastes e apurar o
que houver.

Foram a p do Flamengo
 Rua do Prncipe, trs a quatro minutos. Raimundo estava na rua, mas viu gente
 porta e veio abri-la. O interior da casa tinha a feio do abandono, sem a
fixidez e regularidade das coisas, que parecem conservar um resto da vida
interrompida; era o abandono do desmazelo. Mas, por outro lado, o transtorno dos
mveis da sala exprimia bem o delrio do morador, suas idias tortas e confusas.

 Ele foi muito rico?
perguntou D. Fernanda a Sofia.

 Tinha alguma coisa,
respondeu esta, quando chegou de Minas; mas parece que estragou tudo. Olhe,
levante o vestido que o cho parece que no se varre h um sculo.

No era s o cho; os
trastes tinham a crosta da incria. Nem por isso o criado explicava nada;
olhava, escutava, e, baixinho, assobiava uma polca do dia. Sofia no lhe
perguntou pelo asseio; estava morta por fugir "daquela imundice", dizia a si
mesma, e tinha vontade de indagar do co, que era o principal motivo da visita;
mas, no queria mostrar interesse por ele nem pelo resto. A trivialidade daquilo
tudo no lhe dizia nada ao esprito nem ao corao; a lembrana do alienado no
a ajudava a suportar o tempo. De si para si achava a companheira singularmente
romntica ou afetada. "Que bobagem!" ia pensando, sem desconcertar o sorriso
aprovador com que acudia a todas as observaes de D. Fernanda.

 Abra aquela janela,
disse esta ao criado; tudo cheira a mofo.

 Oh! insuportvel!
acudiu Sofia, respirando com asco.

Mas, apesar da
exclamao, D. Fernanda no se resolveu a sair. Sem que nenhuma recordao
pessoal lhe viesse daquela miservel estncia, sentia-se presa de uma comoo
particular e profunda, no a que d a runa das coisas. Aquele espetculo no
lhe trazia um tema de reflexes gerais, no lhe ensinava a fragilidade dos
tempos, nem a tristeza do mundo, dizia-lhe to-somente a molstia de um homem,
de um homem que ela mal conhecia, a quem falara algumas vezes. E ia ficando e
olhando, sem pensar, sem deduzir, metida em si mesma, dolente e muda. Sofia no
ousava articular nada, com receio de ser desagradvel a to conspcua dama.
Tinham ambas os vestidos apanhados, para evitar a mcula da poeira; mas Sofia
acrescentou a essa precauo a agitao viva, contnua e impaciente da
ventarola, como pessoa que sufocasse naquela atmosfera. Chegou a tossir algumas
vezes.

 E o cachorro?
perguntou D. Fernanda ao criado.

 Est preso no quarto,
l dentro.

 V busc-lo.

Quincas Borba apareceu.
Magro, abatido, parou  porta da sala, estranhando as duas senhoras, mas sem
latir; mal erguia os olhos apagados. Ia a dar meia-volta ao corpo na direo do
interior da casa, quando D. Fernanda fez uns estalinhos com os dedos; ele parou,
agitando a cauda.

 Como  mesmo que se
chama? perguntou D. Fernanda.

 Quincas Borba,
respondeu o criado, rindo, com a voz arrastada. Tem nome de gente. Eh! Quincas
Borba! vai l! a senhora est chamando.

 Quincas Borba! vem
c! Quincas Borba! repetiu D. Fernanda.

Quincas Borba acudiu ao
chamado, no pulando, nem alegre. D. Fernanda inclinou-se, perguntou-lhe pelo
amigo, se estava longe, se queria ir v-lo. Assim mesmo inclinada, interrogava o
criado sobre o trato do co.

 Agora come, sim,
senhora; logo que meu amo foi embora, no queria comer nem beber; eu at pensei
que estivesse danado.

 Come bem?

 Come pouco.

 Procura pelo senhor?

 Parece que procura,
respondeu Raimundo tapando o riso com a mo; mas eu tranquei ele no quarto, para
no fugir. J no chora; a princpio chorava muito, que at me acordava... Era
preciso eu bater com um cacete na porta e gritar, para ele sossegar...

D. Fernanda coava a
cabea do animal. Era o primeiro afago depois de longos dias de solido e
desprezo. Quando D. Fernanda cessou de acarici-lo, e levantou o corpo, ele
ficou a olhar para ela, e ela para ele, to fixos e to profundos, que pareciam
penetrar no ntimo um do outro. A simpatia universal, que era a alma desta
senhora, esquecia toda a considerao humana diante daquela misria obscura e
prosaica, e estendia ao animal uma parte de si mesma, que o envolvia, que o
fascinava, que o atava aos ps dela. Assim, a pena que lhe dava o delrio do
senhor, dava-lhe agora o prprio co, como se ambos representassem a mesma
espcie. E sentindo que a sua presena levava ao animal uma sensao boa, no
queria priv-lo de benefcio.

 A senhora est-se
enchendo de pulgas, observou Sofia.

D. Fernanda no a
ouviu. Continuou a mirar os olhos meigos e tristes do animal, at que este
deixou cair a cabea e entrou a farejar a sala. Sentira o cheiro do senhor. A
porta da rua estava aberta; ele teria fugido por ela, se Raimundo no acudisse a
prend-lo. D. Fernanda deu algum dinheiro ao criado para que o fosse lavar e
conduzir  casa de sade, recomendando-lhe o maior cuidado, que o levasse ao
colo, ou preso por um cordo. Nesta parte acudiu tambm Sofia, ordenando que a
procurasse antes, em casa.

CAPTULO CLXXXIX

Saram. Sofia, antes de
pr o p na rua, olhou para um e outro lado, espreitando se vinha algum;
felizmente, a rua estava deserta. Ao ver-se livre da pocilga, Sofia readquiriu o
uso das boas palavras, a arte maviosa e delicada de captar os outros, e enfiou
amorosamente o brao no de D. Fernanda. Falou-lhe de Rubio e da grande desgraa
da loucura; assim tambm do palacete de Botafogo. Por que no ia com ela ver as
obras? Era s lanchar um pouco, e partiriam imediatamente.

CAPTULO CXC

Sobreveio um sucesso
que distraiu D. Fernanda do Rubio; foi o nascimento de uma filha de Maria
Benedita. Ela correu  Tijuca, encheu de beijos a me e a criana, deu a mo a
beijar a Carlos Maria.

 Sempre exuberante!
exclamou o jovem pai, obedecendo.

 Sempre secarro!
retorquiu ela.

Apesar da resistncia
do primo, D. Fernanda acompanhou a convalescena de Maria Benedita, to cordial,
to boa, to alegre, que era um encanto conserv-la em casa. A felicidade daqui
f-la esquecer a desgraa dacol; mas, convalescida a recente me, D. Fernanda
acudiu ao enfermo.

CAPTULO CXCI

"Conto restitu-lo 
razo no fim de seis ou oito meses. Vai muito bem.

D. Fernanda mandou a
Sofia esta resposta do diretor da casa de sade, e convidou-a a irem ver o
enfermo, se achasse que no lhe ficava mal. "Que mal pode haver?" respondeu
Sofia em um bilhete. "Mas eu  que no teria nimo de v-lo; foi to nosso
amigo, que no sei se poderia suportar a vista e a conversao do pobre homem.
Mostrei a carta a Cristiano, que me declarou ter liquidado os bens do Sr.
Rubio: apurou trs contos e duzentos.

CAPTULO CXCII

 Seis meses, oito
meses passam depressa, reflexionou D. Fernanda.

E eles vieram vindo,
com os sucessos s costas,  a queda do Ministrio, a subida de outro em maro,
a volta do marido, a discusso da lei dos ingnuos, a morte do noivo de D.
Tonica, trs dias antes de casar. D. Tonica espremeu as ltimas lgrimas, umas
de amizade, outras de desesperana, e ficou com os olhos to vermelhos, que
pareciam doentes.

Tefilo, que merecera
do novo gabinete a mesma confiana do antigo, teve parte copiosa nos debates da
sesso parlamentar. Camacho declarou pela sua folha que a lei dos ingnuos
absolvia a esterilidade e os crimes da situao. Em outubro, Sofia inaugurou os
seus sales de Botafogo, com um baile, que foi o mais clebre do tempo. Estava
deslumbrante. Ostentava, sem orgulho, todos os seus braos e espduas. Ricas
jias; o colar era ainda um dos primeiros presentes do Rubio, to certo  que,
neste gnero de atavios, as modas conservam-se mais. Toda a gente admirava a
gentileza daquela trintona fresca e robusta; alguns homens falavam (com pena)
das suas virtudes conjugais, da profunda adorao que ela tinha ao marido.

CAPTULO CXCIII

No dia seguinte ao
baile, D. Fernanda acordou tarde. Foi ao gabinete do marido, que j devorara
cinco ou seis jornais, escrevera dez cartas e retificava a posio de alguns
livros nas estantes.

 Recebi esta carta, h
pouco, disse ele.

D. Fernanda leu-a; era
do diretor da casa de sade; notificava que Rubio, desde trs dias,
desaparecera, no tendo podido ser encontrado por mais esforos que houvessem
empregado a polcia e ele. Tanto mais me espanta esta fuga", conclua a carta,
"quanto que as melhoras eram grandes, e podia contar que, em dois meses, o poria
inteiramente bom."

D. Fernanda ficou
consternada; alcanou do marido que escrevesse ao chefe de polcia e ao ministro
da justia, pedindo-lhes que ordenassem as mais severas pesquisas. Tefilo no
tinha o menor interesse no achado nem na cura de Rubio; mas quis servir 
mulher, cuja bondade conhecia, e, porventura, gostava de cartear-se com os
homens da alta administrao.

CAPTULO CXCIV

Como achar, porm, o
nosso Rubio nem o cachorro, se ambos haviam partido para Barbacena? Oito dias
antes, Rubio escrevera ao Palha que o procurasse; este acudiu  casa de sade,
viu que ele raciocinava claramente, sem a menor sombra de delrio.

 Tive uma crise
mental, disse-lhe Rubio; agora estou bom, perfeitamente bom. Peo-lhe que me
ponha fora daqui. Creio que o diretor no se opor. Entretanto, como quero
deixar algumas lembranas  gente que me tem servido, e servido tambm ao
Quincas Borba, veja se me pode adiantar cem mil-ris.

Palha abriu a carteira
sem hesitao, e deu-lhe o dinheiro.

 Vou tratar de o fazer
sair, disse ele; mas, provavelmente so precisos alguns dias (estava em vsperas
do baile); no se aflija por isso; daqui a uma semana est na rua.

Antes de sair,
consultou o diretor, que lhe deu boas notcias do enfermo. Uma semana  pouco,
disse ele; para p-lo bom, bom, preciso ainda uns dois meses. Palha confessou
que o achara so; em todo caso, mandava quem sabia, e se fossem necessrios seis
ou sete meses mais, no precipitasse a alta.

CAPTULO CXCV

Rubio, logo que chegou
a Barbacena e comeou a subir a rua que ora se chama de Tiradentes, exclamou
parando:

 Ao vencedor, as
batatas!

Tinha-as esquecido de
todo, a frmula e a alegoria. De repente, como se as slabas houvessem ficado no
ar, intactas, aguardando algum que as pudesse entender, uniu-as, recomps a
frmula, e proferiu-a com a mesma nfase daquele dia em que a tomou por lei da
vida e da verdade. No se lembrava inteiramente da alegoria; mas, a palavra
deu-lhe o sentido vago da luta e da vitria.

Subiu, acompanhado do
co, e foi parar defronte da igreja. Ningum lhe abriu a porta; no viu sombra
de sacristo. Quincas Borba, que no comia desde muitas horas, colava-se-lhe s
pernas, cabisbaixo, esperando. Rubio voltou-se, e do alto da rua estendeu os
olhos abaixo e ao longe. Era ela, era Barbacena; a velha cidade natal ia-se-lhe
desentranhando das profundas camadas da memria. Era ela; aqui estava a igreja,
ali a cadeia, acol a farmcia, donde vinham os medicamentos para o outro
Quincas Borba. Sabia que era ela, quando chegou; mas,  medida que os olhos se
derramavam, as reminiscncias vinham vindo, mais numerosas, em bando. No via
ningum; uma janela,  esquerda, parecia ter algum que espiava. Tudo o mais
deserto.

 Talvez no saibam que
cheguei, pensou Rubio.

CAPTULO CXCVI

Sbito, relampejou; as
nuvens amontoavam-se s pressas. Relampejou mais forte, e estalou um trovo.
Comeou a chuviscar grosso, mais grosso, at que desabou a tempestade. Rubio,
que aos primeiros pingos, deixara a igreja, foi andando rua abaixo, seguido
sempre do co, faminto e fiel, ambos tontos, debaixo do aguaceiro, sem destino,
sem esperana de pouso ou de comida... A chuva batia-lhes sem misericrdia. No
podiam correr, porque Rubio temia escorregar e cair, e o co no queria
perd-lo. A meia rua, acudiu  memria do Rubio a farmcia, voltou para trs,
subindo contra o vento, que lhe dava de cara; mas, ao fim de vinte passos,
varreu-se-lhe a idia da cabea; adeus, farmcia! adeus, pouso! J se no
lembrava do motivo que o fizera mudar de rumo, e desceu outra vez, e o co
atrs, sem entender nem fugir, um e outro alagados, confusos, ao som da trovoada
rija e contnua.

CAPTULO CXCVII

Vagaram sem destino. O
estmago de Rubio interrogava, exclamava, intimava; por fortuna, o delrio
vinha enganar a necessidade com os seus banquetes das Tulherias. Quincas Borba 
que no tinha igual recurso. E toca a andar acima e abaixo. Rubio, de quando em
quando, sentava-se no lajedo, e o co trepava-lhe s pernas, para dormir a fome;
achava as calas molhadas, e descia; mas tornava logo a subir, to frio era o ar
da noite, j noite alta, j noite morta. Rubio passava-lhe as mos por cima,
resmungando algumas palavras magras.

Se, apesar de tudo,
Quincas Borba conseguia adormecer, acordava logo, porque Rubio levantava-se e
punha-se outra vez a descer e subir ladeiras. Soprava um triste vento, que
parecia faca, e dava arrepios aos dois vagabundos. Rubio andava devagar; o
prprio cansao no lhe permitia as grandes pernadas do princpio, quando a
chuva caa em btegas. As paradas eram agora mais freqentes. O co, morto de
fome e de fadiga, no entendia aquela odissia, ignorava o motivo, esquecera o
lugar, no ouvia nada, seno as vozes surdas do senhor. No podia ver as
estrelas, que j ento rutilavam, livres de nuvens. Rubio descobriu-as; chegara
 porta da igreja, como quando entrou na cidade; acabava de sentar-se e deu com
elas. Estavam to bonitas, reconheceu que eram os lustres do grande salo e
ordenou que os apagassem. No pde ver a execuo da ordem; adormeceu ali mesmo,
com o co ao p de si. Quando acordaram de manh, estavam to juntinhos que
pareciam pegados.

CAPTULO CXCVIII

 Ao vencedor, as
batatas! exclamou Rubio quando deu com os olhos na rua, sem noite, sem gua,
beijada do sol.

CAPTULO CXCIX

Foi a comadre do
Rubio, que o agasalhou e mais ao cachorro, vendo-os passar defronte da porta.
Rubio conheceu-a, aceitou o abrigo e o almoo.

 Mas que  isso, seu
compadre? Como foi que chegou assim? Sua roupa est toda molhada. Vou dar-lhe
umas calas de meu sobrinho.

Rubio tinha febre.
Comeu pouco e sem vontade. A comadre pediu-lhe contas da vida que passara na
Corte, ao que ele respondeu que levaria muito tempo, e s a posteridade a
acabaria. Os sobrinhos de seu sobrinho, concluiu ele magnificamente,  que ho
de ver-me em toda a minha glria. Comeou, porm, um resumo. No fim de dez
minutos, a comadre no entendia nada, to desconcertados eram os fatos e os
conceitos; mais cinco minutos, entrou a sentir medo. Quando os minutos chegaram
a vinte, pediu licena e foi a uma vizinha dizer que Rubio parecia ter virado o
juzo. Voltou com ela e um irmo, que se demorou pouco tempo e saiu a espalhar a
nova. Vieram vindo outras pessoas, s duas e s quatro, e, antes de uma hora,
muita gente espiava da rua.

 Ao vencedor, as
batatas!  bradava Rubio aos curiosos. Aqui estou imperador! Ao vencedor, as
batatas!

Esta palavra obscura e
incompleta era repetida na rua, examinada, sem que lhe dessem com o sentido.
Alguns antigos desafetos do Rubio iam entrando, sem cerimnia, para goz-lo
melhor; e diziam  comadre que no lhe convinha ficar com um doido em casa, era
perigoso; devia mand-lo para a cadeia, at que a autoridade o remetesse para
outra parte. Pessoa mais compassiva lembrou a convenincia de chamar o doutor.

 Doutor para qu?
acudiu um dos primeiros. Este homem est maluco.

 Talvez seja delrio
de febre; j viu como est quente?

Anglica, animada por
tantas pessoas, tomou-lhe o pulso, e achou-o febril. Mandou vir o mdico,  o
mesmo que tratara o finado Quincas Borba. Rubio conheceu-o tambm; e
respondeu-lhe que no era nada. Capturara o rei da Prssia, no sabendo ainda se
o mandaria fuzilar ou no; era certo, porm, que exigiria uma indenizao
pecuniria enorme,  cinco bilhes de francos.

 Ao vencedor, as
batatas! concluiu rindo.

CAPTULO CC

Poucos dias depois
morreu... No morreu sdito nem vencido. Antes de principiar a agonia, que foi
curta, ps a coroa na cabea,  uma coroa que no era, ao menos, um chapu velho
ou uma bacia, onde os espectadores palpassem a iluso. No, senhor; ele pegou em
nada, levantou nada e cingiu nada; s ele via a insgnia imperial, pesada de
ouro, rtila de brilhantes e outras pedras preciosas. O esforo que fizera para
erguer meio corpo no durou muito; o corpo caiu outra vez; o rosto conservou
porventura uma expresso gloriosa.

 Guardem a minha
coroa, murmurou. Ao vencedor...

A cara ficou sria,
porque a morte  sria; dois minutos de agonia, um trejeito horrvel, e estava
assinada a abdicao.

CAPTULO CCI

Queria dizer aqui o fim
do Quincas Borba, que adoeceu tambm, ganiu infinitamente, fugiu desvairado em
busca do dono, e amanheceu morto na rua, trs dias depois. Mas, vendo a morte do
co narrada em captulo especial,  provvel que me perguntes se ele, se o seu
defunto homnimo  que d o ttulo ao livro, e por que antes um que outro, 
questo prenhe de questes, que nos levariam longe... Eia! chora os dois
recentes mortos, se tens lgrimas. Se s tens riso ri-te!  a mesma coisa. O
Cruzeiro, que a linda Sofia no quis fitar, como lhe pedia Rubio, est assaz
alto para no discernir os risos e as lgrimas dos homens.

FIM
