CRTICA, Pareceres de Machado de Assis, 1862

Pareceres de Machado de Assis a Diversas Peas Teatrais

Texto-fonte:

Biblioteca Nacional - setor de obras digitalizadas

Publicado originalmente
  de 16/03/1862 a 12/03/1864.

NDICE

  	Parecer sobre o drama em trs atos CLERMONT OU A MULHER DO ARTISTA

  Parecer sobre a comdia FINALMENTE, em um ato, de Antonio Moutinho de Sousa

  Parecer sobre o drama UM CASAMENTO DA POCA,
    em cinco atos, de Constantino do Amaral Tavares

  Parecer sobre a comdia OS NTIMOS, em quatro
    atos, de Victorien Sardou. Traduo.

  Parecer sobre a comdia OS NOSSOS NTIMOS, em quatro atos, de Victorian Sardou. Traduo.

  Parecer sobre a comdia OS DESCARADOS, de E. Augier. Traduo.

  Parecer sobre a comdia AS GARATUJAS, de Victorien Sardou. Traduo de A. E. Zaluar

  Parecer sobre o drama MISTRIOS SOCIAIS,
    original portugus de Csar de Lacerda.

  Parecer sobre a comdia A MULHER QUE O MUNDO
    RESPEITA, de Verediano Henrique dos Santos Carvalho,
    em dois atos.

  Parecer sobre a comdia AS LEOAS POBRES, em cinco atos, de E. Augier e E. Foussier. Traduo.

  Parecer sobre a farsa em um ato A CAIXA DO
    MARIDO E A CHARUTEIRA DA MULHER, por J. P. B.

  Parecer sobre o drama AS CONVENINCIAS, em quatro atos, original brasileiro
    de Quintino Francisco da Costa

  Parecer sobre o drama O ANEL DE FERRO, em cinco atos, original brasileiro de Areires.

  Parecer sobre a comdia-drama, em quatro
    atos, AS MULHERES DO PALCO, original brasileiro.

  Parecer sobre a comdia-drama em trs atos, O
    FILHO DO ERRO, e sobre o drama em cinco atos, OS ESPINHOS DE UMA FLOR,
    originais brasileiros de J. R. Pires de Almeida.

  Parecer sobre a comdia AO ENTRAR NA
    SOCIEDADE, em um ato, de Luiz C.
    P. Guimares Jnior.

  PARECER SOBRE O DRAMA
  EM TRS ATOS CLERMONT
   OU

A MULHER DO ARTISTA

Clermont ou A mulher do
  artista  uma dessas banalidades literrias que constituem por a o
    repertrio quase exclusivo dos nossos teatros.

A bem dizer no  um
  drama,  uma narrao fria, fastidiosa, trivial, onde a luta dos sentimentos 
  nula, e onde nada existe do que pode constituir um drama.

Se a pea nada vale
  por si, a traduo veio torn-la mais inferior ainda se  possvel. No s a
  construo da frase portuguesa se ressente do idioma original, mas ainda h
  vocbulos disparatadamente traduzidos. Entre outros,
  ocorre-me o verbo demander - traduzido na
  acepo de pedir, em vez de perguntar, que  a que cabe na
  ocasio (cena 6 do 2 ato); e a palavra rptition - traduzida repetio, em vez de ensaio, como
  convinha. E outras, e outras.

Pena  que os nossos
  teatros se alimentem de composies tais, sem a menor sombra de mrito,
  destinadas a perverter o gosto e a contrariar a verdadeira misso do teatro.
  Compunge deveras um tal estado de coisas a que o governo podia e devia pr
  termo iniciando uma reforma que assinalasse ao teatro o seu verdadeiro lugar.

Bem severo  Ulbach, bem severo  Montgut,
  invectivando o teatro contemporneo francs, mas quanto so cabidas as suas
  censuras ao nosso pas, em cujo teatro se legitimam as verses esprias e mal
  alinhavadas de quanta fraudulagem, de quanta ruindade
  desonra o teatro estrangeiro!

Sinto deveras ter de
  dar o meu assenso a esta composio por que entendo
  que contribuo para a perverso do gosto pblico e para a supresso daquelas
  regras que devem presidir ao teatro de um pas de modo a torn-lo uma fora de
  civilizao. Mas como ela no peca contra os preceitos da nossa lei, no
  embaraarei a exibio cnica de Clermont ou A mulher do artista, lavrando-lhe todavia condenao literria e
  obrigando pelas custas autor e tradutor.

Rio, 16 de maro de
  1862

Machado de Assis

PARECER SOBRE A COMDIA FINALMENTE,
        EM UM ATO
  ,

DE ANTONIO MOUTINHO DE SOUSA

A comdia em um ato
  adaptada  cena nacional com o ttulo de - Finalmente - pelo Sr. Antonio Moutinho de Sousa pertence a essa ordem de
  composies fceis e ligeiras, fundadas puramente sobre um enredo e tendo a
  graa nas situaes e nos lances cmicos.

No visando a pintura
  dos caracteres nem a reproduo dos costumes, essas peas preenchem o fim a que
  so destinadas, com um mrito igual s composies de outro gnero.

Finalmente est neste caso. A
  situao do equvoco de Azevedo relativamente s pretenses de Augusto  que d
  o relevo e a vida  comdia. O partido a tirar foi tirado. A vivacidade com que
  est escrita contribui no interesse que a composio inspira.

H muitas composies
  deste gnero e que fazem o repertrio festejado do Palais-Royal de Paris, cuja base  o escndalo domstico, sem fins moralizadores,
  assunto que anda agora
  em
    moda. Esta
  comdia est limpa dessa gafa invasora. Ainda bem.

A frase  polida, sem
  segunda inteno. Todavia o meu escrpulo leva-me a aconselhar a supresso de
  uma expresso de Azevedo na 2 cena.  a seguinte resposta ao criado: "Ela
  disse que o alecrim havia de me fazer bem  cabea... amarga zombaria!"

A frase isolada nada
  tem de repreensvel; mas se nos lembrarmos que Azevedo est persuadido de que
  os ramalhetes de Augusto so dirigidos  sua mulher acharemos equvoco na
  expresso.

Terminando com a
  aprovao desta comdia, cumpre-me dirigir ao Sr. Moutinho um cumprimento pelo seu trabalho. Trasladou a composio que parece ser
  originariamente francesa para portugus cuidado e polido.

Rio, 20 de maro de
  1862

Machado de Assis

PARECER SOBRE O DRAMA UM CASAMENTO DA POCA,

  EM CINCO ATOS
  , DE CONSTANTINO DO AMARAL TAVARES

Um casamento da poca, drama em
  cinco atos do Sr. Constantino do Amaral Tavares,  mais uma composio que vem
  tomar lugar entre as pouqussimas que conta o teatro nacional.

Esta qualidade impe 
  crtica mais severidade do que a costumada. Sou dos que pensam que a anlise
  deve ser mais minuciosa, e porventura mais rigorosa com as composies
  nacionais. S por este modo pode a reflexo instruir a inspirao.

Um casamento da poca  um libelo contra os
  casamentos de convenincia, sem audincia do corao, nem consulta da vontade,
  e tende a provar, por filiao de tese, esta mxima de Camilo Castelo-Branco:
  "A queda de algumas mulheres justificam-na alguns maridos."

Como se v, o poeta tinha
  um largo horizonte diante de si. Aproveitou-o ele? Sinto dizer que no. Falta 
  sua pea o vigor e a elevao que a tese reclamava. Os caracteres no esto
  desenhados com preciso e verdade; esto mal sustentados; e falta algumas vezes
  aos acontecimentos a lgica e a razo de ser.

Para maior dificuldade
  os intervalos de tempo que separam os atos tornam mais sensvel a mudana das
  coisas e dos caracteres. A figura de Elvira, por exemplo, transforma-se sem
  motivo imediato. Eu quisera, alm das queixas por ela repetidas no 2 ato a
  respeito de seu marido, alguns atos deste que dessem razo  sbita mudana que
  faz Elvira de virtuosa para leviana e culpada.

 verdade que Moncorvo faz a corte a Matilde, mas Elvira tudo ignora e s
   hora de sua morte vem a saber da traio de sua amiga.

Queixa-se Elvira, 
  verdade, de que seu marido a trata com desdm, mas tudo o que o espectador pode
  ver e depreender  um ou outro arrufo, como o do 2 ato,
  em que Moncorvo
  quer fazer com que sua mulher v ao teatro.

A vida desregrada de Moncorvo  conhecida por tradio; no digo que o autor
  alterasse as disposies da sua composio e nos desse o espetculo desses
  desregramentos, mas quisera que o carter desse marido tivesse mais luz e
  fossem mais patentes as razes dos desgostos profundos de Elvira.

O carter da baronesa,
  madrinha de Elvira, falseia-se a meu ver no 2 ato. A baronesa  uma santa
  mulher que tenta antes do casamento de Elvira fazer com que o brigadeiro, pai
  [ilegvel] atenda ao disparate do consrcio que o corao daquela repugna. 
  uma figura nobre que avalia em pouco as vantagens do casamento com Moncorvo. Logo no fim do 1 ato fica-se com uma boa
  impresso daquela personagem.

Chega-se ao 2 ato. Moncorvo insta com sua mulher para que v ao teatro. Nisto
  entra a baronesa. Une ela prpria os seus aos esforos de Moncorvo.
  Elvira [pouco legvel: recusa?]. Moncorvo e Carlos
  saem. A baronesa exprobra a Elvira a sua tenacidade. Elvira cai-lhe nos braos
  debulhada em lgrimas, e declarando no poder mais conter-se, confia  madrinha
  os segredos da sua infelicidade.

A baronesa responde 
  Elvira lembrando-lhe o divrcio. Nenhum exame, nenhuma esperana, nenhuma
  tentativa de trazer o marido transviado a bom caminho, nenhuma palavra de
  resignao, nada disso que aquela matrona que ali representava a sociedade
  devia fazer ou dizer antes de aconselhar esse triste e ltimo recurso!

A meu ver, de outro
  modo devia proceder a baronesa.

E foi o prprio poeta
  quem se encarregou de tirar todo o cabimento  lembrana da baronesa pondo na
  boca de Elvira essas belas palavras com que ela responde  madrinha, e em que
  mostra com vivas cores a posio da mulher desquitada.

Dir-se- que a
  baronesa no d o divrcio como um partido definitivo, e que ouvindo Elvira
  acaba por concordar com ela aconselhando-lhe toda a prudncia. Para mim, isto 
  secundrio. A simples enunciao da palavra basta para tirar  baronesa esse
  carter de retido e nobreza que lhe d a idade e a pureza de costumes.

Abundam no drama as
  cenas inteis, e citarei, entre outras, algumas do primeiro ato que no
  consistem em outra coisa mais que numa troca de cumprimentos, escritas, no
  direi com pretenso, mas com afetao que toca  trivialidade - por exageradas.

Causa mau efeito, bem
  que se conhea a inteno com que foi produzida, a entrada do brigadeiro no fim
  do 4 ato, havendo alis desaparecido no 2 e no 3.

O estilo  fcil e
  corrente, e o dilogo travado sem esforo.

 minha opinio que se
  pode representar em qualquer dos teatros desta corte.

Rio, 8 de maro [a
  palavra maro est riscada, a lpis, em letra diferente, por cima: abril] de
  1862.

Machado de Assis

PARECER SOBRE A COMDIA OS NTIMOS,
  EM QUATRO ATOS
  ,

DE VICTORIEN SARDOU.
  TRADUO.

A comdia Os
  ntimos que me vem sujeita a julgamento  uma das mais verdadeiras
  que se ho visto depois de Molire, e por justo
  ttulo aplaudida.

Dando-lhe o meu assenso e louvando-a como obra literria, acho que no s
  pode, mas deve ser representada e assim outras desta fora que traduzam para o
  pblico a verdadeira comdia, a nica digna deste nome.

Altamente moral, e
  altamente literria, a comdia Os ntimos deixa uma lio e um
  exemplo, no meio do riso e do interesse que excita.

O que sobretudo a
  recomenda para nossa cena  que a moralidade que h a tirar dela dirige-se a
  toda sociedade humana, onde a boa f da amizade for muitas vezes aviltada pelo
  clculo e pela malcia.

E no me consta de
  sociedade alguma onde a simplicidade e a pureza dos costumes tenham feito
  desaparecer essa face do vcio.

Rio, 9 de maio de 1862

Machado de Assis

PARECER SOBRE A COMDIA OS NOSSOS NTIMOS,
        EM QUATRO ATOS
  ,

DE VICTORIAN SARDOU.
  TRADUO.

A comdia Os nossos
  ntimos  a mesma que j examinei com o ttulo Os ntimos. Pude reconhec-la apesar da traduo que est em vascono.  deplorvel que
  no teatro subvencionado, e donde devia partir o ensino, se representem peas
  to mal escritas. Uma simples e ligeira comparao entre o original e a
  traduo que tenho presente basta para ver quanto esta  infiel, e como o
  tradutor suprimiu as dificuldades que no pde vencer. Assim, vemos que a
  palavra Dandi est traduzida pela
  palavra garoto, e que as cenas alusivas a esse dito e a presumida
  posio de Caussade se acham despiedadamente mutiladas.

Em geral a forma da expresso
   toda francesa; o emprego dos pronomes que  da ndole daquela lngua foi
  usado e abusado pelo tradutor. Encontram-se a cada passo frases dessa ordem: "e
  criou-o de maneira que lhe provasse que no  necessrio dever-se o ser a um
  homem para ser-se seu filho."

Por ltimo assinalarei
  a introduo de um termo novo na lngua: eficacidade! Parece que o tradutor ignora que a palavra efficacit traduz-se por eficcia. E se ignora tal, lamento que se haja
  abalanado a fazer uma traduo.

No me resta mais do
  que recomendar que se faa sentir s pessoas que remetem peas ao
  Conservatrio, ou precisando mais, s pessoas que remetem peas como esta nos
  foi remetida, quanto a nossa instituio  digna e sria. O caderno em que est
  escrita a comdia Os nossos ntimos parece haver sado de uma taverna,
  tal  o seu aspecto imundo e pouco compatvel com a decncia do Conservatrio
  Dramtico.

Rio, 11 de junho de
  1862

Machado de Assis

PARECER SOBRE A COMDIA OS DESCARADOS,

DE E. AUGIER. TRADUO.

A comdia de Emilio Augier Os descarados  um libelo contra a classe
  elevada pela revoluo de julho. O poeta no fez personagens, fez smbolos. Charrier e Vernouillet simbolizam
  a nobreza financeira, D'Auberive a nobreza de sangue, Sergine e Giboyer a nobreza
  intelectual. Grupando assim as suas figuras, o poeta, entre a classe vencida e
  a classe aspirante, colocou a classe vencedora. A primeira  despeitosa,
  sarcstica, altiva e mordaz; trama contra o estado das coisas, afronta o
  triunfo dos adversrios, remorde-se e zomba. A classe aspirante est definida
  sob dois aspectos: o primeiro, puro, sincero e legtimo,  Sergine;
  o segundo, gasto, descarado e imoral,  Giboyer.
  Aquele no afronta, protesta; este nem protesta nem afronta, transige.

Quanto  classe
  triunfante, essa est nem definida nos dois tipos de Charrier e Vernouillet: ambos afrontam a moral pondo a lei do
  negcio onde o negcio no pode existir; filhos da fortuna, nada reconhecem
  fora do crculo acanhado em que se debate o seu esprito especulativo. Grandes
  ambies os levam. Charrier, banqueiro rico e
  conceituado, quer ser par. Vernouillet, desconceituado pela falncia do banco territorial quer
  readquirir a fortuna e a posio perdida. Estas duas ambies acham-se face por
  face. Vernouillet, para impor-se de novo, comprou um
  jornal, mas isso no basta, sendo j muito. Pois bem:  uma simples permuta de
  aes. Vernouillet recomendar o nome de Charrier para a grande casa legislativa; em troca, Charrier dar-lhe-h a mo da
  filha;  negcio: a mo de uma filha pela grave curul!
   um bom negcio!

Esto assim bem
  desenhadas as fisionomias. O marqus D'Auberive tambm o est: altivo por sua raa, rancoroso por sua derrota, o marqus faz
  uma mistura desses dois sentimentos e toma o partido de conspirar pela
  dissoluo da sociedade, rindo e impelindo-a  sua queda.

Sergine  um carter
  simptico e nobre; calmo, no meio de todas as lutas como quem tem a certeza de
  que o reinado da sua classe no est longe. Giboyer faz o contraste:  a inteligncia em mercado, uma boa alma que se perdeu no
  mundo, sem crenas, nem aspiraes, nem sentimentos, nem coisa nenhuma.

Completa o grupo
  Henrique Charrier, perdulrio da moda, adquirindo na
  vida que leva tristes qualidades para o futuro, mas enfim, rapaz ainda, e com
  alguma virtude e sentimento ainda no fundo do seu corao.

A marquesa d'Auberive, no meio do seu erro, no inspira dio, antes
  atrai simpatias e condolncias. Seria isto um defeito se no fosse uma lio.
  Na sua classe se faziam os casamentos pelo nascimento, como na de Charrier se fazem pela fortuna. A marquesa no encontrou em
  seu tio d'Auberive o eleito de seu corao;
  encontrou-o em Sergine.

Resta Clemencia, filha de Charrier; 
  um corao amante e terno, procurando eximir-se da impresso da atmosfera que
  se respira na casa paterna. Obediente at o sacrifcio, prefere prestar-se 
  cobia de seu pai a seguir os impulsos de sua alma.

Tal  o pensamento,
  rapidamente esboado, e o complexo das principais figuras desta excelente
  comdia. No h nela nada que contrarie os preceitos das nossas instrues. Por
  isso sou de parecer que se represente, e com tanto mais prazer me enuncio,
  quanto que a traduo est feita em portugus correto e elegante, fruta rara em
  teatro.

Rio, 15 de junho de
  1862

Machado de Assis

PARECER SOBRE A COMDIA AS GARATUJAS, DE VICTORIEN

A comdia As
  garatujas de Victorien Sardou,
  traduo do Sr. A. E. Zaluar, est no caso de receber
  a licena que para sua exibio se pede.

No se destina esta pea
  a provar e desenvolver uma tese filosfica, mas  impossvel tirar de um fato
  insignificante como o que serve de ponto de partida a As garatujas mais partido do que fez V. Sardou. So trs atos
  graciosos e vivssimos, cheios de interesse e de lances, conduzidos com
  pacincia e desenvolvidos com habilidade. As situaes mais engenhosas e
  inesperadas se sucedem sem deixar entrever de uma cena o que se vai passar na
  outra. Tudo isto adubado de ditos picantes, expresses conceituosas e cenas
  verdadeiramente bem escritas.

Eu j conhecia a pea
  que agora vem sujeita ao julgamento do Conservatrio. Costumo a acompanhar o
  movimento dramtico da Frana e sabia desta composio assim como do estrondoso
  efeito que ela produziu no pblico e na crtica. Quando a li vi que a crtica
  francesa e o pblico de Paris tiveram muita razo, e acabo de firmar esta
  opinio depois da leitura que fui obrigado a fazer agora, na qual encontrei uma
  linguagem correta, sem quebra do esprito de que est cheio o original.

Rio, 20 de julho de
  1862

Machado de Assis

PARECER SOBRE O DRAMA MISTRIOS SOCIAIS, ORIGINAL

PORTUGUS DE CSAR DE LACERDA.

O drama original
  portugus do Sr. Csar de Lacerda - Mistrios Sociais - pode
  subir  cena, acho eu, feitas certas alteraes. Uma dessas afeta a parte
  principal do drama;  a alterao da condio social do protagonista. O
  protagonista  um escravo que, tendo sido vendido [no] Mxico conjuntamente com
  sua me, pelo possuidor de ambos, que era ao mesmo tempo pai do primeiro,
  dirige-se depois de homem e liberto a Portugal em busca do autor dos seus dias.
  No desenlace da pea Lucena (o protagonista) casa com uma baronesa. A teoria
  filosfica no reconhece diferena entre dois indivduos que como aqueles
  tinham as virtudes no mesmo nvel; mas nas condies de uma sociedade como a
  nossa, este modo de terminar a pea deve ser alterado. Dois expedientes se
  apresentam para remover a dificuldade: o primeiro,  no efetuar o casamento;
  mas neste caso haveria uma grande alterao no papel da baronesa, supresso de
  cenas inteiras, e at a figura da baronesa se tornaria intil no correr da
  ao. Julgo que o segundo expediente  melhor e mais fcil: o visconde, pai de
  Lucena, teria vendido no Mxico sua amante e seu filho, pessoas livres; este
  trao tornaria o ato do visconde mais repulsivo; Lucena dar-se-ia sempre como
  legalmente escravo. Este expediente  simples. Na penltima cena e penltima
  pgina, Lucena depois de suas palavras: "Ainda no acabou"; diria: "Uma
  carta de minha me dava-me parte de que ramos, perante a lei, livres, e que
  entre a prostituio e a escravido ela resolveu guardar silncio e seguir a
  escravido cujos ferros lhe deitara meu pai."

As outras alteraes
  que julgo devem ser feitas no afetam a ao mas o dilogo; deixo-as indicadas
  na pea com traos a lpis. Na pgina 39 depois das palavras de Lucena: "a
  falta de certo pundonor"; acrescente-se: "a dos escravos". Na
  pgina 78 vai indicada outra supresso. Na pgina 136 h uma grande supresso,
  e o dilogo ficar arranjado do seguinte modo: depois das palavras de Lucena:
  "pagamento da parte do roubo" acrescente-se: "Entre esses objetos havia
  alguns escravos". A frase traada na pgina 74 deve ser substituda por
  esta: "Ol, temos mulher!"

Feitas estas correes
  julgo que a pea pode subir  cena.

Rio de Janeiro, 30 de
  julho de 1862

Machado de Assis

PARECER SOBRE A COMDIA A MULHER QUE O MUNDO RESPEITA,

DE VEREDIANO HENRIQUE DOS SANTOS
  CARVALHO,
  EM DOIS ATOS.

A comdia A mulher
  que o mundo respeita no est no caso de obter a licena pedida para
  subir  cena.  um episdio imoral, sem princpio nem fim. Pelo que respeita s
  condies literrias, ser-me- dispensada qualquer apreciao:  uma baboseira,
  passe o termo.

Rio, 27 de outubro de
  1862

Machado de Assis

PARECER SOBRE A COMDIA AS LEOAS POBRES,
        EM CINCO ATOS
  ,

DE E. AUGIER E E.
  FOUSSIER. TRADUO.

Julgo no caso de obter
  licena para ser representada a comdia As leoas pobres de Emilio Augier e Ed. Foussier, cuja
  traduo tenho presente.

E se me  dado aduzir
  uma considerao direi que no s peas como esta devem ser sempre licenciadas,
  mas ainda que seria deplorvel o caso em que o julgador por intolerncia de
  escola fosse levado a pr-lhe interdito.

O objeto tomado como base
  de estudo na presente comdia  um fato sobejamente verdadeiro: o adultrio
  venal. No assuste a frase como a vai escrita. A castidade da linguagem, o
  recato das situaes, desafiam ao mais severo esprito, e eu prprio, sempre
  disposto contra as pinturas contemporneas do vcio na cena, no achei atravs
  dos cinco atos um ponto nico em que pudesse julgar a pea suscetvel de
  modificao.

 simples a razo
  desta vitria do autor de As leoas pobres. Sempre que o poeta
  dramtico limita-se  pintura singela do vcio e da virtude, de maneira a
  inspirar, esta a simpatia, aquele o horror, sempre que na reproduo dos seus
  estudos tiver presente a idia que o teatro  uma escola de costumes e que h
  na sala ouvidos castos e modestos que o ouvem, sempre que o poeta tiver feito
  esta observao, as suas obras sairo irrepreensveis no ponto de vista da
  moral.

Tanto nesse ponto de
  vista, como no ponto de vista literrio, parece-me esta pea das melhores do
  teatro moderno. A concepo, o desenvolvimento, as situaes, tudo me parece
  perfeitamente conduzido por essa lgica dramtica tantas vezes expulsa da cena
  em despeito dos protestos e dos clamores. Verdade nos caracteres e naturalidade
  nas situaes, creio eu que so as qualidades principais desta pea para cuja
  representao assino licena, ou antes aconselho como me compete.

Rio, 24 de novembro de
  1862

Machado de Assis

PARECER SOBRE A FARSA
  EM UM ATO A
   CAIXA DO MARIDO E A

CHARUTEIRA DA MULHER, POR J. P.
  B.

A comdia em um ato, A
  caixa do marido e a charuteira da mulher, assinada modestamente por
  trs iniciais, parece obra de obscura paternidade, que no quer aparecer e
  recolhe-se no mistrio. Quem l a comdia v logo que  ela uma pssima
  traduo do francs, deturpada evidentemente, sem forma portuguesa nem de
  lngua nenhuma.

Disse comdia, quando
  ela  farsa, pela indicao do frontispcio e pelo contexto.  uma farsa
  grotesca, sem graa, lutando a grosseria com o aborrecimento. Se estivesse nas
  minhas obrigaes a censura literria, com certeza lhe negaria o meu voto; mas
  no sendo assim, julgo que pode ser representada em qualquer teatro.

Rio, 12 de janeiro de
  1863

Machado de Assis

PARECER SOBRE O DRAMA AS CONVENINCIAS,
        EM QUATRO ATOS
  ,

ORIGINAL BRASILEIRO DE QUINTINO FRANCISCO DA COSTA

No posso dar o meu
  voto de aprovao ao drama As Convenincias. Tais doutrinas se proclamam
  nele, tal exaltao se faz da paixo diante do dever, tal  o assunto, e tais
  as concluses, que  um servio  moral proibir a representao desta pea.

E se o pudor da cena
  ganha com essa interdio, no menos ganha o bom gosto, que no ter de ver 
  ilharga de boas composies esta que  um feixe de incongruncias, e nada mais.

Assim julgo e assim
  opino.

Rio de Janeiro, maro
  de 1863

Machado de Assis

PARECER SOBRE O DRAMA O ANEL DE FERRO,
        EM CINCO ATOS
  ,

ORIGINAL BRASILEIRO DE AREIRES.

Li o drama O anel
  de ferro, por Areires.  mais um esforo
  da nossa nascente literatura dramtica. Se no  uma obra completa em absoluto,
  acusa boas qualidades da parte do autor, revela um talento a quem no falta
  seno o estudo dos mestres e a reflexo precisa para a reproduo dos
  caracteres. Estes acham-se um tanto confusos, s vezes; outras vezes, um tanto
  contraditrios. A mo do autor no  firme, e v-se bem que ela vacila muitas
  em certas cenas mal trazidas e mal provadas.

Entretanto, o autor
  tem paixo suficiente para dar vida s suas concepes; resta-lhe adquirir os
  meios de saber empreg-la de maneira a no ferir o efeito e a verossimilhana.
  Seu dilogo  bem travado e quase sempre natural. O estilo  desigual e pouco
  castigado, e no  difcil encontrar certas expresses de um gosto menos puro.

Estas observaes tm
  por fim indicar de passagem ao autor os escolhos a evitar no futuro, e se as
  fao com liberdade, fao-as tambm com a convico de que o talento do autor
  pode sem dvida triunfar dos defeitos de hoje e tomar conscienciosamente o
  caminho do progresso.

Julgo que se pode
  representar em qualquer dos teatros desta corte.

Rio, 20 de junho de
  1863

Machado de Assis

PARECER SOBRE A COMDIA-DRAMA,
  EM QUATRO ATOS
  , AS MULHERES

DO PALCO, ORIGINAL
  BRASILEIRO.

Se eu tivesse de
  condenar As mulheres do palco seria menos pelo que este drama tem
  de incorreto e defeituoso na idia e nos episdios do que pela matria estranha
  ao drama e que forma a maior parte dele. Essa matria estranha, a que o autor
  sacrifica as paixes e os sentimentos,  hoje o manjar essencial de certa ordem
  de espritos; e  para sentir que o autor se deixasse levar por semelhante
  gosto. Com poucas interrupes, esta pea  uma longa discusso mais ou menos
  viva, mais ou menos humorstica, mais ou menos acertada, entre personagens que,
   fora de apreciarem a sociedade, os vcios, os sentimentos e as paixes,
  fazem desaparecer da pea todos os elementos que a deviam constituir.

Sacrificar a comoo 
  discusso  desconhecer as condies do gnero, e trair o fim que o poeta
  dramtico deve buscar no teatro:  fazer um libelo e no um drama.

Descendo agora 
  apreciao do drama no pouco que ele oferece  crtica devo notar primeiramente
  o defeito principal, alm daquele, e que daquele mesmo resulta: a ao  quase
  nula. E no s nula, seno ainda gasta e usada no teatro. Com efeito, se
  aproximarmos As mulheres do palco da Dama das Camlias veremos
  que at os enredos seguem a mesma linha paralela. Maurcio  Armando, Lcia 
  Margarida; quanto ao velho Duval no tem um
  semelhante nesta pea, mas h uma carta da me de Maurcio que produz em Lcia
  o mesmo efeito que as palavras de Duval em Margarida,
  o que vem a dar no mesmo. H o mesmo amor, o mesmo retiro, o mesmo rompimento,
  as mesmas recriminaes, at por ordem idntica; e se Lcia no morre no fim da
  pea, declara que vai para o hospital, j tocada pela doena que a levar 
  sepultura.

Estou longe de tirar
  disto um argumento contra a conscincia literria do autor. Meu fim  mostrar
  que, pensando inventar, caiu ele na repetio de uma tese j explorada e to
  explorada que at acompanhou, sem saber, os mesmos episdios.

Os caracteres esto
  incertamente esboados e s vezes contraditrios. O ltimo ato parece-me
  forado demais e s trazido para preparar a situao com que termina a pea.
  Mas pensou o autor nesse duelo entre a mulher de Maurcio e a mulher que tinha
  sido sua amante?

Precisa o autor cuidar
  do estilo e at da linguagem. "Juncar de perfumes" no  expresso
  correta; "castelos de Espanha"  uma expresso francesa.  o que me
  lembra neste momento. Se insisto na meno franca, posto que sucinta, dos
  defeitos deste drama,  por ver que o autor pode pelo estudo alcanar o que lhe
  falta. O procedimento contrrio seria uma traio. Desejo que o autor se
  convena de que deve legitimar as suas aspiraes com o estudo constante dos
  modelos, estudo que, ao lado da observao dos sentimentos,  o nico meio de
  conseguir uma glria imperecvel, e antes disso, o aplauso legtimo da crtica
  sincera.

Acho que se pode
  representar em qualquer dos teatros desta corte.

Rio de Janeiro, 14 de
  setembro de 1863

Machado de Assis

PARECER SOBRE A COMDIA-DRAMA
  EM TRS ATOS
  , O FILHO DO ERRO,

E SOBRE O DRAMA
  EM CINCO ATOS
  , OS
    ESPINHOS DE UMA FLOR,

ORIGINAIS BRASILEIROS DE J. R. PIRES DE ALMEIDA.

Li os dramas Os
  espinhos de uma flor e O filho do erro que me
  foram remetidos para interpor parecer.

O enredo do primeiro 
  este: Helena, filha de Travassos,  seduzida por Ernesto.  em um baile que se
  tem notcia deste fato. Helena  repudiada por seu pai e deixa a casa paterna
  lanando uma imprecao. Depois vemo-la correr de orgia em orgia, de misria em
  misria, at morrer em uma esteira.

Saindo da casa de seu
  pai, Helena liga-se a Ernesto por um amor criminoso. No meio da pea sabe-se
  que esta resoluo foi tomada por vingana para arruinar e desconceituar o roubador da sua honra.

Apesar de toda a
  simpatia que me inspiram os moos laboriosos no posso conceder a licena que
  se pede para este drama cujo autor procura adquirir um nome na literatura
  dramtica. Louvo-lhe os esforos, aplaudo-lhe os conseguimentos,
  mas no me  dado sacrificar os princpios e o dever.

Ora, o dever manda
  arredar da cena dramtica todas aquelas concepes que possam perverter os bons
  sentimentos e falsear as leis da moral. No ponto de vista em que, sem dvida,
  se coloca o autor de Os espinhos de uma flor, a sua pea
  no tem nenhum destes caracteres perniciosos. Mas eu no penso assim e creio
  que penso a verdade. O drama, apesar do desenlace,  destinado a fazer de
  Helena uma herona. Mesmo no lodo, v-se que o autor lhe pe na cabea uma
  aurola. Ora, em que merece Helena semelhante venerao [?] A vingana tomada
  por ela  um ato condenvel e insensato. Nas orgias em que a vemos, a mesma
  falta de razo a acompanha [ilegvel] s vezes que o autor lhe quer supor um
  sentimento e uma desculpa. Mas tudo isso  vo; Helena, criminosa no princpio,
   criminosa no meio e no fim:  criminosa quando no  desarrazoada.
  Nada lhe pode conquistar a menor dose de simpatia.

Acresce que a execuo
  acompanha fielmente o pensamento; se o pensamento nos desgosta, no menos nos
  desgosta a execuo; cito apenas o 2 ato, onde o autor nos faz assistir a uma
  orgia, para a qual todas as tintas carregadas, todas as descries minuciosas,
  so dispostas de modo a tornar demasiado patentes o aspecto insalubre e as
  cenas aflitivas da devassido.

Falta-me espao para
  entrar em outras consideraes.

 com pesar que nego o
  meu voto para a representao deste drama.

Quanto a O filho do
  erro, se  defeituoso literariamente falando, no me parece fora das
  condies legais e morais. Acho que se pode representar. No terminarei sem
  dizer duas palavras ao autor. O filho do erro peca por no ter
  base. A razo que leva a mulher de Travassos a esconder o segredo do nascimento
  de Carlos e a sofrer as acusaes e as suspeitas  ftil e sem valor. A ingenuidade
  de Manoel da Cunha e Elisa no  ingenuidade,  idiotia. Nenhum homem da idade
  de Cunha e nenhuma moa na idade de Elisa fazem ou dizem o que eles dizem e
  fazem, por simples singeleza de esprito.

Esta ligeira
  observao, feita com as mais amigveis intenes, h de aproveitar ao autor em
  quem se conhece disposio e vontade de trabalhar.

Rio de Janeiro, 8 de
  janeiro de 1864

Machado de Assis

PARECER SOBRE A COMDIA AO ENTRAR NA SOCIEDADE,
        EM UM ATO
  , DE LUIZ C. P. GUIMARES JNIOR.

Julgo no caso de ser
  aprovada a comdia do Sr. Guimares Jnior, Ao entrar na sociedade.

Mostra o Sr. Guimares
  Jnior vocao e facilidade para o gnero. Sem dvida ressente-se a sua
  composio da incerteza de um estreante; o estilo nem sempre  igual, falta s
  vezes movimento e vida; mas esses defeitos iro desaparecendo,  proporo que
  o autor se for amestrando.

O que no se pode
  contestar  que  um moo de talento e merece por esse ttulo o aplauso e a
  animao.

Rio, 12 de maro de
  1864

Machado de Assis
