CONTO, Almas Agradecidas, 1871.htm

Almas agradecidas

Texto Fonte:

Histrias Romnticas, Machado de Assis,

Rio de Janeiro: Edies W. M.
Jackson, 1938.

Publicado originalmente em Jornal das Famlias, maro de 1871.

NDICE

CAPTULO PRIMEIRO

CAPTULO II

CAPTULO III

CAPTULO IV

CAPTULO V

CAPTULO VI

CAPTULO VII

CAPTULO PRIMEIRO

Havia representao no Ginsio. A
pea da moda era ento a clebre Dama das camlias. A casa estava cheia.
No fim do quarto ato comeou a chover um pouco; do meio do quinto ato em
diante, a chuva redobrou de violncia.

Quando acabou o espetculo, cada
famlia entrou no seu carro; as poucas que no tinham esperavam uma estiada, e,
mediante os guarda-chuvas, l saram com as saias arregaadas,

.............. aos
olhos dando,

O que s mos
cobiosas vo negando.

Os homens abriam os seus
guarda-chuvas; outros chamavam tlburis; e pouco a pouco se foi despejando o
saguo, at que s ficaram dois rapazes, um dos quais abotoara at o pescoo o
palet, e esperava maior estiada para sair, porque alm de no ter
guarda-chuva, no via nenhum tlburi no horizonte.

O outro tambm abotoara o palet,
mas tinha guarda-chuva; no parecia, entretanto, disposto a abri-lo. Olhava de
esguelha para o primeiro, que fumava tranqilamente um charuto.

J o porteiro havia fechado as
duas portas laterais e ia fazer o mesmo  porta central, quando o rapaz do
guarda-chuva dirigiu ao outro estas palavras:

 Para que lado vai?

O interpelado compreendeu que o
companheiro lhe ia oferecer abrigo e respondeu, com palavras de agradecimento,
que morava na Glria.

  muito longe, disse ele, para
aceitar o abrigo que naturalmente me quer oferecer. Eu esperarei aqui um
tlburi.

 Mas a porta vai fechar-se,
observou o outro.

 No importa, esperarei do lado
de fora.

 No  possvel, insistiu o
primeiro; a chuva ainda est forte e pode aumentar mais. No lhe ofereo abrigo
at casa porque moro na Prainha, que  justamente do lado oposto; mas posso
cobri-lo at ao Rocio, onde encontraremos um tlburi.

  verdade, respondeu o rapaz que
no tinha guarda-chuva; no me havia ocorrido isto, aceito com prazer.

Saram os dois rapazes e foram at
ao Rocio. Nem sombra de tlburi ou calea.

 No admira, disse o rapaz do guarda-chuva;
foram todos com gente do teatro. Daqui a pouco haver algum de volta...

 Mas eu no quisera dar-lhe o
incmodo de o reter mais tempo aqui  chuva.

 Cinco ou dez minutos, talvez;
esperaremos.

A chuva veio contrariar estes bons
desejos do rapaz, caindo com furor. Mas o desejo de servir tem mil maneiras de
se manifestar. O rapaz do guarda-chuva props um meio excelente de escapar 
chuva e esperar conduo: era ir tomar ch ao hotel que mais  mo lhes
ficasse. O convite no era mau; tinha s o inconveniente de vir de um
desconhecido. Antes de lhe responder, o rapaz sem guarda-chuva deitou um rpido
olhar ao seu companheiro, espcie de exame prvio da condio social da pessoa.
Parece que a achou boa, porque aceitou o convite.

  levar muito longe a sua
bondade, disse ele, mas eu no posso deixar de abusar dela; a noite est
inclemente.

 Eu tambm costumo esquecer o
guarda-chuva, e amanh estarei nas suas mesmas circunstncias.

Foram para o hotel e da a pouco
tinham diante de si um excelente pedao de rosbife frio, acompanhado de no
menos excelente ch.

 H de desculpar a minha
curiosidade, disse o rapaz sem guarda-chuva; mas eu desejaria saber a quem devo
a obsequiosidade com que sou tratado h vinte minutos.

 No somos inteiramente
desconhecidos, respondeu o outro; a sua memria  que  menos conservadora do
que a minha.

 Donde me conhece?

 Do colgio. Andamos juntos no
colgio Rosa...

 Andei l,  verdade, mas...

 No se lembra do Oliveira? Aquele
que trocava as rguas por laranjas? Aquele que desenhava com giz o retrato do
mestre nas costas dos outros meninos?

 Que me diz?  o senhor?

 De carne e osso; eu mesmo.
Acha-me mudado, no?

 Oh! muito!

 No admira; eu era naquele tempo
uma criana rechonchuda e vermelha; hoje como v, estou quase to magro como D.
Quixote; e no foram trabalhos, porque eu no os tenho tido; nem desgostos, que
eu ainda no os experimentei. O senhor, porm,  que no mudou; se no fosse
esse pequeno bigode, pareceria o mesmo daquele tempo.

 E todavia no me ho faltado
desgostos, acudiu o outro; minha vida tem sido atribulada. A natureza tem
destas coisas.

 Casou-se?

 No; e o senhor?

 Tambm no.

A pouco e pouco comearam as
confidncias pessoais; cada um narrou aquilo que podia narrar, por maneira que,
ao fim da ceia, pareciam to ntimos como no tempo do colgio.

Sabemos destas revelaes mtuas,
que Oliveira era bacharel em direito, e comeava a advogar com pouco sucesso.
Herdara alguma coisa da av, ltima parenta que conservara at ento, tendo-lhe
morrido os pais antes de entrar na adolescncia. Estava com certo desejo de
entrar na vida poltica e contava com a proteo de alguns amigos de seu pai,
para ser eleito deputado  Assemblia Provincial Fluminense.

Magalhes era o nome do outro; no
herdara de seus pais dinheiro, nem amigos polticos. Aos 16 anos, achou-se s
no mundo; exercera vrios empregos de carter particular, at que conseguira
obter uma nomeao para o Arsenal de Guerra, onde estava atualmente. Confessou
que esteve a ponto de enriquecer, casando com uma viva rica; mas no revelou
as causas que lhe impediram essa mudana de fortuna.

A chuva cessara de todo. J uma
parte do cu se havia descoberto deixando aparecer o rosto da lua cheia, cujos
raios plidos e frios brincavam nas pedras e nos telhados midos.

Saram os nossos dois amigos.

Magalhes declarou que iria a p.

 No chove mais, disse ele; ou,
pelo menos, nesta meia hora; vou a p at  Glria.

 Pois bem, respondeu Oliveira; j
lhe disse o nmero da minha casa e do meu escritrio; aparea l algumas vezes;
folgarei de reatar as nossas relaes da meninice.

 Tambm eu; at breve.

Despediram-se na esquina da Rua do
Lavradio, e Oliveira enfiou pela de S. Jorge. Ambos foram pensando um no outro.

 Parece ser um excelente rapaz
este Magalhes, dizia o jovem advogado consigo; no colgio, foi sempre um
menino srio. Ainda o  agora, e at parece um pouco reservado, mas  natural
porque sofreu.

CAPTULO II

Trs dias depois, apareceu
Magalhes no escritrio de Oliveira; falou na sala a um porteiro que lhe pediu
o carto.

 No tenho carto, respondeu
Magalhes envergonhado; esqueci-me de o trazer; diga-lhe que  o Magalhes.

 Queira esperar alguns minutos,
tornou o porteiro; ele est conversando com uma pessoa.

Magalhes assentou-se numa cadeira
de braos, enquanto o porteiro assoava silenciosamente o nariz e tomava uma
pitada de rap, que lhe no ofereceu. Magalhes examinou detidamente as
cadeiras, as estantes, os quadros de gravuras, os capachos e as escarradeiras.
A sua curiosidade era minuciosa e sagaz; parecia estar avaliando o gosto ou a
riqueza de seu ex-colega.

Minutos depois, ouviu-se um rumor de
cadeiras, e no tardou que viesse da sala do fundo um velho alto e empertigado,
vestido com certo apuro, a quem o porteiro fez largos cumprimentos at o
patamar da escada.

Magalhes no esperou que o
porteiro fosse avisar Oliveira; atravessou o corredor que separava as duas
salas e foi ter com o amigo.

 Ora, viva! disse este apenas o
viu entrar. Estimo que no lhe houvesse esquecido a promessa. Sente-se; chegou
a casa com chuva?

 Comeou a chuviscar, quando eu
me achava a dois passos da porta, respondeu Magalhes.

 Que horas so?

 Pouco mais de duas, creio eu.

 O meu relgio est parado, disse
Oliveira, lanando o olhar de esguelha para o colete de Magalhes, que no
tinha relgio. Naturalmente, ningum mais me procurar hoje; e ainda que
venham, quero descansar.

Oliveira tocou a campainha apenas
acabou de proferir estas palavras. Veio o porteiro.

 Se vier algum, disse Oliveira,
no estou c.

O porteiro inclinou-se e saiu.

 Estamos livres de importunos,
disse o advogado, apenas o porteiro virou as costas.

Todas estas maneiras e palavras de
simpatia e cordialidade foram angariando a confiana de Magalhes, que comeou
a parecer alegre e franco com o seu ex-colega.

Longa foi a conversa, que durou
at s 4 horas da tarde. As 5 jantava Oliveira; mas o outro jantava s 3, e se
o no disse, era talvez por deferncia, se no fosse por clculo. Um jantar
copioso e escolhido no era melhor que o ramerro culinrio de Magalhes? Fosse
uma ou outra coisa, Magalhes suportou a fome com admirvel denodo. Eram 4
horas da tarde quando Oliveira deu acordo de si.

 Quatro horas! exclamou ele,
ouvindo as badaladas de um sino prximo. Naturalmente, j voc perdeu a hora do
jantar.

 Assim , respondeu Magalhes; eu
costumo jantar s 3 horas. No importa; adeus.

 Isso  que no; h de ir jantar
comigo.

 No; obrigado...

 Ande c, jantaremos no hotel
mais prximo, porque a minha casa  longe. Eu ando com idia de mudar de casa;
estou muito fora do centro da cidade. Vamos aqui ao Hotel de Europa.

Os vinhos eram bons; Magalhes
gostava de vinhos bons. No meio do jantar, tinha-se-lhe desenvolvido
completamente a lngua. Oliveira fazia quanto podia para tirar ao amigo da
infncia toda espcie de acanhamento. Isso e o vinho deram excelente resultado.

Desta ocasio em diante foi que
Oliveira comeou a apreciar o ex-colega. Era Magalhes um rapaz de agudo
esprito, boa observao, conversador ameno, um pouco lido em obras fteis e
correntes. Tinha, alm disso, o dom de ser naturalmente insinuante. Com estas
prendas juntas no era difcil, era antes faclimo angariar as boas graas de
Oliveira, que,  sua extrema bondade, reunia uma natural confiana, ainda no
diminuda pelos clculos da vida madura. Demais Magalhes tinha sido infeliz;
esta circunstncia era aos olhos de Oliveira um realce. Finalmente, o seu
ex-colega j lhe confiara no trajeto do escritrio ao hotel, que no contava um
amigo debaixo do sol. Oliveira queria ser esse amigo.

Qual importa mais  vida, ser Dom
Quixote ou Sancho Pana? O ideal ou o prtico? A generosidade ou a prudncia?
Oliveira no hesitava entre esses dois opostos papis; nem sequer pensara
neles. Estava no perodo do corao.

Apertaram-se os laos da amizade
entre os dois colegas. Oliveira mudou-se para a cidade, o que deu azo a que os
dois amigos se encontrassem mais vezes. A freqncia veio a uni-los ainda mais.

Oliveira apresentou Magalhes a
todos os seus amigos; levou-o  casa de alguns. A sua palavra afianava o
hspede que, dentro em pouco tempo, captava as simpatias de todos.

Nisto era Magalhes superior a
Oliveira. No faltava ao advogado inteligncia, nem maneiras, nem dom para se
fazer estimado. Mas os dotes de Magalhes superavam os dele. A conversa de
Magalhes era mais picante, mais variada, mais atraente. H muito quem prefira
a amizade de um homem sarcstico, e Magalhes tinha seus longes de sarcstico.

No se magoava com isto Oliveira,
antes parecia ter certa glria em ver que seu amigo obtinha por seu mrito a
estima dos outros.

Facilmente acreditar o leitor que
estes dois amigos se fizessem confidentes de todas as coisas, principalmente de
coisas de amores. Nada esconderam a este respeito um ao outro, com a diferena
de que Magalhes, no tendo amores atuais, confiou ao amigo apenas algumas
proezas antigas, ao passo que Oliveira, a braos com algumas aventuras, no
dissimulou nenhuma delas, e tudo contou a Magalhes.

E foi bem que o fizesse, porque
Magalhes era homem de bom conselho, dava ao amigo pareceres sensatos, que ele
ouvia e aceitava com grande proveito seu e para maior glria da recproca
amizade.

A dedicao de Magalhes ainda se
manifestava por outro modo. No era raro v-lo desempenhar um papel de conciliador,
auxiliar uma inocente mentira, ajudar o amigo em todas as dificuldades que o
amor depara aos seus alunos.

CAPTULO III

Um dia de manh, leu Oliveira,
ainda na casa, a notcia da demisso de Magalhes, impressa no Jornal do
Commercio. Grande foi a sua mgoa, mas ainda maior que a mgoa foi a raiva
que esta notcia lhe causou. Demitir Magalhes! Oliveira mal podia compreender
este ato do ministro. O ministro era necessariamente tolo ou tratante.

Havia patronato naquilo. No seria
pagamento a algum eleitor solcito?

Estas e outras conjeturas
preocuparam o advogado at a hora do almoo. Almoou pouco. O estmago
acompanhava a dor do corao.

Magalhes devia ir nesse dia ao
escritrio de Oliveira. Com que ansiedade esperou este a hora marcada! Esteve a
ponto de faltar a um depoimento de testemunhas. Mas a hora chegou e Magalhes
no apareceu. Oliveira estava sobre brasas. Qual a razo da falta? No atinava
com ela.

Eram quatro horas quando saiu do
escritrio, e sua resoluo imediata foi meter-se num tlburi e seguir para a
Glria.

Assim o fez.

Quando l chegou, estava Magalhes
lendo um romance. No parecia abatido pelo golpe ministerial. Todavia no
estava alegre. Fechou o livro lentamente e abraou o amigo.

Oliveira no podia conter a sua
clera.

 L vi hoje, disse ele, a notcia
da tua demisso.  uma patifaria sem nome...

 Por qu?

 Ainda o perguntas?

 Sim; por qu? O ministro 
senhor dos seus atos e responsvel por eles; podia demitir-me e f-lo.

 Mas fez mal, disse Oliveira.

Magalhes sorriu tristemente.

 No podia deixar de o fazer,
disse ele; um ministro  muitas vezes um amanuense do destino, que s parece
ocupar-se em me perturbar a vida e multiplicar todos os esforos. Que queres?
Eu j estou acostumado, no resisto; dia vir em que estes golpes tero um
termo. Dia vir em que eu possa vencer a m fortuna de uma vez para sempre.
Tenho o remdio nas mos.

 Deixa-te de tolices, Magalhes.

 Tolices?

 Mais que tolices; s forte!

Magalhes abanou a cabea.

 No custa aconselhar fortaleza,
murmurou ele; mas quem tem sofrido como eu...

 J no contas com os amigos?

 Os amigos no podem tudo.

 Muito obrigado! Eu te mostrarei
se podem.

 No te iludas, Oliveira; no te
esforces a favor de um homem que a sorte condenou.

 Histrias!

 Sou um condenado.

 s um fracalho.

 Acreditas que eu...

 Acredito que s um fracalho, e
que no pareces aquele mesmo Magalhes que sabe conservar o sangue frio em
todas as ocasies graves. Descansa, eu tirarei desforra brilhante. Antes de
quinze dias estars empregado.

 No creias...

 Desafias-me?

 No; bem conheo de que  capaz
teu corao nobre e generoso... mas...

 Mas o qu?

 Receio que a m fortuna seja
mais forte do que tu.

 Vers.

Oliveira deu um passo para a
porta.

 Nada disso impede que venhas
jantar comigo, disse ele, voltando-se para Magalhes.

 Obrigado; j jantei.

 Anda ao menos comigo para ver se
te distrais.

Magalhes recusou; mas Oliveira
insistiu com to boa vontade que no havia recusar.

Durante a noite seguinte, meditou
Oliveira acerca do negcio de Magalhes. Tinha amigos importantes, os mesmos
que forcejavam por lhe abrir carreira poltica. Oliveira pensou neles como os
mais prprios para levar a cabo a obra de seus desejos. O grande caso para ele
era empregar Magalhes, em cargo tal que despicasse da prepotncia ministerial.
O substantivo prepotncia era a exata expresso de Oliveira.

No lhe ocultaram os amigos que o
caso no era fcil; mas prometeram que a dificuldade seria vencida. No se
dirigiram ao ministro da Guerra, mas a outro; Oliveira ps em campo o recurso
feminino. Duas senhoras de seu conhecimento foram em pessoa falar ao ministro,
em favor do feliz candidato.

No negou o digno membro do poder
executivo a dificuldade de criar um lugar para dar ao pretendente. Seria
cometer a injustia de tirar o po a empregados teis ao pas.

Instavam, porm, os padrinhos,
audincias e cartas, pedidos de toda sorte; nada ficou por empregar em favor de
Magalhes.

Depois de cinco dias de lutas e
solicitaes dirias, declarou o ministro que poderia dar um bom emprego a
Magalhes na Alfndega de Corumb. J era boa vontade da parte do ministro, mas
os protetores de Magalhes recusaram a graa.

 O que se deseja de V. Excia.,
disse um deles,  que o nosso afilhado seja empregado aqui mesmo na Corte. Vai
nisso uma questo de honra, e uma questo de comodidade.

Tinha boa vontade o ministro, e
entrou a cogitar no meio de acomodar o pretendente. Havia em uma das
reparties a seu cargo um empregado que durante o ano faltava muitas vezes ao
ponto, e na ltima peleja eleitoral votara contra o ministro. Caiu-lhe uma
demisso em casa, e para evitar empenhos mais fortes, no mesmo dia em que
apareceu a demisso do empregado vadio, apareceu a nomeao de Magalhes.

Foi o prprio Oliveira que levou a
Magalhes o desejado decreto.

 D-me c um brao, disse ele, e
reza a um mea culpa. Venci o destino. Ests nomeado.

 Qu! ser possvel?

 Aqui tens o decreto!

Magalhes caiu nos braos de
Oliveira.

A gratido de quem recebe um
benefcio  sempre menor que o prazer daquele que o faz. Magalhes exprimia todo
seu reconhecimento pela dedicao e perseverana de Oliveira; mas a alegria de
Oliveira no tinha limites. A explicao desta diferena est talvez neste
fundo de egosmo que h em todos ns.

Em todo caso, a amizade dos dois
ex-colegas ganhou com isso maior solidez.

CAPTULO IV

O novo emprego de Magalhes era
muito melhor que o primeiro em categoria e lucro.

De maneira que a demisso, longe
de lhe ser um golpe funesto do destino, foi um lance de melhor fortuna.

Passou Magalhes a ter melhor casa
e a alargar um pouco mais a bolsa, pois que a tinha agora mais farta que
dantes; Oliveira observava esta mudana e regozijava-se com a idia de que
contribura para ela.

A vida de ambos continuaria por
este teor, plcida e indiferente, se um acontecimento no a viesse perturbar de
repente.

Um dia achou Magalhes que
Oliveira parecia preocupado. Perguntou-lhe francamente o que era.

 Que h de ser? disse Oliveira.
Eu sou um miservel nessas coisas de amores; estou apaixonado.

 Queres que te diga uma coisa?

 O qu?

 Acho que fazes mal em diluir o
teu corao com essas mulheres.

 Que mulheres?

 Essas.

 No me compreendes, Magalhes; a
minha atual paixo  sria; amo uma menina honesta.

 Que mgoas ento so essas?
Casa-te com ela.

 Esse  o ponto. Creio que ela
no me ama.

 Ah!

Houve um silncio.

 Mas no te resta esperana
nenhuma? perguntou Magalhes.

 No posso dizer isso; no penso
que ela seja sempre esquiva ao meu sentimento; mas por ora nada h entre ns.

Magalhes entrou a rir.

 Pareces-me calouro, homem! disse
ele. Quantos anos tem ela?

 Dezessete.

 A idade da inocncia; suspiras
em silncio e queres que ela te adivinhe. Nunca chegars ao cabo. Tem-se comparado
o amor  guerra. Assim . No amor, querem-se atos de bravura como na guerra.
Avana afoitamente e vencers.

Oliveira ouvia estas palavras com
a ateno de um homem sem iniciativa, a quem todo conselho serve. Confiava no
juzo de Magalhes e o parecer dele era razovel.

 Parece-te ento que eu devo
expor-me?

 Sem dvida.

O advogado referiu depois todas as
circunstncias do seu encontro com a moa em questo. Pertencia a uma famlia com quem esteve em casa de terceiro; o pai era um excelente homem,
que o convidou a freqentar a casa, e a me uma excelente senhora que ratificou
o convite do marido. Oliveira no tinha ido l depois disso, porque, segundo
imaginava, a moa no correspondia  sua afeio.

 s um tolo, disse Magalhes
quando o amigo acabou a narrao. Vs a rapariga num baile, ficas gostando
dela, e s porque ela no te caiu logo nos braos, desistes de lhe freqentar a
casa. Oliveira, tem juzo: vai  casa dela, e dir-me-s daqui a pouco tempo se
te no aproveita o conselho. Queres casar, no?

 Oh! podias pr em dvida?...

 No;  uma pergunta. No 
casamento romntico?

 Que queres dizer com isso?

 Ela  rica?

Oliveira franziu a testa.

 No te zangues, disse Magalhes.
Eu no sou nenhum esprito rasteiro; tambm conheo as delicadezas do corao.
Nada vale mais que um amor verdadeiro e desinteressado. No se me h de
censurar, porm, que eu procure ver o lado prtico das coisas; um corao de
ouro vale muito; mas um corao de ouro com ouro vale mais.

 Ceclia  rica.

 Pois tanto melhor!

 Afiano-te, porm, que essa
considerao...

 No precisas afianar nada; eu
bem sei o que vales, disse Magalhes apertando as mos de Oliveira. Anda, meu
amigo, no te detenho; procura a tua felicidade.

Animado por estes conselhos,
tratou Oliveira de sondar o terreno para declarar a sua paixo. Omiti de
propsito a descrio de Ceclia feita por Oliveira ao seu amigo Magalhes. No
desejava exagerar aos olhos dos leitores a beleza da moa, que a um namorado parece
sempre maior do que realmente . Mas Ceclia era realmente formosa. Era uma
beleza, uma flor em toda a extenso da palavra. Todas as foras e fulgores da
mocidade estavam nela, que apenas saa da adolescncia e parecia anunciar longa
e esplndida juventude. No era alta, mas tambm no era baixa. Era acima de
me. Era muito corada e viva; tinha uns olhos brilhantes e buliosos, olhos de
namorada ou namoradeira; era talvez um pouco afetada, mas deliciosa; tinha
certas exclamaes que lhe ficavam bem nos seus lbios finos e midos.

Oliveira no viu logo todas estas
coisas na noite em que lhe falou; mas no tardou que ela se lhe revelasse
assim, desde que comeou a freqentar a casa dela.

Nisto era Ceclia ainda um pouco
criana; no sabia dissimular, nem era difcil captar-lhe a confiana. Mas,
atravs das aparncias de frivolidade e volubilidade, descobria-lhe Oliveira
slidas qualidades do corao. O contato redobrou o seu amor. No fim de um ms,
Oliveira parecia perdido por ela.

Magalhes continuava a ser o
conselheiro de Oliveira e o seu nico confidente. Um dia, pediu-lhe o namorado
que fosse com ele  casa de Ceclia.

 Tenho medo, disse Magalhes.

 Por qu?

 Sou capaz de precipitar tudo, e
isso no sei se ser conveniente antes de conhecer bem o terreno. Em qualquer
caso, no  mau que eu v examinar por mim mesmo as coisas. Irei quando
quiseres.

 Amanh?

 Seja amanh.

No dia seguinte, Oliveira
apresentou Magalhes em casa do comendador Vasconcelos.

  o meu melhor amigo, disse
Oliveira.

Na casa de Vasconcelos j
estimavam o advogado; esta apresentao bastava para recomendar Magalhes.

CAPTULO V

O comendador Vasconcelos era um
velho folgazo. Estouvado na mocidade, no o era menos na velhice. O
estouvamento na velhice , por via de regra, um seno; todavia, o estouvamento
de Vasconcelos tinha um toque peculiar, um carter todo seu, por modo que era
impossvel compreender aquele velho sem aquele estouvamento.

Contava j seus cinqenta e oito
anos, e andaria lpido como um rapaz de vinte anos, se no fosse uma volumosa
barriga que, desde os quarenta anos, lhe comeara a crescer com grave desdouro
das suas graas fsicas, que as tinha, e sem as quais era duvidoso que a Sra.
D. Mariana houvesse casado com ele.

D. Mariana, antes de casar,
professava um princpio seu: o casamento  um estado vitalcio; cumpre no
precipitar a escolha do noivo. Pelo que, rejeitou trs pretendentes que, apesar
de suas boas qualidades, tinham um defeito fsico importante: no eram bonitos.
Vasconcelos alcanou o seu Austerlitz onde os outros haviam achado Waterloo.

Salvante a barriga, Vasconcelos
era ainda um belo velho, uma runa magnfica. No tinha paixes polticas:
votara alternadamente com os conservadores e os liberais para contentar os
amigos que tinha em ambos os partidos. Conciliava as opinies sem arriscar as
amizades.

Quando a acusavam deste ceticismo
poltico, respondia com uma frase que, se no discriminava as suas opinies,
abonava o seu patriotismo:

 Somos todos brasileiros.

Quadrava o gnio de Magalhes com
o de Vasconcelos. A intimidade no tardou muito. J sabemos que o amigo de
Oliveira tinha a grande qualidade de se fazer querido com pouco trabalho.
Vasconcelos morria por ele; achava-lhe imensa graa e slido juzo. D. Mariana
chamava-lhe a alegria da casa; Ceclia no tinha mais condescendente
conversador.

Para os fins de Oliveira era
excelente.

No se descuidou Magalhes de sondar
o terreno, a ver se podia animar o amigo. Achou o terreno excelente. Falou uma
vez  moa a respeito do amigo e ouviu-lhe palavras de animadora esperana.
Parece-me ser, disse ela, um excelente corao.

 Afirmo que o , disse Magalhes;
conheo-o h muito tempo.

Quando Oliveira soube destas
palavras, que no eram muita coisa, ficou muito animado.

 Creio que posso ter esperanas,
disse ele.

 Nunca te disse outra coisa,
respondeu Magalhes.

Magalhes nem sempre podia servir
aos interesses do amigo, porque Vasconcelos, a quem cara em graa,
confiscava-o horas inteiras, ou palestrando, ou jogando o gamo.

Um dia Oliveira perguntou ao amigo
se era conveniente arriscar uma carta.

 Ainda no, deixa-me preparar a
coisa.

Oliveira acedeu.

A quem ler estas pginas muito por
alto, parecer inverossmil da parte de Oliveira semelhante necessidade de um
cicerone.

No .

Oliveira nenhuma demonstrao dera
at ali  moa, que se conservava ignorante do que se passava dentro dele; e se
assim praticava, era por um excesso de timidez, fruto de suas proezas com
mulheres de outra classe.

Nada intimida mais a um
conquistador de mulheres fceis do que a ignorncia e a inocncia de uma
donzela de dezessete anos.

Acresce que, se Magalhes era de opinio
que ele no se demorasse em expor os seus sentimentos, j agora pensava que era
melhor no arriscar golpe sem certeza do resultado.

A dedicao de Magalhes tambm
parecer condescendente aos espritos severos. Mas a que se no expe a verdadeira
amizade?

Na primeira ocasio que se lhe
deparou, tratou Magalhes de perscrutar o corao da moa.

Era de noite; havia gente em casa. Oliveira estava ausente. Magalhes conversava com Ceclia a respeito de um chapu com
que uma senhora idosa entrara na sala.

Magalhes fazia a respeito do
chapu mil conjeturas burlescas.

 Aquele chapu, dizia ele,
parece-me um ressuscitado. Houve naturalmente alguma epidemia de chapus em que
morreu aquele, acompanhado de outros seus irmos. Aquele ressuscitou, para vir
dizer a este mundo o que  o paraso dos chapus.

Ceclia reprimia uma risada.

Magalhes continuava:

 Eu, se fosse aquele chapu,
pedia uma penso como invlido e como raridade.

Isto era mais burlesco que
picante, mais estrdio que engraado; todavia, fazia rir Ceclia.
Repentinamente, Magalhes ficou srio e consultou o relgio.

 J se vai embora? perguntou a
moa.

 No, senhora, disse Magalhes.

 Guarde ento o relgio.

 Admira-me que Oliveira ainda no
viesse.

 Vir mais tarde. Os senhores so
muito amigos?

 Muito. Conhecemo-nos desde
crianas.  uma bela alma.

Houve um silncio.

Magalhes cravou os olhos na moa,
que olhava para o cho, e disse:

 Feliz aquela que o possuir.

A moa no revelou a menor
impresso ao ouvir estas palavras de Magalhes. Ele repetiu a frase, e ela
perguntou se no seriam horas de tomar ch.

 J amou, D. Ceclia? perguntou
Magalhes.

 Que pergunta  essa?

  uma curiosidade.

 Nunca amei.

 Por qu?

 Sou muito criana.

 Criana!

Outro silncio.

 Conheo algum que a ama muito.

Ceclia estremeceu e ficou muito
corada; no respondeu nem se levantou. Para sair, porm, da situao em que as
palavras de Magalhes a deixara, disse rindo:

 Essa pessoa... quem ?

 Quer saber o nome?

 Quero.  seu amigo?

 .

 Diga o nome.

Outro silncio.

 Promete no ficar zangada
comigo?

 Prometo.

 Sou eu.

Ceclia esperava ouvir outra
coisa; esperava ouvir o nome de Oliveira. Qualquer que fosse a sua inocncia,
tinha percebido naqueles ltimos dias que o rapaz tinha queda por ela. Da parte
de Magalhes no esperava semelhante declarao; todavia, o seu espanto no foi
de clera, apenas surpresa.

A verdade  que ela no amava
nenhum deles.

No tendo a moa respondido logo,
Magalhes disse com um sorriso benvolo:

 J sei que ama outro.

 Que outro?

 Oliveira.

 No.

Era a primeira vez que Magalhes apresentava
um aspecto grave; penalizada com a idia de que lhe houvesse com o silncio
causado alguma tristeza, que ela adivinhava, posto que no sentisse, Ceclia
disse ao fim de alguns minutos:

 O senhor est brincando comigo?

 Brincando! disse Magalhes. Tudo
quanto quiser, menos isso; no se brinca com o amor ou o sofrimento. J lhe
disse que a amo; responda-me francamente se posso nutrir alguma esperana.

A moa no respondia.

 No poderei viver ao p da
senhora sem uma esperana, embora remota.

 O pap  quem decide de mim,
disse ela desviando a conversa.

 Pensa que eu sou desses coraes
que se contentam com o consentimento paterno? O que eu desejo possuir primeiro
 o seu corao. Diga-me: posso esperar essa fortuna?

 Talvez, murmurou a menina,
levantando-se envergonhada dessa singela palavra.

CAPTULO VI

Era a primeira declarao que
Ceclia ouvia da boca de um homem. No estava preparada para ela. Tudo o que
ouvira lhe causara um inexplicvel alvoroo.

Posto que no amasse nenhum dos
dois, apreciava ambos os rapazes, e no seria difcil que cedesse ao pedido de
um deles e viesse a am-lo apaixonadamente.

Dos dois rapazes, o que mais
depressa conseguiria vencer, dado o caso que se declarassem ao mesmo tempo, era
sem dvida Magalhes, cujo esprito galhofeiro e presena insinuante deviam
influir mais no esprito da moa.

Minutos depois da cena narrada no
captulo anterior, j os olhos de Ceclia procuravam os de Magalhes, mas
rapidamente, sem se demorar neles; todos os sintomas de um corao que no se
demorar em ceder.

Magalhes tinha a vantagem de
conservar todo o sangue frio no meio da situao que se lhe apresentava, e isso
era excelente para no descobrir aos olhos estranhos o segredo que ele tinha
interesse em conservar.

Pouco depois, entrou Oliveira.
Magalhes deu-se pressa em o chamar de parte.

 Que h? perguntou Oliveira.

 Boas notcias.

 Falaste-lhe?

 Positivamente no; mas
encaminhei o negcio de maneira que talvez em poucos dias tenha a tua situao
mudado completamente.

 Mas que houve?

 Falei-lhe de amores; ela pareceu
indiferente a essas idias; disse-lhe ento gracejando que a amava...

 Tu?

 Sim. De que te admiras?

 E que disse ela?

 Riu-se. Ento perguntei-lhe
velhacamente se amava algum. E ela a isto respondeu que no, mas por modo que
me parecia uma afirmativa. Deixa o caso por minha conta. Amanh, desfao a
meada; digo-lhe que eu estava brincando... Mas paremos aqui, que a vem o
comendador.

Efetivamente Vasconcelos chegara 
janela onde os dois estavam. Uma das manias de Vasconcelos era comentar durante
o dia todas as notcias que os jornais publicavam de manh. Os jornais daquele
dia falavam de um casal encontrado morto num quarto da casa em que residia.
Vasconcelos desejava saber se os dois amigos optavam pelo suicdio,
circunstncia esta que o levaria a adotar a hiptese do assassinato.

Foi esta conversa uma completa
diverso ao assunto amoroso, e Magalhes aproveitou o debate entre Oliveira e
Vasconcelos para ir conversar com Ceclia.

Falaram de coisas indiferentes,
mas Ceclia estava menos expansiva; Magalhes sups a princpio que fosse um
sintoma de esquivana; no era. Bem o notou ele quando, ao sair, Ceclia
correspondeu energicamente ao seu apertado aperto de mo.

 Pensas que serei feliz,
Magalhes? perguntou Oliveira apenas se acharam na rua.

 Penso.

 No imaginas que dia passei
hoje.

 No hei de imaginar!

 Olha, nunca pensei que esta
paixo pudesse dominar tanto a minha vida.

Magalhes animou o rapaz, que o
convidou a cear, no porque o amor lhe deixasse largo campo s exigncias do
estmago, seno porque havia jantado pouco.

Eu peo perdo aos meus leitores, se
entro nestas explicaes a respeito da comida.

Quer-se um heri romntico, acima
das necessidades vulgares da vida humana; mas no posso deixar de as mencionar,
no por sistema, mas por ser fiel  histria que estou contando.

A ceia foi alegre, porque
Magalhes e a tristeza eram incompatveis. Oliveira, apesar de tudo, comeu
pouco, Magalhes largamente. Entendia que lhe cumpria pagar a ceia; mas o amigo
no consentiu nisso.

 Olha, Magalhes, disse Oliveira
ao despedir-se dele. A minha felicidade est nas tuas mos; s capaz de dar
conta dela?

 No se devem prometer coisas
tais; o que eu te afirmo  que no pouparei esforos.

 E pensas que serei feliz?

 Quantas vezes queres que to
diga?

 Adeus.

 Adeus.

No dia seguinte, Oliveira mandou
dizer a Magalhes que estava um pouco incomodado. Magalhes foi visit-lo.

Achou-o de cama.

 Estou com alguma febre, disse o
advogado; dize isto mesmo ao comendador, a quem eu prometi de ir l hoje.

Magalhes cumpriu o pedido.

Era a ocasio de se manifestar a
dedicao de Magalhes. No faltou este moo a to sagrado dever. Passava com
Oliveira a tarde e as noites e s se separava dele para ir, s vezes,  casa de
Vasconcelos, que era isso mesmo o que Oliveira lhe pedia.

 Fala-lhe sempre de mim, dizia
Oliveira.

 No fao outra coisa.

E assim era. Magalhes no cessava
de dizer que vinha ou ia para casa de Oliveira, cuja doena ia tomando um
aspecto grave.

 Que amigo! murmurava consigo D.
Mariana.

 O senhor  um bom corao, dizia
Vasconcelos apertando as mos de Magalhes.

 O senhor Oliveira deve
querer-lhe muito, dizia Ceclia.

 Como a um irmo.

A doena de Oliveira era grave;
durante todo o tempo que durou, no se desmentiu nunca a dedicao de
Magalhes.

Oliveira admirava-o. Via que o
benefcio que lhe fizera no cara em m terra. Grande foi a sua alegria
quando, ao comear a convalescena, Magalhes lhe pediu duzentos mil-ris, com
promessa de os pagar no fim do ms.

 Quanto quiseres, meu amigo. Tira-os
ali da secretria.

 Acredita que isto me vexa
imensamente, disse Magalhes, metendo na algibeira duas notas de cem mil-ris.
Nunca te pedi dinheiro; agora, menos que nunca, devia pedir-to.

Oliveira compreendeu o pensamento
do amigo.

 No sejas tolo; a nossa bolsa 
comum.

 Oxal que esse belo princpio
possa ser realizado literalmente, disse Magalhes rindo.

Oliveira no lhe falou nesse dia a
respeito de Ceclia. Foi o prprio Magalhes que encetou a respeito dela uma
conversa.

 Queres ouvir uma coisa? disse
ele. Apenas sares, manda-lhe uma carta.

 Por qu? Crs que...

 Creio que  a hora do golpe.

 S para a semana poderei sair.

 No importa, vir a tempo.

Para compreender bem a situao
singular em que se achavam estes personagens todos,  mister transcrever aqui
as palavras com que nessa mesma noite se despediram Magalhes e Ceclia 
janela da casa desta:

 At amanh, disse Magalhes.

 Virs cedo?

 Venho s 8 horas.

 No faltes.

 Queres que te jure?

 No precisa; adeus.

CAPTULO VII

Quando entrou a semana seguinte,
j na vspera do dia em que Oliveira se dispunha a sair e visitar o comendador,
recebeu uma carta de Magalhes.

Leu-a com pasmo:

Meu querido amigo, dizia Magalhes;
desde ontem tenho a cabea fora de mim. Aconteceu-me a maior desgraa que podia
cair sobre ns. Com mgoa e vergonha to anuncio, meu prezadssimo amigo, a quem
tanto devo.

Prepara o teu corao para
receber o golpe que j me feriu, e por muito que ele te faa sofrer, no
sofrers mais do que eu j sofri...

Saltaram duas lgrimas dos olhos
de Oliveira.

Adivinhava mais ou menos o que
seria. Cobrou foras e continuou a leitura:

Descobri, meu querido amigo, que
Ceclia (como direi?) que Ceclia me ama! No imaginas como me fulminou esta
notcia. Que ela no te amasse, como ambos desejvamos, era j doloroso; mas
que se lembrasse de consagrar os seus afetos ao ltimo homem que ousaria
opor-se ao seu corao,  uma ironia da fatalidade. No te contarei meu
procedimento; facilmente o adivinhars. Prometi no voltar l mais.

Queria ir eu mesmo comunicar-te
isto; mas no ouso contemplar a tua dor, nem te quero dar o espetculo da
minha.

Adeus, Oliveira. Se a fatalidade
ainda consentir que nos vejamos (impossvel!), at um dia; se no... Adeus!

Adivinha o leitor o golpe que esta
carta descarregou no corao de Oliveira. Mas  nas grandes crises que o
esprito do homem se mostra grande. A dor do amante superada pela dor do amigo.
O final da carta de Magalhes aludia vagamente a um suicdio; Oliveira deu-se
pressa em ir impedir esse ato de nobre abnegao. Demais, que corao tinha
ele, a quem confiasse todos os seus desesperos?

Vestiu-se apressadamente e correu
 casa de Magalhes.

Disseram-lhe que no estava em
casa.

Oliveira ia subindo:

 Perdo, disse o criado; eu tenho
ordem de no deixar subir ningum.

 Razo demais para eu subir,
respondeu Oliveira, afastando o criado.

 Mas...

 Trata-se de uma grande desgraa!

E subiu apressadamente a escada.

Na sala, no havia ningum.
Oliveira entrou afoitamente no gabinete. Achou Magalhes sentado  secretria
inutilizando alguns papis.

Perto dele havia um copo com um
lquido vermelho.

 Oliveira! exclamou ele, quando o
viu entrar.

 Sim, Oliveira, que vem salvar a
tua vida, e dizer-te quanto s grande!

 Salvar-me a vida? murmurou
Magalhes; quem te disse que eu?...

 Tu, na tua carta, respondeu
Oliveira. Veneno! continuou ele, vendo o copo. Oh! nunca!

E despejou o copo na escarradeira.

Magalhes parecia atnito.

 Eia! disse Oliveira; d c um
brao! Este amor infeliz foi ainda um lance de felicidade, porque conheci bem
que corao de ouro  esse que te bate no peito.

Magalhes estava de p; caram nos
braos um do outro. O abrao comoveu Oliveira, que s ento deu largas  sua
dor. O amigo consolou-o como pde.

 Bem, disse Oliveira, tu que
foste causa indireta da minha desgraa, deves ser agora o remdio que me h de
curar. S eternamente meu amigo.

Magalhes suspirou.

 Eternamente! disse ele.

 Sim.

 Minha vida  curta, Oliveira; eu
devo morrer; se no for hoje, s-lo- amanh.

 Mas isso  uma loucura.

 No : eu no te disse tudo na
carta. Falei-te do amor que Ceclia me tem; no te falei do amor que lhe tenho
eu, amor que me nasceu sem eu pensar. Brinquei com fogo, queimei-me.

Oliveira curvou a cabea.

Houve um longo silncio entre os
dois amigos.

Ao cabo de um longo quarto de hora,
Oliveira ergueu os olhos vermelhos de lgrimas e disse a Magalhes,
estendendo-lhe a mo:

 S feliz, que o mereces; no
tens culpa disto. Procedeste honradamente; compreendo que era difcil estar ao
p dela sem sentir o fogo da paixo. Casa-te com Ceclia, pois que se amam, e
fica certo de que serei sempre o mesmo amigo.

 Oh! tu s imenso!

Magalhes no ajuntou nenhum
substantivo a este adjetivo. No nos  dado perscrutar o seu pensamento
interior. Caram os dois amigos nos braos um do outro com grandes exclamaes
e protestos.

Uma hora depois de ali haver
entrado, saa Oliveira triste mas consolado.

 Perdi um amor, dizia ele
consigo, mas ganhei um verdadeiro amigo, que j o era antes.

Magalhes veio logo atrs dele.

 Oliveira, disse ele, passaremos
o dia juntos; receio que faas alguma loucura.

 No! o que me ampara nesta queda
s tu.

 No importa; passaremos o dia
juntos.

Assim aconteceu.

Neste dia, no foi Magalhes 
casa do comendador.

No dia seguinte, apenas l apareceu,
disse-lhe Ceclia:

 Estou zangada contigo; por que
no vieste ontem?

 Tive de sair da cidade em
servio pblico e por l fiquei a noite.

 Como passaste?

 Bem.

Seis semanas depois uniam eles os seus
destinos. Oliveira no compareceu  festa com grande admirao de Vasconcelos e
de D. Mariana, que no compreendiam essa indiferena da parte de um amigo.

Nunca houve a menor sombra de
dvida entre Magalhes e Oliveira.

Foram amigos at  morte, posto
que Oliveira no freqentasse a casa de Magalhes.
