Conto, Onze anos depois, 1875

Onze anos depois

Texto-Fonte:

http://www2.uol.com.br/machadodeassis

Publicado originalmente em Jornal das Famlias, outubro,
1875.

I

 Alves!

 Moreira!

Soltados estes
dois gritos, os dois indivduos, a quem pertenciam aqueles nomes, trocaram um
formidvel abrao, com palmadas nas costas, a despeito de se passar a cena na
Rua do Ouvidor, s duas horas da tarde. Abraados e palmejados os dois amigos
(eram evidentemente amigos) tornaram a exclamar:

 Ora o Alves!

 Ora o Moreira!

 H dez anos...
Dez ou onze? Onze, creio eu, onze anos que nos no vemos... Foi em 1860 que eu
sa daqui... e fui...

 Gozar a vida,
magano!

 Oh! pouco!
disse Moreira suspirando... Posso dizer que nada.

 Impossvel!

  a pura
verdade. Alguma coisa me diverti,  certo; nem  possvel que um homem, a no
ser um misantropo, deixe de se divertir na Europa... Mas se soubesses a causa
que me levou daqui...

 Que foi?

 Sabers depois.
Por agora, dize-me: ests casado?

 H cinco anos.

 Tens algum
filho?

 No.

 Livre! livre, e
no foste ainda  Europa?

 Ainda no
posso, mas no estou longe disso. Sabes que um advogado, que no herdou bens de
fortuna, precisa primeiro acumular algum cabedalzinho; trato disso agora... Que
calor! Anda tomar alguma coisa...

 Conversar
apenas contigo, respondeu Moreira dando o brao ao amigo e dirigindo-se com ele
para a casa do Carceller.

Ambos eles iam
contentes e palreiros. Regulavam pela mesma idade, trinta a trinta e trs anos;
eram igualmente magros, no muito, e quase de igual altura. Moreira vestia mais
apuradamente que Alves, trazia certo cunho parisiense, que de todo faltava ao
amigo.

Moreira nada
tomou no Carceller enquanto Alves sorvia deliciosamente um sorvete de anans.
Veio cada um deles com a histria daqueles anos em que se no tinham visto.
Alves tinha menos que contar; o principal assunto foi o casamento, que se
passou de uma maneira singular, porque no precedeu nenhum namoro entre ele e a
mulher. A mulher era uma moa, assaz bonita, que vivia retiradamente, com a
me, e parecia ter jurado no comungar nunca nos altares do matrimnio. Alves
freqentava a casa, como advogado da me, num processo em que um sujeito
possuidor de quinhentos contos queria tirar-lhe uma casa que valia vinte, e a
que ele tinha tanto direito como o gro-turco. Alves venceu o processo, e no
foi esse o nico triunfo obtido, porque a me, no dia em que ele lhe foi levar
a notcia da sentena final, chamou-o de parte e disparou-lhe estas palavras:

 Doutor, se os
laos da famlia nos ligarem, como j nos ligam os do corao...

Alves recuou. D.
Mariana olhava para ele como quem esperava uma resposta; o advogado no teve
remdio seno dizer alguma coisa.

 Minha senhora,
murmurou ele, eu no teria dvida nenhuma em corresponder ao que me prope se o
meu corao j no estivesse ligado a outra pessoa...

D. Mariana
suspirou.

 Bem sabe que
estas coisas, continuou Alves, exigem como condio indispensvel o concurso do
corao.

Parou, cobrou
nimo e prosseguiu:

 No entanto, o
seu afeto podia fazer muito em meu favor; e se eu no posso ter a honra de ser
seu marido...

Aqui as sobrancelhas
de D. Mariana descreveram a figura de dois acentos circunflexos, a boca assumiu
a forma de um O, e o Dr. Alves, pasmado daquele pasmo, deu  sua fisionomia um
ar de ponto de interrogao.

Deste ponto de
interrogao passou a um ponto de admirao, quando D. Mariana lhe explicou que
no era para ela que propunha o casamento, mas para sua filha, pois notara que
o advogado alguma simpatia lhe votava, e ela por outro lado desejava v-la
feliz.

O Dr. Alves
respirou e confirmou a simpatia a que aludira a Sra. D. Mariana, acrescentando
que a maior fortuna da sua vida seria desposar a formosa D. Eullia.

 Nem est longe
disso, respondeu a me.

 Deveras?

 Parece-me que
sim.

A boa velha
calou-se alguns instantes, abriu as asas a um suspiro, que naturalmente ficou
vagabundando no ar, e a despeito da cabeleira postia que trazia e da tosse que
a mortificava, fez ao futuro genro estas revelaes:

 Fez mal em
atribuir-me um pensamento que no tive; eu no me propunha a casar, nem me
casarei jamais, enquanto me restar memria do meu prezado Tibrcio, que est no
cu. Propostas tive, decerto, e mais de uma, e no h muitos meses, mas uma
viva de quarenta anos no deve casar (ela tinha cinqenta e oito). De que me
serviria agora unir os meus dias a um mancebo? Cedo envelheceria e ele a
ficava na fora da idade a pagar com desprezos o amor que eu lhe tivesse...

O Dr. Alves
lembrava-se apenas deste resumo do discurso que lhe fizera D. Mariana, o qual
no durou menos de dezoito minutos. A razo era clara; todo ele era agora
Eullia; amava a moa em segredo, e nunca chegara a declarar-se por ver que ela
se mostrava fria com ele. Seu propsito era, apenas acabasse o processo, no
freqentar mais a casa; imagina-se facilmente o alvoroo com que ele ouviu a
proposta de D. Mariana no momento em que todas as suas mal nascidas esperanas
haviam morrido em boto.

Dois dias depois,
a boa velha deu parte ao Dr. Alves de que Eullia estava disposta a casar com ele.

 No te direi,
disse Alves, concluindo a histria que acabo de resumir, e que ele contou ao
amigo,  mesa da casa do Carceller  no te direi que Eullia se mostrasse
loucamente apaixonada por mim. No havia sequer paixo. Havia, porm, boa
vontade; o meu amor fez o resto; casamo-nos, e hoje creio que sou feliz. Minha
sogra morreu alguns meses depois, e, como boa alma que era, agradeceu-me o ter
dado  filha a felicidade de que ela era digna, e pediu-me que fosse sempre
esposo exemplar.

Ouviu Moreira
toda esta histria com a natural curiosidade que inspiram os acontecimentos da
vida de um amigo, com quem a gente se encontra no fim de onze anos. No teve de
referir nenhuma histria de casamento; mas falou de amores fortuitos, de que
fora heri durante a viagem na Europa.

No quer isto
dizer que no tivesse tambm a sua pgina sria no livro da vida. Uma teve, mas
anterior  viagem.

 Qual? perguntou
Alves.

 Coisas que l
vo.

 No me contaste
nada desse tempo...

 No pude
contar; tinha ento a dor no corao. Foi essa pgina, sria e triste, a causa
da minha sada do Brasil.

 Ah!

Um silncio.

 Mas que foi?

 Que seria?
Amores.

 Amores, tu!

 Pois ento?
disse Moreira, alguma vez me havia de chegar. Gostava de uma moa, quase uma
menina de 17 anos incompletos.

 E ela?

 Morria por mim.
Minha inteno era casar-me; assim o disse a meu tio e a minha me. Opuseram-se
ambos, pela razo de que me destinavam uma prima. Insisti; resistiram ambos;
at que, para ver-me livre da situao em que me achava, entendi que era melhor
abrir as asas e correr mundo.

 Aposto eu que,
ao pisar terras de Europa, nunca mais te lembraste dela?

 Oh! no! ainda
me lembrei uns quinze dias; depois vieram acontecimentos estranhos e de todo a
esqueci... De todo, repara bem, porque se perguntares o nome dela, no sei se
te posso dizer.

 Sempre o mesmo!

 No; muito
outro; acho-me de todo mudado.

A conversa
continuou por este teor at muito mais tarde do que os dois amigos imaginavam
ali ficar. Foram desenterrados muitos episdios do passado, tanto por um como
por outro, e ambos tinham muita coisa que dizer. Afinal separaram-se, no sem
custo, porque Alves queria a todo transe que Moreira fosse jantar com ele e
Moreira igualmente tinha vontade disso. Havia, porm, uma circunstncia: o tio
de Moreira, o comendador Pinto, esperava-o em casa. Foram obrigados a separar-se.

 Mas irs ver-me
hoje de noite?

 Talvez.

 Em todo caso,
jantas amanh comigo?

 Sim.

 At logo.

 At logo.

II

Alves foi para
casa sinceramente alegre por ter encontrado um amigo de tantos anos. Moreira
sentiu o mesmo durante dez ou doze minutos, porque, ao cabo desse tempo, indo
j a entrar a um tlburi, bateu com a mo na cabea e exclamou:

 Eullia! mas
parece que ela era tambm Eullia! A descrio da me, a tristeza da moa...
Ser a mesma?

O cocheiro,
ouvindo este monlogo do fregus, que apenas tinha um p no estribo e o outro
no cho, entendeu que tratava com um alienado; e ia j tocar o cavalo, quando
Moreira entrou de todo no carro e sentou-se na almofada, dizendo:

Aterrado!

O cocheiro tinha
razes para no conduzir malucos; quis murmurar uma desculpa, mas no teve
nimo; o receio de irritar o fregus tapou-lhe a boca. Lanou-lhe um olhar de
esguelha e chicoteou o animal.

Moreira ficava
todo entregue a uma nova ordem de idias. Teve prazer em ver o amigo; mas a
idia de ir ver de novo a antiga namorada foi para ele prazer maior.
Acrescentarei at que mil planos formulou ele na fantasia, cada qual mais
atrevido e menos fiel  amizade. Quando deu acordo de si estava no fim do
Aterrado, e ele morava nas imediaes do Gs; teve de retroceder; entrou em
casa, jantou com o tio, e pois que est fazendo a digesto, deixamo-lo em paz
durante algumas linhas.

Alves foi para
casa, onde a mulher j o esperava havia muito para jantar. No meio do jantar
entendeu Alves que devia explicar  mulher a causa da demora, e falou de um
amigo que no via h onze anos, e que chegara da Europa no ltimo paquete.

 Quis que ele
viesse jantar conosco, disse Alves, mas no pde; afirmou-me, porm, que vir
amanh, e que hoje de noite talvez nos visite.

Eullia ouviu
todas estas explicaes do marido com algum sobressalto; mas qual no foi o
sobressalto quando ele disse:

 Hs de gostar
muito do Moreira!

Moreira! onze
anos! Europa! Estas trs expresses dizem ao leitor que a moa era efetivamente
a namorada do nosso viajante, pois se o no fosse no se sobressaltaria. Quis
todavia saber o nome todo do amigo de Alves, e quando o ouviu, se alguma dvida
tivera, nenhuma lhe ficou.

Seria ela bonita
aos 17 anos?  provvel; aos 28, que agora tinha, era extremamente formosa.
Tinha-se desenvolvido toda a mulher. A sua beleza era dessas que muito ganham
com a severidade do gesto, e Eullia era quase sempre severa, ou melhor,
triste, metida consigo. Fora sempre dcil para o marido, meiga s vezes, mas
nunca se mostrou apaixonada nem alegre.

Alves no reparou
na impresso que causou na mulher com as suas notcias a respeito de Moreira.
Continuou a falar dele com o mesmo entusiasmo e volubilidade. Nada lhe disse,
todavia, acerca da paixo; foi ela que encaminhou a conversa por esse lado.

 Mas por que
motivo esteve ele tanto tempo fora? perguntou.

 Naturalmente
porque se deu bem, respondeu Alves partindo uma pra e acompanhando com os
olhos o movimento da faca, e portanto sem ver a expresso de ansiosa
curiosidade da mulher.

Houve um
silncio.

 A causa que o
levou  que foi curiosa, disse ele repentinamente.

 Que foi?

 Uma paixo.

 Ah!

 Mas paixo que
acabou logo, ao que parece, disse Alves.

 Fraca devia
ser.

 Coisas da
mocidade.

Eullia no fez
nenhuma outra observao. Alves no deu f da impresso que as suas palavras
haviam causado na mulher.

A tarde passou-se
sem novidade; de noite apareceu Moreira, conforme havia prometido.

No  preciso
dizer ao leitor que, apesar dos onze anos passados e da mudana que parecia
ter-se operado no esprito de Moreira, alguma coisa devia ele sentir ao
transpor a soleira da porta do advogado. No era amor, era antes curiosidade. A
curiosidade porm no foi to prontamente satisfeita como ele quisera, porque
Eullia no apareceu na sala. Durante meia hora a conversa entre os dois amigos
foi a mais aborrecida do mundo, no por culpa do advogado, que fazia largamente
as despesas dela, mas por causa de Moreira que apenas contribua com
monosslabos.

Enfim apareceu
Eullia.

Se nenhum deles
estivesse prevenido,  provvel que se desse algum desses lances de teatro que
so o sinal de inesperadas catstrofes; ambos eles, porm, estavam prevenidos;
o encontro no produziu nenhuma exclamao.

O que houve, sim,
foi uma grande impresso em ambos, maior nela que nele, ou antes diferente,
porque em Eullia falou principalmente a lembrana do passado, em Moreira falou
a admirao do presente. A gentil menina que ele deixara aparecia-lhe agora
formosa e imponente mulher.

Esta impresso
dominou tudo mais. Isto, e certo interesse que tinha o ex-namorado em se
mostrar acabrunhado, fez com que o Moreira da noite no parecesse o mesmo da
manh. Alves notou a diferena e atribuiu-a ao natural acanhamento a que o
obrigava a presena da mulher.

Nem por isso
deixou Moreira de contar alguns episdios (imaginrios) da sua viagem pela
Europa, os quais tendiam todos no s a dar a melhor idia dos seus costumes,
mas tambm a mostrar  moa que a imagem dela o acompanhou a toda a parte.

Alves notou essa
diferena de estilo e de histria; mas, ainda aqui, era ela natural. Poderia
ele contar em presena da esposa as aventuras de que lhe falou no caf de
manh?

Evidentemente
no.

 Patife!
murmurou-lhe uma vez ao ouvido em ocasio em que Eullia se levantara; quem te ouvir, pensar que s um santarro.

E nunca melhor
nome assentou num homem do que o que lhe dera o advogado. Moreira era
verdadeiramente um patife, um gentil patife se quiserem; mas, em todo caso,
patife. Em to pouco tempo mostrou ele aos olhos do leitor que nem amara a moa
como parecera, nem era amigo do seu amigo. Patife embora, ou por isso mesmo,
aceitou tomar uma xcara de ch, e prometeu ir l jantar no dia seguinte.

No dia seguinte
foi to alvoroado, mais alvoroado do que na vspera. A razo era que lhe
pareceu no estar de todo extinto no corao da moa o fogo que ele lhe
acendera outrora. A leitora curiosa deseja naturalmente saber se Moreira se
enganava. No lhe sei dizer seno que nesse dia Eullia no apareceu
absolutamente ao ex-namorado; pretextou uma dor de cabea e meteu-se na cama.

O jantar, j se
v, no foi to alegre como os dois amigos esperavam que fosse. No o foi o
jantar; mas foi-o com certeza a sobremesa. Encetavam a sobremesa quando Eullia
apareceu na sala de jantar, com grande espanto de um e de outro, e ainda mais
alegria que espanto. Moreira entendeu que alguma fasca, adormecida na cinza,
de novo se ateara no corao da moa.

Seria isso?

Naquele dia era
temerrio julg-lo; mas quinze dias depois estaria na verdade quem dissesse que
os onze anos de ausncia no haviam de todo vencido o primeiro amor de Eullia.
Leu-lho o namorado nos olhos e muito antes havia-o ela lido no seu prprio
corao.

A luta no podia
ser mais cruel para uma moa honesta como ela, assaz discreta para ver que o
esposo a amava como no primeiro dia e que antes de tudo estavam os seus
deveres. Longos e cruis foram os padecimentos ntimos de Eullia. Ningum os
suspeitou contudo; porque o seu ar de costume no era alegre, e ela
esforava-se por mostrar boa cara a todos, e guardava-se para sofrer na
solido.

III

Cerca de dois
meses depois do jantar em casa de Alves, fazia Moreira consigo as seguintes
reflexes,  proporo que ia engolindo o caf em casa do tio, no Aterrado:

  evidente que
eu gosto dela alguma coisa, no muito, um gostar frio que me no tira a razo
nem a serenidade. Ela no desgosta de mim; creio at que gosta muito, quase
tanto como no outro tempo, e  claro que se casou s por fazer a vontade  me.
Se no houvesse casado,  duvidoso que eu tomasse tal encargo; j agora no me
caso mais, salvo por negcio. Mas quem me pode impedir que a ame, que seja
amado, que sejamos felizes?

Aqui saboreou um
gole de caf e continuou:

 O Alves no h
de certamente gostar disto; mas tambm no  necessrio dizer-lho;  at
prudente no lhe dizer nada. A minha conscincia...

Outro gole de
caf.

 A minha
conscincia est a dizer-me que ele  meu amigo, e que fui e sou talvez amigo
dele; mas h um rifo que diz: amigos, amigos, negcios  parte. Ele  que
errou em casar com uma moa de quem eu gostava; tudo isto  agora uma mera
conseqncia.

Moreira esvaziou
a xcara, acendeu um charuto, e pensou seriamente em escrever uma carta a
Eullia. Fechou a porta do quarto, travou da pena e escreveu o rascunho da
carta que se vai ler:

Eullia,

Quem diria que onze anos depois
nos havamos de encontrar em semelhante situao? Foram onze sculos de
martrio para mim, que vaguei to longe do lugar onde tu vivias, onde vivia a
minha nica felicidade. Poupo-te a histria aflitiva desse longo prazo de
amarguras; calcula pelo que padeceste tambm. Sim, ouso afirmar que padeceste,
porque leio nos teus olhos, porque o meu corao me diz que ainda me amas, e
que, assim como eu me no esqueci de ti, assim tu te no esqueceste de mim.

Oh! se assim no fora! se ao cabo
de tanto tempo de estranhas e irreparveis mgoas, meu corao viesse achar o
teu corao gelado e sem o mnimo vestgio de amor, juro-te, Eullia, que me
mataria. Era muito que o destino nos separasse; era muito, mas podia sofrer-se.
O que, porm, est acima de todas as foras humanas, das minhas foras pelo
menos, era que tu me esquecesses! Odeia-me, se queres, mas lembra-te de mim!

Bem vejo que a nossa situao 
hoje melindrosa e singularmente infeliz; mas um raio de luz me basta. Nada mais
quero para ser o mais venturoso dos mortais, do que a certeza do teu afeto e um
sincero olhar de benevolncia.

Ama aquele que sempre te amou.

Teu at a morte.

M.

Releu Moreira
esta epstola e achou-a boa para o caso. No  preciso apontar ao leitor a
diferena do monlogo e da epstola: ele a ter notado por si.

No se demorou
Moreira em copiar a carta; f-lo com a sua letra mais trmula e comovida;
fechou-a, e acabava de a pr na carteira, quando lhe foi anunciada a visita de
Alves.

Foi receb-lo com
a maior alegria no rosto.

 No achas
novidade que eu aqui viesse depois de tantas promessas inteis? perguntou o
advogado logo que viu assomar  porta a figura do amigo.

 Novidade
decerto que .

 Uma idia.

 Ah! vejamos.

 Vamos para
Petrpolis sbado. Queres vir conosco?

 Sbado?

 Sim.

 No sei se
posso; em todo caso, farei os esforos possveis...

 Esforos! disse
Alves encolhendo os ombros. Quem te ouvir, dir que tens graves negcios em
mo.

 Talvez.

 Imagino.

 Pois bem,
iremos todos no sbado, disse Moreira depois de alguns instantes de reflexo.

 Vou apenas
estar uns quinze dias; aproveito as frias, explicou Alves levantando-se e
pegando no chapu.

 J?

 J. Vou a S.
Cristvo; aproveitei esta ocasio para fazer-te a visita e o pedido. Vais l
de noite?

  provvel.

Era definitivo,
leitor; ele no tinha outro projeto seno ir l de noite, e quanto  viagem a
Petrpolis, achou desde o princpio que era uma grande fortuna. Os trs dias passaram-se
depressa; s duas horas da tarde de sbado estavam os trs na barca; a barca
saiu, chegou a Mau, saiu o trem, fez-se enfim a viagem at a cidade sem
notvel incidente.

Perdo; houve um
incidente.

Na estao do
caminho de ferro, vendo Moreira que o amigo conversava com um amigo, entregou a
Eullia o leno que lhe havia cado.

A moa agradeceu
com uma leve inclinao de cabea; pegou no leno e sentiu um corpo estranho.
Era papel; era naturalmente uma carta; fez-se vermelha e foi dar o brao ao
marido.

Durante a viagem
Moreira procurou muitas vezes, com os olhos, os olhos de Eullia; apenas uma
vez os encontrou, mas to medrosos eram, que para logo fugiram para se cravarem
no marido. Este sorriu, com a benevolncia e o amor do costume; a felicidade de
Alves estava toda na mulher; v-la feliz e contente era a sua maior fortuna.

No dia seguinte
ao da chegada a Petrpolis, foram os trs, logo de manh, dar um passeio de
carro. A manh estava deliciosa. Mas o que fez espantar o namorado no foi a
manh, foi Eullia. A moa parecia singularmente alegre, alegre como a no vira
desde que de novo a encontrara. Esta mesma mudana fazia admirar no menos ao
marido; mas a admirao deste era mesclada de ainda maior contentamento que a
de Moreira. As frias comeavam bem; todos pareciam felizes.

To feliz que
Alves tornou por vezes a ser o que fora no tempo de solteiro: palrador e
amavelmente indiscreto.

 Que ests tu a
olhar para aquelas moas? perguntou ele ao amigo, cujos olhos disfaradamente
observavam um rancho de damas.

 Eu? disse
Moreira, olhando ao mesmo tempo para Eullia.

 Que tem? No 
natural? perguntou esta, sorrindo-se para o seu antigo namorado.

Moreira
embasbacou.

Que era aquilo? Um
remoque? Uma queixa? Moreira perdia-se em conjecturas. O passeio foi assim cortado de incidentes mais ou menos enigmticos.

A tarde,
entretanto, foi melhor; a moa mostrou-se com ele muito amena e afetuosa, o
que, no parecer do namorado, fez subir as suas aes cento por cento.

Mas a resposta da
carta?

  impossvel,
pensou Moreira, que a resposta dela no passe destes agradinhos, muito bons
decerto, mas insuficientes para eu saber se ela efetivamente aceita o que lhe
disse... Preciso a todo transe de uma resposta.

Pensar isto e
escrever um bilhetinho foi tudo a mesma coisa. A nova missiva continha apenas
estas palavras:

Minha vida! Que resposta me ds?
Devo eu morrer ou viver? Venha a morte, embora, mas sem torturas... Teu, sempre
teu  M.

Este bilhete foi
deitado de passagem no regao da moa, que, de novo, estremeceu e corou. Alves
estava ento de costas e nada viu. Moreira foi ter com ele e perguntou-lhe se
havia j lido o Jornal do Comrcio desse dia. Travou ento conversa a
respeito de um artigo que l vinha acerca de no sei que negcio ministerial,
coisa que no interessava absolutamente a Moreira, mas que ele parecia discutir
com muito ardor.

Estavam nisto
quando Eullia soltou um pequeno grito. Alves voltou-se rapidamente e foi ter
com a mulher.

 Que foi?

 Nada; uma
pontada.

Alves ajoelhou-se
diante dela, levou-lhe a mo ao corao, que batia algum tanto agitado.

 Ests melhor?
perguntou ele.

 Estou.

 Anda descansar.

 No; passou.

Dizendo isto, a
moa cravou os olhos no marido, cuja aflio estava expressa no rosto.

 No  nada,
repetiu.

E para mostrar
que no era nada, levantou-se e deu-lhe o brao. Saram at o jardim; Moreira
acompanhou-os ao lado e mostrando como podia o interesse que lhe causava a
sade da moa, mas um tanto surpreso com o incidente. A carta nada continha que
lhe pudesse causar abalo; a primeira sim. Demais a carta estava j guardada,
porque ele a no viu na mo de Eullia.

No fim de uma
hora, voltaram para casa; Eullia foi para os seus aposentos; Alves
acompanhou-a; Moreira retirou-se para o hotel onde alugara um aposento.

 Que diabo seria
aquilo? pensava ele. Natural no me parece que fosse; a causa  que eu no
posso atinar qual seja. Esperemos a resposta;  impossvel que se demore muito.

A tarde passou
sem carta.

IV

Na manh
seguinte, logo depois do almoo, Moreira foi visitar o advogado. Alves tinha
sado; Moreira encontrou Eullia na sala.

A moa
estremeceu.

 Eullia! disse
ele com voz tmida.

E ia naturalmente
continuar este discurso que prometia ser ardente e impetuoso, quando apareceu 
porta uma senhora; era uma amiga de Eullia.

Moreira mandou
interiormente a tal amiga a todos os diabos, e saiu logo depois. Uma hora
depois, voltou  casa de Alves; achou-o l, e recebeu a notcia de que este
tencionava voltar para a corte no dia seguinte.

 J! exclamou
Moreira, naturalmente admirado da alterao do programa.

  preciso;
tenho um negcio urgente, disse o advogado. Tu ficas?

 Talvez.

 Em todo caso,
preciso falar-te.

 Estou s tuas
ordens.

 Ser logo 
tarde.

Moreira saiu da
a pouco.

 A rapariga 
mais fina do que eu julgava, ia pensando Moreira, ou eu sou o mais feliz dos
homens. Naturalmente ela fica; tem aqui pessoas de amizade. Eu tambm sou
pessoa de amizade, e c fico.

Sobre esta frgil
base de uma conjectura, edificou Moreira um castelo de esperanas; falou
distraidamente a quantas pessoas encontrou, e meteu-se em casa  espera do
amigo.

O amigo no se
demorou.

Estava justamente
Moreira a pensar nele quando a figura de Alves apareceu  porta do quarto.

 Entra.

 Ningum nos
ouve?

 Ningum.

Alves fechou a
porta do quarto com a chave e p-la no bolso. Moreira olhou para ele espantado,
e ia naturalmente perguntar-lhe a causa daquele fato, quando o advogado lhe
tirou de todo a voz com outro gesto ainda mais significativo: tirou um revlver
da algibeira e p-lo ao p de si na mesa. Sentou-se e comeou a falar.

Antes, porm, de
dizer o que disse Alves ao seu amigo Moreira, voltemos um pouco atrs e digamos
ao leitor o acontecimento que deu causa ao outro que vai principiar.

Na vspera, logo
depois de se retirar a seus aposentos, Eullia mandou chamar o marido. Este ia
justamente para l.

 Que queres?
perguntou Alves com solicitude.

Eullia caiu-lhe
nos braos lavada em lgrimas.

 Que tens?
perguntou o marido ansioso.

Eullia no pde
falar. Alves estava aflito.

 Vamos, no
chores, que tens? disse ele.

 Deixa-me chorar,
murmurou a moa; estas lgrimas so de alegria.

 De alegria?

 Sim; amo-te.

Alves
perguntou-lhe sorrindo:

 S agora?

 No; mas s
agora o sei, respondeu Eullia, enxugando os olhos. Amo-te deveras; no o tinha
compreendido at hoje. s bom, amante, generoso, como nenhum outro homem.

Alves sentiu-se
comovido e desviou o rosto.

 Oh! no te
escondas! exclamou ela; eu sei o que vales.

 Mas por que
razo?...

 Vais saber
tudo, disse a moa, sentando-se e convidando-o a sentar-se ao p de si.

Alves sentou-se
ao p da mulher.

 No me casei
contigo por amor, sabes, disse ela; conquistaste-me depois o corao a pouco e
pouco. No que eu o soubesse; eu mesma no esperava a vitria que ias obtendo.
A razo por que me no casei por amor foi que circunstncias estranhas me
haviam separado de um homem com quem eu ento desejava unir-me. Da veio a
tristeza em que eu vivia sempre, que minha me no podia explicar, e que tu
buscaste apagar por todos os meios que a tua generosidade e o teu amor te
sugeriam.

 Esse homem?...

 Esse homem  o
teu amigo Moreira.

Alves deu um
salto da cadeira em que se achava sentado. Eullia fez-lhe um gesto para que se
sentasse de novo.

 Mas a que vem
esta histria? perguntou Alves.

 Antes de dizer mais
nada, promete que me hs de obedecer.

 Mas...

 Prometes?

 Prometo.

 Pois bem, esse
homem voltou da Europa e tu trouxeste-o  nossa casa. Onze anos eram passados
depois que ele havia partido. Era teu amigo e eu no lhe era estranha ao
corao: dois motivos que, juntos, deviam servir de barreira entre ele e a
nossa porta. Veio contudo  nossa casa, muitas vezes; devia respeitar-me; no
me respeitou...

Dizendo isto,
abriu Eullia uma caixinha e tirou de dentro uma carta, a primeira de Moreira,
que entregou aberta ao marido.

Alves atirou-se
com sofreguido ao fatal papel; leu-o, machucou-o entre as mos, levantou-se
exasperado. Eullia pediu-lhe que se sentasse outra vez.

 No lhe
respondi, disse ela; era claro que no devia responder. Devia mostrar-te a
carta logo ou rasg-la; no tive nimo de ta mostrar, nem me pareceu
conveniente rasg-la; podia ter necessidade de dizer tudo. Ele insistiu na
resposta, e ontem, na nossa sala, atirou-me este bilhete. Foi a indignao que
me causou a perfdia do homem que to serenamente conversava contigo, quando
buscava atraioar-te, foi essa indignao que me fez soltar aquele grito.

Alves leu o
bilhete de Moreira, que nada adiantava depois da carta, apenas a reincidncia e
a pertincia de um aparente amigo. Houve naturalmente uma exploso de clera;
Eullia buscou tranqiliz-lo e o conseguiu.

 Devo antes
agradecer, disse ela, a indignidade daquele homem; foi ela que me deixou ver
claro no meu corao; minha virtude era bastante; mas a certeza de que eu te
amava deveras, o teu verdadeiro amor, a superioridade do teu carter, tudo isso
junto realou as foras da minha virtude...

A resposta de
Alves foi abra-la com ternura. Em seguida caminhou para a porta.

 Onde vais?
perguntou Eullia.

Alves parou.

 Prometeste
obedecer-me, observou a moa.

 Impossvel!
bradou Alves.

 Oh! eu nada te
diria se no tivesse certeza de que evitarias alguma catstrofe. Por Deus te
peo; basta o nosso desprezo...

Alves resistiu;
Eullia rogou; ambos chegaram finalmente a um acordo: Alves evitaria qualquer
lance sanguinolento. Foi depois desta cena que o advogado foi ter com Moreira.

V

Moreira ficou
naturalmente assombrado quando viu o gesto do advogado.

 Que  isto?
disse enfim.

 Nada; apenas
precaues, respondeu Alves pacificamente.

Moreira
compreendera tudo; preparou-se para a negativa. Mas at que ponto estaria Alves
informado dos seus atos? esta era a dvida. Entretanto comeou Alves a falar:

 Sabes que
opinio fiz de ti desde longos anos?

Moreira fez um
gesto afirmativo.

 Sabes que
opinio formo hoje? Hoje, penso que s um miservel.

Moreira
estremeceu e fez um gesto para se levantar.

Alves apontou-lhe
o revlver.

 Senta-te,
disse-lhe.

E continuou:

 s um
miservel, como poucos. Ests convencido disso; no me demoro em recordar as
tuas aes. Venho por outra coisa.

Moreira estava
plido; dissuadira-se da idia de que ele vinha assassin-lo; mas ocorreu-lhe a
de que ele viria obrig-lo a um duelo sem testemunhas, e Moreira tinha idia e
temperamento de todo o ponto opostos ao duelo.

Alves continuou:

 Vais escrever e
assinar um papel assim concebido: Reconheo que devo a vida  misericrdia de
Fernando Alves, cuja honra pretendi em vo macular como um miservel infame que
sou.

  impossvel!
clamou Moreira levantando-se de um pulo.

Alves sorriu-se.

 Nesse caso
morres, disse ele, porque eu no saio daqui sem obter uma destas duas coisas:
ou o papel ou a tua vida.

Moreira deu alguns
passos agitados, trmulo de medo e clera. De repente uma idia lhe passou pela
cabea: atirar-se ao amigo e esgan-lo, com tal mpeto que no lhe desse tempo
de resistir, e menos ainda de o atacar. Relanceou um olhar para o advogado, e
aproximando-se vagarosamente da mesa, deu um salto sobre o inimigo.

Alves previra
aquilo mesmo, de maneira que Moreira antes de o segurar como queria, foi
obrigado a recuar diante do revlver encostado ao peito.

Moreira soltou um
rugido.

 Afadigas-te sem
proveito, observou tranqilamente o advogado; nada podes obter seno uma das
duas clusulas que te propus. Escolhe.

Moreira era antes
de tudo covarde. A hesitao dele no provinha de outra coisa seno do medo que
lhe causava o efeito da declarao que se lhe pedia. Uma vez, porm, adquirida
a certeza de que a morte seria a punio da recusa, era claro que ele
escreveria o papel.

Entretanto,
lanou-se aos ps do Alves, confessou-lhe tudo, pediu-lhe perdo. Alves
mostrou-se inflexvel. Era foroso ceder: Moreira cedeu. Com a mo trmula,
lanou mo da pena e escreveu o que lhe ditou o advogado, assinou o escrito e
entregou-lho.

 Muito bem,
disse Alves; a letra est um pouco trmula, mas logo se reconhece o medo que
tinhas no corao. Agora, miservel,  primeira tentativa posso desonrar-te e
matar-te.

Alves abriu a
porta e saiu.

Moreira ficou
abatido durante meia hora; veio depois uma reao, levantou-se da cadeira,
quebrou uma cadeira, ameaou, lastimou-se... mas tudo em vo. O mal estava feito e a punio era absoluta.
