Conto, Vinte Anos! Vinte Anos!, 1884

Vinte Anos! Vinte Anos!

Texto-fonte:

Obra Completa, de Machado de Assis,
vol. II,

Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1994.

Publicado originalmente em A Estao, de 15/7/1884.

Gonalves, despeitado, amarrotou o
papel, e mordeu o beio. Deu cinco ou seis passos no quarto, deitou-se na cama,
de barriga para o ar, pensando; depois foi  janela, e esteve ali durante dez
ou doze minutos, batendo o p no cho e olhando para a rua, que era a rua
detrs da Lapa.

No h leitor, menos ainda
leitora, que no imagine logo que o papel  uma carta, e que a carta  de
amores, alguma zanga de moa, ou notcia de que o pai os ameaava, que a
intimou a ir para fora, para a roa, por exemplo. Vo conjecturas! No se trata
de amores, no  mesmo carta, posto que haja embaixo algumas palavras assinadas
e datadas, com endereo a ele. Trata-se disto. Gonalves  estudante, tem a
famlia na provncia e um correspondente na corte, que lhe d a mesada.
Gonalves recebe a mesada pontualmente; mas to depressa a recebe como a
dissipa. O que acontece  que a maior parte do tempo vive sem dinheiro; mas os
vinte anos formam um dos primeiros bancos do mundo, e Gonalves no d pela
falta. Por outro lado, os vinte anos so tambm confiados e cegos; Gonalves
escorrega aqui e ali, e cai em desmandos. Ultimamente, viu um sobretudo de peles, obra soberba, e uma linda bengala, no
rica, mas de gosto; Gonalves no tinha dinheiro, mas comprou-os fiado. No
queria, note-se; mas foi um colega que o animou. L se vo quatro meses; e
instando o credor pelo dinheiro, Gonalves lembrou-se de escrever uma carta ao
correspondente, contando-lhe tudo, com tais maneiras de estilo, que
enterneceriam a mais dura pedra do mundo.

O correspondente no era pedra, mas
tambm no era carne; era correspondente, aferrado  obrigao, rgido, e
possua cartas do pai de Gonalves, dizendo-lhe que o filho tinha uma grande
queda para gastador, e que o reprimisse. Entretanto, estava ali uma conta; era
preciso pag-la. Pag-la era animar o moo a outras. Que fez o correspondente?
Mandou dizer ao rapaz que no tinha dvida em saldar a dvida, mas que ia
primeiro escrever ao pai, e pedir-lhe ordens; dir-lhe-ia na mesma ocasio que
pagara outras dvidas midas e dispensveis. Tudo isso em duas ou trs linhas
embaixo da conta, que devolveu.

Compreende-se o pesar do rapaz.
No s ficava a dvida em aberto, mas, o que era pior, ia notcia dela ao pai.
Se fosse outra coisa, v; mas um sobretudo de peles, luxuoso e desnecessrio,
uma coisa que realmente ele achou depois que era um trambolho, pesado, enorme e
quente... Gonalves dava ao diabo o credor, e ainda mais o correspondente. Que
necessidade era essa de ir cont-lo ao pai? E que carta que o pai havia de
escrever! que carta! Gonalves estava a l-la de antemo. J no era a
primeira: a ltima ameaava-o com a misria.

Depois de dizer o diabo do
correspondente, de fazer e desfazer mil planos, Gonalves assentou no que lhe
pareceu melhor, que era ir  casa dele, na Rua do Hospcio, descomp-lo, armado
de bengala, e dar-lhe com ela, se ele replicasse alguma coisa. Era sumrio,
enrgico, um tanto fcil, e, segundo lhe dizia o corao, til aos sculos.

 Deixa estar, patife! quebro-te a
cara.

E, trmulo, agitado, vestiu-se s
carreiras, chegando ao extremo de no pr a gravata; mas lembrou-se dela na
escada, voltou ao quarto, e atou-a ao pescoo. Brandiu no ar a bengala para ver
se estava boa; estava. Parece que deu trs ou quatro pancadas nas cadeiras e no
cho  o que lhe mereceu no sei que palavra de um vizinho irritadio. Afinal
saiu.

 No, patife! no me pregas
outra.

Eram os vinte anos que irrompiam
clidos, frvidos, incapazes de engolir a afronta e dissimular. Gonalves foi
por ali fora, Rua do Passeio, Rua da Ajuda, Rua dos Ourives, at  Rua do
Ouvidor. Depois lembrou-se que a casa do correspondente, na Rua do Hospcio,
ficava entre as de Uruguaiana e dos Andradas; subiu, pois, a do Ouvidor para ir
tomar a primeira destas. No via ningum, nem as moas bonitas que passavam,
nem os sujeitos que lhe diziam adeus com a mo. Ia andando  maneira de touro.
Antes de chegar  Rua de Uruguaiana, algum chamou por ele.

 Gonalves! Gonalves!

No ouviu e foi andando. A voz era
de dentro de um caf. O dono dela veio  porta, chamou outra vez, depois saiu 
rua, e pegou-o pelo ombro.

 Onde vais?

 J volto...

 Vem c primeiro.

E tomando-lhe o brao, voltou para
o caf, onde estavam mais trs rapazes a uma mesa. Eram colegas dele,  todos
da mesma idade. Perguntaram-lhe onde ia; Gonalves respondeu que ia castigar um
pelintra, donde os quatro colegas concluram que no se tratava de nenhum crime
pblico, inconfidncia ou sacrilgio,  mas de algum credor ou rival. Um deles
chegou mesmo a dizer que deixasse o Brito em paz.

 Que Brito? perguntou o
Gonalves.

 Que Brito? O preferido, o tal, o
dos bigodes, no te lembras? No te lembras mais da Chiquinha Coelho?

Gonalves deu de ombros, e pediu
uma xcara de caf. Tratava-se nem da Chiquinha Coelho nem do Brito! H coisa muito
sria. Veio o caf, fez um cigarro, enquanto um dos colegas confessava que a
tal Chiquinha era a pequena mais bonita que tinha visto desde que chegara.
Gonalves no disse nada; entrou a fumar e a beber o caf, aos goles, curtos e
demorados. Tinha os olhos na rua; no meio da conversa dos outros, declarou que
efetivamente a pequena era bonita, mas no era a mais bonita; e citou outras,
cinco ou seis. Uns concordaram em absoluto, outros em parte, alguns discordaram
inteiramente. Nenhuma das moas citadas valia a Chiquinha Coelho. Debate longo,
anlise das belezas.

 Mais caf, disse Gonalves.

 No quer cognac?

 Traga... no... est bom, traga.

Vieram ambas as coisas. Uma das
belezas citadas passou justamente na rua, de brao com o pai, deputado. Daqui
um prolongamento de debate, com desvio para a poltica. O pai estava prestes a
ser ministro.

 E o Gonalves genro do ministro!

 Deixa de graas, redargiu rindo
o Gonalves.

 Que tinha?

 No gosto de graas. Eu genro?
Demais, vocs sabem as minhas opinies polticas; h um abismo entre ns. Sou
radical...

 Sim, mas os radicais tambm se
casam, observou um.

 Com as radicais, emendou outro.

 Justo. Com as radicais...

 Mas voc no sabe se ela 
radical.

 Ora bolas, o caf est frio! exclamou
Gonalves. Olhe l; outro caf. Tens um cigarro? Mas ento parece a vocs que
eu chegue a ser genro do ***. Ora que caoada! Vocs nunca leram Aristteles?

 No.

 Nem eu.

 Deve ser um bom autor.

 Excelente, insistiu Gonalves. 
Lamego, tu lembras-te daquele sujeito que uma vez quis ir ao baile de mscaras,
e ns lhe pusemos um chapu, dizendo que era de Aristteles?

E contou a anedota, que na verdade
era alegre e estrdia; todos riram, comeando por ele, que dava umas
gargalhadas sacudidas e longas, muito longas. Veio o caf, que era quente, mas
pouco; pediu terceira xcara, e outro cigarro. Um dos colegas contou ento um
caso anlogo, e, como falasse de passagem em Wagner, conversaram da revoluo
que o Wagner estava fazendo na Europa. Da passaram naturalmente  cincia
moderna; veio Darwin, veio Spencer, veio Bchner, veio Moleschott, veio tudo.
Nota sria, nota graciosa, uma grave, outra aguda, e caf, cigarro, troa,
alegria geral, at que um relgio os surpreendeu batendo cinco horas.

 Cinco horas! exclamaram dois ou
trs.

 No meu estmago so sete,
ponderou um dos outros.

 Onde jantam vocs?

Resolveram fazer uma revista de
fundos e ir jantar juntos. Reuniram seis mil-ris; foram a um hotel modesto, e
comeram bem, sem perder de vista as adies e o total. Eram seis e meia, quando
saram. Caa a tarde, uma linda tarde de vero. Foram at o Largo de S.
Francisco. De caminho, viram passar na Rua do Ouvidor algumas moas
retardatrias; viram outras no ponto dos bonds de S. Cristvo. Uma
delas desafiou mesmo a curiosidade dos rapazes. Era alta e fina, recentemente
viva. Gonalves achou que era muito parecida com a Chiquinha Coelho; os outros
divergiram. Parecida ou no, Gonalves ficou entusiasmado. Props irem todos no
bond em que ela fosse; os outros ouviram rindo.

Nisto a noite foi chegando; eles
tornaram  Rua do Ouvidor. s sete e meia caminharam para um teatro, no para
ver o espetculo (tinham apenas cigarros e nqueis no bolso), mas para ver
entrar as senhoras. Uma hora depois vamos ach-los, no Rocio, discutindo uma
questo de fsica. Depois recitaram versos, deles e de outros. Vieram anedotas,
trocadilhos, pachuchadas; muita alegria em todos, mas principalmente no
Gonalves que era o mais expansivo e ruidoso, alegre como quem no deve nada.
s nove horas tornou este  Rua do Ouvidor, e, no tendo charutos, comprou uma
caixa por vinte e dois mil-ris, fiado. Vinte anos! Vinte anos!
