Crtica, Ea de Queirs, 1900

Ea de Queirs

Texto-Fonte:

Obra Completa de Machado de Assis,

Rio
de Janeiro: Nova Aguilar, vol. III, 1994.

Carta
a Henrique Chaves.

Publicada
na Gazeta de Notcias, em 24/08/1900.

Meu caro H. Chaves.  Que hei de
dizer que valha esta calamidade? Para os romancistas  como se perdssemos o
melhor da famlia, o mais esbelto e o mais valido. E tal famlia no se compe
s dos que entraram com ele na vida do esprito, mas tambm das relquias da
outra gerao, e, finalmente, da flor da nova. Tal que comeou pela estranheza
acabou pela admirao. Os mesmos que ele haver ferido, quando exercia a
crtica direta e cotidiana, perdoaram-lhe o mal da dor pelo mel da lngua,
pelas novas graas que lhe deu, pelas tradies velhas que conservou, e mais a
fora que as uniu umas e outras, como s as une a grande arte. A arte existia,
a lngua existia, nem podamos os dois povos, sem elas, guardar o patrimnio de
Vieira e de Cames; mas cada passo do sculo renova o anterior e a cada gerao
cabem os seus profetas.

A
antigidade consolava-se dos que morriam cedo considerando que era a sorte
daqueles a quem os deuses amavam. Quando a morte encontra um Goethe ou um
Voltaire, parece que esses grandes homens, na idade extrema a que chegaram,
precisam de entrar na eternidade e no infinito, sem nada mais dever  terra que
os ouviu e admirou. Onde ela  sem compensao  no ponto da vida em que o
engenho subido ao grau sumo, como aquele de Ea de Queirs,  e como o nosso
querido Ferreira de Arajo, que ainda ontem fomos levar ao cemitrio,  tem
ainda muito que dar e perfazer. Em plena fora da idade, o mal os toma e lhes
tira da mo a pena que trabalha e evoca, pinta, canta, faz todos os ofcios da
criao espiritual. Por mais esperado que fosse esse bito, veio como
repentino. Domcio da Gama, ao transmitir-me h poucos meses um abrao de Ea,
j o cria agonizante. No sei se chegou a tempo de lhe dar o meu. Nem ele, nem
Eduardo Prado, seus amigos, tero visto apagar-se de todo aquele rijo e fino
esprito, mas um e outro devem cont-lo aos que deste lado falam a mesma
lngua, admiram os mesmos livros e estimavam o mesmo homem.
