Conto, Cinco mulheres, 1865

Cinco mulheres

Texto-fonte:

http://www2.uol.com.br/machadodeassis/

Publicado originalmente em Jornal
das Famlias, 1865.

NDICE

I - MARCELINA

II - ANTNIA

III  CAROLINA

IV
 CARLOTA E HORTNSIA

Aqui vai um grupo de cinco mulheres, diferentes entre si,
partindo de diversos pontos, mas reunidas na mesma coleo, como em um lbum de
fotografias.

Desenhei-as rapidamente, conforme apareciam, sem inteno
de precedncia, nem cuidado de escolha.

Cada uma delas forma um esboo  parte; mas todas podem
ser examinadas entre o charuto e o caf.

I

Marcelina

Marcelina era uma criatura dbil como uma haste de flor;
dissera-se que a vida lhe fugia em cada palavra que lhe saa dos lbios rosados
e finos. Tinha um olhar lnguido como os ltimos raios do dia. A cabea, mais
anglica do que feminina, aspirava ao cu. Quinze anos contava, como Julieta.
Como Oflia, parecia que estava destinada a colher a um tempo as flores da
terra e as flores da morte.

De todas as irms  eram cinco , era Marcelina a nica a
quem a natureza tinha dado to pouca vida. Todas as mais pareciam ter seiva de
sobra. Eram mulheres altas e reforadas, de olhos vivos e cheios de fogo.
Alfenim era o nome que davam a Marcelina. Ningum a convidava para as fadigas
de um baile ou para os grandes passeios. A boa menina fraqueava depois de uma
valsa ou no fim de cinqenta passos do caminho.

Era ela a mais querida dos pais. Tinha na sua fragilidade
a razo da preferncia. Um instinto secreto dizia aos velhos que ela no havia
de viver muito; e como que para desforr-la do amor que havia de perder, eles a
amavam mais do que s outras filhas. Era ela a mais moa, circunstncia que
acrescia quela, porque ordinariamente os pais amam o ltimo filho mais do que
os primeiros, sem que os primeiros peream inteiramente no seu corao.

Marcelina tocava piano perfeitamente. Era a sua distrao
habitual; tinha o gosto da msica no mais apurado grau. Conhecia os
compositores mais estimados, Mozart, Weber, Beethoven, Palestrina. Quando se
assentava ao piano para executar as obras dos seus favoritos, nenhum prazer da
terra a tiraria dali.

Chegara  idade em que o corao da mulher comea a
interrog-la secretamente; mas ningum conhecia um sentimento s de amor no
corao de Marcelina. Talvez no fosse a hora, mas todos que a viam acreditavam
que ela no pudesse amar na terra, to do cu parecia ser aquela delicada
criatura.

Um poeta de vinte anos, virgem ainda nas suas iluses, teria
encontrado nela o mais puro ideal dos seus sonhos; mas nenhum havia na roda que
freqentava a casa da moa. Os homens que l iam preferiam a tagarelice insossa
e incessante das irms  compleio frgil e  recatada modstia de Marcelina.

A mais velha das irms tinha um namorado. As outras sabiam
do namoro e o protegiam na medida dos seus recursos. Do namoro ao casamento
pouco tempo mediou, apenas um ms. O casamento foi fixado para um dia de junho.
O namorado era um belo rapaz de vinte e seis anos, alto, moreno, de olhos e
cabelos pretos. Chamava-se Jlio.

No dia seguinte em que se anunciou o casamento de Jlio,
Marcelina no se levantou da cama. Era uma ligeira febre que cedeu no fim de
dois dias aos esforos de um velho mdico, amigo do pai. Mas, ainda assim, a
me de Marcelina chorou amargamente, e no dormiu uma hora. Nunca houve crise
sria na molstia da filha, mas o simples fato da molstia bastou para que a
boa me perdesse a cabea. Quando a viu de p regou de lgrimas os ps de uma
imagem da Virgem, que era a sua devoo particular.

Entretanto seguiam os preparativos do casamento. Devia
efetuar-se dali a quinze dias. Jlio estava radiante de alegria, e no perdia
ocasio de comunicar-se a todos o estado em que se achava. Marcelina ouvia-o
com tristeza; dizia-lhe duas palavras de cumprimento e desviava a conversa
daquele assunto, que lhe parecia penoso. Ningum reparava, menos o mdico, que
um dia, em que ela se achava ao piano, disse-lhe com ar pesaroso:

 Menina, isso faz-lhe mal.

 Isso qu?

 Sufoque o que sente, esquea um sonho impossvel e no
v adoecer por um sentimento sem esperana.

Marcelina cravou os olhos nas teclas do piano e
levantou-se a chorar.

O doutor saiu mais pesaroso do que estava.

 Est morta, dizia ele descendo as escadas.

O dia do casamento chegou. Foi uma alegria na casa, mesmo
para Marcelina, que cobria a irm de beijos; aos olhos de todos era a afeio
fraternal que se manifestava assim num dia de jbilo para a irm; mas a um
olhar experimentado no escaparia a tristeza escondida debaixo daquelas
demonstraes to fervorosas.

Isto no  um romance, nem um conto, nem um episdio; 
no me ocuparei, portanto, com os acontecimentos dia por dia. Um ms se passou
depois do casamento de Jlio com a irm de Marcelina. Era o dia marcado para o
jantar comemorativo em casa de Jlio. Marcelina foi com repugnncia, mas era
preciso; simular uma doena era impedir a festa; a boa menina no quis. Foi.

Mas quem pode responder pelo futuro? Marcelina, duas horas
depois de estar em casa da irm, teve uma vertigem. Foi levada para um sof,
mas tornada a si achou-se doente. Foi transportada para casa. Toda a famlia a
acompanhou. A festa no teve lugar.

Declarou-se uma nova febre.

O mdico, que sabia o fundo da doena de Marcelina,
procurou curar-lhe a um tempo o corpo e o corao. Os remdios do corpo pouco
faziam, porque o corao era o mais doente. O mdico quando empregava uma dose
no corpo, empregava duas no corao. Eram os conselhos brandos, as palavras
persuasivas, as carcias quase fraternais. A moa respondia a tudo com um
sorriso triste  era a nica resposta.

Quando o velho mdico lhe dizia:

 Menina, esse amor  impossvel...

Ela respondia:

 Que amor?

 Esse: o de seu cunhado.

 Est sonhando, doutor. Eu no amo ningum.

  debalde que procura ocultar.

Um dia, como ela insistisse em negar, o doutor ameaou-a
sorrindo que ia contar tudo  me.

A moa empalideceu mais do que estava.

 No, disse ela, no diga nada.

 Ento,  verdade?

A moa no ousou responder: fez um leve sinal com a
cabea.

 Mas no v que  impossvel? perguntou o doutor.

 Sei.

 Ento por que pensar nisso?

 No penso.

 Pensa.  por isso que est to doente...

 No creia, doutor; estou doente porque Deus o quer;
talvez fique boa, talvez no;  indiferente para mim; s Deus  quem manda
estas coisas.

 Mas sua me?...

 Ela ir ter comigo, se eu morrer.

O mdico voltou a cabea para o lado de uma janela que se
achava meio aberta.

Esta conversa reproduziu-se muitas vezes, sempre com o
mesmo resultado. Marcelina definhava a olhos vistos. No fim de alguns dias o
mdico declarou que era impossvel salv-la.

A famlia ficou desolada com esta notcia.

Jlio ia visitar Marcelina com sua mulher; nessas ocasies
Marcelina sentia-se elevada a uma esfera de bem-aventurana. Vivia da voz de
Jlio. As faces se lhe coloriam e os olhos readquiriam um brilho celeste.

Depois voltava ao seu estado habitual.

Mais de uma vez quis o mdico declarar  famlia qual era
a verdadeira causa da molstia de Marcelina; mas que ganharia com isso? No
viria da o remdio, e a boa menina ficaria do mesmo modo.

A me, desesperada com aquele estado de coisas, imaginou
todos os meios de salvar a filha; lembrou a mudana de ares, mas a pobre
Marcelina raras vezes deixava de arder em febre.

Um dia, era um domingo de julho, a menina declarou que
desejava comunicar alguma coisa ao doutor.

Todos os deixaram a ss.

 Que quer? perguntou o mdico.

 Sei que  nosso amigo, e sobretudo meu amigo. Sei quanto
sente a minha doena, e como lhe di que eu no possa ficar boa...

 H de ficar, no fale assim...

 Qual doutor! eu sei o que sinto! Se lhe quero falar 
para dizer-lhe uma coisa. Quando eu morrer no diga a ningum qual foi o motivo
da minha morte.

 No fale assim... interrompeu o velho levando o leno
aos olhos.

 Di-lo- somente a uma pessoa, continuou Marcelina;  a
minha me. Essa sim, coitada, que tanto me ama e que vai ter a dor de me
perder! Quando lhe disser, entregue-lhe ento este papel.

Marcelina tirou debaixo do travesseiro uma folha de papel
dobrada em quatro, e atada por uma fita roxa.

 Escreveu isto? Quando? perguntou o mdico.

 Antes de adoecer.

O velho tomou o papel das mos da doente e guardou-o no
seu bolso.

 Mas, venha c, disse ele, que idias so essas de
morrer? To moa! Comea apenas a viver; outros coraes podem ainda receber os
seus afetos; para que quer to cedo deixar o mundo? Pode ainda encontrar nele
uma felicidade digna da sua alma e dos seus sentimentos... Olhe c, ficando boa
iremos todos para fora. A menina gosta da roa. Pois toda a famlia ir para a
roa...

 Basta, doutor!  intil.

Da em diante Marcelina pouco falou.

No dia seguinte  tarde Jlio e a mulher vieram visit-la.
Marcelina achava-se pior. Toda a famlia estava ao p da cama. A me debruada
 cabea chorava silenciosamente.

Quando veio a noite fechada, declarou-se a crise da morte.
Houve ento uma exploso de soluos; porm a menina, serena e calma, a todos
procurava consolar dando-lhes a esperana de que iria orar por todos no cu.

Quis ver o piano em que tocava; mas era difcil satisfazer-lhe
o desejo e ela facilmente se convenceu. No desistiu porm de ver as msicas;
quando elas lhas deram distribuiu-as pelas irms.

 Quanto a mim vou tocar outras msicas no cu.

Pediu algumas flores secas que tinha numa gaveta, e
distribuiu-as igualmente pelas pessoas presentes.

s oito horas expirou.

Um ms depois o velho mdico, fiel  promessa que fizera 
moribunda, pediu uma conferncia particular  infeliz

me.

 Sabe de que morreu Marcelina? perguntou ele; no foi de
uma febre, foi de um amor.

 Ah!

  verdade.

 Quem era?

 A pobre menina ps a sua felicidade num desejo
impossvel; mas no se revoltou contra a sorte; resignou-se e

morreu.

 Quem era? perguntou a me.

 Seu genro.

  possvel? disse a pobre me dando um grito.

  verdade. Eu o descobri, e ela mo confessou. Sabe como
eu era amigo dela; fiz tudo quanto pude para desvi-la de semelhante
pensamento; mas tinha chegado tarde. A sentena estava lavrada; ela devia amar,
adoecer e subir ao cu. Que amor, e que destino!

O velho tinha os olhos rasos de lgrimas; a me de
Marcelina chorava e soluava que cortava o corao. Quando ela pde ficar um
pouco calma, o mdico continuou:

 A entrevista que ela me pediu nos seus ltimos dias foi para
dar-me um papel, disse-me ento que lho entregasse depois da morte. Aqui o tem.

O mdico tirou do bolso o papel que recebera de Marcelina
e lho entregou intacto.

 Leia-o, doutor. O segredo  nosso.

O doutor leu em voz alta e com voz trmula:

Devo morrer deste amor. Sinto que  o primeiro e o ltimo.
Podia ser a minha vida e  a minha morte. Por qu? Deus o quer.

No viu ele nunca que era eu a quem devia amar. No lhe
dizia acaso um secreto instinto que eu carecia dele para ser feliz? Cego! foi
procurar o amor de outra, to sincero como o meu, mas nunca to grande e to
elevado! Deus o faa feliz!

Escrevi um pensamento mau. Por que me hei de revoltar
contra minha irm? No pode ela sentir o que eu sinto? Se eu sofro por no ter
a felicidade de possu-lo no sofreria ela, se ele fosse meu? Querer a minha
felicidade  custa dela,  um sentimento mau que mame nunca me ensinou. Que
ela seja feliz e sofra eu a minha sorte.

Talvez eu possa viver; e nesse caso,  minha Virgem da
Conceio, eu s te peo que me ds a fora necessria para ser feliz s com a
vista dele, embora ele me seja indiferente.

Se mame soubesse disto talvez ralhasse comigo, mas eu
acho que...

O papel achava-se interrompido neste ponto.

O mdico acabou estas linhas banhado em lgrimas. A me chorava igualmente. O segredo confiado aos dois morreu com ambos.

Mas um dia, tendo morrido a velha me de Marcelina, e
procedendo-se ao inventrio, foi achado o papel pelo cunhado de Marcelina...
Jlio conheceu ento a causa da morte da cunhada. Lanou os olhos para um
espelho, procurando nas suas feies um raio da simpatia que inspirara a
Marcelina, e exclamou:

 Pobre menina!

Acendeu um charuto e foi ao teatro.

II

Antnia

A histria conhece um tipo da dissimulao, que resume
todos os outros, como a mais alta expresso de todos:   Tibrio. Mas nem esse
chegaria a vencer a dissimulao dos Tibrios femininos, armados de olhos e
sorrisos capazes de frustrar os planos mais bem combinados e enfraquecer as
vontades mais resolutas.

Antnia era uma mulher assim.

Quando eu a conheci era ela casada de doze meses. O marido
tinha nela a mais plena confiana. Amavam-se ambos com o amor mais ardente e
apaixonado que ainda houve. Era uma alma s em dois corpos. Se ele demorava fora
de casa, Antnia no s velava todo o tempo, como desfazia-se em lgrimas de
saudades e de dor. Apenas ele chegava, no havia o desenlace comum das
recriminaes estreis; Antnia lanava-se-lhe aos braos e tudo voltava em
bem.

Onde um no ia, no ia o outro. Para qu, se a felicidade
deles residia em estarem juntos, viverem dos olhos um do outro, fora do mundo e
dos seus vos prazeres?

Assim ligadas estas duas criaturas davam ao mundo o doce
espetculo de uma unio perfeita. Eram o enlevo das famlias e o desespero dos
mal casados.

Antnia era bela; tinha vinte e seis anos. Estava no pleno
desenvolvimento de uma dessas belezas robustas e destinadas a resistir  ao
do tempo. Oliveira, seu marido, era o que se podia chamar um Apolo. Via-se que
aquela mulher devia amar aquele homem e aquele homem devia amar aquela mulher.

Freqentavam a casa de Oliveira alguns amigos, uns da
infncia, outros de data recente, alguns de menos de um ano, isto , da data do
casamento de Oliveira. A amizade  o melhor pretexto, at hoje inventado, para
que um indivduo pretenda tomar parte na felicidade de outro. Os amigos de
Oliveira, que no primavam pela originalidade dos costumes, no ficaram isentos
de encantos que a beleza de Antnia produzia em todos. Uns, menos corajosos, desanimaram diante do extremoso amor que ligava o casal; mas um
houve, menos tmido, que assentou de si para si tomar lugar  mesa da ventura
domstica do amigo.

Era um tal Moura.

No sei dos primeiros passos de Moura; nem das esperanas
que ele pde ir concebendo  proporo que corria o tempo. Um dia, porm, a
notcia de que entre Moura e Antnia havia um lao de simpatia amorosa
surpreendeu a todos.

Antnia era at ento o smbolo do amor e da felicidade
conjugal. Que demnio lhe soprara ao ouvido to negra resoluo de iludir a
confiana e o amor do marido? Uns duvidaram, outros se irritaram, alguns
esfregaram as mos de contentes, animados pela idia de que o primeiro erro
devia ser uma arma e um incentivo para os erros futuros.

Desde que a notcia, contada  meia voz, e com a mais
perfeita discrio, correu de boca em boca, todas as atenes voltaram-se para
Antnia e Moura. Um olhar, um gesto, um suspiro, escapam aos mais dissimulados;
os olhos mais experimentados viram logo a veracidade dos boatos; se os dois se
no amavam, estavam perto do amor.

Deve-se acrescentar que ao p de Oliveira, Moura fazia o
papel de deus P ao p do deus Febo. Era uma figura vulgar, s vezes ridculo,
sem nada que pudesse legitimar a paixo de uma mulher bela e altiva. Mas assim
aconteceu, a grande aprazimento da sombra de La Bruyre.

Uma noite uma famlia da amizade de Oliveira foi
convid-la para irem ao Teatro Lrico. Antnia mostrou grande desejo de ir. Cantava
ento no sei que celebridade italiana.

Oliveira, por doente ou por enfado, no quis ir. As
instncias da famlia que os convidara foram inteis; Oliveira teimou em ficar.

Oliveira insistia em ficar, Antnia em ir. Depois de muito tempo o mais que se conseguiu foi que Antnia fosse em companhia das
amigas, que a trariam depois para casa.

Oliveira ficara em companhia de um amigo.

Mas, antes de sarem todos, Antnia insistiu de novo com o
marido para que fosse.

 Mas se eu no quero ir? dizia ele. Vai tu, eu ficarei,
conversando com ***.

  que se tu no fores, disse Antnia, o espetculo no
vale nada para mim. Anda!

 Vai, querida, eu irei em outra ocasio.

 Pois no vou!

E sentou-se disposta a no ir ao teatro. As amigas
exclamaram em coro:

 Como  isso: no ir? Que maada! Era o que faltava!
anda, anda!

 Vai, sim, disse Oliveira. Ento porque eu no vou, no
te queres divertir?

Antnia levantou-se:

 Est bem, disse ela, irei.

 De que nmero  o camarote? perguntou bruscamente
Oliveira.

 Vinte, segunda ordem, disseram as amigas de Antnia.

Antnia empalideceu ligeiramente.

 Ento, irs depois, no ? disse ela.

 No, decididamente, no.

 Dize se vais.

 No, fico,  decidido.

Saram para o Teatro Lrico. Sob pretexto de que desejava
ir ver a celebridade tomei o chapu e fui ao Teatro Lrico.

Moura estava l!

III

Carolina

 Pois qu! vais casar-te?

  verdade.

 Com o Mendona?

 Com o Mendona.

 Isso  impossvel! Tu, Carolina, tu formosa e moa,
mulher de um homem como aquele, sem nada que possa inspirar amor? Ama-o acaso?

 Hei de estim-lo.

 No o amas, j vejo.

  meu dever. Que queres, Lcia? Meu pai assim o quer,
devo obedecer-lhe. Pobre pai! ele cuida fazer a minha felicidade. A fortuna de
Mendona parece-lhe uma garantia de paz e de ventura da minha vida. Como se
engana!

 Mas no deves consentir nisso... Vou falar-lhe.

  intil, nem eu quero.

 Mas ento...

 Olha, h talvez outra razo: creio que meu pai deve
favores ao Mendona; este apaixonou-se por mim, pediu-me; meu pai no teve
nimo de recusar-me.

 Pobre amiga!

Sem conhecer ainda as nossas heronas, j o leitor comea
a lamentar a sorte da futura mulher de Mendona.  mais uma vtima, dir o
leitor, imolada ao capricho ou  necessidade. Assim . Carolina devia casar-se
da a alguns dias com Mendona, e era isso o que lamentava a amiga Lcia.

 Pobre Carolina!

 Boa Lcia!

Carolina  uma moa de vinte anos, alta, formosa, refeita.
Era uma dessas belezas que seduzem os olhos lascivos, e j por aqui ficam os
leitores sabendo que Mendona  um desses, com a circunstncia agravante de ter
meios com que lisonjear os seus caprichos.

Bem vejo como me poderia levar longe este ltimo ponto da
minha histria; mas eu desisto de fazer agora uma stira contra o vil metal
(por que metal?); e bem assim no me dou ao trabalho de descrever a figura da
amiga de Carolina.

Direi somente que as duas amigas conversavam no quarto de
dormir da prometida noiva de Mendona.

Depois das lamentaes feitas por Lcia  sorte de
Carolina, houve um momento de silncio. Carolina empregou algumas lgrimas;
Lcia continuou:

 E ele?

 Quem?

 Fernando.

 Ah! esse que me perdoe e me esquea;  tudo quanto posso
fazer por ele. No quis Deus que fssemos felizes; pacincia!

 Por isso o vi triste l na sala!

 Triste? ele no sabe nada. H de ser por outra coisa.

 O Mendona vir?

 Deve vir.

As duas moas saram para a sala. L se achava Mendona em
conversa com o pai de Carolina, Fernando a uma janela de costas para a rua, uma
tia de Carolina conversando com o pai de Lcia. Ningum mais havia. Esperava-se
a hora do ch.

Quando as duas moas apareceram todos voltaram-se para
elas. O pai de Carolina foi busc-las e levou-as a um sof.

Depois, no meio do silncio geral, o velho anunciou o
casamento prximo de Carolina e Mendona.

Ouviu-se um grito sufocado do lado da janela. Ouviu-se,
digo mal  no se ouviu; Carolina foi a nica que ouviu ou antes adivinhou.
Quando voltou os olhos para a janela, Fernando estava de costas para a sala e
tinha a cabea entre mos.

O ch foi tomado no meio de geral acanhamento. Parece que
ningum, alm do noivo e do pai de Carolina, aprovava semelhante consrcio.

Mas, quer aprovasse, quer no, ele devia efetuar-se da a
vinte dias.

Entro no teto conjugal como num tmulo, escrevia Carolina
na manh do casamento  amiga Lcia; deixo as minhas iluses  porta, e peo a
Deus que no perca s isso.

Quanto a Fernando, a quem ela no pde ver mais depois da
noite da declarao do casamento, eis a carta que ele mandou a Carolina, na
vspera de realizar-se o consrcio:

Quis acreditar at hoje que fosse uma iluso, ou um sonho
mau semelhante casamento; agora sei que no  possvel duvidar da verdade. Pois
qu! tudo te esqueceu, o amor, as promessas, os castelos de felicidade, tudo,
por amor de um velho ridculo, mas opulento, isto , dono desse vil metal,
etc., etc...

O leitor sagaz suprir o resto da carta, acrescentando
qualquer perodo tirado de qualquer romance da moda.

Isto que a fica escrito no muda em nada a situao da
pobre Carolina; condenada a receber recriminaes quando ia dar a mo de esposa
com o luto no corao.

A nica resposta dada por ela  carta de Fernando foi
esta:

Esquea-se de mim.

Fernando no assistiu ao casamento. Lcia assistiu triste
como se fora um enterro. Em geral perguntava-se que amor estranho era aquele
que levava Carolina a desfolhar a sua mocidade to viosa nos braos de
semelhante homem. Ningum atinava com a resposta.

Como eu no quero entreter os leitores com episdios
inteis e narraes fastidiosas, salto aqui uns seis meses e vou lev-los 
casa do Mendona, numa manh de inverno.

Lcia, solteira ainda, est com Carolina, onde costuma ir
passar alguns dias. No se fala na pessoa de Mendona; Carolina  a primeira a
respeit-lo; a amiga respeita esses sentimentos.

 verdade que os seis primeiros meses de casamento foram
para Carolina seis sculos de lgrimas, de angstia, de desespero. De longe a
desgraa parecia-lhe menor; mas desde que ela pde tocar com o dedo o deserto
rido e seco em que entrou, ento no pde resistir e chorou amargamente.

Era o nico recurso que lhe restava: chorar. Uma porta de
bronze separava-a para sempre da felicidade que sonhara nas suas ambies de
donzela. Ningum sabia dessa odissia ntima, menos Lcia, que ainda assim
sabia mais por adivinhar e por surpreender as torturas menores da companheira
dos primeiros anos.

Estavam, pois, as duas em conversa, quando s mos de
Carolina chegou uma carta assinada por Fernando.

Pintava-lhe o antigo namorado o estado em que tinha o
corao, as dores que sofrera, as mortes de que escapara. Nessa srie de
padecimentos, dizia ele, nunca perdera a coragem de viver para am-la, embora
de longe.

A carta era abundante em comentrios, mas eu julgo melhor
conservar somente a substncia dela.

Leu-a Carolina, trmula e confusa; esteve alguns minutos
calada; depois rasgando a carta em tiras muito midas:

 Pobre rapaz!

 Que ? perguntou Lcia.

  uma carta de Fernando.

Lcia no insistiu. Carolina indagou do escravo que lhe
trouxera a carta o modo por que lhe havia chegado s mos. O escravo respondeu
que um moleque lha entregara  porta. Lcia deu ordem para que no recebesse
cartas que viessem pelo mesmo portador.

Mas no dia seguinte uma nova carta de Fernando chegou s
mos de Carolina. Outro portador a entregara.

Nessa carta Fernando pintava com cores negras a situao
em que se achava e pedia dois minutos de entrevista com Carolina.

Carolina hesitou, mas releu a carta; ela parecia to
desesperada e dolorosa, que a pobre moa, em quem falava um resto de amor por
Fernando, respondeu afirmativamente.

Ia mandar a resposta, mas de novo hesitou e rasgou o
bilhete, protestando fazer o mesmo a quantas cartas chegassem.

Durante os cinco dias seguintes vieram cinco cartas, uma
por dia, mas todas ficaram sem resposta, como as anteriores.

Enfim, na noite do quarto dia, Carolina achava-se no
gabinete de trabalho, quando assomou  janela que dava para o jardim a figura
de Fernando.

A moa deu um grito e recuou.

 No grite! disse o moo em voz baixa, podem ouvir...

 Mas, fuja! fuja!

 No! quis vir de propsito, a fim de saber se deveras
no me amas, se esqueceste aqueles juramentos...

 No devo am-lo!...

 No deve! Que tem o dever conosco?

 Vou chamar algum! Fuja! Fuja!

Fernando saltou para o quarto.

 No, no hs de chamar!

A moa correu para a porta. Fernando travou-lhe do brao.

 Que  isso? disse ele; amo-te tanto, e tu foges de mim?
Quem impede a nossa felicidade?

 Quem? Meu marido!

 Seu marido! Que temos ns com ele? Ele...

Carolina pareceu adivinhar um pensamento sinistro em
Fernando e tapou os ouvidos. Nesse momento abriu-se a porta e apareceu Lcia.

Fernando no pde afrontar a presena da moa. Correu para
a janela e saltou para o jardim.

Lcia, que ouvira as ltimas palavras dos dois, correu a
abraar a amiga, exclamando:

 Muito bem! muito bem!

Dias depois Mendona e Carolina saram para uma viagem de
um ano. Carolina escrevia o seguinte a Lcia:

Deixo-te, minha Lcia, mas assim  preciso. Amei Fernando,
e no sei se o amo agora, apesar do ato covarde [1] que praticou. Mas eu no
quero expor-me a um crime. Se o meu casamento  um tmulo, nem por isso posso
deixar de respeit-lo. Reza por mim e pede a Deus que te faa feliz.

Foi para estas almas corajosas e honradas que se fez a
bem-aventurana.

IV

Carlota e Hortncia

Uma fila de cinqenta carros com um coche fnebre  frente
dirigia-se para um dos cemitrios da capital.

O carro funerrio conduzia o cadver de Carlota Durval,
senhora de vinte e oito anos, morta no esplendor da beleza.

Os que acompanhavam o enterro, apenas dois o faziam por
estima  finada: eram Lus Patrcio e Valadares.

Os mais iam por satisfazer a vaidade do vivo, um Jos
Durval, homem de trinta e seis anos, dono de cinco prdios e de uma dose de
fatuidade sem igual.

Valadares e Patrcio, na qualidade de amigos da finada,
eram os nicos que traduziam no rosto a profunda tristeza do corao. Os outros
levavam uma cara de tristeza oficial.

Valadares e Patrcio iam no mesmo carro.

 At que morreu a pobre senhora, disse o primeiro ao fim
de algum silncio.

 Coitada! murmurou o outro.

 Na flor da idade, acrescentava o primeiro, me de duas
crianas to bonitas, amadas por todos... Deus perdoe aos culpados!

 Ao culpado, que foi s ele. Quanto  outra, essa se no
fora desinquietada...

 Tens razo!

 Mas ele deve ter remorsos.

 Quais remorsos!  incapaz de os ter. No o conheces,
como eu? Ri e zomba de tudo. Isto para ele foi apenas um acidente; no lhe d
maior importncia, acredita.

Este pequeno dilogo d j ao leitor uma idia dos
acontecimentos que precederam  morte de Carlota.

Como esses acontecimentos so o objeto destas linhas
destinadas a apresentar o perfil desta quarta mulher, passo a narr-los mui
sucintamente.

Carlota casara com vinte e dois anos. No sei por que se
apaixonara por Jos Durval, e menos ainda no tempo de solteira, de que depois
de casada. O marido era para Carlota um dolo. S a idia de uma infidelidade
da parte dele bastava para mat-la.

Viveram algum tempo no meio da mais perfeita paz, no que
ele no desse  mulher motivos de desgosto, mas porque eram estes to
encobertos que nunca haviam chegado aos ouvidos da pobre moa.

Um ano antes Hortncia B., amiga de Carlota, separava-se
do marido. Dizia-se que era por motivos de infidelidade conjugal da parte dele;
mas ainda que o no fosse, Carlota receberia a amiga em sua casa, to amiga era
dela.

Carlota compreendia as dores que podiam trazer a uma
mulher as infidelidades do marido; por isso recebeu Hortncia com os braos
abertos e entusiasmo no corao.

Era o mesmo que se uma rosa abrisse o seio confiante a um
inseto venenoso.

Da a seis meses Carlota reconhecia o mal que tinha feito.
Mas era tarde.

Hortncia era amante de Jos Durval.

Quando Carlota descobriu qual era a situao de Hortncia
em relao a ela, sufocou um grito. Era a um tempo, cime, desprezo, vergonha.
Se alguma coisa podia atenuar a dor que ela sentia, era a covardia do ato de
Hortncia, que to mal pagava a hospitalidade que obtivera de Carlota.

Mas o marido? No era igualmente culpado? Carlota avaliou
de um relance toda a hediondez do proceder de ambos, e resolveu romper um dia.

A frieza que comeou a manifestar a Hortncia, mais do que
isso, a repugnncia e o desdm com que a tratava, despertou no esprito desta a
idia de que era preciso sair de uma situao to falsa.

Todavia, retirar-se simplesmente seria confessar o crime.
Hortncia dissimulou e um dia recriminou a Carlota os seus modos recentes de
tratamento.

Ento tudo se clareou.

Carlota, com uma clera sufocada, lanou em rosto  amiga
o procedimento que tivera em casa dela. Hortncia negou, mas era negar
confessando, pois que nenhum tom de sinceridade tinha a sua voz.

Depois disso era necessrio sair. Hortncia, negando
sempre o crime de que era acusada, declarou que sairia de casa.

 Mas isso no desmente, nem remedia nada, disse Carlota
com os lbios trmulos.  simplesmente mudar o teatro das suas loucuras.

Esta cena abalou a sade de Carlota. No dia seguinte
amanheceu doente. Hortncia apareceu para falar-lhe, mas ela voltou o rosto
para a parede. Hortncia no voltou ao quarto, mas tambm no saiu da casa.
Jos Durval imps essa condio.

 Que dir o mundo? perguntava ele.

A pobre mulher foi obrigada a sofrer mais essa humilhao.

A doena foi rpida e benfica, porque no fim de quinze
dias Carlota expirava.

Os leitores j assistiram ao enterro dela.

Quanto a Hortncia, continuou a viver em casa de Jos
Durval, at que se passassem os primeiros seis meses do luto, no fim dos quais
casaram-se perante um concurso numeroso de amigos, ou pessoas que se davam por
isso.

Supondo que os leitores tero curiosidade de saber o que
sucedeu depois, aqui termino com uma carta escrita, depois de dois anos da
morte de Carlota, por Valadares a L. Patrcio.

Meu amigo. Corte, 12 de...  Vou dar-te algumas notcias
que te ho de alegrar, como a mim, posto que a caridade evanglica nos manda
lastimar as desgraas alheias. Mas h certas desgraas que parecem um castigo
do cu e a alma sente-se satisfeita quando v o crime punido.

Lembras-te ainda da pobre Carlota Durval, morta de
desgosto pela traio do marido e de Hortncia? Sabes que esta ficou a viver em
casa do vivo, e que no fim de seis meses casaram-se  face da Igreja, como
duas criaturas abenoadas do cu? Pois bem, ningum as faa que as no pague;
Durval est mais do que nunca arrependido do passo que deu.

Primeiramente, ao passo que a pobre Carlota era uma pomba
sem fel, Hortncia  um drago de saias, que no deixa o marido pr p em ramo
verde. So exigncias de toda a casta, exigncias de luxo, exigncias de honra,
porque a fortuna de Durval no podendo resistir aos ataques de Hortncia,
foi-se desmoronando a pouco e pouco.

Os desgostos envelheceram o pobre Jos Durval. Mas se
fosse apenas isso, era de agradecer a Deus. O caso, porm, tornou-se pior;
Hortncia, que trara a amiga, no teve dvida em trair o marido: Hortncia tem
hoje um amante!

 realmente triste semelhante coisa, mas eu no sei por
que esfreguei as mos de contente quando soube da infidelidade de Hortncia. Parece
que as cinzas da Carlota deviam estremecer de alegria debaixo da terra...

Perdoe-me Deus a blasfmia, se acaso o .

Julguei que estas notcias te seriam agradveis, a ti que
estimastes aquela pobre mrtir.

Ia acabando sem contar a cena que houve entre Durval e a
mulher.

Um bilhete mandado por H. (o amante) caiu nas mos de Jos
Durval, no sei por que terrvel acaso. Houve exploso da parte do marido; mas
o infeliz no tinha foras para manter-se na sua posio; dois gritos e dois
sorrisos da mulher puseram-lhe gua fria na clera.

Da em diante, Durval anda triste, cabisbaixo, taciturno.
Emagrece a olhos vistos. Pobre homem! afinal de contas comeo a ter pena...

Adeus, meu caro, vai cultivando, etc...

Esta carta era dirigida a Campos, onde se achava L.
Patrcio. A resposta deste foi a seguinte:

Muito me contas, meu amigo Valadares, acerca dos algozes
da Carlota.  uma pag, no deixes de cr-lo, mas no que fazes mal,  em
mostrares alegria por essa desgraa. Nem devemos t-la, nem as cinzas de
Carlota se regozijaram no outro mundo. Os maus, no fim de conta, so dignos de
lstima, por serem to fracos que no possam ser bons. E basta a punio para
ficarmos j condodos do pobre homem.

Falemos de outra coisa. Sabes que os cafezais...

No interessa aos leitores saber dos cafezais de L.
Patrcio.

O que interessa saber  que Durval morreu de desgosto
dentro de pouco tempo, e que Hortncia procurou na devoo de uma velhice
prematura a expiao dos erros passados.
