Conto, O Melhor Remdio, 1884

O Melhor Remdio

Texto-fonte:

Obra Completa, de Machado de Assis,
vol. II,

Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1994.

Publicado originalmente em A Estao, 31/3/1884.

O que se vai ler passa-se num bond. D. CLARA est sentada;
v D. AMLIA que procura um lugar; e oferece-lhe um ao p de si.

D. CLA. Suba aqui, Amlia. Como
passa?

D. AM. Como hei de passar?

D. CLA. Doente?

D. AM. (suspirando) Antes fosse
doente!

D. CLA. (com discrio) Que
aconteceu?

D. AM. Coisas minhas! Voc  bem
feliz, Clara. Digo muita vez comigo que voc  bem feliz. Realmente, eu no sei
para que vim ao mundo.

D. CLA. Feliz, eu? (Olhando
melancolicamente para as borlas do leque) Feliz! feliz! feliz!

D. AM. No tente a Deus, Clara.
Pois voc quer comparar-se a mim nesse particular? Sabe por que  que sa hoje?

D. CLA. E eu por que  que sa?

D. AM. Sa, porque j no posso
com esta vida: um dia morro de desespero. Olhe, digo-lhe tudo: sa at com
idias... No, no digo. Mas imagine, imagine.

D. CLA. Fnebres?

D. AM. Fnebres. Sou nervosa, e
tenho momentos em que me sinto capaz de dar um tiro em mim ou atirar-me de um
segundo andar. Imagine voc que o senhor meu marido teve idia... Olhe que isto
 muito particular.

D. CLA. Pelo amor de Deus!

D. AM. Teve idia de ir este ano
para Minas; at aqui vai bem. Eu gosto de Minas. Estivemos l dois meses, logo
depois que casamos. Comecei a arranjar tudo; disse a todas as pessoas que ia
para Minas..

D. CLA. Lembro-me que me disse.

D. AM. Disse. Mame achou
esquisito, e pediu-me que no fosse, dizendo que, para ela visitar-nos de
quando em quando, era-lhe mais fcil se estivssemos em Petrpolis. E era verdade; mas ainda assim no falei logo ao Conrado. S quando ela teimou muito  que
eu contei ao Conrado o que mame me tinha dito. Ele no respondeu; ouviu,
levantou os ombros, e saiu. Mame teimava; afinal declarou-me que ia ela mesma
falar a meu marido; pedi-lhe que no, ela porm respondeu-me que no era uma
bicha de sete cabeas. Petrpolis ou Minas, tudo era passar o vero fora, com a
diferena que, para ela, Petrpolis ficava mais perto. E no era assim mesmo?

D. CLA. Sem dvida.

D. AM. Pois oua. Mame
falou-lhe; foi ele mesmo quem me disse, entrando em casa, no sbado, muito
sombrio e aborrecido. Perguntei-lhe o que  que tinha; respondeu-me com mau
modo; afinal disse-me que mame lhe fora pedir para no ir a Minas. Foi voc
quem se agarrou com ela!  Eu, Conrado? Mame mesma  que me anda falando
nisto, e eu at lhe disse que no lhe pedia nada. No houve explicao que
valesse; ele declarou que no iramos em caso nenhum a Petrpolis. Para mim 
o mesmo, disse eu; estou pronta at a no ir a parte nenhuma. Sabe o que  que
ele me respondeu?

D. CLA. Que foi?

D. AM. Isto queria voc! Veja
s!

D. CLA. Mas... no entendo.

D. AM. Eu disse a mame que no
pedisse mais nada; no valia a pena, era perder tempo e zangar o Conrado. Mame
concordou comigo; mas, da a dois dias, tornou a falar na mudana; e afinal
ontem o Conrado entrou em casa com os olhos cheios de raiva. No me disse nada,
por mais que lhe rogasse. Hoje de manh, depois do almoo, declarou-me que
mame tinha ido procur-lo ao escritrio e lhe pediria pela terceira vez para
no ir a Minas, mas, a Petrpolis; que ele afinal consentira em dividir o
tempo, um ms em Minas e outro em Petrpolis. E depois pegou-me no pulso, e disse-me que tomasse cuidado; que ele bem sabia por que 
que eu queria ir para Petrpolis, que era para andar de olhadelas com... Nem lhe
quero dizer o nome, um sujeito de quem no fao caso... Diga-me se no  para
ficar maluca.

D. CLA. No acho.

D. AM. No acha?

D. CLA. No:  um episdio sem
valor. Maluca havia de ficar se se desse o que se deu hoje comigo.

D. AM. Que foi?

D. CLA. Vai ver. Conhece o
Albernaz?

D. AM. O do olho de vidro?

D. CLA. Justamente. Damo-nos com a
famlia dele, a mulher, que  uma boa senhora, e as filhas que so muito
galantes...

D. AM. Muito galantes.

D. CLA. H ms e meio fez anos uma
delas, e ns fomos l jantar. Comprei um presente no Farani, um broche muito
bonito; e na mesma ocasio comprei outro para mim. Mandei fazer um vestido, e
fiz umas compras mais. Isto foi h ms e meio. Oito dias depois deu-se a
reunio do Baltasar. J tinha o vestido encomendado, e no precisava mais nada;
mas, passando pela Rua do Ouvidor, vi outro broche muito bonito e tive vontade
de compr-lo. No comprei, e fui andando. No dia seguinte torno a passar, vejo
o broche, fui andando, mas na volta... Realmente, era muito bonito; e com o meu
vestido ia muito bem. Comprei-o. O Lucas viu-me com ele, no dia da reunio, mas
voc sabe como ele , no repara em nada; pensou que era antigo. No reparou
mesmo no primeiro, o do jantar do Albernaz. Vai ento hoje de manh, estando
para sair, recebeu a conta. Voc no imagina o que houve; ficou como uma cobra.

D. AM. Por causa dos dois
broches?

D. CLA. Por causa dos dois
broches, dos vestidos que fao, das rendas que compro, que sou uma gastadeira,
que s gosto de andar na rua, fazendo contas, o diabo. Voc no imagina o que
ouvi. Chorei, chorei, como nunca chorei em minha vida. Se tivesse nimo,
matava-me hoje mesmo. Pois ento... E concordo, concordo que no era preciso
outro broche mas isto faz-se, Amlia?

D. AM. Realmente...

D. CLA. Eu at sou econmica.
Voc, que se d comigo h tantos anos, sabe se no vivo com economia. Um
barulho por causa de nada, uns miserveis broches...

D. AM. H de ser sempre assim. (Chegando
 Rua do Ouvidor.) Voc desce ou sobe?

D. CLA. Eu subo, vou  Glace
Elegante; depois deso. Vou ver uma gravura muito bonita, inglesa...

D. AM. J vi; muito bonita. Vamos
juntas.

D. CLA. H hoje muita gente na Rua
do Ouvidor.

D. AM. Olha a Costinha... Ela no
fala com voc?

D. CLA. Estamos assim um pouco...

D. AM. E... e depois...

D. CLA. Sim... mas... luvas
brancas.

D. AM. ..................?

D. CLA. ...................!

AMBAS (sorrindo) Uma coisa
muito engraada; vou contar-lhe...
