Crtica, Francisco de Castro: Harmonias errantes, 1878.

Francisco de Castro: Harmonias errantes

Texto-Fonte:

Obra Completa de Machado de Assis,

Rio
de Janeiro: Nova Aguilar, vol. III, 1994.

Carta
publicada como prefcio a Harmonias errantes, Rio de Janeiro, Tipografia
Moreira, 1878.

[RJ,4
ago. 1878.]

Meu
caro poeta,  Pede-me a mais fcil e a mais intil das tarefas literrias:
apresentar um poeta ao pblico. Custa pouco dizer em algumas linhas ou em
algumas pginas, de um modo simptico e benvolo,  porque a benevolncia 
necessria aos talentos sinceros, como o seu,  custa pouco dizer que
impresses nos deixaram os primeiros produtos de uma vocao juvenil. Mas no
, ao mesmo tempo, uma tarefa intil? Um livro  um livro; vale o que
efetivamente . O leitor quer julg-lo por si mesmo; e, se no acha no escrito
que o precede,  ou a autoridade do nome,  ou a perfeio do estilo e a
justeza das idias,  mal se pode furtar a um tal ou qual sentimento de enfado.
O estilo e as idias dar-lhe-iam a ler uma boa pgina,  um regalo de sobra; a
autoridade do nome ench-lo-ia de orgulho; se a impresso da crtica coincidira
com a dele. Suponho ter idias justas: mas onde esto as outras duas vantagens?
Seu livro vai ter uma pgina intil.

Sei que o
senhor supe o contrrio; iluso de poeta e de moo, filha de uma afeio antes
instintiva que experimentada, e, em todo caso, recente e generosa; seu corao
de poeta leu talvez, atravs de algumas estrofes que a me ficaram no caminho,
este amor da poesia, esta f viva em alguma coisa superior s nossas labutaes
sem fruto, primeiro sonho da mocidade e ltima saudade da vida. Leu isso;
compreendeu que h dolos que se no quebram e cultos que no morrem, e veio
ter comigo, de seu prprio movimento, cheio daquela cndida confiana de
sacerdote novo, resoluto e pio. Veio bem e mal; bem para a minha simpatia, mal
para o seu interesse; mas, segundo j disse, nem bem nem mal para o publico, diante
de quem esta pgina  demais.

E
contudo, meu caro poeta,  difcil esquivar-se um homem que ama as musas a no
falar de um poeta novo, em um tempo que precisa deles, quando h necessidade de
animar todas as vocaes, as mais arrojadas e as mais modestas, para que se no
quebre a cadeia da nossa poesia nacional.

Creio que
o senhor pertence a essa juventude laboriosa e ambiciosa, que hesita entre o
ideal de ontem e uma nova aspirao, que busca sinceramente uma forma
substitutiva do que lhe deixou a gerao passada. Nesse tatear, nesse hesitar
entre duas coisas,  uma bela, mas porventura fatigada, outra confusa, mas
nova,  no h ainda o que se possa chamar movimento definido. Basta, porm,
que haja talento, boa vontade e disciplina; o movimento se far por si, e a
poesia brasileira no perder o verdor nativo, nem desmentir a tradio que
nos deixaram o autor do Uruguai e o autor d' Os Timbiras.

Citei
dois mestres; poderia citar mais de um talento original e cedo extinto, a fim
de lembrar  recente gerao, que qualquer que seja o caminho da nova poesia,
convm no perder de vista o que h essencial e eterno nessa expresso da alma
humana. Que a evoluo natural das coisas modifique as feies, a parte externa,
ningum jamais o negar; mas h alguma coisa que liga, atravs dos sculos,
Homero e Lord Byron, alguma coisa inaltervel, universal e comum, que
fala a todos os homens e a todos os tempos. Ningum o desconhece, decerto,
entre as novas vocaes; o esforo empregado em achar e aperfeioar a forma no
prejudica, nem poderia alterar a parte substancial da poesia,  ou esta no
seria o que  e deve ser!

Venhamos
depressa ao seu livro, que o leitor tem nsia de folhear e conhecer. Estou que
se o ler com nimo repousado, com vista simptica, justa, reconhecer que  um
livro de estria, incerto em partes, com as imperfeies naturais de uma
primeira produo. No se envergonhe de imperfeies, nem se vexe de as ver
apontadas; agradea-o antes. A modstia  um merecimento. Poderia lastimar-se
se no sentisse em si a fora necessria para emendar os senes inerentes aos
trabalhos de primeira mo. Mas ser esse o seu caso? H nos seus versos uma
espontaneidade de bom agouro, uma natural simpleza, que a arte guiar melhor e
a ao do tempo aperfeioar.

Alguns
pediro  sua poesia maior originalidade; tambm eu lha peo. Este seu primeiro
livro no pode dar ainda todos os traos de sua fisionomia potica. A poesia
pessoal, cultivada nele, est, para assim dizer, exausta; e da vem a
dificuldade de cantar coisas novas. H pginas que no provm dela; e, visto
que a o seu verso  espontneo, cuido que deve buscar uma fonte de inspirao
fora de um gnero, em que houve tanto triunfo a par de tanta queda. Para que a
poesia pessoal renasa um dia,  preciso que lhe dem outra roupagem e
diferentes cores;  precisa outra evoluo literria.

O perigo
destes prefcios, meu caro poeta,  dizer demais;  ocupar maior espao do que
o leitor pode razoavelmente conceder a uma lauda intil. Eu creio haver dito o
bastante para um homem sem autoridade. Viu que no o louvei com excesso, nem o
censurei com insistncia; aponto-lhe o melhor dos mestres, o estudo; e a melhor
das disciplinas, o trabalho. Estudo, trabalho e talento so a trplice arma com
que se conquista o triunfo.
