Conto, Felicidade pelo casamento, 1866

Felicidade pelo casamento

Texto-fonte:

http://www2.uol.com.br/machadodeassis/

Publicado originalmente em Jornal
das Famlias, 1866.

Cest une me que son me
demande [...] qui sattache  elle avec tant de force et qui souffre avec tant
de bonheur son treinte, que rien ne puisse plus les sparer... * (nota de Machado com traduo?)

JULES SIMON

I

Acontecimentos imprevistos
obrigaram-me a deixar a provncia e estabelecer-me algum tempo na corte. Foi
isto no ano de 185... Os acontecimentos a que me refiro eram relativos  minha
famlia, cujo chefe j no existia. Tinha eu ordem de demorar-me um ano na
corte, depois do que voltaria  provncia.

Devo referir uma circunstncia de
interesse para o caso. Um de meus tios tinha uma filha de vinte anos, talvez
bonita, mas em quem eu no reparara nunca, e a quem tinha simples afeio de
parente. Era do gosto do pai que nos casssemos, e no menos do gosto dela.
Duas ou trs vezes que me falaram nisso respondi secamente que desejava ficar
solteiro; no instaram mais; mas a esperana nunca a perderam, nem o pai nem a
filha.

A explicao da minha recusa e do
desamor com que eu via a minha prima estava no meu gnio solitrio e
contemplativo. At os quinze anos fui tido por idiota; dos quinze aos vinte
chamavam-me poeta; e, se as palavras eram diferentes, o sentido que a minha
famlia lhes dava era o mesmo. Era pouco de ser estimado um moo que no
comungava nos mesmos passatempos da casa e via correr as horas na leitura e nas
digresses pelo mato.

Minha me era a nica a quem tais
instintos de isolamento no davam para rir nem para desamar. Era me. Muitas
vezes, alta noite, quando os meus olhos se cansavam de percorrer as pginas de
Atal ou Corina, abria-se a porta do gabinete e a sua figura meiga e veneranda,
como a das santas, vinha distrair-me da cansada leitura. Cedia s suas
instncias e ia repousar.

Ora,  preciso dizer, para
encaminhar o esprito do leitor nesta histria, que dois anos antes do tempo em
que comea, tinha eu tido uma fantasia amorosa. Fantasia amorosa digo eu e no
minto. No era amor; amor foi o que eu depois senti, verdadeiro, profundo,
imortal.

Para mostrar a graduao dos meus
sentimentos depois desse episdio, e at para melhor demonstrar a tese que
serve de ttulo a estas pginas, devo transcrever para aqui dois manuscritos
velhos. Cada um tem a sua data; o primeiro  uma lamentao, o segundo  uma
resignao. H um abismo entre ambos, como h um abismo entre aquele tempo e o
tempo de hoje.

Eis o que, logo aps a fantasia
amorosa de que falei, veio achar-me a escrever minha adorada me.

* * *

Estou s. Ouo bater o mar que se
quebra na praia a cinqenta passos de mim.  o nico rumor que nesta hora
quebra o silncio da noite. Fora desse sinto apenas o leve rudo da pena que
corre no papel. Escrevo sem assunto e em busca de assunto. Que h de ser? Sobre
a mesa tenho duas pilhas de livros. De um lado a Bblia e Pascal, do outro
Alfredo de Vigny e Lamartine.  obra do acaso e no parece: tal  o estado do
meu esprito. Os trs primeiros livros me chamam  contemplao asctica e s
reflexes morais; os trs ltimos despertam os sentimentos do corao e levam
meu esprito s mais elevadas regies da fantasia.

Quero entranhar-me no mundo da
reflexo e do estudo, mas o meu corao, solteiro talvez, talvez vivo, pede-me
versos ou imaginaes. Triste alternativa, que para nenhuma resoluo me guia!
Este estado, to comum nos que realmente se dividem entre sentir e pensar, 
uma dor dalma,  uma agonia do esprito.

De onde estou vejo o mar; a noite
 clara e deixa ver as ondas que se vo quebrar  areia da praia. Uma vez solto
onde irs tu, meu pensamento? Nem praias, nem ondas, nem barreiras, nem nada;
tudo vences, de tudo zombas, eis-te a livre, a correr, mar em fora, em busca
de uma lembrana perdida, de uma esperana desenganada. L chegas, l entras,
de l voltas ermo, triste, mudo, como o tmulo do amor perdido e to cruelmente
desflorado!

nsia de amar, nsia de ser feliz,
que haver no mundo que mais nos envelhea a alma e nos faa sentir as misrias
da vida? Nem  outra a misria: esta, sim; este ermo e estas aspiraes; esta
solido e estas saudades; esta to prpria sede de uma gua que no h tir-la
de nenhuma Noreb, eis a misria, eis a dor, eis a tristeza, eis o aniquilamento
do esprito e do corao.

Que  o presente em tais casos? O
vcuo e o nada; no passado o luzir leve e indistinto quase de uma curta ventura
que passou; no futuro a estrela da esperana cintilante e viva, como uma
lmpada eterna. De onde estamos, um ansiar sem trguas, uns ntimos impulsos a
ir buscar a felicidade remota e esquiva. Do passado ao futuro, do futuro ao
passado, como este mar que invade estas praias agora, e amanh ir beijar as
areias opostas, tal  a vacilao do esprito, tal  a vida ilusria do meu
corao.

* * *

Que me direis vs, meus livros?
Queixas e consolaes. Dais-me escrito o que eu tenho a falar no interior.
Queixas de um sentir sem eco, consolaes de uma esperana sem desfecho. Que
haveis de dizer mais? Nada  novo; o que , j foi e h de vir a ser. Destas
dores sentir-se-o sempre e no deixaro de sentir-se. Crculo vicioso,
problema sem soluo!

Lembrei o Eclesiastes. Que me dir
esse tesouro de sabedoria?

 Todas as coisas tm seu tempo, e
todas elas passam debaixo do cu segundo o termo que a cada uma foi prescrito.

H tempo de nascer e de morrer.

H tempo de plantar e tempo de
colher.

H tempo de enfermar e tempo de
sarar.

H tempo de chorar e tempo de rir.

H tempo de destruir e tempo de
edificar.

H tempo de afligir e tempo de se
alegrar.

H tempo de espalhar pedras e
tempo de as ajuntar.

H tempo de guerra e tempo de paz.

Assim fala o Eclesiastes. A cada
coisa um tempo: eis tudo. Qual ser o tempo desta coisa? Qual ser o tempo
daquela? Tal  a dvida, tal  a incerteza.

Destruo agora; quando edificarei?
Aflijo-me; quando me hei de alegrar? Semeio; quando hei de colher? Vir o tempo
para isso... Quando? No sei! A certeza  uma: a certeza do presente; a da
destruio, a da aflio, a da plantao. O resto  mistrio e abismo.

No! Entre tantas incertezas,
entre tantas iluses, uma certeza h; h um tempo que h de vir, fatalmente,
imperiosamente: o tempo de morrer. Nasci, morrerei. Oh, cincia humana! Entre a
destruio e a edificao, entre a tristeza e a alegria, entre o semear e o
colher, h o tempo que no  de uma nem de outra coisa, o tempo absoluto, o
tempo que marca a todas as horas uma vida e uma morte, um vagido e uma agonia;
o tempo do fim, infalvel, fatal.

* * *

Do semear depende a colheita. Mas
que terra  esta que tanto gasta em restituir o que se lhe confiou? Semeei.
Dividi minha alma, esmigalhei a minha vida, e s mos-cheias lancei os melhores
fragmentos a esmo, na terra bera e no cho pedregoso. Foi preciso cantar,
cantei: era dcil a imaginao e eu deixei-a correr  solta; foi preciso
chorar, chorei; as lgrimas podiam comprar a ventura; foi preciso confiar,
confiei; a confiana prepara o corao e legitima os desejos. Mas ela, a planta
desejada, por que se deteve no seio da terra?

* * *

Pareceu-me um dia vir surgindo
verde, viosa, como as esperanas de que eu ento enchia a minha alma. Foi
iluso? Sonhava apenas? Foi realidade? Ela a sair e eu a fechar os olhos para a
no ver logo, goz-la toda, no vex-la, no emurchec-la com o meu hlito ou
amofin-la com o meu olhar sequioso. Quando os abri no a vi mais. Quebrou-a o
vento. Foi simples iluso de meu desejo? No sei; sei que desaparecera.

* * *

H tempo de guerra e de paz, diz o
Eclesiastes.

E no meio da guerra  que melhor
se apreciam os benefcios da paz.

Em peleja ando, incessante e
ardente. Trguas tenho tido; a paz no passou ainda de um sonho.

Os inimigos so aos centos. Luto
pela dignidade, pela tranqilidade, pela felicidade. Luto por essa paz
benfica, cujo tempo h de vir no tempo em que vier. O sangue esvai-se, a
confiana esmorece, o valor fraqueia; mas a luta  necessria at o tempo da
paz. Quando? Nada sei...

As pginas que deixo transcritas
mostram bem o estado do meu esprito. Misturava-se  dor do afeto perdido uma
certa nsia de felicidade e de paz que aceitaria logo, ainda mesmo pelas mos
de outrem que no as da mulher sonhada.

O tempo trouxe a sua ao benfica
ao meu corao. Pouco depois, em uma noite de conforto, lanava eu ao papel as
seguintes linhas:

Volta-se de um amor, escreve um
humorista, como de um fogo de artifcio: triste e aborrecido. Tal  em resumo a
minha situao. E feliz o homem que, aps um sonho de longos dias, no traz no
corao a mnima gota de fel. Pode olhar sobranceiro para as contingncias da
vida e no apreender-se de vos terrores ou vergonhosas pusilanimidades.

 certo que as naturezas capazes
de resistir ao choque das paixes humanas so inteiramente raras. O mundo
regurgita de almas melindrosas, que, como a sensitiva dos campos, se contraem e
murcham ao menor contato. Sair salvo e rijo dos combates da vida  caso de rara
superioridade. Esta glria, esta felicidade, ou esta honra, tive-a eu, que, nas
mos da mais vesga fatalidade, nada deixei do que recebi de puro e
verdadeiramente perdurvel.

A vida  um livro, no dizer de
todos os poetas. Negro para uns, dourado para outros. No o tenho negro; mas o
parnteses que se me abriu no meio das melhores pginas, esse foi angustioso e
sombrio.

Nunca entendi o livro de J, como
ento. S ento calculei que a misria depois da opulncia era um mal maior do
que a misria desde o bero.

As lamentaes do filho de Hus,
no s as entendi como me serviram de exemplo. Vi-o maldizer a hora do
nascimento e assisti  resignao com que se lhe iluminou a alma e com que ele
aceitou experincias do cu. Como ele amaldioei, e como ele me resignei.
Aquelas pginas respiram consolaes, aspirei nelas a tranqilidade presente...

II

A viagem ao Rio de Janeiro tinha
para mim um encanto;  que, embora perdesse os carinhos maternais e os passeios
ao longo dos rios da minha provncia, vinha para uma capital desconhecida,
onde, no meio da multido, podia isolar-me e viver comigo e de mim. Os negcios
de que vinha tratar dependiam de poucas relaes, que eu inteiramente no
estreitaria mais do que o necessrio.

Fui morar em uma casa da Rua Direita
com o meu criado Joo, caboclo do Norte, que me conhecia o gnio e sabia
sujeitar-se s minhas preocupaes.

A casa no era grande nem pequena;
tinha duas salas, uma alcova, e um gabinete. No tinha jardim. Ao manifestar o
meu despeito por isso, acudiu Joo:

 H jardins e passeios nos
arredores, meu amo. Meu amo pode, sempre que quiser, ir passear pelo interior.
E Petrpolis? Isso  coisa rica!

Consolei-me com a expectativa dos
passeios.

Passei os primeiros dias a ver a
cidade.

Vi muita gente boquiaberta diante
das vidraas da Rua do Ouvidor, manifestando no olhar o mesmo entusiasmo que eu
quando contemplava os meus rios e as minhas palmeiras. Lembrei-me com saudade
das minhas antigas diverses, mas tive o esprito de no condenar aquela gente.
Nem todos podem compreender os encantos da natureza, e a maioria dos espritos
s se nutrem de quinquilharias francesas. Agradeci a Deus no me ter feito
assim. No me detenho nas impresses que me causou a capital. Satisfiz a
curiosidade e voltei aos meus hbitos e isolamento.

Dois meses se passaram sem
novidade alguma. Iam bem os negcios que me trouxeram ao Rio, e eu contava
voltar  provncia dentro em poucos meses.

Durante este primeiro perodo fui
 Tijuca duas vezes. Preparava-me para ir a Petrpolis quando fui atacado de
uma febre intermitente.

Joo chamou um mdico da
vizinhana, que me veio ver e conseguiu pr-me so.

O Magalhes era um belo velho. Ao
v-lo parecia-me estar diante de Abrao, tal era a sua fisionomia, e tal a
moldura venervel de seus cabelos e barbas brancas.

Sua presena, tanto como os
remdios que me deu, serviu de curativo  minha doena.

Quando vinha visitar-me levava
horas e horas em conversa, interrogando-me sobre as mil particularidades de
minha vida, com um interesse to sincero, que no me dava lugar a negativa
alguma.

O doutor era um velho instrudo e
tinha viajado muito. Era um prazer conversar com ele. No me contava cenas da
vida de Paris, nem aventuras de Hamburgo ou Baden-Baden. Falava-me do mar e da
terra, mas no que o mar tem de mais solene e no que a terra tem de mais
sagrado. O doutor pisara o solo da Lacedemnia e o solo de Roma, beijara o p
de Jerusalm, bebera a gua do Jordo e rezara ao p do Santo Sepulcro. Na
terra grega foi acompanhado de Xenofonte, na terra romana de Tito Lvio, na
terra santa de So Mateus e So Joo.

Eu ouvia as suas narrativas com um
respeito e um recolhimento de poeta e de cristo. O velho falava com ar grave,
mas afetuoso e ameno; contava as suas viagens sem pretenso, nem pedantismo.
Aquela simplicidade dava-se comigo. Tal foi o motivo por que, terminada a
molstia, era eu j amigo do Magalhes.

Entrando em convalescena, julguei
que era tempo de satisfazer as visitas do mdico. Escrevi-lhe uma carta, inclu
a quantia que julgava devida, e mandei pelo Joo  casa do doutor.

Joo voltou dizendo que o doutor,
depois de hesitar, no quisera receber a carta, mas que se preparava para ir 
minha casa.

E, com efeito, da a pouco
entrava-me em casa o Magalhes.

 Ento quer brigar comigo?
perguntou-me ele parando  porta. Fazem-se estas coisas entre amigos?

Minha resposta foi atirar-me aos
braos do velho.

 Ento! disse ele; j vai
recuperando as cores da sade. Est so...

 Qual! respondi eu; ainda me
sinto um pouco fraco...

 De certo, de certo.  que a
doena o prostrou deveras. Mas agora vai indo pouco a pouco. Olha, por que no
toma ares fora da cidade?

 Eu preparava-me para ir a
Petrpolis quando ca doente. Irei agora.

 Ah! ingrato!

 Por qu?

 Mas tem razo. Eu ainda nada lhe
disse de mim. Pois, meu amigo, se eu lhe oferecesse casa em Andara... deixaria
de ir a Petrpolis?

 Oh! meu amigo!

 Isto no  responder.

 Sim, sim, aceito o seu favor...

No dia seguinte, um carro nos
esperava  porta. Deixei a casa entregue ao meu caboclo, a quem dei ordem de ir
 casa do doutor, em Andara, trs vezes por semana.

Eu e o doutor entramos no carro e
partimos.

A casa do doutor era situada em
uma pequena eminncia, onde, vista de longe, parecia uma gara pousada em uma
elevao de relva.

No jardim e no interior tudo
respirava o gosto e a arte, mas uma arte severa e um gosto discreto, que
excluam todas as superfluidades sem valor para dar lugar a tudo o que entra
nas preferncias dos espritos cultivados.

No jardim algumas plantas exticas
e belas adornavam os canteiros regulares e cuidados. Dois caramanches
elegantes e leves ornavam o centro do jardim, um de cada lado, passando entre
ambos uma rua larga flanqueada de pequenas palmeiras.

  aqui, disse-me o velho, que
havemos de ler Tecrito e Virglio.

A casa, mobiliada com elegncia,
era pequena; mas tudo muito bem distribudo, tudo confortvel, de modo que as
paredes externas tornavam-se os limites do mundo. Vivia-se ali.

O doutor possua mil lembranas
das suas viagens; cpias de telas atribudas aos grandes mestres de pintura,
manuscritos, moedas, objetos de arte e de histria, tudo ornava o gabinete
particular do doutor, nessa confuso discreta que resume a unidade na variedade.

Uma biblioteca das mais escolhidas
chamava a ateno dos estudiosos em um dos gabinetes mais retirados da casa.

 Agora que j viu isto tudo,
deixe-me apresent-lo a meu irmo.

E chamando um moleque mandou
chamar o irmo. Da a pouco vi entrar na sala em que nos achvamos um homem
alto, menos velho que o doutor, mas cujas feies indicavam a mesma placidez de
alma e qualidades do corao.

 Mano Bento, disse o doutor, aqui
te apresento o sr....  um amigo.

Bento recebeu-me com a maior
cordialidade e dirigiu-me palavras da mais tocante benevolncia.

Vi ento que a palavra amigo era
para os dois um sinal de distino e que havia entre ambos a certeza de que
quando um deles chamava amigo a um terceiro  que este o era e merecia a
afeio do outro.

No mundo, de ordinrio, no 
assim. Hoje, mais ainda que ao tempo de Molire,  verdadeira e cabida a
indignao de Alceste:

Non, non, il nest point
dme un peu bien situe

Qui veuille dune estime
ainsi prostitue.*

III

No fim de um ms de convalescena
resolvi voltar para a cidade.

Que ms aquele!

O doutor saa de manh e voltava 
tarde para casa. Durante o dia ficvamos eu e o irmo do doutor, matvamos o
tempo passeando ou conversando; Bento no era to instrudo como o doutor, mas
tinha a mesma bondade e afabilidade, de modo que eu sempre ganhava com um ou
com outro.

 tarde quando o doutor chegava
punha-se o jantar  mesa; e depois amos ler ou passear pelos arredores.

Ainda me lembro dos passeios que
fizemos ao alto da Tijuca. s sete horas da manh vinham dizer-nos que os
cavalos estavam prontos. O doutor, eu e Bento saamos imediatamente. Um criado
nos acompanhava levando uma pequena canastra. Chegando ao termo do passeio, o
doutor escolhia um lugar favorvel e mandava abrir a canastra.

  uma refeio de preparo, dizia
ele.

E, debaixo de uma rvore, s
brisas frescas da montanha, comamos algumas frutas secas com vinho velho e
po.

Tendo resolvido voltar para a
cidade, mesmo para adiantar os negcios que me traziam  corte, e que se
achavam atrasados, dispus-me a dar parte disso aos meus hspedes.

Era de manh, voltava eu de um
passeio  roda do jardim. Entrei pelo fundo. Na sala de visitas estavam o
doutor e Bento. Ouvi-os conversar e pronunciar o meu nome. No podiam
pronunci-lo seno em sentido favorvel. Picou-me a vaidade. Quis ouvir o meu
elogio na boca daqueles dois amigos, to recentes e to completamente amigos.

 Mas que tem isto com...?
perguntou Bento.

 Tem tudo, respondeu o doutor.

 Explica-me.

 Sou, como sabes, amigo desse
moo...

 Tambm eu...

 Mas esta amizade  to recente
que ele ainda no tem tempo de nos conhecer. Pelas nossas conversas soube eu
que ele possui uma fortuna muito regular. Obriguei-o a vir para aqui. Se ngela
vier agora para casa, parecer que, contando com o corao e a mocidade de
ambos, armo a fortuna do rapaz.

 Ele no pode pensar isso.

 Sei que  uma boa alma, mas 
to mau o mundo, pode fazer-lhe supor tanta coisa...

 Enfim, eu insisto, porque a
pobre menina escreveu-me dizendo que est com saudades da casa. A prpria tia,
sabendo disto, deseja que ela venha passar uns tempos conosco.

Nisto entrou na sala um moleque
dizendo que o almoo estava na mesa.

Eu retirei-me ao meu quarto, onde
o doutor e Bento me foram buscar.

 mesa, no me pude ter. Enquanto
o doutor me deitava vinho no copo, disse-lhe sorrindo:

 Meu amigo, acho que faz mal em
privar-se de uma felicidade que lhe deve ser grande.

 Que felicidade?

 A de ter sua filha perto de si.

 Ah! exclamaram os dois.

  sua filha D. ngela, no?

 , murmurou o doutor; mas como
sabe?

 Fui indiscreto, e dou graas a
Deus de t-lo sido. No, no sou capaz de supor-lhe uma alma to baixa; conheo
a elevao dos seus sentimentos... Demais, eu j tencionava ir-me agora.

 J? perguntou Bento.

  verdade.

 Ora, no!

 Mas os negcios?

 Ah!

Notei que ficaram tristes.

 Pois ficarei, disse eu; ficarei
ainda alguns dias. Entretanto vamos hoje buscar a filha desterrada.

Acabado o almoo mandou-se
preparar o carro e fomos os trs buscar a filha do doutor.

ngela recebeu com verdadeira
satisfao a notcia de que ia para casa de seu pai. Quem, ouvindo esta
notcia, ficou logo carrancudo e zangado, foi um rapaz que l encontramos na
sala, a conversar com a tia e a sobrinha. Era uma dessas fisionomias que no
mentem nem enganam ningum. Respirava frivolidade a duas lguas de distncia.
Adivinhava-se, pela extrema afabilidade do comeo e completa seriedade do fim
da visita, que aquele corao namorava o dote de ngela. Falo assim, no por
dio, como se poder supor pelo correr desta histria, mas por simples induo.
Fisionomias daquelas no pertencem a homens que saibam amar, na verdadeira
extenso desta palavra. Se no era o dote, eram os gozos dos sentidos, ou ento
simples vaidade, no faltando uma destas razes, e  essa a explicao
plausvel daquilo que eu j chamava namoro.

Os meus dois hspedes conheciam o
rapaz. Quando ngela deu parte de pronta, despedimo-nos e o doutor ofereceu a
casa ao namorado, mas com uma fria polidez.

Partimos.

ngela, a quem fui apresentado
como amigo da casa, era um daqueles espritos afveis para quem a intimidade
seguia-se  primeira recepo. Era um tanto grrula, e eu compreendia o encanto
do pai e do tio, ouvindo-a falar com tanta graa, e todavia sem indiscrio nem
fadiga.

A mim, tratava-me ela como se fora
um velho amigo, o que me obrigou a sair da minha taciturnidade habitual.

Enquanto o carro voltava a Andara
e eu ouvia as mil confidncias de ngela sobre os passatempos que tivera em
casa de sua tia, estudava eu conversando ao mesmo tempo as relaes entre este
esprito e o rapaz de quem falei. Que curiosidade era a minha? Seria simples
curiosidade de quem estuda caracteres ou j algum interesse do corao? No
posso diz-lo com franqueza, mas presumo, talvez orgulho meu, que era a
primeira e no a segunda coisa.

Ora, o que eu conclua era que, na
vivacidade e na meiguice de ngela,  que se devia procurar a razo do amor do
outro. Os homens medocres caem facilmente neste engano de confundir com a
paixo amorosa o que muitas vezes no passa de uma simples feio do esprito
da mulher. E este equvoco d-se sempre com os espritos medocres, porque so
os mais presunosos e os que andam na plena convico de conhecerem todos os
escaninhos do corao humano. Pouca que seja embora a prtica que eu tenho do
mundo, o pouco que tenho visto, e algo que tenho lido, o muito que tenho
refletido, deu-me lugar a poder tirar esta concluso.

Chegamos finalmente a Andara.

ngela mostrava uma alegria
infantil tornando a ver o jardim, a casa, a alcova em que dormia, o gabinete em
que lia ou trabalhava.

Dois dias depois da chegada de
ngela a Andara apareceu l o sr. Azevedinho, que  o nome do rapaz que eu
vira em casa da irm do doutor.

Entrou saltitando e espanejando-se
como passarinho que foge  gaiola. O doutor e o irmo receberam o visitante com
afabilidade, mas sem entusiasmo, o que  fcil de entender, atendendo-se a que
a vulgaridade do sr. Azevedinho era a menos convidativa deste mundo.

ngela recebeu-o com alegria
infantil. Eu, que comeara o meu estudo, no perdi ocasio de continu-lo
atentamente para ver se era eu quem me enganava.

No era.

Azevedinho  que se enganava.

Mas, e  esta a singularidade do
caso, mas por que motivo, apesar da convico em que eu estava, entrou-me no
esprito certo desgosto, em presena da intimidade de ngela e Azevedinho?

Se ambos saam a passear no
jardim, no me podia eu conter, convidava o doutor a igual passeio, e seguindo
os passos dos dois, no arredava deles os olhos atentos e perscrutadores.

Se se retiravam a uma janela para
conversarem sobre coisas fteis e indiferentes, l os seguia eu e tomava parte
na conversao, tendo sobretudo um prazer especial em chamar exclusivamente a
ateno de ngela.

Por que tudo isto?

Seria amor?

Era. No posso neg-lo.

Dentro de mim, at ento oculto,
dava sinal de vida esse germe abenoado que o Criador deps no corao da
criatura.

Digo at ento, porque o primeiro
sentimento que eu sentira por uma mulher e a que aludi nas primeiras pginas,
no era absolutamente da natureza do amor que eu agora sentia.

Ento, no era tanto o sentimento,
como a virgindade do corao, que dava alcance  felicidade que eu almejava e 
dor que sentia. O sentimento que agora se apossara de mim era outro. Dava-me
comoes novas, estranhas, celestes. De hora a hora eu sentia que se estreitava
o lao moral que me devia prender quela menina.

Levantei as mos para o cu quando
Azevedinho se despediu. Ele parecia feliz, e se, amando ngela, tinha razo de
s-lo, devia ser bem oculta a conversao dos olhos de ambos que escapasse ao
meu olhar perscrutador.

O que  certo  que eu levantei as
mos ao cu quando Azevedinho saiu.

Foram todos acompanh-lo  porta,
por cortesia. A, o desempenado rapaz montou no alazo em que viera e desceu
garboso a estrada deitando aos ares saborosas fumaas de charuto.

IV

Ditos os ltimos adeuses,
entramos.

Eu dei o brao a ngela, e
procurei ver se ela apresentava aquela meia alegria e meia tristeza que era
prpria da ocasio.

Nada disso.

ngela, apenas voltamos costas 
estrada, e atravessamos a rua que ia ter  porta da casa, encetou uma
conversao sobre coisas que nada tinham, nem de longe, com Azevedinho.

A felicidade que isto me deu
desviou-me da prudncia com que eu sempre me houvera. No me pude conter.
Fitando nos belos olhos da moa um olhar que devia ser profundo e terno como o
amor que eu j sentia, disse estas palavras:

 Oh! obrigado! obrigado!

Nisto chegamos  porta.

A moa, admirada ao ouvir aquele
agradecimento e no compreendendo a razo dele, olhou para mim admirada. Ia
articular alguma coisa, mas eu deixando-a entrar fui voltear a casa e procurar
o meu quarto.

No sei por que, quando me achei
s, senti que as lgrimas me rebentavam dos olhos.

Amava, eis a razo. Mas, sem a
certeza de ser amado, por que me consideraria feliz?

H duas razes para isto.

Uma prova a natureza, elevada do
amor. Como tinha eu um ideal, ngela era o objeto em que o meu ideal tomava
corpo. Bastava t-la encontrado, bastava am-la e era feliz.

A outra razo era de egosmo. Uma
vez que ela no amasse o outro, era o que eu pedia naquele instante. Que viesse
a mim com a virgindade do corao, que estivesse pura do menor pensamento de
amor que fosse, enfim, que eu pudesse ser o primeiro que lhe aspirasse o
perfume das iluses inocentes, tal era o meu desejo e a minha aspirao.

Duas horas estive encerrado no meu
quarto. Preparava-me para sair e cheguei  janela. ngela estava assentada
debaixo de uma latada que havia ao lado da casa. Tinha na mo um livro aberto,
mas via-se bem que no lia. Os olhos erravam do livro para o cho, com evidentes
sinais de que lhe errava no esprito alguma coisa. S no esprito? No podia
ser ainda no corao; era um primeiro sintoma; no era ainda o acontecimento da
minha vida.

Procurei no fazer rumor algum e
contempl-la sem que ela me visse. Recuei, corri as cortinas e por uma fresta
cravei os olhos na moa.

Correram assim alguns minutos.

ngela fechou o livro e
levantou-se.

Recuei mais e deixei as cortinas
totalmente fechadas.

Quando voltei a espreitar a linda
pensativa, vi que ela saa em direo da frente da casa, sem dvida para
entrar, visto que um mormao de vero comeava a aquecer o ar. Ao abrir o
chapelinho de sol para resguard-la do mormao, levantou os olhos e deu comigo.
No pude recuar a tempo: ela sorriu-se e aproximando-se da janela perguntou:

 Que faz a?

Abri completamente as cortinas e
debrucei-me  janela.

Minha resposta foi uma pergunta:

 Que fazia ali?

Ela no respondeu, baixou os olhos
e calou-se.

Depois, voltando de novo para mim,
disse:

 Vou para a sala. Papaizinho est
l?

 No sei, respondi eu.

 At j.

E foi caminho.

Entrei.

Quis deitar-me no sof e ler;
cheguei mesmo a tirar um livro; mas no pude; no sei que m me atraa para
fora.

Sa do quarto.

ngela estava na sala, ao p da
janela, diante de um bastidor de bordar que lhe dera o tio no dia em que
completou dezessete anos.

Aproximei-me dela.

 Ora viva, sr. misantropo...

 Misantropo?

A conversa comeava assim s mil
maravilhas. Peguei em uma cadeira, e fui sentar-me defronte de ngela.

 Parece.

 Tenho razo para s-lo.

 Que razo?

  uma histria longa. Se eu lhe
contasse a minha vida ficava convencida de que no posso ser to comunicativo
como os outros. E depois...

Parecia-me fcil declarar  menina
os meus sentimentos; entretanto, tomava-me de um tal acanhamento e receio em
presena dela, que no podia articular uma palavra positiva que fosse.

Nada mais disse.

Deitei os olhos para o bastidor e
vi que ela bordava um leno.

Ficamos silenciosos alguns
minutos. Depois, como fosse aquele silncio embaraoso, perguntei:

 Quem  aquele Azevedinho?

E firmando o olhar nela procurei
descobrir a impresso que esta pergunta lhe produzira.

O que descobri foi que as faces se
lhe tornavam vermelhas; levantou os olhos e respondeu-me:

  um rapaz...

 Isso eu sei.

  um rapaz l do conhecimento de
minha tia.

 No entendeu a minha pergunta.
Eu perguntava que opinio forma dele?

 Nenhuma:  um rapaz.

De risonho tomei-me srio. Que
explicao tiraria daquela vermelhido e daquelas respostas evasivas?

ngela continuou a bordar.

 Por que me faz essas perguntas?
disse ela.

 Ah! por nada... por nada...

Havia em mim um pouco de despeito.
Quis mostrar-lho francamente.

 Ora, por que h de tomar esse ar
srio?

 Srio? No v que estou rindo?

Devia ser muito amargo o riso que
eu afetava, porque ela, reparando em mim, deixou de bordar, e pondo-me a mo no
brao, disse:

 Oh! perdo! eu no disse por
mal... estou brincando...

O tom destas palavras desarmou-me.

 Nem eu me zanguei, respondi.

ngela continuou a falar,
bordando:

 O Azevedinho ia l por casa de
minha tia, onde conheceu meu pai e meu tio.  um bom moo, conversa muito
comigo,  muito meigo e alegre.

 Que lhe costuma ele dizer?

 Falsidades... Diz que sou
bonita.

 Grande falsidade!

 Ah! tambm! exclamou ela
sorrindo com uma graa e uma singeleza inimitveis.

 Mas que lhe diz mais?

 Mais nada.

 Nada?

 Nada!

ngela parecia dizer a custo esta
palavra; estava mentindo. Com que fim? por que razo? Que fraco examinador era
eu que no podia atinar com o motivo de todas aquelas reticncias e evasivas?

Estas reflexes passaram-me pela
cabea em poucos minutos. Era preciso desviar-me do assunto do rapaz. Mas sobre
que poderia ser? Eu no tinha a cincia de entreter horas sobre coisas
indiferentes, em conversa com uma pessoa que me no era indiferente. Tomei um
ar de amigo, e mais velho, e disse a ngela com um tom paternal:

 Nunca amou, D. ngela?

 Que pergunta! disse ela
estremecendo.

  uma pergunta como qualquer
outra. Faa de conta que sou confessor.  simples curiosidade.

 Como quer que lhe responda?

 Dizendo a verdade...

 A verdade...  difcil.

 Ento,  afirmativa. Amou. Ama
ainda talvez. Se  correspondida,  feliz. Oh! nunca permita Deus que lhe
suceda amar sem ser amada... ou pior, amar a quem ama a outro... a outra, quero
dizer.

 Deve ser grande infelicidade
essa...

 Oh! no imagina.  o maior dos
suplcios. Consome-se o corao e o esprito, e envelhece-se dentro em pouco. E o que se segue depois? Vem a desconfiana de todos; nunca mais o corao repousa
tranqilo na f do corao alheio.

 Oh!  triste!

 Deus a preserve disso. Vejo que
nasceu para dar e receber a suprema felicidade. Deus a faa feliz... e ao seu
amor.

E levantei-me.

 Onde vai? perguntou-me ela.

 Vou passear... Devo preparar-me
para voltar  cidade. No posso ficar aqui sempre.

 No v...

E fez-me sentar de novo.

 Est assim mal conosco? Que mal
fizemos ns?

 Oh! nenhum! preciso de tratar
dos meus negcios.

 No quero que v.

Dizendo estas palavras, ngela
baixou os olhos e ps-se a riscar maquinalmente com a agulha no leno.

 No quer? disse eu.

  ousadia dizer que no quero;
mas cuido que  o meio de faz-lo ficar.

 S por isso?

A moa no respondeu. Senti que me
animava um raio de esperana. Olhei para ngela, peguei-lhe na mo; ela no
recuou. Ia dizer que a amava, mas a palavra no me podia sair dos lbios, aonde
chegava ardente e trmula.

Mas, como era preciso dizer alguma
coisa, lancei os olhos para o bordado; vi que estava quase completa uma
inicial. Era um F.  Estremeci, F. era a minha inicial.

 Para quem  este leno?

ngela com a outra mo cobriu
rapidamente o bordado, dizendo:

 No seja curioso!

  para mim, D. ngela?

 E se fosse, era crime?

 Oh! no!

Senti passos. Era o doutor que
entrava.

Recuei a distncia respeitosa e
dirigi algumas palavras a ngela sobre a excelncia do bordado.

O doutor dirigiu-se a mim.

 Ora, bem podia esper-lo, disse
ele. Cuidei que estivesse encerrado, e no quis incomod-lo.

 Estive aqui assistindo a este
trabalho de D. ngela.

 Ah! bordados!

Travou-se uma conversa geral at
que veio a hora do jantar. Jantamos, conversamos ainda, e recolhemo-nos s dez
horas da noite.

 mesa do ch declarei eu ao
doutor que iria  cidade, seno para ficar, ao menos para dar andamento aos
meus negcios. O meu caboclo tinha-me trazido uma carta de minha me, vinda
pelo ltimo vapor, e na qual me pedia que conclusse os negcios e voltasse 
provncia.

O doutor disse-me que fosse, mas
que me no deixasse encantar pela cidade. Disse-lhe que em nenhuma parte
encontrava o encanto que tinha ali em casa dele. Valeu-me a resposta um olhar
significativo de ngela e esta resposta do tio Bento:

 Ora, ainda bem!

V

Entrando para o meu quarto levava
o esprito ocupado de reflexes contrrias, umas suaves, outras aflitivas.

Ao mesmo tempo que me parecia
poder assenhorear-me do corao de ngela, dizia-me, no sei que demnio
invisvel, que ela no podia ser minha porque j era de outro.

Esta dvida era pior que a
certeza.

Se eu estivesse certo de que
ngela amava Azevedinho, sentiria, de certo; mas o amor, apenas comeado, devia
ceder ao orgulho; e a idia de que no devia lutar com um homem que eu julgava
moralmente inferior a mim, acabaria por triunfar em meu esprito.

Deste modo uma paixo m, um
defeito moral, traria a antiga f ao meu corao.

Mas a incerteza, no; desde que eu
entrevia uma probabilidade, uma esperana, acendia-se a paixo cada vez mais; e
eu acabava por dispor-me a entrar nessa luta tenaz entre o homem e a fatalidade
dos sentimentos.

Mas poderia ngela adivinh-lo?
Aquela moa, filha de um homem sisudo, educada aos cuidados dele, mostrando ela
prpria certa elevao de sentimentos, e, at certo ponto, uma discrio de
esprito, poderia amar a um rapazola vulgar, sem alma nem corao, frvolo como
os divertimentos em que ele se comprazia?

Se por um lado isto me parecia
impossvel, por outro eu me recordava do muito que era e do pouco que vira;
recordava-me do que comigo mesmo sucedera e desanimava com a idia de que to
boa prola fosse engastada em cobre azinhavrado e vulgar.

Nesta incerteza deitei-me e levei
parte da noite sem poder conciliar o sono.

Uma coisa aumentou ainda a minha
dvida: era a inicial bordada no leno e a resposta que ngela dera  pergunta
que lhe fiz a meu respeito. Duas horas bastariam para que ela se deixasse
impressionar por mim? Se assim fosse, temia que o sentimento que eu lhe tivesse
inspirado fosse menos involuntrio do que convinha, e doa-me no ter nela uma
soma igual ao amor que eu j sentia.

Resolvi todas as suspeitas, todas
as dvidas, todas as reflexes tristes ou agradveis que me inspirava a
situao, e dormi sobre a madrugada.

Dois dias depois fui  cidade.

Joo deu-me conta dos papis e
recados que l tinham levado. Tomei um tlburi e andei dando as convenientes
ordens para se ultimarem os negcios, visto que eram essas as ordens que eu
recebera de minha me.

De volta a Andara, entrando no
meu quarto, mudei de roupa e dispunha-me a escrever uma carta para o norte.

Abri a carteira e a encontrei um
leno e o seguinte bilhete escrito em letra trmula e incorreta:

Vai partir. Esta lembrana ... de
uma amiga. Guarde-a e lembre-se eternamente de quem nunca o riscar da
lembrana.

ngela

Lendo esta carta senti palpitar-me
o corao com fora. Parecia querer saltar do peito onde no cabia. Era aquilo
claro ou no? ngela amava-me, ngela era minha. Estas palavras no sei que
anjo invisvel mas dizia ao ouvido e ao corao.

Li e reli o bilhete; beijei-o;
guardava-o, e ao mesmo tempo tornava a tir-lo para ter o prazer de l-lo de
novo.

Finalmente, passada a primeira
comoo, nasceu o desejo de ver e falar a ngela. Sa; era hora do jantar.

Era impossvel falar a ss com
ngela. Meus olhos, porm, falaram por mim, como os dela falaram por ela.

Em toda a noite no houve ocasio
de falar-lhe. O doutor, sempre amigo, cada vez mais amigo, empenhou-se comigo
em uma daquelas prticas cordiais em que o corao e o esprito trazem entre si
os sentimentos sinceros e as idias puras.

No dia seguinte tive ocasio de
falar a ngela. Quando nos vimos a ss, um acanhamento invencvel apoderou-se
de ns ambos. Depois de alguns minutos de silncio ngela perguntou-me timidamente:

 Que achou no seu quarto?

 Oh! a felicidade! respondi eu.

E pegando na mo da moa que
tremia, disse-lhe com voz igualmente trmula:

 ngela, creio que me amas; eu
tambm te amo, e como creio que se pode amar no... Diga-me?  certo que sou
feliz? Sou amado?

 ... murmurou a moa deixando
cair a cabea sobre o meu ombro e ocultando assim o rosto corado pela comoo.

VI

Dois dias depois estavam ultimados
os negcios que me tinham trazido  corte, e eu devia voltar no prximo vapor.

Durante esse tempo Azevedinho foi
uma s vez a Andara; apesar do esprito brincalho e alegre, ngela no pde
receb-lo com a afabilidade do costume. Isto deu que pensar ao rapaz. Olhou
para mim um tanto desconfiado e saiu com a cabea baixa.

Como estivessem ultimados os
negcios fui  cidade para as ltimas ordens. Estiveram em minha casa o caboclo
e mais dois sujeitos. Despachei as visitas e fui escrever algumas cartas que
mandei ao seu destino por Joo.

Esperava o criado e a resposta de
algumas cartas, quando ouvi bater palmas. Era Azevedinho. Fi-lo entrar e
perguntei ao que vinha.

O rapaz estava srio.

 Venho para uma explicao.

 Sobre...

 Sobre as suas pretenses acerca
da filha do Magalhes.

Sorri-me.

  intimao?

 No, de modo nenhum; sou incapaz
de fazer uma intimao que seria grosseira e mal cabida. Desejo uma explicao
cordial e franca...

 No sei que lhe hei de dizer.

 Diga que gosta dela.

 Perdo; mas por que dever lhe
hei de dizer isso? ou antes, diga-me com que direito mo pergunta?

 Eu digo: amo-a.

 Ah!

 Muito...

Fixei o olhar no rapaz para ver se
a expresso do rosto indicava o que dizia. Ou fosse preveno, ou realidade,
achei que aquele amor era dos dentes para fora.

 Mas ela? perguntei eu.

 Ela no sei se ama. Devo
acreditar que sim; posto que nunca tivssemos explicaes a respeito. Mas a sua
resposta?

 A minha resposta  pouca coisa:
dar-me-ia por feliz se fosse amado por ela.

 Mas ?

 Dar-me-ia por feliz se fosse
amado por ela...

 No quer ser franco, j vejo.

 No posso dizer mais. Para que
nos ocuparemos a respeito de uma pessoa a cuja famlia devo obsquios, e que ,
portanto, j parte de minha famlia?

 Tem razo.

E, despedindo-se de mim, saiu.

Acompanhei-o  porta e voltei para
a sala pensando na franqueza com que aquele rapaz viera saber de mim se podia
contar com o corao da moa. E por que viria? Teria arras para isso? Nova
dvida assaltou o meu esprito, e eu voltei para Andara mais triste do que
sara.

ngela notou isso; perguntou-me o
que tinha. Ento falei-lhe francamente. Perguntei-lhe, na plena confiana do
amor, se nunca tivera para Azevedinho um sintoma de afeto, um penhor que o
autorizasse a deitar para ela olhos amorosos.

Respondeu-me que nunca o amara nem
lhe dera lugar a fazer-lhe nascer esperanas de amor.

Pareceu-me que ngela era sincera;
acreditei.

Depois conversamos de ns.
Perguntei-lhe se estava certa do sentimento que eu lhe inspirava; se aquilo no
era uma simples fantasia, em que o corao no tomava parte.

A pergunta indicava a dvida, e a
dvida no se desfazia s com a simples resposta, uma vez que ngela quisesse
mentir.

Mas eu no contava com as palavras
simplesmente. Contava com o resto, com o tom das palavras, com a luz dos olhos.
Olhei para ela fixamente e esperei a resposta.

 Oh! disse ela, acredito que este
amor  verdadeiro. Sinto que  isto, porque nunca felicidade tamanha me abriu
ao corao as comoes do presente e as esperanas do futuro.

E dizendo isto, os olhos midos de
lgrimas de ventura, como chuva de primavera, abriram-se para fazer penetrar o
meu olhar at o mais fundo do corao.

Era sincera.

ngela continuou:

 E acredita que foi simplesmente
daquele primeiro dia, o do bordado, que eu comecei a am-lo? No, foi desde que
cheguei  casa. Foi um sentimento que nasceu em mim repentinamente: 
verdadeiro, no?

Esta pergunta era feita com uma
graa adorvel.

Minha resposta foi um beijo, o
primeiro, mas um beijo respeitoso, casto, onde resumi todas as aspiraes e
todos os sentimentos do meu corao.

VII

Aproximava-se o dia da partida.

Eu estava decidido a pedir ngela em casamento. Contava com a aquiescncia do pai e o agrado do tio.

O meu projeto era ir buscar o
consentimento de minha me e voltar depois.

ngela, a quem comuniquei isso,
disse-me que no me separasse dela; que era melhor escrever  minha me; que
ela mesma escreveria, e bem assim o pai, diante do que minha me no recusaria.

No pude recusar este conselho.

Mas era preciso aproveitar tempo.
Tratei de falar na primeira ocasio ao amigo doutor.

Uma tarde estvamos conversando no
gabinete em que ele lia, e tratvamos exatamente da minha futura (1).

 No pretende voltar mais ao Rio
de Janeiro?

 Pretendo.

  promessa formal?

 Olhe l!

 Com certeza.

 Sabe que sou seu amigo?

 Oh! sei, sim!

 Ora bem!

 Sei que  amigo e vou pedir-lhe
mais uma prova de amizade e confiana.

 Qual ? Quer a lua? disse-me o
velho sorrindo. Olhe, no desconfie;  pura brincadeira.

 O meu pedido...

E parei.

 Ah! disse o velho, creio que no
 to fcil assim...

 Doutor, continuei eu, amo sua
filha...

 Ah!

Esta exclamao era fingida;
percebi-o logo.

 E quer?

 E peo-lha para minha mulher.

 ngela j me contou tudo.

 Ah! exclamei eu por minha vez.

 Tudo. Sei que se amam. E como
negar aquilo que se lhes deve? Em meus braos, meu filho!

Abracei o velho na doce expanso
da felicidade que ele me acabava de dar.

Samos do gabinete.

Ao entrar na sala encontramos trs
pessoas: ngela, o tio Bento e Azevedinho.

O doutor foi ao encontro do
ltimo, que se levantou.

 No contava com a sua visita.

 Vinha falar-lhe em um negcio
srio.

 Em particular?

 Devia ser, mas creio que no h
aqui ningum estranho  famlia...

 Decerto que no.

E dizendo isto o velho olhou
sorrindo para mim.

 Penso, continuou o rapaz, que
tambm o sr....  da famlia... pela amizade.

 , respondeu o doutor, com
sinais visveis de aborrecimento e desconfiana.

Que quereria Azevedinho? Viria
expor-se  negativa? No esperei muito tempo. O rapaz, erguendo a voz, para que
todos o ouvissem, disse:

 Sr. doutor, amo D. ngela, e
desejo receb-la por minha mulher. Consente?

O velho ficara calado alguns
segundos.

Depois, dirigindo-se  filha,
disse:

 ngela, tens dois pedidos de
casamento. Acabo de os ouvir com diferena de poucos minutos.

E referiu o que eu lhe tinha dito.

ngela, consultada, no hesitou.
Declarou que seria minha mulher.

Azevedinho ficou plido de
enfiado.

 Sinto... ia dizendo o doutor.

 Oh! no h nada a desculpar. 
simples: o meu rival foi mais feliz do que eu...

Despediu-se e saiu.

Restava concluir-se o meu
casamento.

Eu e ngela rimos muito do logro
de Azevedinho. Era um prazer cruel que eu tinha em rir da desgraa alheia
naquele momento. Como no sentiria eu se o desenganado fosse eu? A diferena
est que Azevedinho no sentia nada, e perdeu a conquista como perderia uma
pequena aposta.

Soube-o positivamente pouco
depois.

No fim de dois meses o meu rival
vencido acedera aos velhos pedidos de uma tia que possua, ao lado de uma
fortuna avultada, a mania de acreditar-se capaz de apaixonar um homem.

Tinha ela quarenta e cinco anos e
era feia. O rapaz achou-a de uma beleza deliciosa e concluiu o casamento.

A fortuna que a tia, sua esposa
ento, conservara acumulada, passou para as mos de Azevedinho, e saiu das mos
dele como um feixe de foguetes incendiados. Em poucos meses Azevedinho viu-se
obrigado a pr termo aos seus caprichos, a fim de salvar alguma coisa e
trabalhar para viver o resto da vida.

Consta-me que se tomou um bom
homem.

Quanto a mim, resolvido o
casamento, tratei de escrever a minha me, pedindo o seu consentimento. ngela
quis a todo custo acrescentar estas palavras:

Perdi minha me. Quer substitu-la?
 ngela

Veio a resposta da a um ms.
Minha me deu o consentimento, mas pedia instantemente que eu fosse, depois de
unido, viver na provncia.

Da a poucos dias unia-me eu em
matrimnio a ngela de Magalhes.

VIII

Desde o primeiro dia do meu
casamento abriram-se-me na vida horizontes novos. Todo o sentimento de reserva
e de misantropia que caracterizava os primeiros anos da minha mocidade
desaparecia. Era feliz, completamente feliz. Amava e era amado.

Quando se tratou de irmos para a provncia
surgiu uma dificuldade: partir era deixar os dois velhos to meus amigos, o pai
e o tio de minha mulher; ficar era no acudir ao reclamo de minha me.

Cortou-se a dificuldade
facilmente. Os dois velhos resolveram partir tambm.

Em chegando a este desenlace a
narrativa perde o interesse para os que so levados pela curiosidade de
acompanhar uma intriga amorosa.

Cuido mesmo que nestas pginas
pouco interesse haver; mas eu narro, no invento.

Direi pouco mais.

H cinco anos que tenho a
felicidade de possuir ngela por mulher; e cada dia descubro-lhe mais suas
qualidades.

Ela  para meu lar domstico:

A luz,

A vida,

A alma,

A paz,

A esperana,

E a felicidade!

Procurei por tanto tempo a
felicidade na solido;  errado; achei-a no casamento, no ajuntamento moral de
duas vontades, dois pensamentos e dois coraes.

Feliz doena aquela que me levou 
casa do Magalhes!

Hoje tenho mais um membro na
famlia:  um filho que possui nos olhos a bondade, a viveza e a ternura dos
olhos de sua me.

Ditosa criana!

Deu-lhe Deus a felicidade de
nascer daquela que , ao lado de minha me, a santa querida da minha religio
dos cnticos.
