Conto, Um dia de entrudo, 1874

Um dia de entrudo

Texto-fonte:

http://www2.uol.com.br/machadodeassis/.

Publicado originalmente em Jornal
das Famlias, de 6/1874 a 8/1874.

Era no tempo em que ao carnaval se
chamava entrudo, o tempo em que em vez das mscaras brilhavam os limes de
cheiro, as caarolas dgua, os banhos, e vrias graas que foram substitudas
por outras, no sei se melhores se piores.

Dois dias antes de chegar o
entrudo j a famlia de D. Anglica Sanches estava entregue aos profundos
trabalhos de fabricar limes de cheiro. Era de ver como as moas, as mucamas,
os rapazes e os moleques, sentados  volta de uma grande mesa, compunham as
laranjas e limes que deviam no domingo prximo molhar o paciente transeunte ou
confiado amigo da casa.

D. Anglica tinha nessa poca seus
cinqenta e nove anos. Nascera mais ou menos no tempo da conjurao de
Tiradentes. Criada por um lavrador de Minas, D. Anglica adquiriu certos princpios
liberais, mas perdeu-os em 1808, quando veio ao Rio de Janeiro e assistiu 
entrada da corte real. Ainda que esta mudana nos princpios polticos de D.
Anglica foi resultado de uma paixo por um arqueiro ou quer que seja da guarda
real, D. Anglica pertencia, fisicamente falando, a essa classe de mulheres,
capazes de matar um porco de uma cajadada. Alm de possuir um par de espduas
atlticas, tinha um gnio de arremeter contra qualquer obstculo e venc-lo.
Parece que o namorado desdenhava as mulheres alfenins, as criaturas quebradias
e moles. Gostava de uma robustez que indicava sade e disposio para
trabalhar. Anglica resumia tudo isso. Amaram-se e no fim de algum tempo
celebrou-se o casamento, com aplauso de amigos e conhecidos. Pouco importa
saber que fim levou o Sr. Toms Sanches no tempo em que se passam as cenas que
vou relatar. Basta saber que morreu quando de todo se lhe extinguiu a vida,
coisa que provavelmente no lhe aconteceu sem perder a sade. Demais, no  bom
falar do finado Toms Sanches ao p de D. Anglica; a pobre senhora ainda hoje
o chora. Mas no lhe falem de homem que merea o respeito, o amor e a
considerao, porque D. Anglica cita logo um caso do marido que, entre
parnteses, enriqueceu em pouco tempo.

No ficou estril a aliana de
Sanches e Anglica. Cinco foram os frutos de to abenoada unio, dois do sexo
masculino e trs do sexo feminino.

Carlos e Benjamim se chamaram os
rapazes; as raparigas receberam os nomes de Teresa, Ermelinda e Joana. Os
sinais particulares desta prole eram os seguintes: Joana tinha o nariz muito
comprido, Ermelinda era muito pequena, Teresa era alta e cheia. Quanto aos
rapazes, a nica diferena entre Carlos e Benjamim era que o primeiro ria 
cara do segundo regularmente uma vez por semana, sem que o outro tirasse nunca
desforra de semelhante afronta.

Ultimamente a afronta tinha sido
tal que Benjamim achou prudente deixar de falar ao irmo. Havia j cinco dias
que reinava entre ambos essa interrupo de relaes diplomticas, quando a
festa do entrudo veio reconciliar tudo. No momento em que tomamos conhecimento
com a famlia Sanches esto eles em boa harmonia despejando cera dentro das
frmas de limes ou enchendo os que j esto prontos com gua de cheiro.

Fora injustificvel esquecimento
deixar de mencionar entre os fabricantes de limes o jovem Batista, rapaz
alegre e magro, dono de um armarinho na mesma rua em que moravam os Sanches,
amigo de moas e at, dizem, namorado de Teresa. Citarei do mesmo modo uma
prima de D. Anglica (42 anos) e uma sobrinha da dita (26), sendo que esta (D.
Lucinda) era filha daquela (D. Maria).

Vinham para a mesa as caarolas
cheias de cera derretida, e todos aqueles operrios mergulhavam nelas os limes
e as laranjas, ou despejavam cera dentro de formas de pau.

 Olhe, prima; este saiu bem bom,
diz Lucinda.

 J viu os meus? pergunta Teresa.

 Quantos tem voc?

 Doze.

 Eu tenho nove.

 Eu c j fiz vinte e quatro,
exclama Carlos. O Benjamim s fez cinco.

 Mas  que eu no sei o que tem a
minha forma, redarge o pobre Benjamim envergonhado.

 s um desastrado! no passas
disto!

 Carlos! que  isso? Eu no quero
bulha.

Estas palavras foram ditas por D.
Anglica que nesse momento, tendo vindo de dentro com a prima D. Maria, contava-lhe
no sei que histria de legumes e escravos.

 Tia Maria hoje no tem feito
nada, exclamam as raparigas Sanches.

 Pois j no fiz dois limes?

 Dois s! est bem aviada!

 Est bom, raparigas, dem c uma
forma, no quero parecer que sou vadia.

D. Maria sentou-se e fez
vagarosamente alguns limes. Houve algum tempo de silncio, s interrompido
pelo andar das escravas, a campainha da cancela da escada, o som do nariz do
Batista que estava endefluxado, e nada mais.

D. Anglica, que andava de um lado
para outro, aproximou-se da mesa e disse:

 Bem, acabem com isso por
enquanto, que  preciso pr a mesa.

 J, mame! exclamaram as filhas.

 Pois ento? so duas horas e
meia.

Carlos aprovou in petto a
idia de pr a mesa, e D. Maria, que costumava jantar  uma hora, achou a
resoluo de D. Anglica acertadssima.

 Tem razo, prima, se deixarmos
estas meninas aqui, so capazes de ficar at amanh.

 No  conveniente, disse Batista
com uma voz entrecortada pelas urgncias do defluxo, no  conveniente
interromper o trabalho enquanto h cera lquida. A cera  um produto que...

 Que no d de jantar!
interrompeu brutalmente Carlos pondo a forma de lado e levantando-se da mesa.

As moas insistiram e ficaram ainda
um quarto de hora fazendo limes. Benjamim queria levantar-se tambm, mas um
olhar de Lucinda o deteve e desde j qualquer leitor, ainda que no seja mais
perspicaz que um chapu, ter compreendido que os dois jovens se amavam.

A sada de Carlos agradou
geralmente  sociedade, o filho mais velho de D. Anglica era um verdadeiro
perturbador de festas. Ausente, reinou mais tranqilidade; Batista pde olhar
mais vezes para Teresa, e Benjamim piscar mais livremente os olhos a Lucinda.
Se Carlos estivesse presente, no hesitaria em dizer:

 Temos namoro! no?... Que 
isso, Sr. Batista?... Ol prima, ento?...

 Dizia eu que em 7 de Abril...

E outras frases como estas
reduziam as faces dos culpados a verdadeiras inflamaes de vergonha.

Batista sentiu-se at mais livre
da voz, e proferiu a propsito do entrudo dois ou trs axiomas, um dos quais
declarou t-lo ouvido de um padre, que era o homem mais sensato que conhecera.

 Sensato era o meu Toms, acudiu
D. Anglica; que juzo tinha ele! que cabea de homem! Deus lhe fale n'alma.
Contarei o seguinte caso. No tempo do 7 de Abril...

Nesse instante entrou na sala o
esfomeado Carlos, e vendo iminente uma histria que provavelmente J conhecia,
exclamou:

 Oh! mame? no se janta hoje?

 Eu sei, respondeu D. Anglica,
estas meninas ainda aqui esto.

 Pois acabem com isso...

Carlos atirou-se  mesa e tal
bulha fez que impediu o trabalho e a anedota. D. Anglica adiou a prova do bom
juzo do finado Toms Sanches, as moas deixaram a mesa, e a mucama veio pr a
mesa do jantar.

Aproveitando o intervalo, pois
aceitara o oferecimento de D. Anglica para jantar, foi Batista alguns
instantes ao armarinho para saber se havia novidade. Teresa foi logo  janela e
trocou um sorriso com o namorado.

D. Maria sentou-se com Ermelinda a
um canto para indagar se alguma coisa havia entre Teresa e Batista.

 Eu creio que h alguma coisa. Tu
no sabes nada?

Ermelinda respondeu:

 Eu nada, titia.

 Mas  impossvel que no haja, e
se  exato falarei disto a tua me.

 Por qu? perguntou Ermelinda
sobressaltada.

 No convm que tua irm se case
com um dono de armarinho... um pax vobis, uma posio inferior.

Ermelinda calou-se prometendo a si
mesma ir contar tudo  irm.

Carlos passeava pela sala de
jantar, atirando de quando em quando bolas de papel ao irmo, que, por
prudncia, fingia estar contando as tbuas do assoalho.

Joana contava a Lucinda um namoro
que tivera com um rapaz da Rua do Piolho, enquanto a prima lanava de quando em
quando um olhar a Benjamim.

 Muito custa a vir este jantar.
Parece que nunca mais se acaba de pr esta mesa. Tia Maria, j h de estar com
uma fome!

Carlos dizia estas palavras
tirando da mesa um pedao de po e mastigando para enganar o estmago.

 No te parea! disse D. Maria,
por certo que estou com fome...

Finalmente ficou o jantar na mesa.

 Bem, vamos entrar em servio.

 No, senhor! disse D. Anglica,
esperemos o Batistinha.

 Onde foi ele?

 Foi  casa.

 Esta agora! Havemos de estar em
casa  espera de um estranho! e logo quem!

 Carlos! exclamou a me, tu hs
de ser sempre um...

D. Anglica mastigou o epteto.
Carlos pondo as mos nos bolsos da cala entrou a passear como um homem chegado
ao ltimo grau do desespero.

 Estou capaz de ir jantar a uma
casa de pasto.

 Pois vai!

Nesse momento ouviram-se passos na
escada.

 Graas! disse Carlos. Chega o
desejado.

No era o desejado. Era o Sr.
Tibrcio Mendes, negociante de negros novos, homem taludo e bojudo, vermelho e
asseado.

 D licena, D. Anglica? disse
ele parando na escada.

 Entre, Sr. Tibrcio. Bons olhos
o vejam.

Na entrada o Sr. Tibrcio foi
cumprimentando rasgadamente a companhia.

 Faltava este cgado! disse entre
si Carlos.

E j ruminava seriamente o
projeto, anteriormente indicado, de ir jantar  casa de pasto, quando apareceu
o dono do armarinho. Batista explicou a demora dizendo que a causa fora uma
altercao com um sujeito a propsito de agulhas n 5, coisa que no interessava
absolutamente a ningum, mas que todos ouviram com pacincia crist.

O jantar nada ofereceu de notvel;
os dois namoros continuaram como antes, isto , dirigidos sempre com a mxima
precauo por causa do grande desmancha-prazeres da casa. A nica coisa que
causou certa estranheza a Batista, que pela primeira vez se encontrava com
Tibrcio, foi a voracidade que este sujeito desenvolveu, a ponto de o deixar
sem assado nem arroz.

Foi por ocasio do jantar que
Tibrcio declarou que fazia anos na tera-feira do entrudo, e, como fosse
solteiro, D. Anglica convidou-o a festejar o dia jantando l em casa. Tibrcio no viu um olhar trocado entre Carlos e as irms. Prometeu que viria jantar.

Toda a tarde, manh e a tarde do
dia seguinte foram consagradas ao fabrico dos limes de cheiro. Tibrcio
assistiu at  noite ao trabalho das moas e dos rapazes. Como ele era amigo de
conversar com mulheres, dificilmente se despregou da sala de trabalho. Foi
muito contra a vontade que cedeu ao convite de D. Anglica que tinha a mania de
jogar o solo. D. Maria tambm jogava e aceitou o convite. A mesa foi posta ao
p da mesa dos limes de cheiro.

Jogava-se o solo a gros de milho,
que  para os jogadores de profisso, o mesmo que, para os bbados, beber gua
simples.

 Mas eu peo licena, disse
Tibrcio, para retirar-me s nove horas.

  a hora em que tomamos ch,
respondeu D. Anglica dando as cartas.

Passaram todos naquela mo. Como
todos conversavam, o dilogo apresentava alguma curiosidade.

 Bolo?

 Pode vir!

 D c cera!

 D-me o s de paus.

 Onde est a forma?

  furado?

  seguro.

 Mano, no me quebre o limo.

 Corto.

 Olha, Lucinda, que bonito limo
saiu este!...

 Rei...

 gua de cheiro?

 Valete...

 No me pise os ps, Sr. Batista.

  dama... Paguem!

 D c o tabuleiro.

 Quem d cartas?

 Pois eu cuidei que o solo
estivesse furado, dizia Tibrcio no fim deste dilogo. Os ouros estavam com a
Sra. D. Maria, e se no se descarta do valete, bem podia ser que eu o
encontrasse em quarto, e estava perdido.

 A prima jogou mal, dizia D.
Anglica. Devia esper-lo nos outros.

 Eu esperava nas copas.

 As copas estavam seguras.

s nove horas terminou o jogo, serviu-se
o ch, saiu Tibrcio, e todos foram dormir.

Amanheceu o dia de domingo com um
belssimo sol; era um verdadeiro dia de entrudo. Desde manh puseram-se os
tabuleiros em ordem para a batalha. Carlos e Benjamim preparavam as caldeiradas
dgua e duas panelas que mandaram para a cocheira. Nessa ocasio houve uma
pequena altercao entre os dois irmos; Carlos acabou puxando as orelhas a
Benjamim, o qual, por dizer alguma coisa, disse que lhe daria uma facada, o que
lhe valeu outro puxo de orelhas do irmo.

Triste inspirao foi a de Batista
que marcou esse dia para pedir a mo de D. Teresa. A moa entendia que se devia
aproveitar um dia alegre para achar D. Anglica de bom humor  verdadeiro
engano porque D. Anglica, conquanto no jogasse o entrudo, achava prazer em
ver brincar as raparigas e no prestava grande ateno a outras coisas.

O dia comeou bem; alguns sujeitos
que passavam foram alvo de meia dzia de limes de cheiro que os deixaram um
tanto midos; e mais nada.

Jantou-se mais cedo.

s trs horas e meia estavam as
moas vestidas e prontas  janela; a sala estava cheia de tabuleiros com limes
de cheiro.

Os rapazes ausentaram-se.

Correu assim uma hora sem
incidente notvel. Constante fogo de gua trazia a rua agitada. Os gamenhos,
munidos de limes iam atirando s senhoras que estavam s janelas, e estas
correspondiam ao ataque com um vigor nunca visto.

Havia em casa de D. Anglica cerca
de 1200 limes; imaginem se o combate podia fraquear.

Ao cabo duma hora de combate,
desapareceu Lucinda pelo interior da casa. D. Maria e D. Anglica que estavam
assentadas na sala conversavam sobre os sucessos da sua mocidade. De quando em
quando algum limo ia bater numa e noutra, o que as fazia rir.

D. Maria quis ir ao interior da
casa e saiu por alguns instantes. Da a pouco voltou espavorida.

 Jesus! Acuda-me prima Anglica!
Credo! Vingana!

Surpresa geral. As moas
voltaram-se para dentro e os rapazes vendo aquela muralha de costas fizeram uma
descarga em regra.

 Que ? perguntou D. Anglica
espantada. Ser o canhoto?

 Qual, canhoto! quero vingana!
que desaforo!

 Mas que ?

D. Maria estava sufocada;
sentou-se, bebeu um pouco dgua e falou:

 Ia eu agora l dentro, quando
encontrei na sala de jantar a um canto, adivinhem o qu? Encontrei seu filho
Benjamim quebrando limes no ombro de minha filha! Que desaforo! Fiquei sem
saber de mim... Isto se atura, prima? Co! Ter o atrevimento de... Prima, manda
dar uma sova no seu pequeno...

Neste tempo j Lucinda tinha
entrado na sala e ouviu a narrao da me com um espanto to fingido que
parecia um diplomata.

 Ests ai!... exclamou D. Maria.
Deixe estar que me pagars l em casa!

 Mas que ?...

D. Anglica mandou chamar
Benjamim.

O rapaz que estava na cocheira,
correu ao chamado da me.

 Que  isso, Benjamim? pois ento
tu tens o desaforo, o atrevimento de no respeitar tua tia nem a minha casa...

Benjamim ficou mais admirado que
se visse a cascata de Paulo Afonso; olhou para todos que tinham os olhos nele e
perguntou:

 Mas que  mame? eu no sei de
que fala.

D. Anglica referiu a acusao que
lhe fazia D. Maria; o rapaz negou alegando que no sara debaixo e apelou para o
testemunho de um moleque, o qual, como era o portador das cartas entre os dois
namorados, no teve dvida em dizer que o jovem Benjamim desde que descera para
a cocheira, no sara de l ocupado como estava em seringar os homens que
passavam.

D. Anglica voltou-se para a
prima.

 Voc enganou-se, prima.

 Mas se eu vi!...

Carlos tinha subido tambm, e, ou
para salvar o irmo a quem no tinha raiva, ou para terminar um incidente que
perturbaria a festa, confirmou o dito do moleque.

Mas D. Maria que tinha visto,
insistia e punha em dvida a assero dos sobrinhos e do moleque.

 Foi engano! diziam uns.

 Titia estava preocupada e
pareceu-lhe ver...

 Qual engano nem preocupao!
Pois eu vi.

Entrara no meio desta bulha o
jovem Batista, trajando casaca, luvas de pelica, e gravata branca. Veio de sege
para chegar intacto, apesar de morar perto. Ouviu a discusso, informou-se do
que era e concluiu que devia ser engano de D. Maria. Esta insistiu na
afirmativa.

 D-se muitas vezes, disse Batistinha
sentenciosamente, que a nossa imaginao figura objetos reais quando eles so
simplesmente hipotticos... A histria tem um exemplo: Bruto dizem que viu a
sombra de Csar. Foi naturalmente a impresso imaginria que lhe produziu a
espcie de presena real. O rgo visual tem fenmenos extravagantes; os
recentes trabalhos da cincia...

As moas voltaram as costas e
foram para a janela, exceto Teresa que ficou ouvindo o discurso do namorado. Os
rapazes desceram  cocheira.

Batista continuou o discurso. Como
tinha lido uns livros de cincia, explicou s senhoras qual a organizao do
nervo ptico, e como por acaso falasse em olhos bonitos, lembrou-se D. Anglica
de contar uma anedota acerca dos olhos do finado Sanches em 1834.

O incidente acabou assim, D. Maria
convencida de que realmente fora imaginao sua.

 Agora, se D. Anglica quiser
dar-me a honra de uma palavra em particular, disse Batista, ficar-lhe-ei
sumamente penhorado.

 Agora reparo, disse D. Anglica.
Que trajo para dia de entrudo!

 Minha senhora, respondeu
Batista, os grandes sentimentos no conhecem entrudo!

 Fala muito bem este moo, pensou
D. Maria.

A dona da casa foi com Batista
para o interior.

 Minha senhora, disse Batista
arrestando-se na sala diante de D. Anglica, muito h que eu nutro, dentro do
meu corao, um destes sentimentos que, mal aplicados, podem produzir no s os
infortnios domsticos como at a runa dos imprios, e, bem aplicados, so a
verdadeira bem-aventurana deste mundo. O amor, minha senhora,  o que o bordo
 para os cegos, o vento para os navegantes, a sade para os enfermos, o espao
para os passarinhos...

 Ento, ama?

 Loucamente. Seria um inferno
este amor se no fosse retribudo. O que  um amor sem retribuio?  o abutre
de Prometeu. Sou recompensado com igual amor ao meu: amor amore, diz a
sentena latina.

 Que deseja de mim?

 A luz. A senhora tem a minha luz
nas suas mos; pode dar-ma se quiser. Amo sua filha D. Teresa, e desejo unir-me
a ela pelos laos matrimoniais...

D. Anglica tinha percebido algum
namoro entre a filha e o Batista, mas no cuidou que estivessem to prximos do
casamento. O que sobretudo a fez pasmar foi a escolha do dia. A este respeito
observou Batista que, vindo a palavra entrudo do latim entroito, que
quer dizer entrada, estava ele de acordo com o dia desejando entrar na famlia.
O trocadilho despertou as recordaes conjugais da Sra. D. Anglica, que citou
mais uma anedota do finado Toms Sanches.

 Quanto ao que me pede, concluiu
ela, se Teresa quiser, no tenho razo que opor a uma unio que desejo ver
feliz e tranqila.

 A senhora chega ao sublime!
disse Batista.

Depois abrindo os braos:

 Minha me! exclamou ele.

D. Anglica abraou-o cerimoniosamente,
porque achava o rapaz romntico demais.

 Quando poderei ter resposta
definitiva?

 J, se quer; mas  melhor
logo...

 Quando lhe...

Neste momento ouviu-se um grande
grito, depois outro e outro; depois um barulho infernal. D. Anglica correu 
sala para saber o que era; Batista foi atrs dela.

Na sala ningum sabia a causa do
barulho.

O barulho vinha da cocheira.

 H de ser algum sujeito que os
rapazes meteram no banho, disse D. Anglica trmula. Ah! meu Deus! estes
pequenos ainda me ho de dar algum desgosto grande!

Quis descer; mas Batista a impediu
alegando gravemente que uma senhora nunca deve descer.

Os gritos continuaram ainda algum
tempo. Depois cessaram; ouviu-se uma voz trmula de frio lanar uma imprecao
aos rapazes.

 Ah! meu Deus! que rapazes! que
desgostos!

Subiu algum a escada; dai a
alguns segundos, entrava na sala o Sr. Tibrcio, vestido de branco, mas todo
molhado como se sasse do mar. Entrou respingando a sala toda.

 Jesus! que  isso?

 Ah! minha senhora, eis o estado
em que me puseram os seus rapazes! Veja se isto no  um desaforo! Entrei com
toda a confiana em sua casa, e os seus meninos, sem que eu lhes houvesse feito
mal, agarram-me, metem-me dentro de uma gamela e despejam-me um barril de gua
por cima, ajudados por dois moleques!

A narrao fez enraivecer D.
Anglica e rir as raparigas. Efetivamente a figura do Tibrcio era mais para
rir que outra coisa. O homem bufava que parecia uma baleia.

Batista agradeceu ao cu ter vindo
em ocasio em que encontrou os rapazes em cima, escapando assim a alguma
caoada.

Assentou-se o Tibrcio, enquanto
D. Anglica ia ver se havia roupa em casa que lhe servisse para mudar aquela.

Tibrcio contava as suas
impresses do banho a D. Maria, e Batista conversava com D. Teresa a quem deu a
agradvel notcia de que tudo estava arranjado.

De repente aparece Carlos  porta
da sala, armado de uma grande seringa de folha-de-flandres, pede silncio s
moas com um sinal, e deita um esguicho  nuca do Tibrcio.

Tibrcio soltou um grito, pegou na
cadeira e removeu como pde o corpo at  porta da sala; mas Carlos, que sabia
o sistema dos antigos Partos, fugiu dando-lhe mais um esguicho pela cara.

 No se zangue, disse D. Maria
acalmando Tibrcio que prometeu desancar o rapaz; isto afinal so brincadeiras
de rapazes... Todos eles o respeitam muito.

 No est mau o respeito!

D. Anglica voltou  sala.

 Sr. Tibrcio, v l para o
quarto da sala de costura; j l mandei pr alguma roupa.

Tibrcio obedeceu.

D. Anglica mandou ordem
terminante aos filhos que subissem.

Subiram.

 Que desaforo  esse, rapazes?
disse ela.

 O que  mame? perguntaram
ambos.

 Pois ento vocs no respeitam um
homem velho e srio, que nos visita? Isto  bonito?

 Mas foi uma brincadeira.

 Pois eu no quero mais essa
brincadeira... Brinquem l com quem quiserem mas no com as pessoas que vm 
minha casa.

Interveio o futuro genro de D.
Anglica.

 Minha senhora, eu estou
convencido que estes dignos moos brincam como todos os da nossa idade, sem
nenhuma inteno de ofensa. So jovens dignos de toda a estima; incapazes de
ofender a quem quer que seja, mormente s pessoas que tm a honra de freqentar
esta casa.

  verdade! disse Carlos...

 Portanto, continuou o advogado
dos rapazes, releve-se-lhes um ato prprio do dia.

 Muito bem! exclamaram os dois
rapazes aproximando-se de Batista para lhe agradecer a defesa. Batista
estendeu-lhes a mo.

Mas quando menos o esperava,
viu-se agarrado pelos quatro braos vigorosos dos rapazes e levado pela sala
fora e depois pela escada abaixo. O pobre moo gritava e protestava contra a
perfdia e a ingratido dos seus clientes, mas embalde! A voz de D. Anglica
perdeu-se no meio do barulho; Teresa deitou a chorar; D. Maria benzeu-se; e no
meio do tumulto apareceu na sala Tibrcio; apertadssimo numas calas de Carlos
que lhe ficavam acima do tornozelo e numa jaqueta de Benjamim que lhe batia
pelo meio das costas.

A figura fez rir ainda mais do que
quando Tibrcio apareceu molhado da cabea at os ps.

 Que h de novo? Alguma nova
travessura?

 Ah! Sr. Tibrcio, exclamou D.
Anglica; o senhor me h de embarcar estes dois rapazes que me pem doida; meta-os
na presiganga!

 Pois no, D. Anglica! Mas que
fizeram eles agora?

 Levaram para baixo o Sr.
Batista.

 Que! pois tiveram tambm a
audcia? No admira! no me meteram no banho?

Tibrcio sentiu uma espcie de
satisfao em ver que no era a nica vtima.

Pouco tempo depois subiu Batista,
e, sem ousar aparecer na sala, pediu a D. Anglica que lhe desse alguma roupa
que vestir.

Foi satisfeito.

D. Anglica mandou vir o bacalhau
com que se castigavam os escravos e foi abaixo em pessoa.

 Andem! l para cima! quando
no... vai tudo a vergalho.

Os rapazes obedeceram.

D. Anglica no era s mulher de
prometer; era mulher de cumprir.

A tarde caa; os rapazes adiaram a
festa para os dias seguintes. Mudaram tambm de roupa e deixaram-se ficar na
sala de jantar.

Batista voltou  sala um pouco
envergonhado. Tibrcio j estava mais calmo; D. Maria comeou a rir e D.
Anglica encaixou uma anedota a respeito de Sanches. As moas sentaram-se
tambm.

 Gastaram todos os limes?
perguntou D. Maria em ver dois tabuleiros cheios.

 Todos, no, disse Ermelinda;
ainda temos para amanh.

 Isso, sim, disse Tibrcio, isso
 brincadeira que eu aprovo; o limo  delicado e diverte a gente.

 Diz muito bem, assentiu Batista.

 Mas o banho!

  selvagem!

  brutal!

 Deve acabar!

 E h de acabar!

 A civilizao no comporta...

 Apoiado!

Os rapazes voltaram  sala.
Tibrcio dirigiu-se a D. Maria para dizer alguma coisa que o impedisse de olhar
para os seus algozes; ao passo que Batista tirou o relgio, trouxe-o ao ouvido,
deu-lhe corda, etc... tudo para evitar o primeiro olhar dos filhos de D.
Anglica.

Ningum reparou que os rapazes
traziam as mos nos bolsos grandes dos palets de brim.

Sentaram-se ambos a conversar. Ao
princpio nem Tibrcio nem Batista lhes dirigiu a palavra; mas, convindo evitar
o ridculo do amuo depois de banho, pouco e pouco foram conversando com eles e
restabeleceu-se a confiana.

No tardou porm que Carlos
pregasse em Tibrcio um rabo de papel, e Benjamim outro em Batista. O de Batista no foi visto logo pelas outras pessoas. Mas como Tibrcio estava de
costas para o grupo das moas, viram estas logo o apndice posto por Carlos e
riram alegremente. Tibrcio desconfiou. Olhou para Carlos; este ficou srio.

 De que se riem as moas?
perguntou Tibrcio.

 No sei, respondeu Carlos; deixe
ver. Ah!  uma mancha de cal no seu palet, deixe limp-la.

Tibrcio consentiu de boa f; e Carlos
fingindo que limpava o palet, quebrou-lhe um ovo nas costas.

Sentiu Tibrcio que o rapaz no o
limpava, antes o sujava, a gema entornou-se parte no cho, D. Anglica correra
para Carlos, este correu pela sala, levantou-se Batista para intervir, mas
arrastando tambm um rabo de papel; Benjamim aproveitou a ocasio e quebrou um
ovo nas costas de Batista.

No tenho foras para descrever o
barulho que se seguiu a esta cena. O tumulto foi geral; s se acalmou indo os
dois rapazes para um quarto onde D. Anglica os fechou a chave.

Com a noite veio o descanso. As
visitas se foram embora, exceto D. Maria e a filha que resolveram ficar at
Quarta-feira de Cinzas.

Pelas 9 horas da noite, D.
Anglica foi soltar os prisioneiros. Achou-os jogando as cartas. Anunciou-se o
ch, e eles vieram para mesa, onde foram recebidos com um olhar furibundo da
parte de Teresa, cujo namorado fora vtima das suas travessuras.

Quando se iam deitar, o moleque,
que servia de intermedirio entre Benjamim e Lucinda, foi aos dois rapazes e
disse-lhes que precisava dizer uma coisa.

Levado ao quarto, disse que
Batista tinha por costume pular de noite os quintais at o da casa de D.
Anglica e conversar a para a janela onde a sinh moa Teresa ficava at muito
tarde.

Esta comunicao inesperada tinha
a seguinte explicao.

O moleque servia tambm de
corretor entre Teresa e Batista; mas no tendo obtido deste as vantagens que
esperava, e principalmente tendo-lhe ele recusado uma jaqueta nova que lhe
pedira, entendeu que devia vingar-se assim.

Realmente, Batista podia dar-lhe
uma ou duas jaquetas; mas como era muito econmico, entreteve o moleque na
esperana e esse foi o seu mal.

Carlos ficou espantado com a
notcia.

 Ser verdade? perguntou ele a
Benjamim.

  nhonh, insistiu o moleque,
ele quer casar com sinh-moa Teresa, mas  um sovina...

 Vir ele hoje?

 Parece que vem.

Idia infernal surdiu no esprito
de Carlos. Era esperar o Romeu dos quintais e pregar-lhe nova pea.

 Um banho! disse o moleque quando
Carlos consultava o irmo.

 Sim, um banho! disse Benjamim.

 No, disse Carlos, coisa melhor;
pensemos nisso.

Enquanto os dois estavam em
concilibulo, as raparigas foram deitar-se.

Dormiam no mesmo quarto Lucinda e
Teresa.

 Estou muito zangada com o
Benjamim, disse Lucinda; no gostei que fizesse aquilo no teu... noivo.

 Cala a boca! no fales alto! No
foi ele s, foi o Carlos, que  sempre o autor destas idias.

 Amanh hei de passar uma
sarabanda nos dois.

 No digas nada,  melhor.

 Por qu?

 Porque...

 Vais casar, bem sei.

Teresa sorriu.

 Depende de mim, disse ela.

 Titia j te perguntou alguma
coisa?

 Nada.

 Mas h de falar...

 Amanh, talvez.

 Sim, amanh...

 Que  isto?

 Isto o qu?

 No ouviste um grito?

 No;  uma coruja; ests
medrosa.

 Pareceu-me.

As duas sentaram-se na cama.

 Que  que tu hs de dizer quando
titia te perguntar se queres casar com o Batistinha?

 Velhaca! disse Teresa sorrindo.

 Por qu, meu Deus?

 Quero saber tambm o que hs de
dizer quando...

 Quando o qu?

 Quando tua me te perguntar se
queres casar com Benjamim...

 Ora, qual!... Mas vamos l,
dize...

 Eu responderei que  de meu
gosto.

 S isso?

 Pois ento?

 Mas isso s no  bonito; 
preciso dizer: Com toda a minha alma!

 Deixemos disso;  romntico
demais.

Desta vez ouviu-se um sussurro no
quintal. As duas chegaram  janela mas no viram ningum.

 No  nada, disse Lucinda.

Entraram outra vez e continuaram a
conversar. No fim de dez minutos ouviu-se um assobio.

Teresa estremeceu.

  ele!

Lucinda comeou a despir-se.

 Pois ento, disse ela, vai
conversar enquanto eu me deito.

Teresa chegou  janela e agitou um
leno branco; Batista, que j vinha pulando o ltimo quintal, saltou  terra,
aproximou-se do poo e comeou a conversar debaixo com a namorada.

 Por que veio hoje? perguntou
Teresa.

 Acha que fiz mal? disse Batista.

 Deve estar cansado.

 De qu?

Teresa quis aludir ao banho mas
receou envergonhar o rapaz. Por isso, sem responder  pergunta continuou:

 Mame ainda me no falou.

 Quando falar?

 Talvez amanh.

 Que pretende dizer?

 Ora! que sim! diga-me outra vez;
est certo de que foi bem recebido por ela?

 Perfeitamente; vi que ela
compreendeu o meu amor; e como no, se  essa alma digna, essa alma celeste,
toda cheia dos perfumes do paraso?

Esta rajada lrica produziu um
riso sufocado, que Batista atribuiu a Teresa, e esta a Lucinda. Mas Lucinda j
dormia nessa ocasio.

 Riu-se de mim? perguntou
Batista.

 Que pergunta!

 Parece...

 Ah! no insulte aquela que vai
ser sua esposa.

 Insult-la? jamais... No; eu
daria o meu sangue para vingar aquele que a insultasse... Mas diga-me, Teresa,
voc est contente casando comigo?

 Oh! muito feliz!

 Eu tambm! Havemos de ter uma
bela vida!

 Eu espero.

 Contanto que nos no visitem
indiscretos, ah! principalmente seus irmos. Que par de pelintras!

 Deixe-os.

 Oh! se os deixo! So dois
pelintras sem iguais. No compreendem que a dignidade da vida humana 
respeitar os outros, porque o homem  feito  imagem de Deus, e quem insulta um
homem e o desconceitua, ofende a Deus. No acha, D. Teresa?

 Parece que sim; disse a moa j
um pouco aborrecida com o ar ttrico que o namorado ia dando  conversa.

 Mas eu perdo a esses rapazes;
s o que desejo  que me no visitem...

 Ser o que voc quiser...

 Teresa, voc me ama?

 Muito.

 Para sempre?

 Para sempre. E voc?

 Oh! eu! pergunta ao mar se ama a
praia; ao zfiro se ama a flor;  abelha se ama...

No acabou a frase. Um esguicho
annimo lhe inundou a cara. Batista deu um pulo.

 Que ? perguntou a moa.

 No sei... respondeu ele
suspeitando estar descoberto.

 Mas que foi?

Batista no respondeu; imaginou
logo que estava espiado e achou conveniente no dizer palavra e safar-se. Infelizmente,
a noite estava escura e podia ele esbarrar-se com algum dos rapazes.

 Meu Deus! exclamou a moa. Que
?

 Nada...

 Alguma coisa h de ser.

 Descanse. Foi um espirro. Como
ia dizendo, este momento aqueles seus manos so moos alegres mas dignos... Que
galante idia tiveram de me meter no banho!

 Isso  irnico, disse Teresa.

 Qual!  sincero! eu s me zango
no momento; mas depois, reconheo logo que no h inteno de caoar comigo...

Desta vez recebeu um esguicho por
trs.

 Ai! disse ele.

 Mas que tem voc? perguntou a
namorada aflita...

 Nada!  um calo. So excelentes
aqueles moos...

Outro esguicho nas pernas.

 So excelentes; continuou
Batista tremendo de frio e de medo. Eu, se os encontrasse agora, abraava-os.

Desta vez foram dois grandes
esguichos. Batista teve idia de pedir perdo; mas por um resto de pudor, no
quis fazer figura triste diante da namorada.

Esta cada vez compreendia menos o rapaz.
Os esguichos continuaram; ele falava entrecortando as frases; ela chegou a
suspeitar que ele estivesse doido.

 H de perdoar-me, disse ele,
est fazendo um frio; vou-me embora.

 J?

 J.

 Adeus.

 Adeus!

 At amanh.

Teresa fechou a janela; Batista
olhou  roda de si, no viu ningum e procurou aproximar-se do muro para
saltar.

Nesse momento caiu-lhe sobre as
costas uma caldeirada dgua.

 Ai! ai! gritou ele.

E saltou o muro.

Mas antes que pudesse segurar-se
bem, sentiu as pernas presas por quatro braos vigorosos. Caiu arranhando as
mos no muro.

 Que me quereis? disse ele
tremendo.

Abriu-se a janela e apareceu
Teresa.

O rapaz foi arrastado berrando para
uma grande gamela, j cheia dgua. A moa entrou dando um grito. Acordou
Lucinda e ambas foram acordar o resto da famlia.

 Ho de ser os endiabrados! Que
pecado cometi eu? exclamou D. Anglica saltando fora da cama.

Dentro de pouco tempo estavam
todos a p, com velas acesas na mo, e dirigiram-se para o fundo, abrindo as
janelas que davam para o quintal.

D. Anglica, desceu munida de um
vergalho, e apareceu no quintal onde se passava a tragicomdia.

Batista esperneava dentro da
gamela. Os dois irmos o prendiam enquanto o moleque lhe despejava baldes
dgua.

 Que  isto? perguntou D.
Anglica.

E avanou brandindo o vergalho.

O perigo era iminente.

Os dois rapazes agarraram em
Batista.

Carlos sentiu uma vergalhada nas
costas; outra vergalhada foi diretamente a Benjamim. Que fazer? Os dois pegam
do corpo de Batista e fizeram dele escudo, de maneira que as vergalhadas que D.
Anglica, cega de furor, cuidava dar nos filhos, quem as apanhava era o futuro
genro.

Teresa desceu abaixo; e suspendeu
o brao da me, quando j Batista sentira todo o peso do brao da viva
Sanches.

Cessou a pancadaria; Batista foi
levado para cima, e D. Anglica perguntou como  que os dois rapazes tinham
podido pilhar Batista no quintal para maltrat-lo assim.

Aqui estava o n da situao.

Batista, no querendo confessar
que fora conversar com a futura noiva, e temendo as revelaes dos rapazes,
disse que fora l para tratar com eles uma caoada, e que aquilo era uma
brincadeira.

Ao mesmo tempo dirigiu um olhar
suplicante aos moos, que confirmaram a histria, escapando assim a uma
infalvel correo.

Nessa noite todos dormiram mal.

Quando no dia seguinte, Tibrcio
soube do fato, sorriu dizendo que tambm o Batista merecia a presiganga.

Acabou o entrudo, felizmente para
o Batista, e a quaresma felizmente para ele e a noiva, que se casaram e do-se
muito bem.

Batista
vendeu o armarinho, e joga o gamo numa botica todas as tardes.
