Conto, Valrio, 1874

Valrio

Texto-Fonte:

http://www2.uol.com.br/machadodeassis

Publicado originalmente em Jornal das Famlias, dezembro,
1874.

I

Valrio era
fluminense; veio  luz com a revoluo de 1831. O pai estava no campo, enquanto
ele nascia humildemente, entre as lgrimas de sua me e os cuidados de uma
velha comadre. Quando o pai voltou  casa, encontrou esse aumento na famlia.
Beijou o filho, consolou a mulher, comeu alguma coisa, e foi passar a noite num
dos clubes do tempo.

A paternidade 
anterior  sociedade; mas os amores novos fazem esquecer os velhos, e a paixo
poltica domina, em certos casos, os primeiros instintos da natureza.

Nascido entre
lgrimas, foi Valrio criado entre penas. O pai, que era um pobre militar, no
tinha recursos de sobra para deixar  famlia, e morreu pouco depois da
revoluo. A me educou como pde o pequeno at  idade de sete anos; a pobre
senhora morreu sem poder v-lo num colgio. Valrio passou ento  casa do
padrinho, que era um general conhecido naquele tempo por suas faanhas e
mentiras, mas no fim de contas boa alma e amigo de servir. O general mandou
ensinar ao afilhado os primeiros rudimentos da lngua e um pouco de latim.
Vendo os progressos do pequeno, determinou mand-lo estudar direito, e nesse
propsito estava quando faleceu sem testamento. Os poucos bens que tinha caram
nas mos dos parentes, e Valrio ficou senhor das caladas da rua, na idade de
catorze anos.

Como no  nossa
inteno contar dia por dia a vida do rapaz, corramos um vu sobre os
acontecimentos da sua adolescncia at encontr-lo em 1861, com trinta anos de
idade, sem mais fortuna do que quando nascera, nem recurso certo para ocorrer
s necessidades da vida. Tentara estudar direito, mas no conseguira alcanar
os meios precisos para um curso regular. No tinha ofcio nenhum, no s porque
no o arrastava para a a vocao, como porque, sentindo-se apto para uma
carreira literria, temia perder a sua utilidade no mundo, adotando um meio de
vida em que nada podia fazer.

Desistiu do
intento de estudar direito; fechou os livros numa caixa, e contentando-se com o
pouco que sabia de latim, geografia e histria, entregou-se todo aos dois
empregos de que tirava escassos recursos: escrevente de cartrio e revisor de
provas de tipografia.

No consta em
memria de homem que estes dois empregos tenham dado grandes rendas a quem os
exerce. Valrio vivia pobremente; recebia um mesquinho ordenado da tipografia e
cobrava pela rasa o trabalho do cartrio. De quando em quando algum translado
de inventrio l lhe dava com que comprar um palet. Mas, como nem sempre havia
translado, nem sempre havia palet novo. Os cotovelos, amigos da liberdade,
operavam-lhe s vezes solues de continuidade nas mangas. Nem era raro ver um
boto solitrio na cintura, tendo o outro cado de velhice.

Uma das coisas
que Valrio estudara com proveito era a gramtica portuguesa. Por isso, sabendo
que vagara uma cadeira de gramtica num colgio pblico, Valrio props-se 
cadeira, e foi pedi-la ao funcionrio competente. A cadeira foi dada a outro
peticionrio que escrevera nestes termos ao diretor: No consta-me que haja
candidato srio ao lugar que vagou nessa escola. Desejava consultar V.Ex. a
respeito.

Valrio
contentou-se com a tipografia e o cartrio. Dividia o tempo entre esses dois
empregos; o pouco que lhe restava mal chegava para dormir. Ocupava um aposento
numa casa da Rua das Flores e facilmente se imaginar que o aposento no
primava pelo luxo. O mesmo espao servia de sala e alcova; a moblia era
escassa e pobre.

Tal era a vida de
Valrio aos trinta anos; abundncia de apetite e escassez de jantares, isso e a
segunda classe de Chamfort; muito trabalho e pouqussimos recursos. Nulo
passado, escasso presente, tristssimo porvir. Quando Valrio meditava sobre as
condies da sua existncia, a sua mocidade sem risos, o seu futuro sem
esperanas, lanava um olhar melanclico para o suicdio, como a soluo
razovel do problema da vida, e perguntava entre si se a moral que desarma o
brao do homem no era simplesmente uma moral de conveno. Imediatamente,
porm, volvia a sentimentos melhores; encarava severamente a responsabilidade
que lhe corria de carregar a vida dignamente, sem violncia nem rebeldia;
adiava o suicdio para o prximo desnimo.

Contribuam para
esta filosofia severa algumas horas de ambio e devaneio, em que Valrio esquecia provas e translados, e lanava o esprito por esses espaos fora em
busca de felicidades sonhadas e imaginadas grandezas. No tinha objeto sua
ambiciosa imaginao: ora vivia uma vida de amores, ora ocupava um trono de
glria; agora imaginava-se Petrarca, mais tarde acreditava-se Pitt; construa
castelos no ar, embriagava-se com perfumes do Oriente, dominava as turbas
pasmadas, vivia um romance e repousava na histria.

Quando descia
dessas alturas vertiginosas, Valrio tinha ao menos esquecido a misria atual,
porque sonhar  esquecer, e esquecer  muita vez toda a felicidade da vida.

II

Costuma a fortuna
complicar estas misrias com amores impossveis; desta vez foi propcia,
arredando do rapaz qualquer dessas aventuras que pudessem agravar-lhe o mal.
Alm disso, Valrio era um tanto artista e poeta na maneira de apreciar as
mulheres; amaria Safo, porque era musa  desdenharia a princesa de Talleyrand,
apesar de formosa, porque era parva. Queria as mulheres inteligentes e
instrudas  no as mulheres sabichonas, que  a pior casta de mulheres deste mundo,
e Valrio odiava o pedantismo, qualquer que fosse o seu sexo.

Odiar o
pedantismo  entrar em luta com uma boa parte da gente que neste mundo d
cartas. Valrio conheceu praticamente esse mal uma vez que sorriu  socapa,
ouvindo no Carceller, onde almoava, um doutor entre doutores. O orador de caf
percebeu o sorriso do estranho, levantou-se e disse-lhe dois improprios
literrios, que Valrio suportou com uma pacincia mais estica que evanglica,
porque no era humilde, seno filsofo.

O incidente no
alterou as opinies do escrevente de cartrio; pelo contrrio, confirmou-lhas.

No encontrara
at ento nenhuma mulher nas condies em que ele a desejava, e se encontrasse
seria o remate do seu infortnio. Ainda quando viesse a ser amado por ela, que
futuro podia oferecer-lhe um pobre rapaz sem eira nem beira, sem proteo nem
amizade neste mundo?

Pensava em tudo
isto Valrio, e, se tinha em si mundos de ternura, recalcava-os no mais ntimo
do corao. Como no freqentava nenhuma casa, no tinha ocasio de ser tentado
pelo amor.

Aconteceu uma vez
que o escrivo do cartrio onde ele trabalhava, reunindo em casa algumas
pessoas para jantar e danar, convidou os seus escreventes, entre os quais o
nosso Valrio, que recusou o convite. Ofendido no seu melindre de anfitrio, o
escrivo franziu a testa e murmurou:

 Est bem.

Compreendeu o
pobre escrevente a causa daquele movimento, e no convindo zangar-se com o
homem que lhe dava meios de vida, confessou ingenuamente que a causa da recusa
era simplesmente uma questo de sapateiro. O escrivo desrugou a testa, meteu a
mo no bolso, tirou dez mil-ris e entregou-os ao escrevente, dizendo-lhe:

 Podia diz-lo
logo; sabe que no sou unhas de fome, e alm disso temos contas entre ns.
Descontaremos isto no traslado de falncia que l tem consigo.

Saiu Valrio com
os dez mil-ris no bolso e dirigiu-se a um sapateiro para munir-se de um par de
botas que substitusse os sapatos velhos que fingiam calar-lhe os ps. Ia
pensando no aborrecimento que lhe causaria passar a tarde e a noite em casa do
escrivo, sem conhecer ningum, quando foi detido por um indivduo que lhe
disse:

 Ia agora mesmo
procur-lo. Quando me d aquela continha?

A continha de que
falava o sujeito era o resto de um palet que Valrio comprara quinze dias
antes: cinco mil-ris.

Valrio balbuciou
algumas palavras de desculpa, e o indivduo acostumado a ouvi-las de muita
gente no se abalou com elas, e insistiu na pergunta. No fim de dez minutos, o
devedor no tinha conseguido abalar o credor, puxou do bolso a nota de dez
mil-ris e com ela pagou os cinco que devia.

Estava, pois,
reduzido a cinco mil-ris. No era difcil comprar com esse dinheiro um par de
sapatos, nem os seus eram de maior preo. Dirigiu-se a um sapateiro de dcima
classe, e a mercou um par de sapatos de bezerra, que o sapateiro afirmava
serem novos, mas que Valrio sups terem j alguma experincia do mundo e das
caladas. Com um bilhete de gndola, perdido no bolso do colete, pagou Valrio
a um barbeiro que lhe limpou a cara; depois foi vestir-se como pde, e s
quatro horas estava em casa do escrivo.

Sabem todos com
que cara aparece um homem quando vai pela primeira vez dans le monde. O
acanhamento  visvel; no d um passo que no olhe para todos; esconde-se
voluntariamente e sempre que pode. Valrio estava nessa situao, acrescendo
que o seu vesturio aumentava o contraste da sua pessoa no meio da sociedade em
que se achava. No havia luxo nem elegncia nas pessoas convidadas pelo
escrivo; a reunio era familiar, e o escrivo no estava em grandes relaes
com Botafogo. Mas, apesar de tudo, havia entre a sociedade e Valrio um abismo.
O escrivo recebeu o rapaz com certa afabilidade de superior, que mostrava da
parte do homem um vcio de educao ou de carter  porquanto o escrevente do
cartrio era um convidado da casa, e, como tal, estava nivelado com os outros.
Nem o escrivo notava essa diferena nem Valrio deu por ela; o cumprimento do
escrivo causou grande prazer ao rapaz, que j estava embaraadssimo quando se
viu alvo dos olhares das moas e dos rapazes.

O jantar foi
animado, e Valrio achava-se satisfeito vendo a alegria dos outros. Dentro de
uma hora cederam os estmagos a palavras s lnguas, e comeou uma srie de
brindes ao dono da casa que foi designado por vrias metforas descabeladas,
entre outras a de um funcionrio municipal que lhe chamou camarista de Tmis. O
escrivo sorriu com um ar de quem ignorava o que era Tmis; mas a palavra camarista
soou-lhe bem ao ouvido. O orador de sobremesa  um tipo universal; entre ns
tem j alcanado uma posio slida e brilhante. Valrio, que no conhecia o
tipo, admirou muito a loqela dos oradores e a compridez dos speechs, e
mais ainda os aplausos e risadas dos circunstantes, conforme os discursos
fossem patticos ou gaiatos. Todos tiveram parte nas sades; e o ltimo brinde
foi levantado pelo escrivo, que falou nestes termos:

 Meus senhores!
Se h na vida de um homem instantes de felicidade  certamente este em que os
amigos se renem  roda de ns, para cumprimentar-nos e partilhar conosco as
afeies sinceras e profundas. (Muito bem!) Folgo de ver-vos esquecer
outros cuidados para entregar-vos todos a festejar o meu dia, que, como 
natural e usual na sociedade,  o primeiro dia da existncia, desta existncia,
senhores, que, apesar de amaldioada,  sempre cara ao nosso corao, cara,
repito, principalmente quando os amigos nos servem de lenitivo. Eu bebo aos
meus amigos.

Cada um bebeu 
sua sade e preludiou-se a debandada. Seguiu-se mais tarde um pequeno concerto
em que um flautista arrebatou o auditrio tocando umas variaes sobre o j
secante Carnaval de Veneza; e s nove horas comeou a primeira
quadrilha.

Valrio foi
simples espectador do baile; no sabia danar, nem que soubesse no danaria
logo da primeira vez que se achava em sociedade. Encostou-se a uma porta que dava para a sala e contemplou os movimentos de toda
aquela gente alegre. A nica pessoa, que, apesar de tudo, estava um tanto
inquieta, era o dono da casa. Esperava um convidado que no viera. Um convidado
que era a verdadeira cpula do edifcio festival, o coronel Borges, militar
reformado, ex-deputado, ex-quase-ministro, figura que devia impor  reunio e
levant-lo muito alto no nimo dos convidados.

O tempo corria
com essa rapidez mxima que costuma ter em certas ocasies, e o escrivo,
semelhante  clebre esposa do conto, perguntava  irm Ana, que era neste caso
um moleque, se no via rien venir l-bas.

Nesta nsia foram
ouvidas as dez horas.

III

s dez e meia
apareceu o coronel Borges acompanhado da famlia, que se compunha da mulher,
senhora de quarenta e cinco outonos, e de uma filha, menina de dezoito
primaveras. O coronel pertencia a essa classe indefinvel de homens que esto
entre a primavera e o outono, nem velhos, nem moos, mistura de Saturno e
Antnous.

O escrivo
recebeu o coronel com vivas demonstraes de amizade e respeito, s quais o
coronel respondeu com esse ar solene e grave das capacidades e das nulidades. A
entrada dos novos convidados fez impresso na sala; sentia-se a superioridade
social do homem que, alm do mais, tinha a ventura de ser pai de uma
formosssima filha. Os rapazes sufocaram na garganta um grito de admirao; e as
moas disfararam um gesto de despeito.

Valrio deu lugar
a que passasse a famlia; a filha do coronel passou rente com ele. Ia cheia de
perfumes e blsamos; o rapaz respirou-lhos sem querer, e pela primeira vez
sentiu a vertigem que pode causar uma mulher quando sabe escolher os aromas do
seu uso. No lhe escapou a pasmosa beleza da moa. Acompanhou com os olhos
aquela figura elegante como uma palmeira, flexvel como um junco, temperado com
a graa do gesto e a soberania do porte. A moa sentou-se entre a me e a
senhora do escrivo. Pde ser contemplada a gosto por todos. Era excessivamente
clara, uma dessas brancuras de mrmore, aspecto de esttua onde se no supe
haver corao. Tinha olhos negros, plcidos embora rutilantes, resguardados por
longos clios que ela s vezes apertava, menos por defeito de vista que por
sestro. Penteava-se segundo a moda do tempo, mas sem afetao. Sorria
discretamente, e quando bastava para mostrar duas ordens de dentes corretos e
alvos. O seu vesturio no exagerava a moda corrente, mas era luxuoso e
perfeitamente acomodado  elegncia das suas formas.

Valrio
contemplava admirado a beleza da moa e o mesmo faziam os demais rapazes, que
j se preparavam para suplicar-lhe a honra de danar uma polca ou uma
quadrilha. Parece que a rapariga estava acostumada queles triunfos, porque
apenas se sentou, correu os olhos pela sala sorrindo com um ar de satisfao
ntima; a me tambm se alegrou, e quanto ao pai, depois de conversar um pouco
com alguns sujeitos a quem conhecia, foi para o interior da casa a convite do
escrivo, que queria obrig-lo a comer uns acepipes expressamente preparados
para esse fim.

No tardou que a
filha do coronel danasse, e Valrio pde admirar-lhe a graa, a reserva, a
elegncia dos seus movimentos. O pobre escrevente no lhe tirava os olhos de
cima; duas ou trs vezes encontraram-se os seus com os dela; Valrio corava de
vexado, como se o surpreendessem a cometer um crime. Quanto  moa, no se
perturbava nem parecia zangar-se; olhava tambm para Valrio com um olhar longo
e tranqilo. O rapaz chegou a supor que era um movimento de simpatia, e Deus
sabe que sonhos no lhe passavam ento pelo esprito atordoado; a verdade,
porm,  que a moa gostava de ser admirada; era uma dessas belezas capazes de
vender o patrimnio do amor por um prato de admiraes.

 meia-noite foi
servida uma ceia volante; Valrio deixou discretamente o seu posto e foi para
dentro descansar e comer alguma coisa. Confessou de si para si que estava com
fome. Sentou-se ao p de uma mesa pequena, recebeu de um criado uns
pastelinhos, e comeou a ruminar tranqilamente. Cumpre acrescentar que ao bom
do rapaz repugnou ver comer a jovem rainha da noite. Era escrpulo de calouro.
 mais potico no assistir  operao dos queixos quando se ama a uma mulher,
mas  ai triste!  nem por isso fica suprimida a operao. O estmago no tem
sexo; e a natureza tem exigncias fatais. Aqueles lbios, que nos parecem
exclusivamente feitos para risos e beijos, so a entrada indispensvel de covilhetes
e pastis.  possvel que na prxima edio da obra, o autor da criao corrija
esse gravssimo ponto; mas por enquanto a obra h de ser lida assim... ou morre
de traa nos livreiros.

Perto do
escrevente estavam algumas pessoas, ocupadas tambm em dar que fazer ao
estmago, exceto o coronel, que, tendo j comido, conversava paternalmente com
o escrivo e mais dois sujeitos.

 E quando se
publica esse folheto? perguntou o escrivo.

 Creio que
breve, respondeu o coronel; o autor, que, como lhe disse,  meu amigo ntimo,
promete que dentro de uma semana estar  venda.

 Estou ansioso
por ver isso! exclamou um velho com feies de militar; ataca o governo?

 Se eu lhe digo
que  uma filpica! tornou o coronel.  um opsculo de fazer poca.

 Disso
precisamos ns.

Os mpetos de
oposicionista do militar no agradavam ao escrivo, que tinha filho em no sei
que secretaria de Estado. Por isso tratava de desviar a conversa do assunto do
opsculo.

 Sempre queria
v-lo danar, coronel!

 Qual! j no 
para mim.

 Como se chama o
opsculo? perguntou o militar.

 No sei se devo
confiar tanta coisa; o autor no me autorizou... mas...  verdade que daqui uma
semana... chama-se o opsculo: Abaixo as mscaras!

 Magnfico!
magnfico ttulo! exclamou o militar.

Ouvindo o ttulo
do opsculo, Valrio estremeceu, e prestou  conversa mais ateno do que at
ali. O velho militar continuou a elogiar o ttulo, e insistiu com o coronel
para que dissesse onde poderia ir comprar o opsculo quando ele aparecesse.

 Suponho que em
todas as livrarias; mas, se quer eu lhe arranjarei um e mandar-lho-ei antes de
publicado.

 Tanto favor! A
obra  bem escrita?

 Dizem que sim;
eu no entendo de estilos.

Sem medir todo o
alcance da inconvenincia, Valrio interrompeu a conversa dizendo:

 Entendo eu um
pouco; e acho que o estilo do opsculo de que se trata  excelente.

Houve um sbito
silncio logo depois das palavras do escrevente. O escrivo fez uma careta de
desgosto vendo que Valrio se intrometia aonde ningum o chamara; e o coronel,
disfarando quanto podia um sorriso delator, perguntou ao vizinho quem era
aquele sujeito; o vizinho disse que o no conhecia. O coronel voltou-se para
Valrio.

 Conhece ento a
obra? perguntou-lhe.

 Conheo.

 Conhece o
autor?

 No, senhor.

 Ento houve
traio...

 No, senhor; eu
sou revisor de provas na tipografia onde se est imprimindo o folheto.

Novo silncio e
mais prolongado. O escrivo tinha a cara mais vermelha que um pimento; se um
olhar fulminasse, Valrio j no era gente, pois o que o escrivo lhe lanou
continha raios de raiva, despeito, nojo. Traduzido em vulgar, o olhar do
escrivo queria dizer:

 Pois este
pelintra vem ter a honra de jantar comigo, ver danar os outros, estar aqui
confundindo com pessoas de certa ordem, e se h de ouvir e calar, responde
quando ningum lhe pergunta, e por fim de contas, confessa-se revisor das
provas!

Valrio no viu o
olhar do escrivo, nem compreendeu o silncio de todos.

 Gosto imenso do
estilo do folheto, e creio que h de fazer poca.

 Eu assim penso,
disse o coronel sorrindo para Valrio; mas, quem assim fala e julga, no 
decerto um simples revisor...

 Sou tambm
escrevente no cartrio do Sr. Z.

 Ah! Escrevente
e revisor! mas no  isso bastante; vejo que tem humanidades... estudou...

 Muito pouco...
e h muito tempo.

 Mas tem o gosto
apurado...

 No sei; eu
digo o que me parece.

 Descontaremos a
modstia, disse o coronel; vejo que tem certos estudos... Quer um charuto?...

 No fumo...

  um vcio;
corrija-se dele. Charutos, meus senhores?... Hoje fuma-se por toda a parte...
Pensa ento que o folheto tem bom estilo?

 Excelente.

  a opinio de
algumas pessoas que leram o folheto; eu confesso, de estilos no sei.

 Nem eu, disse o
militar.

A situao de
Valrio estava um pouco salva; a bondade com que o coronel tratava ao
escrevente teve o dom de acalmar os furores do escrivo, que j trocava
palavras com o rapaz; e quando viu levantar-se o coronel de brao com Valrio,
a indiferena do escrivo tornou-se em viva simpatia.

Valrio pde
contemplar ainda durante meia hora a interessante filha do coronel, que durante
essa noite danara alegremente como quem no tem cuidados no futuro nem
saudades do passado.

Depois de
despedir-se do escrivo, o coronel apertou a mo do escrevente, dizendo-lhe:

 No se esquece?

 No, senhor.

 N 14.

Ningum ouviu
estas palavras do coronel ao rapaz; mas o escrivo adivinhou que alguma coisa
ntima se passara entre o rapaz e o coronel.

 Cultive esta
amizade, disse o escrivo a Valrio, quando o coronel saiu;  um excelente
homem e dotado de uma inteligncia brilhante; freqente esta roda, que vai bem.

IV

O coronel Borges
possua alguns cabedais, bastante para sustentar a casa e deixar patrimnio 
famlia. A sua principal paixo era a poltica; era esse verdadeiro po
cotidiano que ele pedia a Deus com herica humildade. Se lhe tirassem a
poltica do mundo, o mundo ficaria um ermo. A poltica era para ele o sol do
mundo moral; quando a poltica desaparecesse comearia a morte. Nesse caso,
dizia ele, poderei dormir. Pessoas de algum juzo afirmavam que, antes que a
morte viesse, o coronel dormiria, e essa realidade era a maior dor que ele
poderia ter.

No nos
enganemos, entretanto. A poltica do coronel no existe nos livros de
Montesquieu nem Maquiavel; tinha outros cdigos; a outras leis obedecia. A
poltica do coronel comeava no subdelegado e acabava no coronel. Uma remoo
de comarca valia para ele um princpio. A Guarda Nacional e a polcia eram para
ele toda a opinio pblica. Sorria com desdm quando lhe falavam de outras
coisas que no fossem estas coisas prticas. Escudado no axioma que diz que a poltica
 uma cincia de aplicao, o coronel tinha mais respeito a um juiz municipal
que a um artigo de lei, porquanto a lei era o tema e o juiz municipal a imagem
da aplicao.

Na Cmara fez um
papel de mudo; mas o seu ar de gravidade era respeitado como um sintoma de
sabedoria. Aplicava muitas vezes esta resposta de Slon a Pariandro: No sabes
tudo que  impossvel ao tolo calar-se durante um festim? O Parlamento, no
juzo dele, era o festim da opinio, e se era verdade, como ele dizia, que a
opinio estava na poltica, podemos sem afronta da lgica compar-lo a um
covilhete. Covilhete sou, responderia o homem, mas para a boca dos meus
adversrios, que me ho de engolir quer queiram quer no.

No falava nem
escrevia. Os amigos polticos ofereceram-lhe um lugar numa gazeta; recusou.
Estranharam-lhe a recusa; por que motivo recusava ele a tribuna e a imprensa?
Explicou-se, dizendo que no tinha os talentos requeridos. Ningum aceitou a
explicao; atriburam-lhe a virtude da modstia. O deputado sorriu. O sorriso
 a elasticidade aplicada  conversao; diz tudo e nada; isto e aquilo; o mau
e o bom; confessa e nega; aceita e recusa.

Deixou o
Parlamento sem fazer manifestao nenhuma; mas ficou-lhe a reputao de homem
de bom conselho, qualidades polticas, gravidade de pensar, e recolheu-se 
tenda, como Aquiles, disposto a no sair dela sem que lhe matassem um Ptroclo.
Aconteceu justamente que um parente da mulher recebeu garrote do governo, e o
sangue dessa vtima, que gozava de perfeita sade, reclamou vingana imediata.
Pegou na pena e escreveu um livro de duzentas pginas em que dizia coisas do
arco-da-velha ao governo e ao pas. Quis conservar o mais restrito incgnito;
mandou o folheto  imprensa por mo de seu sobrinho, a quem confiou a direo do
preparo tipogrfico; e aguardava ansioso o dia em que aparecesse a obra e
fizesse pasmar o mundo literrio.

 Olha l, meu
Andr, dizia-lhe a esposa, no te vs meter em trabalhos...

 Que trabalhos,
Lusa?

 Eu sei!
Descompor o governo! No te podes arriscar a ser preso?

 Isso no me h
de acontecer, por desgraa minha! Obter a palma do martrio! No, no sou to
feliz!

Benzeu-se a
esposa, que era temente a Deus e  polcia, enquanto o coronel mandava para a
tipografia as provas que o sobrinho lhe trouxe.

Aguardava-se a
publicao da obra, que, na opinio do autor, era uma colubrina de bronze
coado, quando se deu o sarau do escrivo e encontro de Valrio. O escrevente
prometera l ir  casa do coronel no dia seguinte, e assim o fez, depois dos
trabalhos da imprensa, que terminaram pelas sete ou oito horas.

No cumprimento
exato da promessa, influiu acaso a filha do foliculrio? Indo  casa do
coronel, Valrio levava a esperana de avistar-se com a moa? Para ser
verdadeiro, devo dizer que no. Era talvez mais potico que assim fosse; mas
no era a idia do rapaz. Valrio fazia justia  sua posio, que era nenhuma.
No nutria a esperana de merecer da moa um momento de ateno; demais a
impresso da noite anterior, conquanto fosse viva, passara depressa, do mesmo
modo que se esvoam os sonhos da sorte grande ao proletrio que no tem com que
comprar um bilhete.

Digamos a verdade
toda.

Valrio foi exato
na execuo da sua palavra pela esperana de que o coronel viesse a proteg-lo,
e as palavras do escrivo influram tambm para isso. Na situao em que se
achava, queria mo que o levantasse, amigo que o protegesse. No tinha mo nem
amigo. O coronel pareceu-lhe homem talhado para ajudar um rapaz laborioso e
pobre. Valrio no quis repelir aquele auxlio da fortuna.

Recebeu-o
alegremente o coronel.

 Bem-vindo seja,
meu amigo, disse-lhe ele, convidando-o a entrar para a sala. Cuidei que no
viesse.

 Bem sei que 
um pouco tarde, respondeu o escrevente, mas s agora acabei o trabalho.

 No  por
isso... Pensei que no viesse, porque no supunha que um pedido meu pudesse
traz-lo c to cedo.

Valrio fez um
gesto; o coronel interrompeu-lho:

 J sei o que me
vai dizer, e eu, por exceo, creio no seu protesto. No falemos nisso.
Diga-me: toma ch comigo, no?

 No posso, Sr.
coronel.

 Por qu?

 Tenho um
trabalho urgente.

 Ainda hoje?

 Sim, senhor.

 Trabalha muito!

 Assim 
preciso.

 Pois trabalhar
at mais tarde; mas por hoje  meu.

Valrio no
respondeu, ainda que contrariado com o obsquio. Quanto ao ex-deputado, entrou
logo a falar no opsculo que devia aparecer dentro de oito dias, e de novo
perguntou se o achava bem escrito. Ouvida a confirmao de Valrio, o coronel
no se deteve; e confessou-lhe que era o autor. Valrio j devera t-lo
percebido, mas o rapaz, apesar dos trinta anos feitos, era de uma ingenuidade
pueril. Cumprimentou o coronel pela obra, e o coronel sorriu com ar de
satisfao.

Entrou a conversa
pela poltica a dentro. Valrio de poltica apenas sabia alguma coisa que lia
nos jornais do Carceller quando l ia almoar. Mas era fcil conversar com o
coronel; fazia-se o papel de confidente. To reservado era o ex-deputado na rua
e na Cmara, como expansivo em casa, principalmente quando o auditrio no lhe
parecia nmio instrudo.

Veio uma mucama
dizer que o ch estava pronto.

Quando Valrio e
o coronel entraram na sala de jantar, j l estavam sentadas a Sra. D. Lusa e
a menina Hlvia. O coronel fez uma apresentao geral do conviva, que no
deixou de estremecer quando encontrou os olhos da moa. Esta fitou
tranqilamente os seus no rapaz, e pareceu conhec-lo; fez um esforo de
memria e lembrou-se de t-lo visto na vspera na casa do escrivo.

Nenhum incidente
perturbou este ch patriarcal entremeado de observaes polticas do coronel e
vagos suspiros da filha. A Sra. D. Lusa, sabendo, na conversa, que Valrio
nascera no dia da revoluo de abril, contou uma anedota do tempo, e o coronel
aproveitou o ensejo para dizer a sua opinio sobre a revoluo. Hlvia pouco
falou; comeu um biscoito, bebeu uma xcara de ch, olhou trs vezes para
Valrio e pediu licena  me para levantar-se por ter dor de cabea. Concedeu-lha
a boa senhora, enquanto o coronel sorria maliciosamente  parte.

Pouco depois
retirou-se Valrio, mas s depois de prometer ao coronel que o iria ver no dia
seguinte de manh. Foi com efeito no dia seguinte  casa do coronel; eram oito
horas da manh.

 Sabe o que eu
desejo? Conheci que o senhor  moo inteligente; queria incumbi-lo da leitura
das ltimas provas do meu folheto... dando-lhe autorizao para emendar o que
lhe parecer, porque eu escrevi aquilo  pressa, e agora tenho muitas coisas que
me tomam o tempo.

 Com muito
prazer, respondeu Valrio, mas eu no creio que se deva emendar mais nada.

 Pode haver,
pode haver, insistiu o coronel. Eu tinha encarregado desse trabalho aquele moo
que l ia, e que  meu sobrinho; mas houve um desacordo de famlia, e agora...
Estamos entendidos?

 Estamos.

V

No dia em que o
folheto apareceu, o coronel passou toda a manh na Rua do Ouvidor, conversando
com algumas pessoas a respeito do acontecimento do dia. O acontecimento at
ento estava na imaginao do autor da obra; nas vidraas do Garnier e do
Laemmert alguns exemplares, ainda virgens, solicitavam os dois mil-ris dos
passantes; o ttulo era auspicioso; os exemplares comearam a correr o mundo.
Mas poucos tinham tido tempo de folhear apenas algumas pginas.

Valrio viu de
longe o coronel, que conversava num grupo; o coronel viu-o tambm; o rapaz
sorriu e caminhou para l, mas o foliculrio ocultou a cara e encostou a boca
ao ouvido de um dos circunstantes.

Valrio passou
sem parar.

Quando  noite,
segundo promessa anterior, o revisor se apresentou em casa do coronel,
disse-lhe este:

 Olhe, hoje vi-o
de longe, e fingi que o no via. No  conveniente que parea conhecer-me; eu
estou vendido aos deuses infernais.

 Mas que me
importa que saibam da honra que V. Ex. me d? Eu no tenho nada com o
governo...

O coronel abanou
a cabea.

 Quem pode
afirmar isso? disse ele. Aceite o meu conselho; quando me vir, finja que me no
conhece seno, pode ficar comprometido.

Valrio prometeu
por condescendncia. No meio da conversa suspeitou que o conselho do coronel
fosse uma evasiva, e que o nico desejo dele fosse no manifestar em pblico as
relaes que tinha com o escrevente revisor de provas. Mas achou pueril esta
razo.

O folheto fez
alguma impresso; da a seis ou sete dias apareceram dois artigos no Jornal
do Comrcio refutando as asseres do folheto. O autor esfregou as mos; a
mulher abanou a cabea com tristeza. Quando Valrio l apareceu, disse-lhe o
coronel:

 Viu como me
esfolam hoje?

 Vi, Sr.
coronel. V. Ex. responde?

 Sem dvida; e
estava justamente agora a acabar umas notas para lhe dar, porque eu ando to
ocupado... Vou dar-lhe as notas, e veja se por elas me faz uma resposta. Realmente
 uma maada... Eu tenho tanto que fazer!... Anda c ao gabinete.

As notas dadas
pelo coronel no valiam coisa nenhuma; mas tendo dito que daria resposta aos
dois artigos, foi Valrio para casa, trabalhar, depois de tomar ch com o
foliculrio.

A resposta saiu
boa; fez impresso; replicou o escritor governista; treplicou o coronel por
boca de Valrio; e durante quinze dias teve o pblico fluminense o seu manjar
favorito, que  uma mofina annima.

No tardou que
Valrio compreendesse a causa da amizade do coronel. Evidentemente o homem no
escrevia nada, e com certeza no era o autor do folheto. O sobrinho, com quem
brigara, era naturalmente o seu secretrio; e foi uma ventura encontrar  mo o
revisor de provas, porque, em to melindroso mister, s um homem necessitado e
discreto pode substituir um parente amigo.

Tudo isto
compreendera Valrio, mas para logo refletiu que isso aumentaria a
probabilidade de merecer o reconhecimento do coronel, e era justamente o que
ele desejava. Refletia mal o rapaz, se contava s com o reconhecimento; era
preciso contar tambm com o medo. Mas Valrio no pensou nisso.

Valrio
encontrara-se muitas vezes com a filha do coronel, e fora dissimulao negar
que as graas da moa influam cada vez mais no nimo do rapaz. A moa no o
amava certamente, nem talvez consentira que ele lho dissesse; mas no recuava
quando o rapaz fitava nela os olhos, nem deixava de lhe falar com afabilidade
at certo ponto animadora. Hlvia no desprezava nenhum feudo de nenhum regato
incgnito.

Este nome de
Hlvia, que algum leitor ter achado de mau gosto, fora-lhe posto depois de
grave luta entre o pai e a me. Queria esta que a rapariga se chamasse Rita, em
virtude da devoo que nutria por esse ornamento da corte celeste. O pai, cujos
talentos guerreiros no cediam aos talentos polticos, achou que satisfaria a
sua conscincia dando  filha um nome que resumisse certo carter belicoso 
Joana  em memria da donzela de Orleans. Dizia a me que Joana era nome de velha,
preconceito este imitado por alguns autores de comdias e romances que s do
s suas velhas uma certa ordem de nomes, como se uma velha no comeasse por
ser moa e at por ser criana. O pai replicou que, se Joana era nome de velha,
Rita era nome de preta. Discutido este gravssimo ponto, e no chegando os dois
a um acordo, foi consultado o padrinho, que serviu de moderador entre as duas
opinies, recusando-as ambas.

 O verdadeiro
nome que se lhe h de dar, h de ser Hlvia, disse ele.

 Pior! exclamou
a comadre, este nem  nome de gente.

O padrinho era um
velho advogado; sorriu com ar de desdm e compaixo, e replicou:

 No  nome de
gente?

Seguiu-se a esta
pergunta um movimento oratrio de tamanha altura e grandeza, que eu sinto no
poder consignar aqui para memria eterna. A concluso do legista foi a
seguinte:

 Hlvia se h de
chamar a rapariga, porque foi o nome da maior mulher que honrou a raa humana,
mulher imortal que devia ter o busto em todas as cidades e em todos os
parlamentos, pois foi ela a autora da maior obra que os sculos ainda
conheceram, foi a me de Ccero.

D. Lusa no
entendeu a tolice do compadre, e achou que nem Ccero nem sua honrada me, que
Jpiter guarde, vinha nada ao caso da pequena. Todavia, calou-se. Quanto ao
coronel no perdeu to boa ocasio de mostrar a sua eloqncia domstica, e
assombrar a mulher com um elogio do orador romano.

Assentou-se que
se chamaria Hlvia, e assim se batizou a menina na igreja de Santa Rita. Que
dvida teremos de aceitar o nome da rapariga, se j aceitamos os escritos do
pai?

VI

Valrio
convenceu-se um dia de que no era indiferente  rapariga. Foi o caso que,
estando ela uma noite a tocar uma melodia assaz triste, o moo disse ao pai que
achava a msica lindssima, e o pai,  mesa do ch, comunicou a opinio 
rapariga, que sorriu e concordou com Valrio. No dia seguinte, achando-se
Valrio em casa do coronel, a moa foi logo ao piano e tocou a mesma coisa, e
assim o fez mais duas ou trs vezes.

A nica coisa que
fazia espanto ao rapaz era a melancolia da moa. Hlvia falava e ria pouco, e
tendo a me notado isso em voz alta, compreendeu Valrio que a melancolia era
recente e alguma coisa havia de ter.

Seria amor por
ele? Valrio comeou a sentir essa doce iluso, e cem outros incidentes, como o
do piano, vieram dar alento ao corao ambicioso do rapaz, sem audincia do
juzo que lhe poria veto s esperanas.

Valrio
entretanto julgava que, se a rapariga lhe aceitasse o amor, fcil seria obter o
consentimento do pai. O coronel revelava a todos os instantes que prestava 
opinio e ao juzo do moo uma homenagem de respeito. Sem inteno de o
dominar, Valrio influa no esprito do coronel, a ponto de causar cime 
mulher, que via levantar-se em frente de si uma autoridade estranha e
ilegtima.

Valrio era o
orculo de Delfos do coronel, que o consultava a respeito de todas as coisas,
at as mais minuciosas. Admirava-se o rapaz de no ter sido um esprito
daqueles aproveitado pelos partidos que acham sempre auxiliares deste gnero, e
os empregam com proveito de ambas as partes.

Naturalmente a
gravidade muda do ex-deputado foi a sara ardente que o escondeu aos olhos
profanos; e a maleabilidade do homem atravessou incgnita o Parlamento.

Resolvera o
coronel escrever segundo opsculo, e Valrio foi convidado a redigir as notas
esparsas do autor que, a julgar pelo trabalho alegado, era o indivduo mais
laborioso das duas Amricas.

 Desta vez,
disse o coronel, no  admitido que me recuse pagar-lhe; j no se trata s de
artigos, trata-se de um folheto que lhe h de levar tempo.

 Se  com essa
condio, respondeu Valrio, no lhe fao o trabalho.

 Mas...

 Tenho dito.

O coronel
apertou-lhe a mo com aquela energia de um homem que, inesperadamente, faz uma
economia de cem ou duzentos mil-ris.

 O senhor  um
homem admirvel, disse ele ao rapaz.

 No me disse
que me quer por amigo?

 Sem dvida.

 Pois deixe-me
colher o fruto da amizade, que  servir os amigos.

Comeou o rapaz a
redigir o novo opsculo. Valrio tinha algumas qualidades de estilo, posto no
tivesse estilo feito, nem podia t-lo, que s o trabalho e a meditao podem
provar as prendas literrias. No entanto, era sbrio, enrgico, claro e animado
quando escrevia, e para um folheto poltico estas qualidades so preciosas. O
trabalho ia adiantado, e o coronel j tinha ouvido dois captulos que julgara
excelentes.

Uma tarde, saindo
da casa do coronel, aonde fora de passagem, Valrio encontrou junto  porta da
sala a menina Hlvia, que lhe disse:

 Venha antes de
c estar o papai.

Admirado com
estas palavras, Valrio no respondeu logo. Contemplava a moa e procurava
certificar-se se estava acordado ou sonhando.

Ela repetiu com
voz doce e melanclica:

 Vem, sim?

 Venho.

Estendeu-lhe a
mo; ela lhe estendeu a sua; apertaram-se com fora. Valrio desceu a escada
como se descesse das nuvens. Quando tornou a si, estava na esquina da rua.

No era paixo
que sentisse pela moa. Alguma simpatia, sim; esboo de amor. No entanto,
ouvindo aquelas palavras, viu apresentar-se-lhe uma viso de felicidade;
imaginou que a moa ardia por ele; e que h de melhor neste mundo do que ser
amado? A vida  to curta, os homens to maus, os acontecimentos to incertos,
que uma criatura que nos ama  a imagem da misericrdia de Deus. De quantos
dios, invejas, malquerenas, calnias no consola o amor de uma mulher? Tudo
isso anteviu o esprito de Valrio, que foi  tipografia mais leve que um
pssaro e cheio de confiana no futuro.

No dia seguinte
procurou Valrio a hora em que o coronel no estivesse em casa, e, para melhor
certificar-se, postou-se  esquina desde as oito horas da manh. Ali esperou
duas longas horas. Tamanha pacincia s um amante a teria, a no ser um credor.
s dez horas viu sair o coronel de cabea alta e brandindo com gesto, que
pretendia ser gracioso, uma bengala mais grave que o dono. Valrio investiu
para a casa.

No corredor
estacou.

Qualquer que
fosse mais corajoso estacaria tambm; no se acode a tais entrevistas sem um
grande abalo, e no h coragem de Aquiles que no abata as armas ao
aproximar-se de uma menina que parece querer amar.

Hesitou se devia
subir; a conscincia disse-lhe que era talvez inconveniente. Era uma
formalidade da conscincia; ela bem sabia que no  forte quando est doente do
corao. O corao disse ao rapaz que subisse.

O rapaz subiu.

Hlvia, que da
janela o vira entrar, j o esperava no patamar.

 Papai saiu agora
mesmo, disse ela, entrando com Valrio na sala.

 Vi-o sair,
respondeu o moo corando muito.

Daquelas duas
criaturas a que estava tranqila era Hlvia; a que estava comovida e
envergonhada era Valrio. Trocavam-se os papis.

Depois que se
sentaram, disse Hlvia:

 J amou?

A alma de Valrio
deu um pulo ao ouvir estas palavras. O moo no soube que responder. Fitou os
olhos da moa, abaixou-os depois como a donzela que ouve uma confisso de amor.
Ela repetiu a pergunta. Valrio murmurou:

 Amo.

 Ainda bem!
disse ela, compreender-me- ento; s quem amou compreender o passo que dei.

  intil
defender-se, disse Valrio, eu agradeo-lhe at esse passo.

 Tanto melhor!
Obrigada!

Hlvia soltou
estas palavras com voz trmula; duas lgrimas comearam a tremer-lhe nos olhos,
eram as avanadas de uma legio de lgrimas que estavam a saltar-lhe e no se
detiveram.

Valrio
levantou-se e correu a Hlvia, quando esta, pondo a cara nas mos, chorava e
soluava como se uma grande dor lhe apertasse o corao. Animava-se a esttua;
aquela que parecia de gelo era de fogo.

Houve um
prolongado silncio. A moa enxugou os olhos, e Valrio sentou-se triste.
Triste, porque as lgrimas de Hlvia queriam dizer que no se tratava de um
amor nascente, mas talvez de um amor contrariado. Compreendeu de um lance que
era chamado como salvador; outro talvez se sentisse humilhado; Valrio, no.
Deixou que a moa pudesse falar e disse-lhe:

 Que posso fazer
para que seja feliz?

 Tudo.

 Juro-lhe que o
farei.

Hlvia contou
ento ao rapaz que amava o primo, e era amada por ele; mas que, tendo o pai
brigado com ele, lhe proibira voltar  casa e ela perdera a esperana de que o
pai consentisse jamais no casamento. Queria que Valrio interviesse para que o
primo voltasse  casa e se reconciliasse com o coronel. O resto viria por si.

 H muito que
lhe queria falar; mas era impossvel. Aproveitei a indisposio de mame, que
desde ontem est na cama, para lhe dizer isto.

 Por que no me
escreveu?

 No podia, e,
ainda que pudesse, no tinha certeza de convenc-lo com algumas palavras frias
escritas num papel.

Valrio prometeu
interceder em favor do namorado proscrito. Para isso tomou informaes a
respeito do rapaz para ir  casa dele. Depois mudou de plano. Advertiu que
entender-se com ele era dar  interveno um carter de servio pouco delicado,
e achou melhor servir unicamente  moa, o que lhe parecia mais prprio.

VII

O coronel
resistiu ao primeiro ataque.

 Pede-me por um
pelintra, disse ele a Valrio, no conhece aquela bisca;  um peralta que me
no respeita, e at chegou a ter a petulncia de amar-me c a pequena.

 Est feito, ele
 rapaz.

 Pois ser,
ser; mas eu no dou minha filha a um valdevinos daquela laia.

 Mas eu
desejava...

 Servi-lo-ei
noutra coisa, nisto no.

Valrio calou-se;
achou melhor adiar o ataque para mais tarde. O coronel ainda falou a respeito
do sobrinho, e vendo que Valrio nada mais dizia, calou-se tambm.

Ao cabo de cinco
dias resolveu falar-lhe outra vez; mas dessa vez, foi o coronel quem primeiro
tocou no assunto.

 Ainda pensa no
tratante do meu sobrinho?

 Ainda. E o
senhor?

 Eu estou na
mesma.

 Perdo, Sr. coronel;
eu no creio que seu sobrinho merea tanto dio; fez algumas extravagncias de
rapaz, mas...  um carter... quero dizer,  um sobrinho, um parente.

 Veja l; nem o
senhor se atreve a elogi-lo; apenas o desculpa. Conhece-o bem?

Valrio hesitou;
o coronel, que fizera a pergunta com inteno de perscrutar de onde vinha o
empenho, compreendeu logo que Valrio estava influenciado pela filha.

 Conheo-o
alguma coisa, disse finalmente Valrio; e no acho que seja um rapaz perdido.

 H de l chegar.
No falemos mais nisto.

Valrio
compreendeu a necessidade de falar ao rapaz, a fim de no comprometer a moa,
caso alcanasse a reconciliao. Jaime recebeu-o com alguma indiferena;
estimou entretanto que a rapariga tivesse pedido por ele, e disse que a amava
loucamente. Este loucamente foi dito com a mesma tranqilidade com que
ele diria:  Est muito calor!

 Pobre moa!
disse Valrio consigo.

O coronel foi o
primeiro a renovar o assunto. Outro mais sagaz que Valrio, ou mais
experimentado, teria compreendido que o coronel estava disposto a
reconciliar-se com o sobrinho, e apenas recusava para ser vencido.

Foi o que
aconteceu no fim de um ms. O coronel consentiu na reconciliao; e Valrio
atribuiu isso ao prazer que lhe causou o novo folheto poltico que lhe levara
pronto. Foi Valrio quem conduziu Jaime  casa do coronel e assistiu 
reconciliao do tio com o sobrinho que foi glacial e indiferente.

Hlvia
apertou-lhe a mo com reconhecimento:

 Devo-lhe a
vida! disse ela.

 Eu devo-lhe a
felicidade de a ter feito feliz, respondeu Valrio.

O moo dizia a
verdade. Tinha certa inclinao pela moa; mas os seus sentimentos generosos
venceram tudo; e o seu amor nascente desapareceu diante da glria e do prazer
de tornar a moa feliz.

Hlvia no perdeu
tempo. Disse ao primo que a pedisse ao pai; e este, depois de alguma recusa,
mais aparente que real, concedeu-lha.

Nesse nterim,
adoeceu Valrio. O casamento efetuou-se quando ele se achava de cama, e no meio
da impresso produzida pelo folheto, que ningum deixou de atribuir ao coronel.

A doena de
Valrio foi longa e dolorosa; durou uns dois meses; uns vizinhos cuidaram dele
e um mdico o curou de graa. Quando o rapaz se levantou da cama, foi ao
cartrio onde lhe disse o escrivo, que, tendo admitido outro escrevente por
necessidade de servio, no podia nesse momento admiti-lo, mas que esperasse
algum tempo. A tipografia ainda lhe deu algumas provas para ler.

Admirou-se
Valrio de que o coronel no o procurasse, mas pensou que talvez no soubesse
da sua molstia e o supusesse at indiferente, pois sem razo deixara a casa.
Foi procurar o coronel. Achou-o aborrecido e zangado; disse-lhe que estivera
doente, ao que o coronel no atendeu muito, sem dvida por estar preocupado.

A existncia do
moo tinha agora um carter srio. Como prover a todas as suas despesas, com o
mesquinho ordenado que obtinha da imprensa? Por felicidade disseram-lhe que o
coronel aderira ao programa ministerial, mediante o emprego do sobrinho e
alguns favores mais. Valrio lembrou-se de procur-lo e dizer-lhe em que
posio se achava.

Justamente no dia
em que se preparava para isso, um dos vizinhos se lhe apresentou em casa
dizendo que fizera alguma despesa com a molstia de Valrio e desejava ser
embolsado. Coincidiu isto com a entrada do caixeiro da botica que lhe foi levar
uma conta. Ambas as dvidas oravam por duzentos mil-ris. Onde os iria buscar
o rapaz? Prometeu que pagaria as dvidas da molstia e saiu para imaginar um
meio.

Nenhum lhe
ocorreu.

O rapaz estava s
no mundo.

S? Lembrou-lhe
de repente o coronel; e afoitamente se encaminhou para l. Exps-lhe a situao
e a escassez de seu emprego, e ao mesmo tempo pediu duzentos mil-ris
adiantados.

 Duzentos
mil-ris no os tenho comigo, respondeu o coronel. O casamento de minha filha
obrigou-me a muitas despesas; mas daqui a uma semana aparea c. Quanto ao
emprego, falarei ao ministro, mas creio que no  fcil. O governo quer
sinceramente economias (o folheto dissera justamente o contrrio), e s
dificilmente se pode abrir ensejo a um servio destes. Contudo, confie em mim. Vou ver se lhe posso fazer alguma coisa.

Valrio saiu um
pouco desanimado, mas, por outro lado, consolado. Tinha certeza de receber os
duzentos mil-ris para ocorrer  dvida imediatamente.

No fim de uma
semana voltou l.

O coronel no
estava em casa.

Voltou de noite;
o coronel mandara dizer que dormia fora.

Zangou-se o rapaz
contra o destino; mas resignou-se e no dia seguinte foi  casa do coronel. No
o encontrou. O mesmo aconteceu nos cinco dias seguintes; Valrio suspeitou que
o coronel no lhe quisesse falar.

Ao cabo de seis
dias, encontrou-o no Rocio.

 Que  feito?
disse-lhe o coronel.

 Tenho ido  sua
casa, mas no tenho tido a felicidade de encontr-lo, respondeu Valrio.

 No me tenho
esquecido do senhor, disse o coronel; falei a um dos ministros e prometeu-me
que veria isso. Tenha pacincia, espere; pode esperar alguns meses, mas eu
confio que se pode fazer alguma coisa. Adeus!

Valrio ficou a
olhar para ele sem articular palavra. Dos duzentos mil-ris no disse o coronel
coisa nenhuma. Valrio entendeu que no devia falar neles. Quanto ao emprego,
viu o moo que era to problemtico como os duzentos mil-ris. Abriu-se-lhe um
sorriso triste nos lbios, ainda plidos da doena e seguiu cabisbaixo para
casa.

Desesperando de
achar meio de pagar as dvidas como queria, props aos dois credores, que lhes
daria uma diminuta mensalidade, tirada do pouco que fazia como revisor de
provas. Os credores franziram a testa, mas aceitaram; era o meio de no perder
o dinheiro.

Entregou-se
Valrio todo ao trabalho, e comeou a cumprir  risca a promessa que fizera.
Dois golpes acabaram, entretanto, por lhe abater completamente o nimo. Um foi
o incndio na tipografia. Estava Valrio em casa quando soube do desastre; eram
dez horas da manh. Seguiu para o lugar; achou a casa em runas. Os tipos ficaram todos fundidos; o dono do estabelecimento estava quase doido.

Abatido,
desvairado, Valrio deixou o lugar do sinistro e entrou a andar ao acaso. Na
Rua do Cano viu de longe a menina Hlvia com o marido. Aproximou-se como se
visse uma tbua de salvao. Aquela felicidade dos dois consortes era obra
dele; na aflio em que estava, podia, sem afronta para si, receber o salrio
da obra. No reparou que estava, comparativamente, um tanto maltrapilho.

Apressou o passo
e ia articular uma palavra, quando os dois, olhando para ele, voltaram
imperturbavelmente a esquina.

Valrio, que
cometera outras tolices na sua vida, coroou a obra indo atirar-se ao mar.
