Conto, Trina e Una, 1884

Trina e una

Texto-fonte:

http://www2.uol.com.br/machadodeassis/.

Publicado originalmente em A Estao, de 15/01/1884 a 15/02/1884.

A primeira coisa que h de
espantar o leitor  o ttulo, que lhe anuncia (posso diz-lo desde j) trs
mulheres e uma s mulher. H dois modos de explicar uma tal anomalia:  ou duas
mulheres entram no conto indiretamente, so apenas citadas, e puxam os cordis
da ao do outro lado da pgina  ou as mulheres no passam de trs gradaes,
trs estados sucessivos da mesma pessoa. So os dois modos aparentes de definir
o ttulo, e, entretanto, no  nenhum deles, mas um terceiro, que eu guardo
comigo, no para aguar a curiosidade, mas porque no h analis-lo sem expor o
assunto.

Vou expor o assunto. Comecemos por
ela, a mulher una e trina. Est sentada numa loja,  Rua da Quitanda, ao p do
balco, onde h cinco ou seis caixas de rendas abertas e derramadas. No
escolhe nada, espera que o caixeiro lhe traga mais rendas, e olha para fora,
para as pedras da rua, no para as pessoas que passam. Veste de preto, e o
busto fica-lhe bem, assim comprimido na seda, e ornado de rendas finas e
vidrilhos. Abana-se por distrao; talvez olhe tambm por distrao. Mas, seja
ou no assim, abana-se e olha. Uma ou outra vez, recolhe a vista para dentro da
loja, e percorre os demais balces onde se acham senhoras que tambm escolhem,
conversam e compram; mas  difcil ver nos movimentos da dama a menor sombra de
interesse ou curiosidade. Os olhos vo de um lado a outro, e a cabea atrs deles,
sem nimo nem vida, e depois aos desenhos do leque. Ela examina bem os
desenhos, como se fossem novos, levanta-os, desce-os, fecha as varetas uma por
uma, torna a abri-las, fecha-as de todo e bate com o leque no joelho. Que o
leitor se no enfastie com tais mincias; no h a uma s palavra que no seja
necessria.

 Aqui esto estas que me parece
que ho de agradar, disse o caixeiro voltando.

A senhora pega das novas rendas, examina-as
com vagar, quase digo com preguia. Pega delas entre os dedos, fitando-lhes
muito os olhos; depois procura a melhor luz; depois compara-as s outras,
durante um largo prazo. O caixeiro acompanha-lhe os movimentos, ajuda-a, sem
impacincia, porque sabe que ela h de gastar muito tempo, e acabar comprando.
 freguesa da casa. Vem muitas vezes estar ali uma, duas horas, e s vezes
mais. Hoje, por exemplo, entrou s duas horas e meia; so trs horas dadas, e
ela j comprou duas peas de fita;  alguma coisa, podia no ter escolhido
nada.

 Os desenhos no so feios, disse
ela; mas no haver outros?

 Vou ver.

 Olhe, desta mesma largura.

Enquanto o caixeiro vai ver, ela
passa as outras pelos olhos, distraidamente, recomea a abanar-se, e afinal
torna a cravar os olhos nas pedras da rua. As pedras  que no podem querer-lhe
mal, porque os olhos so lindos, e o que est escondido dentro, como dizia
Salomo, no parece menos lindo. So tambm claros, e movem-se por baixo de uma
testa olmpica. Para avaliar o amor daqueles olhos s pedras da rua,  preciso
considerar que o raio visual  muita vez atravessado por outros corpos, calas
masculinas, vestidos femininos, um ou outro carro, mas  raro que os olhos se
desviem mais de alguns segundos. s vezes olham to de dentro que nem mesmo
isso; nenhum corpo lhes interrompe a vista. Ou de cansados, ou por outro
motivo, fecham-se agora, lentamente, lentamente, no para dormir ou cochilar,
pode ser que para refletir, pode ser que para coisa nenhuma. O leque, a pouco e
pouco, vai parando, e descamba, aberto mesmo, no regao da dona. Mas a volta o
caixeiro, e ela torna ao exame das rendas,  comparao, ao reparo, a achar que
o tecido desta  melhor, que o desenho daquela  melhor, e que o preo daquela
outra  ainda melhor que tudo. O caixeiro, inclinado, risonho, informa,
discute, demonstra, concede, e afinal conclui o negcio; a dona leva tantos
metros de uma e tantos de outra.

Comprou; agora paga. Tira a
carteirinha da bolsa, saca um maozinho de notas, e, vagarosamente, puxa uma,
enquanto o caixeiro faz a conta a lpis. D-lhe a nota, ele pega nela e nas
rendas compradas e vai ao caixa; depois traz o troco e as compras.

 No h de querer mais nada?
pergunta ele.

 No, responde ela sorrindo.

E guarda o troco, enfia o dedo no
rolozinho das compras, disposta a sair, mas no sai, deixa-se estar sentada.
Parece-lhe que vai chover; di-lo ao caixeiro, que opina de modo contrrio, e
com razo, pois o tempo est seguro. Mas pode ser que a dama dissesse aquilo,
como diria outra coisa qualquer, ou nada. A verdade  que tem o rolo enfiado no
dedo, o leque fechado na mo, o chapelinho de sol em p, com a mo sobre o
cabo, prestes a sair, mas sem sair. Os olhos  que tornam  rua, s pedras,
fixos como uma idia de doido. Inclinado sobre o balco, o caixeiro diz-lhe
alguma coisa, uma ou outra palavra, para corresponder tanto ou quanto ao
sorriso maligno de um colega, que est no balco fronteiro.  opinio deste que
a dama em questo, que no quer outra pessoa que a sirva, seno o mesmo
caixeiro, anda namorada dele. Vendo que ela est pronta para ir-se e no vai,
sorri velhacamente, mas com disfarce, olhando para as agulhas que serve a uma
freguesa. Da as palavras do outro, acerca disto ou daquilo, palavras que a
dama no ouve, porque realmente tem os olhos parados e esquecidos.

J falei das calas masculinas,
que de quando em quando cortam o raio visual da nossa dama. Toda a gente que
sabe ler, que conhece a alma do licenciado Garcia, compreendeu que eu no apontei
uma tal circunstncia para ter o vo gosto de dizer que andam calas na rua,
mas por um motivo mais alto e recndito; para acompanhar de longe a entrada de
um homem na loja. Puro efeito de arte; clculo e combinao de gestos. So
assim as obras meditadas; so assim os longos frutos de longa gestao. Podia
fazer entrar este homem sem nenhum preparo anterior, faz-lo entrar assim
mesmo, de chapu na mo, e cumprimentar a dama, que lhe pergunta como est,
chamando-lhe doutor; mas eu pergunto se no  melhor que o leitor, ainda sem o
saber, esteja advertido de uma tal entrada. No h duas respostas.

Se ela lhe chamou doutor, ele
chamou-lhe D. Clara, falaram dez minutos, se tanto, at que ela disps-se
definitivamente a sair; ao menos, disse-o ao recm-chegado. Este era um homem
de trinta e dois a trinta e quatro anos, no feio, antes simptico que bonito,
feies acentuadas do Norte, estatura mediana, e um grande ar de seriedade. A
vontade que ele tinha era de ficar ali com ela, ainda uma meia hora, ou acompanh-la
 casa. A prova est no ar comovido com que lhe fala, dependente, suplicante
quase; os modos dela  que no animam nada. Sorriu uma ou duas vezes, para ele,
mas um sorriso sem significao, ou com esta significao:  sei o que queres;
continua a andar.

 Bem, disse ele; se me d
licena...

 Pois no. At quando?

 No vai hoje ao Matias?

 Vou... At l.

 At l.

Saiu ele, e foi esperar pouco
adiante, no para acompanh-la, mas para v-la sair, para goz-la com os olhos,
v-la andar, pisar de um modo rgio e tranqilo. Esperou cinco minutos, depois
dez, depois vinte; aos vinte e um minutos  que ela saiu da loja. To agitado
estava ele que no pde saborear nada; no pde admirar de longe a figura,
realmente senhoril, da nossa dama. Ao contrrio, parece que at lhe fazia mal.
Mordeu o beio, por baixo do bigode, e caminhou para o outro lado, resolvendo
no ir ao Matias, resolvendo depois o contrrio, desejoso de tirar aquela
mulher de diante de si e no querendo seno fix-la diante de si por toda a
eternidade. Parece enigmtico, e no h nada mais lmpido.

Clara foi dali para a Rua do
Lavradio. Morava com a me. Eram cinco horas dadas, e D. Antnia no gostava de
jantar tarde; mas j devia esperar isto mesmo, pensava ela: a filha s voltava
cedo quando ela a acompanhava; em saindo s, ficava horas e horas.

 Anda, anda,  tarde, disse-lhe a
me.

Clara foi despir-se. No se despiu
s pressas, para condescender com a me, ou fazer-se perdoar a demora; mas,
vagarosamente. No fim reclinou-se no sof com os olhos no ar.

 Nhanh no vai jantar?
perguntou-lhe uma negrinha de quinze anos, que a acompanhara ao quarto.

No respondeu; posso mesmo dizer
que no ouviu. Tinha os olhos, no j no ar, como h pouco, mas numa das flores
do papel que forrava o quarto; pela primeira vez reparou que as flores eram
margaridas. E passou os olhos de uma a outra, para verificar se a estrutura era
a mesma, e achou que era a mesma. No  esquisito? Margaridas pintadas em papel. Ao mesmo tempo que reparava nas pinturas, ia-se sentindo bem, espreguiando-se
moralmente, e mergulhando na atonia do esprito. De maneira que a negrinha
falou-lhe uma e duas vezes, sem que ela ouvisse coisa nenhuma; foi preciso
cham-la terceira vez, alteando a voz:

 Nhanh!

 Que ?

 Sinh velha est esperando para
jantar.

Desta vez, levantou-se e foi
jantar. D. Antnia contou-lhe as novidades de casa; Clara referiu-lhe algumas
reminiscncias da rua. A mais importante foi o encontro do Dr. Severiano. Era
assim que se chamava o homem que vimos na loja da Rua da Quitanda.

  verdade, disse a me, temos de
ir  casa do Matias.

 Que maada! suspirou Clara.

 Tambm voc tudo lhe maa! exclamou
D. Antnia. Pois que mal h em passar uma noite agradvel, entre meia dzia de
pessoas? Antes de meia-noite est tudo acabado.

Este Matias era um dos autores da
situao em que o Severiano se acha. O ministro da Justia era o outro.
Severiano viera do norte entender-se com o governo, acerca de uma remoo: era
juiz de direito na Paraba. Para se lhe dar a comarca que ele pediu, tornava-se
necessrio fazer outra troca, e o ministro disse-lhe que esperasse. Esperou,
visitou algumas vezes o Matias, seu comprovinciano e advogado. Foi ali que uma
noite encontrou a nossa Clara, e ficou um tanto namorado dela. No era ainda
paixo; por isso falou ao amigo com alguma liberdade, confessou-lhe que a
achava bonita, chegaram a empregar entre eles algumas galhofas maduras e
inocentes; mas afinal, perguntou-lhe o Matias:

 Agora falando srio, voc por
que  que no casa com ela?

 Casar?

 Sim, so vivos, podem
consolar-se um ao outro. Voc est com trinta e quatro, no?

 Feitos.

 Ela tem vinte e oito; esto
mesmo ajustadinhos. Valeu?

 No valeu.

Matias abanou a cabea:  Pois,
meu amigo, l namoro de passagem  que voc no pilha;  uma senhora muito
sria. Mas, que diabo! Voc com certeza casa outra vez; se h de cair em alguma
que no merea nada, no  melhor esta que eu lhe afiano?

Severiano repeliu a proposta, mas
concordou que a dama era bonita. Viva de quem? Matias explicou-lhe que era
viva de um advogado, e tinha alguma coisa de seu; uma renda de seis contos.
No era muito, mas com os vencimentos de magistrado, numa boa comarca, dava
para pr o cu na terra, e s um insensato desprezaria uma tal pepineira.

 C por mim, lavo as mos,
concluiu ele.

 Podes limp-las  parede,
replicou Severiano rindo.

M resposta; digo m por intil.
Matias era servial at ao enfado. De si para si entendeu que devia cas-los,
ainda que fosse to difcil como casar o Gro-Turco e a repblica de Veneza; e
uma vez que o entendia assim, jurou cumpri-lo. Multiplicou as reunies ntimas,
fazia-os conversar muitas vezes, a ss, arranjou que ela lhe oferecesse a casa,
e o convidasse tambm para as reunies que dava s vezes; fez obra de pacincia
e tenacidade. Severiano resistiu, mas resistiu pouco; estava ferido, e caiu.
Clara, porm,  que no lhe dava a menor animao, a tal ponto que se o
ministro da Justia o despachasse, Severiano fugiria logo, sem pensar mais em
nada;  o que ele dizia a si mesmo, sinceramente, mas dada a diferena que vai
do vivo ao pintado, podemos crer que fugiria lentamente, e pode ser at que se
deixasse ficar. A verdade  que ele comeou a no perseguir o ministro, dando
como razo que era melhor no exaurir-lhe a boa vontade; importunaes estragam
tudo. E voltou-se para Clara, que continuou a no o tratar mal, sem todavia passar
da estrita polidez. s vezes parecia-lhe ver nos modos dela um tal ou qual
constrangimento, como de pessoa que apenas suporta a outra. dio no era; dio,
por qu? Mas ningum obsta uma antipatia, e as melhores pessoas do mundo podem
no ser arrastadas uma para a outra. As maneiras dela na loja vieram
confirmar-lhe a suspeita; to seca! to fria!

 No h dvida, pensava ele;
detesta-me; mas que lhe fiz eu?

Entre ir e no ir  casa do Matias,
Severiano adotou um meio-termo: era ir tarde, muito tarde. A razo secreta 
to pueril que no me animo a escrev-la; mas o amor absolve tudo. A secreta
razo era dissimular quaisquer impacincias namoradas, mostrar que no fazia
caso dela, e ver se assim... Compreenderam, no? Era a aplicao daquele
pensamento, que no sei agora, se  oriental ou ocidental, em que se compara a
mulher  sombra: segue-se a sombra, ela foge; foge-se, ela segue. Criancices de
amor  ou para escrever francamente o pleonasmo: criancices de criana. Sabe
Deus se lhe custou esperar! Mas esperou, lendo, andando, mordendo o bigode,
olhando para o cho, chegando o relgio ao ouvido para ver se estava parado.
Afinal foi; eram dez horas, quando entrou na sala.

 To tarde! disse-lhe o Matias.
Esta senhora j tinha notado a sua falta.

Severiano cumprimentou friamente,
mas a viva, que olhava para ele de um modo oblquo, conheceu que era afetao.
Parece que sorriu, mas foi para dentro; em todo o caso, pediu-lhe que se sentasse
ao p dela; queria consult-lo sobre uma coisa, uma teima que tivera na vspera
com a mulher do chefe de polcia. Severiano sentou-se trmulo.

No nos importa a matria da
consulta; era um pretexto para conversao. Severiano demorou o mais que pde a
soluo pedida, e quando lhe deu, ela pensava to pouco em ouvi-la que no
sabia j de que se tratava. Olhava ento para o espelho ou para as cortinas;
creio que era para as cortinas.

Matias, que os espreitara de
longe, veio ter com eles, sentou-se e declarou que trazia uma denncia na ponta
da lngua.

 Diga, diga, insistiu ela.

 Digo? perguntou ele ao outro.

Severiano enfiou, e no respondeu
logo, mas, teimando o amigo, respondeu que sim. Aqui peo perdo da frivolidade
e da impertinncia do Matias; no hei de inventar um homem grave e hbil s
para evitar uma certa impresso s leitoras. Tal era ele, tal o dou. A denncia
que ele trazia era a da partida prxima do Severiano, mentira pura, com o nico
fim de provocar da parte de D. Clara uma palavra amiga, um pedido, uma
esperana. A verdade  que D. Clara sentiu-se penalizada. Qu? ia-se embora? e
para no voltar mais?

 Afinal serei obrigado a isso
mesmo, disse Severiano: no posso ficar toda a vida aqui. J estou h muito, a
licena acaba.

 V? disse Matias voltando-se
para a viva.

Clara sorriu, mas no disse nada.
Entretanto, o juiz de direito, entusiasmado, confessou que no iria sem grandes
saudades da Corte. Levarei as melhores recordaes da minha vida, concluiu.

O resto da noite foi agradvel.
Severiano saiu de l com as esperanas remoadas. Era evidente que a viva
chegaria a aceit-lo, pensava ele consigo; e a primitiva idia do dio era
simplesmente insensata. Por que  que lhe teria dio? Podia ser antipatia,
quando muito; mas nem era antipatia. A prova era a maneira por que o tratou,
parecendo-lhe mesmo que,  sada, um aperto de mo mais forte... No jurava,
mas parecia-lhe...

Este perodo durou pouco mais de
uma semana. O primeiro encontro seguinte foi em casa dela, onde a visitou.
Clara recebeu-o sem alvoroo, ouviu-lhe dizer algumas coisas sem lhe prestar
grande ateno; mas, como no fim confessou que lhe doa a cabea, Severiano
agarrou-se a esta razo para explicar uns modos que traziam ares de desdm. O
segundo encontro foi no teatro.

 Que tal acha a pea? perguntou
ela logo que ele entrou no camarote.

 Acho-a bonita.

 Justamente, disse a me. Clara 
que est aborrecida.

 Sim?

 Cismas de mame. Mas ento
parece-lhe que a pea  bonita?

 No me parece feia.

 Por qu?

Severiano sorriu, depois procurou
dar algumas das razes que o levavam a achar a pea bonita. Enquanto ele falava
ela olhava para ele abanando-se, depois os olhos amorteceram-se-lhe um pouco,
finalmente ela encostou o leque aberto  boca, para bocejar. Foi, ao menos, o
que ele pensou, e podem imaginar se o pensou alegremente. A me aprovava tudo,
porque gostava do espetculo, e tanto mais era sincera, quanto que no queria
vir ao teatro; mas a filha  que teimou at o ponto de a obrigar a ceder.
Cedeu, veio, gostou da pea, e a filha  que ficou aborrecida, e ansiosa de ir
embora. Tudo isso disse ela rindo ao juiz de direito; Clara mal protestava,
olhava para a sala, abanava-se, tapava a boca, e como que pedia a Deus que,
quando menos, a no destruir o universo, lhe levasse aquele homem para fora do
camarote. Severiano percebeu que era demais e saiu.

Durante os primeiros minutos, no
soube ele o que pensasse; mas, afinal, recapitulou a conversa, considerou os
modos da viva, e concluiu que havia algum namorado.

 No h que ver,  isto mesmo,
disse ele consigo; quis vir ao teatro, contando que ele viesse; no o achando,
est aborrecida. No  outra coisa.

Era a segunda explicao das
maneiras da viva. A primeira, dio ou averso natural, foi abandonada por
inverossmil; restava um namoro, que no s era verossmil, mas tinha tudo por
si. Severiano entendeu desde logo que o nico procedimento correto era deixar o
campo, e assim fez. Para escapar s exortaes de Matias, no lhe diria nada, e
passou a visit-lo poucas vezes. Assim se passaram cinco ou seis semanas. Um
dia, viu Clara na rua, cumprimentou-a, ela falou-lhe friamente, e foi andando.
Viu-a ainda duas vezes, uma na mesma loja da Rua da Quitanda, outra  porta de
um dentista. Nenhuma alterao para melhor; tudo estava acabado.

Entretanto, apareceu o despacho do
Severiano, a remoo de comarca. Ele preparou-se para seguir viagem, com grande
espanto do amigo Matias, que imaginava o namoro a caminho, e cria que eles
haviam chegado ao perodo da discrio. Quando soube que no era assim, caiu
das nuvens. Severiano disse-lhe que era negcio acabado; Clara tinha alguma
aventura.

 No creio, reflexionou Matias; 
uma senhora severa.

 Pois ser uma aventura severa,
concordou o juiz de direito; em todo caso, nada tenho com isto, e vou-me
embora.

Matias refutou a opinio, e acabou
dizendo que uma vez que ele recusava, no faria mais nada  exceto uma coisa
nica. Essa coisa, que ele no disse o que era, foi nada menos que ir
diretamente  viva e falar-lhe da paixo do amigo. Clara sabia que era amada,
mas estava longe de imaginar a paixo que o Matias lhe pintou, e a primeira
impresso foi de aborrecimento.

 Que quer que lhe faa? perguntou
ela.

 Peo-lhe que reflita e veja se
um homem to distinto no  um marido talhado no cu. Eu no conheo outro to
digno...

 No tenho vontade de casar.

 Se me jura que no casa,
retiro-me; mas se tiver de casar um dia, por que no aproveita esta ocasio?

 Grande amigo  o senhor do seu
amigo.

 E por que no seu?

Clara sorriu, e apoiando os
cotovelos nos braos da poltrona, comeou a brincar com os dedos. A teima
comeava a impacient-la. Era capaz de ceder, s para no ouvir falar mais
nisto. Afinal agarrou-se  impossibilidade material; ele vai para uma comarca
interior, ela nunca sairia do Rio de Janeiro.

 Tal  a dvida? perguntou o
Matias.

 Parece-lhe pouco?

 De maneira que, se ele aqui
ficasse, a senhora casava?

 Casava, respondeu Clara olhando
distraidamente para os pingentes do lustre.

Distrao do diabo! Foi o que a
perdeu, porque o Matias fez daquela resposta um protocolo. A questo era
alcanar que o Severiano ficasse, e no gastou dez minutos nessa outra empresa.
Clara, apanhada no lao, fez boa cara, e aceitou o noivo sorrindo. Tratou-o
mesmo com tais agrados que ele pensou nas palavras do amigo; acreditou que, em
substncia, era grandemente amado, e que ela no fizera mais do que ceder aos
poucos.

Mas essa terceira razo era to
contrria  realidade como as outras duas;  nem ela o amava, nem lhe tinha
dio, nem amava a outro. A verdade nica e verdadeira  que ela era um modelo
acabado de inrcia moral; e, casou para acabar com a importunao do Matias.
Casaria com o diabo, se fosse necessrio. Severiano reconheceu isso mesmo com o
tempo. Uma vez casada, Clara ficou sendo o que sempre fora, capaz de gastar
duas horas numa loja, quatro num canap, vinte numa cama com o pensamento em
coisa nenhuma.
