CRNICA. Cronicas (O Futuro), 1862

Crnicas

Texto-fonte:

Obra Completa, Machado de Assis,

Rio de Janeiro: Edies W. M. Jackson, 1938.

Publicado originalmente
  em O
    Futuro
  , Rio de Janeiro, de 15/09/
  1862 a
  01/07/1863.

15 DE SETEMBRO DE 1862.

Tirei hoje do fundo da gaveta,
  onde jazia a minha pena de cronista. A coitadinha estava com um ar triste, e
  pareceu-me v-la articular por entre os bicos, uma tmida exprobrao. Em roda
  do pescoo enrolavam-se uns fios tenussimos, obra
  dessas Penlopes que andam pelos tetos das casas e
  desvos inferiores dos mveis. Limpei-a, acariciei-a, e, como o Abencerragem ao seu cavalo, disse-lhe algumas palavras de
  animao para a viagem que tnhamos de fazer. Ela, como pena obediente,
  voltou-se na direo do aparelho de escrita, ou, como diria o tolo de Bergerac, do
  receptculo dos instrumentos da imoralidade. Compreendi o gesto mudo da
  coitadinha, e passei a cortar as tiras de papel, fazendo ao mesmo tempo as
  seguintes reflexes, que ela parecia escutar com religiosa ateno:

-- Vamos l; que tens aprendido
  desde que te encafuei entre os meus esboos de prosa e de verso? Necessito mais
  que nunca de ti; v se me dispensas as tuas melhores idias e as tuas mais
  bonitas palavras; vais escrever nas pginas do Futuro. Olha para que te guardei! Antes de
  comearmos o nosso trabalho, ouve amiga minha, alguns
  conselhos de quem te preza e no te quer ver
  enxovalhada . . . No te envolvas em polmicas de nenhum gnero, nem polticas,
  nem literrias, nem quaisquer outras; de outro modo vers que passas de honrada
  a desonesta, de modesta a pretensiosa, e em um abrir e fechar de olhos perdes o que tinhas e o que eu te fiz ganhar. O pugilato das
  idias  muito pior que o das ruas; tu s franzina, retrai-te e fecha-te no
  crculo dos teus deveres, quando couber a tua vez de escrever crnicas. Seja
  entusiasta para o gnio, cordial para o talento, desdenhosa para a nulidade,
  justiceira sempre, tudo isso com aquelas meias-tintas to necessrias aos
  melhores efeitos da pintura. Comenta os fatos com reserva, louva ou censura, como te ditar a conscincia, sem cair na exagerao
  dos extremos. E assim vivers honrada e feliz.

E havendo
  dito estas coisas  minha pena, tinha eu acabado de preparar o papel, e eis que
  ela comeou, entre os meus j desacostumados e emperrados dedos, a mencionar
  que no dia 4 deste ms se efetuou o encerramento da assemblia legislativa,
  cerimnia sobre a qual nada h que dizer, porque foi conforme os estilos que
  por sua natureza nada oferecem de notvel.
  Os membros do parlamento foram procurar no remanso da paz o repouso das lutas
  da tribuna e dos trabalhos com que auxiliaram a administrao na sesso finda.
  Entre os servios prestados este ano pela representao nacional, convm no
  esquecer o de haver habilitado o governo a fazer o servio financeiro de
  63 a
  64 por meio de um
  oramento definido e discutido.

Passo s letras e s artes.

O maior acontecimento literrio da
  quinzena foi o poema de Thomaz Ribeiro, D.
    Jaime, cujos primeiros exemplares chegaram pelo paquete. A fama chegou com
  o livro, e assim, todos quantos estimam a literatura, militantes ou amadores,
  correram  obra mal os livreiros a puseram nos mostradores. Dizia-se que D. Jaime era uma obra de largas
  propores, e que Thomaz Ribeiro, como raros estreantes, deitara a barra muito alm de todos os estreantes; dizia-se isto, e muitas coisas mais.
  O poema foi lido, e uma s vrgula no se alterou aos louvores da fama. O poema D. Jaime  realmente uma obra de
  elevado merecimento, e Thomaz Ribeiro um poeta de largo alento; a sua musa 
  simultaneamente simples, terna, graciosa, pica, elegaca; ensinou-lhe ela a
  ser poeta de poesia, expresso esta que no deve causar estranheza a quem
  reparar que h poetas de palavras, mas Thomaz Ribeiro no  poeta de palavras,
  certo que no!

No me
  demorarei em referir os episdios mais celebrados do poema, nem em analisar as
  pginas mais lidas, que o so todas, e no mesmo grau, mas muito de passagem
  perguntarei com o Sr. Castilho onde h mais pura e doce poesia do que naquele
  fragmento potico -- Os filhos do nosso
    amor? -- Aquele fragmento publicado isoladamente bastaria para cingir na
  cabea de Thomaz Ribeiro a augusta e porfiada coroa de poeta.

Antes da chegada do paquete que
  nos trouxe aquele presente literrio, havia sido publicado o terceiro volume da
  Biblioteca Brasileira, interessante publicao do meu distinto amigo Quintino
  Bocaiva. Este terceiro volume  o primeiro de um novo romance do autor do Guarani. Vejamos o que se pode desde j
  avaliar nas primeiras cento vinte pginas do romance, que tantas so as do
  primeiro volume.

E antes de tudo notarei o apuro do
  estilo em que est escrito este livro; a pena do autor do Guarani distinguia-se pela graa e pela sobriedade; essas duas
  qualidades dobraram na sua nova obra. O romance intitula-se As minas de prata, e  por assim dizer
  uma investigao histrica. Serve de base ao romance a descoberta de Robrio Dias, no ano da graa de 1557, de umas minas de
  prata
  em Jacobina. O
  romance abre por uma rpida descrio da Bahia de S. Salvador, no dia primeiro
  de janeiro de 1609.  dia duplamente de festa: dois motivos traziam a populao
  alvoroada; o primeiro, o dia de ano bom; o segundo, a festa que se preparava
  para celebrar a chegada  Bahia do novo governador D. Diogo de Menezes e
  Siqueira.

O autor faz assistir o leitor 
  entrada das devotas para a igreja da S onde devia ser cantada a missa; em
  ligeiras penadas d ele amostra dos costumes do tempo, e  por uma cena
  pitoresca que ele prepara a entrada de alguns dos principais personagens do
  romance, Estcio Correa, Cristvo d'vila, elegante do tempo, Elvira e
  Inezita. O namoro destes quatro dentro da igreja  contado em algumas pginas
  graciosas.

No acompanharei captulo por
  captulo o primeiro volume; tenho medo de reduzir  prosaica e seca narrativa a
  exposio interessante das Minas de
    Prata. Notarei que neste volume, que, como acabo de dizer,  uma exposio,
  as personagens destinadas a figurar no primeiro plano da histria so
  introduzidas em cena com a importncia que as caracteriza: Vaz Caminha, o
  jesuta Ferno Cardim, o jesuta Gusmo de Molina. Se
  alguma observao me pode sugerir a leitura que fiz do volume,  relativamente
  a uma simples questo de pormenor. Este padre Molina entra em cena com a cara
  fechada de um conspirador; deixa-se adivinhar que ele vem em virtude das
  questes levantadas pela ingerncia da Companhia de Jesus nos negcios da
  administrao. Um simples secular que trouxesse uma misso secreta seria
  reservado; com um jesuta, no se d  plausibilidade de suspeitar o contrrio;
  seria prudentssimo e reservadssimo. Ora, no me parece prprio de um jesuta
  o conselho dado ao lance do xadrez na biblioteca do convento, conselho que,
  aludindo s suas intenes relativamente ao governador, faz olhar de esguelha o
  licenciado Vaz Caminha. Talvez esta observao no tenha a importncia que eu
  lhe acho; mas qualquer que seja a insignificncia do pormenor a que aludo,
  lembrarei que  do conjunto das linhas que se formam as fisionomias, e que no
  sei de fisionomia de jesuta descuidada e indiscreta.

Entretanto,
  demos fim  observao e consignemos, ao lado da grata notcia do primeiro
  volume, o desejo que nos fica, a mim e aos que o
  leram, da prxima publicao dos dois volumes complementares.

Falemos
  agora de Arthur Napoleo que acaba de chegar ao Rio de Janeiro. Em 1857, aquele
  prodigioso menino inspirou verdadeiro entusiasmo nesta Corte, onde acabara de
  chegar cercado pela aurola de uma reputao. Criana ainda, o prestgio dos
  tenros anos dava ao seu talento realce maior. Com ele acontecera o mesmo que
  com Mozart, de quem diz um escritor,
  aludindo  primeira manifestao do talento na idade pueril: -- "C'est ainsi que Mozart apprit la musique, comme en se jouant, ou plutt la musique se reveillait dans son me avec le sentiment de la vie." Desde os primeiros anos, Arthur revelou-se, e
  desde logo comeou para ele essa srie no interrompida de trunfos de que se
  tem composto a sua existncia.

Os amigos e patrcios poderiam
  desconfiar do seu entusiasmo, e indagar entre si se ele no era efeito de um
  amor sem exame nem reserva, ou pela interessante criana, ou pelo patrcio
  artista. Essa dvida, se alguma vez se apresentou no esprito dos patrcios e
  dos amigos, dissipou-se sem dvida quando Arthur
  Napoleo, entrando nos grandes centros da arte e dos artistas, recebeu deles a confirmao solene do batismo da ptria. Aplausos, ovaes, abraos
  fraternais o receberam, e cada nome que passava, Rossini, Meyerbeer,
    Verdi, Talberg, Vieux-Temps, Sivori,
  deixaram uma nota sua, uma linha, uma palavra no lbum do menino artista.

Assim cresceu Arthur Napoleo na
  idade, na glria e no talento; de cidade em cidade, a sua viagem foi um triunfo
  no interrompido; mas, como verdadeiro artista, no se deixou adormecer nos
  louros e nas delcias de Cpua; estudou viajando, e buscou pelo estudo a
  perfeio. Nem s executa inspiraes alheias; tem-nas suas e das mais
  originais; e deve-se ao seu estro musical algumas composies esparsas de muito
  merecimento. Sei mesmo que Arthur Napoleo busca voar mais alto e escrever seu
  nome em uma obra duradoura: dois poetas ingleses deitaram mos  obra, a pedido
  do compositor, e cada um foi depor-lhe nas mos um poema dramtico, tirado um
  da comdia de Shakespeare, Como queira, e o outro de uma novela de Fenimore Cooper.

Quisera falar de teatros, mas os
  teatros no me do largo campo para falar deles, ou, arrisquemos antes a
  verdadeira expresso, no me do campo absolutamente nenhum. Nenhuma nova de
  vulto, digna de meno, foi dada nos dias da quinzena; e a no ser a reprise dos ntimos, no Ateneu Dramtico, para solenizar o grande dia nacional,
  na presena da imperial famlia, e cujo desempenho esteve na altura dos
  melhores dias daquela comdia, no tenho que comentar entre mim e o pblico. No
  horizonte aparece notcia de novidades dramticas, e talvez  hora em que os
  leitores lerem estas pginas alguma delas estejam na tela da publicidade.
  Dessas novidades so as principais um drama original no Ginsio e uma traduo
  no Ateneu; o drama original  do Sr. Dr. Macedo, e intitula-se Lusbellla; a
  traduo  uma comdia do feliz e talentoso Sardou, o
  autor dos ntimos e das Garatujas, intitulada O Borboletismo.
   a necessidade que os maridos tm de variar de ocupaes, de hbitos e... de mulheres. Borboletear  o verbo, e nesta poca em que os
  costumes sofrem suas mais ou menos profundas facadas, estou certo que esta
  comdia desafiar a curiosidade angustiosa de muitas esposas. Eu li o original
  da comdia francesa, e posso afirmar que no h posio mais ridcula do que a
  do marido borboleteador, e que concluses de V. Sardou so de
  consolar as mulheres desventurosas. Ocorre-me agora
  que tambm o Ateneu Dramtico anuncia uma nova comdia, original brasileiro,
  cujo ttulo  uma interrogao: O que  o
    casamento? O autor chama-se* * *.

Este sinal abriu j campo s
  conjecturas. A comdia  para estria do distinto artista Joaquim Augusto, que
  acaba de chegar da cidade de S. Paulo.

Nenhuma ocasio mais azada do que
  esta para lanar ao papel algumas reflexes que trago
    incubadas relativamente  situao dos teatros. Para os que, como eu, vem no teatro uma tribuna e uma escola,  triste contemplar
  o abandono em que ele jaz, sem que a iniciativa oficial intervenha com a sua
  fora e com a sua autoridade. Assim, vemos hoje duas cenas regulares entregues
  aos seus prprios recursos; a primeira, o Ateneu Dramtico, onde uma reunio
  dos nossos melhores artistas trabalha com ardor por desempenhar uma tarefa
  rdua, gloriosa, embora, marcando a cada exibio notvel aproveitamento dos
  seus recursos; a segunda, o Ginsio, onde o grupo de artistas que lhe ficara
  depois do ltimo desmembramento, procura e se esfora por continuar as
  tradies passadas. No sei qual o meio de resolver a situao, ou antes, no
  quero estender-me ao exame dela; mas o que  fato  que o trabalho fecundo e os
  recursos bem aproveitados tm direito  ateno do governo; e mais que tudo as
  duas misses do teatro, a moral e a potica, demandam dos poderes superiores
  alento e iniciativa. Dito isto, ponho ponto final a esta crnica, e passo a
  ralhar com a minha pena, que to esperanosa me surgiu da gaveta, e to
  desalinhada e sensaborona se houve nestas pginas.

30 DE NOVEMBRO DE 1862.

O acadmico Viennet, voltando depois de algum
  tempo ao campo da publicidade, escreveu estas palavras no prefcio do seu
  livro: "Me voil cependant, me voil encore!". Guardando todas as propores, e sem
  pretender o contentamento e a sensao que o livro do autor da Ligue devia naturalmente produzir,
  escrevo aquilo mesmo, e acrescento: "Me voil pour toujours!"

Para sempre. Neste aposento
  construdo no fundo do edifcio que o leitor acaba de percorrer instalo-me eu,
  e aqui praticarei mansamente com o leitor sobre todas as coisas que nos
  fornecer a quinzena, sem fadiga para mim nem mgoa para ningum. Duraro as
  nossas palestras o intervalo de um charuto, mais infelizes nisto que as rosas
  de Malherbe. Olhe o leitor:  roda da mesa esto jornais de todo o imprio; sentemo-nos como bons e
  pacficos amigos, e comecemos por encarar afoitamente aqueles estouvados
  peruanos.

O leitor sabe j de todas as
  ocorrncias de que foi testemunha o velho Amazonas; sabe que ali troou o canho
  e que fomos ludibriados no comeo, no meio e no fim. O atentado no se podia
  revestir de circunstncias mais agravantes, nem a arrogncia peruana podia
  manifestar-se em mais larga proporo e sob melhor luz. Arrogncia, disse eu, e
  no se pense que foi por no me ocorrer outro termo; arrogncia ingnita, filha
  deste preconceito, que naturalmente os peruanos ho de ter, de que so
  realmente filhos do Cid e do sol.

Seja como seja, o fato  que a
  dignidade da nao brasileira foi vilipendiada e que s uma enrgica intimao
  poder ter lugar depois daquelas ocorrncias; o pas espera ser bem defendido
  pelo governo nesta deplorvel questo.

No meio de todas as preocupaes
  esta me parece a principal, a que deve ocupar mais
  lugar e tempo nas lucubraes ntimas do gabinete. Creio que o sentimento do
  governo  o mesmo; certos atos demonstram que ele no quer protelar a questo,
  e sem dvida as ordens levadas pela expedio do Par ho de ser no sentido de
  nos desagravar honrosamente.

O que eu no posso  saber j o
  que se tem passado, e serei desculpado por no dar notcia sobre os fatos dos
  navios peruanos e da esquadrilha brasileira. Mas, a no dizer mais alguma coisa
  sobre a questo, como encher o espao que me resta? Ir ao Castelo assistir 
  exumao dos ossos de Estcio de S? Melhor sorte me d Deus! Dispenso o leitor
  dessa viagem, e com isso me dispenso a mim mesmo. Direi, j que falo nos ossos
  do fundador da cidade, que quaisquer que fossem os inconvenientes do modo por
  que se procedeu  exumao, e os houve, ainda assim aquela empresa revela que
  entre ns j se quer cuidar de certas coisas que at hoje pareciam no merecer
  sria ateno. Ainda bem. Segundo se acha anunciado, efetua-se no dia 1 o ato
  de inumao dos restos de Estcio de S, convenientemente arranjados e
  entregues aos cuidados de pessoas vigilantes.

Para alguns  duvidosa a
  autenticidade dos ossos achados na sepultura do Castelo; devo dizer que esta
  dvida s a ouvi articular a pessoas que duvidam de tudo, pela razo de terem
  sido enganadas muitas vezes, o que  um procedimento acertado. Eu no sei se a
  dvida tem lugar, mas louvo-me na opinio geral e na dos professores que
  dirigiram a exumao, para a qual no faltaram, segundo nos disse a imprensa, todas as instrues arqueolgicas.

Lembra-me agora que Mry, estando em
  Roma, encontrara um dia alguns sujeitos a cavar em certo lugar, animados por
  dois lords que, de quando em quando, atiravam uma moeda aos trabalhadores. Mry, apaixonado
  pelas runas, parou e assistiu  exumao do que quer que fosse. Finalmente apareceram
  uns fragmentos de esttua, a cujo aspecto um olhar experimentado no daria
  menos de mil anos.

Grande contentamento dos ingleses,
  que fizeram conduzir at o carro as preciosidades encontradas no solo romano. Mry pediu
  humildemente para ajudar a carregar parte daqueles preciosos achados, e com
  toda a venerao foi depositar a sua carga no carro dos patrcios de lord Palmerston.

Compreendo a satisfao que deve
  ter um homem apaixonado pela antiguidade, ao ver diante de si os restos de uma
  obra que supe haver encantado os olhos de todo o patriciado romano. E
  compreendo tambm o desgosto que havia de ter o autor da Florida, quando,  noite, em uma reunio de pessoas distintas,
  depois de haver contado o fato da manh, soube que os restos achados eram de
  vspera preparados de modo a parecer que datavam de longe, acrescentando o
  carrasco das suas iluses que o Museu de Londres esta cheio destas tais
  antiguidades, coisa que eu creio um pouco dura.

No presuma o leitor malicioso que
  eu trouxe este conto para diminuir a idade aos ossos encontrados na sepultura
  de Estcio de S. Creio que so autnticos, e na verdade  isso que devemos
  crer todos, porque no podemos crer noutra coisa. Compensa isso  fadiga dos
  que l foram ao Castelo assistir ao ato. Eu no fui, e
  creio que fiz mal. De mais, se  verdade, como eu creio, que alm desta vida h
  uma vida melhor, e que, portanto Estcio de S est nos olhando talvez por um
  destes culos do cu que ns chamamos estrelas e dumas fascas dos ps do
  Onipotente; se  verdade isto, sejam ou no aqueles os ossos autnticos, uma
  vez que a inteno  boa, Estcio ficar agradecido e aceitar l de cima a f,
  a inteno, se no puder aceitar os ossos.

Estas
  reflexes sobre ossos e runas levam-me naturalmente ao teatro, que est
  ameaado de passar ao estado de monumento curioso, a despeito dos esforos
  individuais. Mas parece que a fora da corrente  superior a todos os esforos,
  e que no h regime preventivo contra o efeito dos elementos deletrios. Eu no
  acho culpa do que sucede seno nos poderes do Estado, que ainda se no
  convenceram de que a matria de teatros merece uns minutos ao menos da sua
  ateno como tem merecido nos pases adiantados. Quando eu vejo que na Frana,
  em maro de 48, um ms depois da revoluo, se decretava sobre teatro, no meio
  das preocupaes polticas, lastimo deveras que no Brasil o poder executivo
  tenha limitado a sua ao a dar e a retirar subvenes, e a incomodar uma
  comisso, de cujas opinies escritas fez depois pasto s traas da secretaria.

Voltarei a esta matria mais
  tarde, ou talvez faa dela objeto de estudo especial; por agora, cumpre-me
  mencionar as novidades anunciadas, e que sem dvida sero novidades realizadas
  no momento em que o leitor me ler.

O Ateneu anuncia uma comdia de Emile Augier e Ed. Foussier, As leoas pobres. Esta comdia deve a
  sua celebridade em Paris a duas coisas: ao seu mrito intrnseco, que  de
  primeira ordem, e s discusses havidas por ocasio de ser apresentada 
  comisso de censura. Parece que a comisso saiu um pouco fora dos seus deveres,
  deixando de fazer censura dramtica para fazer censura literria; e a no ser o
  imperador, ainda hoje a comdia estaria interditada.

Anuncia tambm a Sociedade
  Dramtica uma representao da Herana do
    Chanceler, no Teatro Lrico.

Em cata de notcias procuro
  lembrar-me se durante os ltimos quinze dias houve alguma publicao literria,
  ou mesmo iliterria, de que dar parte. Em outra parte
  no haveria necessidade de procurar; com certeza o revisteiro encontraria, ao
  comear o seu trabalho, a mesa cheia de publicaes. Tudo, porm,  relativo, e
  o movimento das publicaes entre ns ainda , como outras coisas, lento e
  raro.

Vejo agora um exemplar de um novo
  romance do Museu Literrio, intitulado A
    Lamparina.  a segunda obra que o museu publica, e ainda do mesmo autor.
  Para os que leram a Lenda do Alfinete esta  a melhor recomendao que se lhe possa dar. Eu s desejo que publicaes
  como o Museu Literrio e a Biblioteca Brasileira sejam compreendidas e
  festejadas pelo pblico, doce remunerao aos esforos conscienciosos.

Se fosse possvel a comunicao de
  todos os fatos da vida particular entre o cronista e os seus leitores, eu daria
  aqui as razes do desconchavo em que vai esta revista, escrita a todo o vapor,
  para satisfazer s exigncias da tipografia. Mas, como no  possvel,
  limito-me a lamentar que assim seja e a despedir-me para a quinzena seguinte.

15 DE DEZEMBRO DE 1862.

Contos do Sero  o ttulo de um pequeno volume...

Cuida o leitor ao ver-me comear
  por este modo, que tenho uma crnica farta e volumosa de notcias, e que para
  ganhar tempo  que entro em matria? Antes assim fosse. Eu comecei assim, no
  s para usar de todas as deferncias para com um talento modesto, mas ainda
  para fugir a este lugar-comum que me ia saindo dos bicos da pena:

Suponha o leitor, queria eu dizer,
  que est em uma assemblia legislativa. Discute-se o oramento da receita e
  despesa, matria de mxima importncia, como se v logo pela designao. H
  grande alvoroo: pedem a palavra, sobem  tribuna os melhores oradores, a
  lgica e a retrica andam em pleno exerccio; e a palavra humana torna-se nesse
  momento, para usar da expresso de Montalembert, o
  tipo supremo da beleza, a arma irresistvel da verdade. Sobre que se discute?
  Sobre o oramento? No, senhor: os oradores cansam-se, elevam-se, lutam, fazem
  prodgios da lngua, sobre tudo, menos o objeto da discusso. As questes de
  poltica especulativa, as recriminaes dos partidos, as invectivas pessoais, o
  inventrio parcial do passado, as conjecturas arbitrrias do futuro, tudo o que
  pode ser alheio ao oramento entra em pleno servio; o oramento, esse ouve
  falar em seu nome por duas outras vozes mais moderadas, que, entrando no
  terreno prtico, desdenham o palavreado estril e procuram utilizar o tempo
  malbaratado.

A imagem
  diminuda, mas aproximada deste fato anual, queria eu acrescentar, acha-se
  nesta palestra de hoje com os meus leitores, na qual poderemos tratar de tudo,
  menos do objeto principal que nos rene. V o leitor que, apesar de usado por
  boas autoridades, isto  um lugar-comum perfeitamente comum. Tive razo em
  retrair a pena. Afinal de contos, o leitor no tem
  culpa que o Rio de Janeiro ande a competir com a chuva em aborrecimento e que
  mesmo lhe leve a palma. Em mngua de notcias forja-se, ou enche-se papel com
  qualquer coisa.

Dada esta ligeira explicao,
  volto aos Contos do Sero.  um
  livrinho do Sr. Leandro de Castilhos, composto de trs contos: Uma boa me, Otvia e Um episdio de viagem. O ttulo do livro, modesto e simples, corresponde
   natureza da matria. Trata-se de ligeiros contos, escritos sem pretenso,
  visando menos glria literria do que as impresses passageiras e agradveis do
  lar. Entretanto, fora injustia ler o volume do Sr. Castilhos fora do terreno
  literrio. D-lhe o direito de assistir a a um talento que, se no se
  apresenta com maior fulgor, nem por isso  menos real e menos esperanoso.

Por que no ensaia o Sr. L. de
  Castilhos um romance de largo flego? No lhe falta inveno, as qualidades que
  ainda se no pronunciaram, reservadas ao romance, ho
  de por certo tomar vulto e consistncia nas composies posteriores, feitas com
  meditao e trabalhadas conscientemente.

O romance, de que temos apenas
  dois assduos cultores, o Srs. Macedo e Alencar, espera por novos, porque tem
  ainda muitos recantos no investigados e talvez fontes de boa riqueza.

Do romance ao teatro  um passo, e
  eu no tenho grande dificuldade em d-lo.

Duas novidades que devem ser
  contadas como literria apareceram na quinzena: As leoas pobres, de Emile Augier, e a Herana do Chanceler, do Sr. Mendes
  Leal. Todavia, esta segunda, por j conhecida de todos, no ofereceu outra
  novidade alm da representao pelos artistas do Ginsio. Farei eu a injustia
  de crer que os leitores no conheciam a Herana
    do Chanceler?

H uma terceira novidade; esta,
  porm, no me cabe avaliar, que a no vi, e a julgar pelo que me assegura
  pessoa de conceito, est fora das condies literrias assinaladas s duas
  primeiras.  a comdia: Os amores de Clepatra que entretanto preenche o dever a que os nomes dos autores esto obrigados:
  faz rir. Foi tambm representada no Ginsio.

Pelo que respeita s Leoas pobres,  essa uma comdia que
  assusta os espritos menos ousados e faz recuar  primeira vista. Todavia, quem
  tiver a fora de conservar-se alguns momentos diante
  dela e medit-la, ver que nem h motivo para terrores, mas que ainda h muito
  boas razes mais bem acabadas do teatro contemporneo, todas as reservas de
  parte, entenda-se.

No fatigarei a pacincia do
  leitor relatando o entrecho das Leoas
    pobres, que o leitor viu, ou leu, ou soube pelos jornais. Vinha a
  propsito,  verdade, desenvolver um ponto que na imprensa foi apenas tocado, o
  desenlace da pea, mas eu ainda no quero fazer injustia a ningum que me l
  repetindo princpios de arte comezinhos, expostos por todos os autores, e quase
  objeto de compndio hoje.

De duas
  representaes a que assisti, uma pouco me agradou,
  foi a do Teatro Lrico, onde s se podem acomodar os sopranos e tenores de
  fora, e imprprio para fazer sobressair uma composio dramtica. Levada ao
  Ateneu Dramtico, cujas propores me parecem perfeitamente acomodadas  cena
  moderna, a comdia pde aparecer melhor, e satisfez-me a representao com
  pouqussimas reservas.

Para voltar
  ainda  comdia, pois que a pressa com que vai este escrito me obriga a estas
  marchas retroativas, direi que, como concepo e execuo, as Leoas pobres honram o talento de E.Augier, que no
  pode ser acusado nem de falta de vigor dramtico, nem de certo critrio que
  resulta da observao e da meditao. H, como
  indiquei acima, pontos de reserva, mas eu que no fao crtica, e apenas dou
  relao comentada dos fatos da quinzena, poderei entrar na apreciao desses
  lados que me parecem fracos sem, por um retorno justo, avaliar uma por uma as
  muitas belezas da comdia ? Bem vem que me levaria longe, e eu prefiro no
  sair das raias marcadas pelas exigncias tipogrficas.

Houve outra novidade no teatro,
  que eu de propsito deixei para o fim;  uma comdia que tem por ttulo -- O Protocolo -- e que traz o meu nome. Os
  escrpulos que me fazem no dizer palavra sobre este pequeno ato so bem
  compreendidos do leitor. No foi, porm pelo simples prazer de falar da minha
  pea que eu citei esta novidade. Foi para deixar escrito desde j, que muito a meu contento a representaram os artistas do Ateneu.

E para terminar direi que, ao
  passo que esta revista escrita,  lida pelo leitor no seu gabinete fechado e na
  sua casa no menos solidamente construda, anda por alto mar o pianista Arthur
  Napoleo, que daqui se foi a mostrar-se aos nossos vizinhos do
    Prata.

Para no fazer esquecer a
  fraseologia mitolgica e o cunho de certas figuras poticas, ponho ponto final
  dizendo que olo h de por certo respeitar aquele
  que, com harmonias mais brandas, o faria encerrar-se cativado nas grutas
  sombrias de sua morada incgnita.

1. DE JANEIRO DE 1863.

Abre-se o ano de 63. Com ele se
  renovam esperanas, com ele se fortalecem desanimados. Reunida  famlia em
  torno da mesa, hoje mais galharda e profusa, festeja o ano que alvoroce, de
  rosto alegre e desafogado corao. 62, decrpito, enrugado, quebrantado e mal
  visto, ri a um canto o po negro do desgosto que lhe atiram tantas esperanas
  malogradas, tantas confianas iludidas. Pobre ano de 62! Deverei eu entrar no
  coro dos acusadores? Que podias fazer? Tiveste contra
  ti os elementos, o cu e a terra, os homens e as coisas; a tua vontade era
  sincera, mas a tua fora era comparativamente nula. Toma o bordo e segue o
  caminho da eternidade; olha sem desgosto as festas com que  recebido teu jovem
  irmo; daqui a doze meses, estar como tu, velho, enrugado,
    mal visto e apupado.  a eterna ordem das coisas.

63 alvorece entre palmas e beijos. Ser teu horizonte lmpido e sereno, nenhum ponto negro,
  ao longe, far estremecer os espritos? No; 62 lega a
  63 uma pesada herana; guerras, perturbaes, descrenas, dios, malquerenas,
  pirraas ; naes sem rei,  cata de rei ; reis sem trono,  cata de trono ;
  reis constitucionais sem constituio ; luta de irmos, rusgas de primos ;
  papa-rei em Roma, rei-papa na Frana ; o Oriente tempestuoso, o Ocidente enublado ; o argumento em duelo com o sofisma ; a mentira
  com a verdade, a boa f com a velhacaria ; miragens poticas no sul, no norte,
  no oeste, de um plo a outro, da parte de Aquiles, da parte de Heitor ; a
  indecncia triunfante, o decoro vilipendiado, a sinceridade mal entendida ; a
  loucura no fastgio, o bom senso ao sop ; imagem do caos, enfim, onde se
  abalroam, procurando soluo, duro e mole, o que  leve e o que  pesado.

Tal  o fardo que 62 pe nos ombros de 63. Ter 63 fora para pr ordem a esta balbrdia? Duvido;  tarefa superior s foras de um ano;
  mas ele far o que puder, estou certo.

E entre todas as srias questes,
  a do Amazonas no tem lugar distinto? Certo que sim. Que
  resultar desta pendncia entre o Imprio e a Repblica Peruana? Confesso que
  no sei nem a ningum  dado prever o futuro nas coisas do meu pas. Mesmo
  confessando as boas intenes dos que vo ao leme do Estado, h razo para
  abstrair da lgica e contar com o imprevisto e com o absurdo. As ltimas
  notcias do Amazonas no so animadoras;  com receio que espero as notcias
  prximas; afigura-se-me que ho de ser piores, por
  mal da nao, e por glria do nosso rixoso co-ribeirinho.

No  raro fazermos triste figura
  nas nossas pendncias internacionais; anda nisto uma fatalidade, quero cr-lo; a
  idia de um imprio enguiado  menos desanimadora que outra fcil de
  compreender, e que eu deixo ficar tranqilamente no tinteiro. As lies do
  passado servem de espelho ao presente e ao futuro, e o nosso receio  deste
  modo natural.

s leitoras parecero diminudas
  desta importncia as consideraes que acabo de fazer. E realmente como
  poderiam esses tenros espritos apreender-se destes
  receios e destas angstias? No momento do perigo, do perigo palpvel, do perigo
  visvel, eu sei, a me manda seus filhos  batalha, a esposa separa-se
  facilmente do esposo, a irm do irmo. Mas por agora, que estamos nos
  preliminares e em pleno vero, que idia ter suspenso o esprito da leitora?
  Ir para Petrpolis ou para a Tijuca, fugir ao fogo que toda a cidade respira, ir beber nas auras das montanhas o ar puro e fresco
  que insinua a paz e o descanso no esprito. Que impedimento a detm? Que razo
  lhe fechar o caminho, que revista da quinzena a obrigar a estar presente na
  corte? Nada dessas coisas; escolhido o ponto da emigrao, pronta a mala,
  escolhidos os livros... Ah! Por falar em livros escolhidos, aconselho s
  leitoras que juntinho ao abade Smith, simples e cndido pela forma e pelo
  fundo, pginas escritas, reunidas por um talento que alvorece, terno e ingnuo,
  o Lrio Branco de Luiz Guimares
  Jnior.

Leia a histria de Corao ( o
  nome da herona) que ganhar boas e doces impresses; valer o mesmo que
  passear o olhar por um horizonte azul e puro, tal  a inocncia dos amores do
  par de que trata o livrinho. Maria da Conceio  um nome que eu acho lindo e
  que compete a certas criaturas entre a terra e o cu; o sentimento geral  que
   um nome ridculo e prosaico, pois veja a leitora com que arte o autor sabe
  dizer que a herona da histria, a menina dos quinze anos, chama-se Maria da
  Conceio, de maneira a no repugnar aos paladares comuns.
  Corao, explica depois o autor, era o nome dado entre famlia.

Depois ajunte a leitora alguns
  versos queridos, escritos por despedida, com lgrimas, com sentimento, alguma
  flor seca recendendo o perfume da mo que primitivamente a teve, a est uma
  bagagem que h de faz-la passar um vero feliz.

Quanto a mim, c fico para
  assistir de perto aos acontecimentos; para ir ver os acrobatas da Guarda Velha
  e do teatro de S. Pedro; para assistir aos aplausos que ho de saudar dois
  jovens talentos dramticos, os autores da Tnica
    de Nessus e da Mancenilha, anunciadas pelo Ateneu, e mais os que aparecerem; c, fico, no
  meio do p, do calor, condenado a no arredar p do cepo fatal.

Sem p e sem calor, e pelo
  contrrio, debaixo de copiosa chuva, foram alguns intrpidos amantes da boa
  msica e dos bons talentos a S. Domingos no dia 17, para onde os convidaram por
  carta os Srs. capito de mar e guerra Jos Secundino Gomensoro, brigadeiro M. E. de Castro Cruz e Antonio Igncio de Mesquita Neves, promotores de um concerto dado
  por Antonio Luiz de Moura.

Moura  um distinto professor de
  clarineta, devendo ao seu merecimento a sua infelicidade, consrcio quase
  infalvel no nosso pas.

Os intrpidos que puderam
  atravessar a baa para ir assistir ao concerto no eram em grande nmero. Nem
  por isso a reunio deixou de ser animada, ou talvez que por essa circunstncia
  tivesse mais animao. A pouca gente d certo ar de famlia e pe mais a gosto
  convidados e concertistas. Foi o que aconteceu

A escolha de um stio camparesco foi bem avisada, e, a no ser a chuva, o que a
  festa perdeu ganharia
  em
    dobro. Pena
   que por estes tempos se deva forosamente
  contar com a chuva, o que infelizmente no entra nos clculos de ningum.

Tomaram parte no
  concerto vrios amadores de mrito, e para no estender-me em mais
  detalhada apreciao, que no posso,   mngua de espao, citarei entre
  todos o nome da Exma. Sra. D. Maria Leopoldina de
  Mello Neves, esposa de um dos signatrios das cartas de convite.

Hoje h uma reunio, no musical,
  mas literria e musical, no salo da Phil Euterpe.  dada
    pela sociedade Ensaios Literrios, que completa quatro anos de existncia.
  Os membros desta modesta associao seguem assim o exemplo salutar do Grmio e
  do Retiro literrio. Deus queira que a chuva no afugente ningum.

Acabo de receber um novo volume da
  Biblioteca Brasileira; mal deitei os olhos ao rosto do livro;  um romance traduzido,
  que se intitula Lady Clare.
  Na prxima crnica direi o que pensar da obra.

Passarei a mencionar a inaugurao
  do retrato de Francisco de Paula Brito, na sala das sesses da Sociedade Petalgica. Paula Brito foi amigo desta associao, que em
  sua casa se fundou; durante longos anos os membros da Petalgica tiveram nele um dedicado companheiro, de amigo velho e provado que era. O dia
  15, aniversrio da morte de Paula Brito, foi escolhido para a cerimnia da
  inaugurao do seu retrato. Esta foi simples e modesta, como pedia o caso.
  Reunidos os amigos do finado, vrios pronunciaram algumas palavras de saudade,
  e assim ficou realizada a tocante idia. Paula Brito merecia estes sinais de
  gratido saudosa que do  sua memria seus amigos de tantos anos.

Para terminar, convido a leitora a
  pr de parte o Futuro; o que me resta
  mencionar nada tem de imaginoso,  de natureza positiva, h de enfad-la,
  aborrec-la, coisa que nem suspeitar  bom. E para entrar bruscamente em
  matria dir-lhe-ei: - trata-se do Lloyd Brasileiro. O que  Lloyd?  uma
  associao, cujos estatutos dependem da aprovao do governo. O governo, que
  afere a importncia das coisas pelo seu maior ou menor carter positivo, no
  tem razo para dormir sobre a soluo pedida. Ora, tanto quanto posso ver nesta
  matria, parece-me que as relaes comerciais ganham com a organizao do Lloyd, que estabelece a segurana nos
  transportes por mar, e pe termo a muitos inconvenientes que existem hoje.
  Cabia descer a maiores explicaes, mas nem tempo nem espao tenho para isso.

Leitor, boas festas, a ti e a

Machado de Assis

15 DE JANEIRO DE 1863.

A questo das reclamaes inglesas
  ocupou exclusivamente a ateno do pblico durante esta quinzena. A populao
  da Corte nos primeiros dias do ano ofereceu o mais nobre e consolador
  espetculo; a ansiedade ao princpio, e depois, uma vez conhecida toda a
  correspondncia diplomtica, a indignao moderada, prudente, sensata; o
  desafio tcito do direito  fora, da legalidade ao abuso, sem desvarios, sem ataques
  individuais. Os dias 5 e 6 principalmente foram os de
  maior agitao; o imperador com toda a famlia imperial desceu ao pao da
  cidade; a confraternizao do povo com o chefe do Estado foi mais cordial, a
  mais expansiva, a mais verdadeira. s aclamaes populares respondia o
  imperador com protestos vivos de que era brasileiro, e que a sua coroa
  respondia pela dignidade da nao.

Em tal situao, e correspondendo
  a to patriticas manifestaes, o governo imperial teve a coragem precisa para
  responder s exigncias britnicas com firmeza e energia, pondo acima de todas
  as mesquinhas consideraes a idia nobre e augusta do decoro nacional. A
  correspondncia diplomtica  uma pgina viva do patriotismo. A razo  nossa,
  o direito  nosso; se os resultados de um ataque no forem igualmente nossos,
  que importa isso? A conscincia da nossa causa deve dar-nos bastante
  tranqilidade diante da vitria da fora, que ser a vitria da imoralidade.
  Tal  o transunto das notas do gabinete.

O representante da Inglaterra
  cedeu de todas as suas anteriores pretenses; e as condies da nota de 20 de
  dezembro prevaleceram mais extensas talvez, e, portanto com mais honra para a
  nao. Levada a questo ao gabinete de Londres, resta saber se o grupo de
  homens que dirige os destinos da Gr-Bretanha imitar o procedimento do seu
  representante nesta Corte. H uma dignidade convencional que consiste em
  desconhecer o dever e a justia para dar satisfao ao orgulho do poder. Esta
  dignidade h de se achar ferida com a altivez do nosso governo; a submisso
  teria dado  Gr-Bretanha mais uma razo de apertar os vnculos de amizade com
  o Imprio!

Prevendo todas as conseqncias
  futuras, o pas acha-se disposto a depor o que houver de resistncia no altar
  da ptria. Nesta Corte as manifestaes desta natureza no se tm feito
  esperar; recursos de que o governo carece, sem que este tenha reclamado uma
  subscrio nacional, j vo aparecendo; a cmara municipal j recebeu o nome de
  muitos voluntrios. Uma sociedade que tomou o nome de Unio e Perseverana
  formou-se na cmara municipal, domingo ltimo. Mais de duas mil pessoas
  concorreram aos convites feitos nos jornais. Foi aclamado presidente o Sr. Dr.
  Saldanha Marinho, e bem assim um diretrio composto daquele ilustre jornalista
  e dos Srs. Theophilo Ottoni e conselheiro Antonio
  Jos de Bem. Outra sociedade foi tambm organizada nesse dia no Pavilho
  Fluminense. O mesmo entusiasmo patritico reina por toda a parte sem distino
  de classes.

Se me 
  dado conjecturar as emergncias ulteriores em relao ao Futuro, deixe o leitor que eu revele a incerteza em que eu estou, os temores que me assaltam, porque no suponho que os
  ingleses, em caso de ataque, tenham simpatia por coisa nenhuma. J no  desta
  opinio o redator principal, que tem entre mos um romance do Sr. Camilo
  Castelo Branco, matria de um grosso volume, e que o redator pretende dar todo
  no Futuro, captulo por captulo, sem
  receio de bala inglesa. Uma coisa que ele no pode compreender  que a
  publicao de um romance do Sr. Camilo Castelo Branco depende da vontade de lord Palmerston.
  Acho-lhe at certo ponto alguma razo. O romance escrito expressamente para o Futuro, e propriedade desta revista, tem
  por ttulo um provrbio: Agulha em palheiro  este sculo e a sociedade onde o
  poeta escreveu; o que o poeta procura  um homem, que chega a encontrar, mais
  feliz nisto que o vaidoso Ateniense. De mulheres  que no h palheiro no
  sculo; o prprio poeta o declara referindo-se  sua herona: "Paulinas de
  certo h muitas. As senhoras, em geral, so, como ela,
  todas, quando encontram homens como aquele." No sei se esta regra to absoluta
  pode ser admitida, mas, feitas algumas excees de que rezam at os
  noticirios, acho que  uma verdadeira regra geral.

Passo a falar da pea do Sr. S. B.
  Nabuco de Arajo, ultimamente representada no Ateneu, com fervoroso aplauso.
  Esse aplauso, creio eu, tem duas significaes: uma
  pelo talento do poeta, outra pela nacionalidade da obra. Em uma terra onde a
  literatura dramtica balbucia apenas, os aplausos pblicos no podem deixar de
  ter esta dupla significao; e nesse sentido  que a crtica deve apreciar.

Sempre que um novo sacerdote se
  apresenta  porta desta igreja, to despovoada ainda, deve ser recebido com
  palmas e cnticos. Transmitir  gerao futura os preliminares de uma obra que
  seja completada com proveito  a ocupao de alguns espritos amantes das
  letras e do progresso do pas. Sem a solidez intelectual e a capacidade que a
  esses distingue, mas com o mesmo amor e a mesma perseverana, trabalharei eu,
  conforme me permitirem as foras de que disponho.

O autor da Tnica de Nessus merece todas as
  simpatias, e tem direito a ser recebido no seio da literatura dramtica. 
  assim que o aplaudo e sado. Entenda-se, porm, uma coisa: nas minhas
  observaes literrias nunca levo pretenso a crtico. Tal
    no me suponho, merc de Deus. A crtica  uma misso que exige
  credenciais valiosas, de cuja mngua no me coro de vergonha em confessar, como
  no tenho vaidade em referir as pouqussimas coisas que sei.

O que eu confesso  que sou moo,
  e que como tal, vou ao encontro dos moos com entusiasmo de camarada. Entre os
  que so da mesma idade  natural e fcil  comunicao das impresses
  recebidas, e mtuo conselho sempre resulta emenda e progresso.

Entre mim e o autor da Tnica de Nessus no
  pode haver seno mtuos e cordiais conselhos. Toca-me a vez, e declaro que o
  fao com tanto prazer quanta sinceridade, e que a independncia, de que no
  posso prescindir no meu juzo, em nada prejudica o desejo que nutro de lhe
  aplaudir muitas vitrias dramticas.

Comearei pelas belezas ou pelos
  defeitos da Tnica de Nessus?
  O prprio poeta impe-me a escolha destes, visto que, pelo que me consta,  seu
  principal desejo que lhe apontem as falhas da obra.

Direi, portanto, que me pareceu
  descobrir o principal defeito da Tnica
    de Nessus na ao, que no  suficiente para as
  propores da pea, nem caminha sempre pela razo lgica das coisas. No intuito
  de simplific-la, f-la o poeta
    exgua, diluda nos seus quatro atos; eu a quisera, e dizendo eu suponho falar em nome de uma teoria --
  eu a quisera mais complexa, mais dramtica. Preocupado com a pintura do
  principal carter, o poeta esqueceu opor o bem ao mal, estabelecer uma luta,
  que, satisfazendo as condies da cena, desse explicao a muitas passagens obscuras. Adlia gasta, perde-se,
  infama-se, sem combate; no  combate  queixa desanimada de Mximo e a
  exposio de algumas teorias muito ss de Oliveira. Esta ausncia de luta entre
  os sentimentos tira  pea, apesar de vrios lances de muito efeito, a
  necessria vitalidade dramtica.

Mas o tipo de Adlia, to
  exclusivamente tratado, satisfaz as intenes do poeta? Cuido que no.
  Parece-me indeciso, contraditrio s vezes, s vezes
  tocado de mais. A sua exigncia de que o marido se dispa dos hbitos modestos e
  renegue a arte,  to cruel, to arrebatadamente feito, que nos leva
  insensivelmente a indagar que relaes existem entre a verossimilhana e esse
  ruim capricho.

No segundo ato, prevendo a
  misria, foge com um visconde, a quem pouco antes
  deixa ver que no ignora todo o horror de uma situao equvoca. Perdida, os
  seus sentimentos parecem ora bons, ora maus, ora filhos de um esprito
  indiferente e frio. A filha, que levara de casa de seu marido, est a expirar
  em um quarto; Adlia parece am-la, tanto que no tivera foras de deix-la,
  fugindo da casa de seu marido; mas, entre o leito da moribunda e a mesa de um
  festim, Adlia prefere esta, seno de notar que nenhuma considerao impede a
  contigidade do lugar da ceia e do lugar da morte. Este contraste, trazido para
  efeito cnico, derrama mais obscuridade e confuso no carter de Adlia.

Nesse ato, porm, refere-se que durante
  dezesseis anos Adlia no assistira Ins de suas carcias de me; em tal caso,
  trazer consigo a filha da casa de seu marido foi um
  capricho sem explicao. Mas, posta assim  situao,  preciso atribuir s
  palavras de Oliveira, na penltima cena, o aparecimento da ternura maternal no
  corao de Adlia. Pode-se, sem violncia, aceitar esta soluo? Pois o que no
  fizeram longos dias de martrio da enferma, fazem algumas palavras mais ou
  menos veementes do mdico? E aquela alma que recua por vaidade, ao ir, por
  extrema prova, despedir os banqueteadores, estava acaso preparada para receber
  a divina fasca do amor maternal?

Mximo  tambm um carter pouco
  seguro.  um homem fraco, passivo, sem vontade, sem deciso; tudo isto 
  natural; mas essa passividade, que ele afeta no interior conjugal durante anos,
  no exclui, e at tem sua razo de ser, na extrema delicadeza de sua alma, na
  bondade de seu corao, no profundo amor que vota a sua mulher. Tais qualidades
  no se pervertem no sofrimento, apuram-se; e quando uma cela monacal  o teatro
  das dores ntimas, o esprito ganha foras, no de combate, mas de clemncia e
  perdo.

Esse esprito misericordioso  que
  eu quisera ver nas palavras de Mximo, a uma frase de sua filha, que maldiz o
  pai desconhecido, conta-lhe a histria das suas desventuras conjugais, no ponto
  de vista interessado de marido; esta represlia  prpria do Mximo do primeiro
  ato, e, sobretudo do Mximo religioso? Estabelecer no esprito da moribunda um
  duelo de sentimentos; opor-se, nessa hora suprema, s dolorosas invenes da
  me, revelaes no menos dolorosa do pai; lanar a dvida naquela alma que se
  ia embora ignorante das tormentas da vida, eis o que falseia o carter de
  Mximo e desmente a sua misso evanglica. Dezesseis anos, a solido do
  claustro, as letras divinas, a convivncia de Deus, no teriam apaziguado naquela alma as paixes
    da terra e posto termo aos dios do passado?

Resta Oliveira;  um homem nobre e dedicado; a sua estima por Mximo e
  a sua averso por Adlia so extremas; esse extremo explica a sua spera e
  indiscreta pergunta no final da pea, quando a situao pedia uma complacente
  concesso.

Do visconde e de Fernando nada
  direi; passam a pea como meteoros; mas a passagem do segundo est justificada?
  Que faz a pea a presena desse Armando passageiro ?
  Sem o amor de Fernando a pea existia, e quanto ao carter de Adlia, que o
  poeta quis melhor definir com essa circunstncia, torna-se mais confuso ainda.
  Para rematar estes senes que me parecem existir na Tnica de Nessus, direi que o estilo peca
  por demasiadamente lrico; as figuras, os tropos, as parbolas, surgem sobreposse em cada dilogo, at nas falas de Ins, menina
  moribunda, em cuja boca destoa semelhante linguagem. Ser isto um partido
  tomado, ou resulta da prpria tendncia do poeta? Seja como seja, o poeta
  d-nos algumas figuras bonitas, veste idias novas em roupas originais, o que
  no impede por vezes figuras como estas condenadas por sua vulgaridade:

-- Para que fazer-me subir nas asas
  brancas da esperana at ao cu das iluses, e depois cair no abismo da
  realidade?

Indaguemos agora das qualidades do
  poeta. A primeira , sem dvida, a dos efeitos; feitos as reservas que j
  apontei, a ltima cena do primeiro ato impressiona muito;  escrita com fogo e
  cheia de movimento; no segundo ato, a cena vem encontrar Adlia em colquio
  amoroso com o visconde  habilmente trazida; a transio, uma das feies
  tpicas de Adlia, inspira interesse e  conduzida com engenho.

As cenas da enferma com Oliveira e
  com Adlia so tocadas com sentimento; h nelas o tom plangente da elegia, e a
  mais de um tenho ouvido o que eu prprio sinto; so imensamente comoventes. O
  quarto ato, que  para mim o melhor, no ponto de vista do movimento dramtico,
  inspira nas suas poucas cenas muito interesse; a apario de Mximo sob a veste
  monacal, o desespero de Adlia aos ps da filha, a figura calma de Oliveira
  dominando aqueles diversos sentimentos, tudo isso traz suspenso o esprito do
  espectador; o lance do encontro de Mximo e Adlia  hbil e
    interessante; no desenlace, Adlia enlouquece,  o complemento da sua
  desgraa, o termo de sua vida malbaratada.

Do que levo dito, deve concluir-se
  uma coisa: que ao autor da Tnica de Nessus falta certo conhecimento da cincia dramtica,
  mas que lhe sobejam elementos que, postos em ao e dirigidos convenientemente,
  lhe daro eminente posio entre os nossos poetas dramticos.

A intuio dos efeitos, a
  imaginao viva, a paixo abundante, tais so os seus meios atuais; a
  observao e a perseverana se encarregaro de aplic-los discretamente,
  desenvolv-los, complet-los, e abrir ao poeta no futuro uma carreira que eu
  profetizo segura e gloriosa.

Expus com franqueza e lealdade,
  sem excluso do natural acanhamento, as minhas impresses; os erros que tiver
  cometido provaro contra a minha sagacidade literria, nunca contra o meu
  carter e a minha convico.

Esta glria, que no reputo
  exclusiva, havia de t-la o autor da Tnica
    de Nessus, se, em iguais circunstncias, tivesse
  de julgar uma obra minha.

31 DE JANEIRO DE 1863.

Houve sempre incria em fazer o
  Brasil a sua propaganda na Europa, convenincia fcil de compreender por todos,
  mas que o governo nunca compreendeu, ou tratou por alto.  cabido, portanto,
  mencionar com louvor a fundao do Brsil, jornal escrito em francs pelos redatores da Atualidade, e publicado  entrada e
  sada dos paquetes transatlnticos. Trata-se de se nos
  apresentar na Europa com imparcialidade e justia os redatores da Atualidade no deixam dvida alguma a
  este respeito e h at a esperar muito deles. Partindo de alguns cidados, esta
  medida que o governo deveria iniciar, h de produzir mais efeito do que se
  partira do governo.  positiva a diferena que vai da propaganda por convico
  e por amor do pas,  outra propaganda menos espontnea embora to convicta.

O Brsil entra no
  3. nmero a hora em que escrevo. As empresas desta ordem merecem
  ordinariamente os sorrisos da incredulidade, atento o exemplo mais que muito
  repetido, de no passarem, como as crianas mofinas, do perodo de dentio. A Atualidade, porm, pode atestar a fora
  de vontade dos redatores do Brsil. Comeada
  no ano de 1857, atravessou ela cinco anos sem descorar diante das dificuldades,
  e dando um grande exemplo de perseverana. O irmo mais moo da Atualidade no h de ser menos opulento
  de vida e de tenacidade.

Um dos ltimos paquetes trouxe um
  livro portugus, que na sua ptria teve grande aceitao, graas principalmente
  ao assunto de que trata.  a pardia do D.
    Jaime, feita pelo Sr. Roussado, intitulada Roberto ou a dominao dos agiotas.  um verdadeiro poema cmico? No; no se pode dizer isso na literatura que possui o Hyssope e as
  stiras de Tolentino, que so outros tantos poemas; mas, como amostra de um
  poeta de futuro, acho que deve ser lido o Roberto.

O Sr. Roussado mostra ter facilmente, e algumas vezes, graa na locuo; mas a designao de
  poema heri-cmico s poderia caber ao livro, quando todas as condies
  necessrias ao gnero estivessem preenchidas; no poeta cmico devem concorrer
  qualidades to superiores como no poeta pico, porque ambos os gneros se
  tocam, e daqui vem chamar Victor Hugo ao D. Quixote a Ilada cmica. Estas qualidades superiores no se nos descobrem no Roberto. Todavia, ocultar o que o Sr. Roussado tem de bom, fora injustia clamorosa; j assinalei
  a facilidade e graa do seu verso, acrescentarei que alguns pedaos do poema de D. Jaime foram parodiados com acerto
  e certa originalidade.

No Ateneu e no Ginsio deu-se uma
  comdia em 3 atos de Lambert Tiboust e Thodore Barrie.  uma composio
  burlesca, mas verdadeiramente chistosa, cheia de
  interesse e de lances cmicos, trazidos com sacrifcio de verossimilhana, mas
  tratados com uma verve inesgotvel. Uma crtica que no for muito exigente pode
  at achar no carter de Pincebourde algum estudo. O desempenho no Ateneu, onde a vi, pareceu-me, certas reservas de
  parte, muito satisfatrio.

Para
  terminar a histria da quinzena perguntarei ao leitor: - Conhece uma rvore,
  que Al ps em Java, como diz o Jo, por nome mancenilha, to malfica que d a morte a quem procura a
  sombra dela? O nome dessa rvore tomou-a para ttulo de uma comdia, em um ato,
  um jovem estreante na carreira dramtica, o Sr. J. Ferreira de Menezes. Qual 
  o objeto simbolizado no arbusto asitico?  o casamento, no na expresso
  absoluta, mas na prtica especialssima da unio de um rapaz incauto com uma
  mulher fria, vaidosa, preferindo as rendas e o carmim s santas carcias do
  matrimnio. Que assunto comum!  a histria de todos
  os dias, dir o filsofo imberbe ou o marido nas mesmas circunstncias. Seja,
  embora; comum no  de certo a comdia do Sr. Ferreira
  de Menezes, onde se perdoam as faltas ao par das muitas promessas e algumas
  boas realidades.

 evidente que um casamento nas
  condies apontadas no podia ser estudado em todas as suas fases, dentro dos
  limites de um ato. O Sr. Ferreira de Menezes no quis
  mais que traar uma silhueta, sem pretenso a fazer um estudo, o menos profundo
  que fosse da hiptese que figurou. Para apreciar a obra do Sr. Ferreira de Menezes  preciso no perder de vista esta circunstncia.

Mas esta circunstncia livra-o de
  culpa e pena? Sou amigo do poeta, e tenho, portanto, dois motivos para dizer
  francamente que no. Por desambiciosas que fossem as suas intenes, h
  condies rigorosas a que o poeta no se podia esquivar, e essas, entre os
  quais avulta a de precisar e definir os caracteres, no as teve o poeta como
  essenciais. Talvez que, desbravada a comdia das imaginaes e fantasias,
  aparea uma ou outra feio caracterstica das personagens, mas como ir
  procur-la atravs de tanta folha e flor enredada, ao capricho de um pensamento
  ainda no regulado pela arte?

O que resulta,  que o espectador,
  sem deslembrar a linguagem pouco amorosa de Margarida, no acha, em resumo, que
  houvesse motivo para as lamentaes de Victor e as prdicas de Ernesto; por
  quando h uma coisa a notar: Margarida  mais mancenilha pelas asseres de Ernesto e Victor de que por seus prprios atos; e quando na
  cena de converso ela se defende, tornando-se acusadora, se o espectador lhe
  no d razo, tambm no d razo ao poeta.

Este inconveniente, junto ao de
  cenas muito longas, tira  pea, no o interesse do espectador culto e
  paciente, mas o interesse da massa geral do pblico, com o qual se deve contar.

Feitos estes reparos, cumpre-me
  acrescentar que o autor da Mancenilha, com a
  sua comdia, obrigou-se solenemente a escrever novas peas; esta  apenas um
  ensaio, mas um ensaio onde o poeta, ao lado dos defeitos, mostrou verdadeiras
  qualidades. Sabe travar o dilogo, dar-lhe mesmo certo sabor e torneado que no
  so comuns em nossa cena; falta-lhe muitas vezes a conciso, to necessria ao
  efeito do teatro, de modo que lhe acontece diluir um pensamento em muitas
  palavras, ou vesti-lo de formas tais que escapa ao esprito da maioria dos
  espectadores.

A sua composio h de parecer
  melhor no livro, onde as delicadas fantasias do poeta podem entrar mais
  livremente no esprito, onde as suas qualidades sero melhor apreciadas, onde at, estou certo, aparecer certa limpidez que na exibio
  cnica me pareceu nula.

O Ateneu, levando a cena a Mancenilha, deu mais uma prova de que toma a sua misso
  como um empenho de honra, e que procura contribuir para o engrandecimento do
  teatro nacional com verdadeiro desvelo.

15 DE FEVEREIRO DE 1863.

Cinco ou seis dias depois da
  abertura da exposio fui  Academia das Belas Artes. Cuidava encontrar ali uma
  diminuta concorrncia, a dessa pouca gente que neste pas conhece a preza as
  artes. Calcule o leitor o meu espanto quando tive de atravessar aquelas salas
  desertas, onde as telas, as esttuas e os baixo-relevos pareciam olhar-se
  mutuamente como que desolados por to cruel abandono.

Provar este fato contra a
  Academia? Ter-se-iam desfeito as esperanas postas naquela escola to
  custosamente criada?

As propores deste escrito no
  permitem uma sria e detida anlise deste ponto; mas no deixarei de atestar
  duas coisas, uma contra, outra a favor da Academia; a primeira,  que realmente
  os resultados da Academia esto abaixo das esperanas e das legtimas
  previses; a segunda,  que esse malogro procura hoje a Academia atenu-lo por
  meio de alguns esforos. Todos os esforos sero poucos, e se a Academia no se
  convencer disto, demite-se de uma posio que pode vir a ser gloriosa, se for
  fecunda.

A exposio este ano foi aumentada
  com algumas cpias de obras-primas que esto nos museus da
  Europa. Entre essas cpias avulta a do corpo de Hrcules, desenterrado em Roma,
  no Campo di fiori e guardado hoje no museu do Vaticano.  o
  resto de uma esttua que devia ser admirvel,  vista do tronco mutilado e
  carcomido; nota-se mais Antinoo, cujo original existe no Capitlio; Apollonio, da Galeria de Florena; a Venus d'Arles da mesma; a Amazona e outras. So tambm dignos de ateno os trabalhos
  litogrficos oferecidos  Academia pelo prprio autor, o Sr. Brasscsat. So
  dois quadros: primeiro representa Uma luta
    de touros, o segundo Touros
      defendendo uma vaca.

Acham-se esses quadros na sala do
  vestbulo, onde tambm se encontram duas gravuras delicadas de execuo,
  representando uma A destruio de Jerusalm, e outra A disperso dos povos, cpias ambas de painis
  existentes no museu de Berlim.

Se penetrarmos na Sala de pintura,
  encontraremos em primeiro lugar alguns retratos do Sr. Carlos Luiz do
  Nascimento, conservador da Pinacoteca, dos quais dois apenas me pareceram
  completamente bons. Isto deve ser dito acompanhado de um louvor ao Sr.
  Nascimento pelos seus excelentes trabalhos de restaurao que o tornam artista
  notvel e indispensvel naquela escola.

O Sr. Victor Meirelles de Lima tem
  alguns quadros nessa sala, os quais, parecendo bons, no so notveis, pelo
  menos quanto  notvel a sua Cabea de
    estudo sob n. 7. O mesmo artista tem na exposio o seu quadro A primeira missa no Brasil, obra j
  conhecida, e que, a no ter desses defeitos sutis que no se revelam  minha
  incompetncia, me parece um painel excelente.

A exposio do Sr. Agostinho Jos
  da Motta peca por pequena e medocre; os seus retratos no so obras tais que o
  Sr. Motta, talentoso professor da Academia, preferisse s paisagens que to bem
  sabe pintar; quem o no conhecer e quiser julgar pela exposio deste ano, fica
  com uma idia muito aqum daquilo a que o seu talento tem direito.

Do Sr. Arsnio da Silva existem na
  exposio algumas paisagens onde h toques delicados e verdadeiramente
  artsticos; mas  pena que o seu pincel se escape em outros toques, por vezes
  to carregados, que fazem destacar no conjunto de seus painis.

A exposio do Sr. Emilio Bauch pareceu-me insignificante. A volta do
  casamento, no norte do Brasil,  um quadro de muito repreensvel execuo;
  o vagalho sobre que se levanta o batel do noivado parece solidamente
  construdo de madeira, tal o seu aspecto pesado e duro; se examinarmos a vela, a flmula e as roupas dos tripulantes da barca, acharemos que muitos ventos sopram naquele stio; ao passo
  que um impele o barco em uma direo, outro em direo oposta faz tremular
  brandamente a flmula ; e um terceiro brinca ao capricho do pintor com os
  colarinhos e as japonas da tripulao.

O quadro do Sr. Julio Le Chevrel Paraguass e Diogo lvares Correia tm coisas boas
  e coisas ms. A figura de Diogo Correia recebendo Paraguass das guas no tem expresso alguma; e uma cara morta; o mesmo acontece com a
  indgena. Como esteja Paraguass quase toda fora
  d'gua, quis-lhe o pintor espalhar pelo corpo umas gotas, mas to infeliz se
  houve no trabalho, que, trazida a figura ao tamanho natural, ficam aquelas
  gotas do tamanho de grandes ovos, seno que j o seu aspecto  o de enormes
  prolas; dissera-se que, ao salvar-se no bote de Correia, Paraguass rompera um colar de prolas que lhe vo rolando pelo corpo abaixo. H, alm
  destes, outros defeitos que no posso enumerar por me ir faltando espao e no
  t-los neste momento de memria.

Na exposio de escultura h um
  grupo do Sr. Lon Deprez de Cluny, representando Uma famlia de selvagens atacada por uma
    serpente. Os animais mortos que jazem no cho. So que h de mais notvel
  neste grupo: o mais ou regular ou falso; na ordem do falso est a indgena, cuja cara com uma leve correo fica puro
  caucasiano.

 digno de nota o busto em mrmore
  do Sr. conselheiro T. G. dos Santos, e digno de
  animao o artista que o fez, que  o Sr. Jos da Silva Santos.  um dos
  melhores trabalhos da Academia.

Na exposio dos artefatos da
  indstria nacional sobressaem os trabalhos de fundio de ferro e bronze do Sr.
  Miguel Couto dos Santos e a encadernao da Constituio Belga, obra do Sr. J. B. Lombaerts.

Naturalmente, escrevendo alguns
  dias depois da minha visita  exposio, deixo de mencionar alguma coisa que
  talvez merea essa distino, mas nem j, agora  dado remediar o mal, se mal
  h nisto, nem eu quisera por modo algum tornar estes simples apontamentos da
  minha crnica em revista crtica de Artes liberais.

A quinzena que findou foi
  puramente artstica e literria. Passo s notcias literrias. Tenho em
  primeiro lugar nas minhas notas as Produes
    poticas de Francisco Jos Pinheiro Guimares, grosso volume contendo o Child-Harold e o Sardanapalo, de Byron, o Roubo da Madeira de Pope,
  e o Ernani de Victor Hugo.

O nome de
  F. J. Pinheiro Guimares  conhecido por quantos estimam e prezam as letras;
  mas sinceramente creio que a nomeada do finado poeta no est na altura de seu
  brilhante talento.  que esse talento curava pouco de publicidade; e poetizava
  por natureza, como as flores dimanam cheiros, como uma necessidade fatal, sem
  que o pensamento de glria o preocupasse e fizesse pensar detidamente no
  futuro. Desta desambio, to rara quanto funesta, deriva o nenhum caso que o
  poeta parecia fazer de seus versos, mal os acabava, como nos comunica o Sr. Dr.
  Otaviano no prefcio do livro.

Se as Produes Poticas so, portanto, uma revelao para muita gente,
  para todos quase  certo, que essa revelao  das mais indisputveis. Uma
  locuo menos branda, um verso menos correto, so defeitos esses que o leitor
  perspicaz no deixar de notar nas tradues mais de uma vez; mas o poeta no
  desceu s terras chs de reviso literria, e essa  a explicao da ausncia
  de outras belezas que a obra viria a ter. Em qualquer caso serve a declarao
  do autor do prlogo de que o poeta nacionalizou brasileiro a trs poetas.

As dores da ptria inspiram sempre
  as almas poticas; e a musa, nas crises nacionais, sabe erguer a sua voz como
  um protesto solene e uma suprema consolao. Revelao para mim e para muita
  gente foi o folheto de versos patriticos publicados por L. Varela. Dizem ser
  este moo um estudante de direito, e ter j, escrito e publicado outros versos.
  No me lembro de t-los lido; o talento que escreveu os versos patriticos,
  onde quer que se revelasse, devia deixar um perfume
  prprio para se no esquecer.

Os Cantos patriticos merecem, pois, de
  minha parte uma dupla ateno, por seu mrito intrnseco e por serem os
  primeiros versos do poeta que conheo. Essa ateno j, eu lhe dei, lendo-os,
  relendo-os, conservando-os entre os livros mais do meu gosto. Segue-se daqui,
  que os Cantos sejam obra perfeita,
  que no haja ali certa pompa extrema e afetada, defeito de forma s vezes, e s
  vezes vulgaridade de pensamento? Dizer que no, seria enunciar o que no est
  no meu esprito; e eu antes de tudo devo a verdade ao poeta. Mas, a par dos
  defeitos dos seus cantos patriticos, h belezas dignas de apreo; moo como 
  o Sr. Varela tem diante de si um futuro que a
  aplicao e o estudo dos mestres tornar glorioso.

Com a publicao do IX volume da Biblioteca Brasileira, termino a parte
  literria da quinzena.

Contm este volume a primeira
  parte do romance do meu finado amigo Dr. Manoel Antonio de Almeida, Memrias de um sargento de milcias. A
  obra  bem conhecida, e aquela vigorosa inteligncia, que a morte arrebatou
  dentre ns, bastante apreciada, para ocupar-me neste momento com essas pginas
  to graciosamente escritas.

Enquanto se no renem em volume
  os escritos dispersos de Manoel de Almeida, entendeu Quintino Bocaiva dever
  fazer uma reimpresso das Memrias, hoje raras e cuidadosamente guardadas por
  quem possui algum exemplar.  para agradecer-lhe esta piedosa recordao do nosso
  comum amigo.

1 DE MARO DE 1863.

Entre os poucos fatos desta
  quinzena um houve altamente importante: foi a supresso da procisso de Cinzas. Em 1862, logo ao comear a quinzena, publicou
  uma das folhas dirias desta Corte um artigo pequeno, mas substancial, no qual
  uma voz generosa pedia mais uma vez a supresso das procisses, como nocivas ao
  verdadeiro culto e filhas genunas dos cultos pagos. Nem o autor, nem o mais
  crdulo dos seus leitores, acreditaram que essa usana fosse suprimida; e a
  mesma grosseria, o mesmo fausto, o mesmo vo e ridculo aparato passou aos
  olhos do povo sob pretexto de celebrar os sucessos gloriosos da Igreja.

Em um jornal poltico, publicado
  ento, e cujo 2. nmero acertou de sair na sexta-feira da Paixo, veio incerta
  uma carta ao nosso prelado, menos eloqente e erudita, mas to indignada como o
  artigo a que me referi. Assinavam essa carta umas trs estrelas, ocultando o
  verdadeiro nome do autor, que era eu. O desgosto que me comunicara o primeiro
  articulista, aumentando o que eu j tinha, deu nascimento a essas linhas, em
  que eu fazia notar como prejudiciais ao esprito religioso essas grosserias
  prticas, mais que prprias para produzir o materialismo e a tibieza da f. Era
  simplesmente um protesto, sem pretenso de sucedimento.

Para acreditar possvel uma
  reforma completa que faa do culto uma coisa sria, tirando-lhe o aparato e as
  empoeiradas usanas, era preciso admitir no clero certa elevao de vistas que
  infelizmente no lhe coube na partilha da humanidade. Sem exagerao, o nosso
  clero  tacanho e mesquinho; nada enxerga para fora das paredes da sacristia,
  metade por ignorncia, metade por sistema. Notem bem que eu no digo fanatismo
  ou excesso de f. Neste desnimo, foi uma verdadeira e agradvel surpresa a resoluo
  tomada pela respectiva ordem, de suprimir a procisso de Cinzas, principalmente
  pelas razes em que se fundou a resoluo e que concluem do mesmo modo que as
  censuras dos verdadeiros catlicos.

Esta novidade, tanto mais admirou
  quanto a Cruz, jornal religioso desta Corte, rgo do clero, dando a notcia,
  se aliou um tanto s idias que tinham determinado a resoluo.

No h louvor bastante para essa
  resoluo; as procisses, no as aturam um nimo religioso e civilizado; no
  fazem vir, desgostam a verdadeira f, e, em troca disso,  positivo que no do
  proveito algum.

Vinha a
  propsito refletir sobre a educao religiosa do nosso povo; apreciar a maneira
  por que se lhe incute a f, fazendo o espetculo e o fausto profano quilo que
   servio do ensino e da palavra crist. No h melhor caminho para o
  materialismo, para a indiferena e para a morte da f.

Deve instalar-se brevemente uma
  utilssima associao de homens de letras.  coisa nova no pas, mas de tal
  importncia que me parece no encontrar o menor obstculo. Trata-se de
  instituir leituras pblicas de obras originais; para isso convidam-se os homens
  de letras residentes nesta Corte; talvez a esta hora a
  instalao seja coisa feita.

A
  iniciativa pertence a um distinto e erudito escritor que afaga a idia de h
  muito e que uma vez por todas se lembrou de pratic-la ou abandon-la, se no
  tivesse aceitao.

No creio que to nobre esforo
  seja sem efeito.

Naturalmente na prxima crnica
  estarei habilitado a falar dessa associao e das bases que houver adotado at
  l, fico pedindo ao Deus dos escritores, se h um especial para eles, que
  ampare e d vida a to proveitosa idia. Afazer o povo
  leituras ss, educ-lo no culto do belo, ir-lhe encaminhando o esprito para a
  reflexo e concentrao, trocando as diverses fceis pela aplicao
  proveitosa, eis a em resumo os grandes resultados desta idia.

A direo do Ateneu Dramtico fez
  h tempos uma excelente aquisio. Para dar comeo ao ensino prtico, que faz
  base do seu programa, convidou o Sr. Emilio Doux,
  que vai ensinar aos artistas ali contratados os preceitos da arte, acompanhando
  esse ensino as diferentes peas que se forem representando.

 claro que nas circunstncias em
  que nos achamos relativamente a teatro, este ato pode ser fecundo de
  resultados, e  digno de meno. Ele prova que a direo do Ateneu Dramtico aceita o cargo que se imps, com uma misso de
  progresso, e que procura por todos os meios a seu alcance chegar a resultados
  definitivos.

No so, portanto, auxiliares que
  faltam ao governo, se ele quiser tomar a peito a criao de um teatro normal; a
  insistncia da iniciativa individual, que d to acertadas providncias, esta
  indicando que o pensamento do governo pode encontrar hbeis mos executoras.

O Ateneu Dramtico, se perecer no
  meio dos esforos, ficar como um grande exemplo de coragem, de trabalho, de
  amor ao progresso, e o que  mais, um exemplo de verdadeiro progresso.

 fora terminar; termino, no sem
  convidar o leitor a ir ouvir a Risette do Alcazar.
  Houve gente de mau gosto que procurou fazer crer que esta no  a verdadeira Risette.

Eh ! non, non, non,

Vous n'tes pas Risette...

No sei; no lhe vi a certido de
  nascimento; mas se no  a tal Risette,  uma grande Risette, com certeza.

Tenho a honra...

15 DE MARO DE 1863.

Falei na minha crnica passada de
  uma reunio literria para instituir leituras pblicas. Essa reunio no se
  efetuou como era de desejar, mas, pelo que me consta, trata-se de dar comeo a
  propaganda da idia. J a aplaudi rpida e sinceramente. O que tenho de fazer
  agora  transcrever aqui a carta pela qual o Sr. A. de Pascual, iniciador da
  idia, convidou para a reunio o poeta A. E. Zaluar.
  Nessa carta vo, apontados a utilidade e os exemplos das leituras pblicas. O
  leitor, se  literato, fica convocado por ela:

"Meu caro Zaluar,

Foram os primeiros leitores
  pblicos os homens de letras da livre e pensadora Grcia: Plato, Pitgoras e
  Aristteles, Epicuro e Homero doutrinaram o povo, nas
  alamedas, nos jardins acadmicos e peripatticos, e
  mesmo mendigando nas ruas.

Esse modo popular de instruir o
  povo, deleitando-o e acostumando-o ao belo, passou por muitas modificaes at atermar-se nas universidades da idade mdia.

O brado protestante dos
  reformadores alemes tornou popular o ensino dos gregos: Lutero, Heiss, Calvino, Melanchton, Zwinglio, etc., foram leitores pblicos, mas o
  exclusivismo da Igreja Catlica cortou as asas da leitura feita s massas, e
  limitou-a as acanhadas propores da universidade, do Port-Royal e do templo, contrariando assim as tradies da sabedoria helnica e da
  liberdade crist. No deixou ouvir mais as vozes dos Paolos nas praas e encruzilhadas, nem outorgou o direito do livre pensamento, sufocando
  nas fogueiras pblicas da Inquisio as centelhas do esprito humano ilustrado.

A revoluo francesa, e o sistema
  constitucional dela oriundo, as modificaes liberais por que passaram os
  sculos 18 e 19, ressuscitaram esse elemento de
  propaganda instrutiva para os povos, adotando a raa alem e anglo-saxnica,
  pensadora e livre, o que haviam abafado os dominadores dos sculos baixos e
  supersticiosos.

Sem pretender remontar-me aos
  primeiros tempos da Inglaterra livre - Cromwell; da Itlia dos Machiaveli da Frana de 1793; da Espanha comuneira do sculo 16
  (1520) e da Alemanha protestante, direi que na atualidade primam como leitores
  pblicos homens de estado consumados, literatos de primeira ordem, clrigos de
  acentuada inteligncia, e fidalgos de antigos brases.

Lord Derby, M.Gladstone, Lord John Russell e Lord Palmerston do leituras
  pblicas nos nossos dias, nos centros populosos da Gr-Bretanha.

Charles Dickens, o romancista ingls por antonomsia,
  d-as agora mesmo em Paris; o sbio Dr. Simons, alemo, fez em 1850 uma pingue fortuna nos Estado Unidos; Kossuth, o governador da Hungria em 1848, o abade Gabazzi, o
  clebre padre Ventura e muitos outros no menos conhecidos talentos deram e do
  leituras em Paris, Londres, nos Estados Unidos, na Itlia e mesmo na pantesta
  Alemanha, onde esta classe de instruo popular tem alcanado o auge da
  popularidade.

V. sabe que nos Estados Unidos, na
  Inglaterra e nas grandes cidades alems so preferidas estas leituras de
  viagens, novelas, biografias, histria e cincias aos teatros, ateneus e
  templos, devendo-se notar que o povo paga para ouvir os leitores com maior
  gosto do que para assistir grtis aos templos e academias.

As vantagens derivadas destas
  leituras so imensas e eminentemente populares, e ao seu talento deixo o
  desenvolvimento de to interessante tpico.

A indstria intelectual no pode
  por enquanto, -- balda de fervorosos apstolos, -- arcar com o charlatanismo dos
  especuladores da matria, traduzido em divertimentos pblicos; mas, tende f na
  inteligncia, e lutai com denodo para tornar familiar entre as massas a instruo, de que tanto carecem para apreciar no seu justo
  valor a prpria dignidade de seres intelectuais e livres."

Dizer mais e melhor relativamente
   idia, me parece trabalho entrego essas linhas  reflexo do leitor.

Tenho
  presente dois livros; ambos novos, ambos portugueses. Um  o Esboo histrico de Jos Estevo, por Jacintho Augusto Freitas de Oliveira. Escrpulos de
  conscincia me fazem confessar a verdade, e vem a ser que eu, deste volume, no
  li mais do que uma dzia de pginas. Se isto no basta para julgar da
  fidelidade com que o autor apreciou os acontecimentos polticos que cercam a
  vida de Jos Estevo,  suficiente para adquirir-se a certeza de que o finado
  orador portugus encontrou no seu bigrafo o mais sincero e entusiasta
  admirador dos seus talentos e das suas grandes qualidades polticas.

Notarei que o Sr. Freitas de
  Oliveira no se iludiu sobre o dever que lhe incumbia a resoluo de escrever
  sobre Jos Estevo; e  de ver-se a honestidade com que no prlogo declara que
  no lhe vo exigir imparcialidade, porque escreve com as lgrimas nos olhos
  pela perda do amigo.

O volume, contendo quatrocentas
  pginas, encerra alguns fragmentos dos admirveis improvisos de Jos Estevo.
  Relendo essas pginas, desentranhadas do todo das oraes, trazidas para o
  livro, na ordem dos sucessos, mais uma vez se v quanto perdeu a tribuna
  poltica de Portugal na morte do fundador da revoluo de setembro...

A afeio que o Sr. Freitas de
  Oliveira protesta no prefcio da obra  confirmada nas poucas pginas que tal 
  o respeito e a admirao filiais com que o autor fala do extinto orador. As
  suas escusas literrias  que se no confirmam: o livro me parece bem escrito;
  e para concluir, acrescentarei que certas consideraes gerais que acabo de
  passar pelos olhos notam-se tanto pelo fundo de verdade, como por certa
  aspereza de tom perfeitamente cabida no que fala em nome da probidade e da
  coerncia poltica.

O outro tem por ttulo Luz coada por
  ferros.  uma srie de romances da Sra. D. Anna Augusta Plcido. Traz na
  frente o retrato da autora.

M idia essa, que previne logo o
  esprito em favor da obra, por no poder a gente conciliar a idia de piores
  produes com to inteligentes olhos. Felizmente que a leitura confirma os
  juzos antecipados. A Sra. D. A. A. Plcido  o que dela disse o Sr. Julio Csar
  Machado no prefcio da obra, para o qual remeto os leitores.

A sensibilidade  o primeiro dom
  das mulheres escritoras; a autora de Luz
    coada por ferros possui esse dom em larga escala; h perodos seus que
  choram e fazem comover pelo sentimento de que se acham repassados; outras vezes
  a escritora compraz-se em nos fazer enlevar e cismar.

, talvez, por isso que no tem
  nota, se os h dos senes do livro. Do nome e da obra tomei nota como obrigao
  firmada para futuros escritos.

Uma mulher de esprito  brilhante
  preto; no  coisa para deixar-se cair no fundo da gaveta.

Estou no captulo das escritoras.
  Depois da portuguesa a vem a brasileira,
  contemporneas no aparecimento, para confirmar, na ordem literria, a
  coincidncia que se verifica muitas vezes na ordem poltica entre os dois
  pases.

Com o ttulo de Gabriela,
  representou-se ultimamente no Ginsio um drama da Sra. D. Maria Ribeiro.
  Circunstncias especialssimas no me permitiram assistir a essa estria, o que
  no importou nada a certos respeitos, visto que eu j conhecia a pea em
  questo.

Fez-me a
  Sra. D. Maria Ribeiro a honra de comunicar a sua pea antes da exibio.
  Transmiti-lhe as minhas impresses em uma carta, impresses e no juzo, que
  tal no me cabia na ocasio fazer. Essas impresses foram das melhores, e, se
  no me fosse faltando espao, as reproduziria aqui sucintamente.

A esta hora tero as grandes folhas
  dado o seu juzo acerca da pea; creio que sero unnimes e acordes comigo,
  salvo meros reparos de pormenores.

Dando sinceros parabns a Sra. D.
  Maria Ribeiro e  literatura nacional, conto e espero, como espera a segunda, novas e cada vez melhores irms de Gabriella.

1. DE ABRIL DE 1863.

Um livro de versos nestes tempos, se
  no  coisa inteiramente disparatada, no deixa de fazer certo contraste com as
  labutaes dirias e as gerais aspiraes. E note-se que eu j no me refiro 
  censura banal feita s vistas burguesamente estreitas da sociedade, por meia
  dzia de poetas, que no meio de tantas transaes polticas, religiosas e
  morais, recusam transigir com a realidade da vida, e dar a Csar o que  de
  Csar, tomando para Deus o que  de Deus.

Eles dizem que essa mutualidade
  por transao do real e do ideal, em tais condies, abate a poro divina que
  os anima e os faz indignos da coroa de fogo da imortalidade.

Tm razo. Mas as aspiraes a que
  me refiro, qualquer que seja o seu carter prtico, no dispensam a interveno
  do esprito, e ento, no transigir com ela,  abrir um combate absurdo. H
  quem diga com desdm que este sculo  do vapor e da eletricidade, como se
  essas duas conquistas do esprito no viessem ao mundo como dois grandes
  agentes da civilizao e da grandeza humana, e no merecessem por isso a venerao
  e a admirao universal.

O que  certo, porm,  que em
  nosso pas e neste tempo  coisa rara e para admirar um livro de versos, e,
  sobretudo um livro de bons versos, porque maus, sempre h quem os escreva, e se
  encarregue, em nome de outras nove musas, que no moram no Parnaso, mas
  algures, de aborrecer a gente sria e civilizada. Veja, pois, o leitor com que
  prazer e aodamento venho hoje falar-lhe de uma
  coleo de versos e bons versos!

O Sr. Augusto Emilio Zaluar, autor das Revelaes,
  o volume a que me refiro,  j conhecido de todos para que eu me dispense de
  acrescentar duas palavras  opinio geral.

As Revelaes contm muitas poesias j
  publicadas em diversos, jornais, mas conhecidas umas por uns, outras por
  outros, de modo que, reunidas agora, se oferecem, passe a expresso, ao estudo
  de uma assentada.

No intento, nem me cabe fazer
  juzo crtico da obra do poeta. Entendo que o exame de uma obra literria exige
  da parte do crtico mil qualidades e predicados que poucas vezes se renem em
  um mesmo indivduo, havendo por isso muita gente que escreva crticas, mas
  poucos que meream o nome de crticos.

Dizer quais as impresses
  recebidas, como um simples leitor, no to simples como o bufarinheiro, tenho a
  vaidade de sup-lo, eis a a que me proponho e o que devo fazer sempre que por
  obrigao tenha de falar de algum livro.

Este que tenho  vista tem direito
  a uma honrosa meno. Se h nele poesias a que se poderia fazer mais de uma censura,
  se em algumas delas a inspirao cede  palavra, h outras, a maior parte, to
  completas que bastariam para coroar poeta a quem no tivesse j essa
  classificao entre homens.

Na Harpa Brasileira encontramos uma parte destas. A Casinha de sap  um fragmento potico dos mais completos do
  livro. A inspirao desliza entre a expresso franca e ingnua como o objeto da
  poesia. O esprito acompanha o poeta por entre os bosques sombrios onde

Uma casinha se v

Toda feita de sap.

O contraste da solido com o rudo
  remoto do mar e do vento  descrito em poucos e lindos versos; a lembrana do
  passado, a descrio da casa abandonada e a melancolia do stio, cantada em
  versos igualmente melanclicos, tudo faz dessa composio uma pea acabada.

O Ouro,
  que se segue,  composio das mais conceituosas. O Filho das florestas d em resultado uma conquista de verdadeiro
  poeta.

Se o fundo no  inteiramente
  novo, a forma substitui pela conciso, pela propriedade e at pela novidade,
  uma dessas moralidades poticas, prprias dos poetas pensadores que se
  distinguem dos poetas individuais em nos no cantarem eternamente as mesmas
  mgoas.

A famlia, A minha irm, Confisso, etc.; so outras poesias que se destacam do livro
  por um mrito superior. De resto, tenho uma censura a fazer ao poeta, ou antes,
  so os seus admiradores que lhe fazem; e vem a ser, a de ter dado entrada no
  livro a muita poesia alheia. Se esse fato nos traz ao conhecimento pedaos de
  boa poesia, no  menos verdade que toma o lugar que poderia ser ocupado com
  igual vantagem pelo autor.

O livro do Sr. Zaluar merece ser lido por todos quantos apreciam poetas. Marca grande progresso sobre
  o seu primeiro volume Dores e Flores e revela bem que o poeta chegou  maturidade do seu talento.

Cifra-se
  nisto toda a bagagem literria da quinzena. Canta-se ou pensa-se a largos
  intervalos no nosso pas. Anncio tenho eu de boas
  novas. As folhas do Maranho do como a imprimir-se uma traduo da Guerra
  Gaulesa feita pelo erudito e elegante escritor maranhense Dr. Sotero dos Reis.

 excesso acrescentar uma palavra
  a esta notcia; o nome do tradutor  uma garantia da obra, como  uma das
  honras da terra de Gonalves Dias, Lisboa e Odorico.

Para no impedir o leitor de ir
  assistir aos ofcios da semana santa, devo concluir despedindo-me at depois da
  Pscoa.

Avisam-me agora que o no faa sem
  inserir nestas pginas o seguinte bilhete.  de um amigo meu:

"Boa nova! O Garnier abriu assinaturas para a
  publicao de um poema do padre Souza Caldas, obra encontrada nas mos de um
  herdeiro de seus numerosos escritos, e inteiramente inditos."

Satisfeito
  o pedido, convido o leitor a verificar por seus prprios olhos a notcia do meu
  oficioso correspondente.

15 DE ABRIL DE 1863.

O mavioso Petrarca da Vila Rica
  deixou uma vez as liras apaixonadas, com que honrava a amante do seu corao,
  para tomar a chibata da stira, e com ela sacudir a toga respeitada do
  governador de Minas.

O que era um governo no tempo de el-rei nosso senhor, de que
  poderes discricionrios se revestiam o representante da soberania da Coroa, 
  coisa por demais sabida.

O de Minas estava naquele tempo
  nas mos de D. Luiz Menezes. Gonzaga viu quantos perigos lhe estavam iminentes
  se atacasse face a face com o colosso do poder; mas a vida e a administrao do
  governador estavam pedindo um protesto da sua musa. Resolveu escrever a parte
  anedtica do governo de Minas em cartas que intitulava Cartas Chilenas e que visavam um governador do Chile. Com esse
  disfarce pde salvar-se e mandar  posteridade mui preciosos documentos.

Ao Sr. Dr. Luiz Francisco da Veiga
  se deve a exumao das Cartas Chilenas, mal
  e insuficientemente conhecidas, e que o digno brasileiro tirou da biblioteca de
  seu pai para p-las completas na biblioteca da nao.

Este servio s letras e 
  histria d-lhe pleno direito de aliar seu nome ao de uma to importante obra.
  Se, em vez de ir parar s suas mos inteligentes e desveladas, os manuscritos
  das Cartas Chilenas cassem na posse
  de alguns indiferentes, certo que no teramos hoje esses documentos, de cuja
  importncia o Sr. Dr. Veiga se acha plenamente convencido.

Embora publicadas umas nove cartas
  em uma gazeta antiga, o fato de serem elas treze torna esta edio, que as traz
  completas, digna do interesse que despertou nos que
  estimam as coisas ptrias. Que esses animem e auxiliem o Sr. Dr. Veiga na
  investigao dos preciosos documentos de que diz estar cheia a sua biblioteca.
  Se para os plucheurs de obras fteis for servio esse de medocre valor e nulo interesse, certo que
  o no  para a gente sria, isto , a competente para julgar de tais coisas.

Outra publicao da quinzena,
  digna de ateno pelo que encerra, posto que censurvel pelo que no encerra, 
  o XI volume da Biblioteca Brasileira que se intitula: - Apontamentos histricos, topogrficos e descritivos da cidade de Paranagu, pelo Sr. Demetrio Accio
  Fernandes da Cruz.

Abstendo-se inteiramente de
  consideraes detidas e observaes mais profundas, o autor d numerosa notcia
  de tudo quanto pode fazer conhecer a cidade de Paranagu sob o trplice ponto
  de vista indicado pelo ttulo.

Tudo, fundao, descrio
  topogrfica e hidrogrfica, zoolgica, mineralogia, indstria, populao, tudo
  enfim quanto pode dar um conhecimento exato da cidade de Paranagu se acha
  naquele livro.

Atendendo, sobretudo  aridez do
  trabalho, deve-se agradec-lo ao autor, e dar como um exemplo a outros
  trabalhadores que faam o mesmo a respeito de todos os recantos do imprio.

Fecha a lista das publicaes, na
  ordem cronolgica, o primeiro volume do Calabar,
  romance do Sr. Mendes Leal, que est sendo publicado no Correio Mercantil.

No me proponho a avaliar, por
  incompetncia e por inoportunidade, visto que a obra
  no est concluda, o alcance e a verdade histrica desta novela; o que desde
  j posso deixar afirmado, embora no seja novidade,  que essas pginas
  consagradas pelo ilustre autor da Herana
    do Chanceler a um perodo importante da histria brasileira, so escritos com aquele vigor e colorido, atributos da sua
  pena e por tantas pginas derramadas.

A redao do Correio Mercantil no pode receber seno muitos emboras pela publicao do Calabar.

Vai-me faltando espao e eu devo
  falar ainda de uma nova pea representada no Ginsio Dramtico. A ninhada de meu sogro intitula-se ela;
   dividida em 3 atos, e parafraseada do francs pelo
  Sr. Dr. Augusto de Castro.

A modstia e o receio do seu
  autor, que nem ousou chamar-lhe comdia, tiram-me o cabimento de uma severa
  crtica. Sem outra pretenso mais do que fazer rir, o Sr. Dr. A. de Castro,
  parafraseou o original francs, procurando dar as nuanas necessrias  nova
  pea cuja ao faz passar na sociedade brasileira.

No entro na investigao do grau
  e da medida em que o autor se afastou ou aproximou do original;  claro que as
  aluses locais no constituem cores locais, e o que ouvi na representao da Ninhada de meu sogro, no me d notcia
  perfeita da parte tomada ou deixada  comdia francesa, que eu nem conheo.

O que importa, porm, desde j
  para mim,  a meno de uma convico que tenho de h muito e que desejara que
  fosse compartida geralmente. Tenho esses trabalhos de imitao por inglrios.

O que se procura no autor
  dramtico , alm das suas qualidades de observao, o grau de seu gnio
  inventivo; as imitaes no podem oferecer campo a esse estudo, e tal
  inconveniente  altamente nocivo ao escritor, seno imensamente prejudicial 
  literatura.

Esta convico se influi no meu
  julgamento da pea, no influi no juzo que eu possa fazer do autor. Quero crer
  que, por uma lealdade literria que lhe  imposta, a transladao do assunto da
  comdia francesa fosse feita na medida conveniente s suas vistas de autor
  dramtico; e creio, porque ouvi, que h na sua comdia
  pedaos de merecimento.

1. DE MAIO DE 1863.

Os extremos tocam-se, dizem. Eu,
  de mim, acho que  uma verdade; e, para no ir alm da aplicao que ora me
  convm, lembro apenas que os pequenos infortnios tm um ponto de contato com
  as grandes catstrofes; e a bancarrota de um negociante de grosso trato no o
  afligir mais do que me aflige o desfalque de assunto para a crnica desta
  quinzena.

Afligia-me, devo eu dizer; porque
  a boa estrela que preside aos meus dias, sempre me depara, na hora arriscada,
  com uma tbua de salvao.

Desta vez a tbua de salvao 
  uma carta, uma promessa e uma notcia. - Parecem trs coisas, mas no so,
  porque a notcia e a promessa vo includas na carta.

A notcia  de um romance por
  fazer; e  promessa que me fez em uma carta um amigo a cujos escrpulos de
  modstia no posso deixar de atender; e de quem no
  posso assoalhar o nome.

Estou certo que o leitor no
  levaria a mal que eu desse neste ponto dois dedos de conversa acerca do meu
  salvador. Nada lhe direi; e a razo  que uma pintura viva e completa daria em
  resultado imediata contestao do retratado. Sucintamente posso dizer-lhe que
  s por vergonha  que o meu amigo no se faz anacoreta; mas se jamais veio ao
  mundo um homem com disposies  vida solitria e contemplativa  aquele; olha
  os homens por cima do ombro e prefere-lhes muito e muito as rolas e as
  cegonhas. Das cegonhas fala aplicando sempre a observao de Chateaubriand,
  "que as vi saindo aos bandos da pennsula grega para frica, do mesmo modo por
  que saam no tempo de Pricles e de Aspsia. Tal  o contraste da mobilidade
  das coisas humanas com a imobilidade do resto da natureza", acrescenta o autor
  dos Mrtires e o meu amigo adere do
  fundo d'alma a essa opinio. Pelletan tiraria de fato uma concluso favorvel 
  humanidade; mas o meu estranho amigo pensa diversamente e acredita de convico
  que esta com a verdade.

No conteste o leitor, porque eu
  fao o mesmo.

"Meu amigo,
  escreve-me ele,  fora de no pensar no que me rodeia, atingi a um estado de
  desapego s coisas da vida que s vezes me acredito o nico escapo de um cataclisma universal. Imagina com que sabor volto de quando em quando o pensamento para os sucessos do
  tempo.  uma nova ocasio de confirmar-me nas minhas anteriores impresses."

Dias passados lembrei-me de ser
  poeta. V l a que ponto cheguei! Tomo a poesia como
  uma coisa dependente da vontade, como a construo de um prdio ou a fabricao
  de um pergaminho.

"Deixa passar a heresia."

Lembrei-me de ser poeta; e como
  no tenho vocao para isso, atribuirs tu esta
  disposio do esprito ao amor. O amor! Posso eu senti-lo? Reparo s vezes no
  cuidado com que, em todas as lnguas que conheo, esta palavra  construda!
  At as mais duras, como a de Pope,
  encontram o seu melhor som para exprimir este sentimento. Mas existe ele?
  Existe como deve ser, despido de toda a preocupao terrena, puro como o resumo
  que  de todos os outros amores? Nos livros dos poetas, de certo; na
  humanidade, no acredito.

E como no acredito, lembrei-me de
  escrever algumas pginas onde me ocupasse do contraste flagrante que h entre o
  sentimento e as hipteses do fato. Imaginei um Plades, trs
    Orestes e uma Safo. Que se pode fazer com estas cinco
  figuras? Um romancinho, mais ou menos acidentado. O amor de Plades e Safo; o amor de Safo e
  dos Orestes; a alternativa constante desta balana que se chama vida, cujas
  conchas se levantam e se abatem por singulares disposies do acaso e da
  criatura. Adubo a narrao com a pintura do sofrimento de Plades, e, se me parecer, acabo por faz-lo
  lorpa de corpo e de alma, o que no ser novo, mas ser agradvel de ler,
  porque no faz chorar. Que me dizes ao pensamento? No d para cem pginas de
  oitavo? Penso que sim; j tenho algumas folhas de papel escritas; no sei se
  acabarei; talvez acabe; e ento posso colocar a minha obra sob a proteo da
  tua amizade, que a far inserir no Futuro.

"Talvez achem a histria muito
  velha; responderei que ainda assim  bom repetir essas coisas; e como eu tenho
  de encarar a histria por um ponto de vista pouco explorado, naturalmente lhe
  ho de achar novo sabor. Teu S."

Fico
  implorando o deus dos poetas para que esta promessa se torne todo o caso,
  embora no venha a obra prometida, ganho eu com ela que me forneceu matria
  para encher as pginas da minha crnica.

15 DE MAIO DE 1863

Se me fosse dado escrever uma
  crnica poltica, esta seria de todas as minhas crnicas a mais farta e a mais
  interessante. Com efeito, a situao a que ps termo o decreto de 12 do
  corrente marca, na histria do imprio, um dos mais graves e embaraosos
  momentos; e a mais simples exposio do meu pensamento, em relao  gravidade
  do caso e ao alcance da medida, bastaria para encher o espao de trs crnicas.

Os ingleses tm, entre outras
  manias, a mania de grandes e singulares apostas. No menos ingleses foram
  muitos dos nossos polticos que, confiado cada qual na sua impresso ou na sua
  esperana, lanaram-se aventura e ao azar da fortuna. Qual,
    apostava cem bilhetes da loteria afirmando a conservao da cmara
  temporria; qual, punha a sua fortuna em jogo, se algum a quisesse aceitar,
  afirmando a conservao do gabinete; e neste movimento escoaram-se os dias que
  mediaram entre a abertura do parlamento e a dissoluo da cmara.

Os mais
  espertos, dos tais que vivem

... aux dpens de celui qui l'coute, afirmavam, uns
  a dissoluo, outros o adiamento, outros a queda dos ministros, isto com um ar
  de iniciados nos segredos de cima, que faria rir ao mais grave e sisudo deste
  mundo.

O que  certo  que o ano de 1863
   e h de ser fecundo
  em acontecimentos. Aguardamos
  o que vier, e deixemos
  a apreciao do decreto de 12 de maio, no sem registr-lo como uma data de
  regenerao. Fora da arena poltica nenhum acontecimento de alta importncia
  prendeu a ateno pblica; e se algum houve no teve o devido efeito em meio de
  to graves preocupaes.

Estava eu nestes cuidados, quando
  recebi uma carta acompanhada de um rolo de papel.

A carta
  dizia:

"A vo as pginas que te prometi.
  No contando que desses  publicidade  minha carta,
    guardava-me para concluir mais detidamente este trabalho. J que foste
  indiscreto, paga a culpa da tua indiscrio. O que a vai foi escrito s
  pressas; podia valer um pouco mais; assim nada vale.  do teu dever publicar
  estas linhas, e do meu assinar-me - Teu amigo - S."

Abri o rolo e li na primeira
  pgina: Um parnteses na vida. A obsequiosidade do meu amigo Faustino de Novaes veio em meu auxlio: o comeo de Um parnteses na vida vai publicado neste volume.

Essa novela  um fato pessoal, ou
  pura imaginao de poeta?

Tentei resolver este problema;
  procurei atravs de cada perodo a realidade ou a fantasia do assunto, e
  confesso que fiquei sabendo o que sabia. Seja como seja, leia o leitor o conto
  e julgue-o como lhe parecer.

Com a chegada do inverno vai o
  pblico dispensando alguma ateno com os teatros. O lrico, alm dessa
  circunstncia, tem a seu favor o fato de haver contratado novos artistas. Entre
  estes, figura o bartono portugus Antonio Maria Celestino.

A circunstncia da sua
  nacionalidade que, por costumes e lngua to irm  da nossa, serviu-lhe de
  senha para a simpatia pblica. Sobre isso valeu-lhe o
  seu mrito intrnseco; e o aplauso pblico coroou-lhe os louvveis esforos.

As reflexes que me sugere o
  teatro lrico, as apreenses que nutro acerca dele, e que peo licena para no
  divulgar, levam-me naturalmente a consideraes gerais a respeito do teatro.
  Tudo, porm, desaparece momentaneamente, diante de um caso triste: o ator Joo
  Caetano dos Santos acha-se gravemente enfermo.

Deve ser indiscutvel para todos o mrito superior daquele artista; e as naes que
  sabem fazer caso destas glrias, devem sentir-se comovidas sempre que a morte
  as inscreve no livro da posteridade. Por isso, ao boato falso do falecimento do
  criador de Cinna o pblico comoveu-se; e hoje  certo que s h um desejo unnime: a vida de
  Joo Caetano dos Santos.

1. DE JUNHO DE 1863.

O Jornal de Recife deu-nos duas notcias importantes, com a diferena
  de alegrar-nos a primeira tanto quanto nos contrista a segunda; refiro-me s
  melhorias de sade de Gonalves Dias e a morte de J. F. Lisboa, verdadeira a
  ltima ou no passa de deplorvel engano?  lcito duvidar da exatido dela, e,
  sem ofensa a folha pernambucana, deve-se esperar uma confirmao mais positiva.
  No  que o fato seja impossvel; mas o silncio da imprensa portuguesa a
  respeito, silncio impossvel, a ter-se dado o caso, abre lugar  dvida. Mau
  era se a indiferena de um pas amigo e irmo fosse a
  nica elegia que tivesse na morte um homem to ilustre como o autor do Jornal de Timon.

Pelo que respeita a Gonalves
  Dias, a mesma folha se refere a uma carta do poeta. Os seus sofrimentos no
  desapareceram de todo, nem deixam de ser grandes; mas o ilustre poeta est fora
  de perigo. Escreve de Dresde, e ia partir para Carlsbad,
  a fim de tomar banhos minerais. A esta notcia acrescenta que tem em mos
  vrios trabalhos literrios que pretende mandar imprimir
  em Leipzig. Doente
  embora, o grande cantor nacional emprega a sua atividade em encher de novas
  jias o seu j to farto escrnio literrio. Belo exemplo esse  mocidade de
  hoje, a quem pertence o futuro do pas.  deste modo que o talento 
  sacerdcio. Que importa o labor de uma longa semana? H, para muito descanso, o
  domingo da imortalidade.

Falando dos moos e indicando-lhes
  tal exemplo, devo mencionar, entre outros nomes, o do Sr. Bruno Seabra, mavioso poeta paraense, a quem j os leitores
  conhecem sem dvida por suas delicadas composies. Acaba ele de chegar da
  Europa para onde partira h oito ou nove meses. Demorou-se em Paris a maior
  parte do tempo, aplicando como melhor pde, a sua aptido e o seu desejo de
  saber. Entre outras composies, trouxe j, impressa uma comdia em um ato, que
  intitulou: Por direito de Patchouly. O ttulo indica o assunto:  a vitria do
  nscio cheiroso na luta com o homem cho e sisudo, coisa que se v todos os
  dias, mas que o poeta reduziu a um ato chistoso, fcil, epigramtico, original.
  Tem Bruno Seabra boas qualidades para o gnero, e a
  sua estria, se alguma coisa tem de menos, apresenta j, uma boa amostra do que
  ele pode fazer se no parar neste primeiro trabalho. Estou certo de que o autor
  das Flores e Frutos corresponder 
  justia que lhe fao, e trabalhar como lhe cumpre na medida do seu belo
  talento.

  Em So Paulo
   publicou o Sr. Luiz Ramos
    Figueira, bacharel e estudante do 4. ano de Direito,
    um volume a que deu por ttulo Dalmo ou
      os Mistrios da noite.

Em boa justia devem-se louvores
  ao Sr. Figueira. Se a sua obra acusa descuidos, revela
  qualidade de imaginao e de apreciao; h nela muitas belezas derramadas por
  muitas pginas. Uma boa crtica no pode deixar de acolher a obra do Sr. Figueira como um presente que promete outros muitos, e a
  isso fica virtualmente emprazado o leitor.

Pertence o Sr. Figueira  mocidade acadmica de So Paulo, onde os moos sabem entremear os
  estudos jurdicos com os literrios, e no esquecem a vocao do bero pelo
  labor do curso acadmico.

E j que estou no captulo dos
  moos, falarei de um, verdadeira criana, no tanto pelos anos, como pela
  ingenuidade do corao e do esprito.  nada menos que um poeta. Se lhe falta a
  beleza da forma, sobra-lhe o sentimento da poesia, que  o essencial e o que
  no se adquire.

Quem pode alcanar dinheiro de um
  usurrio? Este  um usurrio das musas, e para alcanar os versos que abaixo
  transcrevo, foi-me preciso surpresa. Ainda assim custou-me convenc-lo depois
  de que devia public-los. Consentiu sob condio de lhe no publicar o nome.
  Anu. Os versos no so originais; so traduzidos de um poeta da Rumania. No so perfeitos, mas so agradveis de ler:

Sincero
  amor tu me juraste um dia

At que a morte te deitasse o vu;

Tudo passou, tudo esqueceste, tudo,

Coisas do mundo, o erro no  teu.

" meu amado, me disseste, eu
  quero,

Eu quero dar-te meu quinho do
  cu!"

Dessas promessas olvidaste todas.

Coisas do tempo, o erro no  teu!

Sabes que pranto
  derramei no dia

Em que juraste o teu amor ao meu;

Morri por ti, tu me esqueceste,
  embora,

Coisas do sexo, o erro no  teu.

Mudo abracei-te; teu ardente lbio

Celeste orvalho sobre mim verteu;

Veio depois a gota de veneno...

Coisas do sexo, o erro no  teu.

Tudo, a virtude, o amor, a f, a
  honra,

Tudo o que prometias, te esqueceu;

Ah! nem remorsos nem amor conheces.

Coisas do sexo, o erro no  teu!

A lei do ouro e da banal vaidade

Dessa tua alma f e amor varreu;

Curaste a chaga, amorteceste a
  sede,

Coisas do sexo, o erro no  teu.

Pesar de tudo, o corao amante

H de bater de amor no peito meu

Ao pressentir-te. Ficas sempre um anjo...

Coisas do amor, o erro no  teu!

O meu poeta procurou conservar a
  mais estrita fidelidade. No vi o original e no pude comparar; mas h expresses,
  que ele prprio indica, e que so verdadeiras belezas do original; aquele
  verso.

Curaste a chaga, amorteceste a
  sede

  uma delas.

Parece-me a poesia graciosa, e
  como tal a ofereo aos leitores.

O meu poeta, esse, encerrado na
  sua torre de marfim, adormece e procura esquecer-se, poetando para si. No
  louvo nem condeno a recluso voluntria; admiro e lastimo.

Para concluir estas linhas, lanadas ao papel em uma poca de verdadeiro fastio para mim,
  menciono o fato que h muito se no repete de uma reunio, tanto ou
  quanto numerosa, de artistas nesta Corte. Veio do sul Arthur Napoleo; de
  Lisboa, o Sr. Croner,
  clarinete, que teve em Londres o sucesso mais lisonjeiro que pode ter um
  artista, o da consagrao entusistica da crtica refletida e competente. Acrescentem-se a esses -- outros, filhos do pas ou
  estrangeiros aqui residentes e cujos nomes todos sabem. Se h ocasio para
  concertos  esta. Se cada um deles der a sua festa artstica pode haver muitas
  e relativamente esplndidas. No Lrico o bartono Celestino
  e o soprano Briol so aplaudidos pelos diletantes, e
  nomeadamente no Rigoletto, onde agradaram. Acrescente-se ainda
  que esta, a chegar uma companhia de pera cmica francesa e ter se completado
  assim o captulo da msica. E eu termino este pedindo escusa da minha avidez.

Post-scriptum.

J estava composta a crnica
  quando recebi uma notcia que me confirma nas esperanas de uma boa estao
  musical. Arthur Napoleo oficiou a comisso da subscrio nacional oferecendo
  os seus servios em favor dos fins para que ela se organizou.
  Naturalmente a oferta ser aceita.  intil repetir o que em todos
    desperta este ato cavalheiresco do distinto pianista.

15 DE JUNHO DE 1863.

Confirma-se a notcia da morte de
  Joo Francisco Lisboa, mais conhecido pelo pseudnimo de Timon.

Faleceu em Lisboa, no dia 25 de
  abril, na idade de 49 anos, deixando ao nosso pas a glria de um nome
  respeitado entre os mais eminentes.

Todos os que conhecem seus escritos
  dispensam da minha parte uma enumerao dos seus raros e elevados dotes, de
  seus profundos e slidos estudos. A sua obra sobre o Padre Antonio Vieira vir
  confirmar a alta conta em que o tinham os seus compatriotas e todos quantos
  apreciam as boas letras.

Dizem que J. F. Lisboa se dispunha
  a escrever a histria do Brasil para o que coligia documentos.  realmente para
  doer que a morte o viesse arrebatar antes de realizada essa tarefa. As pginas
  da histria brasileira receberiam deste modo aquela robustez de estilo e alta
  apreciao que faziam supor nas mos de Timon a pena de Tcito.

Os seus escritos
  vo ser publicados a expensas de Sua Majestade o Imperador.

A morte de J. F. Lisboa deve
  contristar por mais de um motivo. No  s a perda de to ilustre brasileiro
  que h a sentir, seno tambm o medocre efeito que esse triste acontecimento
  produziu. Como h muito mais de que falar, com um
  livro termino este escasso captulo. O livro  o 2.
  volume das lies de histria ptria do Sr. Dr. Macedo. Sabem todos que o
  excelente poeta da Nebulosa estuda e
  sabe a fundo a histria nacional, a que se dedica como um homem que lhe conhece
  a importncia. Estes livros so destinados ao uso da mocidade.

Os que estimam as letras vo ter
  ocasio de apreciar uma novidade no pas e ao mesmo tempo vo ter conhecimento
  de obras inditas de autores conhecidos e estimados. Os meus leitores ho de
  lembrar-se de uma carta que publiquei, escrita pelo
  Sr. A. de Pascual ao Sr. Zaluar.

Era um convite para instituir
  leituras pblicas ao uso da Inglaterra e Alemanha. No se efetuou a reunio
  necessria e anunciada, e as leituras no se fizeram como fora de desejar.
  Entretanto a idia ficou, e o Sr. Zaluar pretende
  realiz-la dentro de poucos dias. O primeiro curso  de seis leituras, como
  simples ensaio, a ver se o nosso pblico possui a necessria ateno,
  concentrao e gosto para diverses dessa natureza.

No desejo outra coisa mais do que
  o bom resultado da tentativa, a respeito da qual devem caber muitos louvores ao
  poeta das Revelaes.

A imprensa conta mais um
  legionrio, mas legionrio tal que me coloca em uma difcil posio sobre o que
  lhe direi. O Sr. L. de Nerciat acha-se a frente de um jornal francs intitulado Le Nouvelliste de Rio de Janeiro. Suas vistas acerca do Brasil so, como declara, as mais cordatas e bem dispostas. , entretanto, um rgo do
  partido legitimista, cuja bandeira hasteou, sem rebuo ou reserva. Ora,
  semelhante bandeira nesta terra faz o efeito do calo e meia de seda entre as calas largas da civilizao. A
  discusso dessas idias destina-se unicamente  populao francesa; mas, no
  interessando, nem pela singularidade, ao resto da populao e nem a uma boa
  parte daquela, no creio no sucesso do Nouvelliste.

Seja-lhe, entretanto, levada em conta
  a sua boa vontade a nosso respeito. Ponham-se de parte
  aquelas convices; a pena do Sr. De Nerciat deseja
  acertar no estudo de nossas coisas. Se puder conservar a separao devida entre
  os dois objetos a que se destina a sua gazeta, ter a gratido de todos, certos
  como esto todos de que, em terra americana, as suas opinies antiquadas no
  convencem nem arrastam ningum.

Est o
  bispado do Rio de Janeiro acfalo. Faleceu na idade de 65 anos o Sr. D. Manoel
  do Monte Rodrigues de Araujo, conde de Iraj, autor de vrias obras de teologia
  e moral.  coisa, que todos sabem. O que ningum ainda sabe  sobre quem
  recair a escolha do governo para substituir o finado prelado.

Essa escolha ser das mais
  difceis; precisa-se de um prelado altamente enrgico e ilustrado, que se
  compenetre da sua misso e faa do clero aquilo que ele no ; um prelado cuja
  fora possa esmerilhar nesse corpo mais fantico que religioso, mais intolerante que instrudo, os elementos puros ou
  aproveitveis e com eles empreender a obra rdua de uma regenerao.

Tenho fugido hoje ao enlace dos
  perodos e fao nos assuntos verdadeiros saltos mortais. Assim o pede a hora.

Foi o leitor ouvir o Sr. Croner? Perdeu se
  no foi. Este artista que como  sabido, foi buscar em Londres a consagrao do
  seu talento, justificou os juzos anteriores.

Em um instrumento to ingrato como
   o clarinete, sabe o Sr. Croner despertar as mais gratas harmonias. Pelo que respeita
  aos segredos da arte, ouvi a seu respeito honrosas palavras. O Sr. Croner pretende
  dar ainda um concerto, depois do que ir ao Rio da Prata.

Se o leitor  curioso, e ainda no
  ouviu o Sr. Croner,
  v, no dia 19 ao Ginsio.

Terminarei transcrevendo para aqui
  a Carta que o nosso ilustre poeta Gonalves Dias escreveu de Dresde ao Dr.
  Antonio Henrique Leal, no Maranho:

"Desde o comeo deste ano que
  estou lutando com um ataque de reumatismo, que me tem feito ver as estrelas e
  esgotado a pouca soma de pacincia com que Deus foi servido dotar-me. H dois
  dias que no me levanto, mal posso andar de fraqueza e escrevo com
  dificuldade."

"Assim, pois, antes de partir para Carlsbad, a fim de consertar o meu fgado e de ver se
  me desaparece um resto de ascite que me ficou, tenho de ir aos banhos de Tiplitz, aqui nas vizinhanas de
  Dresde, a ver se as minhas juntas querem tomar juzo."

"Todo o ano passado foi perdido
  para mim, e este vai ainda pelo mesmo teor: levanto-me da cama agora. Maio passo em Tiplitz, junho e
  julho em Carlsbad, depois mais um, ou dois meses de
  resguardo, l se vai o ano."

"Quando me convencer de que isto
  no ata nem desata, tomo uma resoluo, o adeus. Vou-me para o nosso Maranho
  at que os tempos mudem, se mudarem."

1. DE JULHO DE 1863.

Os homens que se ocupam seriamente
  das coisas do Brasil tem um duplo ttulo ao nosso reconhecimento: o que resulta
  do prprio fato e o que procede da singularidade e da estranheza dele, no meio
  da indiferena e da exagerao.

Por isso menciono logo no comeo
  da crnica o livro do Sr. Wolff o Brasil Literrio, belo volume em
  francs, que se no encontra ainda ou j se no encontra nas livrarias.

Tive ocasio de folhear esse
  volume, mas apenas folhear. O autor procurou ser o mais minucioso possvel, e
  pareceu-me que o foi. Reparei,  certo, na excluso de alguns verdadeiros
  poetas e na meno de outros a quem Alceste podia dirigir esta interrogao:

Quel Besoin si pressant avez-vous de
  rimer?

Et qui, diantre, vous pousse  vous
  faire imprimer?

Mas tudo  desculpvel quando h
  no livro muito para agradecer. O Sr. Wolff socorreu-se do mais que podia para compor a sua obra; esse interesse e os
  verdadeiros resultados conseguidos tornam o seu nome digno de gratido dos
  brasileiros.

E relativamente s publicaes
  literrias, como se explica esta tal ou qual indiferena do Brasil vendo morrer
  um dos seus maiores pensadores? Haver razes da circunstncia e do momento ou
  vai amortecendo entre ns o amor da glria intelectual? Eu disse em uma das
  minhas crnicas passadas, dando notcia da morte de Timon, que no acreditava
  nela, em vista do silncio que se notava na imprensa portuguesa diante de tal
  acontecimento. Era apenas uma conjectura de homem a quem parecia que escritores
  como aquele no so comuns e merecem uma calorosa meno no dia em que passam
  dos labores da vida para as alegrias imperecveis da eternidade. Faam-se em todo o imprio algumas excees, ningum mais
  comemorou a morte de J. F. Lisboa.

O que  certo  que o pas perdeu,
  e sem remdio, muita pgina brilhante que o ilustre maranhense se preparava a escrever
  em honra dele.

Passemos a outros fatos, leitor, e
  sem sair do Maranho. Meu dever de cronista s me deixa tocar nos assuntos.

O que vou mencionar no  uma
  novidade, propriamente dita.  mais uma prova do que j est muito sabido.

Em minha revista passada, falando
  da misso que cabe ao novo bispo alude ao estado do nosso clero, que 
  realmente e est a pedir uma mo de ferro
  em brasa. Nada
  significa
  o meu nome e eu no pretendo cadeira no parlamento. O que o leitor talvez no
  saiba  que, se o humilde cronista tivesse esta pretenso, meia dzia de ministros do altar lavrariam logo circular
  conjurando os eleitores a no dar-me um voto sequer.  o que aconteceu agora a
  um deputado na assemblia maranhense. Tendo ele dito que o clero da provncia estava
  desmoralizado, alguns piedosos tonsurados travaram da pena e fizeram circular, pedindo que se no desse votao ao blasfemo
    e sacrlego Dr. Tavares Belfort.

Se o deputado Belfort tivesse dito do clero brasileiro o que disse do clero
  maranhense, de todos os pontos do imprio surgiriam circulares de
  excomunho eleitoral contra ele.

Isto no faz mal algum, nem a vtima da fria padresca fica menos do que  no corpo e na alma; mas o que provam estes fatos 
  que aqueles que pretendem servir a religio andam a exp-la a um grande
  ridculo, sem proveito para as suas pessoas, nem para ningum.

Em um pas novo, cuja maioria se
  divide em dois campos, a indiferena e a carolice, a
  misso dos ministros do altar era outra, era a misso apostlica, tolerante,
  elevada, a fim de convencer os incrdulos, e trazer os fanticos ao
  conhecimento dos verdadeiros princpios da Igreja.

Em vez disso, os nossos padres
  divertem-se em lanar s urnas eleitorais a interdio religiosa, ou escrever
  gazetas sem tom nem som, a respeito das quais, ningum sabe o que admirar mais,
  se a impudncia dos redatores, se a pacincia dos assinantes.

Ningum que deseje a prosperidade
  do pas pode deixar de almejar uma administrao
    perfeitamente convicta da verdade, que tome a peito fazer dos padres apstolos
    verdadeiros e dos jornais de sacristia srias tribunas de propaganda.

Ponham  frente dos bispados
  homens tais e vero como as coisas mudam e comea uma era de regenerao.

Repito, o que indigna hoje, no  s a
  intolerncia, e o ridculo com que ela se apresenta, ridculo funesto aos
  verdadeiros interesses da Igreja. E o que mais di  ver que esta intolerncia
  reside em um clero pela maior parte ignorante, sem prestgio, e verdade, mas
  tambm sem escrpulos.

Dito isto, deixemos em santa paz
  os padres do Brasil.

Sua Majestade o Imperador acaba de
  mimosear o distinto artista portugus Raphael Croner com um magnfico alfinete de brilhantes, como lembrana, diz a carta da mordomia, do apreo em, que tem o seu merecimento.

Este merecimento que o pblico j
  teve ocasio de reconhecer e aplaudir  dos mais incontestveis. Na crnica da
  ltima quinzena fiz meno do nome do distinto artista com aquele respeito que
  me impem o seu talento e os seus conhecimentos.

Em seu segundo concerto, dado
  ultimamente no Ginsio, anunciou o Sr. Croner umas variaes de saxofone. O efeito provou mais que
  muito a expectativa; neste instrumento mostrou o Sr. Croner todos os
  dotes que o distinguiam no primeiro. Os aplausos do pblico
  coroaram o seu precioso trabalho.

O Sr. Croner vai fazer uma digresso
  pela provncia de S. Paulo depois do que voltar a esta Corte, para tomar o
  paquete da Europa.  natural que ainda se faa ouvir entre ns e confirmar ainda
  uma vez as boas impresses que lhe deram o nosso pblico e a nossa terra.

Outro artista portugus, e de
  renome, acha-se, como j sabem os leitores, nesta Corte.  conhecido velho. O
  menino Arthur est um homem, crescendo-lhe com a idade a rara percia com que,
  desde os tenros anos, a todos admira. Deu um concerto no Teatro Lrico onde foi
  recebido na forma do costume e onde executou como sempre.

Teve tambm da parte do Imperador
  a mesma distino que recebeu o Sr. Croner.

Brevemente tem lugar um concerto
  dado por ele, destinando-se o produto  subscrio nacional.

Esta oferta do pianista deve ser
  recebida pelos brasileiros com a maior gratido.

No quis Arthur Napoleo deixar de
  contribuir com o seu talento para a coleta patritica a que se procede.  um
  ato que o honra e de que no nos esqueceremos, aliando sempre ao nome artstico
  que ele adquiriu, o de um amigo da nao.
