Conto, O anjo das donzelas, 1864

O anjo das donzelas

Texto-fonte:

http://www2.uol.com.br/machadodeassis/

Publicado originalmente em Jornal
das Famlias, 1864.

Cuidado, caro leitor, vamos entrar na alcova de uma
donzela.

A esta notcia o leitor estremece e hesita.  naturalmente
um homem de bons costumes, acata as famlias e preza as leis do decoro pblico
e privado.  tambm provvel que j tenha deparado com alguns escritos, destes
que levam aos papis pblicos certas teorias e tendncias que melhor fora nunca
tivessem sado da cabea de quem as concebeu e proclamou. Hesita e interroga a
conscincia se deve ou no continuar a ler as minhas pginas, e talvez resolva
no prosseguir. Volta a folha e passa a coisa melhor.

Descanse, leitor, no ver neste episdio fantstico nada
do que se no pode ver  luz pblica. Eu tambm acato a famlia e respeito o
decoro. Sou incapaz de cometer uma ao m, que tanto importa delinear uma cena
ou aplicar uma teoria contra a qual proteste a moralidade.

Tranqilize-se, d-me o seu brao, e atravessemos, p ante
p, a soleira da alcova da donzela Ceclia.

H certos nomes que s assentam em certas criaturas, e que
quando ouvimos pronunci-los como pertencentes a pessoas que no conhecemos,
logo atribumos a estas os dons fsicos e morais que julgamos inseparveis
daqueles. Este  um desses nomes. Veja o leitor se a moa que ali se acha no
leito, com o corpo meio inclinado, um brao nu escapando-se do alvo lenol e
tendo na extremidade uma mo fina e comprida, os cabelos negros, esparsos,
fazendo contraste com a brancura da fronha, os olhos meio cerrados lendo as
ltimas pginas de um livro, veja se aquela criatura pode ter outro nome, e se
aquele nome pode estar em outra criatura.

L, como disse, um livro, um romance, e apesar da hora
adiantada, onze e meia, ela parece estar disposta a no dormir sem saber quem
casou e quem morreu.

Ao p do leito, sobre a palhinha que forra o soalho,
estende-se um pequeno tapete, cuja estampa representa duas rolas, de asas
abertas, afagando-se com os biquinhos. Sobre esse tapete esto duas
chinelinhas, de forma turca, forradas de seda cor-de-rosa, que o leitor jurar
serem de um despojo de Cendrilon. So as chinelas de Ceclia. Avalia-se j que
o p de Ceclia deve ser um p fantstico, imperceptvel, impossvel; e
examinando bem pode-se at descobrir, entre duas pontas do lenol mal
estendido, a ponta de um p capaz de entusiasmar o meu amigo Ernesto C..., o
maior admirador dos ps pequenos, depois de mim... e do leitor.

Ceclia l um romance.  o centsimo que l depois que
saiu do colgio, e no saiu h muito tempo. Tem quinze anos. Quinze anos!  a
idade das primeiras palpitaes, a idade dos sonhos, a idade das iluses
amorosas, a idade de Julieta;  a flor,  a vida, e a esperana, o cu azul, o
campo verde, o lago tranqilo, a aurora que rompe, a calhandra que canta, Romeu
que desce a escada de seda, o ltimo beijo que as brisas da manh ouvem e
levam, como um eco, ao cu.

Que l ela? Daqui depende o presente e o futuro. Pode ser
uma pgina da lio, pode ser uma gota de veneno. Quem sabe? No h ali  porta
um ndex onde se indiquem os livros defesos e os lcitos. Tudo entra, bom ou
mau, edificante ou corruptor, Paulo e Virgnia ou Fanny. Que l ela neste
momento? No sei. Todavia deve ser interessante o enredo, vivas as paixes,
porque a fisionomia traduz de minuto a minuto as impresses aflitivas ou
alegres que a leitura lhe vai produzindo.

Ceclia corre as pginas com verdadeira nsia, os olhos
voam de uma ponta da linha  outra; no l; devora; faltam s duas folhas,
falta uma, falta uma lauda, faltam dez linhas, cinco, uma... acabou.

Chegando ao fim do livro, fechou-o e p-lo em cima da
pequena mesa que est ao p da cama. Depois, mudando de posio, fitou os olhos
no teto e refletiu.

Passou em revista na memria todos os sucessos contidos no
livro, reproduziu episdio por episdio, cena por cena, lance por lance. Deu
forma, vida, alma, aos heris do romance, viveu com eles, conversou com eles,
sentiu com eles. E enquanto ela pensava assim, o gnio que nos fecha as
plpebras  noite hesitou,  porta do quarto, se devia entrar ou esperar.

Mas, entre as muitas reflexes que fazia, entre os muitos
sentimentos que a dominavam, alguns havia que no eram de agora, que j eram velhos
hspedes no esprito e no corao de Ceclia.

Assim que, quando a moa acabou de reproduzir e saciar os
olhos da alma na ao e nos episdios que acabara de ler, voltou-lhe o esprito
naturalmente para as idias antigas e o corao palpitou sob a ao dos antigos
sentimentos.

Que sentimentos, que idias seriam essas? Eis a
singularidade do caso. De h muito tempo que as tragdias do amor a que Ceclia
assistia nos livros causavam-lhe uma angustiosa impresso. Ceclia s conhecia
o amor pelos livros. Nunca amara. Do colgio sara para casa e de casa no
sara para mais parte alguma. O pressentimento natural e as cores sedutoras com
que via pintado o amor nos livros diziam-lhe que devia ser uma coisa divina,
mas ao mesmo tempo diziam-lhe tambm os livros que dos mais auspiciosos amores
pode-se chegar aos mais lamentveis desastres. No sei que terror se apoderou
da moa; apoderou-se dela um terror invencvel. O amor, que para as outras
mulheres apresenta-se com aspecto risonho e sedutor, afigurou-se a Ceclia que
era um perigo e uma condenao. A cada novela que lia mais lhe cresciam os
sustos, e a pobre menina chegou a determinar em seu esprito que nunca exporia
o corao a tais catstrofes.

Provinha este sentimento de duas coisas: do esprito
supersticioso de Ceclia, e da natureza das novelas que lhe davam para ler. Se
nessas obras ela visse, ao lado das ms conseqncias a que os excessos podem
levar, a imagem pura e suave da felicidade que o amor d, no se teria de certo
apreendido daquele modo. Mas no foi assim. Ceclia aprendeu nesses livros que
o amor era uma paixo invencvel e funesta; que no havia para ela nem a fora
de vontade nem a perseverana do dever. Esta idia calou no esprito da moa e
gerou um sentimento de apreenso e de terror contra o qual ela no podia nada,
antes se tornara mais impotente  medida que lia uma nova obra da mesma
natureza.

Este estrago moral completava-se com a leitura da ltima
novela. Quando Ceclia levantou os olhos para o teto tinha o corao cheio de
medo e os olhos traduziam o sentimento do corao. O que sobretudo a
atemorizava mais era a incerteza que ela tinha de poder escapar  ao de uma
simpatia funesta. Muitas das pginas que lera diziam que o destino intervinha
nos movimentos do corao humano, e sem poder discernir o que teria de real ou
de potico este juzo, a pobre mocinha tomou ao p da letra o que lera e
confirmou-se nos receios que nutria de muito tempo.

Tal era a situao do esprito e do corao de Ceclia
quando o relgio de uma igreja que ficava a dois passos da casa bateu
meia-noite. O som lgubre do sino, o silncio da noite, a solido em que
estava, deram uma cor mais sombria s suas apreenses.

Procurou dormir para fugir s idias sombrias que se lhe
atropelavam no esprito e dar descanso ao peso e ao ardor que sentia no
crebro; mas no pde; caiu em uma dessas insnias que fazem padecer mais em
uma noite do que a febre de um dia inteiro.

De repente sentiu que se abria a porta. Olhou e viu entrar
uma figura desconhecida, fantstica. Era mulher? era homem? no se distinguia.
Tinha esse aspecto masculino e feminino a um tempo com que os pintores
reproduzem as feies dos serafins. Vestia tnica de tecido alvo, coroava a
fronte com rosas brancas e despedia dos olhos uma irradiao fantstica e
impossvel de descrever. Andava sem que a esteira do cho rangesse sob os
passos. Ceclia fitou os olhos na viso e no pde mais desvi-los. A viso
chegou-se ao leito da donzela.

 Quem s tu? perguntou Ceclia sorrindo, com a alma
tranqila e os olhos vivos e alegres diante da figura desconhecida.

 Sou o anjo das donzelas, respondeu a viso com uma voz
que nem era voz nem msica, mas um som que se aproximava de ambas as coisas,
articulando palavras como se executasse uma sinfonia do outro mundo.

 Que me queres?

 Venho em teu auxlio.

 Para qu?

O anjo ps as mos no peito de Ceclia e respondeu:

 Para salvar-te.

 Ah!

 Sou o anjo das donzelas, continuou a viso, isto , o
anjo que protege as mulheres que atravessam a vida sem amar, sem depor no altar
dos amores uma s gota do leo celeste com que se venera o Deus menino.

 Sim?

  verdade. Queres que eu te proteja? Que te imprima na
fronte o sinal fatdico ante o qual recuaro todas as tentativas, curvar-se-o
todos os respeitos?

 Quero.

 Queres que com um bafejo meu te fique eternamente
gravado o emblema da eterna virgindade?

 Quero.

 Queres que eu te garanta em vida as palmas verdes e
viosas que cabem s que podem atravessar o lodo da vida sem salpicar o vestido
branco de pureza que receberam do bero?

 Quero.

 Prometes que nunca, nunca, nunca te arrependers deste
pacto, e que, quaisquer que sejam as contingncias da vida, abenoars a tua
solido?

 Quero.

 Pois bem! Ests livre, donzela, ests inteiramente livre
das paixes. Podes entrar agora, como Daniel, entre os lees ferozes; nada te
far mal. V bem;  a felicidade,  o descanso. Gozars ainda na mais remota
velhice de uma iseno que ser a tua paz na terra e a tua paz no cu!

E dizendo isto a fantstica criatura desfolhou algumas
rosas sobre o seio de Ceclia. Depois tirou do dedo um anel e introduziu no
dedo da moa, que no opunha a nenhum destes atos, nem resistncia nem
admirao, antes sorria com um sorriso de angelical suavidade como se naquele
momento entrevisse as glrias perenes que o anjo lhe prometia.

 Este anel, disse o anjo,  o anel de nossa aliana;
doravante s minha esposa ante a eternidade. Deste amor no te resultaro nem
tormentos nem catstrofes. Conserva este anel a despeito de tudo. No dia em que
o perderes, ests perdida.

E dizendo estas palavras a viso desapareceu.

A alcova ficou cheia de uma luz mgica e de um perfume que
parecia mesmo hlito de anjos.

No dia seguinte Ceclia acordou com o anel no dedo e a
conscincia do que se passara na vspera. Nesse dia levantou-se da cama mais
alegre que nunca. Tinha o corao leve e o esprito desassombrado. Tocara enfim
o alvo que procurara: a indiferena para os amores, a certeza de no estar
exposta s catstrofes do corao... Esta mudana tornou-se cada dia mais
pronunciada, e de modo tal que as amigas no deixaram de reparar.

 Que tens tu? dizia uma. s outra inteiramente. Aqui anda
namoro!

 Qual namoro!

 Ora, de certo! acrescentava outra.

 Namoro? perguntava Ceclia. Isso  bom para as...
infelizes. No para mim. No amo...

 Amas!

 Nem amarei.

 Vaidosa!...

 Feliz  que deves dizer. No amo,  verdade. Mas que
felicidade no me resulta disto?... Posso afrontar tudo; estou armada de
broquel e cota de armas...

 Sim?

E as amigas desataram a rir, apontando para Ceclia e
jurando que ela se havia de arrepender de dizer palavras tais.

Mas passavam os dias e nada fazia notar que Ceclia
tivesse pago o pecado que cometera na opinio das amigas. Cada dia trazia um
pretendente novo. O pretendente fazia corte, gastava tudo quanto sabia para
cativar a menina, mas afinal desistia da empresa com a convico de que nada
podia fazer.

 Mas no se lhe conhece preferido? perguntavam uns aos
outros.

 Nenhum.

 Que milagre  este?

 Qual milagre! No lhe chegou a vez... Ainda no enflorou
aquele corao. Quando chegar a poca da florescncia h de fazer o que as mais
fazem, e escolher entre tantos pretendentes um marido.

E com isto se consolavam os taboqueados.

O que  certo  que corriam os dias, os meses, os anos,
sem que nada mudasse a situao de Ceclia. Era a mesma mulher fria e
indiferente. Quando completou vinte anos tinha adquirido fama; era corrente em
todas as famlias, em todos os sales, que Ceclia nascera sem corao, e a
favor desta fama faziam-se apostas, levantavam-se coragens; a moa tornou-se a
Cartago das salas. Os romanos de bigode retorcido e cabelo frisado juravam
sucessivamente vencer a indiferena pnica. Trabalho vo! Do agasalho cordial
ao amor ningum chegava nunca, nem por suspeita. Ceclia era to indiferente
que nem dava lugar  iluso.

Entre os pretendentes um apareceu que comeou por cativar
os pais de Ceclia. Era um doutor formado em matemticas, metdico como um
compndio, positivo como um axioma, frio como um clculo. Os pais viram logo no
novo pretendente o modelo, o padro, a fnix dos maridos. E comearam por fazer
em presena da filha os elogios do rapaz. Ceclia acompanhou-os nesses elogios,
e deu alguma esperana aos pais. O prprio pretendente soube do conceito em que
o tinha a moa e criou esperanas.

E, conforme a educao do esprito, tratou de regularizar
a corte que fazia a Ceclia, como se se tratasse de descobrir uma verdade
matemtica. Mas, se a expresso dos outros pretendentes no impressionou a
moa, muito menos a impressionava a frieza metdica daquele. Dentro de pouco
tempo a moa negou-lhe at aquilo que concedia aos outros: a benevolncia e a
cordialidade.

O pretendente desistiu da causa e voltou aos clculos e
aos livros.

Como este, todos os outros pretendentes iam passando, como
soldados em revista, sem que o corao inflexvel da moa pendesse para nenhum
deles.

Ento, quando todos viram que os esforos eram baldados,
comeou-se a suspeitar que o corao da moa estivesse empenhado a um primo que
exatamente na noite da viso de Ceclia embarcara para seguir at Santos e da
tomar caminho para a provncia de Gois. Esta suspeita desvaneceu-se com os
anos; nem o primo voltou, nem a moa mostrou-se sentida com a ausncia dele.
Esta conjectura com que os pretendentes queriam salvar a honra prpria perdeu o
valor, e os iludidos tiveram de contentar-se com este dilema: ou no tinham
sabido lutar, ou a moa era uma natureza de gelo.

Todos aceitaram a segunda hiptese.

Mas que se passava nessa natureza de gelo? Ceclia via a
felicidade das amigas, era confidente de todas, aconselhava-as ao sentido de
uma prudente reserva, mas nem procurava nem aceitava os cimes que lhe andavam
 mo. Todavia mais de uma vez,  noite, no fundo da alcova, a moa sentia-se
s. O corao solitrio parece que se no acostumara de todo ao isolamento a
que o votara a dona.

A imaginao, para fugir s pinturas indiscretas de um
sentimento a que a moa fugia, corria s soltas no campo das criaes
fantsticas e desenhava com vivas cores essa felicidade que a viso lhe
prometera. Ceclia comparava o que perdera e o que ia ganhar, e dava a palma do
gozo futuro em compensao do presente. Mas nesses rasgos de imaginao o
corao palpitava-lhe com fora, e mais de uma vez a moa dava acordo de si
procurando com uma das mos arrancar o anel da aliana com a viso.

Nesses momentos recuava, entrava em si e chamava no
interior a viso daquela noite dos quinze anos. Mas o desejo era baldado; a
viso no aparecia, e Ceclia ia procurar no leito solitrio a calma que no
podia encontrar nas viglias laboriosas.

Muitas vezes a aurora veio encontr-la  janela, enlevada
nas suas imaginaes, sentindo um vago desejo de conversar com a natureza,
embriagar-se no silncio da noite.

Em alguns passeios que fez aos subrbios da cidade
deixava-se impressionar por tudo o que a vista lhe oferecia de novo, gua ou montanha,
areia ou ervaal, parecendo que a vista se lhe comprazia nisso e esquecendo-se
muitas vezes de si e dos outros.

Ela sentia um vcuo moral, uma solido interior, e
procurava na atividade e na variedade da natureza alguns elementos de vida para
si. Mas a que atribua ela essa nsia de viver, esse desejo de ir buscar fora
aquilo que lhe faltava? Ao princpio no reparou no que fazia; fazia
involuntariamente, sem determinao nem conhecimento da situao.

Mas, como se prolongasse a situao, ela foi pouco a pouco
descobrindo o estado do corao e do esprito. Tremeu ao princpio, mas em
breve se tranqilizou; a idia da aliana com a viso pesava-lhe no esprito, e
as promessas feitas por ela de uma bem-aventurana sem igual desenhavam na
fantasia de Ceclia um quadro vivo e esplndido. Isto consolava a moa, e,
sempre escrava dos juramentos, ela fazia honra sua em ficar pura do corao
para subir  morada das donzelas libertadas do amor.

Demais, ainda que o quisesse, parecia-lhe impossvel
sacudir a cadeia a que involuntariamente se prendera.

E os anos corriam.

Aos vinte e cinco inspirou uma paixo violenta a um jovem
poeta. Foi uma dessas paixes como s os poetas sabem sentir. Este do meu conto
deps aos ps da bela insensvel a vida, o futuro, a vontade. Regou com
lgrimas os ps de Ceclia e pediu-lhe como uma esmola uma centelha que fosse
do amor que parecia ter recebido do cu. Tudo foi intil, tudo foi vo. Ceclia
nada lhe deu, nem amor nem benevolncia. Amor no tinha; benevolncia podia ter,
mas o poeta perdera o direito a ela desde que declarou a extenso do seu
sacrifcio. Isto deu a Ceclia a conscincia da sua superioridade, e com essa
conscincia certa dose de vaidade que lhe vendava os olhos e o corao.

Se lhe aparecera o anjo para tirar-lhe do corao o germe
do amor, no lhe apareceu nenhum que lhe tirasse o pouco de vaidade.

O poeta deixou Ceclia e foi para casa. Da seguiu para
uma praia, subiu a uma pequena eminncia e atirou-se ao mar. Dai a trs dias
encontrou-se-lhe o cadver, e os jornais deram do fato uma notcia lacrimosa.
Entretanto encontrou-se entre os papis do poeta a seguinte carta:

A Ceclia D...

Morro por ti.  ainda uma felicidade que eu procuro em
falta da outra que eu procurei, implorei e no alcancei.

No me quiseste amar; no sei se o teu corao estaria
cativo, mas dizem que no. Dizem que s insensvel e indiferente.

No quis cr-lo e fui por mim prprio averigu-lo. Coitado
de mim! o que vi bastou para dar-me a certeza de que no estava reservado para
mim semelhante fortuna.

No te pergunto que curiosidade te levou a voltares a
cabea e transformares-te, como a mulher de L, em esttua insensvel e fria.
Se alguma coisa h nisto que eu no compreendo, no quero sab-lo agora que
deixo o fardo da vida, e vou, por caminho escuro, procurar o termo feliz da
minha viagem.

Deus te abenoe e te faa feliz. No te desejo mal. Se te
fujo e se fugi ao mundo  por fraqueza, no  por dio; ver-te, sem ser amado,
 morrer todos os dias. Morro uma s vez e rapidamente.

Adeus...

Esta carta causou a Ceclia muita impresso. Chorou at.
Mas era piedade e no amor. A maior consolao que ela mesma deu a si foi o
pacto secreto e misterioso.  culpa minha? perguntava ela. E respondendo
negativamente a si mesma achava nisso a legitimidade da sua indiferena.

Todavia, esta ocorrncia trouxe-lhe ao esprito uma
reflexo.

O anjo prometera-lhe, em troca da iseno para o amor, uma
tranqilidade durante a vida que s poderia ser excedida pela paz eterna da
bem-aventurana.

Ora, que encontrava ela? O vcuo moral, as impresses
desagradveis, uma sombra de remorso, eis os lucros que tivera.

Os que foram fracos como o poeta recorreram aos meios
extremos ou deixaram-se dominar pela dor. Os menos fracos ou menos sinceros no
amor alimentaram contra Ceclia um despeito que deu em resultado levantar-se
uma opinio ofensiva  moa.

Mais de um procurava na sombra o motivo da indiferena de
Ceclia. Era a segunda vez que se atiravam a essas investigaes. Mas o
resultado delas era sempre nulo, visto que a realidade era que Ceclia no
amava ningum.

E os anos corriam...

Ceclia chegou aos trinta e trs anos. J no era a idade
de Julieta, mas era uma idade ainda potica; potica neste sentido  que a
mulher, em chegando a ela, tendo j perdido as iluses dos primeiros tempos,
adquire outras mais slidas, fundadas na observao.

Para a mulher dessa idade o amor j no  uma aspirao do
desconhecido, uma tendncia mal exprimida;  uma paixo vigorosa, um sentimento
mais eloqente; ela j no procura a esmo um corao que responda ao seu;
escolhe entre os que encontra um que possa compreend-la, capaz de amar como
ela, prprio para fazer essa doce viagem s regies divinas do amor verdadeiro,
exclusivo, sincero, absoluto.

Nessa idade era ainda bela. E pretendida. Mas a beleza
continuou a ser um tesouro que a indiferena avarenta guardava para os vermes
da terra.

Um dia, longe dos primeiros, muito longe, a primeira ruga
desenhou-se no rosto de Ceclia e alvejou um primeiro cabelo. Mais tarde,
segunda ruga, segundo cabelo, e outras e outros, at que a velhice de Ceclia
declarou-se completa.

Mas h velhice e velhice. H velhice feia e velhice
bonita. Ceclia era da segunda espcie, porque atravs dos sinais evidentes que
o tempo deixara nela, sentia-se que fora uma criatura formosa, e, embora de
outra natureza, Ceclia inspirava ainda a ternura, o entusiasmo, o respeito.

Os fios de prata que lhe serviam de cabelos
emolduravam-lhe o rosto rugado, mas ainda suave. A mo, que to linda era
outrora, no tinha a magreza repugnante, mas era ainda bela e digna de uma
princesa... velha.

Mas o corao? Esse atravessara do mesmo modo os tempos e
os sucessos sem nada deixar de si. A iseno foi sempre completa. Lutava embora
contra no sei que repugnncia do vcuo, no sei que horror da solido, mas
nessa luta a vontade ou a fatalidade vencia sempre, triunfava de tudo, e
Ceclia pde chegar  adiantada idade em que a achamos sem nada perder.

O anel, o fatdico anel, foi o talism que nunca a
abandonou. A favor desse talism, que era a assinatura do contrato celebrado
com o anjo das donzelas, ela pde ver de perto o sol sem se queimar.

Tinham-lhe morrido os pais. Ceclia vivia em casa de uma
irm viva. Vivia dos bens que recebera em herana.

Que fazia agora? Os pretendentes desertaram, os outros
envelheceram tambm, mas iam ainda por l alguns deles. No para request-la de
certo, mas para passar as horas ou em conversa grave e pausada sobre coisas
srias, ou  mesa de algum jogo inocente e prprio de velhos.

No poucas vezes era assunto de conversao geral a
habilidade com que Ceclia conseguira atravessar os anos da primeira e da
segunda mocidade sem empenhar o corao em nenhum lao de amor. Ceclia
respondia a todos que tivera um segredo poderoso do qual no podia fazer
comunicao alguma.

E nestas ocasies olhava amorosamente para o anel que
trazia no dedo ornado de uma bela e grande esmeralda.

Mas ningum reparava nisto.

Ceclia gastava horas e horas da noite em evocar a viso
dos quinze anos. Quisera achar conforto e confirmao s suas crenas, quisera
ver e ouvir ainda a figura mgica e a voz celeste do anjo das donzelas.

Parecia-lhe, sobretudo, que o longo sacrifcio que
consumara merecia, antes da realizao, uma repetio das promessas anteriores.

Entre os que freqentavam a casa de Ceclia alguns velhos
havia dos que, na mocidade, tinham feito roda a Ceclia e tomado mais ou menos
seriamente as expresses de cordialidade da moa.

Assim que, agora que se encontravam nas ltimas estaes
da vida, mais de uma vez a conversa tinha por objeto a iseno de Ceclia e as
infelicidades dos adoradores.

Cada um referia os seus episdios mais curiosos, as dores
que sentira, as decepes que sofrera, as esperanas que Ceclia esfolhara com
impassibilidade cruel.

Ceclia ria ouvindo essas confisses, e acompanhava os
seus adoradores de outrora no terreno das faccias que as revelaes mais ou
menos inspiravam.

 Ah! dizia um, eu  que sofri como poucos.

 Sim? perguntava Ceclia.

  verdade.

 Conte l.

 Olhe, lembra-se daquela partida em casa do Avelar?

 Foi h tanto tempo!

 Pois eu me lembro perfeitamente.

 Que houve?

 Houve isto.

Todos se prepararam para ouvir a narrao prometida.

 Houve isto, continuou o ex-adorador. Estvamos no baile.
Eu, nesse tempo, era um verdadeiro pintalegrete. Envergava a melhor casaca,
esticava a melhor cala, derramava os melhores cheiros. Mais de uma dama
suspirava em segredo por mim, e s vezes nem mesmo em segredo...

 Ah!

  verdade. Mas qual  a lei geral da humanidade?  no
aceitar aquilo que se lhe d, para ir buscar aquilo que no poder obter. Foi o
que fiz.

Le bonheur, cest la boule

Que cet enfant poursuit tout le
temps quelle roule.

Et que, ds quele arrte, il repousse du pied.*

 Bravo!

 Vamos  histria!

 Estvamos no baile. J duas senhoras tinham-se retirado
para o camarim a fim de evitar algum desmaio. Por qu? Que fazia eu? Eu
derramava aos ps de D. Ceclia uma torrente de madrigais, dizia-lhe do melhor
modo possvel que a beleza dela tinha-me inspirado um amor profundo e decisivo.
Ela no prestava aos meus discursos seno uma ateno indiferente. Isto
desesperava. Insistia, repetia, pedia-lhe quase o corao. Ela nada. Enfim
ofereci-lhe o brao. Percorremos algumas salas. D. Ceclia estava divina de
graa, de beleza, e etc... de indiferena. Se fosse a indiferena somente bem
estava, mas houve mais...

 Houve mais?

 Houve. Houve desengano. Eu disse-lhe que a amava
perdidamente; ela respondeu-me positivamente que no me podia amar. Quase ca.
No lhe disse mais nada e voltamos para a sala.

 No me lembro disso, observou Ceclia.

 Lembro-me eu que fui a vtima. O algoz...

  ordem!  ordem! reclamaram os ouvintes.

O narrador continuou:

 Deixei D. Ceclia na sala e sa. Fui para o jardim.
Desesperado, cuidei que o ar e a solido me aplacassem o nimo. Vi atravs da
rama de uns arbustos um ponto de luz. Era um charuto ao que me parecia, e com o
charuto um homem. A noite estava escurssima. Caminhei para o lugar em que me
parecia estar o homem e o charuto. Pedi fogo e vi que o charuto me entrava nas
mos. Acendi um charuto e agradeci. A minha voz foi conhecida pelo meu
interlocutor e eu prprio reconheci na voz que me falava um rapaz que eu
conhecera aos sales.

 Abrevie a histria!

 Apoiado!

  simples. Contei ao meu interlocutor os motivos da
minha presena, e estava calmo, esperando algumas palavras de consolao,
quando me senti agarrado. Procurei defender-me e lutamos durante alguns
minutos, ao som de uma polca que se executava no interior da casa. Todos
compreendem o caso. O meu adversrio era pretendente ao corao de D. Ceclia;
estava, como eu, desconsolado. Lutamos, como disse. Nunca mais nos falamos.

 Nunca mais?

 Nunca mais.

 No me lembro de nada, nem me constou nada neste
sentido, disse Ceclia.

 Eu nunca disse nada a ningum.

Fora escrever dois volumes repetir os episdios trgicos,
ou cmicos, ou patticos, que os ex-adoradores de Ceclia traziam para a
conversao.

Em uma dessas prticas ntimas, singelas, trouxe um criado
uma carta para Ceclia. Era de Tibrcio.

Quem era Tibrcio? Era o primo de Ceclia que partira da
corte na noite em que Ceclia fizera o contrato misterioso para independncia
do corao.

Tibcio partira moo e voltou velho. Nunca dera sinal de
si. No se sabia onde andava nem que fazia.

Tibrcio escrevia de S. Paulo. Dizia que dentro de oito
dias estaria na corte. E da a oito dias chegou.

A carta dizia:

Minha prima.  Dentro de oito dias l estarei. Vai
aparecer-lhe um velho. H que tempo de l sa!

Andei seca e meca. Ganhei, perdi, tornei a ganhar, e a experincia me
serviu, porque o que ganhei conservo agora e no tenho idia, nem nimo de
perd-lo outra vez.

Que  feito de nossa famlia? Eu de nada sei. No procurei
ningum, no escrevi; acho que fizeram bem em me no escreverem. Com ingrato,
ingrato e meio. Mas eu hei de provar que no fui ingrato.

Adeus. Esta lhe h de ser entregue por C..., meu amigo,
que parte para essa corte. Adeus.  Tibrcio.

Tibrcio acompanhou a carta com intervalo de alguns dias.
Era um velho bonito, folgazo, opulento de carnes e de dinheiro.

Nem Tibrcio reconhecia Ceclia, nem Ceclia reconheceu
Tibrcio. To mudados estavam!

Vieram as longas narrativas do que se houvera passado
durante o longo espao de tempo que se no viram.

 necessrio dizer que Tibrcio, quando partira da corte,
amava Ceclia, sem que para am-la se fundasse em nenhum sentimento recproco.

Ceclia foi ao princpio indiferente... por indiferena.
Mais tarde  que veio o pacto anglico.

Tibrcio ouviu, com grande admirao, da boca de Ceclia a
notcia de que ela nunca se houvera casado.

E de sua parte declarou que tambm se conservara solteiro,
adiantando logo a razo disso, que era no poder levar famlia para as
trabalhosas empresas a que se entregava.

Mas a respeito de Ceclia admirou-se muito. No a deixara
formosa e requestada? No via ainda que essa beleza tarde desapareceu?

 No quis, respondia Ceclia.

 Mas por qu?...

 No sei... no quis.

E, como sempre, Ceclia olhava amorosamente para o anel.
Os olhos de Tibrcio acompanharam os de Ceclia e pousaram na esmeralda que ela
trazia no dedo.

 Ah! disse ele.

E a conversa passou a outros assuntos.

Insistiram todos em que Tibrcio referisse as suas viagens, as suas aventuras, os seus perigos, as suas fortunas.

 Fora preciso um ano, disse Tibrcio.

Com efeito, Tibrcio tinha vivido uma vida acidentada.
Lutas, perigos, sustos, fortunas, alternativas de todo o gnero, tudo matizava
o fundo do quadro da existncia de Tibrcio.

Tibrcio adquirira parte de sua fortuna em algumas
exploraes de minas de ouro e de brilhantes.

Durante os dias que se seguiram ao da chegada dele em casa
de Ceclia, a famlia, os restos da famlia, e os convivas habituais,
divertiram-se muito ouvindo as narraes de Tibrcio sobre os acidentes das
exploraes mineiras.

Quando se esgotou esse captulo, Tibrcio referiu que uma
vez fora agarrado pelos bugres perto do rio Araguaia. Quando caiu nas mos
daqueles brbaros perdeu at a ltima gota de sangue. Viu a morte diante dos
olhos. J os bugres se preparavam para almoar aquele bife, quando uma partida
de soldados que andava  caa de um criminoso descobriu o fato e chegou a tempo
de salvar Tibrcio dos estmagos indgenas.

Outros perigos correra o primo de Ceclia, como o de
naufragar em torrentes de rios, encontrar-se com onas, e outros deste gnero.

O auditrio habitual de Tibrcio divertia-se muito com
estas narraes, e ele por sua parte sabia referir os tais episdios dando-lhes
as cores prprias de comover e interessar.

Tibrcio resolvera ir morar com as duas parentas, e ali se
instalou imediatamente.

Todas as noites havia uma reunio de amigos para tomar
ch, conversar e jogar.

Uma noite de chuva, em ms de junho, debalde se esperaram
os convivas. A chuva e o frio no consentiram que os respeitveis ancies
deixassem os conchegos do lar, nem mesmo com a seduo das boas horas que se
passava em casa de Ceclia.

Foram, pois, os trs parentes obrigados a se privarem
naquela noite da companhia dos amigos.

Tomaram ch cedo e estavam fazendo horas  mesa at que
viesse a hora habitual de se recolherem.

Travou-se a seguinte conversao:

 Ora, prima, disse Tibrcio, ainda no lhe contei os
tormentos que sofri relativamente ao corao...

 Ah!

  verdade. Lembrei-me muito de voc.

 Deveras?

  verdade. No se lembra que eu mais de uma vez lhe
confessei o amor que alimentava?

 Lembro-me, sim.

 Pois sa da corte com as mais dolorosas impresses. Via
que ia para longe e perdia de vista a mulher que eu ainda nem conhecia de
corao. Padeci muito.

 Falar nisso agora no sei que me parece.

 Parece o que , a verdade. Quis matar-me...

 Que tolice!

 Foi o que eu pensei...

 Morria e eu ficava.

 Mas o que me agrada  ver que se eu no esqueci, tambm
voc no esqueceu.

 No, de certo.

 Mas, de certo modo?

 Que modo?

 Gentes! disse a prima viva. Vocs parecem namorados!

 Mas de que modo? como apaixonada?

 Sim.

 Que loucura!

 Pelo menos tenho uma prova.

 Vamos ver a prova, disse a viva.

 A prova no est comigo.

 Est comigo? perguntou Ceclia.

  verdade.

 Onde?

 A, no dedo.

Ceclia olhou para o anel.

 No dedo! disse ela sem compreender a que podia o primo
aludir.

 Esse anel, disse o primo.

 Este anel? Que tem este anel?

 Ora, afinal, disse a prima viva, vamos saber o que
significa este misterioso anel.

Ceclia estava espantada sem compreender.

Tibrcio continuou:

 Este anel, sim.  meu. Ou por outra,  seu hoje, mas foi
meu, porque o encomendei.

 Mas explique-se.

 Nas vsperas de partir da corte quis deixar-lhe uma
prova de que o meu amor era verdadeiro e seria eterno. Encomendei este anel,
que o ourives prontificou com o maior cuidado e zelo. Tinha dois meios de
dar-lho: ou introduzir-lho no dedo, francamente, com a declarao de que era
uma lembrana minha que deixara, ou deposit-lo no seu toucador para que,
quando eu j estivesse fora, aquela lembrana a surpreendesse.

  romanesco, disse a viva.

Ceclia nada disse. Tinha os olhos pregados em Tibrcio e
procurava arrancar-lhe as palavras da boca.

Tibrcio prosseguiu:

 Preferi o segundo meio por me parecer, como diz a prima,
romanesco. Mas, ao execut-lo, ocorreu-me um terceiro meio. Era o de colocar o
anel no seu dedo na hora em que dormisse, de modo que a surpresa fosse ainda
maior.

 Ah! e...

Esta exclamao e esta conjuno partiram da prima viva.
Ceclia to absorta estava que nada podia dizer.

 Descansem, disse Tibrcio, eu fiz as coisas
honestamente. Peitei a mucama para que alta noite, na ocasio em que a prima
dormisse depois da costumada leitura... Ah! voc lia muito romance!

 Adiante!

 Para que alta noite se aproveitasse do sono em que voc
estivesse e lhe pusesse o anel. Assim foi. Vejo agora que conservou o anel.
Mas, diga-me, a Teresa nunca lhe disse nada disto?

 No, disse Ceclia distraidamente.

 Pois foi assim. E se quer mais uma prova tire o anel...
Nunca o tirou?

 Nunca.

 Pois tire o anel e veja se no esto gravadas pela parte
interior as iniciais do meu nome.

Ceclia hesitou entre a curiosidade de averiguar a
asseverao de Tibrcio e um resto de crena que tinha nas palavras da viso.

 Tire o anel.

 Mas...

 Tire! Que receio  esse?

 Esperem, no tiro por uma razo. Eu no creio no que diz
o primo Tibrcio.

 Por qu?

 No creio, mas creio em outra coisa.

 Essa agora!

  verdade.

E Ceclia passou a referir aos dois parentes todas as
circunstncias da viso, o dilogo que tivera com ela, a f em que lhe ficaram
as promessas do anjo das donzelas.

 Tal foi, acrescentou Ceclia, a razo por que me no
casei. Tinha f nisto. Quanto a tirar o anel, disse-me a viso que nunca o
fizesse.

Tibrcio deu uma gargalhada.

 Ora, prima, disse ele, pois voc quer contestar uma
verdade com uma superstio? Ainda acredita em sonhos!

 Como, sonhos?

  evidente. Isso da viso no passou de um sonho.
Coincidiu o sonho com o fato do anel. Mas voc quando acordou no dia seguinte
achou-se com um anel no dedo, no devia fazer outra coisa mais do que averiguar
a razo do fenmeno, e no dar crdito a uma coisa toda de imaginao.

Ceclia abanou a cabea.

 Pois no cr? Tire o anel.

Ceclia hesitava. Mas Tibrcio usou da arma do ridculo,
no que foi acompanhado pela prima viva de modo que Ceclia, com alguma
relutncia, plida e trmula, arrancou o anel do dedo.

O anel tinha na parte interna gravadas estas iniciais: T.
B.
