Conto, Relquias de Casa Velha, 1906

Relquias de Casa Velha

Texto-fonte: Obra Completa,
de Machado de Assis, vol. II,

Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1994.

Publicado originalmente pela
Editora Garnier, Rio de Janeiro, 1906.

NDICE

ADVERTNCIA

PAI
CONTRA ME

MARIA
CORA

MARCHA
FNEBRE

UM
CAPITO DE VOLUNTRIOS

SUJE-SE
GORDO!

UMAS
FRIAS

EVOLUO

PLADES
E ORESTES

ANEDOTA DO CABRIOLET

ADVERTNCIA

Uma casa tem muita vez as suas relquias,
lembranas de um dia ou de outro, da tristeza que passou, da felicidade que se
perdeu. Supe que o dono pense em as arejar e expor para teu e meu desenfado.
Nem todas sero interessantes, no raras sero aborrecidas, mas, se o dono
tiver cuidado, pode extrair uma dzia delas que meream sair c fora.

Chama-lhe  minha vida uma casa, d o nome de
relquias aos inditos e impressos que aqui vo, idias, histrias, crticas,
dilogos, e vers explicados o livro e o ttulo. Possivelmente no tero a
mesma suposta fortuna daquela dzia de outras, nem todas valero a pena de sair
c fora. Depende da tua impresso, leitor amigo, como depender de ti a
absolvio da m escolha.

Machado de Assis

A CAROLINA

Querida, ao p do leito derradeiro

Em que descansas dessa longa vida,

Aqui venho e virei, pobre querida,

Trazer-te o corao do companheiro.

Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro

Que, a despeito de toda a humana lida,

Fez a nossa existncia apetecida

E num recanto ps um mundo inteiro.

Trago-te flores,  restos arrancados

Da terra que nos viu passar unidos

E ora mortos nos deixa e separados,

Que eu, se tenho nos olhos mal feridos

Pensamentos de vida formulados,

So pensamentos idos e vividos.

PAI CONTRA ME

A escravido levou consigo ofcios
e aparelhos, como ter sucedido a outras instituies sociais. No cito alguns
aparelhos seno por se ligarem a certo ofcio. Um deles era o ferro ao pescoo,
outro o ferro ao p; havia tambm a mscara de folha-de-flandres. A mscara
fazia perder o vcio da embriaguez aos escravos, por lhes tapar a boca. Tinha
s trs buracos, dois para ver, um para respirar, e era fechada atrs da cabea
por um cadeado. Com o vcio de beber, perdiam a tentao de furtar, porque
geralmente era dos vintns do senhor que eles tiravam com que matar a sede, e
a ficavam dois pecados extintos, e a sobriedade e a honestidade certas. Era
grotesca tal mscara, mas a ordem social e humana nem sempre se alcana sem o
grotesco, e alguma vez o cruel. Os funileiros as tinham penduradas,  venda, na
porta das lojas. Mas no cuidemos de mscaras.

O ferro ao pescoo era aplicado aos
escravos fujes. Imaginai uma coleira grossa, com a haste grossa tambm 
direita ou  esquerda, at ao alto da cabea e fechada atrs com chave. Pesava,
naturalmente, mas era menos castigo que sinal. Escravo que fugia assim, onde
quer que andasse, mostrava um reincidente, e com pouco era pegado.

H meio sculo, os escravos fugiam
com freqncia. Eram muitos, e nem todos gostavam da escravido. Sucedia
ocasionalmente apanharem pancada, e nem todos gostavam de apanhar pancada.
Grande parte era apenas repreendida; havia algum de casa que servia de
padrinho, e o mesmo dono no era mau; alm disso, o sentimento da propriedade
moderava a ao, porque dinheiro tambm di. A fuga repetia-se, entretanto.
Casos houve, ainda que raros, em que o escravo de contrabando, apenas comprado
no Valongo, deitava a correr, sem conhecer as ruas da cidade. Dos que seguiam
para casa, no raro, apenas ladinos, pediam ao senhor que lhes marcasse
aluguel, e iam ganh-lo fora, quitandando.

Quem perdia um escravo por fuga
dava algum dinheiro a quem lho levasse. Punha anncios nas folhas pblicas, com
os sinais do fugido, o nome, a roupa, o defeito fsico, se o tinha, o bairro
por onde andava e a quantia de gratificao. Quando no vinha a quantia, vinha
promessa: gratificar-se- generosamente,  ou receber uma boa
gratificao. Muita vez o anncio trazia em cima ou ao lado uma vinheta,
figura de preto, descalo, correndo, vara ao ombro, e na ponta uma trouxa.
Protestava-se com todo o rigor da lei contra quem o acoitasse.

Ora, pegar escravos fugidios era
um ofcio do tempo. No seria nobre, mas por ser instrumento da fora com que
se mantm a lei e a propriedade, trazia esta outra nobreza implcita das aes
reivindicadoras. Ningum se metia em tal ofcio por desfastio ou estudo; a
pobreza, a necessidade de uma achega, a inaptido para outros trabalhos, o
acaso, e alguma vez o gosto de servir tambm, ainda que por outra via, davam o
impulso ao homem que se sentia bastante rijo para pr ordem  desordem.

Cndido Neves,  em famlia,
Candinho,   a pessoa a quem se liga a histria de uma fuga, cedeu  pobreza,
quando adquiriu o ofcio de pegar escravos fugidos. Tinha um defeito grave esse
homem, no agentava emprego nem ofcio, carecia de estabilidade;  o que ele
chamava caiporismo. Comeou por querer aprender tipografia, mas viu cedo que
era preciso algum tempo para compor bem, e ainda assim talvez no ganhasse o
bastante; foi o que ele disse a si mesmo. O comrcio chamou-lhe a ateno, era
carreira boa. Com algum esforo entrou de caixeiro para um armarinho. A
obrigao, porm, de atender e servir a todos feria-o na corda do orgulho, e ao
cabo de cinco ou seis semanas estava na rua por sua vontade. Fiel de cartrio,
contnuo de uma repartio anexa ao Ministrio do Imprio, carteiro e outros
empregos foram deixados pouco depois de obtidos.

Quando veio a paixo da moa
Clara, no tinha ele mais que dvidas, ainda que poucas, porque morava com um
primo, entalhador de ofcio. Depois de vrias tentativas para obter emprego,
resolveu adotar o ofcio do primo, de que alis j tomara algumas lies. No
lhe custou apanhar outras, mas, querendo aprender depressa, aprendeu mal. No
fazia obras finas nem complicadas, apenas garras para sofs e relevos comuns
para cadeiras. Queria ter em que trabalhar quando casasse, e o casamento no se
demorou muito.

Contava trinta anos. Clara vinte e
dois. Ela era rf, morava com uma tia, Mnica, e cosia com ela. No cosia
tanto que no namorasse o seu pouco, mas os namorados apenas queriam matar o
tempo; no tinham outro empenho. Passavam s tardes, olhavam muito para ela,
ela para eles, at que a noite a fazia recolher para a costura. O que ela
notava  que nenhum deles lhe deixava saudades nem lhe acendia desejos. Talvez
nem soubesse o nome de muitos. Queria casar, naturalmente. Era, como lhe dizia
a tia, um pescar de canio, a ver se o peixe pegava, mas o peixe passava de
longe; algum que parasse, era s para andar  roda da isca, mir-la, cheir-la,
deix-la e ir a outras.

O amor traz sobrescritos. Quando a
moa viu Cndido Neves, sentiu que era este o possvel marido, o marido
verdadeiro e nico. O encontro deu-se em um baile; tal foi  para lembrar o
primeiro ofcio do namorado,  tal foi a pgina inicial daquele livro, que
tinha de sair mal composto e pior brochado. O casamento fez-se onze meses
depois, e foi a mais bela festa das relaes dos noivos. Amigas de Clara, menos
por amizade que por inveja, tentaram arred-la do passo que ia dar. No negavam
a gentileza do noivo, nem o amor que lhe tinha, nem ainda algumas virtudes;
diziam que era dado em demasia a patuscadas.

 Pois ainda bem, replicava a
noiva; ao menos, no caso com defunto.

 No, defunto no; mas  que...

No diziam o que era. Tia Mnica, depois
do casamento, na casa pobre onde eles se foram abrigar, falou-lhes uma vez nos
filhos possveis. Eles queriam um, um s, embora viesse agravar a necessidade.

 Vocs, se tiverem um filho,
morrem de fome, disse a tia  sobrinha.

 Nossa Senhora nos dar de comer,
acudiu Clara.

Tia Mnica devia ter-lhes feito a
advertncia, ou ameaa, quando ele lhe foi pedir a mo da moa; mas tambm ela
era amiga de patuscadas, e o casamento seria uma festa, como foi.

A alegria era comum aos trs. O
casal ria a propsito de tudo. Os mesmos nomes eram objeto de trocados, Clara,
Neves, Cndido; no davam que comer, mas davam que rir, e o riso digeria-se sem
esforo. Ela cosia agora mais, ele saa a empreitadas de uma coisa e outra; no
tinha emprego certo.

Nem por isso abriam mo do filho.
O filho  que, no sabendo daquele desejo especfico, deixava-se estar
escondido na eternidade. Um dia, porm, deu sinal de si a criana; varo ou
fmea, era o fruto abenoado que viria trazer ao casal a suspirada ventura. Tia
Mnica ficou desorientada, Cndido e Clara riram dos seus sustos.

 Deus nos h de ajudar, titia,
insistia a futura me.

A notcia correu de vizinha a
vizinha. No houve mais que espreitar a aurora do dia grande. A esposa
trabalhava agora com mais vontade, e assim era preciso, uma vez que, alm das
costuras pagas, tinha de ir fazendo com retalhos o enxoval da criana.  fora
de pensar nela, vivia j com ela, media-lhe fraldas, cosia-lhe camisas. A
poro era escassa, os intervalos longos. Tia Mnica ajudava,  certo, ainda
que de m vontade.

 Vocs vero a triste vida,
suspirava ela.

 Mas as outras crianas no
nascem tambm? perguntou Clara.

 Nascem, e acham sempre alguma
coisa certa que comer, ainda que pouco...

 Certa como?

 Certa, um emprego, um ofcio,
uma ocupao, mas em que  que o pai dessa infeliz criatura que a vem gasta o
tempo?

Cndido Neves, logo que soube
daquela advertncia, foi ter com a tia, no spero, mas muito menos manso que
de costume, e lhe perguntou se j algum dia deixara de comer.

 A senhora ainda no jejuou seno
pela semana santa, e isso mesmo quando no quer jantar comigo. Nunca deixamos
de ter o nosso bacalhau...

 Bem sei, mas somos trs.

 Seremos quatro.

 No  a mesma coisa.

 Que quer ento que eu faa, alm
do que fao?

 Alguma coisa mais certa. Veja o
marceneiro da esquina, o homem do armarinho, o tipgrafo que casou sbado,
todos tm um emprego certo... No fique zangado; no digo que voc seja vadio,
mas a ocupao que escolheu  vaga. Voc passa semanas sem vintm.

 Sim, mas l vem uma noite que
compensa tudo, at de sobra. Deus no me abandona, e preto fugido sabe que
comigo no brinca; quase nenhum resiste, muitos entregam-se logo.

Tinha glria nisto, falava da esperana
como de capital seguro. Da a pouco ria, e fazia rir  tia, que era
naturalmente alegre, e previa uma patuscada no batizado.

Cndido Neves perdera j o ofcio
de entalhador, como abrira mo de outros muitos, melhores ou piores. Pegar escravos
fugidos trouxe-lhe um encanto novo. No obrigava a estar longas horas sentado.
S exigia fora, olho vivo, pacincia, coragem e um pedao de corda. Cndido
Neves lia os anncios, copiava-os, metia-os no bolso e saa s pesquisas. Tinha
boa memria. Fixados os sinais e os costumes de um escravo fugido, gastava
pouco tempo em ach-lo, segur-lo, amarr-lo e lev-lo. A fora era muita, a
agilidade tambm. Mais de uma vez, a uma esquina, conversando de coisas
remotas, via passar um escravo como os outros, e descobria logo que ia fugido,
quem era, o nome, o dono, a casa deste e a gratificao; interrompia a conversa
e ia atrs do vicioso. No o apanhava logo, espreitava lugar azado, e de um
salto tinha a gratificao nas mos. Nem sempre saa sem sangue, as unhas e os
dentes do outro trabalhavam, mas geralmente ele os vencia sem o menor arranho.

Um dia os lucros entraram a
escassear. Os escravos fugidos no vinham j, como dantes, meter-se nas mos de
Cndido Neves. Havia mos novas e hbeis. Como o negcio crescesse, mais de um
desempregado pegou em si e numa corda, foi aos jornais, copiou anncios e
deitou-se  caada. No prprio bairro havia mais de um competidor. Quer dizer
que as dvidas de Cndido Neves comearam de subir, sem aqueles pagamentos prontos
ou quase prontos dos primeiros tempos. A vida fez-se difcil e dura. Comia-se
fiado e mal; comia-se tarde. O senhorio mandava pelo aluguis.

Clara no tinha sequer tempo de remendar
a roupa ao marido, tanta era a necessidade de coser para fora. Tia Mnica
ajudava a sobrinha, naturalmente. Quando ele chegava  tarde, via-se-lhe pela
cara que no trazia vintm. Jantava e saa outra vez,  cata de algum fugido.
J lhe sucedia, ainda que raro, enganar-se de pessoa, e pegar em escravo fiel
que ia a servio de seu senhor; tal era a cegueira da necessidade. Certa vez
capturou um preto livre; desfez-se em desculpas, mas recebeu grande soma de
murros que lhe deram os parentes do homem.

  o que lhe faltava! exclamou a
tia Mnica, ao v-lo entrar, e depois de ouvir narrar o equvoco e suas
conseqncias. Deixe-se disso, Candinho; procure outra vida, outro emprego.

Cndido quisera efetivamente fazer
outra coisa, no pela razo do conselho, mas por simples gosto de trocar de
ofcio; seria um modo de mudar de pele ou de pessoa. O pior  que no achava 
mo negcio que aprendesse depressa.

A natureza ia andando, o feto
crescia, at fazer-se pesado  me, antes de nascer. Chegou o oitavo ms, ms
de angstias e necessidades, menos ainda que o nono, cuja narrao dispenso
tambm. Melhor  dizer somente os seus efeitos. No podiam ser mais amargos.

 No, tia Mnica! bradou
Candinho, recusando um conselho que me custa escrever, quanto mais ao pai
ouvi-lo. Isso nunca!

Foi na ltima semana do derradeiro
ms que a tia Mnica deu ao casal o conselho de levar a criana que nascesse 
Roda dos enjeitados. Em verdade, no podia haver palavra mais dura de tolerar a
dois jovens pais que espreitavam a criana, para beij-la, guard-la, v-la
rir, crescer, engordar, pular... Enjeitar qu? enjeitar como? Candinho
arregalou os olhos para a tia, e acabou dando um murro na mesa de jantar. A
mesa, que era velha e desconjuntada, esteve quase a se desfazer inteiramente.
Clara interveio.

 Titia no fala por mal,
Candinho.

 Por mal? replicou tia Mnica.
Por mal ou por bem, seja o que for, digo que  o melhor que vocs podem fazer.
Vocs devem tudo; a carne e o feijo vo faltando. Se no aparecer algum
dinheiro, como  que a famlia h de aumentar? E depois, h tempo; mais tarde,
quando o senhor tiver a vida mais segura, os filhos que vierem sero recebidos
com o mesmo cuidado que este ou maior. Este ser bem criado, sem lhe faltar
nada. Pois ento a Roda  alguma praia ou monturo? L no se mata ningum,
ningum morre  toa, enquanto que aqui  certo morrer, se viver  mngua.
Enfim...

Tia Mnica terminou a frase com um
gesto de ombros, deu as costas e foi meter-se na alcova. Tinha j insinuado
aquela soluo, mas era a primeira vez que o fazia com tal franqueza e calor, 
crueldade, se preferes. Clara estendeu a mo ao marido, como a amparar-lhe o
nimo; Cndido Neves fez uma careta, e chamou maluca  tia, em voz baixa. A
ternura dos dois foi interrompida por algum que batia  porta da rua.

 Quem ? perguntou o marido.

 Sou eu.

Era o dono da casa, credor de trs
meses de aluguel, que vinha em pessoa ameaar o inquilino. Este quis que ele
entrasse.

 No  preciso...

 Faa favor.

O credor entrou e recusou
sentar-se; deitou os olhos  moblia para ver se daria algo  penhora; achou
que pouco. Vinha receber os aluguis vencidos, no podia esperar mais; se
dentro de cinco dias no fosse pago, p-lo-ia na rua. No havia trabalhado para
regalo dos outros. Ao v-lo, ningum diria que era proprietrio; mas a palavra
supria o que faltava ao gesto, e o pobre Cndido Neves preferiu calar a
retorquir. Fez uma inclinao de promessa e splica ao mesmo tempo. O dono da
casa no cedeu mais.

 Cinco dias ou rua! repetiu,
metendo a mo no ferrolho da porta e saindo.

Candinho saiu por outro lado.
Nesses lances no chegava nunca ao desespero, contava com algum emprstimo, no
sabia como nem onde, mas contava. Demais, recorreu aos anncios. Achou vrios,
alguns j velhos, mas em vo os buscava desde muito. Gastou algumas horas sem
proveito, e tornou para casa. Ao fim de quatro dias, no achou recursos; lanou
mo de empenhos, foi a pessoas amigas do proprietrio, no alcanando mais que
a ordem de mudana.

A situao era aguda. No achavam
casa, nem contavam com pessoa que lhes emprestasse alguma; era ir para a rua.
No contavam com a tia. Tia Mnica teve arte de alcanar aposento para os trs
em casa de uma senhora velha e rica, que lhe prometeu emprestar os quartos
baixos da casa, ao fundo da cocheira, para os lados de um ptio. Teve ainda a
arte maior de no dizer nada aos dois, para que Cndido Neves, no desespero da
crise, comeasse por enjeitar o filho e acabasse alcanando algum meio seguro e
regular de obter dinheiro; emendar a vida, em suma. Ouvia as queixas de Clara,
sem as repetir,  certo, mas sem as consolar. No dia em que fossem obrigados a
deixar a casa, f-los-ia espantar com a notcia do obsquio e iriam dormir
melhor do que cuidassem.

Assim sucedeu. Postos fora da
casa, passaram ao aposento de favor, e dois dias depois nasceu a criana. A
alegria do pai foi enorme, e a tristeza tambm. Tia Mnica insistiu em dar a
criana  Roda. Se voc no a quer levar, deixe isso comigo; eu vou  Rua dos
Barbonos. Cndido Neves pediu que no, que esperasse, que ele mesmo a levaria.
Notai que era um menino, e que ambos os pais desejavam justamente este sexo.
Mal lhe deram algum leite; mas, como chovesse  noite, assentou o pai lev-lo 
Roda na noite seguinte.

Naquela reviu todas as suas notas
de escravos fugidos. As gratificaes pela maior parte eram promessas; algumas
traziam a soma escrita e escassa. Uma, porm, subia a cem mil-ris. Tratava-se
de uma mulata; vinham indicaes de gesto e de vestido. Cndido Neves andara a
pesquis-la sem melhor fortuna, e abrira mo do negcio; imaginou que algum
amante da escrava a houvesse recolhido. Agora, porm, a vista nova da quantia e
a necessidade dela animaram Cndido Neves a fazer um grande esforo derradeiro.
Saiu de manh a ver e indagar pela Rua e Largo da Carioca, Rua do Parto e da
Ajuda, onde ela parecia andar, segundo o anncio. No a achou; apenas um
farmacutico da Rua da Ajuda se lembrava de ter vendido uma ona de qualquer
droga, trs dias antes,  pessoa que tinha os sinais indicados. Cndido Neves
parecia falar como dono da escrava, e agradeceu cortesmente a notcia. No foi
mais feliz com outros fugidos de gratificao incerta ou barata.

Voltou para a triste casa que lhe
haviam emprestado. Tia Mnica arranjara de si mesma a dieta para a recente me,
e tinha j o menino para ser levado  Roda. O pai, no obstante o acordo feito,
mal pde esconder a dor do espetculo. No quis comer o que tia Mnica lhe
guardara; no tinha fome, disse, e era verdade. Cogitou mil modos de ficar com
o filho; nenhum prestava. No podia esquecer o prprio albergue em que vivia.
Consultou a mulher, que se mostrou resignada. Tia Mnica pintara-lhe a criao
do menino; seria maior a misria, podendo suceder que o filho achasse a morte
sem recurso. Cndido Neves foi obrigado a cumprir a promessa; pediu  mulher
que desse ao filho o resto do leite que ele beberia da me. Assim se fez; o
pequeno adormeceu, o pai pegou dele, e saiu na direo da Rua dos Barbonos.

Que pensasse mais de uma vez em
voltar para casa com ele,  certo; no menos certo  que o agasalhava muito,
que o beijava, que lhe cobria o rosto para preserv-lo do sereno. Ao entrar na
Rua da Guarda Velha, Cndido Neves comeou a afrouxar o passo.

 Hei de entreg-lo o mais tarde
que puder, murmurou ele.

Mas no sendo a rua infinita ou
sequer longa, viria a acab-la; foi ento que lhe ocorreu entrar por um dos
becos que ligavam aquela  Rua da Ajuda. Chegou ao fim do beco e, indo a dobrar
 direita, na direo do Largo da Ajuda, viu do lado oposto um vulto de mulher;
era a mulata fugida. No dou aqui a comoo de Cndido Neves por no pod-lo
fazer com a intensidade real. Um adjetivo basta; digamos enorme. Descendo a
mulher, desceu ele tambm; a poucos passos estava a farmcia onde obtivera a
informao, que referi acima. Entrou, achou o farmacutico, pediu-lhe a fineza
de guardar a criana por um instante; viria busc-la sem falta.

 Mas...

Cndido Neves no lhe deu tempo de
dizer nada; saiu rpido, atravessou a rua, at ao ponto em que pudesse pegar a
mulher sem dar alarma. No extremo da rua, quando ela ia a descer a de S. Jos,
Cndido Neves aproximou-se dela. Era a mesma, era a mulata fujona.

 Arminda! bradou, conforme a
nomeava o anncio.

Arminda voltou-se sem cuidar
malcia. Foi s quando ele, tendo tirado o pedao de corda da algibeira, pegou
dos braos da escrava, que ela compreendeu e quis fugir. Era j impossvel.
Cndido Neves, com as mos robustas, atava-lhe os pulsos e dizia que andasse. A
escrava quis gritar, parece que chegou a soltar alguma voz mais alta que de
costume, mas entendeu logo que ningum viria libert-la, ao contrrio. Pediu
ento que a soltasse pelo amor de Deus.

 Estou grvida, meu senhor! exclamou.
Se Vossa Senhoria tem algum filho, peo-lhe por amor dele que me solte; eu
serei tua escrava, vou servi-lo pelo tempo que quiser. Me solte, meu senhor
moo!

 Siga! repetiu Cndido Neves.

 Me solte!

 No quero demoras; siga!

Houve aqui luta, porque a escrava,
gemendo, arrastava-se a si e ao filho. Quem passava ou estava  porta de uma
loja, compreendia o que era e naturalmente no acudia. Arminda ia alegando que
o senhor era muito mau, e provavelmente a castigaria com aoites,  coisa que,
no estado em que ela estava, seria pior de sentir. Com certeza, ele lhe
mandaria dar aoites.

 Voc  que tem culpa. Quem lhe
manda fazer filhos e fugir depois? perguntou Cndido Neves.

No estava em mar de riso, por
causa do filho que l ficara na farmcia,  espera dele. Tambm  certo que no
costumava dizer grandes coisas. Foi arrastando a escrava pela Rua dos Ourives,
em direo  da Alfndega, onde residia o senhor. Na esquina desta a luta
cresceu; a escrava ps os ps  parede, recuou com grande esforo, inutilmente.
O que alcanou foi, apesar de ser a casa prxima, gastar mais tempo em l
chegar do que devera. Chegou, enfim, arrastada, desesperada, arquejando. Ainda
ali ajoelhou-se, mas em vo. O senhor estava em casa, acudiu ao chamado e ao rumor.

 Aqui est a fujona, disse
Cndido Neves.

  ela mesma.

 Meu senhor!

 Anda, entra...

Arminda caiu no corredor. Ali
mesmo o senhor da escrava abriu a carteira e tirou os cem mil-ris de
gratificao. Cndido Neves guardou as duas notas de cinqenta mil-ris,
enquanto o senhor novamente dizia  escrava que entrasse. No cho, onde jazia,
levada do medo e da dor, e aps algum tempo de luta a escrava abortou.

O fruto de algum tempo entrou sem
vida neste mundo, entre os gemidos da me e os gestos de desespero do dono.
Cndido Neves viu todo esse espetculo. No sabia que horas eram. Quaisquer que
fossem, urgia correr  Rua da Ajuda, e foi o que ele fez sem querer conhecer as
conseqncias do desastre.

Quando l chegou, viu o
farmacutico sozinho, sem o filho que lhe entregara. Quis esgan-lo.
Felizmente, o farmacutico explicou tudo a tempo; o menino estava l dentro com
a famlia, e ambos entraram. O pai recebeu o filho com a mesma fria com que pegara
a escrava fujona de h pouco, fria diversa, naturalmente, fria de amor.
Agradeceu depressa e mal, e saiu s carreiras, no para a Roda dos enjeitados,
mas para a casa de emprstimo com o filho e os cem mil-ris de gratificao.
Tia Mnica, ouvida a explicao, perdoou a volta do pequeno, uma vez que trazia
os cem mil-ris. Disse,  verdade, algumas palavras duras contra a escrava, por
causa do aborto, alm da fuga. Cndido Neves, beijando o filho, entre lgrimas,
verdadeiras, abenoava a fuga e no se lhe dava do aborto.

 Nem todas as crianas vingam,
bateu-lhe o corao.

MARIA CORA

NDICE

CAPTULO PRIMEIRO

CAPTULO
II

CAPTULO
III

CAPTULO
IV

CAPTULO
V

CAPTULO
VI

CAPTULO PRIMEIRO

Uma noite, voltando para casa,
trazia tanto sono que no dei corda ao relgio. Pode ser tambm que a vista de
uma senhora que encontrei em casa do comendador T... contribusse para aquele
esquecimento; mas estas duas razes destroem-se. Cogitao tira o sono e o sono
impede a cogitao; s uma das causas devia ser verdadeira. Ponhamos que
nenhuma, e fiquemos no principal, que  o relgio parado, de manh, quando me
levantei, ouvindo dez horas no relgio da casa.

Morava ento (1893) em uma casa de
penso no Catete. J por esse tempo este gnero de residncia florescia no Rio
de Janeiro. Aquela era pequena e tranqila. Os quatrocentos contos de ris
permitiam-me casa exclusiva e prpria; mas, em primeiro lugar, j eu ali
residia quando os adquiri, por jogo de praa; em segundo lugar, era um
solteiro de quarenta anos, to afeito  vida de hospedaria que me seria
impossvel morar s. Casar no era menos impossvel. No  que me faltassem
noivas. Desde os fins de 1891 mais de uma dama,  e no das menos belas, 
olhou para mim com olhos brandos e amigos. Uma das filhas do comendador
tratava-me com particular ateno. A nenhuma dei corda; o celibato era a minha
alma, a minha vocao, o meu costume, a minha nica ventura. Amaria de
empreitada e por desfastio. Uma ou duas aventuras por ano bastavam a um corao
meio inclinado ao ocaso e  noite.

Talvez por isso dei alguma ateno
 senhora que vi em casa do comendador, na vspera. Era uma criatura morena,
robusta, vinte e oito a trinta anos, vestida de escuro; entrou s dez horas,
acompanhada de uma tia velha. A recepo que lhe fizeram foi mais cerimoniosa
que as outras; era a primeira vez que ali ia. Eu era a terceira. Perguntei se
era viva.

 No;  casada.

 Com quem?

 Com um estancieiro do Rio
Grande.

 Chama-se?

 Ele? Fonseca, ela Maria Cora.

 O marido no veio com ela?

 Est no Rio Grande.

No soube mais nada; mas a figura da
dama interessou-me pelas graas fsicas, que eram o oposto do que poderiam
sonhar poetas romnticos e artistas serficos. Conversei com ela alguns
minutos, sobre coisas indiferentes,  mas suficientes para escutar-lhe a voz,
que era musical, e saber que tinha opinies republicanas. Vexou-me confessar
que no as professava de espcie alguma; declarei-me vagamente pelo futuro do
pas. Quando ela falava, tinha um modo de umedecer os beios, no sei se
casual, mas gracioso e picante. Creio que, vistas assim ao p, as feies no
eram to corretas como pareciam a distncia, mas eram mais suas, mais
originais.

CAPTULO II

De manh tinha o relgio parado.
Chegando  cidade, desci a Rua do Ouvidor, at  da Quitanda, e indo a voltar 
direita, para ir ao escritrio do meu advogado, lembrou-me ver que horas eram.
No me acudiu que o relgio estava parado.

 Que maada! exclamei.

Felizmente, naquela mesma Rua da
Quitanda,  esquerda, entre as do Ouvidor e Rosrio, era a oficina onde eu
comprara o relgio, e a cuja pndula usava acert-lo. Em vez de ir para um
lado, fui para outro. Era apenas meia hora; dei corda ao relgio, acertei-o,
troquei duas palavras com o oficial que estava ao balco, e indo a sair, vi 
porta de uma loja de novidades que ficava defronte, nem mais nem menos que a
senhora de escuro que encontrara em casa do comendador. Cumprimentei-a, ela
correspondeu depois de alguma hesitao, como se me no houvesse reconhecido
logo, e depois seguiu pela Rua da Quitanda fora, ainda para o lado esquerdo.

Como tivesse algum tempo ante mim
(pouco menos de trinta minutos), dei-me a andar atrs de Maria Cora. No digo
que uma fora violenta me levasse j, mas no posso esconder que cedia a
qualquer impulso de curiosidade e desejo; era tambm um resto da juventude
passada. Na rua, andando, vestida de escuro, como na vspera, Maria Cora
pareceu-me ainda melhor. Pisava forte, no apressada nem lenta, o bastante para
deixar ver e admirar as belas formas, mui mais corretas que as linhas do rosto.
Subiu a Rua do Hospcio, at uma oficina de oculista, onde entrou e ficou dez
minutos ou mais. Deixei-me estar a distncia, fitando a porta disfaradamente.
Depois saiu, arrepiou caminho, e dobrou a Rua dos Ourives, at  do Rosrio,
por onde subiu at ao Largo da S; da passou ao de S. Francisco de Paula.
Todas essas reminiscncias parecero escusadas, seno aborrecveis; a mim
do-me uma sensao intensa e particular, so os primeiros passos de uma
carreira penosa e longa. Demais, vereis por aqui que ela evitava subir a Rua do
Ouvidor, que todos e todas buscariam quela ou a outra hora para ir ao Largo de
S. Francisco de Paula. Foi atravessando o largo, na direo da Escola
Politcnica, mas a meio caminho veio ter com ela um carro que estava parado
defronte da Escola; meteu-se nele, e o carro partiu.

A vida tem suas encruzilhadas,
como outros caminhos da terra. Naquele momento achei-me diante de uma assaz
complicada, mas no tive tempo de escolher direo,  nem tempo nem liberdade. Ainda
agora no sei como  que me vi dentro de um tlburi,  certo que me vi nele,
dizendo ao cocheiro que fosse atrs do carro.

Maria Cora morava no Engenho
Velho; era uma boa casa, slida, posto que antiga, dentro de uma chcara. Vi
que morava ali, porque a tia estava a uma das janelas. Depois, saindo do carro,
Maria Cora disse ao cocheiro (o meu tlburi ia passando adiante) que naquela
semana no sairia mais, e que aparecesse segunda-feira ao meio-dia. Em seguida,
entrou pela chcara, como dona dela, e parou a falar ao feitor, que lhe
explicava alguma coisa com o gesto.

Voltei depois que ela entrou em
casa, e s muito abaixo  que me lembrou de ver as horas, era quase uma e meia.
Vim a trote largo at  Rua da Quitanda, onde me apeei  porta do advogado.

 Pensei que no vinha, disse-me
ele.

 Desculpe, doutor, encontrei um
amigo que me deu uma maada.

No era a primeira vez que mentia
na minha vida, nem seria a ltima.

CAPTULO III

Fiz-me encontradio com Maria
Cora, na casa do comendador, primeiro, e depois em outras. Maria Cora no vivia
absolutamente reclusa, dava alguns passeios e fazia visitas. Tambm recebia,
mas sem dia certo, uma ou outra vez, e apenas cinco a seis pessoas da
intimidade. O sentimento geral  que era pessoa de fortes sentimentos e
austeros costumes. Acrescentai a isto o esprito, um esprito agudo, brilhante
e viril. Capaz de resistncias e fadigas, no menos que de violncias e
combates, era feita, como dizia um poeta que l ia  casa dela, de um pedao
de pampa e outro de pampeiro. A imagem era em verso e com rima, mas a mim s
me ficou a idia e o principal das palavras. Maria Cora gostava de ouvir
definir-se assim, posto no andasse mostrando aquelas foras a cada passo, nem
contando as suas memrias da adolescncia. A tia  que contava algumas, com
amor, para concluir que lhe saa a ela, que tambm fora assim na mocidade. A
justia pede que se diga que, ainda agora, apesar de doente, a tia era pessoa
de muita vida e robustez.

Com pouco, apaixonei-me pela sobrinha.
No me pesa confess-lo, pois foi a ocasio da nica pgina da minha vida que
merece ateno particular. Vou narr-la brevemente; no conto novela nem direi
mentiras.

Gostei de Maria Cora. No lhe
confiei logo o que sentia, mas  provvel que ela o percebesse ou adivinhasse,
como todas as mulheres. Se a descoberta ou adivinhao foi anterior  minha ida
 casa do Engenho Velho, nem assim deveis censur-la por me haver convidado a
ir ali uma noite. Podia ser-lhe ento indiferente a minha disposio moral;
podia tambm gostar de se sentir querida, sem a menor idia de retribuio. A
verdade  que fui essa noite e tornei outras; a tia gostava de mim e dos meus
modos. O poeta que l ia, tagarela e tonto, disse uma vez que estava afinando a
lira para o casamento da tia comigo. A tia riu-se; eu, que queria as boas
graas dela, no podia deixar de rir tambm, e o caso foi matria de
conversao por uma semana; mas j ento o meu amor  outra tinha atingido ao
cume.

Soube, pouco depois, que Maria
Cora vivia separada do marido. Tinham casado oito anos antes, por verdadeira
paixo. Viveram felizes cinco. Um dia, sobreveio uma aventura do marido que
destruiu a paz do casal. Joo da Fonseca apaixonou-se por uma figura de circo,
uma chilena que voava em cima do cavalo, Dolores, e deixou a estncia para ir
atrs dela. Voltou seis meses depois, curado do amor, mas curado  fora,
porque a aventureira se enamorou do redator de um jornal, que no tinha vintm,
e por ele abandonou Fonseca e a sua prataria. A esposa tinha jurado no aceitar
mais o esposo, e tal foi a declarao que lhe fez quando ele apareceu na
estncia.

 Tudo est acabado entre ns;
vamos desquitar-nos.

Joo da Fonseca teve um primeiro gesto
de acordo; era um quadragenrio orgulhoso, para quem tal proposta era de si
mesma uma ofensa. Durante uma noite tratou dos preparativos para o desquite;
mas, na seguinte manh, a vista das graas da esposa novamente o comoveu.
Ento, sem tom implorativo, antes como quem lhe perdoava, entendeu dizer-lhe
que deixasse passar uns seis meses. Se ao fim de seis meses, persistisse o
sentimento atual que inspirava a proposta do desquite, este se faria. Maria
Cora no queria aceitar a emenda, mas a tia, que residia em Porto Alegre e fora
passar algumas semanas na estncia, interveio com boas palavras. Antes de trs
meses estavam reconciliados.

 Joo, disse-lhe a mulher no dia
seguinte ao da reconciliao, voc deve ver que o meu amor  maior que o meu
cime, mas fica entendido que este caso da nossa vida  nico. Nem voc me far
outra, nem eu lhe perdoarei nada mais.

Joo da Fonseca achava-se ento em
um renascimento do delrio conjugal; respondeu  mulher jurando tudo e mais
alguma coisa. Aos quarenta anos, concluiu ele, no se fazem duas aventuras
daquelas, e a minha foi de doer. Voc ver, agora  para sempre.

A vida recomeou to feliz, como
dantes,  ele dizia que mais. Com efeito, a paixo da esposa era violenta, e o
marido tornou a am-la como outrora. Viveram assim dois anos. Ao fim desse
tempo, os ardores do marido haviam diminudo, alguns amores passageiros vieram
meter-se entre ambos. Maria Cora, ao contrrio do que lhe dissera, perdoou
essas faltas, que alis no tiveram a extenso nem o vulto da aventura Dolores.
Os desgostos, entretanto, apareceram e grandes. Houve cenas violentas. Ela
parece que chegou mais de uma vez a ameaar que se mataria; mas, posto no lhe
faltasse o preciso nimo, no fez tentativa nenhuma, a tal ponto lhe doa deixar
a prpria causa do mal, que era o marido. Joo da Fonseca percebeu isto mesmo,
e acaso explorou a fascinao que exercia na mulher.

Uma circunstncia poltica veio
complicar esta situao moral. Joo da Fonseca era pelo lado da revoluo,
dava-se com vrios dos seus chefes, e pessoalmente detestava alguns dos
contrrios. Maria Cora, por laos de famlia, era adversa aos federalistas.
Esta oposio de sentimentos no seria bastante para separ-los, nem se pode
dizer que, por si mesma, azedasse a vida dos dois. Embora a mulher, ardente em
tudo, no o fosse menos em condenar a revoluo, chamando nomes crus aos seus
chefes e oficiais; embora o marido, tambm excessivo, replicasse com igual
dio, os seus arrufos polticos apenas aumentariam os domsticos, e provavelmente
no passariam dessa troca de conceitos, se uma nova Dolores, desta vez
Prazeres, e no chilena nem saltimbanca, no revivesse os dias amargos de outro
tempo. Prazeres era ligada ao partido da revoluo, no s pelos sentimentos,
como pelas relaes da vida com um federalista. Eu a conheci pouco depois, era
bela e airosa; Joo da Fonseca era tambm um homem gentil e sedutor. Podiam
amar-se fortemente, e assim foi. Vieram incidentes, mais ou menos graves, at
que um decisivo determinou a separao do casal.

J cuidavam disto desde algum
tempo, mas a reconciliao no seria impossvel, apesar da palavra de Maria
Cora, graas  interveno da tia; esta havia insinuado  sobrinha que
residisse trs ou quatro meses no Rio de Janeiro ou em S. Paulo. Sucedeu,
porm, uma coisa triste de dizer. O marido, em um momento de desvario, ameaou
a mulher com o rebenque. Outra verso diz que ele tentara esgan-la. Quero crer
que a verdica  a primeira, e que a segunda foi inventada para tirar 
violncia de Joo da Fonseca o que pudesse haver deprimente e vulgar. Maria
Cora no disse mais uma s palavra ao marido. A separao foi imediata; a
mulher veio com a tia para o Rio de Janeiro, depois de arranjados amigavelmente
os interesses pecunirios. Demais, a tia era rica.

Joo da Fonseca e Prazeres ficaram
vivendo juntos uma vida de aventuras que no importa escrever aqui. S uma
coisa interessa diretamente  minha narrao. Tempos depois da separao do
casal, Joo da Fonseca estava alistado entre os revolucionrios. A paixo
poltica, posto que forte, no o levaria a pegar em armas, se no fosse uma
espcie de desafio da parte de Prazeres; assim correu entre os amigos dele, mas
ainda este ponto  obscuro. A verso  que ela, exasperada com o resultado de
alguns combates, disse ao estancieiro que iria, disfarada em homem, vestir
farda de soldado e bater-se pela revoluo. Era capaz disto; o amante disse-lhe
que era uma loucura, ela acabou propondo-lhe que, nesse caso, fosse ele
bater-se em vez dela; era uma grande prova de amor que lhe daria.

 No te tenho dado tantas?

 Tem, sim; mas esta  a maior de
todas, esta me far cativa at  morte.

 Ento agora ainda no  at 
morte? perguntou ele rindo.

 No.

Pode ser que as coisas se
passassem assim. Prazeres era, com efeito, uma mulher caprichosa e imperiosa, e
sabia prender um homem por laos de ferro. O federalista, de quem se separou
para acompanhar Joo da Fonseca, depois de fazer tudo para reav-la, passou 
campanha oriental, onde dizem que vive pobremente, encanecido e envelhecido
vinte anos, sem querer saber de mulheres nem de poltica. Joo da Fonseca
acabou cedendo; ela pediu para acompanh-lo, e at bater-se, se fosse preciso;
ele negou-lho. A revoluo triunfaria em breve, disse; vencidas as foras do
governo, tornaria  estncia, onde ela o esperaria.

 Na estncia, no, respondeu
Prazeres; espero-te em Porto Alegre.

CAPTULO IV

No importa dizer o tempo que
despendi nos incios da minha paixo, mas no foi grande. A paixo cresceu rpida
e forte. Afinal senti-me to tomado dela que no pude mais guard-la comigo, e
resolvi declarar-lha uma noite; mas a tia, que usava cochilar desde as nove
horas (acordava s quatro), daquela vez no pregou olho, e, ainda que o
fizesse,  provvel que eu no alcanasse falar; tinha a voz presa e na rua
senti uma vertigem igual  que me deu a primeira paixo da minha vida.

 Sr. Correia, no v cair, disse
a tia quando eu passei  varanda, despedindo-me.

 Deixe estar, no caio.

Passei mal a noite; no pude
dormir mais de duas horas, aos pedaos, e antes das cinco estava em p.

  preciso acabar com isto!
exclamei.

De fato, no parecia achar em
Maria Cora mais que benevolncia e perdo, mas era isso mesmo que a tornava
apetecvel. Todos os amores da minha vida tinham sido fceis; em nenhum
encontrei resistncia, a nenhuma deixei com dor; alguma pena,  possvel, e um
pouco de recordao. Desta vez sentia-me tomado por ganchos de ferro. Maria
Cora era toda vida; parece que, ao p dela, as prprias cadeiras andavam e as
figuras do tapete moviam os olhos. Pe nisso uma forte dose de meiguice e
graa; finalmente, a ternura da tia fazia daquela criatura um anjo.  banal a
comparao, mas no tenho outra.

Resolvi cortar o mal pela raiz,
no tornando ao Engenho Velho, e assim fiz por alguns dias largos, duas ou trs
semanas. Busquei distrair-me e esquec-la, mas foi em vo. Comecei a sentir a
ausncia como de um bem querido; apesar disso, resisti e no tornei logo. Mas,
crescendo a ausncia, cresceu o mal, e enfim resolvi tornar l uma noite. Ainda
assim pode ser que no fosse, a no achar Maria Cora na mesma oficina da Rua da
Quitanda, aonde eu fora acertar o relgio parado.

  fregus tambm? perguntou-me
ao entrar.

 Sou.

 Vim acertar o meu. Mas, por que
no tem aparecido?

  verdade, por que no voltou l
 casa? completou a tia.

 Uns negcios, murmurei; mas,
hoje mesmo contava ir l.

 Hoje no; v amanh, disse a
sobrinha. Hoje vamos passar a noite fora.

Pareceu-me ler naquela palavra um
convite a am-la de vez, assim como a primeira trouxera um tom que presumi ser
de saudade. Realmente, no dia seguinte, fui ao Engenho Velho. Maria Cora
acolheu-me com a mesma boa vontade de antes. O poeta l estava e contou-me em
verso os suspiros que a tia dera por mim. Entrei a freqent-las novamente e
resolvi declarar tudo.

J acima disse que ela
provavelmente percebera ou adivinhara o que eu sentia, como todas as mulheres;
referi-me aos primeiros dias. Desta vez com certeza percebeu, nem por isso me
repeliu. Ao contrrio, parecia gostar de se ver querida, muito e bem.

Pouco depois daquela noite
escrevi-lhe uma carta e fui ao Engenho Velho. Achei-a um pouco retrada; a tia
explicou-me que recebera notcias do Rio Grande que a afligiram. No liguei
isto ao casamento, e busquei alegr-la; apenas consegui v-la corts. Antes de
sair, perto da varanda, entreguei-lhe a carta; ia a dizer-lhe: Peo-lhe que
leia, mas a voz no saiu. Vi-a um pouco atrapalhada, e para evitar dizer o que
melhor ia escrito, cumprimentei-a e enfiei pelo jardim. Pode imaginar-se a
noite que passei, e o dia seguinte foi naturalmente igual,  medida que a outra
noite vinha. Pois, ainda assim, no tornei  casa dela; resolvi esperar trs ou
quatro dias, no que ela me escrevesse logo, mas que pensasse nos termos da
resposta. Que estes haviam de ser simpticos, era certeza minha; as maneiras
dela, nos ltimos tempos, eram mais que afveis, pareciam-me convidativas.

No cheguei, porm, aos quatro
dias; mal pude esperar trs. Na noite do terceiro fui ao Engenho Velho. Se
disser que entrei trmulo da primeira comoo, no minto. Achei-a ao piano,
tocando para o poeta ouvir; a tia, na poltrona, pensava em no sei que, mas eu
quase no a vi, tal a minha primeira alucinao.

 Entre, Sr. Correia, disse esta;
no caia em cima de mim.

 Perdo...

Maria Cora no interrompeu a
msica; ao ver-me chegar, disse:

 Desculpe, se lhe no dou a mo,
estou aqui servindo de musa a este senhor.

Minutos depois, veio a mim, e
estendeu-me a mo com tanta galhardia, que li nela a resposta, e estive quase a
dar-lhe um agradecimento. Passaram-se alguns minutos, quinze ou vinte. Ao fim
desse tempo, ela pretextou um livro, que estava em cima das msicas, e pediu-me
para dizer se o conhecia; fomos ali ambos, e ela abriu-mo; entre as duas folhas
estava um papel.

 Na outra noite, quando aqui
esteve, deu-me esta carta; no podia dizer-me o que tem dentro?

 No adivinha?

 Posso errar na adivinhao.

  isso mesmo.

 Bem, mas eu sou uma senhora
casada, e nem por estar separada do meu marido deixo de estar casada. O senhor
ama-me, no ? Suponha, pelo melhor, que eu tambm o amo; nem por isso deixo de
estar casada.

Dizendo isto, entregou-me a carta;
no fora aberta. Se estivssemos ss,  possvel que eu lha lesse, mas a
presena de estranhos impedia-me este recurso. Demais, era desnecessrio; a
resposta de Maria Cora era definitiva ou me pareceu tal. Peguei na carta, e
antes de a guardar comigo:

 No quer ento ler?

 No.

 Nem para ver os termos?

 No.

 Imagine que lhe proponho ir
combater contra seu marido, mat-lo e voltar, disse eu cada vez mais tonto.

 Prope isto?

 Imagine.

 No creio que ningum me ame com
tal fora, concluiu sorrindo. Olhe, que esto reparando em ns.

Dizendo isto, separou-se de mim, e
foi ter com a tia e o poeta. Eu fiquei ainda alguns segundos com o livro na
mo, como se deveras o examinasse, e afinal deixei-o. Vim sentar-me defronte dela.
Os trs conversavam de coisas do Rio Grande, de combates entre federalistas e
legalistas, e da vria sorte deles. O que eu ento senti no se escreve; pelo
menos, no o escrevo eu, que no sou romancista. Foi uma espcie de vertigem,
um delrio, uma cena pavorosa e lcida, um combate e uma glria. Imaginei-me no
campo, entre uns e outros, combatendo os federalistas, e afinal matando Joo da
Fonseca, voltando e casando-me com a viva. Maria Cora contribua para esta
viso sedutora; agora, que me recusara a carta, parecia-me mais bela que nunca,
e a isto acrescia que se no mostrava zangada nem ofendida, tratava-me com
igual carinho que antes, creio at que maior. Disto podia sair uma impresso
dupla e contrria,  uma de aquiescncia tcita, outra de indiferena, mas eu
s via a primeira, e sa de l completamente louco.

O que ento resolvi foi realmente
de louco. As palavras de Maria Cora: No creio que ningum me ame com tal
fora  soavam-me aos ouvidos, como um desafio. Pensei nelas toda a noite, e
no dia seguinte fui ao Engenho Velho; logo que tive ocasio de jurar-lhe a
prova, fi-lo.

 Deixo tudo o que me interessa, a
comear pela paz, com o nico fim de lhe mostrar que a amo, e a quero s e
santamente para mim. Vou combater a revolta.

Maria Cora fez um gesto de
deslumbramento. Daquela vez percebi que realmente gostava de mim, verdadeira
paixo, e se fosse viva, no casava com outro. Jurei novamente que ia para o
Sul. Ela, comovida, estendeu-me a mo. Estvamos em pleno romantismo. Quando eu
nasci, os meus no acreditavam em outras provas de amor, e minha me contava-me
os romances em versos de cavaleiros andantes que iam  Terra Santa libertar o
sepulcro de Cristo por amor da f e da sua dama. Estvamos em pleno romantismo.

CAPTULO V

Fui para o sul. Os combates entre
legalistas e revolucionrios eram contnuos e sangrentos, e a notcia deles
contribuiu a animar-me. Entretanto, como nenhuma paixo poltica me animava a
entrar na luta, fora  confessar que por um instante me senti abatido e
hesitei. No era medo da morte, podia ser amor da vida, que  um sinnimo; mas,
uma ou outra coisa, no foi tal nem tamanha que fizesse durar por muito tempo a
hesitao. Na cidade do Rio Grande encontrei um amigo, a quem eu por carta do
Rio de Janeiro dissera muito reservadamente que ia l por motivos polticos.
Quis saber quais.

 Naturalmente so reservados,
respondi tentando sorrir.

 Bem; mas uma coisa creio que
posso saber, uma s, porque no sei absolutamente o que pense a tal respeito,
nada havendo antes que me instrua. De que lado ests, legalistas ou revoltosos?

  boa! Se no fosse dos
legalistas, no te mandaria dizer nada; viria s escondidas.

 Vens com alguma comisso secreta
do marechal?

 No.

No me arrancou ento mais nada,
mas eu no pude deixar de lhe confiar os meus projetos, ainda que sem os seus
motivos. Quando ele soube que aqueles eram alistar-me entre os voluntrios que
combatiam a revoluo, no pde crer em mim, e talvez desconfiasse que
efetivamente eu levava algum plano secreto do presidente. Nunca da minha parte
ouviu nada que pudesse explicar semelhante passo. Entretanto, no perdeu tempo
em despersuadir-me; pessoalmente era legalista e falava dos adversrios com
dio e furor. Passado o espanto, aceitou o meu ato, tanto mais nobre quanto no
era inspirado por sentimento de partido. Sobre isto disse-me muita palavra bela
e herica, prpria a levantar o nimo de quem j tivesse tendncia para a luta.
Eu no tinha nenhuma, fora das razes particulares; estas, porm, eram agora
maiores. Justamente acabava de receber uma carta da tia de Maria Cora, dando-me
notcias delas, e recomendaes da sobrinha, tudo com alguma generalidade e
certa simpatia verdadeira.

Fui a Porto Alegre, alistei-me e
marchei para a campanha. No disse a meu respeito nada que pudesse despertar a
curiosidade de ningum, mas era difcil encobrir a minha condio, a minha
origem, a minha viagem com o plano de ir combater a revoluo. Fez-se logo uma
lenda a meu respeito. Eu era um republicano antigo, riqussimo, entusiasta,
disposto a dar pela Repblica mil vidas, se as tivesse, e resoluto a no poupar
a nica. Deixei dizer isto e o mais, e fui. Como eu indagasse das foras
revolucionrias com que estaria Joo da Fonseca, algum quis ver nisto uma
razo de dio pessoal; tambm no faltou quem me supusesse espio dos rebeldes,
que ia por-me em comunicao secreta com aquele. Pessoas que sabiam das
relaes dele com a Prazeres imaginavam que era um antigo amante desta que se
queria vingar dos amores dele. Todas aquelas suposies morreram, para s ficar
a do meu entusiasmo poltico; a da minha espionagem ia-me prejudicando;
felizmente, no passou de duas cabeas e de uma noite.

Levava comigo um retrato de Maria
Cora; alcanara-o dela mesma, uma noite, pouco antes do meu embarque, com uma
pequena dedicatria cerimoniosa. J disse que estava em pleno romantismo; dado
o primeiro passo, os outros vieram de si mesmos. E agora juntai a isto o
amor-prprio, e compreendereis que de simples cidado indiferente da capital
sasse um guerreiro spero da campanha rio-grandense.

Nem por isso conto combates, nem
escrevo para falar da revoluo, que no teve nada comigo, por si mesma, seno
pela ocasio que me dava, e por algum golpe que lhe desfechei na estreita rea
da minha ao. Joo da Fonseca era o meu rebelde. Depois de haver tomado parte
no combate de Sarandi e Cochila Negra, ouvi que o marido de Maria Cora fora
morto, no sei em que recontro; mais tarde deram-me a notcia de estar com as
foras de Gumercindo, e tambm que fora feito prisioneiro e seguira para Porto
Alegre; mas ainda isto no era verdade. Disperso, com dois camaradas, encontrei
um dia um regimento legal que ia em defesa da Encruzilhada, investida
ultimamente por uma fora dos federalistas; apresentei-me ao comandante e
segui. A soube que Joo da Fonseca estava entre essa fora; deram-me todos os
sinais dele, contaram-me a histria dos amores e a separao da mulher.

A idia de mat-lo no turbilho de
um combate tinha algo fantstico; nem eu sabia se tais duelos eram possveis em
semelhantes ocasies, quando a fora de cada homem tem de somar com a de toda
uma fora nica e obediente a uma s direo. Tambm me pareceu, mais de uma
vez, que ia cometer um crime pessoal, e a sensao que isto me dava, podeis
crer que no era leve nem doce; mas a figura de Maria Cora abraava-me e
absolvia com uma bno de felicidades. Atirei-me de vez. No conhecia Joo da
Fonseca; alm dos sinais que me haviam dado, tinha de memria um retrato dele
que vira no Engenho Velho; se as feies no estivessem mudadas, era provvel
que eu o reconhecesse entre muitos. Mas, ainda uma vez, seria este encontro
possvel? Os combates em que eu entrara, j me faziam desconfiar que no era
fcil, ao menos.

No foi fcil nem breve. No
combate da Encruzilhada creio que me houve com a necessria intrepidez e
disciplina, e devo aqui notar que eu me ia acostumando  vida da guerra civil.
Os dios que ouvia eram foras reais. De um lado e outro batiam-se com ardor, e
a paixo que eu sentia nos meus ia-se pegando em mim. J lera o meu nome em uma
ordem do dia, e de viva voz recebera louvores, que comigo no pude deixar de
achar justos, e ainda agora tais os declaro. Mas vamos ao principal, que 
acabar com isto.

Naquele combate achei-me um tanto
como o heri de Stendhal na batalha de Waterloo; a diferena  que o espao foi
menor. Por isso, e tambm porque no me quero deter em coisas de recordao
fcil, direi somente que tive ocasio de matar em pessoa a Joo da Fonseca.
Verdade  que escapei de ser morto por ele. Ainda agora trago na testa a
cicatriz que ele me deixou. O combate entre ns foi curto. Se no parecesse
romanesco demais, eu diria que Joo da Fonseca adivinhara o motivo e previra o
resultado da ao.

Poucos minutos depois da luta
pessoal, a um canto da vila, Joo da Fonseca caiu prostrado. Quis ainda lutar,
e certamente lutou um pouco; eu  que no consenti na desforra, que podia ser a
minha derrota, se  que raciocinei; creio que no. Tudo o que fiz foi cego pelo
sangue em que o deixara banhado, e surdo pelo clamor e tumulto do combate.
Matava-se, gritava-se, vencia-se; em pouco ficamos senhores do campo.

Quando vi que Joo da Fonseca
morrera deveras, voltei ao combate por instantes; a minha ebriedade cessara um
pouco, e os motivos primrios tornaram a dominar-me, como se fossem nicos. A
figura de Maria Cora apareceu-me como um sorriso de aprovao e perdo; tudo
foi rpido.

Haveis de ter lido que ali se
apreenderam trs ou quatro mulheres. Uma destas era a Prazeres. Quando, acabado
tudo, a Prazeres viu o cadver do amante, fez uma cena que me encheu de dio e
de inveja. Pegou em si e deitou-se a abra-lo; as lgrimas que verteu, as
palavras que disse, fizeram rir a uns; a outros, se no enterneceram, deram
algum sentimento de admirao. Eu, como digo, achei-me tomado de inveja e dio,
mas tambm esse duplo sentimento desapareceu para no ficar nem admirao;
acabei rindo. Prazeres, depois de honrar com dor a morte do amante, ficou sendo
a federalista que j era; no vestia farda, como dissera ao desafiar Joo da
Fonseca, quis ser prisioneira com os rebeldes e seguir com eles.

 claro que no deixei logo as
foras, bati-me ainda algumas vezes, mas a razo principal dominou, e abri mo
das armas. Durante o tempo em que estive alistado, s escrevi duas cartas a
Maria Cora, uma pouco depois de encetar aquela vida nova,  outra depois do
combate da Encruzilhada; nesta no lhe contei nada do marido, nem da morte, nem
sequer que o vira. Unicamente anunciei que era provvel acabasse brevemente a
guerra civil. Em nenhuma das duas fiz a menor aluso aos meus sentimentos nem
ao motivo do meu ato; entretanto, para quem soubesse deles, a carta era
significativa. Maria Cora s respondeu  primeira das cartas, com serenidade,
mas no com iseno. Percebia-se,  ou percebia-o eu,  que, no prometendo
nada, tudo agradecia, e, quando menos, admirava. Gratido e admirao podiam
encaminh-la ao amor.

Ainda no disse,  e no sei como
diga este ponto,  que na Encruzilhada, depois da morte de Joo da Fonseca,
tentei degol-lo; mas nem queria faz-lo, nem realmente o fiz. O meu objeto era
ainda outro e romanesco. Perdoa-me tu, realista sincero, h nisto tambm um
pouco de realidade, e foi o que pratiquei, de acordo com o estado da minha
alma: o que fiz foi cortar-lhe um molho de cabelos. Era o recibo da morte que
eu levaria  viva.

CAPTULO VI

Quando voltei ao Rio de Janeiro,
tinham j passado muitos meses do combate da Encruzilhada. O meu nome figurou
no s em partes oficiais como em telegramas e correspondncias, por mais que
eu buscasse esquivar-me ao rudo e desaparecer na sombra. Recebi cartas de
felicitaes e de indagaes. No vim logo para o Rio de Janeiro, note-se;
podia ter aqui alguma festa; preferi ficar em S. Paulo. Um dia, sem ser
esperado, meti-me na estrada de ferro e entrei na cidade. Fui para a casa de
penso do Catete.

No procurei logo Maria Cora.
Pareceu-me at mais acertado que a notcia da minha vinda lhe chegasse pelos
jornais. No tinha pessoa que lhe falasse; vexava-me ir eu mesmo a alguma
redao contar o meu regresso do Rio Grande; no era passageiro de mar, cujo
nome viesse em lista nas folhas pblicas. Passaram dois dias; no terceiro,
abrindo uma destas, dei com o meu nome. Dizia-se ali que viera de S. Paulo e
estivera nas lutas do Rio Grande, citavam-se os combates, tudo com adjetivos de
louvor; enfim, que voltava  mesma penso do Catete. Como eu s contara alguma
coisa ao dono da casa, podia ser ele o autor das notas; disse-me que no.
Entrei a receber visitas pessoais. Todas queriam saber tudo; eu pouco mais
disse que nada.

Entre os cartes, recebi dois de Maria
Cora e da tia, com palavras de boas-vindas. No era preciso mais; restava-me ir
agradecer-lhes, e dispus-me a isso; mas, no prprio dia em que resolvi ir ao
Engenho Velho, tive uma sensao de... De qu? Expliquem, se podem, o
acanhamento que me deu a lembrana do marido de Maria Cora, morto s minhas
mos. A sensao que ia ter diante dela encheu-me inteiramente. Sabendo-se qual
foi o mvel principal da minha ao militar, mal se compreende aquela
hesitao; mas, se considerares que, por mais que me defendesse do marido e o
matasse para no morrer, ele era sempre o marido, ters entendido o mal-estar
que me fez adiar a visita. Afinal, peguei em mim e fui  casa dela.

Maria Cora estava de luto.
Recebeu-me com bondade, e repetiu-me, como a tia, as felicitaes escritas.
Falamos da guerra civil, dos costumes do Rio Grande, um pouco de poltica, e
mais nada. No se disse de Joo da Fonseca. Ao sair de l, perguntei a mim
mesmo se Maria Cora estaria disposta a casar comigo.

No me parece que recuse, embora
no lhe ache maneiras especiais. Creio at que est menos afvel que dantes...
Ter mudado?

Pensei assim, vagamente. Atribu a
alterao ao estado moral da viuvez; era natural. E continuei a freqent-la,
disposto a deixar passar a primeira fase do luto para lhe pedir formalmente a
mo. No tinha que fazer declaraes novas; ela sabia tudo. Continuou a
receber-me bem. Nenhuma pergunta me fez sobre o marido, a tia tambm no, e da
prpria revoluo no se falou mais. Pela minha parte, tornando  situao
anterior, busquei no perder tempo, fiz-me pretendente com todas as maneiras do
ofcio. Um dia, perguntei-lhe se pensava em tornar ao Rio Grande.

 Por ora, no.

 Mas ir?

  possvel; no tenho plano nem
prazo marcado;  possvel.

Eu, depois de algum silncio,
durante o qual olhava interrogativamente para ela, acabei por inquirir se antes
de ir, caso fosse, no alteraria nada em sua vida.

 A minha vida est to
alterada...

No me entendera; foi o que supus.
Tratei de me explicar melhor, e escrevi uma carta em que lhe lembrava a entrega
e a recusa da primeira e lhe pedia francamente a mo. Entreguei a carta, dois
dias depois, com estas palavras:

 Desta vez no recusar ler-me.

No recusou, aceitou a carta. Foi
 sada,  porta da sala. Creio at que lhe vi certa comoo de bom agouro. No
me respondeu por escrito, como esperei. Passados trs dias, estava to ansioso
que resolvi ir ao Engenho Velho. Em caminho imaginei tudo; que me recusasse,
que me aceitasse, que me adiasse, e j me contentava com a ltima hiptese, se
no houvesse de ser a segunda. No a achei em casa; tinha ido passar alguns
dias na Tijuca. Sa de l aborrecido. Pareceu-me que no queria absolutamente
casar; mas ento era mais simples diz-lo ou escrev-lo. Esta considerao
trouxe-me esperanas novas.

Tinha ainda presentes as palavras
que me dissera, quando me devolveu a primeira carta, e eu lhe falei da minha
paixo: Suponha que eu o amo; nem por isso deixo de ser uma senhora casada.
Era claro que ento gostava de mim, e agora mesmo no havia razo decisiva para
crer o contrrio, embora a aparncia fosse um tanto fria. Ultimamente, entrei a
crer que ainda gostava, um pouco por vaidade, um pouco por simpatia, e no sei
se por gratido tambm; tive alguns vestgios disso. No obstante, no me deu
resposta  segunda carta. Ao voltar da Tijuca, vinha menos expansiva, acaso
mais triste. Tive eu mesmo de lhe falar na matria; a resposta foi que, por
ora, estava disposta a no casar.

 Mas um dia...? perguntei depois
de algum silncio.

 Estarei velha.

 Mas ento... ser muito tarde?

 Meu marido pode no estar morto.

Espantou-me esta objeo.

 Mas a senhora est de luto.

 Tal foi a notcia que li e me deram;
pode no ser exata. Tenho visto desmentir outras que se reputavam certas.

 Quer certeza absoluta?
perguntei. Eu posso d-la.

Maria Cora empalideceu. Certeza.
Certeza de qu? Queria que lhe contasse tudo, mas tudo. A situao era to
penosa para mim que no hesitei mais, e, depois de lhe dizer que era inteno
minha no lhe contar nada, como no contara a ningum, ia faz-lo, unicamente
para obedecer  intimao. E referi o combate, as suas fases todas, os riscos,
as palavras, finalmente a morte de Joo da Fonseca. A nsia com que me ouviu
foi grande, e no menor o abatimento final. Ainda assim, dominou-se, e
perguntou-me:

 Jura que me no est enganando?

 Para que a enganar? O que tenho
feito  bastante para provar que sou sincero. Amanh, trago-lhe outra prova, se
 preciso mais alguma.

Levei-lhe os cabelos que cortara
ao cadver. Contei-lhe,  e confesso que o meu fim foi irrit-la contra a
memria do defunto,  contei-lhe o desespero da Prazeres. Descrevi essa mulher
e as suas lgrimas. Maria Cora ouviu-me com os olhos grandes e perdidos; estava
ainda com cimes. Quando lhe mostrei os cabelos do marido, atirou-se a eles,
recebeu-os, beijou-os, chorando, chorando, chorando... Entendi melhor sair e
sair para sempre. Dias depois recebi a resposta  minha carta; recusava casar.

Na resposta havia uma palavra que
 a nica razo de escrever esta narrativa: Compreende que eu no podia
aceitar a mo do homem que, embora lealmente, matou meu marido. Comparei-a
quela outra que me dissera antes, quando eu me propunha sair a combate,
mat-lo e voltar: No creio que ningum me ame com tal fora. E foi essa
palavra que me levou  guerra. Maria Cora vive agora reclusa; de costume manda
dizer uma missa por alma do marido, no aniversrio do combate da Encruzilhada.
Nunca mais a vi; e, coisa menos difcil, nunca mais esqueci dar corda ao
relgio.

MARCHA FNEBRE

O deputado Cordovil no podia
pregar olho uma noite de agosto de 186... Viera cedo do Cassino Fluminense,
depois da retirada do Imperador, e durante o baile no tivera o mnimo incmodo
moral nem fsico. Ao contrrio, a noite foi excelente; to excelente que um
inimigo seu, que padecia do corao, faleceu antes das dez horas, e a notcia
chegou ao Cassino pouco depois das onze.

Naturalmente concluis que ele
ficou alegre com a morte do homem, espcie de vingana que os coraes adversos
e fracos tomam em falta de outra. Digo-te que concluis mal; no foi alegria,
foi desabafo. A morte vinha de meses, era daquelas que no acabam mais, e moem,
mordem, comem, trituram a pobre criatura humana. Cordovil sabia dos
padecimentos do adversrio. Alguns amigos, para o consolar de antigas injrias,
iam contar-lhe o que viam ou sabiam do enfermo, pregado a uma cadeira de
braos, vivendo as noites horrivelmente, sem que as auroras lhe trouxessem
esperanas, nem as tardes desenganos. Cordovil pagava-lhes com alguma palavra
de compaixo, que o alvissareiro adotava, e repetia, e era mais sincera naquele
que neste. Enfim acabara de padecer; da o desabafo.

Este sentimento pegava com a
piedade humana. Cordovil, salvo em poltica, no gostava do mal alheio. Quando
rezava, ao levantar da cama: Padre Nosso, que ests no cu, santificado seja o
teu nome, venha a ns o teu reino, seja feita a tua vontade, assim na terra
como no cu; o po nosso de cada dia nos d hoje; perdoa as nossas dvidas,
como ns perdoamos aos nossos devedores... no imitava um de seus amigos que
rezava a mesma prece, sem todavia perdoar aos devedores, como dizia de lngua;
esse chegava a cobrar alm do que eles lhe deviam, isto , se ouvia maldizer de
algum, decorava tudo e mais alguma coisa e ia repeti-lo a outra parte. No dia
seguinte, porm, a bela orao de Jesus tornava a sair dos lbios da vspera
com a mesma caridade de ofcio.

Cordovil no ia nas guas desse
amigo; perdoava deveras. Que entrasse no perdo um tantinho de preguia, 
possvel, sem alis ser evidente. Preguia amamenta muita virtude. Sempre 
alguma coisa minguar fora  ao do mal. No esquea que o deputado s gostava
do mal alheio em poltica, e o inimigo morto era inimigo pessoal. Quanto 
causa da inimizade, no a sei eu, e o nome do homem acabou com a vida.

 Coitado! descansou, disse
Cordovil.

Conversaram da longa doena do
finado. Tambm falaram das vrias mortes deste mundo, dizendo Cordovil que a
todas preferia a de Csar, no por motivo do ferro, mas por inesperada e
rpida.

 Tu quoque? perguntou-lhe
um colega rindo.

Ao que ele, apanhando a aluso,
replicou:

 Eu, se tivesse um filho, quisera
morrer s mos dele. O parricdio, estando fora do comum, faria a tragdia mais
trgica.

Tudo foi assim alegre. Cordovil
saiu do baile com sono, e foi cochilando no carro, apesar do mal calado das
ruas. Perto de casa, sentiu parar o carro e ouviu rumor de vozes. Era o caso de
um defunto, que duas praas de polcia estavam levantando do cho.

 Assassinado? perguntou ele ao
lacaio, que descera da almofada para saber o que era.

 No sei, no, senhor.

 Pergunta o que .

 Este moo sabe como foi, disse o
lacaio, indicando um desconhecido, que falava a outros.

O moo aproximou-se da portinhola,
antes que o deputado recusasse ouvi-lo. Referiu-lhe ento em poucas palavras o
acidente a que assistira.

 Vnhamos andando, ele adiante,
eu atrs. Parece que assobiava uma polca. Indo a atravessar a rua para o lado
do Mangue, vi que estacou o passo, a modo que torceu o corpo, no sei bem, e
caiu sem sentidos. Um doutor, que chegou logo, descendo de um sobradinho,
examinou o homem e disse que morreu de repente. Foi-se juntando gente, a
patrulha levou muito tempo a chegar. Agora pegou dele. Quer ver o defunto?

 No, obrigado. J se pode
passar?

 Pode.

 Obrigado. Vamos, Domingos.

Domingos trepou  almofada, o
cocheiro tocou os animais, e o carro seguiu at  Rua de S. Cristvo, onde
morava Cordovil.

Antes de chegar  casa, Cordovil
foi pensando na morte do desconhecido. Em si mesma, era boa; comparada  do
inimigo pessoal, excelente. Ia a assobiar, cuidando sabe Deus em que delcia
passada ou em que esperana futura; revivia o que vivera, ou antevia o que
podia viver, seno quando, a morte pegou da delcia ou da esperana, e l se
foi o homem ao eterno repouso. Morreu sem dor, ou, se alguma teve, foi acaso
brevssima, como um relmpago que deixa a escurido mais escura.

Ento ps o caso em si. Se lhe tem
acontecido no Cassino a morte do Aterrado? No seria danando; os seus quarenta
anos no danavam. Podia at dizer que ele s danou at aos vinte. No era
dado a moas, tivera um afeio nica na vida,  aos vinte e cinco anos, casou
e enviuvou ao cabo de cinco semanas para no casar mais. No  que lhe
faltassem noivas,  mormente depois de perder o av, que lhe deixou duas
fazendas. Vendeu-as ambas e passou a viver consigo, fez duas viagens  Europa,
continuou a poltica e a sociedade. Ultimamente parecia enojado de uma e de
outra, mas no tendo em que matar o tempo, no abriu mo delas. Chegou a ser
ministro uma vez, creio que da Marinha, no passou de sete meses. Nem a pasta
lhe deu glria, nem a demisso desgosto. No era ambicioso, e mais puxava para
a quietao que para o movimento.

Mas se lhe tivesse sucedido morrer
de repente no Cassino, ante uma valsa ou quadrilha, entre duas portas? Podia
ser muito bem. Cordovil comps de imaginao a cena, ele cado de bruos ou de
costas, o prazer turbado, a dana interrompida... e dali podia ser que no; um
pouco de espanto apenas, outro de susto, os homens animando as damas, a
orquestra continuando por instantes a oposio do compasso e da confuso. No
faltariam braos que o levassem para um gabinete, j morto, totalmente morto.

Tal qual a morte de Csar, ia
dizendo consigo.

E logo emendou:

No, melhor que ela; sem ameaa,
nem armas, nem sangue, uma simples queda e o fim. No sentiria nada.

Cordovil deu consigo a rir ou a
sorrir, alguma coisa que afastava o terror e deixava a sensao da liberdade.
Em verdade, antes a morte assim que aps longos dias ou longos meses e anos,
como o adversrio que perdera algumas horas antes. Nem era morrer; era um gesto
de chapu, que se perdia no ar com a prpria mo e a alma que lhe dera
movimento. Um cochilo e o sono eterno. Achava-lhe um s defeito,  o aparato.
Essa morte no meio de um baile, defronte do Imperador, ao som de Strauss,
contada, pintada, enfeitada nas folhas pblicas, essa morte pareceria de
encomenda. Pacincia, uma vez que fosse repentina.

Tambm pensou que podia ser na
Cmara, no dia seguinte, ao comear o debate do oramento. Tinha a palavra; j
andava cheio de algarismos e citaes. No quis imaginar o caso, no valia a
pena; mas o caso teimou e apareceu de si mesmo. O salo da Cmara, em vez do do
Cassino, sem damas ou com poucas, nas tribunas. Vasto silncio. Cordovil em p
comearia o discurso, depois de circular os olhos pela casa, fitar o ministro e
fitar o presidente: Releve-me a Cmara que lhe tome algum tempo, serei breve,
buscarei ser justo... Aqui uma nuvem lhe taparia os olhos, a lngua pararia, o
corao tambm, e ele cairia de golpe no cho. Cmara, galerias, tribunas
ficariam assombradas. Muitos deputados correriam a ergu-lo; um, que era
mdico, verificaria a morte; no diria que fora de repente, como o do
sobradinho do Aterrado, mas por outro estilo mais tcnico. Os trabalhos seriam
suspensos, depois de algumas palavras do presidente e escolha da comisso que
acompanharia o finado ao cemitrio...

Cordovil quis rir da circunstncia
de imaginar alm da morte, o movimento e o saimento, as prprias notcias dos
jornais, que ele leu de cor e depressa. Quis rir, mas preferia cochilar; os
olhos  que, estando j perto de casa e da cama, no quiseram desperdiar o
sono, e ficaram arregalados.

Ento a morte, que ele imaginara
pudesse ter sido no baile, antes de sair, ou no dia seguinte em plena sesso da
Cmara, apareceu ali mesmo no carro. Sups ele que, ao abrirem-lhe a
portinhola, dessem com o seu cadver. Sairia assim de uma noite ruidosa para
outra pacfica, sem conversas, nem danas, nem encontros, sem espcie alguma de
luta ou resistncia. O estremeo que teve fez-lhe ver que no era verdade.
Efetivamente, o carro entrou na chcara, estacou, e Domingos saltou da almofada
para vir abrir-lhe a portinhola. Cordovil desceu com as pernas e a alma vivas,
e entrou pela porta lateral, onde o aguardava com um castial e vela acesa o
escravo Florindo. Subiu a escada, e os ps sentiam que os degraus eram deste
mundo; se fossem do outro, desceriam naturalmente. Em cima, ao entrar no
quarto, olhou para a cama; era a mesma dos sonos quietos e demorados.

 Veio algum?

 No, senhor, respondeu o escravo
distrado, mas corrigiu logo: Veio, sim, senhor; veio aquele doutor que almoou
com meu senhor domingo passado.

 Queria alguma coisa?

 Disse que vinha dar a meu senhor
uma boa notcia, e deixou este bilhete  que eu botei ao p da cama.

O bilhete referia a morte do
inimigo; era de um dos amigos que usavam contar-lhe a marcha da molstia. Quis ser
o primeiro a anunciar o desenlace, um alegro, com um abrao apertado. Enfim,
morrera o patife. No disse a coisa assim por esses termos claros, mas os que
empregou vinham a dar neles, acrescendo que no atribuiu esse nico objeto 
visita. Vinha passar a noite; s ali soube que Cordovil fora ao Cassino. Ia a
sair, quando lhe lembrou a morte e pediu ao Florindo que lhe deixasse escrever
duas linhas. Cordovil entendeu o significado, e ainda uma vez lhe doeu a agonia
do outro. Fez um gesto de melancolia e exclamou a meia voz:

 Coitado! Vivam as mortes
sbitas!

Florindo, se referisse o gesto e a
frase ao doutor do bilhete, talvez o fizesse arrepender da canseira. Nem pensou
nisso; ajudou o senhor a preparar-se para dormir, ouviu as ltimas ordens e despediu-se.
Cordovil deitou-se.

 Ah! suspirou ele estirando o
corpo cansado.

Teve ento uma idia, a de
amanhecer morto. Esta hiptese, a melhor de todas, porque o apanharia meio
morto, trouxe consigo mil fantasias que lhe arredaram o sono dos olhos. Em
parte, era a repetio das outras, a participao  Cmara, as palavras do
presidente, comisso para o saimento, e o resto. Ouviu lstimas de amigos e de
fmulos, viu notcias impressas, todas lisonjeiras ou justas. Chegou a
desconfiar que era j sonho. No era. Chamou-se ao quarto,  cama, a si mesmo:
estava acordado.

A lamparina deu melhor corpo 
realidade. Cordovil espancou as idias fnebres e esperou que as alegres
tomassem conta dele e danassem at cans-lo. Tentou vencer uma viso com
outra. Fez at uma coisa engenhosa, convocou os cinco sentidos, porque a
memria de todos eles era aguda e fresca; foi assim evocando lances e rasgos
longamente extintos. Gestos, cenas de sociedade e de famlia, panoramas,
repassou muita coisa vista, com o aspecto do tempo diverso e remoto. Deixara de
comer acepipes que outra vez lhe sabiam, como se estivesse agora a mastig-los.
Os ouvidos escutavam passos leves e pesados, cantos joviais e tristes, e
palavra de todos os feitios. O tato, o olfato, todos fizeram o seu ofcio,
durante um prazo que ele no calculou.

Cuidou de dormir e cerrou bem os
olhos. No pde, nem do lado direito, nem do esquerdo, de costas nem de bruos.
Ergueu-se e foi ao relgio; eram trs horas. Insensivelmente levou-o  orelha a
ver se estava parado; estava andando, dera-lhe corda. Sim, tinha tempo de
dormir um bom sono; deitou-se, cobriu a cabea para no ver a luz.

Ah! foi ento que o sono tentou
entrar, calado e surdo, todo cautelas, como seria a morte, se quisesse lev-lo
de repente, para nunca mais. Cordovil cerrou os olhos com fora, e fez mal,
porque a fora acentuou a vontade que tinha de dormir; cuidou de os afrouxar, e
fez bem. O sono, que ia a recuar, tornou atrs, e veio estirar-se ao lado
deles, passando-lhe aqueles braos leves e pesados, a um tempo, que tiram 
pessoa todo movimento. Cordovil os sentia, e com os seus quis concheg-los
ainda mais... A imagem no  boa, mas no tenho outra  mo nem tempo de ir
busc-la. Digo s o resultado do gesto, que foi arredar o sono de si, to
aborrecido ficou este reformador de cansados.

 Que ter ele hoje contra mim?
perguntaria o sono, se falasse.

Tu sabes que ele  mudo por
essncia. Quando parece que fala  o sonho que abre a boca  pessoa; ele no,
ele  a pedra, e ainda a pedra fala, se lhe batem, como esto fazendo agora os
calceteiros da minha rua. Cada pancada acorda na pedra um som, e a regularidade
do gesto torna aquele som to pontual que parece a alma de um relgio. Vozes de
conversa ou de prego, rodas de carro, passos de gente, uma janela batida pelo
vento, nada dessas coisas que ora ouo, animava ento a rua e a noite de
Cordovil. Tudo era propcio ao sono.

Cordovil ia finalmente dormir,
quando a idia de amanhecer morto apareceu outra vez. O sono recuou e fugiu.
Esta alternativa durou muito tempo. Sempre que o sono ia a grudar-lhe os olhos,
a lembrana da morte os abria, at que ele sacudiu o lenol e saiu da cama.
Abriu uma janela e encostou-se ao peitoril. O cu queria clarear, alguns vultos
iam passando na rua, trabalhadores e mercadores que desciam para o centro da
cidade. Cordovil sentiu um arrepio; no sabendo se era frio ou medo, foi vestir
um camiso de chita, e voltou para a janela. Parece que era frio, porque no
sentia mais nada.

A gente continuava a passar, o cu
a clarear, um assobio da estrada de ferro deu sinal de trem que ia partir.
Homens e coisas vinham do descanso, o cu fazia economia de estrelas,
apagando-as  medida que o sol ia chegando para o seu ofcio. Tudo dava idia
de vida. Naturalmente a idia da morte foi recuando e desapareceu de todo,
enquanto o nosso homem, que suspirou por ela no Cassino, que a desejou para o
dia seguinte na Cmara dos Deputados, que a encarou no carro, voltou-lhe as
costas quando a viu entrar com o sono, seu irmo mais velho,  ou mais moo,
no sei.

Quando veio a falecer, muitos anos
depois, pediu e teve a morte, no sbita, mas vagarosa, a morte de um vinho
filtrado, que sai impuro de uma garrafa para entrar purificado em outra; a
borra iria para o cemitrio. Agora  que lhe via a filosofia; em ambas as
garrafas era sempre o vinho que ia ficando, at passar inteiro e pingado para a
segunda. Morte sbita no acabava de entender o que era.

UM CAPITO DE VOLUNTRIOS

Indo a embarcar para a Europa, logo
depois da proclamao da Repblica, Simo de Castro fez inventrio das cartas e
apontamentos; rasgou tudo. S lhe ficou a narrao que ides ler; entregou-a a
um amigo para imprimi-la quando ele estivesse barra fora. O amigo no cumpriu a
recomendao por achar na histria alguma coisa que podia ser penosa, e assim
lho disse em carta. Simo respondeu que estava por tudo o que quisesse; no
tendo vaidades literrias, pouco se lhe dava de vir ou no a pblico. Agora que
os dois faleceram, e no h igual escrpulo, d-se o manuscrito ao prelo.

ramos dois, elas duas. Os dois
amos ali por visita, costume, desfastio, e finalmente por amizade. Fiquei
amigo do dono da casa, ele meu amigo. s tardes, sobre o jantar,  jantava-se
cedo em 1866,  ia ali fumar um charuto. O sol ainda entrava pela janela, onde
se via um morro com casas em cima. A janela oposta dava para o mar. No digo a
rua nem o bairro; a cidade posso dizer que era o Rio de Janeiro. Ocultarei o
nome do meu amigo; ponhamos uma letra, X... Ela, uma delas, chamava-se Maria.

Quando eu entrava, j ele estava
na cadeira de balano. Os mveis da sala eram poucos, os ornatos raros, tudo
simples. X... estendia-me a mo larga e forte; eu ia sentar-me ao p da janela,
olho na sala, olho na rua. Maria, ou j estava ou vinha de dentro. ramos nada
um para o outro; ligava-nos unicamente a afeio de X... Conversvamos; eu saa
para casa ou ia passear, eles ficavam e iam dormir. Algumas vezes jogvamos
cartas, s noites, e, para o fim do tempo, era ali que eu passava a maior parte
destas.

Tudo em X... me dominava. A figura
primeiro. Ele robusto, eu franzino; a minha graa feminina, dbil, desaparecia
ao p do garbo varonil dele, dos seus ombros largos, cadeiras largas, jarrete
forte e o p slido que, andando, batia rijo no cho. Dai-me um bigode escasso
e fino; vede nele as suas longas, espessas e encaracoladas, e um dos seus
gestos habituais, pensando ou escutando, era passar os dedos por elas,
encaracolando-as sempre. Os olhos completavam a figura, no s por serem
grandes e belos, mas porque riam mais e melhor que a boca. Depois da figura, a
idade; X... era homem de quarenta anos, eu no passava dos vinte e quatro.
Depois da idade, a vida; ele vivera muito, em outro meio, donde sara a
encafuar-se naquela casa, com aquela senhora, eu no vivera nada nem com pessoa
alguma. Enfim,  e este rasgo  capital,  havia nele uma fibra castelhana, uma
gota do sangue que circula nas pginas de Caldern, uma atitude moral que posso
comparar, sem depresso nem riso,  do heri de Cervantes.

Como se tinham amado? Datava de
longe. Maria contava j vinte e sete anos, e parecia haver recebido alguma
educao. Ouvi que o primeiro encontro fora em um baile de mscaras, no antigo
Teatro Provisrio. Ela trajava uma saia curta, e danava ao som de um pandeiro.
Tinha os ps admirveis, e foram eles ou o seu destino a causa do amor de X...
Nunca lhe perguntei a origem da aliana; sei s que ela tinha uma filha, que
estava no colgio e no vinha  casa; a me  que ia v-la. Verdadeiramente as
nossas relaes eram respeitosas, e o respeito ia ao ponto de aceitar a
situao sem a examinar.

Quando comecei a ir ali, no tinha
ainda o emprego no banco. S dois ou trs meses depois  que entrei para este,
e no interrompi as relaes. Maria tocava piano; s vezes, ela e a amiga
Raimunda conseguiam arrastar X... ao teatro; eu ia com eles. No fim, tomvamos
ch em sala particular, e, uma ou outra vez, se havia lua, acabvamos a noite
indo de carro a Botafogo.

A estas festas no ia Barreto, que
s mais tarde comeou a freqentar a casa. Entretanto, era bom companheiro,
alegre e rumoroso. Uma noite, como sassemos de l, encaminhou a conversa para
as duas mulheres, e convidou-me a namor-las.

 Tu escolhes uma, Simo, eu
outra.

Estremeci e parei.

 Ou antes, eu j escolhi,
continuou ele; escolhi a Raimunda. Gosto muito da Raimunda. Tu, escolhe a
outra.

 A Maria?

 Pois que outra h de ser?

O alvoroo que me deu este
tentador foi tal que no achei palavra de recusa, nem palavra nem gesto. Tudo
me pareceu natural e necessrio. Sim, concordei em escolher Maria; era mais
velha que eu trs anos, mas tinha a idade conveniente para ensinar-me a amar.
Est dito, Maria. Deitamo-nos s duas conquistas com ardor e tenacidade.
Barreto no tinha que vencer muito; a eleita dele no trazia amores, mas at
pouco antes padecera de uns que rompera contra a vontade, indo o amante casar
com uma moa de Minas. Depressa se deixou consolar. Barreto um dia, estando eu
a almoar, veio anunciar-me que recebera uma carta dela, e mostrou-ma.

 Esto entendidos?

 Estamos. E vocs?

 Eu no.

 Ento quando?

 Deixa ver; eu te digo.

Naquele dia fiquei meio vexado. Com
efeito, apesar da melhor vontade deste mundo, no me atrevia a dizer a Maria os
meus sentimentos. No suponhas que era nenhuma paixo. No tinha paixo, mas
curiosidade. Quando a via esbelta e fresca, toda calor e vida, sentia-me tomado
de uma fora nova e misteriosa; mas, por um lado, no amara nunca, e, por
outro, Maria era a companheira de meu amigo. Digo isto, no para explicar
escrpulos, mas unicamente para fazer compreender o meu acanhamento. Viviam
juntos desde alguns anos, um para o outro. X... tinha confiana em mim,
confiana absoluta, comunicava-me os seus negcios, contava-me coisas da vida
passada. Apesar da desproporo da idade, ramos como estudantes do mesmo ano.

Como entrasse a pensar mais
constantemente em Maria,  provvel que por algum gesto lhe houvesse descoberto
o meu recente estado; certo  que, um dia, ao apertar-lhe a mo, senti que os
dedos dela se demoravam mais entre os meus. Dois dias depois, indo ao correio,
encontrei-a selando uma carta para a Bahia. Ainda no disse que era baiana? Era
baiana. Ela  que me viu primeiro e me falou. Ajudei-lhe a pr o selo e
despedimo-nos.  porta ia a dizer alguma coisa, quando vi ante ns, parada, a
figura de X...

 Vim trazer a carta para mame,
apressou-se ela em dizer.

Despediu-se de ns e foi para
casa; ele e eu tomamos outro rumo. X... aproveitou a ocasio para fazer muitos
elogios de Maria. Sem entrar em minudncias acerca da origem das relaes,
assegurou-me que fora uma grande paixo igual em ambos, e concluiu que tinha a
vida feita.

 J agora no me caso; vivo
maritalmente com ela, morrerei com ela. Tenho uma s pena;  ser obrigado a
viver separado de minha me. Minha me sabe, disse-me ele parando. E continuou
andando: sabe, e at j me fez uma aluso muito vaga e remota, mas que eu
percebi. Consta-me que no desaprova; sabe que Maria  sria e boa, e uma vez
que eu seja feliz, no exige mais nada. O casamento no me daria mais que
isto...

Disse muitas outras coisas, que eu
fui ouvindo sem saber de mim; o corao batia-me rijo, e as pernas andavam
frouxas. No atinava com resposta idnea; alguma palavra que soltava, saa-me
engasgada. Ao cabo de algum tempo, ele notou o meu estado e interpretou-o
erradamente; sups que as suas confidncias me aborreciam, e disse-mo rindo.
Contestei srio:

 Ao contrrio, ouo com
interesse, e trata-se de pessoas de toda a considerao e respeito.

Penso agora que cedia
inconscientemente a uma necessidade de hipocrisia. A idade das paixes 
confusa, e naquela situao no posso discernir bem os sentimentos e suas
causas. Entretanto, no  fora de propsito que buscasse dissipar no nimo de
X... qualquer possvel desconfiana. A verdade  que ele me ouviu agradecido.
Os seus grandes olhos de criana envolveram-me todo, e quando nos despedimos,
apertou-me a mo com energia. Creio at que lhe ouvi dizer: Obrigado!

No me separei dele aterrado, nem
ferido de remorsos prvios. A primeira impresso da confidncia esvaiu-se,
ficou s a confidncia, e senti crescer-me o alvoroo da curiosidade. X...
falara-me de Maria como de pessoa casta e conjugal; nenhuma aluso s suas
prendas fsicas, mas a minha idade dispensava qualquer referncia direta.
Agora, na rua, via de cor a figura da moa, os seus gestos igualmente lnguidos
e robustos, e cada vez me sentia mais fora de mim. Em casa escrevi-lhe uma
carta longa e difusa, que rasguei meia hora depois, e fui jantar. Sobre o
jantar fui  casa de X...

Eram ave-marias. Ele estava na
cadeira de balano, eu sentei-me no lugar do costume, olho na sala, olho no
morro. Maria apareceu tarde, depois das horas, e to anojada que no tomou
parte na conversao. Sentou-se e cochilou; depois tocou um pouco de piano e
saiu da sala.

 Maria acordou hoje com a mania
de colher donativos para a guerra, disse-me ele. J lhe fiz notar que nem todos
querero parecer que... Voc sabe... A posio dela... Felizmente, a idia h
de passar; tem dessas fantasias...

 E por que no?

 Ora, porque no! E depois, a
guerra do Paraguai, no digo que no seja como todas as guerras, mas, palavra,
no me entusiasma. A princpio, sim, quando o Lpez tomou o Marqus de
Olinda, fiquei indignado; logo depois perdi a impresso, e agora,
francamente, acho que tnhamos feito muito melhor se nos alissemos ao Lpez contra
os argentinos.

 Eu no. Prefiro os argentinos.

 Tambm gosto deles, mas, no
interesse da nossa gente, era melhor ficar com o Lpez.

 No; olhe, eu estive quase a
alistar-me como voluntrio da ptria.

 Eu, nem que me fizessem coronel,
no me alistava.

Ele disse no sei que mais. Eu,
como tinha a orelha afiada,  escuta dos ps de Maria, no respondi logo, nem
claro, nem seguido; fui engrolando alguma palavra e sempre  escuta. Mas o
diabo da moa no vinha; imaginei que estariam arrufados. Enfim, propus cartas,
podamos jogar uma partida de voltarete.

 Podemos, disse ele.

Passamos ao gabinete. X... ps as
cartas na mesa e foi chamar a amiga. Dali ouvi algumas frases sussurradas, mas
s esta me chegaram claras:

 Vem!  s meia hora.

 Que maada! Estou doente.

Maria apareceu no gabinete,
bocejando. Disse-me que era s meia hora; tinha dormido mal, doa-lhe a cabea
e contava deitar-se cedo. Sentou-se enfastiada, e comeamos a partida. Eu
arrependia-me de haver rasgado a carta; lembrava-me alguns trechos dela, que
diriam bem o meu estado, com o calor necessrio a persuadi-la. Se a tenho
conservado, entregava-lhe agora; ela ia muita vez ao patamar da escada
despedir-se de mim e fechar a cancela. Nessa ocasio podia dar-lha; era uma
soluo da minha crise.

Ao cabo de alguns minutos, X...
levantou-se para ir buscar tabaco de uma caixa de folha-de-flandres, posta
sobre a secretria. Maria fez ento um gesto que no sei como diga nem pinte.
Ergueu as cartas  altura dos olhos para os tapar, voltou-os para mim que lhe
ficava  esquerda, e arregalou-os tanto e com tal fogo e atrao, que no sei
como no entrei por eles. Tudo foi rpido. Quando ele voltou fazendo um
cigarro, Maria tinha as cartas embaixo dos olhos, abertas em leque, fitando-as
como se calculasse. Eu devia estar trmulo; no obstante, calculava tambm, com
a diferena de no poder falar. Ela disse ento com placidez uma das palavras
do jogo, passo ou licena.

Jogamos cerca de uma hora. Maria,
para o fim, cochilava literalmente, e foi o prprio X... que lhe disse que era
melhor ir descansar. Despedi-me e passei ao corredor, onde tinha o chapu e a
bengala. Maria,  porta da sala, esperava que eu sasse e acompanhou-me at 
cancela, para fech-la. Antes que eu descesse, lanou-me um dos braos ao
pescoo, chegou-me a si, colou-me os lbios nos lbios, onde eles me
depositaram um beijo grande, rpido e surdo. Na mo senti alguma coisa.

 Boa noite, disse Maria fechando
a cancela.

No sei como no ca. Desci
atordoado, com o beijo na boca, os olhos nos dela, e a mo apertando
instintivamente um objeto. Cuidei de me pr longe. Na primeira rua, corri a um
lampio, para ver o que trazia. Era um carto de loja de fazendas, um anncio,
com isto escrito nas costas, a lpis: Espere-me amanh, na ponte das barcas de
Niteri, a uma hora da tarde.

O meu alvoroo foi tamanho que
durante os primeiros minutos no soube absolutamente o que fiz. Em verdade, as
emoes eram demasiado grandes e numerosas, e to de perto seguidas que eu mal
podia saber de mim. Andei at ao Largo de S. Francisco de Paula. Tornei a ler o
carto; arrepiei caminho, novamente parei, e uma patrulha que estava perto
talvez desconfiou dos meus gestos. Felizmente, a respeito da comoo, tinha
fome e fui cear ao Hotel dos Prncipes. No dormi antes da madrugada; s seis
horas estava em p. A manh foi lenta como as agonias lentas. Dez minutos antes
de uma hora cheguei  ponte; j l achei Maria, envolvida numa capa, e com um
vu azul no rosto. Ia sair uma barca, entramos nela.

O mar acolheu-nos bem. A hora era
de poucos passageiros. Havia movimento de lanchas, de aves, e o cu luminoso
parecia cantar a nossa primeira entrevista. O que dissemos foi to de atropelo e
confuso que no me ficou mais de meia dzia de palavras, e delas nenhuma foi o
nome de X... ou qualquer referncia a ele. Sentamos ambos que traamos, eu o
meu amigo, ela o seu amigo e protetor. Mas, ainda que o no sentssemos, no 
provvel que falssemos dele, to pouco era o tempo para o nosso infinito.
Maria apareceu-me ento como nunca a vi nem suspeitara falando de mim e de si,
com a ternura possvel naquele lugar pblico, mas toda a possvel, no menos.
As nossas mos colavam-se, os nossos olhos comiam-se, e os coraes batiam
provavelmente ao mesmo compasso rpido e rpido. Pelo menos foi a sensao com
que me separei dela, aps a viagem redonda a Niteri e S. Domingos. Convidei-a
a desembarcar em ambos os pontos, mas recusou; na volta, lembrei-lhe que nos
metssemos numa calea fechada: Que idia faria de mim? perguntou-me com
gesto de pudor que a transfigurou. E despedimo-nos com prazo dado, jurando-lhe
que eu no deixaria de ir v-los,  noite, como de costume.

Como eu no tomei da pena para
narrar a minha felicidade, deixo a parte deliciosa da aventura, com as suas
entrevistas, cartas e palavras, e mais os sonhos e esperanas, as infinitas
saudades e os renascentes desejos. Tais aventuras so como os almanaques, que,
com todas as suas mudanas, ho de trazer os mesmos dias e meses, com os seus
eternos nomes e santos. O nosso almanaque apenas durou um trimestre, sem
quartos minguantes nem ocasos de sol. Maria era um modelo de graas finas, toda
vida, toda movimento. Era baiana, como disse, fora educada no Rio Grande do
Sul, na campanha, perto da fronteira. Quando lhe falei do seu primeiro encontro
com X... no Teatro Provisrio, danando ao som de um pandeiro, disse-me que era
verdade, fora ali vestida  castelhana e de mscara; e, como eu lhe pedisse a
mesma coisa, menos a mscara, ou um simples lundu nosso, respondeu-me como quem
recusa um perigo:

 Voc poderia ficar doido.

 Mas X... no ficou doido.

 Ainda hoje no est no seu
juzo, replicou Maria rindo. Imagina que eu fazia isto s...

E em p, num maneio rpido, deu
uma volta ao corpo, que me fez ferver o sangue.

O trimestre acabou depressa, como
os trimestres daquela casta. Maria faltou um dia  entrevista. Era to pontual
que fiquei tonto quando vi passar a hora. Cinco, dez, quinze minutos; depois
vinte, depois trinta, depois quarenta... No digo as vezes que andei de um lado
para outro, na sala, no corredor,  espreita e  escuta, at que de todo passou
a possibilidade de vir. Poupo a notcia do meu desespero, o tempo que rolei no
cho, falando, gritando ou chorando. Quando cansei, escrevi-lhe uma longa
carta; esperei que me escrevesse tambm, explicando a falta. No mandei a
carta, e  noite fui  casa deles.

Maria pde explicar-me a falta pelo
receio de ser vista e acompanhada por algum que a perseguia desde algum tempo.
Com efeito, haviam-me j falado em no sei que vizinho que a cortejava com
instncia; uma vez disse-me que ele a seguira at  porta da minha casa.
Acreditei na razo, e propus-lhe outro lugar de encontro, mas no lhe pareceu
conveniente. Desta vez achou melhor suspendermos as nossas entrevistas, at
fazer calar as suspeitas. No sairia de casa. No compreendi ento que a
principal verdade era ter cessado nela o ardor dos primeiros dias. Maria era
outra, principalmente outra. E no podes imaginar o que vinha a ser essa bela
criatura, que tinha em si o fogo e o gelo, e era mais quente e mais fria que
ningum.

Quando me entrou a convico de
que tudo estava acabado, resolvi no voltar l, mas nem por isso perdia a
esperana; era para mim questo de esforo. A imaginao, que torna presentes
os dias passados, fazia-me crer facilmente na possibilidade de restaurar as
primeiras semanas. Ao cabo de cinco dias, voltei; no podia viver sem ela.

X... recebeu-me com o seu grande
riso infante, os olhos puros, a mo forte e sincera; perguntou a razo da minha
ausncia. Aleguei uma febrezinha, e, para explicar o enfadamento que eu no
podia vencer, disse que ainda me doa a cabea. Maria compreendeu tudo; nem por
isso se mostrou meiga ou compassiva, e,  minha sada, no foi at ao corredor,
como de costume.

Tudo isto dobrou a minha angstia.
A idia de morrer entrou a passar-me pela cabea; e, por uma simetria
romntica, pensei em meter-me na barca de Niteri, que primeiro acolheu os
nossos amores, e, no meio da baa, atirar-me ao mar. No iniciei tal plano nem
outro. Tendo encontrado casualmente o meu amigo Barreto, no vacilei em lhe
dizer tudo; precisava de algum para falar comigo mesmo. No fim pedi-lhe
segredo; devia pedir-lhe especialmente que no contasse nada a Raimunda. Nessa
mesma noite ela soube tudo. Raimunda era um esprito aventureiro, amigo de
entrepresas e novidades. No se lhe dava, talvez, de mim nem da outra, mas viu
naquilo um lance, uma ocupao, e cuidou em reconciliar-nos; foi o que eu soube
depois, e  o que d lugar a este papel.

Falou-lhe uma e mais vezes. Maria
quis negar a princpio, acabou confessando tudo, dizendo-se arrependida da
cabeada que dera. Usaria provavelmente de circunlquios e sinnimos, frases
vagas e truncadas, alguma vez empregaria s gestos. O texto que a fica  o da
prpria Raimunda, que me mandou chamar  casa dela e me referiu todos os seus
esforos, contente de si mesma.

 Mas no perca as esperanas,
concluiu; eu disse-lhe que o senhor era capaz de matar-se.

 E sou.

 Pois no se mate por ora;
espere.

No dia seguinte vi nos jornais uma
lista de cidados que, na vspera, tinham ido ao quartel-general apresentar-se como
voluntrios da ptria, e nela o nome de X..., com o posto de capito. No
acreditei logo; mas eram os mesmos, na mesma ordem, e uma das folhas fazia
referncias  famlia de X..., ao pai, que fora oficial de marinha, e  figura
esbelta e varonil do novo capito; era ele mesmo.

A minha primeira impresso foi de
prazer; amos ficar ss. Ela no iria de vivandeira para o Sul. Depois,
lembrou-me o que ele me disse acerca da guerra, e achei estranho o seu
alistamento de voluntrio, ainda que o amor dos atos generosos e a nota
cavalheiresca do esprito de X... pudessem explic-lo. Nem de coronel iria,
disse-me, e agora aceitava o posto de capito. Enfim, Maria; como  que ele,
que tanto lhe queria, ia separar-se dela repentinamente, sem paixo forte que o
levasse  guerra?

Havia trs semanas que eu no ia 
casa deles. A notcia do alistamento justificava a minha visita imediata e
dispensava-me de explicaes. Almocei e fui. Compus um rosto ajustado 
situao e entrei. X... veio  sala, depois de alguns minutos de espera. A cara
desdizia das palavras; estas queriam ser alegres e leves, aquela era fechada e
torva, alm de plida. Estendeu-me a mo, dizendo:

 Ento, vem ver o capito de
voluntrios?

 Venho ouvir o desmentido.

 Que desmentido?  pura verdade.
No sei como isto foi, creio que as ltimas notcias... Voc por que no vem
comigo?

 Mas ento  verdade?

 .

Aps alguns instantes de silncio,
meio sincero, por no saber realmente que dissesse, meio calculado, para
persuadi-lo da minha consternao, murmurei que era melhor no ir, e falei-lhe
na me. X... respondeu-me que a me aprovava; era viva de militar. Fazia
esforos para sorrir, mas a cara continuava a ser de pedra. Os olhos buscavam
desviar-se, e geralmente no fitavam bem nem longo. No conversamos muito; ele
ergueu-se, alegando que ia liquidar um negcio, e pediu-me que voltasse a
v-lo.  porta, disse-me com algum esforo:

 Venha jantar um dia destes,
antes da minha partida.

 Sim.

 Olhe, venha jantar amanh.

 Amanh?

 Ou hoje, se quiser.

 Amanh.

Quis deixar lembranas a Maria;
era natural e necessrio, mas faltou-me o nimo. Embaixo arrependi-me de o no
ter feito. Recapitulei a conversao, achei-me atado e incerto; ele pareceu-me,
alm de frio, sobranceiro. Vagamente, senti alguma coisa mais. O seu aperto de
mo tanto  entrada, como  sada, no me dera a sensao do costume.

Na noite desse dia, Barreto veio ter
comigo, atordoado com a notcia da manh, e perguntando-me o que sabia;
disse-lhe que nada. Contei-lhe a minha visita da manh, a nossa conversao,
sem as minhas suspeitas.

 Pode ser engano, disse ele,
depois de um instante.

 Engano?

 Raimunda contou-me hoje que
falara a Maria, que esta negara tudo a princpio, depois confessara, e recusara
reatar as relaes com voc.

 J sei.

 Sim, mas parece que da terceira
vez foram pressentidas e ouvidas por ele, que estava na saleta ao p. Maria correu
a contar a Raimunda que ele mudara inteiramente; esta disps-se a sond-lo, eu
opus-me, at que li a notcia nos jornais. Vi-o na rua, andando: no tinha
aquele gesto sereno de costume, mas o passo era forte.

Fiquei aturdido com a notcia, que
confirmava a minha impresso. Nem por isso deixei de ir l jantar no dia
seguinte. Barreto quis ir tambm; percebi que era com o fim nico de estar
comigo, e recusei.

X... no dissera nada a Maria;
achei-os na sala, e no me lembro de outra situao na vida em que me sentisse
mais estranho a mim mesmo. Apertei-lhes a mo, sem olhar para ela. Creio que
ela tambm desviou os olhos. Ele  que, com certeza, no nos observou; riscava
um fsforo e acendia um cigarro. Ao jantar falou o mais naturalmente que pde,
ainda que frio. O rosto exprimia maior esforo que na vspera. Para explicar a
possvel alterao, disse-me que embarcaria no fim da semana, e que, 
proporo que a hora ia chegando, sentia dificuldade em sair.

 Mas  s at fora da barra; l
fora torno a ser o que sou, e, na campanha, serei o que devo ser.

Usava dessas palavras rgidas,
alguma vez enfticas. Notei que Maria trazia os olhos pisados; soube depois que
chorara muito e tivera grande luta com ele, na vspera, para que no
embarcasse. S conhecera a resoluo pelos jornais, prova de alguma coisa mais
particular que o patriotismo. No falou  mesa, e a dor podia explicar o
silncio, sem nenhuma outra causa de constrangimento pessoal. Ao contrrio,
X... procurava falar muito, contava os batalhes, os oficiais novos, as
probabilidades de vitria, e referia anedotas e boatos, sem curar de ligao.
s vezes, queria rir; para o fim, disse que naturalmente voltaria general, mas
ficou to carrancudo depois deste gracejo, que no tentou outro. O jantar acabou
frio; fumamos, ele ainda quis falar da guerra, mas o assunto estava exausto.
Antes de sair, convidei-o a ir jantar comigo.

 No posso; todos os meus dias
esto tomados.

 Venha almoar.

 Tambm no posso. Fao uma coisa;
na volta do Paraguai, o terceiro dia  seu.

Creio ainda hoje que o fim desta
ltima frase era indicar que os dois primeiros dias seriam da me e de Maria;
assim, qualquer suspeita que eu tivesse dos motivos secretos da resoluo,
devia dissipar-se. Nem bastou isso; disse-me que escolhesse uma prenda em
lembrana, um livro, por exemplo. Preferi o seu ltimo retrato, fotografado a
pedido da me, com a farda de capito de voluntrios. Por dissimulao, quis
que assinasse; ele prontamente escreveu: Ao seu leal amigo Simo de Castro
oferece o capito de voluntrios da ptria X... O mrmore do rosto era mais
duro, o olhar mais torvo; passou os dedos pelo bigode, com um gesto convulso, e
despedimo-nos.

No sbado embarcou. Deixou a Maria
os recursos necessrios para viver aqui, na Bahia, ou no Rio Grande do Sul; ela
preferiu o Rio Grande, e partiu para l, trs semanas depois, a esperar que ele
voltasse da guerra. No a pude ver antes; fechara-me a porta, como j me havia
fechado o rosto e o corao.

Antes de um ano, soube-se que ele
morrera em combate, no qual se houve com mais denodo que percia. Ouvi contar
que primeiro perdera um brao, e que provavelmente a vergonha de ficar aleijado
o fez atirar-se contra as armas inimigas, como quem queria acabar de vez. Esta
verso podia ser exata, porque ele tinha desvanecimentos das belas formas; mas
a causa foi complexa. Tambm me contaram que Maria, voltando do Rio Grande,
morreu em Curitiba; outros dizem que foi acabar em Montevidu. A filha no
passou dos quinze anos.

Eu c fiquei entre os meus
remorsos e saudades; depois, s remorsos; agora admirao apenas, uma admirao
particular, que no  grande seno por me fazer sentir pequeno. Sim, eu no era
capaz de praticar o que ele praticou. Nem efetivamente conheci ningum que se
parecesse com X... E por que teimar nesta letra? Chamemo-lo pelo nome que lhe
deram na pia, Emlio, o meigo, o forte, o simples Emlio.

SUJE-SE GORDO!

Uma noite, h muitos anos,
passeava eu com um amigo no terrao do Teatro de S. Pedro de Alcntara. Era
entre o segundo e o terceiro ato da pea A Sentena ou o Tribunal do Jri.
S me ficou o ttulo, e foi justamente o ttulo que nos levou a falar da
instituio e de um fato que nunca mais me esqueceu.

 Fui sempre contrrio ao jri, 
disse-me aquele amigo,  no pela instituio em si, que  liberal, mas porque
me repugna condenar algum, e por aquele preceito do Evangelho; No queirais
julgar para que no sejais julgados. No obstante, servi duas vezes. O
tribunal era ento no antigo Aljube, fim da Rua dos Ourives, princpio da
Ladeira da Conceio.

Tal era o meu escrpulo que, salvo
dois, absolvi todos os rus. Com efeito, os crimes no me pareceram provados;
um ou dois processos eram mal feitos. O primeiro ru que condenei era um moo
limpo, acusado de haver furtado certa quantia, no grande, antes pequena, com
falsificao de um papel. No negou o fato, nem podia faz-lo, contestou que
lhe coubesse a iniciativa ou inspirao do crime. Algum, que no citava, foi
que lhe lembrou esse modo de acudir a uma necessidade urgente; mas Deus, que
via os coraes, daria ao criminoso verdadeiro o merecido castigo. Disse isso
sem nfase, triste, a palavra surda, os olhos mortos, com tal palidez que metia
pena; o promotor pblico achou nessa mesma cor do gesto a confisso do crime.
Ao contrrio, o defensor mostrou que o abatimento e a palidez significavam a
lstima da inocncia caluniada.

Poucas vezes terei assistido a debate
to brilhante. O discurso do promotor foi curto, mas forte, indignado, com um
tom que parecia dio, e no era. A defesa, alm do talento do advogado, tinha a
circunstncia de ser a estria dele na tribuna. Parentes, colegas e amigos
esperavam o primeiro discurso do rapaz, e no perderam na espera. O discurso
foi admirvel, e teria salvo o ru, se ele pudesse ser salvo, mas o crime
metia-se pelos olhos dentro. O advogado morreu dois anos depois, em 1865. Quem
sabe o que se perdeu nele! Eu, acredite, quando vejo morrer um moo de talento,
sinto mais que quando morre um velho... Mas vamos ao que ia contando. Houve
rplica do promotor e trplica do defensor. O presidente do tribunal resumiu os
debates, e, lidos os quesitos, foram entregues ao presidente do Conselho, que
era eu.

Um dos jurados do Conselho, cheio
de corpo e ruivo, parecia mais que l se passou, no interessa ao caso
particular, que era melhor ficasse tambm calado, confesso. Cantarei depressa;
o terceiro ato no tarda.

Um dos jurados do Conselho, cheio
de corpo e ruivo, parecia mais que ningum convencido do delito e do
delinqente. O processo foi examinado, os quesitos lidos, e as respostas dadas
(onze votos contra um); s o jurado ruivo estava inquieto. No fim, como os
votos assegurassem a condenao, ficou satisfeito, disse que seria um ato de
fraqueza, ou coisa pior, a absolvio que lhe dssemos. Um dos jurados,
certamente o que votara pela negativa,  proferiu algumas palavras de defesa do
moo. O ruivo,  chamava-se Lopes,  replicou com aborrecimento:

 Como, senhor? Mas o crime do ru
est mais que provado.

 Deixemos de debate, disse eu, e
todos concordaram comigo.

 No estou debatendo, estou
defendendo o meu voto, continuou Lopes. O crime est mais que provado. O
sujeito nega, porque todo o ru nega, mas o certo  que ele cometeu a
falsidade, e que falsidade! Tudo por uma misria, duzentos mil-ris! Suje-se
gordo! Quer sujar-se? Suje-se gordo!

Suje-se gordo! Confesso-lhe que
fiquei de boca aberta, no que entendesse a frase, ao contrrio, nem a entendi
nem a achei limpa, e foi por isso mesmo que fiquei de boca aberta. Afinal
caminhei e bati  porta, abriram-nos, fui  mesa do juiz, dei as respostas do
Conselho e o ru saiu condenado. O advogado apelou; se a sentena foi
confirmada ou a apelao aceita, no sei; perdi o negcio de vista.

Quando sa do tribunal, vim
pensando na frase do Lopes, e pareceu-me entend-la. Suje-se gordo! era como
se dissesse que o condenado era mais que ladro, era um ladro reles, um ladro
de nada. Achei esta explicao na esquina da Rua de S. Pedro; vinha ainda pela
dos Ourives. Cheguei a desandar um pouco, a ver se descobria o Lopes para lhe
apertar a mo; nem sombra de Lopes. No dia seguinte, lendo nos jornais os nossos
nomes, dei com o nome todo dele; no valia a pena procur-lo, nem me ficou de
cor. Assim so as pginas da vida, como dizia meu filho quando fazia versos, e
acrescentava que as pginas vo passando umas sobre outras, esquecidas apenas
lidas. Rimava assim, mas no me lembra a forma dos versos.

Em prosa disse-me ele, muito tempo
depois, que eu no devia faltar ao jri, para o qual acabava de ser designado.
Respondi-lhe que no compareceria, e citei o preceito evanglico; ele teimou,
dizendo ser um dever de cidado, um servio gratuito, que ningum que se
prezasse podia negar ao seu pas. Fui e julguei trs processos.

Um destes era de um empregado do
Banco do Trabalho Honrado, o caixa, acusado de um desvio de dinheiro. Ouvira
falar no caso, que os jornais deram sem grande mincia, e alis eu lia pouco as
notcias de crimes. O acusado apareceu e foi sentar-se no famoso banco dos
rus. Era um homem magro e ruivo. Fitei-o bem, e estremeci; pareceu-me ver o
meu colega daquele julgamento de anos antes. No poderia reconhec-lo logo por
estar agora magro, mas era a mesma cor dos cabelos e das barbas, o mesmo ar, e
por fim a mesma voz e o mesmo nome: Lopes.

 Como se chama? perguntou o
presidente.

 Antnio do Carmo Ribeiro Lopes.

J me no lembravam os trs primeiros
nomes, o quarto era o mesmo, e os outros sinais vieram confirmando as
reminiscncias; no me tardou reconhecer a pessoa exata daquele dia remoto.
Digo-lhe aqui com verdade que todas essas circunstncias me impediram de
acompanhar atentamente o interrogatrio, e muitas coisas me escaparam. Quando
me dispus a ouvi-lo bem, estava quase no fim. Lopes negava com firmeza tudo o
que lhe era perguntado, ou respondia de maneira que trazia uma complicao ao
processo. Circulava os olhos sem medo nem ansiedade; no sei at se com uma
pontinha de riso nos cantos da boca.

Seguiu-se a leitura do processo.
Era uma falsidade e um desvio de cento e dez contos de ris. No lhe digo como
se descobriu o crime nem o criminoso, por j ser tarde; a orquestra est afinando
os instrumentos. O que lhe digo com certeza  que a leitura dos autos me
impressionou muito, o inqurito, os documentos, a tentativa de fuga do caixa e
uma srie de circunstncias agravantes; por fim o depoimento das testemunhas.
Eu ouvia ler ou falar e olhava para o Lopes. Tambm ele ouvia, mas com o rosto
alto, mirando o escrivo, o presidente, o teto e as pessoas que o iam julgar;
entre elas eu. Quando olhou para mim no me reconheceu; fitou-me algum tempo e
sorriu, como fazia aos outros.

Todos esses gestos do homem
serviram  acusao e  defesa, tal como serviram, tempos antes, os gestos
contrrios do outro acusado. O promotor achou neles a revelao clara do
cinismo, o advogado mostrou que s a inocncia e a certeza da absolvio podiam
trazer aquela paz de esprito.

Enquanto os dois oradores falavam,
vim pensando na fatalidade de estar ali, no mesmo banco do outro, este homem
que votara a condenao dele, e naturalmente repeti comigo o texto evanglico:
No queirais julgar, para que no sejais julgados. Confesso-lhe que mais de
uma vez me senti frio. No  que eu mesmo viesse a cometer algum desvio de
dinheiro, mas podia, em ocasio de raiva, matar algum ou ser caluniado de
desfalque. Aquele que julgava outrora, era agora julgado tambm.

Ao p da palavra bblica
lembrou-me de repente a do mesmo Lopes: Suje-se gordo! No imagina o
sacudimento que me deu esta lembrana. Evoquei tudo o que contei agora, o
discursinho que lhe ouvi na sala secreta, at quelas palavras: Suje-se
gordo! Vi que no era um ladro reles, um ladro de nada, sim de grande valor.
O verbo  que definia duramente a ao. Suje-se gordo! Queria dizer que o
homem no se devia levar a um ato daquela espcie sem a grossura da soma. A ningum
cabia sujar-se por quatro patacas. Quer sujar-se? Suje-se gordo!

Idias e palavras iam assim
rolando na minha cabea, sem eu dar pelo resumo dos debates que o presidente do
tribunal fazia. Tinha acabado, leu os quesitos e recolhemo-nos  sala secreta.
Posso dizer-lhe aqui em particular que votei afirmativamente, to certo me
pareceu o desvio dos cento e dez contos. Havia, entre outros documentos, uma
carta de Lopes que fazia evidente o crime. Mas parece que nem todos leram com
os mesmos olhos que eu. Votaram comigo dois jurados. Nove negaram a
criminalidade do Lopes, a sentena de absolvio foi lavrada e lida, e o
acusado saiu para a rua. A diferena da votao era tamanha que cheguei a
duvidar comigo se teria acertado. Podia ser que no. Agora mesmo sinto uns
repeles de conscincia. Felizmente, se o Lopes no cometeu deveras o crime,
no recebeu a pena do meu voto, e esta considerao acaba por me consolar do
erro, mas os repeles voltam. O melhor de tudo  no julgar ningum para no
vir a ser julgado. Suje-se gordo! suje-se magro! suje-se como lhe parecer! o
mais seguro  no julgar ningum... Acabou a msica, vamos para as nossas
cadeiras.

UMAS FRIAS

Vieram dizer ao mestre-escola que
algum lhe queria falar.

 Quem ?

 Diz que meu senhor no o
conhece, respondeu o preto.

 Que entre.

Houve um movimento geral de
cabeas na direo da porta do corredor, por onde devia entrar a pessoa
desconhecida. ramos no sei quantos meninos na escola. No tardou que aparecesse
uma figura rude, tez queimada, cabelos compridos, sem sinal de pente, a roupa
amarrotada, no me lembra bem a cor nem a fazenda, mas provavelmente era brim
pardo. Todos ficaram esperando o que vinha dizer o homem, eu mais que ningum,
porque ele era meu tio, roceiro, morador em Guaratiba. Chamava-se tio Zeca.

Tio Zeca foi ao mestre e falou-lhe
baixo. O mestre f-lo sentar, olhou para mim, e creio que lhe perguntou alguma
coisa, porque tio Zeca entrou a falar demorado, muito explicativo. O mestre
insistiu, ele respondeu, at que o mestre, voltando-se para mim, disse alto:

 Sr. Jos Martins, pode sair.

A minha sensao de prazer foi tal
que venceu a de espanto. Tinha dez anos apenas, gostava de folgar, no gostava
de aprender. Um chamado de casa, o prprio tio, irmo de meu pai, que chegara
na vspera de Guaratiba, era naturalmente alguma festa, passeio, qualquer
coisa. Corri a buscar o chapu, meti o livro de leitura no bolso e desci as
escadas da escola, um sobradinho da Rua do Senado. No corredor beijei a mo a
tio Zeca. Na rua fui andando ao p dele, amiudando os passos, e levantando a
cara. Ele no me dizia nada, eu no me atrevia a nenhuma pergunta. Pouco depois
chegvamos ao colgio de minha irm Felcia; disse-me que esperasse, entrou, subiu,
desceram, e fomos os trs caminho de casa. A minha alegria agora era maior.
Certamente havia festa em casa, pois que amos os dois, ela e eu; amos na
frente, trocando as nossas perguntas e conjeturas. Talvez anos de tio Zeca.
Voltei a cara para ele; vinha com os olhos no cho, provavelmente para no
cair.

Fomos andando. Felcia era mais
velha que eu um ano. Calava sapato raso, atado ao peito do p por duas fitas cruzadas,
vindo acabar acima do tornozelo com lao. Eu, botins de cordovo, j gastos. As
calcinhas dela pegavam com a fita dos sapatos, as minhas calas, largas, caam
sobre o peito do p; eram de chita. Uma ou outra vez parvamos, ela para
admirar as bonecas  porta dos armarinhos, eu para ver,  porta das vendas,
algum papagaio que descia e subia pela corrente de ferro atada ao p.
Geralmente, era meu conhecido, mas papagaio no cansa em tal idade. Tio Zeca 
que nos tirava do espetculo industrial ou natural.  Andem, dizia ele em voz
sumida. E ns andvamos, at que outra curiosidade nos fazia deter o passo.
Entretanto, o principal era a festa que nos esperava em casa.

 No creio que sejam anos de tio
Zeca, disse-me Felcia.

 Por qu?

 Parece meio triste.

 Triste, no, parece carrancudo.

 Ou carrancudo. Quem faz anos tem
a cara alegre.

 Ento sero anos de meu
padrinho...

 Ou de minha madrinha...

 Mas por que  que mame nos
mandou para a escola?

 Talvez no soubesse.

 H de haver jantar grande...

 Com doce...

 Talvez dancemos.

Fizemos um acordo: podia ser
festa, sem aniversrio de ningum. A sorte grande, por exemplo. Ocorreu-me
tambm que podiam ser eleies. Meu padrinho era candidato a vereador; embora
eu no soubesse bem o que era candidatura nem vereao, tanto ouvira falar em
vitria prxima que a achei certa e ganha. No sabia que a eleio era ao
domingo, e o dia era sexta-feira. Imaginei bandas de msica, vivas e palmas, e
ns, meninos, pulando, rindo, comendo cocadas. Talvez houvesse espetculo 
noite; fiquei meio tonto. Tinha ido uma vez ao teatro, e voltei dormindo, mas
no dia seguinte estava to contente que morria por l tornar, posto no
houvesse entendido nada do que ouvira. Vira muita coisa, isto sim, cadeiras
ricas, tronos, lanas compridas, cenas que mudavam  vista, passando de uma
sala a um bosque, e do bosque a uma rua. Depois, os personagens, todos
prncipes. Era assim que chamvamos aos que vestiam calo de seda, sapato de
fivela ou botas, espada, capa de veludo, gorra com pluma. Tambm houve bailado.
As bailarinas e os bailarinos falavam com os ps e as mos, trocando de posio
e um sorriso constante na boca. Depois os gritos do pblico e as palmas...

J duas vezes escrevi palmas;  que
as conhecia bem. Felcia, a quem comuniquei a possibilidade do espetculo, no
me pareceu gostar muito, mas tambm no recusou nada. Iria ao teatro. E quem
sabe se no seria em casa, teatrinho de bonecos? amos nessas conjeturas,
quando tio Zeca nos disse que esperssemos; tinha parado a conversar com um
sujeito.

Paramos,  espera. A idia da
festa, qualquer que fosse, continuou a agitar-nos, mais a mim que a ela.
Imaginei trinta mil coisas, sem acabar nenhuma, to precipitadas vinham, e to
confusas que no as distinguia, pode ser at que se repetissem. Felcia chamou
a minha ateno para dois moleques de carapua encarnada, que passavam
carregando canas,  o que nos lembrou as noites de Santo Antnio e S. Joo, j
l idas. Ento falei-lhe das fogueiras do nosso quintal, das bichas que
queimamos, das rodinhas, das pistolas e das danas com outros meninos. Se
houvesse agora a mesma coisa... Ah! lembrou-me que era ocasio de deitar 
fogueira o livro da escola, e o dela tambm, com os pontos de costura que
estava aprendendo.

 Isso no, acudiu Felcia.

 Eu queimava o meu livro.

 Papai comprava outro.

 Enquanto comprasse, eu ficava
brincando em casa; aprender  muito aborrecido.

Nisto estvamos, quando vimos tio Zeca
e o desconhecido ao p de ns. O desconhecido pegou-nos nos queixos e
levantou-nos a cara para ele, fitou-nos com seriedade, deixou-nos e
despediu-se.

 Nove horas? L estarei, disse
ele.

 Vamos, disse-nos tio Zeca.

Quis perguntar-lhe quem era aquele
homem, e at me pareceu conhec-lo vagamente. Felcia tambm. Nenhum de ns
acertava com a pessoa; mas a promessa de l estar s nove horas dominou o
resto. Era festa, algum baile, conquanto s nove horas costumssemos ir para a
cama. Naturalmente, por exceo, estaramos acordados. Como chegssemos a um
rego de lama, peguei da mo de Felcia, e transpusemo-lo de um salto, to
violento que quase me caiu o livro. Olhei para tio Zeca, a ver o efeito do
gesto; vi-o abanar a cabea com reprovao. Ri, ela sorriu, e fomos pela
calada adiante.

Era o dia dos desconhecidos. Desta
vez estavam em burros, e um dos dois era mulher. Vinham da roa. Tio Zeca foi
ter com eles ao meio da rua, depois de dizer que esperssemos. Os animais
pararam, creio que de si mesmos, por tambm conhecerem a tio Zeca, idia que
Felcia reprovou com o gesto, e que eu defendi rindo. Teria apenas meia
convico; tudo era folgar. Fosse como fosse, esperamos os dois, examinando o
casal de roceiros. Eram ambos magros, a mulher mais que o marido, e tambm mais
moa; ele tinha os cabelos grisalhos. No ouvimos o que disseram, ele e tio
Zeca; vimo-lo, sim, o marido olhar para ns com ar de curiosidade, e falar 
mulher, que tambm nos deitou os olhos, agora com pena ou coisa parecida. Enfim
apartaram-se, tio Zeca veio ter conosco e enfiamos para casa.

A casa ficava na rua prxima,
perto da esquina. Ao dobrarmos esta, vimos os portais da casa forrados de
preto,  o que nos encheu de espanto. Instintivamente paramos e voltamos a
cabea para tio Zeca. Este veio a ns, deu a mo a cada um e ia a dizer alguma
palavra que lhe ficou na garganta; andou, levando-nos consigo. Quando chegamos,
as portas estavam meio cerradas. No sei se lhes disse que era um armarinho. Na
rua, curiosos. Nas janelas fronteiras e laterais, cabeas aglomeradas. Houve
certo rebulio quando chegamos.  natural que eu tivesse a boca aberta, como
Felcia. Tio Zeca empurrou uma das meias portas, entramos os trs, ele tornou a
cerr-la, meteu-se pelo corredor e fomos  sala de jantar e  alcova.

Dentro, ao p da cama, estava
minha me com a cabea entre as mos. Sabendo da nossa chegada, ergueu-se de
salto, veio abraar-nos entre lgrimas, bradando:

 Meus filhos, vosso pai morreu!

A comoo foi grande, por mais que
o confuso e o vago entorpecessem a conscincia da notcia. No tive foras para
andar, e teria medo de o fazer. Morto como? morto por qu? Estas duas
perguntas, se as meto aqui,  para dar seguimento  ao; naquele momento no
perguntei nada a mim nem a ningum. Ouvi as palavras de minha me, se repetiam
em mim, e os seus soluos que eram grandes. Ela pegou em ns e arrastou-nos
para a cama, onde jazia o cadver do marido; e fez-nos beijar-lhe a mo. To
longe estava eu daquilo que, apesar de tudo, no entendera nada a princpio; a
tristeza e o silncio das pessoas que rodeavam a cama ajudaram a explicar que
meu pai morrera deveras. No se tratava de um dia santo, com a sua folga e
recreio, no era festa, no eram as horas breves ou longas, para a gente desfiar
em casa, arredada dos castigos da escola. Que essa queda de um sonho to bonito
fizesse crescer a minha dor de filho no  coisa que possa afirmar ou negar;
melhor  calar. O pai ali estava defunto, sem pulos, nem danas, nem risadas,
nem bandas de msica, coisas todas tambm defuntas. Se me houvessem dito 
sada da escola por que  que me iam l buscar,  claro que a alegria no
houvera penetrado o corao, donde era agora expelida a punhadas.

O enterro foi no dia seguinte s
nove horas da manh, e provavelmente l estava aquele amigo de tio Zeca que se
despediu na rua, com a promessa de ir s nove horas. No vi as cerimnias;
alguns vultos, poucos, vestidos de preto, lembra-me que vi. Meu padrinho, dono
de um trapiche, l estava, e a mulher tambm, que me levou a uma alcova dos
fundos para me mostrar gravuras. Na ocasio da sada, ouvi os gritos de minha
me, o rumor dos passos, algumas palavras abafadas de pessoas que pegavam nas
alas do caixo, creio eu:  vire de lado,  mais  esquerda,  assim, segure
bem... Depois, ao longe, o coche andando e as seges atrs dele...

L iam meu pai e as frias! Um dia
de folga sem folguedo! No, no foi um dia, mas oito, oito dias de nojo,
durante os quais alguma vez me lembrei do colgio. Minha me chorava, cosendo o
luto, entre duas visitas de psames. Eu tambm chorava; no via meu pai s
horas do costume, no lhe ouvia as palavras  mesa ou ao balco, nem as
carcias que dizia aos pssaros. Que ele era muito amigo de pssaros, e tinha
trs ou quatro, em gaiolas. Minha me vivia calada. Quase que s falava s
pessoas de fora. Foi assim que eu soube que meu pai morrera de apoplexia. Ouvi
esta notcia muitas vezes; as visitas perguntavam pela causa da morte, e ela
referia tudo, a hora, o gesto, a ocasio: tinha ido beber gua, e enchia um
copo,  janela da rea. Tudo decorei,  fora de ouvi-lo contar.

Nem por isso os meninos do colgio
deixavam de vir espiar para dentro da minha memria. Um deles chegou a
perguntar-me quando  que eu voltaria.

 Sbado, meu filho, disse minha
me, quando lhe repeti a pergunta imaginada; a missa  sexta-feira. Talvez seja
melhor voltar na segunda.

 Antes sbado, emendei.

 Pois sim, concordou.

No sorria; se pudesse, sorriria
de gosto ao ver que eu queria voltar mais cedo  escola. Mas, sabendo que eu
no gostava de aprender, como entenderia a emenda? Provavelmente, deu-lhe algum
sentido superior, conselho do cu ou do marido. Em verdade, eu no folgava, se
lerdes isto com o sentido de rir. Com o de descansar tambm no cabe, porque
minha me fazia-me estudar, e, tanto como o estudo, aborrecia-me a atitude.
Obrigado a estar sentado, com o livro nas mos, a um canto ou  mesa, dava ao
diabo o livro, a mesa e a cadeira. Usava um recurso que recomendo aos
preguiosos: deixava os olhos na pgina e abria a porta  imaginao. Corria a
apanhar as flechas dos foguetes, a ouvir os realejos, a bailar com meninas, a
cantar, a rir, a espancar de mentira ou de brincadeira, como for mais claro.

Uma vez, como desse por mim a
andar na sala sem ler, minha me repreendeu-me, e eu respondi que estava
pensando em meu pai. A explicao f-la chorar, e, para dizer tudo, no era
totalmente mentira; tinha-me lembrado o ltimo presentinho que ele me dera, e
entrei a v-lo com o mimo na mo.

Felcia vivia to triste como eu,
mas confesso a minha verdade, a causa principal no era a mesma. Gostava de
brincar, mas no sentia a ausncia do brinco, no se lhe dava de acompanhar a
me, coser com ela, e uma vez fui ach-la a enxugar-lhe os olhos. Meio vexado,
pensei em imit-la, e meti a mo no bolso para tirar o leno. A mo entrou sem
ternura, e, no achando o leno, saiu sem pesar. Creio que ao gesto no faltava
s originalidade, mas sinceridade tambm.

No me censurem. Sincero fui
longos dias calados e reclusos. Quis uma vez ir para o armarinho, que se abriu
depois do enterro, onde o caixeiro continuou a servir. Conversaria com este,
assistiria  venda de linhas e agulhas,  medio de fitas, iria  porta, 
calada,  esquina da rua... Minha me sufocou este sonho pouco depois dele
nascer. Mal chegara ao balco, mandou-me buscar pela escrava; l fui para o
interior da casa e para o estudo. Arrepelei-me, apertei os dedos  guisa de
quem quer dar murro; no me lembra se chorei de raiva.

O livro lembrou-me a escola, e a
imagem da escola consolou-me. J ento lhe tinha grandes saudades. Via de longe
as caras dos meninos, os nossos gestos de troa nos bancos, e os saltos 
sada. Senti cair-me na cara uma daquelas bolinhas de papel com que nos espertvamos
uns aos outros, e fiz a minha e atirei-a ao meu suposto espertador. A bolinha,
como acontecia s vezes, foi cair na cabea de terceiro, que se desforrou
depressa. Alguns, mais tmidos, limitavam-se a fazer caretas. No era folguedo
franco, mas j me valia por ele. Aquele degredo que eu deixei to alegremente
com tio Zeca, parecia-me agora um cu remoto, e tinha medo de o perder. Nenhuma
festa em casa, poucas palavras, raro movimento. Foi por esse tempo que eu
desenhei a lpis maior nmero de gatos nas margens do livro de leitura; gatos e
porcos. No alegrava, mas distraa.

A missa do stimo dia restituiu-me
 rua; no sbado no fui  escola, fui  casa de meu padrinho, onde pude falar
um pouco mais, e no domingo estive  porta da loja. No era alegria completa. A
total alegria foi segunda-feira, na escola. Entrei vestido de preto, fui mirado
com curiosidade, mas to outro ao p dos meus condiscpulos, que me esqueceram
as frias sem gosto, e achei uma grande alegria sem frias.

EVOLUO

Chamo-me Incio; ele, Benedito.
No digo o resto dos nossos nomes por um sentimento de compostura, que toda a
gente discreta apreciar. Incio basta. Contentem-se com Benedito. No  muito,
mas  alguma coisa, e est com a filosofia de Julieta: Que valem nomes?
perguntava ela ao namorado. A rosa, como quer que se lhe chame, ter sempre o
mesmo cheiro. Vamos ao cheiro do Benedito.

E desde logo assentemos que ele
era o menos Romeu deste mundo. Tinha quarenta e cinco anos, quando o conheci;
no declaro em que tempo, porque tudo neste conto h de ser misterioso e
truncado. Quarenta e cinco anos, e muitos cabelos pretos; para os que o no
eram usava um processo qumico, to eficaz que no se lhe distinguiam os pretos
dos outros  salvo ao levantar da cama; mas ao levantar da cama no aparecia a
ningum. Tudo mais era natural, pernas, braos, cabea, olhos, roupa, sapatos,
corrente do relgio e bengala. O prprio alfinete de diamante, que trazia na
gravata, um dos mais lindos que tenho visto, era natural e legtimo, custou-lhe
bom dinheiro; eu mesmo o vi comprar na casa do... l me ia escapando o nome do
joalheiro;  fiquemos na Rua do Ouvidor.

Moralmente, era ele mesmo. Ningum
muda de carter, e o do Benedito era bom,  ou para melhor dizer, pacato. Mas,
intelectualmente,  que ele era menos original. Podemos compar-lo a uma
hospedaria bem afreguesada, aonde iam ter idias de toda parte e de toda sorte,
que se sentavam  mesa com a famlia da casa. s vezes, acontecia acharem-se
ali duas pessoas inimigas, ou simplesmente antipticas; ningum brigava, o dono
da casa impunha aos hspedes a indulgncia recproca. Era assim que ele
conseguia ajustar uma espcie de atesmo vago com duas irmandades que fundou,
no sei se na Gvea, na Tijuca ou no Engenho Velho. Usava assim,
promiscuamente, a devoo, a irreligio e as meias de seda. Nunca lhe vi as
meias, note-se; mas ele no tinha segredos para os amigos.

Conhecemo-nos em viagem para
Vassouras. Tnhamos deixado o trem e entrado na diligncia que nos ia levar da
estao  cidade. Trocamos algumas palavras, e no tardou conversarmos
francamente, ao sabor das circunstncias que nos impunham a convivncia, antes
mesmo de saber quem ramos.

Naturalmente, o primeiro objeto
foi o progresso que nos traziam as estradas de ferro. Benedito lembrava-se do
tempo em que toda a jornada era feita s costas de burro. Contamos ento
algumas anedotas, falamos de alguns nomes, e ficamos de acordo em que as
estradas de ferro eram uma condio de progresso do pas. Quem nunca viajou no
sabe o valor que tem uma dessas banalidades graves e slidas para dissipar os
tdios do caminho. O esprito areja-se, os prprios msculos recebem uma
comunicao agradvel, o sangue no salta, fica-se em paz com Deus e os homens.

 No sero os nossos filhos que
vero todo este pas cortado de estradas, disse ele.

 No, decerto. O senhor tem
filhos?

 Nenhum.

 Nem eu. No ser ainda em
cinqenta anos; e, entretanto,  a nossa primeira necessidade. Eu comparo o
Brasil a uma criana que est engatinhando; s comear a andar quando tiver
muitas estradas de ferro.

 Bonita idia! exclamou Benedito
faiscando-lhe os olhos.

 Importa-me pouco que seja
bonita, contanto que seja justa.

 Bonita e justa, redargiu ele
com amabilidade. Sim, senhor, tem razo:  o Brasil est engatinhando; s
comear a andar quando tiver muitas estradas de ferro.

Chegamos a Vassouras; eu fui para
a casa do juiz municipal, camarada antigo; ele demorou-se um dia e seguiu para
o interior. Oito dias depois voltei ao Rio de Janeiro, mas sozinho. Uma semana
mais tarde, voltou ele; encontramo-nos no teatro, conversamos muito e trocamos
notcias; Benedito acabou convidando-me a ir almoar com ele no dia seguinte.
Fui; deu-me um almoo de prncipe, bons charutos e palestra animada. Notei que
a conversa dele fazia mais efeito no meio da viagem  arejando o esprito e
deixando a gente em paz com Deus e os homens; mas devo dizer que o almoo pode
ter prejudicado o resto. Realmente era magnfico; e seria impertinncia
histrica pr a mesa de Luculo na casa de Plato. Entre o caf e o cognac,
disse-me ele, apoiando o cotovelo na borda da mesa, e olhando para o charuto
que ardia:

 Na minha viagem agora, achei
ocasio de ver como o senhor tem razo com aquela idia do Brasil engatinhando.

 Ah!

 Sim, senhor;  justamente o que
o senhor dizia na diligncia de Vassouras. S comearemos a andar quando
tivermos muitas estradas de ferro. No imagina como isso  verdade.

E referiu muita coisa, observaes
relativas aos costumes do interior, dificuldades da vida, atraso, concordando,
porm, nos bons sentimentos da populao e nas aspiraes de progresso.
Infelizmente, o governo no correspondia s necessidades da ptria; parecia at
interessado em mant-la atrs das outras naes americanas. Mas era
indispensvel que nos persuadssemos de que os princpios so tudo e os homens
nada. No se fazem os povos para os governos, mas os governos para os povos; e abyssus
abyssum invocat. Depois foi mostrar-me outras salas. Eram todas alfaiadas
com apuro. Mostrou-me as colees de quadros, de moedas, de livros antigos, de
selos, de armas; tinha espadas e floretes, mas confessou que no sabia
esgrimir. Entre os quadros vi um lindo retrato de mulher; perguntei-lhe quem era.
Benedito sorriu.

 No irei adiante, disse eu
sorrindo tambm.

 No, no h que negar, acudiu
ele; foi uma moa de quem gostei muito. Bonita, no? No imagina a beleza que
era. Os lbios eram mesmo de carmim e as faces de rosa; tinha os olhos negros,
cor da noite. E que dentes! verdadeiras prolas. Um mimo da natureza.

Em seguida, passamos ao gabinete.
Era vasto, elegante, um pouco trivial, mas no lhe faltava nada. Tinha duas
estantes, cheias de livros muito bem encadernados, um mapa-mndi, dois mapas do
Brasil. A secretria era de bano, obra fina; sobre ela, casualmente aberto, um
almanaque de Laemmert. O tinteiro era de cristal,  cristal de rocha,
disse-me ele, explicando o tinteiro, como explicava as outras coisas. Na sala
contgua havia um rgo. Tocava rgo, e gostava muito de msica, falou dela
com entusiasmo, citando as peras, os trechos melhores, e noticiou-me que, em
pequeno, comeara a aprender flauta; abandonou-a logo,  o que foi pena,
concluiu, porque , na verdade, um instrumento muito saudoso. Mostrou-me ainda
outras salas, fomos ao jardim, que era esplndido, tanto ajudava a arte 
natureza, e tanto a natureza coroava a arte. Em rosas, por exemplo, (no h
negar, disse-me ele, que  a rainha das flores) em rosas, tinha-as de toda
casta e de todas as regies.

Sa encantado. Encontramo-nos
algumas vezes, na rua, no teatro, em casa de amigos comuns, tive ocasio de
apreci-lo. Quatro meses depois fui  Europa, negcio que me obrigava a
ausncia de um ano; ele ficou cuidando da eleio; queria ser deputado. Fui eu
mesmo que o induzi a isso, sem a menor inteno poltica, mas com o nico fim
de lhe ser agradvel; mal comparando, era como se lhe elogiasse o corte do
colete. Ele pegou da idia, e apresentou-se. Um dia, atravessando uma rua de
Paris, dei subitamente com o Benedito.

 Que  isto? exclamei.

 Perdi a eleio, disse ele, e
vim passear  Europa.

No me deixou mais; viajamos
juntos o resto do tempo. Confessou-me que a perda da eleio no lhe tirara a
idia de entrar no parlamento. Ao contrrio, incitara-o mais. Falou-me de um
grande plano.

 Quero v-lo ministro, disse-lhe.

Benedito no contava com esta
palavra, o rosto iluminou-se-lhe; mas disfarou depressa.

 No digo isso, respondeu.
Quando, porm, seja ministro, creia que serei to-somente ministro industrial.
Estamos fartos de partidos: precisamos desenvolver as foras vivas do pas, os
seus grandes recursos. Lembra-se do que ns dizamos na diligncia de Vassouras?
O Brasil est engatinhando; s andar com estradas de ferro...

 Tem razo, concordei um pouco
espantado. E por que  que eu mesmo vim  Europa? Vim cuidar de uma estrada de
ferro. Deixo as coisas arranjadas em Londres.

 Sim?

 Perfeitamente.

Mostrei-lhe os papis, ele viu-os
deslumbrado. Como eu tivesse ento recolhido alguns apontamentos, dados
estatsticos, folhetos, relatrios, cpias de contratos, tudo referente a
matrias industriais, e lhos mostrasse, Benedito declarou-me que ia tambm
coligir algumas coisas daquelas. E, na verdade, vi-o andar por ministrios,
bancos, associaes, pedindo muitas notas e opsculos, que amontoava nas malas;
mas o ardor com que o fez, se foi intenso, foi curto; era de emprstimo.
Benedito recolheu com muito mais gosto os anexins polticos e frmulas
parlamentares. Tinha na cabea um vasto arsenal deles. Nas conversas comigo
repetia-os muita vez,  laia de experincia; achava neles grande prestgio e
valor inestimvel. Muitos eram de tradio inglesa, e ele os preferia aos
outros, como trazendo em si um pouco da Cmara dos Comuns. Saboreava-os tanto
que eu no sei se ele aceitaria jamais a liberdade real sem aquele aparelho
verbal; creio que no. Creio at que, se tivesse de optar, optaria por essas formas
curtas, to cmodas, algumas lindas, outras sonoras, todas axiomticas, que no
foram a reflexo, preenchem os vazios, e deixam a gente em paz com Deus e os
homens.

Regressamos juntos; mas eu fiquei
em Pernambuco, e tornei mais tarde a Londres, donde vim ao Rio de Janeiro, um
ano depois. J ento Benedito era deputado. Fui visit-lo; achei-o preparando o
discurso de estria. Mostrou-me alguns apontamentos, trechos de relatrios,
livros de economia poltica, alguns com pginas marcadas, por meio de tiras de
papel rubricadas assim:  Cmbio, Taxa das terras, Questo dos cereais em
Inglaterra, Opinio de Stuart Mill, Erro de Thiers sobre caminhos de ferro,
etc. Era sincero, minucioso e clido. Falava-me daquelas coisas, como se
acabasse de as descobrir, expondo-me tudo, ab ovo; tinha a peito mostrar
aos homens prticos da Cmara que tambm ele era prtico. Em seguida,
perguntou-me pela empresa; disse-lhe o que havia.

 Dentro de dois anos conto
inaugurar o primeiro trecho da estrada.

 E os capitalistas ingleses?

 Que tem?

 Esto contentes, esperanados?

 Muito; no imagina.

Contei-lhe algumas
particularidades tcnicas, que ele ouviu distraidamente,  ou porque a minha
narrao fosse em extremo complicada, ou por outro motivo. Quando acabei, disse-me
que estimava ver-me entregue ao movimento industrial; era dele que
precisvamos, e a este propsito fez-me o favor de ler o exrdio do discurso
que devia proferir dali a dias.

 Est ainda em borro,
explicou-me; mas as idias capitais ficam. E comeou:

No meio da agitao crescente dos
espritos, do alarido partidrio que encobre as vozes dos legtimos interesses,
permiti que algum faa ouvir uma splica da nao. Senhores,  tempo de cuidar
exclusivamente,  notai que digo exclusivamente,  dos melhoramentos materiais
do pas. No desconheo o que se me pode replicar; dir-me-eis que uma nao no
se compe s de estmago para digerir, mas de cabea para pensar e de corao
para sentir. Respondo-vos que tudo isso no valer nada ou pouco, se ela no
tiver pernas para caminhar; e aqui repetirei o que, h alguns anos, dizia eu
a um amigo, em viagem pelo interior: o Brasil  uma criana que engatinha; s
comear a andar quando estiver cortado de estradas de ferro...

No pude ouvir mais nada e fiquei
pensativo. Mais que pensativo, fiquei assombrado, desvairado diante do abismo
que a psicologia rasgava aos meus ps. Este homem  sincero, pensei comigo,
est persuadido do que escreveu. E fui por a abaixo at ver se achava a
explicao dos trmites por que passou aquela recordao da diligncia de
Vassouras. Achei (perdoem-me se h nisto enfatuao), achei ali mais um efeito
da lei da evoluo, tal como a definiu Spencer,  Spencer ou Benedito, um deles.

PLADES E ORESTES

Quintanilha engendrou Gonalves.
Tal era a impresso que davam os dois juntos, no que se parecessem. Ao
contrrio, Quintanilha tinha o rosto redondo, Gonalves comprido, o primeiro
era baixo e moreno, o segundo alto e claro, e a expresso total divergia
inteiramente. Acresce que eram quase da mesma idade. A idia da paternidade
nascia das maneiras com que o primeiro tratava o segundo; um pai no se
desfaria mais em carinhos, cautelas e pensamentos.

Tinham estudado juntos, morado
juntos, e eram bacharis do mesmo ano. Quintanilha no seguiu advocacia nem
magistratura, meteu-se na poltica; mas, eleito deputado provincial em 187...
cumpriu o prazo da legislatura e abandonou a carreira. Herdara os bens de um
tio, que lhe davam de renda cerca de trinta contos de ris. Veio para o seu
Gonalves, que advogava no Rio de Janeiro.

Posto que abastado, moo, amigo do
seu nico amigo, no se pode dizer que Quintanilha fosse inteiramente feliz,
como vais ver. Ponho de lado o desgosto que lhe trouxe a herana com o dio dos
parentes; tal dio foi que ele esteve prestes a abrir mo dela, e no o fez
porque o amigo Gonalves, que lhe dava idias e conselhos, o convenceu de que
semelhante ato seria rematada loucura.

 Que culpa tem voc que merecesse
mais a seu tio que os outros parentes? No foi voc que fez o testamento nem
andou a bajular o defunto, como os outros. Se ele deixou tudo a voc,  que o
achou melhor que eles; fique-se com a fortuna, que  a vontade do morto, e no
seja tolo.

Quintanilha acabou concordando.
Dos parentes alguns buscaram reconciliar-se com ele, mas o amigo mostrou-lhe a
inteno recndita dos tais, e Quintanilha no lhes abriu a porta. Um desses,
ao v-lo ligado com o antigo companheiro de estudos, bradava por toda a parte:

 A est, deixa os parentes para
se meter com estranhos; h de ver o fim que leva.

Ao saber disto, Quintanilha correu
a cont-lo a Gonalves, indignado. Gonalves sorriu, chamou-lhe tolo e
aquietou-lhe o nimo; no valia a pena irritar-se por ditinhos.

 Uma s coisa desejo, continuou,
 que nos separemos, para que se no diga...

 Que se no diga o qu?  boa!
Tinha que ver, se eu passava a escolher as minhas amizades conforme o capricho
de alguns peraltas sem-vergonha!

 No fale assim, Quintanilha.
Voc  grosseiro com seus parentes.

 Parentes do diabo que os leve!
Pois eu hei de viver com as pessoas que me forem designadas por meia dzia de
velhacos que o que querem  comer-me o dinheiro? No, Gonalves; tudo o que voc
quiser, menos isso. Quem escolhe os meus amigos sou eu,  o meu corao. Ou
voc est... est aborrecido de mim?

 Eu? Tinha graa.

 Pois ento?

 Mas ...

 No  tal!

A vida que viviam os dois era a
mais unida deste mundo. Quintanilha acordava, pensava no outro, almoava e ia
ter com ele. Jantavam juntos, faziam alguma visita, passeavam ou acabavam a
noite no teatro. Se Gonalves tinha algum trabalho que fazer  noite,
Quintanilha ia ajud-lo como obrigao; dava busca aos textos de lei, marcava-os,
copiava-os, carregava os livros. Gonalves esquecia com facilidade, ora um
recado, ora uma carta, sapatos, charutos, papis. Quintanilha supria-lhe a
memria. s vezes, na Rua do Ouvidor, vendo passar as moas, Gonalves
lembrava-se de uns autos que deixara no escritrio. Quintanilha voava a
busc-los e tornava com eles, to contente que no se podia saber se eram
autos, se a sorte grande; procurava-o ansiosamente com os olhos, corria,
sorria, morria de fadiga.

 So estes?

 So; deixa ver, so estes
mesmos. D c.

 Deixa, eu levo.

A princpio, Gonalves suspirava:

 Que maada que dei a voc!

Quintanilha ria do suspiro com to
bom humor que o outro, para no o molestar, no se acusou de mais nada;
concordou em receber os obsquios. Com o tempo, os obsquios ficaram sendo puro
ofcio. Gonalves dizia ao outro: Voc hoje h de lembrar-me isto e aquilo. E
o outro decorava as recomendaes, ou escrevia-as, se eram muitas. Algumas
dependiam de horas; era de ver como o bom Quintanilha suspirava aflito, 
espera que chegasse tal ou tal hora para ter o gosto de lembrar os negcios ao
amigo. E levava-lhe as cartas e papis, ia buscar as respostas, procurar as
pessoas, esper-las na estrada de ferro, fazia viagens ao interior. De si mesmo
descobria-lhe bons charutos, bons jantares, bons espetculos. Gonalves j no
tinha liberdade de falar de um livro novo, ou somente caro, que no achasse um
exemplar em casa.

 Voc  um perdulrio, dizia-lhe
em tom repreensivo.

 Ento gastar com letras e
cincias  botar fora?  boa! conclua o outro.

No fim do ano quis obrig-lo a
passar fora as frias. Gonalves acabou aceitando, e o prazer que lhe deu com
isto foi enorme. Subiram a Petrpolis. Na volta, serra abaixo, como falassem de
pintura, Quintanilha advertiu que no tinham ainda uma tela com o retrato dos
dois, e mandou faz-la. Quando a levou ao amigo, este no pde deixar de lhe
dizer que no prestava para nada. Quintanilha ficou sem voz.

  uma porcaria, insistiu Gonalves.

 Pois o pintor disse-me...

 Voc no entende de pintura,
Quintanilha, e o pintor aproveitou a ocasio para meter a espiga. Pois isto 
cara decente? Eu tenho este brao torto?

 Que ladro!

 No, ele no tem culpa, fez o
seu negcio; voc  que no tem o sentimento da arte, nem prtica, e
espichou-se redondamente. A inteno foi boa, creio...

 Sim, a inteno foi boa.

 E aposto que j pagou?

 J.

Gonalves abanou a cabea,
chamou-lhe ignorante e acabou rindo. Quintanilha, vexado e aborrecido, olhava
para a tela, at que sacou de um canivete e rasgou-a de alto a baixo. Como se
no bastasse esse gesto de vingana, devolveu a pintura ao artista com um
bilhete em que lhe transmitiu alguns dos nomes recebidos e mais o de asno. A vida
tem muitas de tais pagas. Demais, uma letra de Gonalves que se venceu dali a
dias e que este no pde pagar, veio trazer ao esprito de Quintanilha uma
diverso. Quase brigaram; a idia de Gonalves era reformar a letra;
Quintanilha, que era o endossante, entendia no valer a pena pedir o favor por
to escassa quantia (um conto e quinhentos), ele emprestaria o valor da letra,
e o outro que lhe pagasse, quando pudesse. Gonalves no consentiu e fez-se a
reforma. Quando, ao fim dela, a situao se repetiu, o mais que este admitiu
foi aceitar uma letra de Quintanilha, com o mesmo juro.

 Voc no v que me envergonha,
Gonalves? Pois eu hei de receber juro de voc...?

 Ou recebe, ou no fazemos nada.

 Mas, meu querido...

Teve que concordar. A unio dos
dois era tal que uma senhora chamava-lhes os casadinhos de fresco, e um
letrado, Plades e Orestes. Eles riam, naturalmente, mas o riso de Quintanilha
trazia alguma coisa parecida com lgrimas: era, nos olhos, uma ternura mida.
Outra diferena  que o sentimento de Quintanilha tinha uma nota de entusiasmo,
que absolutamente faltava ao de Gonalves; mas, entusiasmo no se inventa. 
claro que o segundo era mais capaz de inspir-lo ao primeiro do que este a ele.
Em verdade, Quintanilha era mui sensvel a qualquer distino; uma palavra, um
olhar bastava a acender-lhe o crebro. Uma pancadinha no ombro ou no ventre,
com o fim de aprov-lo ou s acentuar a intimidade, era para derret-lo de
prazer. Contava o gesto e as circunstncias durante dois e trs dias.

No era raro v-lo irritar-se,
teimar, descompor os outros. Tambm era comum v-lo rir-se; alguma vez o riso
era universal, entornava-se-lhe da boca, dos olhos, da testa, dos braos, das
pernas, todo ele era um riso nico. Sem ter paixes, estava longe de ser
aptico.

A letra sacada contra Gonalves
tinha o prazo de seis meses. No dia do vencimento, no s no pensou em
cobr-la, mas resolveu ir jantar a algum arrabalde para no ver o amigo, se
fosse convidado  reforma. Gonalves destruiu todo esse plano; logo cedo, foi
levar-lhe o dinheiro. O primeiro gesto de Quintanilha foi recus-lo,
dizendo-lhe que o guardasse, podia precisar dele; o devedor teimou em pagar e
pagou.

Quintanilha acompanhava os atos de
Gonalves; via a constncia do seu trabalho, o zelo que ele punha na defesa das
demandas, e vivia cheio de admirao. Realmente, no era grande advogado, mas,
na medida das suas habilitaes, era distinto.

 Voc por que no se casa?
perguntou-lhe um dia; um advogado precisa casar.

Gonalves respondia rindo. Tinha
uma tia, nica parenta, a quem ele queria muito, e que lhe morreu, quando eles
iam em trinta anos. Dias depois, dizia ao amigo:

 Agora s me resta voc.

Quintanilha sentiu os olhos
molhados, e no achou que lhe respondesse. Quando se lembrou de dizer que iria
at  morte era tarde. Redobrou ento de carinhos, e um dia acordou com a
idia de fazer testamento. Sem revelar nada ao outro, nomeou-o testamenteiro e
herdeiro universal.

 Guarde-me este papel, Gonalves,
disse-lhe entregando o testamento. Sinto-me forte, mas a morte  fcil, e no
quero confiar a qualquer pessoa as minhas ltimas vontades.

Foi por esse tempo que sucedeu um
caso que vou contar.

Quintanilha tinha uma prima
segunda, Camila, moa de vinte e dois anos, modesta, educada e bonita. No era
rica; o pai, Joo Bastos, era guarda-livros de uma casa de caf. Haviam brigado
por ocasio da herana; mas, Quintanilha foi ao enterro da mulher de Joo
Bastos, e este ato de piedade novamente os ligou. Joo Bastos esqueceu
facilmente alguns nomes crus que dissera do primo, chamou-lhe outros nomes
doces, e pediu-lhe que fosse jantar com ele. Quintanilha foi e tornou a ir.
Ouviu ao primo o elogio da finada mulher; numa ocasio em que Camila os deixou
ss, Joo Bastos louvou as raras prendas da filha, que afirmava haver recebido
integralmente a herana moral da me.

 No direi isto nunca  pequena,
nem voc lhe diga nada.  modesta, e, se comearmos a elogi-la, pode
perder-se. Assim, por exemplo, nunca lhe direi que  to bonita como foi a me,
quando tinha a idade dela; pode ficar vaidosa. Mas a verdade  que  mais, no
lhe parece? Tem ainda o talento de tocar piano, que a me no possua.

Quando Camila voltou  sala de
jantar, Quintanilha sentiu vontade de lhe descobrir tudo, conteve-se e piscou o
olho ao primo. Quis ouvi-la ao piano; ela respondeu, cheia de melancolia:

 Ainda no, h apenas um ms que
mame faleceu, deixe passar mais tempo. Demais, eu toco mal.

 Mal?

 Muito mal.

Quintanilha tornou a piscar o olho
ao primo, e ponderou  moa que a prova de tocar bem ou mal s se dava ao
piano. Quanto ao prazo, era certo que apenas passara um ms; todavia era tambm
certo que a msica era uma distrao natural e elevada. Alm disso, bastava
tocar um pedao triste. Joo Bastos aprovou este modo de ver e lembrou uma
composio elegaca. Camila abanou a cabea.

 No, no, sempre  tocar piano;
os vizinhos so capazes de inventar que eu toquei uma polca.

Quintanilha achou graa e riu.
Depois concordou e esperou que os trs meses fossem passados. At l, viu a
prima algumas vezes, sendo as trs ltimas visitas mais prximas e longas.
Enfim, pde ouvi-la tocar piano, e gostou. O pai confessou que, ao princpio,
no gostava muito daquelas msicas alems; com o tempo e o costume achou-lhes
sabor. Chamava  filha a minha alemzinha, apelido que foi adotado por
Quintanilha apenas modificado para o plural: a nossa alemzinha. Pronomes
possessivos do intimidade; dentro em pouco, ela existia entre os trs,  ou
quatro, se contarmos Gonalves, que ali foi apresentado pelo amigo;  mas
fiquemos nos trs.

Que ele  coisa j farejada por
ti, leitor sagaz. Quintanilha acabou gostando da moa. Como no, se Camila
tinha uns longos olhos mortais? No  que os pousasse muita vez nele, e, se o
fazia, era com tal ou qual constrangimento, a princpio, como as crianas que
obedecem sem vontade s ordens do mestre ou do pai; mas pousava-os, e eles eram
tais que, ainda sem inteno, feriam de morte. Tambm sorria com freqncia e
falava com graa. Ao piano, e por mais aborrecida que tocasse, tocava bem. Em
suma, Camila no faria obra de impulso prprio, sem ser por isso menos
feiticeira. Quintanilha descobriu um dia de manh que sonhara com ela a noite
toda, e  noite que pensara nela todo o dia, e concluiu da descoberta que a
amava e era amado. To tonto ficou que esteve prestes a imprimi-lo nas folhas
pblicas. Quando menos, quis diz-lo ao amigo Gonalves e correu ao escritrio
deste. A afeio de Quintanilha complicava-se de respeito e temor. Quase a
abrir a boca, engoliu outra vez o segredo. No ousou diz-lo nesse dia nem no
outro. Antes dissesse; talvez fosse tempo de vencer a campanha. Adiou a
revelao por uma semana. Um dia foi jantar com o amigo, e, depois de muitas
hesitaes, disse-lhe tudo; amava a prima e era amado.

 Voc aprova, Gonalves?

Gonalves empalideceu,  ou, pelo
menos, ficou srio; nele a seriedade confundia-se com a palidez. Mas, no;
verdadeiramente ficou plido.

 Aprova? repetiu Quintanilha.

Aps alguns segundos, Gonalves ia
abrir a boca para responder, mas fechou-a de novo, e fitou os olhos em ontem,
como ele mesmo dizia de si, quando os estendia ao longe. Em vo Quintanilha
teimou em saber o que era, o que pensava, se aquele amor era asneira.
Estava to acostumado a ouvir-lhe este vocbulo que j lhe no doa nem
afrontava, ainda em matria to melindrosa e pessoal. Gonalves tornou a si
daquela meditao, sacudiu os ombros, com ar desenganado, e murmurou esta
palavra to surdamente que o outro mal a pde ouvir:

 No me pergunte nada; faa o que
quiser.

 Gonalves, que  isso? perguntou
Quintanilha, pegando-lhe nas mos, assustado.

Gonalves soltou um grande
suspiro, que, se tinha asas, ainda agora estar voando. Tal foi, sem esta forma
paradoxal, a impresso de Quintanilha. O relgio da sala de jantar bateu oito
horas, Gonalves alegou que ia visitar um desembargador, e o outro despediu-se.

Na rua, Quintanilha parou
atordoado. No acabava de entender aqueles gestos, aquele suspiro, aquela
palidez, todo o efeito misterioso da notcia dos seus amores. Entrara e falara,
disposto a ouvir do outro um ou mais daqueles eptetos costumados e amigos, idiota,
crdulo, paspalho, e no ouviu nenhum. Ao contrrio, havia nos gestos de
Gonalves alguma coisa que pegava com o respeito. No se lembrava de nada, ao
jantar, que pudesse t-lo ofendido; foi s depois de lhe confiar o sentimento
novo que trazia a respeito da prima que o amigo ficou acabrunhado.

Mas, no pode ser, pensava ele; o
que  que Camila tem que no possa ser boa esposa?

Nisto gastou, parado, defronte da
casa, mais de meia hora. Advertiu ento que Gonalves no sara. Esperou mais
meia hora, nada. Quis entrar outra vez, abra-lo, interrog-lo... No teve
foras; enfiou pela rua fora, desesperado. Chegou  casa de Joo Bastos, e no
viu Camila; tinha-se recolhido, constipada. Queria justamente contar-lhe tudo,
e aqui  preciso explicar que ele ainda no se havia declarado  prima. Os
olhares da moa no fugiam dos seus; era tudo, e podia no passar de faceirice.
Mas o lance no podia ser melhor para clarear a situao. Contando o que se
passara com o amigo, tinha o ensejo de lhe fazer saber que a amava e ia pedi-la
ao pai. Era uma consolao no meio daquela agonia; o acaso negou-lha, e
Quintanilha saiu da casa, pior do que entrara. Recolheu-se  sua.

No dormiu antes das duas horas da
manh, e no foi para repouso, seno para agitao maior e nova. Sonhou que ia
a atravessar uma ponte velha e longa, entre duas montanhas, e a meio caminho
viu surdir debaixo um vulto e fincar os ps defronte dele. Era Gonalves.
Infame, disse este com os olhos acesos, por que me vens tirar a noiva de meu
corao, a mulher que eu amo e  minha? Toma, toma logo o meu corao,  mais
completo. E com um gesto rpido abriu o peito, arrancou o corao e meteu-lho
na boca. Quintanilha tentou pegar da vscera amiga e rep-la no peito de
Gonalves; foi impossvel. Os queixos acabaram por fech-la. Quis cuspi-la, e
foi pior; os dentes cravaram-se no corao. Quis falar, mas v algum falar com
a boca cheia daquela maneira. Afinal o amigo ergueu os braos e estendeu-lhe as
mos com o gesto de maldio que ele vira nos melodramas, em dias de rapaz; logo
depois, brotaram-lhe dos olhos duas imensas lgrimas, que encheram o vale de
gua, atirou-se abaixo e desapareceu. Quintanilha acordou sufocado.

A iluso do pesadelo era tal que
ele ainda levou as mos  boca, para arrancar de l o corao do amigo. Achou a
lngua somente, esfregou os olhos e sentou-se. Onde estava? Que era? E a ponte?
E o Gonalves? Voltou a si de todo, compreendeu e novamente se deitou, para
outra insnia, menor que a primeira,  certo; veio a dormir s quatro horas.

De dia, rememorando toda a
vspera, realidade e sonho, chegou  concluso de que o amigo Gonalves era seu
rival, amava a prima dele, era talvez amado por ela... Sim, sim, podia ser.
Quintanilha passou duas horas cruis. Afinal pegou em si e foi ao escritrio de
Gonalves, para saber tudo de uma vez; e, se fosse verdade, sim, se fosse
verdade...

Gonalves redigia umas razes de
embargo. Interrompeu-as para fit-lo um instante, erguer-se, abrir o armrio de
ferro, onde guardava os papis graves, tirar de l o testamento de Quintanilha,
e entreg-lo ao testador.

 Que  isto?

 Voc vai mudar de estado,
respondeu Gonalves, sentando-se  mesa.

Quintanilha sentiu-lhe lgrimas na
voz; assim lhe pareceu, ao menos. Pediu-lhe que guardasse o testamento; era o
seu depositrio natural. Instou muito; s lhe respondia o som spero da pena
correndo no papel. No corria bem a pena, a letra era tremida, as emendas mais
numerosas que de costume, provavelmente as datas erradas. A consulta dos livros
era feita com tal melancolia que entristecia o outro. s vezes, parava tudo,
pena e consulta, para s ficar o olhar fito em ontem.

 Entendo, disse Quintanilha
subitamente; ela ser tua.

 Ela quem? quis perguntar
Gonalves, mas j o amigo voava escada abaixo, como uma flecha, e ele continuou
as suas razes de embargo.

No se adivinha todo o resto;
basta saber o final. Nem se adivinha nem se cr; mas a alma humana  capaz de
esforos grandes, no bem como no mal. Quintanilha fez outro testamento, legando
tudo  prima, com a condio de desposar o amigo. Camila no aceitou o
testamento, mas ficou to contente, quando o primo lhe falou das lgrimas de
Gonalves, que aceitou Gonalves e as lgrimas. Ento Quintanilha no achou
melhor remdio que fazer terceiro testamento legando tudo ao amigo.

O final da histria foi dito em
latim. Quintanilha serviu de testemunha ao noivo, e de padrinho aos dois
primeiros filhos. Um dia em que, levando doces para os afilhados, atravessava a
Praa Quinze de Novembro, recebeu uma bala revoltosa (1893) que o matou quase
instantaneamente. Est enterrado no cemitrio de S. Joo Batista; a sepultura 
simples, a pedra tem um epitfio que termina com esta pia frase: Orai por
ele!  tambm o fecho da minha histria. Orestes vive ainda, sem os remorsos
do modelo grego. Pilades  agora o personagem mudo de Sfocles. Orai por ele!

ANEDOTA DO CABRIOLET

 Cabriolet est a,
sim, senhor, dizia o preto que viera  matriz de S. Jos chamar o vigrio para
sacramentar dois moribundos.

A gerao de hoje no viu a
entrada e a sada do cabriolet no Rio de Janeiro. Tambm no saber do
tempo em que o cab e o tilbury vieram para o rol dos nossos
veculos de praa ou particulares. O cab durou pouco. O tilbury,
anterior aos dois, promete ir  destruio da cidade. Quando esta acabar e
entrarem os cavadores de runas, achar-se- um parado, com o cavalo e o
cocheiro em ossos, esperando o fregus do costume. A pacincia ser a mesma de
hoje, por mais que chova, a melancolia maior, como quer que brilhe o sol,
porque juntar a prpria atual  do espectro dos tempos. O arquelogo dir
coisas raras sobre os trs esqueletos. O cabriolet no teve histria;
deixou apenas a anedota que vou dizer.

 Dois! exclamou o sacristo.

 Sim, senhor, dois; nh Anunciada
e nh Pedrinho. Coitado de nh Pedrinho! E nh Anunciada, coitada! continuou o
preto a gemer, andando de um lado para outro, aflito, fora de si.

Algum que leia isto com a alma
turva de dvidas,  natural que pergunte se o preto sentia deveras, ou se
queria picar a curiosidade do coadjutor e do sacristo. Eu estou que tudo se
pode combinar neste mundo, como no outro. Creio que ele sentia deveras; no
descreio que ansiasse por dizer alguma histria terrvel. Em todo caso, nem o
coadjutor nem o sacristo lhe perguntavam nada.

No  que o sacristo no fosse
curioso. Em verdade, pouco mais era que isso. Trazia a parquia de cor; sabia
os nomes s devotas, a vida delas, a dos maridos e a dos pais, as prendas e os
recursos de cada uma, e o que comiam, e o que bebiam, e o que diziam, os
vestidos e as virtudes, os dotes das solteiras, o comportamento das casadas, as
saudades das vivas. Pesquisava tudo; nos intervalos ajudava a missa e o resto.
Chamava-se Joo das Mercs, homem quarento, pouca barba e grisalho, magro e
meo.

Que Pedrinho e que Anunciada
sero esses? dizia consigo, acompanhando o coadjutor.

Embora ardesse por sab-los, a presena
do coadjutor impediria qualquer pergunta. Este ia to calado e pio, caminhando
para a porta da igreja, que era fora mostrar o mesmo silncio e piedade que
ele. Assim foram andando. O cabriolet esperava-os; o cocheiro
desbarretou-se, os vizinhos e alguns passantes ajoelharam-se, enquanto o padre
e o sacristo entravam e o veculo enfiava pela Rua da Misericrdia. O preto
desandou o caminho a passo largo.

Que andem burros e pessoas na rua,
e as nuvens no cu, se as h, e os pensamentos nas cabeas, se os tm. A do
sacristo tinha-os vrios e confusos. No era acerca do Nosso-Pai,
embora soubesse ador-lo, nem da gua benta e do hissope que levava; tambm no
era acerca da hora,  oito e quarto da noite,  alis, o cu estava claro e a
lua ia aparecendo. O prprio cabriolet, que era novo na terra, e
substitua neste caso a sege, esse mesmo veculo no ocupava o crebro todo de
Joo das Mercs, a no ser na parte que pegava com nh Pedrinho e nh
Anunciada.

H de ser gente nova, ia pensando
o sacristo, mas hspede em alguma casa, decerto, porque no h casa vazia na
praia, e o nmero  da do Comendador Brito. Parentes, sero? Que parentes, se
nunca ouvi...? Amigos, no sei; conhecidos, talvez, simples conhecidos. Mas
ento mandariam cabriolet? Este mesmo preto  novo na casa; h de ser
escravo de um dos moribundos, ou de ambos.

Era assim que Joo das Mercs ia
cogitando, e no foi por muito tempo. O cabriolet parou  porta de um
sobrado, justamente a casa do Comendador Brito, Jos Martins de Brito. J havia
algumas pessoas embaixo com velas, o padre e o sacristo apearam-se e subiram a
escada, acompanhados do comendador. A esposa deste, no patamar, beijou o anel
ao padre. Gente grande, crianas, escravos, um burburinho surdo, meia
claridade, e os dois moribundos  espera, cada um no seu quarto, ao fundo.

Tudo se passou, como  de uso e
regra, em tais ocasies. Nh Pedrinho foi absolvido e ungido, nh Anunciada
tambm, e o coadjutor despediu-se da casa para tornar  matriz com o sacristo.
Este no se despediu do comendador sem lhe perguntar ao ouvido se os dois eram
parentes seus. No, no eram parentes, respondeu Brito; eram amigos de um
sobrinho que vivia em Campinas; uma histria terrvel... Os olhos de Joo das
Mercs escutaram arregaladamente estas duas palavras, e disseram, sem falar,
que viriam ouvir o resto  talvez naquela mesma noite. Tudo foi rpido, porque
o padre descia a escada, era fora ir com ele.

Foi to curta a moda do cabriolet
que este provavelmente no levou outro padre a moribundos. Ficou-lhe a anedota,
que vou acabar j, to escassa foi ela, uma anedota de nada. No importa.
Qualquer que fosse o tamanho ou a importncia, era sempre uma fatia de vida
para o sacristo, que ajudou o padre a guardar o po sagrado, a despir a
sobrepeliz, e a fazer tudo mais, antes de se despedir e sair. Saiu, enfim, a
p, rua acima, praia fora, at parar  porta do comendador.

Em caminho foi evocando toda a
vida daquele homem, antes e depois da comenda. Comps o negcio, que era
fornecimento de navios, creio eu, a famlia, as festas dadas, os cargos
paroquiais, comerciais e eleitorais, e daqui aos boatos e anedotas no houve
mais que um passo ou dois. A grande memria de Joo das Mercs guardava todas
as coisas, mximas e mnimas, com tal nitidez que pareciam da vspera, e to
completas que nem o prprio objeto delas era capaz de as repetir iguais.
Sabia-as como o padre-nosso, isto , sem pensar nas palavras; ele rezava tal
qual comia, mastigando a orao, que lhe saa dos queixos sem sentir. Se a
regra mandasse rezar trs dzias de padre-nossos seguidamente, Joo das Mercs
os diria sem contar. Tal era com as vidas alheias; amava sab-las,
pesquisava-as, decorava-as, e nunca mais lhe saam da memria.

Na parquia todos lhe queriam bem,
porque ele no enredava nem maldizia. Tinha o amor da arte pela arte. Muita vez
nem era preciso perguntar nada. Jos dizia-lhe a vida de Antnio e Antnio a de
Jos. O que ele fazia era ratificar ou retificar um com outro, e os dois com
Sancho, Sancho com Martinho, e vice-versa, todos com todos. Assim  que enchia
as horas vagas, que eram muitas. Alguma vez,  prpria missa, recordava uma
anedota da vspera, e, a princpio, pedia perdo a Deus; deixou de lho pedir
quando refletiu que no falhava uma s palavra ou gesto do santo sacrifcio,
to consubstanciados os trazia em si. A anedota, que ento revivia por
instantes, era como a andorinha que atravessa uma paisagem. A paisagem fica
sendo a mesma, e a gua, se h gua, murmura o mesmo som. Esta comparao, que
era dele, valia mais do que ele pensava, porque a andorinha, ainda voando, faz
parte da paisagem, e a anedota fazia nele parte da pessoa; era um dos seus atos
de viver.

Quando chegou  casa do comendador,
tinha desfiado o rosrio da vida deste, e entrou com o p direito para no sair
mal. No pensou em sair cedo, por mais aflita que fosse a ocasio, e nisto a
fortuna o ajudou. Brito estava na sala da frente, em conversa com a mulher,
quando lhe vieram dizer que Joo das Mercs perguntava pelo estado dos
moribundos. A esposa retirou-se da sala, o sacristo entrou pedindo desculpas e
dizendo que era por pouco tempo; ia passando e lembrara-se de saber se os
enfermos tinham ido para o cu,  ou se ainda eram deste mundo. Tudo o que
dissesse respeito ao comendador seria ouvido por ele com interesse.

 No morreram, nem sei se
escaparo; quando menos, ela creio que morrer, concluiu Brito.

 Parecem bem mal.

 Ela, principalmente; tambm  a
que mais padece da febre. A febre os pegou aqui em nossa casa, logo que
chegaram de Campinas, h dias.

 J estavam aqui? perguntou o
sacristo, pasmado de o no saber.

 J; chegaram h quinze dias, 
ou quatorze. Vieram com o meu sobrinho Carlos e aqui apanharam a doena...

Brito interrompeu o que ia
dizendo; assim pareceu ao sacristo, que ps no semblante toda a expresso de
pessoa que espera o resto. Entretanto, como o outro estivesse a morder os
beios e a olhar para as paredes, no viu o gesto de espera, e ambos se
detiveram calados. Brito acabou andando ao longo da sala, enquanto Joo das
Mercs dizia consigo que havia alguma coisa mais que febre. A primeira idia
que lhe acudiu foi se os mdicos teriam errado na doena ou no remdio; tambm
pensou que podia ser outro mal escondido, a que deram o nome de febre para
encobrir a verdade. Ia acompanhando com os olhos o comendador, enquanto este
andava e desandava a sala toda, apagando os passos para no aborrecer mais os
que estavam dentro. De l vinha algum murmrio de conversao, chamado, recado,
porta que se abria ou fechava. Tudo isso era coisa nenhuma para quem tivesse
outro cuidado; mas o nosso sacristo j agora no tinha mais que saber o que
no sabia. Quando menos, a famlia dos enfermos, a posio, o atual estado,
alguma pgina da vida deles, tudo era conhecer algo, por mais arredado que
fosse da parquia.

 Ah! exclamou Brito estacando o
passo.

Parecia haver nele o desejo
impaciente de referir um caso,  a histria terrvel, que anunciara ao sacristo,
pouco antes; mas nem este ousava pedi-la nem aquele diz-la, e o comendador
pegou a andar outra vez.

Joo das Mercs sentou-se. Viu bem
que em tal situao cumpria despedir-se com boas palavras de esperana ou de
conforto, e voltar no dia seguinte; preferiu sentar-se e aguardar. No viu na
cara do outro nenhum sinal de reprovao do seu gesto; ao contrrio, ele parou
defronte e suspirou com grande cansao.

 Triste, sim, triste, concordou
Joo das Mercs. Boas pessoas, no?

 Iam casar.

 Casar? Noivos um do outro?

Brito confirmou de cabea. A nota
era melanclica, mas no havia sinal da histria terrvel anunciada, e o
sacristo esperou por ela. Observou consigo que era a primeira vez que ouvia
alguma coisa de gente que absolutamente no conhecia. As caras, vistas h
pouco, eram o nico sinal dessas pessoas. Nem por isso se sentia menos curioso.
Iam casar... Podia ser que a histria terrvel fosse isso mesmo. Em verdade,
atacados de um mal na vspera de um bem, o mal devia ser terrvel. Noivos e
moribundos...

Vieram trazer recado ao dono da
casa; este pediu licena ao sacristo, to depressa que nem deu tempo a que ele
se despedisse e sasse. Correu para dentro, e l ficou cinqenta minutos. Ao
cabo, chegou  sala um pranto sufocado; logo aps, tornou o comendador.

 Que lhe dizia eu, h pouco?
Quando menos, ela ia morrer; morreu.

Brito disse isto sem lgrimas e
quase sem tristeza. Conhecia a defunta de pouco tempo. As lgrimas, segundo
referiu, eram do sobrinho de Campinas e de uma parenta da defunta, que morava
em Mata-porcos. Da a supor que o sobrinho do comendador gostasse da noiva do
moribundo foi um instante para o sacristo, mas no se lhe pegou a idia por
muito tempo; no era foroso, e depois se ele prprio os acompanhara... Talvez
fosse padrinho de casamento. Quis saber, e era natural,  o nome da defunta. O
dono da casa,  ou por no querer dar-lho,  ou porque outra idia lhe tomasse
agora a cabea,  no declarou o nome da noiva, nem do noivo. Ambas as causas
seriam.

 Iam casar...

 Deus a receber em sua santa
guarda, e a ele tambm, se vier a expirar, disse o sacristo cheio de
melancolia.

E esta palavra bastou a arrancar
metade do segredo que parece ansiava por sair da boca do fornecedor de navios.
Quando Joo das Mercs lhe viu a expresso dos olhos, o gesto com que o levou 
janela, e o pedido que lhe fez de jurar,  jurou por todas as almas dos seus
que ouviria e calaria tudo. Nem era homem de assoalhar as confidncias alheias,
mormente as de pessoas gradas e honradas, como era o comendador. Ao que este se
deu por satisfeito e animado, e ento lhe confiou a primeira metade do segredo,
a qual era que os dois noivos, criados juntos, vinham casar aqui quando souberam,
pela parenta de Mata-porcos, uma notcia abominvel...

 E foi...? precipitou-se em dizer
Joo das Mercs, sentindo alguma hesitao no comendador.

 Que eram irmos.

 Irmos como? Irmos de verdade?

 De verdade; irmos por parte de
me. O pai  que no era o mesmo. A parenta no lhes disse tudo nem claro, mas
jurou que era assim, e eles ficaram fulminados durante um dia ou mais...

Joo das Mercs no ficou menos
espantado que eles; disps-se a no sair dali sem saber o resto. Ouviu dez horas,
ouviria todas as demais da noite, velaria o cadver de um ou de ambos, uma vez
que pudesse juntar mais esta pgina s outras da parquia, embora no fosse da
parquia.

 E vamos, vamos, foi ento que a
febre os tomou...?

Brito cerrou os dentes para no
dizer mais nada. Como, porm, o viessem chamar de dentro, acudiu depressa, e
meia hora depois estava de volta, com a nova do segundo passamento. O choro,
agora mais fraco, posto que mais esperado, no havendo j de quem o esconder,
trouxera a notcia ao sacristo.

 L se foi o outro, o irmo, o
noivo... Que Deus lhes perdoe! Saiba agora tudo, meu amigo. Saiba que eles se
queriam tanto que, alguns dias depois de conhecido o impedimento natural e
cannico do consrcio, pegaram de si e, fiados em serem apenas meios irmos e
no irmos inteiros, meteram-se em um cabriolet e fugiram de casa. Dado
logo o alarma, alcanamos pegar o cabriolet em caminho da Cidade Nova, e
eles ficaram to pungidos e vexados da captura que adoeceram de febre e acabam
de morrer.

No se pode escrever o que sentiu
o sacristo, ouvindo-lhe este caso. Guardou-o por algum tempo, com dificuldade.
Soube os nomes das pessoas pelo obiturio dos jornais, e combinou as
circunstncias ouvidas ao comendador com outras. Enfim, sem se ter por
indiscreto, espalhou a histria, s com esconder os nomes e cont-la a um
amigo, que a passou a outro, este a outros, e todos a todos. Fez mais;
meteu-se-lhe em cabea que o cabriolet da fuga podia ser o mesmo dos
ltimos sacramentos; foi  cocheira, conversou familiarmente com um empregado,
e descobriu que sim. Donde veio chamar-se a esta pgina a anedota do cabriolet.

FIM
