Conto, To be or not to be, 1876

To be or not to be

Texto-Fonte:

http://www2.uol.com.br/machadodeassis

Publicado originalmente em Jornal das Famlias, fevereiro,
1876.

I

Andr Soares
contava vinte e sete anos, no era magro nem gordo, alto nem baixo; na alma,
como no corpo, conservava uma escassa e honrada mediania. Era um desses homens
que no aumentam a humanidade quando nascem nem a diminuem quando morrem.

Poupando ao leitor
a narrao dos acontecimentos principais da vida de Andr Soares, limito-me a
dizer que no dia 18 de maro de 1871  justamente no dia em que rebentava em
Paris a revoluo da Comuna  achava-se o nosso heri no Rio de Janeiro na
situao que passo a descrever.

Gozava de um
emprego que lhe dava cento e vinte mil-ris por ms e estava nele havia j
cinco anos, tendo o natural desejo de subir a outro que lhe desse pelo menos
duzentos mil-ris e estava nele havia j cinco anos, tendo o natural desejo de subir
a outro que lhe desse pelo menos duzentos mil-ris. No recusaria se lhe
oferecessem trezentos; com quatrocentos,  de crer que no se zangasse, e
atrevo-me a dizer que chamaria todas as bnos do cu sobre quem lhe desse
quinhentos.

A verdade, porm,
 que apenas tinha cento e vinte, e que apesar de no ter famlia e morar numa
hospedaria barata, clamava Andr Soares contra o destino ou pedia a todos os
santos do cu que lhe aumentassem o ordenado.

Dois meses antes
do dia em que esta narrao comea, metera Andr Soares alguns empenhos para
obter um lugar que lhe dava justamente duzentos mil-ris, e de onde poderia
subir mais facilmente a maiores alturas.

Andr Soares
tinha o sestro de acreditar que os seus sonhos eram realidades, bem como o de
ver catstrofes onde muita vez h apenas ligeiros infortnios e s vezes nem
isso.

Apenas metera
empenho para o emprego entrou a fazer mil castelos no ar e a fantasiar coisas
espantosas. No lhe chegava decerto o dinheiro, os mseros duzentos mil-ris, numa
cidade em que tudo (diz o prncipe Alxis numa carta que acabo de ler)  mais
caro do que nos Estados Unidos e na Havana. Mas, a um sonhador como Andr
Soares, nada  obstculo. Ele sonhava com passeios de carro, teatros, bons
charutos, luvas de pelica, alm das despesas usuais, e para tanto no  de crer
que dessem os duzentos mil-ris. Sonhava, e bastava o sonho para o fazer feliz.

J daqui pode o
leitor avaliar o pasmo e a dor de Andr Soares quando recebeu uma carta do
personagem que lhe servira de empenho, carta de que basta citar este ltimo
trecho:

... Assim, pois,
meu caro Sr. Andr Soares, sinto no ter podido servi-lo como desejava e devia.
Tenha pacincia, e mais tarde...

Nem Andr Soares
nem nenhuma outra pessoa leu nunca o resto da carta, porque ao chegar  ltima
palavra acima transcrita, o pretendente rasgou a epstola em mil pedaos, bateu
com as mos fechadas na testa, rasgou a camisa e atirou-se desesperado a uma
cadeira.

No se sabe com
certeza que tempo gastou Andr Soares na posio em que o deixei no perodo
anterior; o que se sabe  que, depois de estar calado e pasmado, monologou do
seguinte modo:

 Haver no mundo
maior desgraa do que a minha? H empregos grados para tanta gente, s no h
para um msero que tem lutado com a sorte durante longos anos? Posso eu viver
mais sobre a terra? H esperanas de me levantar desta abjeo?

 No, no h,
continuou ele. Estou decidido; acabemos de uma vez com esta vida de
tribulaes; no quero arrastar tamanha misria at aos 80 anos.

E dizendo isto, o
nosso Andr Soares vestiu camisa nova, meteu-se num palet, ps o chapu na
cabea e meditou no gnero de morte que devia escolher.

Escolheu
afogar-se.

Tinha um carto
de barca na algibeira; dirigiu-se para a ponte das barcas de Niteri. Mais de
um olhou para ele; ningum podia ter idia de que ali estava um homem em
vspera de morrer.

Aproximou-se a
barca, entraram os passageiros, e com eles Andr Soares, que foi sentar-se
primeiro num dos bancos interiores,  espera que a barca chegasse ao meio da
baa; ento procuraria a popa ou a proa e atirar-se-ia ao mar.

A barca seguiu
caminho; os passageiros conhecidos conversavam, os desconhecidos aborreciam-se,
e neste nmero incluo Andr Soares (compreende-se) e uma moa que lhe ficava a
dois palmos de distncia no mesmo banco.

No se podia ver
se era bonita, porque trazia um espesso vu sobre o rosto; mas o que se podia
sentir era um olhar literalmente de fogo. Mais de um passageiro voltava de
quando em quando o rosto para a moa de vu, que alis olhava para o cho, para
o mar, para o teto e nunca para ningum.

Trajava essa
desconhecida um vestido de seda escura que lhe ficava muito elegante no corpo.
Tinha luvas de pelica de cor igual  do vestido, e da mesma cor calava uma
botina, alis duas, que lhe ficavam a matar.

Esta ltima
descoberta no a fez nenhum passageiro, mas Andr Soares que, estando com os
olhos pregados no cho a rememorar os seus infortnios, deu com os olhos num
dos ps da velada desconhecida.

Estremeceu.

Andr Soares
resistia a tudo neste mundo, a uns olhos brilhantes, a um rosto adorvel, a uma
cintura de anel; no resistia a um p elegante. Dizem at as crnicas que entre
alguns versos que outrora compusera como quase todos os rapazes, o que no quer
dizer que fosse poeta, figurava esta quadrinha conceituosa e denunciadora dos
seus instintos filpedes (relevem-me o neologismo):



Se queres dar-me
esperana,

Se queres que eu
tenha f,

Mostra-me, por
caridade,

O teu pequenino
p.

Com a
desconhecida da barca niteroiense no era preciso recitar esta quadra
suplicante; ela estendia o p com ares de quem queria que Andr Soares lho
visse, e falo assim porque no fim de dez minutos deixou a moa de olhar para o
teto, para o mar, para o cho, e entrou a olhar unicamente para ele.

Andr Soares
estava na ante-sala da morte; nem por isso deixou de sustentar o olhar da moa,
dividindo a sua ateno entre o seu rosto e o seu p. Refletia ele que ir para
a sepultura com uma doce recordao da vida no era absolutamente prejudicial 
alma. Aqueles minutos em que ainda respirava, aproveitava-os ele na
contemplao da moa, e tanto os aproveitou que quando deu acordo de si chegara
a barca a S. Domingos.

Andr Soares fez
um gesto de despeito; mas no teve tempo de resolver alguma coisa, porque a
moa levantou-se para sair lanando-lhe um ltimo olhar, e ele maquinalmente
deixou-se ir atrs dela e saiu da barca.

Estava adiado o
suicdio, pelo menos por algumas horas, porque o nosso Andr Soares quando
reparou que ainda se no tinha matado, murmurou estas palavras consigo:

 Na volta.

E foi seguindo
atrs da bela desconhecida. Bela  talvez pouco; Andr Soares achou-a
fascinadora, quando na ponte uma rajada de vento levantou um pouco o vu da
moa.

Ao mesmo tempo,
tendo deixado ir a moa adiante, Andr Soares pde apreciar os pezinhos e a
graa com que ela os movia  nem to apressada como as francesas, nem to lenta
como as nossas patrcias, mas um meio-termo que permitia ser acompanhada sem
desconfiana dos estranhos.

No fim de
duzentos passos, Andr Soares estava namorado quase de todo, sobretudo porque a
desconhecida duas ou trs vezes voltara o rosto e passara ao infeliz um novo
cabo de reboque. Cabo de reboque  uma metfora que o leitor compreender bem e
a leitora ainda melhor. Em duas palavras, quando a desconhecida entrou em uma
casa, Andr Soares estava definitivamente resolvido a tentar a aventura, e a
adiar, para tempos melhores, o suicdio.

II

Logo nesse dia,
voltou o nosso heri para casa to contente como se houvera tirado a sorte
grande. O mar contava um hspede menos; mas a fortuna coroara mais um de seus
escolhidos.

Andr estava fora
de si; amava, no era mal recebido o seu amor, cujo objeto, de mais a mais, era
um anjo, um nume, uma criatura mais do cu que da terra, como ele mesmo diria
em verso, se ainda cultivasse a poesia.

Os mesmos gestos
complacentes que a moa fizera antes de entrar na casa em S. Domingos, fizera-os depois de sair, e na barca e na cidade, at chegar  Rua dos
Invlidos, onde morava.

Nunca mais
terrvel devia ser ao nosso Andr Soares a idia dos cento e vinte mil-ris
mensais, nem mais saudosa a idia dos duzentos. A verdade, porm,  que no
pensou em nada disso; estava mordido deveras. A moa, depois de entrar em casa,
no chegou  janela como ele esperava; mas em todo o caso dera-lhe todos os
sinais de que no era indiferente a seus afetos, e esta certeza fez do
desgraado daquela manh o mais venturoso de todos os mortais.

H de parecer
singular a mais de uma leitora que, no lhe tendo dito a desconhecida onde
morava, Andr Soares adivinhasse que era justamente na casa da Rua dos
Invlidos onde a vira entrar.

Mas a explicao
 faclima.

Andr Soares
pertencia  classe ingnua dos namorados que fazem indagaes no armarinho da
esquina ou na padaria ao p. Depois de esperar um razovel tempo a ver se a
bela dama aparecia  janela, Andr dirigiu os passos a uma padaria que ficava
perto, e fez as interrogaes precisas a um caixeiro que ali encontrou. Veio a
saber que a moa era viva, que se chamava Cludia, que vivia com um irmo
empregado em Niteri, onde tinha alguns parentes.

Andr Soares
arriscou algumas perguntas a respeito da interessante viva e soube que era
exemplar, notcia que o informador lhe deu com muitos comentrios a respeito
das vantagens da virtude e o apndice de alguns casos de pessoas que ele
conhecera e que desonraram as barbas dos seus avs.

Alm destas
notcias soube ainda Andr Soares que a moa possua cerca de vinte aplices e
uma preta velha, que eram toda a riqueza do defunto marido.

  um bom
princpio para quem casar com ela, acrescentou o caixeiro com ar malicioso.

 Decerto, disse
Andr Soares brincando com a corrente do relgio e fitando um olhar
perscrutador no caixeiro, que brincava com a tampa de uma barrica vazia.

 No  muito,
mas  um bom princpio, repetiu este.

 E h j algum
farejador? arriscou o namorado.

 Nenhum.

 Admira!

 H muita gente
que passa e olha, mas ela no se importa com ningum.

Andr Soares
estava mais contente do que se lhe viessem trazer o decreto da nomeao malograda.
Tinha a moa todas as condies que ele podia exigir naquelas circunstncias.
Sobretudo achava-se ele livre de concorrentes. Se fosse trs meses antes...

 Trs meses
antes, disse o informante, andou aqui um moo que no era mal aceito; mas desapareceu.

Andr Soares saiu
dali contentssimo.

 Foi um anjo que
o cu me enviou, pensava ele, para me salvar da morte e ao mesmo tempo
trazer-me a felicidade. E digam l que no h Providncia ou sorte, ou o que
quer que seja que vela pelos homens! A pequena  uma formosura, e o p  o mais
gentil que at hoje tenho visto. Que p! No  um p,  um milagre. E os olhos?
e o andar?

Fez o namorado
assim o inventrio das belezas da formosa Cludia, foi jantar alegremente e
logo de tarde deu o seu passeio pela Rua dos Invlidos, to embebido em olhar
para a janela onde estava a moa que no reparou no caixeiro da padaria que se
arrimara  porta para assistir ao romance.

III

Era claro que a
viva Cludia gostava do rapaz; trocou com ele um longo e expressivo olhar e
dignou-se responder com um sorriso ao sorriso que Andr Soares lhe enviou.

Quando ele de
todo desapareceu, Cludia entrou e foi tocar piano. No escolheu um trecho
alegre adequado  situao; preferiu uma melodia triste que parecia dizer com a
sua alma, ou ao menos que ela queria que se parecesse com ela. O certo  que,
voltando da a pouco Andr Soares e ouvindo-a tocar coisas to melanclicas,
sentiu acordar-lhe dentro dalma um som potico da sua adolescncia, e logo
nesta noite expectorou uma elegia to triste que no trazia um verso certo.

A primeira carta
no se fez demorar, e a resposta foi imediatamente s mos do namorado. No era
carta apaixonada a da moa, mas Andr Soares compreendeu que ela usara de certa
reserva que lhe parecia necessria. Replicou o pretendente, treplicou a dama, e
os autos de corao foram-se avolumando progressivamente, at que Andr Soares
entendeu que era conveniente freqentar a casa e aproveitou uma apresentao
que lhe ofereceram.

A primeira vez que
se falaram os dois foi visvel para o Sr. Justino Magalhes, irmo de Cludia,
que eles se amavam.

Justino Magalhes
tinha um programa na vida: agradar aos pretendentes da irm, a fim de poder
continuar a viver economicamente, isto , a ter casa e mesa sem despender um
real. Fiel a estas idias, tratou de captar a boa vontade de Andr Soares, que
por sua parte se atirou de corpo e alma aos braos do futuro cunhado.

Cludia era ainda
mais bela de perto que de longe; o namorado verificou logo essa diferena
quando comeou a freqentar a casa. A moa era sobretudo de uma meiguice
incomparvel. Andr Soares ficava encantado quando falavam algum tempo a ss, e
ela podia expandir-se com ele.

 Mas por que
motivo me distinguiu logo naquele dia na barca? perguntara Andr uma noite 
moa.

 Ora, por qu?
Porque o cu nos destinava um para o outro.

 E se
soubesse!...

 O qu?

 No lhe digo.

 Receia?...

 Nada; tenho
vergonha. Naquele fatal dia...

 Fatal...
repetiu a moa com um ar de doce ressentimento.

 Perdo; fatal
por outro motivo, que eu s mais tarde lhe explicarei... Sim, h anjos que
velam por ns.

 H! suspirou a
moa.

A conversa foi
interrompida por Justino, que se aproximou para dizer que no dia seguinte havia
um bonito espetculo no teatro S. Lus.

Andr Soares
recebera justamente nesse dia o ordenado; era ocasio de fazer um convite.

 Tenho
justamente camarote para amanh, disse ele; se quiserem dar-me a honra de
aceitar...

 Mas... ia ela
dizendo.

 Com muito
gosto, atalhou Justino.

O camarote foi
aceito.

Mas a curiosidade
da moa trabalhava. Que mistrio seria esse de que lhe falara Andr Soares?
Insistiu com ele dali a algum tempo, e no dia seguinte, e alguns dias depois,
at que o namorado francamente confessou que um motivo grave o levara a cometer
um crime.

 Um crime?

 A minha prpria
morte.

A moa ficou
sria.

 Alguma paixo,
disse ela com tristeza.

 Oh! no!

 No
compreendo...

 Que quer? disse
ele. Nem s de po vive o homem; achava-me numa situao pecuniria
desagradvel e... mas para que falarmos de coisas mesquinhas?...

Andr Soares
calou-se e entrou a refletir; pareceu-lhe que fora expansivo demais e que
acabava de dar  namorada a idia de pinga. Igualmente lhe pareceu que um pinga
s  potico nos livros, mas que na vida real toda a gente o despreza. E
refletiu, enfim, que, apresentando-se candidato  mo da viva, cumpria-lhe
mostrar que no ia s atrs das suas aplices...

O resultado de
todas estas reflexes produziu esta observao:

 Felizmente, l
vai esse tempo: foi uma crise que passou. Agora...

 No desejo
saber isso, disse a moa; por que no falaremos s do nosso corao?

  apenas um
parnteses necessrio, disse Andr Soares, -me preciso explicar-lhe a razo
por que at hoje no pedi oficialmente a sua mo.

A moa fez um
gesto.

Andr continuou:

 No lhe pedi a
sua mo porque espero obter um novo lugar que me coloque em situao melhor do
que atualmente me acho. No  ela m! lembro-lhe, porm, que sou solteiro;
casado, seria insuficiente. Peo-lhe desculpa de entrar nestes pormenores; 
uma senhora de juzo; e h de aceit-los como cabidos e necessrios.

 Nem cabidos nem
necessrios, disse a moa; eu pouco tenho, mas tenho alguma coisa...

 Perdo...

 Oua...

 Desejo
observar...

 Oua. O seu
pouco com o meu pouco faro o necessrio para a nossa existncia. Duas
criaturas que se amam so naturalmente econmicas das coisas da vida.

Andr Soares teve
mpeto de cair aos ps da moa e ir dali com ela para a igreja.

Conteve-se do
primeiro movimento.

O segundo era
impossvel.

 O que me acaba
de dizer  a expresso elevada e nobre de seu corao, disse ele. Eu, porm,
no tenho o direito de falar a mesma linguagem; a sociedade exige mais de mim.
Peo-lhe s alguns dias de espera.

Andr Soares
pedira efetivamente um novo emprego, e desta vez se no havia mais
probabilidade que da outra, havia mais esperanas no fcil esprito do
pretendente.

Justino soube,
pela irm, das razes dadas por Andr Soares, e achou que eram de cavalheiro.

  um rapaz
muito simptico, disse Justino;  um homem como h poucos.

Esta opinio de
Justino no devia produzir impresso no nimo de Cludia, porque ele no tinha
outra a respeito de todos os pretendentes da irm.

Todavia
entusiasmou-a.

E a razo 
clara.

Cludia gostava
realmente do rapaz; e o seu corao no se lembrava ou no reparava na opinio
uniforme de Justino a respeito de outras pessoas que a pretendessem mas a quem
ela nunca dera ateno.

Justino, porm,
insistiu na opinio que formara de Andr Soares, e to cavalheiro o achou que
no teve dvida de lhe pedir vinte mil-ris no dia seguinte.

No era a
primeira vez que Justino recorria  bolsa de Andr Soares, e porque isso, e
outras necessidades que agora lhe acresciam, aumentavam as despesas de Andr
Soares, ia este sendo obrigado a recorrer  bolsa de outros, e a criar assim
uma dvida externa assaz vasta.

E to triste 
esta situao que eu no tenho nimo de continuar o captulo. Veremos no
captulo seguinte o que aconteceu ao nosso heri.

IV

So passados
cinco meses depois da conversa em que Andr Soares exps  sua amada qual era a
situao de sua vida e quais os seus projetos.

Os dias foram
passando sem vir o emprego; Andr Soares passava j uma vida assaz triste e
lastimosa. A moa por sua parte, conquanto desejasse repetir-lhe o que uma vez
lhe dissera, no se atrevia a faz-lo a fim de conservar a reserva que a sua
posio lhe impunha.

Redobrava
entretanto de carinhos e afeto com o msero namorado, o que de algum modo lhe
suavizava as penas do corao.

 Que anjo! dizia
ele todas as noites ao retirar-se para casa. Que anjo!

Se o emprego no
vinha, em compensao chegavam as dvidas, e o passivo de Andr Soares ia
tomando um aspecto assustador.

Ao mesmo tempo o
amor do pobre rapaz, se era possvel, crescia mais, o que estava longe de ser
um lenitivo naquela situao. A idia de no poder casar com a bela viva, ou
de casar nas condies em que ele se achava, atormentava o esprito do pobre
moo.

Imagine-se o que
sofreria o corao do pobre rapaz e calcule-se em que circunstncias, e com que
cara ouviu ele um dia, ao passar pela padaria de que falei no segundo captulo,
as seguintes palavras do caixeiro a um vizinho:

 Este  uma das
duas amarras da viuvinha.

Andr ficou sem
pinga de sangue. Naturalmente ia voltar o rosto, mas a tempo deteve o movimento
e continuou a andar at entrar na casa da viva Cludia.

Parou,
entretanto, no corredor antes de subir as escadas.

E refletiu:

 Que ser
aquilo? Iludir-me- esta mulher? Serei eu a fbula da rua? Terei eu um rival
mais venturoso?

Estas e outras
interrogaes f-las o nosso heri com o desespero na alma e no rosto.

Sentiu depois uma
dor aguda no peito e teve uma vertigem.

O desgraado
padecia deveras, amava deveras.

Enfim subiu.

Cludia recebeu-o
com o modo do costume, o qual modo havia j vinte dias que no era o mesmo modo
anterior. O msero namorado, entretanto, no dera por isso at ento.

Naquele dia,
porm, como j tinha a pulga atrs da orelha, notou uma grande diferena,
irritou-se com ela, disse algumas palavras secas  moa e saiu. Calcula-se
facilmente qual seria a noite do pobre rapaz. No dia seguinte enviou uma
lacrimosa epstola  sua dama, dizendo-lhe:

Cludia:

Uma terrvel
revelao me foi feita ontem. Ainda assim quero crer em ti. Preciso, porm, que me jures se realmente me amas ou se eu j no mereo da tua parte o
afeto com que me honraste outrora.

Dois dias esperou
a resposta desta carta. No terceiro apareceu-lhe em casa Justino. Vinha alegre. Trocaram algumas palavras banais, e enfim:

 Sei que voc
escreveu uma carta a minha mana, disse o irmo da viva.

  verdade.

 Cludia riu-se
quando a leu.

 Riu-se?

  verdade:
riu-se. E no devia fazer outra coisa... D c um charuto... No devia fazer
outra coisa, porque no ponto em que se acham as coisas entre ambos, exigir
agora uma explicao daquela ordem...  singular.

Justino conclua
estas palavras e recebia das mos de Andr Soares o charuto que pedira.

Andr Soares no
cabia em si de contente.

 Ento, ela?

 Voc  um
visionrio, um crdulo, um rapazola sem juzo. Pois ento uma senhora em
vsperas de casar com voc... Que bom charuto!

 Leve mais
estes.

 Obrigado. Como
ia dizendo uma senhora em vsperas de casar por livre vontade, h de l... Voc
 um doido!...

Andr Soares
concordou facilmente com tudo o que lhe dizia Justino, e prometeu que nessa
mesma noite l iria  casa deles. Recusou entretanto dizer de onde lhe viera a
revelao a que aludira na carta.

Justino conversou
largo tempo com o futuro cunhado, de quem se despediu para ir embora.

 J!

 J! Vou pagar
uma dvida. Vejamos se me chega o dinheiro.

E meteu a mo no
bolso do palet com a confiana de um homem que traz a carteira. Errada
confiana, porque a carteira ficara em casa.

 No seja essa
dvida, disse Andr Soares; eu empresto-lhe o que for preciso, se no orar por
muito!

 Trinta e cinco
mil e quinhentos, disse Justino.

 Tome l, acudiu
Andr Soares entregando-lhe trinta e dois mil-ris. No tenho mais.

 No faz mal.
Para tapar a boca ao credor, cuido que  bastante.

Justino saiu
alegremente depois de muitas amabilidades ao futuro cunhado que no menos
alegre ficou.

A cena que
precede deve ter explicao.

Cludia no
mostrou a carta de Andr Soares ao irmo. Viu-a este sobre uma mesa, perguntou
 viva o que era, e esta disse ento um tanto zangada que eram cimes do
noivo.

 Posso ler?

 L.

Leu a carta Justino
e ofereceu-se para ir entender-se com Andr Soares, coisa que a viva nem
aprovou nem reprovou; limitou-se a encolher os ombros.

Andr no era
homem que descobrisse na misso de Justino a necessidade de trinta e cinco
mil-ris, e a dvida, que podia existir, mas que, em todo caso, no ia ser
paga, pareceu-lhe to autntica, que iria pedir emprestado se no tivesse
dinheiro, para favorecer o amigo.

Ao chegar  casa
da noiva ia Andr Soares todo trmulo de comoo. A moa, entretanto,
pareceu-lhe ainda mais fria que da ltima vez. Atribuiu isso ao ressentimento
que lhe deixara a carta.

 Mas ento no
perdoa? perguntou ele.

 O qu?

 A carta.

Cludia levantou
os ombros.

 Foi uma
imprudncia, confesso, disse ele; mas que quer? Eu amo-a.

 Nada.

 Aproveito a
ocasio para lhe dizer que daqui a um ms ser o nosso casamento, disse Andr
Soares, se acaso a ele se no ope.

Cludia ficou um
pouco surpreendida com a notcia, continuou entretanto a ficar calada.

Andr Soares saiu
vendendo azeite s canadas.

 H alguma
coisa, por fora, pensava ele, mas eu hei de descobrir tudo!

V

Andr Soares
comeou ento uma vida de pesquisas e de cuidados, cuidados e pesquisas tais
que o obrigaram a ir faltando  repartio, faltando-lhe igualmente a paz e o
sono. Fazia ronda de tarde e de noite, passava horas e horas em casa da noiva
sem todavia alcanar nada.

Uma vez apenas
reparou que, ouvindo bater cinco horas, a moa interrompera a conversa para ir
 janela. Ficou aflito na cadeira em que se achava, receoso e desejoso de ir
tambm quela. Afinal foi, mas no viu nada, porque a moa saiu logo.

Nesta atribulada
vida andava Andr Soares, quando, num domingo, entrando em casa de Cludia, deu
com os olhos num sujeito da sua mesma idade, alto, bonito, vestido regularmente
e muito respeitoso para com a interessante viva.

Justino
apresentou os dois estranhos um ao outro, donde veio Andr Soares a saber que o
outro chamava-se Horcio.

Eu creio que a
leitora  perspicaz e que j est a desconfiar de que este Horcio  o mesmo
moo que o caixeiro da padaria dissera a Andr Soares ter andado h algum tempo
a namorar a viva, e no ser mal aceito dela.

No o soube logo
Andr Soares; mas a simples presena de um estranho, as maneiras com que
tratava a moa, e a benevolncia e gosto com que esta o ouvia e lhe respondia,
tudo isso era razo para que o pobre namorado recebesse logo um imenso golpe.

As torturas por
que passou nessa tarde foram indescritveis.

No dia seguinte
ainda foi pior. Oito dias depois tinha Andr Soares toda a certeza de que a
bela passara com armas e bagagens ao campo inimigo.

Algumas coisas
fortes lhe disse, a que ela respondeu com o silncio; foi para casa e escreveu
uma longa, indignada, lacrimejada e fulminante carta, a que a moa no
respondeu.

Seu desespero j
no tinha limites.

 Por que fatal
acaso encontrei eu aquela mulher? perguntava ele a passear sozinho na sua sala.
Parecia ento que nada pior me podia acontecer. Erro! Havia pior; essa vbora
que zombou de mim.

E logo:

 Mas eu hei de
tirar vingana! No se dir que fui ludibriado por ambos, ou antes por todos
trs, porque o Justino tambm contribuiu para iludir-me. Venha ainda alguma vez
pedir-me alguma coisa...

Aqui claudicava a
perspiccia do namorado.

Justino nada mais
lhe pedira desde o dia dos trinta e dois mil-ris.

Era ento a
carteira de Horcio que se incumbira de corrigir as lacunas que s vezes havia
na sua. Justino o mais que fazia era pedir uma ou outra vez algum charuto ao
Andr Soares.

Nada mais.

Andr Soares
entendeu que lhe cumpria pedir satisfaes a Horcio. Refletiu depois e
preferiu ocultar o que entre ele e ela havia; no dispensou, porm, brigar com
o rival.

Para isto bastava
um pretexto.

Mas que pretexto
seria?

 Ora, adeus!
pensou ele consigo. A ocasio me dar o pretexto.

Logo no dia
seguinte entrando numa casa de charutos, encontrou Horcio, a quem ligeiramente
cumprimentou.

Horcio pareceu
no fazer caso dele.

Andr Soares foi
s nuvens.

Depois de um
silncio:

 Vai hoje  Rua
dos Invlidos?

 Sim, senhor,
respondeu secamente Horcio.

 H muito tempo
j que conhece aquela famlia?

Horcio olhou
para ele sem dignar-se responder.

 No me ouviu,
creio eu.

 Estou a
recordar-me do tempo, disse Horcio depois de alguns instantes. Creio que
conheo aquela famlia desde o tempo em que a casa no era freqentada por
tolos.

Andr Soares
ficou vermelho como um lacre; todavia era preciso responder.

 Ento no h
muito tempo, disse ele; creio que entraram juntos l os tolos e o senhor.

Horcio foi
sacudido com esta resposta. As palavras trocadas em voz alta chamaram a ateno
do dono da casa. A tragdia estava iminente.

Horcio tinha
dois caminhos.

O primeiro era
ir-se embora.

O segundo era
ir-lhe s orelhas.

Preferiu o
segundo.

Encaminhou-se
para Andr Soares; alou delicadamente as mos s orelhas dele; agarrou-lhas,
sacudiu-lhe a cabea e, antes que o infeliz tivesse tempo de se defender, saiu
pela porta fora.

Andr Soares
ainda saiu  rua, mas fosse medo, vergonha, ou qualquer outra causa, no se
atreveu a ir brigar com ele em pblico; limitou-se a tomar os nomes do dono da
casa e do caixeiro para o caso de dar queixa contra o agressor, e saiu dali
para casa.

Em caminho,
porm, teve idia de ir  casa da viva.

  claro que
eles se amam, pensou ele; mas eu preciso antes de abater as armas mostrar o que
sou e o que valho. Hei de dizer a essa prfida aquilo que ela no pensa ouvir.

Estava Andr
Soares em plena regateirice; nem eu o dou por freqentador de sales
aristocrticos. Demais, o amor faz perder o juzo.

Andr Soares
caminhou direito  casa da viuvinha.

Bateu palmas.

Nada.

Repetiu as
palmas.

A mesma coisa.

 Que ser? Estar
fora? pensou ele.

Enfim vieram ver
quem era. Andr Soares disse que desejava falar  dona da casa.

 Est
incomodada.

 Mas... diga-lhe
que sou eu.

 No recebe
ningum.

Andr Soares saiu
dali ainda mais furioso. Mil idias negras lhe transtornavam o esprito; s via
diante de si mortes, sangue, cadafalso.

Ao chegar  casa
achou duas cartas.

Uma era de
Cludia.

Dizia assim:

Nunca chegamos a
nenhum acordo acerca de casamento; mas, sabendo que nutre idias a esse
respeito, declaro-lhe que desista delas.

 Despedido!
exclamava o msero Andr Soares. Despedido como um lacaio!... Insultado por ele
e por ela. Oh! minha sina! Oh! minha triste sina!

Assim falando, o
infeliz namorado torcia-se todo, puxava os cabelos, rangia os dentes, e chorava
de dor, de desespero e de dio.

No meio dessa
crise, lembrou-lhe o criado que ainda havia outra carta.

Abriu-a.

Era do chefe da
repartio.

Participava-lhe
que, no comparecendo ele com a assiduidade de costume, antes fugindo
absolutamente do trabalho, resolvera o ministro demiti-lo.

Andr Soares caiu
sem sentidos no cho.

Um ms depois,
estando a almoar pacificamente no Carceller, graas ao crdito que obtivera de
um amigo e antigo companheiro de casa, viu passar Horcio e a viva de brao
dado.

Estavam casados.

 Miserveis!
grunhiu Andr Soares.

MORALIDADE

Mas onde est a
moralidade do conto? pergunta a leitora espantada com ver esta srie de
acontecimentos descosidos e vulgares.

A moralidade est
nisso.

Tendo perdido a
esperana de obter um emprego de duzentos mil-ris, quando apenas desfrutava um
de cento e vinte, assentou Andr Soares de dar cabo da vida.

No dia, porm, em
que perdeu a noiva e o emprego de cento e vinte mil-ris, com um insulto fsico
de quebra, no se matou, nem tentou matar-se, nem se lembrou de o fazer.

Tanto  certo que
o suicdio depende mais das impresses e disposies do momento, que da
gravidade do mal.

Disse.
