Conto, Cantiga velha, 1883

Cantiga velha

Texto-fonte: Obra Completa,
Machado de Assis, vol. II,

Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.

Publicado originalmente em A Estao, de 30/11/1883 a 31/12/1883.

CAPTULO
PRIMEIRO

Conversvamos de cantigas populares.
Entre o jantar e o ch, quatro pessoas to-somente, longe do voltarete e da
polca, confessem que era uma boa e rara fortuna. Polca e voltarete so dois
organismos vivos que esto destruindo a nossa alma;  indispensvel que nos
vacinem com a espadilha e duas ou trs oitavas do Caia no beco ou
qualquer outro ttulo da mesma farinha. ramos quatro e tnhamos a mesma idade.
Eu e mais dois pouco sabamos da matria; to-somente algumas reminiscncias da
infncia ou da adolescncia. O quarto era grande ledor de tais estudos, e no
s possua alguma coisa do nosso cancioneiro, como do de outras partes.
Confessem que era um regalo de prncipes.

Esquecia-me dizer que o jantar
fora copioso; notcia indispensvel  narrao, porque um homem antes de jantar
no  o mesmo que depois do jantar, e pode-se dizer que a discrio  muitas
vezes um momento gastronmico. Homem haver reservado durante a sopa, que 
sobremesa pe o corao no prato, e d-o em fatias aos convivas. Toda a questo
 que o jantar seja abundante, esquisito e fino, os vinhos frios e quentes, de
mistura, e uma boa xcara de caf por cima, e para os que fumam um havana de
cruzado. Reconhecido que isto  uma lei universal, admiremos os diplomatas que,
na vida contnua de jantares, sabem guardar consigo os segredos dos governos.
Evidentemente so organizaes superiores.

O dono da casa dera-nos um bom
jantar. Fomos os quatro, no fim para junto de uma janela, que abria para um dos
lados da chcara. Posto estivssemos no vero, corria um ventozinho fresco, e a
temperatura parecia impregnada das ltimas guas. Na sala de frente, danava-se
a polca; noutra sala jogava-se o voltarete. Ns, como digo, falvamos de
cantigas populares.

 Vou dar-lhes uma das mais
galantes estrofes que tenho ouvido, disse um de ns. Morava na Rua da Carioca,
e um dia de manh ouvi do lado dos fundos, esta quadrinha:

Coitadinho, como  tolo

Em cuidar que eu o adoro

Por me ver andar chorando...

Sabe Deus por quem eu choro!

O ledor de cancioneiros pegou da
quadra para esmerilh-la com certa pontinha de pedantismo; mas outro ouvinte, o
Dr. Verssimo, pareceu inquieto; perguntou ao primeiro o nmero da casa em que
morara; ele respondeu rindo que uma tal pergunta s se podia explicar da parte
de um governo tirnico; os nmeros das casas deixam-se nas casas. Como
record-los alguns anos depois? Podia dizer-lhe em que ponto da rua ficava a
casa; era perto do Largo da Carioca,  esquerda de quem desce, e foi nos anos
de 1864 e 1865.

 Isso mesmo, disse ele.

 Isso mesmo, qu?

 Nunca viu a pessoa que cantava?

 Nunca. Ouvi dizer que era uma
costureira, mas no indaguei mais nada. Depois, ainda ouvi cantar pela mesma voz
a mesma quadrinha. Creio que no sabia outra. A repetio f-la montona, e...

 Se soubessem que essa quadrinha
era comigo! disse ele sacudindo a cinza do charuto.

E como lhe perguntssemos se ele
era o aludido do ltimo verso  Sabe Deus por quem eu choro,
respondeu-nos que no. Eu sou o tolo do princpio da quadra. A diferena  que
no cuidava, como na trova, que ela me adorasse; sabia bem que no. Menos essa
circunstncia, a quadra  comigo. Pode ser que fosse outra pessoa que cantasse;
mas o tempo, o lugar da rua, a qualidade de costureira, tudo combina.

 Vamos ver se combina, disse o
ex-morador da Rua da Carioca piscando-me o olho. Chamava-se Lusa?

 No; chamava-se Henriqueta.

 Alta?

 Alta. Conheceu-a?

 No; mas ento essa Henriqueta
era alguma princesa incgnita, que...

 Era uma costureira, retorquiu o
Verssimo. Nesse tempo era eu estudante. Tinha chegado do Sul poucos meses
antes. Pouco depois de chegado... Olhem, vou contar-lhes uma coisa muito particular.
Minha mulher sabe do caso, contei-lhe tudo, menos que a tal Henriqueta foi a
maior paixo da minha vida... Mas foi; digo-lhe que foi uma grande paixo. A
coisa passou-se assim...

CAPTULO
II

 A coisa passou-se assim. Vim do
Sul, e fui alojar-me em casa de uma viva Beltro. O marido desta senhora
perecera na guerra contra o Rosas; ela vivia do meio soldo e de algumas
costuras. Estando no Sul, em 1850, deu-se muito com a minha famlia; foi por
isso que minha me no quis que eu viesse para outra casa. Tinha medo do Rio de
Janeiro; entendia que a viva Beltro desempenharia o seu papel de me, e
recomendou-me a ela.

D. Cora recebeu-me um pouco
acanhada. Creio que era por causa das duas filhas que tinha, moas de dezesseis
e dezoito anos, e pela margem que isto podia dar  maledicncia. Talvez fosse
tambm a pobreza da casa. Eu supus que a razo era to-somente a segunda, e
tratei de lhe tirar escrpulos mostrando-me alegre e satisfeito. Ajustamos a
mesada. Deu-me um quarto, separado, no quintal. A casa era em Mata-Porcos. Eu palmilhava, desde casa at  Escola de Medicina, sem fadiga, voltando 
tarde, to fresco como de manh.

As duas filhas eram bonitinhas;
mas a mais velha, Henriqueta, era ainda mais bonita que a outra. Nos primeiros
tempos mostraram-se muito reservadas comigo. Eu, que s fui alegre, no primeiro
dia, por clculo, tornei ao que costumava ser; e, depois do almoo ou do
jantar, metia-me comigo mesmo e os livros, deixando  viva e s filhas toda a
liberdade. A me, que queria o meu respeito, mas no exigia a total absteno,
chamou-me um dia bicho-do-mato.

 Olhe que estudar  bom, e sua
me quer isso mesmo, disse-me ela; mas parece que o senhor estuda demais. Venha
conversar com a gente.

Fui conversar com elas algumas vezes.
D. Cora era alegre, as filhas no tanto, mas em todo caso muito sociveis. Duas
ou trs pessoas da vizinhana iam ali passar algumas horas, de quando em quando. As reunies e palestras repetiram-se naturalmente, sem nenhum sucesso extraordinrio,
ou mesmo curioso, e assim se foram dois meses.

No fim de dois meses, Henriqueta
adoeceu, e eu prestei  famlia muito bons servios, que a me agradeceu-me de
todos os modos, at ao enfado. D. Cora estimava-me, realmente, e desde ento
foi como uma segunda me. Quanto a Henriqueta, no me agradeceu menos; tinha,
porm, as reservas da idade, e naturalmente no foi to expansiva. Eu confesso
que, ao v-la depois, convalescente, muito plida, senti crescer a simpatia que
me ligava a ela, sem perguntar a mim mesmo se uma tal simpatia no comeava a
ser outra coisa. Henriqueta tinha uma figura e um rosto que se prestavam s
atitudes moles da convalescena, e a palidez desta no fazia mais do que
acentuar a nota de distino da sua fisionomia. Ningum diria ao v-la, fora,
que era uma mulher de trabalho.

Apareceu por esse tempo um
candidato  mo de Henriqueta. Era um oficial de secretaria, rapaz de vinte e
oito anos, sossegado e avaro. Esta era a fama que ele tinha no bairro; diziam
que no gastava mais de uma quarta parte dos vencimentos, emprestava a juros
outra quarta parte, e aferrolhava o resto. A me possua uma casa: era um bom
casamento para Henriqueta. Ela, porm, recusou; deu como razo que no
simpatizava com o pretendente, e era isso mesmo. A me disse-lhe que a simpatia
viria depois; e, uma vez que ele no lhe repugnava, podia casar. Conselhos
vos; Henriqueta declarou que s casaria com quem lhe merecesse. O candidato
ficou triste, e foi verter a melancolia no seio da irm de Henriqueta, que no
s acolheu a melancolia, como principalmente o melanclico, e os dois
casaram-se no fim de trs meses.

 Ento? dizia Henriqueta rindo. O
casamento e a mortalha...

Eu, pela minha parte, fiquei contente
com a recusa da moa; mas, ainda assim, no atinei se era isto uma sensao de
amor. Vieram as frias, e fui para o Sul.

No ano seguinte, tornei  casa de
D. Cora. J ento a outra filha estava casada, e ela morava s com Henriqueta.
A ausncia tinha feito adormecer em mim o sentimento mal expresso do ano
anterior, mas a vista da moa acendeu-o outra vez, e ento no tive dvida,
conheci o meu estado, e deixei-me ir.

Henriqueta, porm, estava mudada.
Ela era alegre, muito alegre, to alegre como a me. Vivia cantando; quando no
cantava, espalhava tanta vida em volta de si, que era como se a casa estivesse
cheia de gente. Achei-a outra; no triste, no silenciosa, mas com intervalos
de preocupao e cisma. Achei-a, digo mal; no momento da chegada apenas tive
uma impresso leve e rpida de mudana; o meu prprio sentimento encheu o ar
ambiente, e no me permitiu fazer logo a comparao e a anlise.

Continuamos a vida de outro tempo.
Eu ia conversar com elas,  noite, s vezes os trs ss, outras vezes com
alguma pessoa conhecida da vizinhana. No quarto ou quinto dia, vi ali um
personagem novo. Era um homem de trinta anos, mais ou menos, bem parecido. Era
dono de uma farmcia do Engenho Velho, e chamava-se Fausto. ramos os nicos
homens, e no s no nos vimos com prazer, mas at estou que nos repugnamos
intimamente um ao outro.

Henriqueta no me pareceu que o
tratasse de um modo especial. Ouvia-o com prazer, acho eu; mas no me ouvia com
desgosto ou aborrecimento, e a igualdade das maneiras tranqilizou-me nos
primeiros dias. No fim de uma semana, notei alguma coisa mais. Os olhos de
ambos procuravam-se, demoravam-se ou fugiam, tudo de um modo suspeito. Era
claro que, ou j se queriam, ou caminhavam para l.

Fiquei desesperado. Chamei-me todos
os nomes feios: tolo, parvo, maricas, tudo. Gostava de Henriqueta, desde o ano
anterior, vivia perto dela, no lhe disse nada; ramos como estranhos. Vem um
homem estranho, que nunca a vira provavelmente, e fez-se ousado. Compreendi que
a resoluo era tudo, ou quase tudo. Entretanto, refleti que ainda podia ser
tempo de resgatar o perdido, e tratei, como se diz vulgarmente, de deitar barro
 parede. Fiz-me assduo, busquei-a, cortejei-a. Henriqueta pareceu no
entender, e no me tratou mal; quando, porm, a insistncia da minha parte foi
mais forte, retraiu-se um pouco, outro pouco, at chegar ao estritamente
necessrio nas nossas relaes.

Um dia, pude alcan-la no quintal
da casa, e perguntei-lhe se queria que me fosse embora.

 Embora? repetiu ela.

 Sim, diga se quer que eu v
embora.

 Mas como  que hei de querer que
o senhor se v embora?

 Sabe como, disse-lhe eu dando 
voz um tom particular.

Henriqueta quis retirar-se; eu
peguei-lhe na mo; ela olhou espantada para as casas vizinhas.

 Vamos, decida?

 Deixe-me, deixe-me, respondeu
ela.

Puxou a mo e foi para dentro. Eu
fiquei sozinho. Compreendi que ela pertencia ao outro, ou pelo menos, no me
pertencia absolutamente nada. Resolvi mudar-me;  noite fui diz-lo  me, que olhou
espantada para mim e perguntou-me se me tinham feito algum mal.

 Nenhum mal.

 Mas ento...

 Preciso mudar-me, disse eu.

D. Cora ficou abatida e triste.
No podia atinar com a causa; e pediu-me que esperasse at o fim do ms;
disse-lhe que sim. Henriqueta no estava presente, e eu pouco depois sa. No
as vi durante trs dias. No quarto dia, achei Henriqueta sozinha na sala; ela
veio para mim, e perguntou-me por que motivo ia sair da casa. Calei-me.

 Sei que  por mim, disse ela.

No lhe disse nada.

 Mas que culpa tenho eu se...

 No diga o resto. Que culpa tem
de no gostar de mim? Na verdade, nenhuma culpa; mas, se eu gosto da senhora,
tambm no tenho culpa, e, nesse caso, para que castigar-me com a sua presena
forada?

Henriqueta ficou alguns minutos
calada, olhando para o cho. Tive a ingenuidade de supor que ela ia aceitar-me,
s para no ver-me ir; acreditei ter vencido o outro, e iludia-me. Henriqueta
pensava no melhor modo de me dizer uma coisa difcil; e afinal, achou-o, e foi
o modo natural, sem reticncias nem alegorias. Pediu-me que ficasse, porque era
um modo de ajudar as despesas da me; prometia-me, entretanto, que apareceria o
menos que pudesse. Confesso-lhes que fiquei profundamente comovido. No achei
nada que responder; no podia teimar, no queria aceitar, e, sem olhar para
ela, sentia que faltava pouco para que as lgrimas lhe saltassem dos olhos. A
me entrou; e foi uma fortuna.

CAPTULO
III

Verssimo interrompeu a narrao, porque
algumas moas entraram a busc-la. Faltavam pares; no admitiam demora.

 Dez minutos, ao menos?

 Nem dez.

 Cinco?

 Cinco apenas.

Elas saram; ele concluiu a
histria.

 Retirado ao meu quarto, meditei
cerca de uma hora no que me cumpria fazer. Era duro ficar, e eu chegava a achar
at humilhante; mas custava-me desamparar a me, desprezando o pedido da filha.
Achei um meio-termo; ficava pensionista como era; mas passaria fora a maior
parte do tempo. Evitaria a combusto.

D. Cora sentiu naturalmente a
mudana, ao cabo de quinze dias; imaginou que eu tinha algumas queixas,
rodeou-me de grandes cuidados, at que me interrogou diretamente. Respondi-lhe
o que me veio  cabea, dando  palavra um tom livre e alegre, mas
calculadamente alegre, quero dizer com a inteno visvel de fingir. Era um
modo de p-la no caminho da verdade, e ver se ela intercedia em meu favor.

D. Cora, porm, no entendeu nada.

Quanto ao Fausto, continuou a
freqentar a casa, e o namoro de Henriqueta acentuou-se mais. Candinha, a irm
dela,  que me contava tudo,  o que sabia, ao menos,  porque eu, na minha
raiva de preterido, indagava muito, tanto a respeito de Henriqueta como a
respeito do boticrio. Assim  que soube que Henriqueta gostava cada vez mais
dele, e ele parece que dela, mas no se comunicavam claramente. Candinha
ignorava os meus sentimentos, ou fingia ignor-los; pode ser mesmo que tivesse
o plano de substituir a irm. No afiano nada, porque no me sobrava muita
penetrao e frieza de esprito. Sabia o principal, e o principal era bastante
para eliminar o resto.

O que soube dele  que era vivo,
mas tinha uma amante e dois filhos desta, um de peito, outro trs anos.
Contaram-me mesmo alguns pormenores acerca dessa famlia improvisada, que no repito
por no serem precisos, e porque as moas esto esperando na sala. O importante
 que a tal famlia existia.

Assim se passaram dois longos
meses. No fim desse tempo, ou mais, quase trs meses,  D. Cora veio ter comigo
muito alegre; tinha uma notcia para dar-me, muito importante, e queria que eu
adivinhasse o que era,  um casamento.

Creio que empalideci. D. Cora, em
todo caso, olhou para mim admirada, e, durante alguns segundos, fez-se entre
ns o mais profundo silncio. Perguntei-lhe afinal o nome dos noivos; ela
disse-me a custo que a filha Candinha ia casar com um amanuense de secretaria.
Creio que respirei; ela olhou para mim ainda mais espantada.

A boa viva desconfiou a verdade. Nunca
pude saber se ela interrogou a filha; mas  provvel que sim, que a sondasse,
antes de fazer o que fez da a trs semanas. Um dia, vem ter comigo, quando eu
estudava no meu quarto; e, depois de algumas perguntas indiferentes, variadas e
remotas, pediu-me que lhe dissesse o que tinha. Respondi-lhe naturalmente que
no tinha nada.

 Deixe-se de histrias, atalhou
ela. Diga-me o que tem.

 Mas o que  que tenho?

 Voc  meu filho; sua me
autorizou-me a trat-lo como tal. Diga-me tudo; voc tem alguma paixo,
algum...

Fiz um gesto de ignorncia.

 Tem, tem, continuou ela, e h de
me dizer o que tem. Talvez tudo se esclarea se algum falar, mas no falando,
ningum...

Houve e no houve clculo nestas
palavras de D. Cora; ou, para ser mais claro, ela estava mais convencida do que
dizia. Eu supunha-lhe, porm, a convico inteira, e ca no lao. A esperana
de poder arranjar tudo, mediante uma confisso  me, que me no custava muito,
porque a idade era prpria das revelaes, deu asas s minhas palavras, e
dentro de poucos minutos, contava eu a natureza dos meus sentimentos, sua data,
suas tristezas e desnimos. Cheguei mesmo a contar a conversao que tivera com
Henriqueta, e o pedido desta. D. Cora no pde reter as lgrimas. Ela ria e
chorava com igual facilidade; mas naquele caso, a idia de que a filha pensara
nela, e pedira um sacrifcio por ela, comoveu-a naturalmente. Henriqueta era a
sua principal querida.

 No se precipite, disse-me ela
no fim: eu no creio no casamento com o Fausto; tenho ouvido umas coisas... bom
moo, muito respeitado, trabalhador e honesto. Digo-lhe que me honraria com um
genro assim; e a no ser voc, preferia a ele. Mas parece que o homem tem umas
prises...

Calou-se,  espera que eu
confirmasse a notcia; mas no respondi nada. Cheguei mesmo a dizer-lhe que no
achava prudente indagar mais nada, nem exigir. Eu no fim do ano tinha de
retirar-me; e l passaria o tempo. Provavelmente disse ainda outras coisas, mas
no me lembro.

A paixo dos dois continuou, creio
que mais forte, mas singular da parte dele. No lhe dizia nada, no lhe pedia
nada; parece mesmo que no lhe escrevia nada. Gostava dela; ia l com
freqncia, quase todos os dias.

D. Cora interveio um dia
francamente, em meu favor. A filha no lhe disse coisa diferente do que me
dissera, nem com outra hesitao. Respondeu que no se pertencia, e, quando a
me exigiu mais, disse que amava ao Fausto, e casaria com ele, se ele a
pedisse, e nenhum outro, ao menos por enquanto. Ele no a pedia, no a soltava;
toda a gente supunha que a razo verdadeira do silncio e da reserva era a
famlia de emprstimo. Vieram as frias; fui para o Rio Grande, voltei no ano
seguinte, e no tornei a morar com D. Cora.

Esta adoeceu gravemente e morreu.
Cndida, j casada, foi quem a enterrou; Henriqueta foi morar com ela. A paixo
era a mesma, o silncio o mesmo, e a razo provavelmente no era outra, seno a
mesma. D. Cora pediu a Henriqueta, na vspera de expirar, que casasse comigo.
Foi Henriqueta mesma quem me contou o pedido, acrescentando que lhe respondeu
negativamente.

 Mas que espera a senhora?
disse-lhe eu.

 Espero em Deus.

O tempo foi passando, e os dois amavam-se
do mesmo modo. Candinha brigou com a irm. Esta fez-se costureira na tal casa
da Rua da Carioca, honesta, sria, laboriosa, amando sempre, sem adiantar nada,
desprezando o amor e a abastana que eu lhe dava, por uma ventura fugitiva que
no tinha... Tal qual como na trova popular...

 Qual trova! nem meia trova!
interromperam as moas invadindo o gabinete. Vamos danar.
