Crtica, A crtica teatral, A crtica teatral. Jos de Alencar : Me,
1860

A crtica
teatral. Jos de Alencar: Me

Texto-Fonte:

Obra Completa de Machado de Assis,

Rio
de Janeiro: Nova Aguilar, vol. III, 1994.

Publicado
originalmente na Revista Dramtica, seo do Dirio do Rio de Janeiro,
29/03/1860.

Escrever
crtica e crtica de teatro no  s uma tarefa difcil,  tambm uma empresa
arriscada.

A razo 
simples. No dia em que a pena, fiel ao preceito da censura, toca um ponto negro
e olvida por momentos a estrofe laudatria, as inimizades levantam-se de
envolta com as calnias.

Ento, a
crtica aplaudida ontem,  hoje ludibriada, o crtico vendeu-se, ou por outra,
no passa de um ignorante a quem por compaixo se deu algumas migalhas de
aplauso.

Esta
perspectiva poderia fazer-me recuar ao tomar a pena do folhetim dramtico, se
eu no colocasse acima dessas misrias humanas a minha conscincia e o meu
dever. Sei que vou entrar numa tarefa onerosa; sei-o, porque conheo o nosso
teatro, porque o tenho estudado materialmente; mas se existe uma recompensa
para a verdade, dou-me por pago das pedras que encontrar em meu caminho.

Protesto
desde j uma severa imparcialidade, imparcialidade de que no pretendo
afastar-me uma vrgula; simples revista sem pretenso a orculo, como ser este
folhetim, dar-lhe-ei um carter digno das colunas em que o estampo. Nem
azorrague, nem luva de pelica; mas a censura razovel, clara e franca, feita na
altura da arte da crtica.

Estes
preceitos, que estabeleo como norma do meu proceder, so um resultado das
minhas idias sobre a imprensa, e de h muito que condeno os ouropis da letra
redonda, assim como as intrigas mesquinhas, em virtude de que muita gente
subscreve juzos menos exatos e menos de acordo com a conscincia prpria.

Se faltar
a esta condio que me imponho, no ser um atentado voluntrio contra a
verdade, mas erro de apreciao.

As minhas
opinies sobre o teatro so eclticas em absoluto. No subscrevo, em sua totalidade, as mximas da escola realista, nem aceito, em
toda a sua plenitude, a escola das abstraes romnticas; admito e aplaudo o
drama como forma absoluta do teatro, mas nem por isso condeno as cenas
admirveis de Corneille e de Racine.

Tiro de
cada coisa uma parte, e fao o meu ideal de arte, que abrao e defendo.

Entendo
que o belo pode existir mais revelado em uma forma menos imperfeita, mas no 
exclusivo de uma s forma dramtica. Encontro-o no verso valente da tragdia,
como na frase ligeira e fcil com que a comdia nos fala ao esprito.

Com estas
mximas em mo  entro no teatro.  este o meu procedimento; no dia em que me
puder conservar nessa altura, os leitores tero um folhetim de menos, e eu mais
um argumento de que  cometer empresas destas, no  uma tarefa para quem no
tem o esprito de um temperamento superior.

Sirvam
estas palavras de programa.

Se eu
quisesse avaliar a nossa existncia moral pelo movimento atual do teatro,
perderamos no paralelo.

Ou
influncia ou estao, ou causas estranhas, dessas que transformam as situaes
para dar nova direo s coisas, o teatro tem caminhado por uma estrada difcil
e escabrosa.

Quem
escreve estas palavras tem um fundo de convico, resultado do estudo com que
tem acompanhado o movimento do teatro; e tanto mais insuspeito, quanto que  um
dos crentes mais srios e verdadeiros desse grande canal de propaganda.

Firme nos
princpios que sempre adotou, o folhetinista que desponta, d ao mundo, como um
colega de alm-mar, o espetculo espantoso de um crtico de teatro que cr no
teatro.

E cr: se
h alguma coisa a esperar para a civilizao  desses meios que esto em
contato com os grupos populares. Deus me absolva se h nesta convico uma
utopia de imaginao clida.

Estudando,
pois, o teatro, vejo que a atualidade dramtica no  uma realidade esplndida,
como a desejava eu, como a desejam todos os que sentem em si uma alma e uma
convico.

J disse,
essa morbidez  o resultado de causas estranhas, inseparveis talvez  que
podem aproximar o teatro de uma poca mais feliz.

Estamos
com dois teatros em ativo; uma nova companhia se organiza para abrir em pouco o
teatro Variedades; e essa completar a trindade dramtica.

No meio
das dificuldades com que caminha o teatro, anuncia-se no Ginsio um novo drama
original brasileiro. A repetio dos anncios, o nome oculto do autor, as
revelaes dbias de certos orculos, que os h por toda parte, prepararam a
expectativa pblica para a nova produo nacional.

Veio ela
enfim.

Se houve
verdade nas conversaes de certos crculos, e na nsia com que era esperado o novo
drama, foi que a pea estava acima do que se esperava.

Com
efeito, desde que se levantou o pano o pblico comeou a ver que o esprito
dramtico, entre ns, podia ser uma verdade. E, quando a frase final caiu
esplndida no meio da platia, ela sentiu que a arte nacional entrou em um
perodo mais avantajado de gosto e de aperfeioamento.

Esta pea
intitula-se Me.

Revela-se
 primeira vista que o autor do novo drama conhece o caminho mais curto do
triunfo; que, dando todo o desenvolvimento  fibra da sensibilidade, praticou
as regras e as prescries da arte sem dispensar as sutilezas de cor local.

A ao 
altamente dramtica; as cenas sucedem-se sem esforo, com a natureza da
verdade; os lances so preparados com essa lgica dramtica a que no podem
atingir as vistas curtas.

Altamente
dramtica  a ao, disse eu; mas no pra a;  tambm altamente simples.

Jorge 
um estudante de Medicina, que mora em um segundo andar com uma escrava apenas 
a quem trata carinhosamente e de quem recebe provas de um afeto inequvoco.

No
primeiro andar, moram Gomes, empregado pblico, e sua filha Elisa. A intimidade
da casa trouxe a intimidade dos dois vizinhos, Jorge e Elisa, cujas almas, ao
comear o drama, ligam-se j por um fenmeno de simpatia.

Um dia, a
doce paz, que fazia a ventura daquelas quatro existncias, foi toldada por um
corvo negro, por um Peixoto, usurrio, que vem ameaar a probidade de Gomes,
com a maquinao de um trama diablico e muito comum, infelizmente, na
humanidade.

Ameaado
em sua honra, Gomes prepara um suicdio que no realiza; entretanto,
envergonhado por pedir dinheiro, porque com dinheiro removia a tempestade
iminente, deixa  sua filha o importante papel de salv-lo e salvar-se.

Elisa,
confiada no afeto que a une a Jorge, vai expor-lhe a situao; este compreende
a dificuldade, e, enquanto espera a quantia necessria do Dr. Lima, um carter
nobre da pea, trata de vender, e ao mesmo Peixoto, a moblia de sua casa.

Joana, a
escrava, compreende a situao, e, vendo que o usurrio no dava a quantia
precisa pela moblia de Jorge, prope-se a uma hipoteca; Jorge repele ao
princpio o desejo de sua escrava, mas a operao tem lugar, mudando unicamente
a forma de hipoteca para a de venda, venda nulificada desde que o dinheiro
emprestado voltasse a Peixoto.

Volta a
manh serena depois de tempestade procelosa; a probidade e a vida de Gomes
esto salvas.

Joana,
podendo escapar um minuto a seu senhor temporrio, vem na manh seguinte
visitar Jorge.

Entretanto
o Dr. Lima tem tirado as suas malas da alfndega e traz o dinheiro a Jorge.
Tudo vai, por conseguinte, voltar ao seu estado normal.

Mas
Peixoto, no encontrando Joana em casa, vem procur-la  casa de Jorge,
exigindo a escrava que havia comprado na vspera. O Dr. Lima no acreditou que
se tratasse de Joana, mas Peixoto, forado a declarar o nome, pronuncia-o. Aqui
a peripcia  natural, rpida e bem conduzida; o Dr. Lima ouve o nome,
dirige-se para a direita por onde acaba de entrar Jorge.


Desgraado, vendeste tua me!

Eu
conheo poucas frases de igual efeito. Sente-se uma contrao nervosa ao ouvir
aquela revelao inesperada. O lance  calculado com maestria e revela pleno
conhecimento da arte no autor.

Ao
conhecer sua me, Jorge no a repudia; aceita-a em face da sociedade, com esse
orgulho sublime que s a natureza estabelece e que faz do sangue um ttulo.

Mas
Joana, que forcejava sempre por deixar corrido o vu do nascimento de Jorge, na
hora que este o sabe, aparece envenenada. A cena  dolorosa e tocante, a
despedida para sempre de um filho, no momento em que acaba de conhecer sua me,
 por si uma situao tormentosa e dramtica.

No  bem
acabado este tipo de me, que sacrifica as carcias que poderia receber de seu
filho, a um escrpulo de que a sua individualidade o fizesse corar.

Esse
drama, essencialmente nosso, podia, se outro fosse o entusiasmo de nossa terra,
ter a mesma nomeada que o romance de Harriette Stowe  fundado no mesmo teatro
da escravido.

Os tipos acham-se
ali bem definidos, e a ligao das frases no pode ser mais completa.

O veneno
que Joana bebe, para aperfeioar o quadro e completar o seu martrio tocante, 
o mesmo que Elisa tomara das mos de seu pai, e que a escrava encontrou sobre
uma mesa em casa de Jorge, para onde a menina o levara.

H frases
lindas e impregnadas de um sentimento doce e profundo; o dilogo  natural e
brilhante, mas desse brilho que no exclui a simplicidade, e que no respira o
torneado bombstico.

O autor
soube haver-se com a ao, sem entrar em anlise. Descoberta a origem de Jorge, a sociedade d o ltimo arranco em face da natureza,
pela boca de Gomes, que tenta recusar sua filha prometida a Jorge.

Repito-o;
o drama  de um acabado perfeito, e foi uma agradvel surpresa para os
descrentes da arte nacional.

Ainda
oculto o autor, foi saudado por todos com a sua obra; feliz que , de no
encontrar patos no seu Capitlio.

A Sr.
Velluti e o Sr. Augusto disseram com felicidade os seus papis; a primeira,
dando relevo ao papel de escrava com essa inteligncia e sutileza que completam
os artistas; o segundo, sustentando a dignidade do Dr. Lima na altura em que a
colocou o autor.

A Sr.
Ludovina no discrepou no carter melanclico de Elisa; todavia, parecia-me que
devia ter mais animao nas suas transies, que  o que define o claro-escuro.

O Sr.
Heller, pondo em cena o carter do empregado pblico, teve momentos felizes,
apesar de lhe notar uma gravidade de porte, pouco natural, s vezes.

H um
meirinho na pea desempenhado pelo Sr. Graa, que como bom ator cmico, agradou
e foi aplaudido. O papel  insignificante, mas aqueles que tm visto o distinto
artista, adivinham o desenvolvimento que a sua veia cmica lhe podia dar.

Jorge foi
desempenhado pelo Sr. Paiva que, trazendo o papel  altura de seu talento,
fez-nos entrever uma figura singela e sentimental.

O Sr.
Milito completa o quadro com o papel de Peixoto, onde nos deu um usurrio brutal
e especulador.

A noite
foi de regozijo para aqueles que, amando a civilizao ptria, estimam que se
faa to bom uso da lngua que herdamos. Oxal que o exemplo se espalhe.

Na
prxima revista tocarei no teatro de S. Pedro e no das Variedades, se j houver
encetado a sua carreira.

Entretanto,
fecho estas pginas, e deixo que o leitor, para fugir ao rigor da estao, v
descansar um pouco, no  sombra das faias, como Ttiro, mas entre os nevoeiros
de Petrpolis, ou nas montanhas da velha Tijuca.


