Crtica, Alberto de Oliveira: Meridionais, 1884

Alberto de Oliveira: Meridionais

Texto-Fonte:

Obra Completa de Machado de Assis,

Rio
de Janeiro: Nova Aguilar, vol. III, 1994.

Publicado
como introduo a Meridionais, Rio de Janeiro, Tipografia da Gazeta de
Notcias, 1884.

Quando em 1879, na Revista
Brasileira, tratei da nova gerao de poetas, falei naturalmente do Sr.
Alberto de Oliveira. Vinha de ler o seu primeiro livro, Canes Romnticas, de
lhe dizer que havia ali inspirao e forma, embora acanhadas pela ao de
influncias exteriores. Achava-lhe no estilo alguma coisa flutuante e indecisa;
e quanto  matria dos versos, como o poeta dissesse a outros, que tambm sabia
folhear a lenda dos gigantes, dei-lhe este conselho: 'Que lhe importa o
guerreiro que l vai  Palestina? Deixe-se fixar no castelo com a filha dele...
No  diminuir-se o poeta;  ser o que lhe pede a natureza, Homero ou
Mosco'. Conclua dizendo-lhe que se afirmasse.

No trago essa
reminiscncia crtica (e deixo de transcrever as expresses de merecido
louvor), seno para explicar, em primeiro lugar, a escolha que o poeta fez da
minha pessoa para abrir este outro livro; e, em segundo lugar, para dizer que a
exortao final da minha crtica tem aqui uma brilhante resposta, e que o
conselho no foi desprezado, porque o poeta deixou-se estar efetivamente no
castelo, no com a filha, mas com as filhas do castelo, o que  ainda mais do
que eu lhe pedia naquele tempo.

Que h de ele fazer no
castelo, seno amar as castels? Ama-as, contempla-as, sai a caar com elas,
fita bem os olhos de uma para ver o que h dentro dos olhos azuis, vai com a
outra contar as estrelas do cu, ou ento pega do leque de uma terceira para
descrev-lo minuciosamente. Esse Leque, que  uma das pginas caractersticas
do livro, chega a coincidir com o meu conselho de 1879, como se o poeta,
abrindo mo dos heris, quisesse dar s reminiscncias picas uma transcrio
moderna e de camarim: esse Leque  uma reduo do escudo de Aquiles.
Homero, pela mo de Vulcano, ps naquele escudo uma profuso de coisas: a
terra, o cu, o mar, o sol, a lua e as estrelas, cidades e bodas, prticos e
debates, exrcitos e rebanhos. O nosso poeta aplicou o mesmo processo a um
simples leque de senhora, com tanta opulncia de imaginao no estilo, e to
grego no prprio assunto dos quadros pintados, que fez daquilo uma parelha do
broquel homrico. Mas no  isso que me d o caracterstico da pgina;  o
resumo que ali acho, no de todo, mas de quase todo o poeta; imaginoso, vibrante,
musical, despreocupado dos problemas da alma humana, fino cultor das formas
belas, amando porventura as lgrimas, contanto que elas caiam de uns olhos
bonitos.

Conclua o leitor, e
concluir bem, que a emoo deste poeta est sempre sujeita ao influxo das
graas externas. No achar aqui o desespero, nem o fastio, nem a ironia do
sculo. Se h alguma gota amarga no fundo da taa de ouro em que ele bebe a
poesia,  a saudade do passado ou do futuro, alguma coisa remota no tempo ou no
espao, que no seja a vulgaridade presente. Da essa volta freqente das
reminiscncias helnicas ou medievais, os belos sonetos em que nos conta o
nascimento de Vnus, e tantos outros quadros antigos, ou aluses espalhadas por
versos e estrofes. Da tambm uma feio peculiar do poeta, o amor da natureza.
No quero fazer extratos, porque o leitor vai ler o livro inteiro; mas o soneto
'Magia Selvagem' lhe dar uma expresso enrgica dessa paixo dos
espetculos naturais, ante os quais o poeta exclama:

Tudo, ajoelhado e
trmulo, me abisma

Cego de assombro e
exttico de gozo.

Cegueira e xtase: o
limite da adorao. Assim tambm o 'Conselho', pgina em que ele
receita para uma dor moral o contato da floresta; e ainda mais a anterior,
'Falando ao Sol', em que caracteriza a intensidade de um grande
pesar, que ento o oprime, afirmando que para esse, nem mesmo a natureza 
'a grande natureza'  pode servir de remdio.

A maior parte das
composies so quadros feitos sem outra inteno mais do que fixar um momento
ou um aspecto. Geralmente so curtos, em grande parte sonetos, forma que os
modernos restauraram, e luzidamente cultivam, pode ser at que com excessiva
assiduidade. Os versos do nosso poeta so trabalhados com perfeio. Os
defeitos, que os h, no so obra do descuido; ele pertence a uma gerao que
no peca por esse lado. Nascem,  ora de um momento no propcio,  ora do
requinte mesmo do lavor; coisa esta que j um velho poeta da nossa lngua
denunciava, e no era o primeiro, com esta comparao: o muito mimo empece a
planta'. Mas, em todo caso, se isto  culpa, felix culpa; a troco
de algumas partes laboriosas, acabadas demais, ficam as que o foram a ponto, e
fica principalmente o costume, o respeito da arte, o culto do estilo.

'Manh de
Caa', 'A Volta da Galera', 'Contraste', 'Em
Caminho, 'A Janela de Julieta', e no cito mais para no parecer que
excluo as restantes, daro ao leitor essa feio do nosso poeta, o amor
voluptuoso da forma.

No lhe pergunteis, por
exemplo, na 'Manh de Caa', onde  que esto as aves que ele matou.
O poeta saiu principalmente  caa de belos versos, e trouxe-os, argentinos e
sonoros, um trofu de sonetos. Assim tambm noutras partes. Nada obsta que os
versos bonitos tragam felizes pensamentos, como pintam quadros graciosos. Uns e
outros a esto. Se alguma vez, e rara, a ao descrita parecer que desmente da
estrita verdade, ou no trouxer toda a nitidez precisa, podeis descontar essa
lacuna na impresso geral do livro, que ainda vos fica muito:  fica-vos um
largo saldo de artista e de poeta,  poeta e artista dos melhores da atual
gerao.


