Conto, Miloca, 1874

Miloca



Texto-fonte:

Obra Completa, Machado de Assis, vol. II,

Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.



Publicado originalmente em Jornal
das Famlias, novembro de 1874 a janeiro de 1875.

CAPTULO
PRIMEIRO

D. Pulquria da Assuno era uma
senhora de seus sessenta anos, arguta, devota, gorda, paciente, crnica viva,
catecismo ambulante. Era viva de um capito de cavalaria que morrera em Monte Caseros deixando-lhe uma escassa penso e a boa vontade de um irmo mais moo que possua
alguma coisa. Rodrigo era o nome desse nico parente a quem o Capito Lcio
confiara D. Pulquria na ocasio de partir para o Rio da Prata. Era bom homem,
generoso e franco; D. Pulquria no sentiu muito por esse lado a morte do
marido.

Infelizmente, o cunhado no era
to remediado como parecia  viva, e alm disso no tinha meios nem tino para
fazer crescer os poucos cabedais que ajuntara durante longos anos no negcio de
armarinho. O estabelecimento de Rodrigo, excelente e afreguesado em outros tempos,
no podia competir com os muitos estabelecimentos modernos que outros
comerciantes abriram no mesmo bairro. Rodrigo vendia de vez em quando algum
rap, lenos de chita, agulhas e linhas, e outras coisas assim; sem poder
oferecer ao fregus outros gneros que aquele ramo de negcio havia adotado.
Quem l ia procurar um corte de vestido, uma camisa feita, uma bolsa, um
sabonete, uns brincos de vidrilho, tinha o desgosto de voltar com as mos
vazias. Rodrigo estava atrs do seu tempo; a roda comeou a desandar-lhe.

Alm deste inconveniente, Rodrigo
era generoso e franco, como disse acima, de maneira que, se por um lado no lhe
crescia a bolsa, por outro ele prprio a desfalcava.

D. Pulquria resolveu ir viver com
o cunhado e foi uma felicidade para este, que tinha uma filha e precisava de
lhe dar uma me. Ningum melhor para esse papel do que a viva do capito, que,
alm de parenta da menina, era um smbolo de ordem e austeridade.

Miloca tinha dezessete anos. At
os quinze ningum diria que viria a ser bela; mas, dessa idade em diante enfeitou
muito, como dizia D. Pulquria. Era a mais formosa cara do bairro e a mais
elegante figura da Cidade Nova. No tinha porm a viveza das moas da sua
idade; era sria e empertigada demais. Quando saa olhava para diante de si sem
volver a cabea para nenhum lado nem se preocupar com os olhares de admirao
que os rapazes lhe deitavam. Parecia ignorar ou desdenhar a admirao dos
outros.

Esta circunstncia, no menos que
a beleza, tinha dado  filha de Rodrigo uma celebridade real. Os rapazes
chamavam-lhe Princesa; as moas puseram-lhe a alcunha de Pescoo de
pau. A inveja das outras explorou o mais que pde o orgulho de Miloca; mas
se ela desdenhava a admirao, parecia tambm desdenhar a inveja.

D. Pulquria reconhecia na
sobrinha essa altivez singular e procurava persuadi-la de que a modstia  a
primeira virtude de uma moa; perdoava-lhe porm o defeito, por ver que em tudo
mais a sobrinha era um modelo.

Havia j cinco anos que a viva do
capito Lcio morava com a famlia do cunhado, quando este foi procurado por um
rapaz desconhecido que lhe pediu meia hora de conversa particular.

 Chamo-me Adolfo P***, disse o
moo quando se achou a ss com Rodrigo, e sou empregado no Tesouro. Pode
informar-se do meu comportamento. Quanto ao meu carter, espero que com o tempo
conhecer. Pretendo...

Aqui estacou o rapaz. Rodrigo, que
era homem sagaz, percebeu qual era a pretenso de Adolfo. No o auxiliou
entretanto; preferiu saborear-lhe a perplexidade.

 Pretendo, repetiu Adolfo ao cabo
de alguns segundos de silncio, pretendo... ouso pedir-lhe a mo de sua filha.

Rodrigo ficou alguns instantes
calado. Adolfo continuou...

 Repito; pode informar-se a meu
respeito...

 Como pai, reconheo que me
cumpre velar pelo futuro de minha filha, disse Rodrigo, mas a primeira condio
de um casamento  a afeio recproca. Tem autorizao dela para?...

 Nunca nos falamos, disse Adolfo.

 Ento... escrevem-se? perguntou
Rodrigo.

 Nem isso. Duvido at que ela me
conhea.

Rodrigo deu um salto na cadeira.

 Mas ento, disse ele, que vem o
senhor fazer  minha casa?

 Eu lhe digo, respondeu o
pretendente. Amo sua filha apaixonadamente, e no h dia em que no procure
v-la; infelizmente, ela parece ignorar que eu existo no mundo. At hoje, nem
por distrao, recebi um olhar dela. Longe de me desagradar esta indiferena,
dou-me por feliz em achar tamanha discrio numa idade em que geralmente as
moas gostam de ser admiradas e requestadas. Sei que no sou amado, mas no
acho impossvel vir a s-lo. Seria porm impossvel se continuasse a situao
em que ambos nos achamos. Como saberia ela que eu a adoro, se nem suspeita que
eu existo? Depois de refletir muito neste assunto, tive a idia de vir
pedir-lhe a mo de sua filha, e no caso de que o senhor no me achasse indigno
dela, pediria para ser apresentado  sua famlia, caso este em que eu poderia
saber se realmente...

 Paremos aqui, interrompeu
Rodrigo. O senhor pede-me uma coisa singular; pelo menos no conheo
semelhantes usos. Estimaria muito que o senhor fosse feliz, mas no me presto a
isso... por semelhante modo.

Adolfo insistiu no pedido; mas o
pai de Miloca cortou a conversa levantando-se e estendendo a mo ao
pretendente.

 No lhe quero mal, disse ele;
faa-se amado e volte. Nada mais lhe concedo.

Adolfo saiu de cabea baixa.

Nesse mesmo dia procurou Rodrigo
sondar o esprito da filha, a fim de saber se ela, ao contrrio do que parecia
a Adolfo, tinha dado f do rapaz. Pareceu-lhe que no.

Tanto pior para ele, disse
Rodrigo consigo.

No domingo seguinte estava ele 
janela com a cunhada, quando viu passar Adolfo, que lhe tirou o chapu.

 Quem  aquele moo? perguntou D.
Pulquria.

Um leve sorriso foi a resposta de
Rodrigo,  quanto bastou para aguar a curiosidade de D. Pulquria.

 Voc ri-se, disse ela. Que
mistrio  esse?

 Mistrio nenhum, disse Rodrigo.

Insistiu a velha; e o cunhado no
hesitou em lhe contar a conversa e o pedido do rapaz, acrescentando que, na sua
opinio Adolfo era um palerma.

 E por qu? disse D. Pulquria.

 Porque a um rapaz como ele no
faltam meios de se fazer conhecido da dama de seus pensamentos. Eu vendo muito
papel bordado e muita tinta azul, e onde a palavra no chega, chega uma carta.

 No faltava mais nada! exclamou
D. Pulquria. Mandar cartas  rapariga e transtornar-lhe a cabea... Seu irmo
nunca se atreveu a tanto comigo...

 Meu irmo era um maricas em
tempo de paz, observou Rodrigo sorvendo uma pitada.

D. Pulquria protestou energicamente
contra a opinio do cunhado, e este foi obrigado a confessar que o irmo era
pelo menos um homem prudente. Passada essa questo incidente, voltou D.
Pulquria ao assunto principal e condenou a resposta que Rodrigo dera a Adolfo,
dizendo que era talvez um excelente marido para Miloca.

 Miloca, acrescentou a velha, 
uma rapariga muito metida consigo. Pode ser que no ache casamento to cedo, e
ns no havemos de viver sempre. Quer voc que ela a fique sem proteo no
mundo?

 No, decerto, retorquiu Rodrigo,
mas que devia eu fazer?

 O que devia fazer era
informar-se do rapaz, e se lhe parecesse digno dela, apresent-lo c. Eu aqui
estou para velar por ela.

D. Pulquria desenvolveu este tema
com a autoridade de uma senhora convencida. Rodrigo no deixou de lhe achar
alguma razo.

 Pois bem, disse ele, eu
indagarei do procedimento do rapaz, e se vir que merece, c o trago... Mas isso
 impossvel, agora reparo; no acho bonito, nem decente que eu v agora
busc-lo; parecer que lhe meto a rapariga  cara.

 Tem razo, concordou a cunhada.
E a culpa da dificuldade  toda sua. Em suma,  bom indagar; depois veremos o
que se h de fazer.

As informaes foram excelentes.
Adolfo gozava de excelente reputao; era econmico, morigerado, laborioso, a
prola da repartio, o beijinho dos superiores. Nem com uma lanterna se
encontraria marido daquela qualidade, to  mo.

 Bem me dizia o corao, ponderou
D. Pulquria, que este rapaz era c enviado pela Providncia Divina. E voc
estragou tudo. Mas Deus  grande; esperemos que ele nos favorea.

CAPTULO II

No confiava debalde na
Providncia Divina a Sr. D. Pulquria da Assuno. Cinco dias no eram
passados quando um acontecimento desastroso veio atar as relaes entre Adolfo
e a famlia de Miloca.

Rodrigo era um dos mais extremos
partidrios da escola romntico-estragada. Ia ver algum drama de senso comum s
por comprazer  famlia. Mas sempre que podia assistir a um daqueles matadouros
literrios to em moda h vinte anos,  e ainda hoje , vingava-se da
condescendncia a que o obrigava s vezes o amor dos seus. Estava ento fazendo
bulha um drama em seis ou oito quadros e outras tantas mortes, obra que o
pblico aplaudia com delrio. Rodrigo tinha ido ver o drama, e viera para casa
entusiasmadssimo, a tal ponto que D. Pulquria tambm se entusiasmou e ficou
assentado que iriam no dia seguinte ao teatro.

Miloca tentou impedir a resoluo,
mas no teve fora para o conseguir. De tarde caiu sobre a cidade uma daquelas
trovoadas de que o nosso clima vai perdendo a tradio, e Rodrigo, que em tempo
seco preferia andar de carro, com mais razo desta vez mandou vir um e l foi a
famlia ver a pea da moda.

No nos interessa saber que
impresses trouxeram de l as duas senhoras; ambas comearam a dormir apenas
entraram no carro, e se em Miloca era talvez aborrecimento, em D. Pulquria era evidentemente cansao. A boa velha j no era para dramas to compridos nem
paixes to fortes. Encostou a cabea e comeou a ressonar.

Rodrigo ficou reduzido a um
completo monlogo. Elogiava ele o drama, soltava exclamaes, interrogava
inutilmente as senhoras, e parecia engolfado na idia de tudo que vira quando
sentiu que o carro descambava docemente para o lado esquerdo. O cocheiro passara
a casa e dera uma volta com o fim de chegar mais  porta; nessa ocasio as
rodas da frente ficaram debaixo e isto produziu a queda suave do veculo.

Os trs passageiros deram um
grito, que foi o preldio de muitos outros gritos, principalmente de D. Pulquria
que misturava atrapalhadamente preces e pragas. Felizmente havia na vizinhana
um baile, e os cocheiros de outros carros acudiram depressa para impedir que os
burros disparassem. Esta providncia era de todo ponto intil porque os burros,
em cujo nimo parece que tambm influra o drama, aproveitaram a queda para
dormir completamente.

O cocheiro saltou no cho e tratou
de salvar os nufragos; mas j encontrou junto da portinhola que ficara voltada
para cima um rapaz desconhecido, que parecia ter a mesma idia.

Dizer-lhes que esse rapaz era
Adolfo seria supor que os leitores nunca leram romances. Adolfo no passara por
acaso; estava ali havia muito aguardando a volta de Miloca para ter a
satisfao de a ver de longe. Quis a fortuna dele que houvesse desastre do
carro. Levado por um duplo sentimento de humanidade e de egosmo, o bom rapaz
atirou-se ao veculo e comeou a pescar as vtimas.

A primeira pessoa que saiu foi D.
Pulquria, que apenas se achou s e salva, deu graas a Nossa Senhora e descomps
em termos brandos o cocheiro. Enquanto ela falava, estendia Adolfo a mo para
dentro do carro, para tirar Miloca. A moa estendeu-lhe a mo, e o rapaz
estremeceu. Da a dois minutos saa ela do carro, e Adolfo tirava a terceira
vtima, que gemia com a dor de uma ferida no nariz. Miloca apenas teve uma
contuso no rosto. D. Pulquria parece que por ser gorda ofereceu mais
resistncia ao choque.

Rodrigo estancava o sangue com o
leno; Miloca entrara no corredor da casa, o cocheiro tratava de levantar o carro
ajudado por alguns colegas, quando D. Pulquria, que j durante alguns minutos
tinha os olhos pregados em Adolfo, exclamou:

 Foi o senhor quem nos salvou! 
mano Rodrigo, aqui est a pessoa que nos salvou... Olhe!

 Mas no me salvou o nariz! objetou
Rodrigo com mau humor. Pois qu!  o senhor! continuou ele aproximando-se do
rapaz.

  verdade, respondeu
modestamente Adolfo.

Rodrigo estendeu-lhe a mo.

 Oh! fico-lhe muito obrigado!

 Devemos-lhe a vida, observou
Dona Pulquria, e creio que lhe seremos eternamente gratos. Quer descansar?

 Obrigado, minha senhora.

 Mas ao menos prometa que h de
vir  nossa casa, disse D. Pulquria.

 Se me permitem essa honra...

 No permitimos, exigimos, disse
Rodrigo.

 O meu servio no vale nada,
respondeu Adolfo; fiz o que faria outra qualquer pessoa. Todavia, se me
permite, virei saber da sade do senhor...

 Da sade do meu nariz, emendou
galhofeiramente Rodrigo; venha que nos dar grande prazer. Deixe-me
apresent-lo a minha filha...

Era tarde. Miloca, menos grata que
os dois velhos, ou mais necessitada de descanso que eles, tinha subido havia j
cinco minutos.

Adolfo despediu-se de Rodrigo e de
D. Pulquria e foi esperar na esquina a passagem do carro. Chamou o cocheiro e
deu-lhe uma nota de cinco mil-ris.

 Aqui est o que voc perdeu
quando o carro tombou.

 Eu? perguntou o cocheiro que
sabia no ter um vintm na algibeira.

  verdade, disse Adolfo.

E sem mais explicaes foi
andando.

O cocheiro era sagaz como bom
cocheiro que era. Sorriu e guardou o dinheiro no bolso.

Adolfo no era to pouco fino que
fosse logo apresentar-se em casa de Rodrigo. Esperou quarenta e oito horas
antes que desse sinal de si. E no foi  casa da famlia, mas  loja de
Rodrigo, que j l estava com um pequeno emplastro no nariz. Rodrigo agradeceu
outra vez o servio que lhe prestara assim como  sua famlia na noite do
desastre e procurou estabelecer desde logo uma salutar familiaridade.

 No sabe, lhe disse ele quando o
rapaz se dispunha a sair, no sabe como minha cunhada ficou morrendo pelo
senhor...

 Parece ser uma excelente
senhora, disse Adolfo.

  uma prola, respondeu Rodrigo.
E se quer que lhe fale franco, eu estou sendo infiel  promessa que lhe fiz.

 Como assim?

 Prometi a minha cunhada que o
levaria l em casa apenas o encontrasse, e separo-me do senhor sem desempenhar
a minha palavra.

Adolfo curvou levemente a cabea.

 Muito agradeo essa prova de
bondade, disse ele, e sinto realmente no poder corresponder ao desejo de sua
cunhada. Estou pronto porm a l ir apresentar-lhe os meus respeitos no dia e
hora que me designar.

 Quer que lhe diga uma coisa?
disse alegremente o comerciante. Eu no sou homem de etiqueta; sou c do povo.
Simpatizo com o senhor, e sei a simpatia que minha cunhada lhe tem. Faa uma
coisa: venha jantar conosco domingo.

Adolfo no pde conter a sua
alegria. Evidentemente no contava com tamanha mar de felicidade. Agradeceu e
aceitou o convite de Rodrigo e saiu.

No domingo seguinte, apresentou-se
Adolfo em casa do comerciante. Ia de ponto em branco, sem que esta expresso se
deva entender no sentido da alta elegncia fluminense. Adolfo era pobre e
vestia com apuro relativamente  sua classe. Estava longe porm do rigor e da
opulncia aristocrtica.

D. Pulquria recebeu o pretendente
com aquelas carcias que as velhas de bom corao costumam ter. Rodrigo
desfez-se em solcitos cumprimentos. S Miloca parecia indiferente.
Estendeu-lhe a ponta dos dedos, e nem olhou para ele enquanto o msero namorado
murmurou algumas palavras relativas ao desastre. O intrito foi mau. D.
Pulquria percebeu isso, e tratou de animar o rapaz, falando-lhe com animada
familiaridade.

Nunca a filha de Rodrigo parecera
to formosa aos olhos de Adolfo. A mesma severidade lhe dava um ar distinto e
realava a incomparvel beleza das suas feies. Mortificava-o,  verdade, a
indiferena; mas podia ele esperar mais alguma coisa logo da primeira vez?

Miloca tocou piano a convite do
pai. Era excelente pianista, e entusiasmou deveras o pretendente, que no pde
disfarar a sua impresso e murmurou um respeitoso cumprimento. Mas a moa
limitou-se a um gesto de cabea, acompanhado de um olhar que parecia dizer: O
senhor entende disto?.

Durante o jantar, a velha e o
cunhado fizeram galhardamente as honras da casa. Adolfo ia perdendo a pouco e
pouco as maneiras cerimoniosas, conquanto a atitude de Miloca lhe acanhasse o
esprito. Era inteligente, polido e galhofeiro; a boa vontade dos olhos e as
qualidades reais dele venceram em pouco tempo grande caminho. No fim do jantar
era um conhecido velho.

 Tenho uma idia, disse Rodrigo
quando chegaram  sala. Vamos dar um passeio?

A idia foi aceita por todos,
exceto por Miloca que declarou estar incomodada, pelo que a idia ficou sem
execuo.

Adolfo saiu de l mal
impressionado; e teria desistido da empresa, se o amor no fosse engenhoso em
derrubar imaginariamente todas as dificuldades deste mundo. Continuou a freqentar
a casa de Rodrigo, onde era recebido com verdadeira satisfao, menos por
Miloca que parecia cada vez mais indiferente ao namorado.

Vendo que a situao do rapaz no
melhorava, e parecendo-lhe que a sobrinha no acharia melhor marido do que ele,
interveio D. Pulquria, no por meio da autoridade, mas com as armas dceis da
persuaso.

 Acho singular, Miloca, a maneira
por que tratas o Sr. Adolfo.

 De que maneira o trato?
perguntou a moa mordendo os beios.

 Secamente. E no compreendo isto
porque ele  um excelente moo, muito bem-educado, e alm disso j nos prestou
um servio em ocasio sria.

 Tudo isso  verdade, respondeu
Miloca, mas eu no sei como quer que o trate. Meu modo  esse. No posso afetar
o que no sinto; e a sinceridade creio que  uma virtude.

  tambm a virtude do sr.
Adolfo, observou D. Pulquria sem parecer abalada com a sequido da sobrinha;
devias ter reparado que  um moo muito sincero, e eu...

Aqui parou D. Pulquria por um
artifcio que lhe pareceu excelente: esperou que a curiosidade de Miloca lhe
pedisse o resto. Mas a sobrinha parecia completamente ausente dali, e no deu
mostras de querer saber o resto do perodo.

D. Pulquria fez um gesto de
despeito, e no disse palavra, enquanto Miloca folheava os jornais em todos os
sentidos.

 No acho casa, disse ela depois
de algum tempo.

 Casa? perguntou D. Pulquria
admirada.

  verdade, minha tia, disse
Miloca sorrindo, eu pedi a papai para que nos mudssemos daqui. Acho isto muito
feio: no faria mal que morssemos em algum bairro mais bonito. Papai disse que
sim, e eu ando a ler os anncios...

 Ainda agora sei disso, disse D.
Pulquria.

 Casas aparecem muitas, continuou
a moa, mas as ruas no prestam. Se fosse no Catete...

 Ests doida? perguntou D.
Pulquria; l as casas so mais caras do que aqui, e alm disso transtornaria o
negcio de teu pai. Admira como ele consente em semelhante coisa!

Miloca pareceu no atender s
objees da tia. Esta, que era sagaz, e vivia com a sobrinha havia muito tempo,
atinava com a razo do recente capricho. Levantou-se e ps a mo na cabea da
moa.

 Miloca, por que hs de ser
assim?

 Assim como?

 Por que hs de olhar tanto para
cima?

 Se titia est de p, respondeu
maliciosamente a moa, eu hei de por fora olhar para cima.

D. Pulquria achou graa 
resposta evasiva que a sobrinha lhe deu e no pde reter um sorriso.

 Tonta! lhe disse a boa velha.

E acrescentou:

 Tenho pensado muito em ti.

 Em mim? perguntou ingenuamente
Miloca.

 Sim; nunca pensaste no
casamento?

 Nunca.

 E se aparecesse um noivo digno
de ti?

 Digno de mim? Conforme; se eu o
amasse...

 O amor vem com o tempo. H bem
perto de ns algum que te ama, um moo digno de toda a estima, laborioso,
grave, um marido como no h muitos.

Miloca desatou a rir.

 E titia viu isso primeiro que
eu? perguntou ela. Quem  esse achado?

 No adivinhas?

 No posso adivinhar.

 O Adolfo, declarou D. Pulquria
depois de um minuto de hesitao.

Miloca franziu o sobrolho; depois
deu uma nova risada.

 De que te ris?

 Acho engraado. Com que ento o
Sr. Adolfo dignou-se olhar para mim? No tinha percebido; no podia esperar
tamanha felicidade. Infelizmente, no o amo... e por mais digno que seja o
noivo, se eu o no amar vale para mim o mesmo que um vendedor de fsforos.

 Miloca, disse a velha contendo a
indignao que lhe causavam estas palavras da sobrinha, o que acaba de dizer
no  bonito, e eu...

 Perdo, titia, interrompeu Miloca,
no se d por ofendida; respondia gracejando a uma notcia que tambm me
pareceu gracejo. A verdade  que eu no desejo casar-me. Quando vier a minha
hora, saberei tratar seriamente o noivo que o cu me destinar. Creio porm que
no h de ser o sr. Adolfo, um p-rapado...

Aqui a boa velha cravou um olhar
de indignao na sobrinha, e saiu. Miloca levantou os ombros e foi tocar umas
variaes de Thalberg.

CAPTULO III

A causa de Adolfo estava
condenada, e parece que ele ajudava o seu triste destino. J vemos que Miloca
aborrecia nele a sua no brilhante condio social, que era alis um ponto de
contato entre ambos, coisa que a moa no podia compreender. Adolfo,
entretanto, alm desse pecado original, tinha a mania singular de fazer
discursos humanitrios, e mais do que discursos, aes; perdeu-se de todo.

Miloca no era cruel; pelo
contrrio, tinha sentimentos caridosos; mas, como ela mesma disse um dia ao
pai, nunca se deve dar esmola sem luvas de pelica, porque o contato da misria
no aumenta a grandeza da ao. Um dia, em frente da casa, caiu uma preta velha
ao cho, abalroada por um tlburi; Adolfo, que ia a entrar, correu  infeliz,
levantou-a nos braos e levou-a  botica da esquina, onde a deixou curada.
Agradeceu ao cu o ter-lhe proporcionado o ensejo de uma bela ao diante de
Miloca que estava  janela com a famlia, e subiu alegremente as escadas. D.
Pulquria abraou o heri; Miloca mal lhe estendeu a ponta dos dedos.

Rodrigo e D. Pulquria conheciam o
carter da moa e procuravam modific-lo por todas as maneiras, lembrando-lhe
que o nascimento dela no era to brilhante que pudesse ostentar tamanho
orgulho. A tentativa era sempre intil. Duas causas havia para que ela no
mudasse de sentimentos: a primeira era proveniente da natureza; a segunda da
educao. Rodrigo estremecia a filha, e buscou dar-lhe uma educao esmerada.
F-la entrar como pensionista em um colgio, onde Miloca ficou em contato com
as filhas das mais elevadas senhoras da capital. Afeioou-se a muitas delas,
cujas famlias visitou desde a infncia. O pai tinha orgulho em ver que a filha
era assim to festejada nos primeiros sales, onde alis ele nunca passou de um
intruso. Miloca bebeu assim um ar que no era precisamente o do armarinho da
Cidade Nova.

Que vinha pois fazer o msero
Adolfo nesta galera? No era assim o marido que a moa sonhava; a imaginao da
orgulhosa dama aspirava a maiores alturas. Podia no exigir tudo quanto quisera
ter, um prncipe ou um duque se os houvesse c disponveis; mas entre um
prncipe e Adolfo a distncia era enorme. Donde resultava que a moa no se
limitava a um simples desdm; tinha dio ao rapaz porque a seus olhos era
grande afronta, no j nutrir esperanas, mas simplesmente am-la.

Para completar esta notcia do
carter de Miloca,  mister dizer que ela sabia do amor de Adolfo muito antes
que o pai e a tia tivessem conhecimento dele. Adolfo estava persuadido que a
filha de Rodrigo nunca tinha reparado nele. Iludia-se. Miloca possua essa
qualidade excepcional de ver sem olhar. Percebeu que o rapaz gostava dela,
quando o via na igreja ou em alguma partida em casa de amizade no mesmo bairro.
Perceber isto foi conden-lo.

Ignorando todas estas coisas,
Adolfo atribua  sua m ventura o no ter ganho a menor polegada de terreno.
No ousava comunicar as suas impresses ao comerciante nem  cunhada, posto
descobrisse que ambos eram favorveis ao seu amor. Meditou longamente no caso,
e resolveu dar um golpe decisivo.

Um ex-comerciante abastado da
vizinhana casou uma filha, e convidou a famlia de Rodrigo para as bodas.
Adolfo tambm recebeu convite e no deixou de comparecer, disposto a espreitar
ali uma ocasio de falar a Miloca, o que no lhe fora possvel nunca em casa
dela. Para os amantes multido quer dizer solido. No acontece o mesmo
com os pretendentes. Mas Adolfo tinha um plano feito; alcanaria danar com
ela, e nessa ocasio soltaria a palavra decisiva. A fim de obter uma concesso
que julgava difcil na noite do baile, pediu-lhe uma quadrilha, na vspera, em
casa dela, em presena da tia e do pai. A moa concedeu-lha sem hesitao, e se
o rapaz pudesse penetrar no esprito dela, no teria aplaudido, como fez, a sua
resoluo.

Miloca estava deslumbrante na sala
do baile, e ofuscou completamente a noiva, objeto da festa. Se Adolfo estivesse
nas boas graas dela, teria sentido legtimo orgulho ao ver a admirao que ela
despertava em torno de si. Mas para um namorado repelido no h pior situao
do que ver desejado um bem que lhe no pertence. A noite foi pois um suplcio
para o rapaz.

Afinal chegou a quadrilha
concedida. Adolfo atravessou a sala trmulo de comoo e palpitante de
incerteza, e estendeu a mo a Miloca. A moa levantou-se com a graa do costume
e acompanhou o par. Durante as primeiras figuras, Adolfo no ousou dizer
palavra sobre coisa nenhuma. Ao ver porm que o tempo corria, e era necessrio
uma deciso, dirigiu-lhe algumas palavras banais como so as primeiras palavras
de um homem pouco afeito a tais empresas.

Pela primeira vez Miloca encarou o
namorado, e, longe do que se poderia supor, no havia em seu gesto a menor
sombra de aborrecimento; pelo contrrio, parecia animar o novel cavalheiro a
mais positivo ataque.

Animado com esse intrito, Adolfo
foi direto ao corao do assunto.

 Talvez, D. Emlia, disse ele,
talvez tenha notado que eu...

E parou.

 Que o senhor... o qu? perguntou
a moa que parecia saborear a perplexidade do rapaz.

 Que eu sinto...

Nova interrupo.

Era chegada a Chaine des Dames.
Miloca deixou o rapaz meditar nas dificuldades da sua posio.

Sou um asno, dizia Adolfo
consigo. Pois que razo me arriscarei a deixar para depois uma explicao que
vai em to bom caminho? Ela parece disposta...

No primeiro intervalo reatou a
conversao.

 Dir-lhe-ei tudo de uma vez... Amo-a.
Miloca fingiu-se admirada.

 A mim? perguntou ela
ingenuamente.

 Sim... atrevi-me a... Perdoa-me?

 Com uma condio.

 Qual?

 Ou antes, com duas condies. A
primeira  que se h de esquecer de mim; a segunda  que no h de voltar l 
casa.

Adolfo olhou espantado para a moa
e durante alguns segundos no achou resposta que lhe dar. Preparou-se para
tudo, mas aquilo ia alm dos seus clculos. A nica coisa que lhe pde dizer
foi esta pergunta:

 Fala srio?

Miloca fez um gesto de clera, que
reprimiu logo; depois sorriu e murmurou:

 Que se atreva a amar-me, 
muito, mas injuriar-me,  demais!

 Injria pede injria, retorquiu
Adolfo.

Miloca desta vez no olhou para
ele. Voltou-se para o cavalheiro que ficava prximo e disse:

 Quer conduzir-me ao meu lugar?

Deu-lhe o brao e atravessou a
sala, no meio do pasmo geral. Adolfo humilhado, vendo-se alvo de todas as
vistas, procurou esquivar-se. D. Pulquria no viu o que se passou; estava
conversando com a dona da casa em uma saleta contgua; Rodrigo jogava nos
fundos da casa.

Aquele misterioso lance teatral
foi o assunto das palestras durante o resto da noite. Impossvel foi porm
saber a causa dele. O dono da casa, sabedor do acontecimento, pediu desculpa
dele  filha de Rodrigo, pois julgava ter parte indireta nele pelo fato de
haver convidado Adolfo. Miloca agradeceu a ateno, mas nada revelou do que se
passara.

Nem o pai nem a tia souberam de
nada; no dia seguinte porm recebeu Rodrigo uma longa carta de Adolfo relatando
o sucesso da vspera e pedindo desculpa ao velho de ter dado causa a um
escndalo. Nada ocultou do que se passara, mas absteve-se de moralizar a
atitude da moa. Rodrigo conhecia o defeito da filha e no lhe foi difcil
perceber que a causa primordial do acontecimento fora ela. Todavia no lhe
disse nada. D. Pulquria porm foi menos discreta na primeira ocasio que se
lhe ofereceu, disse amargas verdades  sobrinha, que lhas ouviu sem replicar.

CAPTULO IV

Felizes aqueles cujos dias correm
com a insipidez de uma crnica vulgar. Geralmente os dramas da vida humana so
mais tolerveis no papel que na realidade.

Poucos meses depois da cena que
deixamos relatada, a famlia de Miloca sofreu um grave revs pecunirio;
Rodrigo perdeu o pouco que tinha, e no tardou que a este acontecimento
sucedesse outro no menos sensvel: a morte de D. Pulquria. Reduzido  extrema
pobreza e achacado de molstias, Rodrigo viveu ainda alguns meses atribulado e
aborrecido da vida.

Miloca mostrou nesses dias amargos
uma grande fora de nimo, maior do que se podia esperar daquele esprito
quimrico. Bem sabia ela que o seu futuro era negro e nenhuma esperana poderia
vir anim-lo. Todavia, parecia completamente alheia a essa ordem de consideraes.

Rodrigo faleceu repentinamente uma
noite em que parecia comear a recobrar a sade. Era o ltimo golpe que vinha
ferir a moa, e esse no o suportou ela com a mesma coragem at ali
manifestada. Uma famlia da vizinhana ofereceu-lhe asilo logo na noite do dia
em que se enterrou o pai. Miloca aceitou o favor, disposta a dispens-lo por
qualquer maneira razovel e legtima.

No tinha muito que escolher. S
uma carreira lhe estava aberta: a do professorado. A moa resolveu-se a ir
ensinar em algum colgio. Custava-lhe isto ao orgulho, e era com certeza a
morte de suas esperanas aristocrticas. Mas segundo ela disse a si mesma, era
isso menos humilhante do que comer as sopas alheias. Verdade  que as sopas
eram servidas em pratos modestos...

Nesse projeto estava,  apesar de
combatido pela famlia que to afetuosamente lhe abrira as portas,  quando
apareceu em cena um anjo enviado do cu. Era uma de suas companheiras de
colgio, casada de fresco, que vinha pedir-lhe o obsquio de ir morar com ela.
Miloca recusou o pedido com alguma resoluo; mas a amiga vinha disposta a
esgotar todos os argumentos possveis at vencer as repugnncias de Miloca. No
lhe foi difcil; a altiva rf cedeu e aceitou.

Leopoldina era o nome da amiga que
lhe aparecera como um deus ex machina, acompanhada pelo marido, jovem
deputado do Norte, governista inabalvel e aspirante a ministro. Quem
conversava com ele durante meia hora, nutria logo algumas dvidas sobre se os
negcios do Estado ganhariam muito em que ele os dirigisse. Dvida realmente
frvola, que ainda no fechou a ningum as avenidas do poder.

Leopoldina era o contraste de
Miloca; tanto uma tinha de altiva, imperiosa e seca, quanto a outra de dcil,
singela e extremamente afvel. E no era esta a nica diferena. Miloca era sem
dvida uma moa distinta; mas era mister estar s. A sua distino precisava
no ser comparada com outra. Nesse terreno tambm Leopoldina lhe levava muita
vantagem. Tinha uma distino mais prpria, mais natural, mais inconsciente.
Onde porm Miloca lhe levava a melhor era nos dotes fsicos, o que no quer
dizer que Leopoldina no fosse bela.

Para ser exato devo dizer que a
filha de Rodrigo no aceitou alegremente, nos primeiros dias, a hospitalidade
de Leopoldina. Orgulhosa como era, doa-lhe a posio dependente em que se
achava. Mas isso durou pouco, graas  extrema habilidade da amiga, que
empregou todos os esforos para disfarar a aspereza das circunstncias,
colocando-a na posio de pessoa de famlia.

Alcanara Miloca os seus desejos.
Vivia numa sociedade bem diferente daquela em que vivera a famlia. J no via
todas as tardes o modesto boticrio da esquina ir jogar o gamo com o pai; no
suportava as histrias devotas de D. Pulquria; no via  mesa uma velha
doceira amiga de sua casa; nem parava  porta do armarinho quando voltava da
missa nos domingos. Era muito outra sociedade, era a nica que ela ambicionava
e compreendia. Aceitaram todos a posio em que Leopoldina tinha a amiga; muitas das moas que l iam foram suas companheiras de colgio;
tudo lhe correu fcil, tudo se lhe tornou brilhante.

Uma s coisa, porm, vinha de
quando em quando escurecer o esprito de Miloca. Ficaria ela sempre naquela
posio, que apesar de excelente e brilhante, tinha a desvantagem de ser
equvoca? Esta pergunta, cumpre diz-lo, no lhe surgia no esprito por si
mesma, mas como preldio de outra idia, capital para ela. Por outras palavras,
o que a agitava principalmente era o problema do casamento. Casar-se, mas
casar-se bem, eis o fim e a preocupao de Miloca. No faltava onde escolher.
Iam  casa de Leopoldina muitos rapazes bonitos, elegantes, distintos, e no
poucos ricos. Talvez Miloca ainda no sentisse amor verdadeiro por nenhum
deles; mas essa circunstncia era puramente secundria no sistema adotado por
ela.

Parece que Leopoldina tambm
pensara nisso, porque mais de uma vez tocara nesse assunto com a liberdade que
lhe dava a afeio. Miloca respondia evasivamente, mas no repelia de todo a
idia de um consrcio feliz.

 Por ora, acrescentava ela, ainda
o meu corao no bateu; e o casamento sem amor  uma coisa terrvel, penso eu;
mas quando vier o amor, espero em Deus que serei feliz. S-lo-ei?

 S-lo-s, respondeu comovida a
amiga hospitaleira. Nesse dia conta que eu te ajudarei.

Um beijo terminava estas
confidncias.

Infelizmente para Miloca, estes
desejos pareciam longe da realizao. Dos rapazes casadeiros nenhum contestava
a beleza da moa; mas corria entre eles uma teoria de que a mais bela mulher
deste mundo precisa de no vir com as mos abanando.

Ao cabo de dois anos de inteis
esperanas, Miloca transigiu com a sua altivez, trocou o papel de praa que
pede assdio pelo de exrcito sitiador.

Um primo segundo de Leopoldina foi
o seu primeiro objetivo. Era um jovem bacharel, formado poucos meses antes em S. Paulo, rapaz inteligente, alegre e franco. Os primeiros fogos das baterias de Miloca
produziram efeito; sem ficar apaixonado de todo, comeou a gostar da rapariga.
Infelizmente para ela, coincidiu este ataque de frente com um ataque de flanco,
e a praa foi tomada por uma rival mais feliz.

No desanimou a moa. Dirigiu os
seus tiros para outro ponto, desta vez no pegaram as bichas, o que obrigou a
bela pretendente a lanar mo de terceiro recurso. Com mais ou menos felicidade,
andou Miloca nesta campanha durante um ano, sem alcanar o seu mximo desejo.

A derrota no lhe quebrou o
orgulho; antes lhe deu um toque de azedume e hipocondria, que a fez um tanto
insuportvel. Mais de uma vez pretendeu deixar a casa da amiga e ir professar
em algum colgio. Mas Leopoldina resistia sempre a esses projetos, j mais
veementes que ao princpio. O despeito parecia aconselhar  bela rf o
completo esquecimento de seus planos matrimoniais. Compreendia agora que,
talvez pela mesma razo com que ela recusara o amor de Adolfo, recusavam-lhe
agora o amor dela. A punio, dizia ela consigo, fora completa.

A imagem de Adolfo surgiu ento em
seu esprito atribulado e abatido. No se arrependeu do que fizera; mas
lamentou que Adolfo no estivesse em posio cabal de lhe realizar os seus
sonhos e ambies.

Se assim fosse, pensava Miloca,
eu seria hoje feliz, porque esse amava-me.

Tardias queixas eram aquelas. O
tempo corria, e a moa com o seu orgulho se definhava na solido povoada da
sociedade a que aspirava desde os tempos da sua mediania.

CAPTULO V

Uma noite, estando no teatro, viu
em um camarote fronteiro duas moas e dois rapazes; um dos rapazes era Adolfo.
Miloca estremeceu; involuntariamente, no de amor, no de saudade, mas de
inveja. Seria uma daquelas moas esposa dele? Ambas eram distintas, elegantes;
ambas formosas. Miloca perguntou a Leopoldina se conhecia os dois rapazes; o
marido da amiga foi quem lhe respondeu:

 S conheo um deles; o mais
alto.

O mais alto era Adolfo.

 Parece-me que tambm o conheo,
disse Miloca, e foi por isso que lho perguntei. No  um empregado do Tesouro?

 Talvez fosse, respondeu o
deputado; agora  um amvel vadio.

 Como assim?

 Herdou do padrinho, explicou o
deputado.

Leopoldina que tinha assentado o
binculo para ver as moas perguntou:

 Ser casado com alguma daquelas
moas?

 No;  amigo da famlia,
respondeu o deputado; e parece que no est disposto a casar.

 Por qu? aventurou Miloca.

 Dizem que teve um amor infeliz
outrora.

Miloca estremeceu de alegria, e
ps o binculo para o camarote de Adolfo. Este pareceu perceber que era objeto
das indagaes e conversas das trs personagens, e j havia conhecido a antiga
amada; todavia, disfarou e conversou alegremente com as moas do seu camarote.

Depois de algum silncio, disse
Miloca:

 Parece que o senhor acredita em
romances; pois h quem conserva assim um amor a ponto de no querer casar?

E como se se arrependesse desta
generalidade, emendou: Nos homens  difcil encontrar tamanha constncia s
afeies passadas.

 Nem eu lhe disse que ele
conservava essa afeio, observou o deputado; esse amor infeliz do meu amigo
Adolfo...

  teu amigo? perguntou Leopoldina.

 , respondeu o marido. E
continuou: Esse amor infeliz do meu amigo Adolfo serviu para lhe dar uma triste
filosofia a respeito de amores. Jurou no casar...

 E onde escreveu esse juramento?

 No acredita que ele o cumpra?
perguntou sorrindo o marido de Leopoldina.

 Francamente, no, respondeu
Miloca.

Dias depois levou o deputado 
casa o seu amigo Adolfo e o apresentou s duas senhoras. Adolfo falou a Miloca
como pessoa de seu conhecimento, mas nenhuma palavra ou gesto revelou aos donos
da casa o sentimento que ele tivera outrora. A mesma Miloca compreendeu que
tudo estava extinto no corao do rapaz; mas no era fcil reviver a chama
apagada? Miloca contava consigo, e reuniu todas as suas foras para uma luta
suprema.

Infelizmente era verdade o que
dissera o marido de Leopoldina. Adolfo parecia ter mudado completamente. J no
era o rapaz afetuoso, e tmido de outro tempo; mostrava-se agora gelado em
coisas do corao. No s o passado estava extinto, como nem era possvel
criar-lhe nenhum presente. Miloca compreendeu isto no fim de alguns dias, e
todavia no desanimou.

Animou-a nesse propsito
Leopoldina, que percebeu a tendncia da amiga para o rapaz sem todavia conhecer
uma slaba do passado que havia entre ambos. Miloca negou a princpio, mas
conveio-lhe dizer tudo, e mais do que isso, no pde resistir, porque ela
comeava a amar deveras o rapaz.

 No desanimes, lhe disse a
amiga; estou que hs de triunfar.

 Quem sabe? murmurou Miloca.

Esta pergunta foi triste e
desanimada. Era a primeira vez que ela amava, e isto lhe pareceu uma espcie de
castigo que a Providncia lhe infligia.

 Se ele me no corresponder,
pensava Miloca, sinto que serei a mais desgraada de todas as mulheres.

Adolfo percebeu o que se passava
no corao da moa, mas pensou que era menos sincero o afeto que ela nutria.
Quem lhe pintou claramente a situao foi o marido de Leopoldina, a quem esta
havia contado tudo, com a certeza talvez da indiscrio dele.

Se Adolfo ainda a amasse, seriam
ambos felicssimos; mas sem o amor dele que esperana teria a moa? Digamos a
verdade toda; Adolfo era em toda a extenso da palavra um rapaz cnico, mas
cobria o cinismo com uma capa de seda, que o fazia apenas indiferente; de
maneira que se algum raio de esperana podia entrar no nimo de Miloca bem
depressa se lhe devia esvaecer.

E quem arrancar a esperana de um
corao que ama? Miloca continuava a esperar, e de certo tempo em diante alguma
coisa lhe fazia crer que a esperana no seria v. Adolfo parecia comear a
reparar nela, e a ter alguma simpatia. Estes sintomas foram crescendo a pouco e
pouco, at que Miloca teve um dia certeza de que o dia da sua felicidade estava
prximo. Contara com a sua admirvel beleza, com os vivos sinais do seu afeto,
com algum germe do passado no de todo extinto no corao de Adolfo. Um dia
acordou confiada de que todas estas armas lhe haviam dado o triunfo.

No tardou que comeasse o perodo
epistolar. Seria coisa fastidiosa reproduzir aqui as cartas que os dois namorados
trocaram durante um ms. Qualquer das minhas leitoras (sem ofensa de ningum)
conhece mais ou menos o que se diz nesse gnero de literatura. Copiarei todavia
dois trechos interessantes de ambos. Seja o primeiro de Adolfo:

... Como poderia crer que eu
houvesse esquecido o passado? Doloroso foi ele para mim, mas ainda mais que
doloroso, delicioso; porque o meu amor me sustentava naquele tempo, e eu era
feliz, posto no fosse amado. A ningum mais amei seno a ti; mas confesso que
at h pouco, o mesmo amor que te votei outrora j havia desaparecido. Tiveste
o condo de reavivar uma chama j apagada. Fizeste um milagre, que eu tinha por
impossvel.

E confesso hoje, confesso sem
hesitao, que tu vieste acordar um corao morto, e morto por ti mesma. Bem
hajas tu! teu, serei teu at  morte!...

A estas calorosas expresses,
respondia Miloca com igual ardor. De uma de suas cartas, a quinta ou sexta,
copio estas palavras:

... Obrigada, meu Adolfo! tu s
generoso, tu soubeste perdoar, porque soubeste amar outra vez aquela a quem
devias ter dio. Bem cruel fui eu em no conhecer a grandeza de tua alma! Hoje
que te compreendo, choro lgrimas de sangue, mas ao mesmo tempo agradeo ao cu
o ter-me dado a maior ventura desta vida, que  lograr a ventura que uma vez se
repeliu... Se tu soubesses como eu te amo, escrava, pobre, mendiga, castigada
por ti e desprezada por ti, amo-te, amar-te-ei sempre! etc., etc.

Numa situao como esta, o
desenlace parecia claro; nada obstava que se casassem dali a um ms. Miloca era
maior e no tinha nenhum parente. Adolfo era livre. Tal era a soluo prevista
por Leopoldina e seu marido; tal era a de Miloca.

Mas quem sabe o que nos guarda o
futuro? E a que desvairamentos no arrasta o amor quando os coraes so
fracos? Um dia de manh Leopoldina achou-se s; Miloca tinha desaparecido.
Como, e por qu, e de que modo? Ningum o soube. Com quem desaparecera,
soube-se logo que fora Adolfo, que no voltou  casa do deputado.

Deixando-se arrastar pelo rapaz a
quem amava, Miloca apenas consultou o seu corao; quanto a Adolfo, nenhuma
idia de vingana o dominara; cedeu a sugestes de libertinagem.

Durante cerca de um ano, ningum
soube dos dois fugitivos. A princpio soube-se que estavam na Tijuca; depois
desapareceram dali sem que Leopoldina alcanasse a notcia deles.

Um ano depois do acontecimento
narrado acima, reapareceu na corte o fugitivo Adolfo. Correu logo que vinha
acompanhado da interessante Miloca. Casados? No; e esse passo dado no caminho
do erro foi funesto  ambiciosa moa. Que outra coisa podia ser? O mal engendra
o mal.

Adolfo parecia estar aborrecido da
aventura; e todavia Miloca ainda o amava como no princpio. Iludiu-se a
respeito dele, nesses ltimos tempos, mas afinal compreendeu que entre a atual
situao e o fervor dos primeiros dias havia um abismo. Ambos arrastaram a
cadeia durante um ano mais, at que Adolfo embarcou para Europa sem dar notcia
de si  infeliz moa.

Miloca desapareceu tempos depois.
Uns dizem que se fora  cata de novas aventuras; outros que se matara. E havia
razo para ambas estas verses. Se morreu a terra lhe seja leve!
