Conto, Histria de uma fita azul, 1876

Histria de uma fita azul



Texto-fonte:

Obra Completa, Machado de Assis, vol. II,

Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.



Publicado originalmente em Jornal
das Famlias, dezembro de 1875 a fevereiro de 1876.

CAPTULO
PRIMEIRO

Marianinha achou um dia na cesta
de costura um pedao de fita azul. Era naturalmente resto de algum cinto ou
coisa que o valha. Lembrou-se de bordar na fita dois nomes: Marianinha e
Gustavo.

Gustavo! (interrompe neste ponto o
leitor) mas por que Gustavo e no Alfredo, Benedito ou simplesmente Damio?

Por uma razo muito clara e
singela, leitor ignaro; porque o namorado de Marianinha no se chamava Alfredo,
nem Benedito, nem Damio, mas Gustavo; no Gustavo somente, mas Gustavo da
Silveira, rapaz de vinte e sete anos, moreno, cabelo preto, olhos idem,
bacharel, aspirante a juiz municipal, tendo sobre todas estas qualidades a
de possuir umas oitenta aplices da dvida pblica.

Amavam-se estas duas criaturas, se
assim se pode dizer de um capricho comeado num baile e no sei se destinado a
morrer numa corrida. A verdade  que no curto espao de trs meses haviam j
trocado cinqenta cartas, algumas compridas, todas cheias de protestos de amor
at  morte. Gustavo dizia-lhe mais de uma vez que ela era o anjo com
que ele sonhara durante toda a vida, e ela retribua-lhe esta fineza dizendo a
mesma coisa, mas com estilo diferente, sendo o mais espantoso deste caso que
nem ele nem ela haviam sonhado com nenhum anjo. Acrescentarei at que o jovem
Gustavo havia j feito a mesma revelao a quatro namoradas, o que diminui a
sinceridade da que fazia agora  quinta. Excludas porm estas e outras flores
de retrica, a verdade  que eles pareciam gostar um do outro, e se quiserem
saber mais alguma coisa leiam a novela para diante.

Lembrou-se a Marianinha de bordar
o nome do namorado e o seu no pedao de fita azul; bordou-os com linha de seda
branca, e com tanta perfeio o fez, que teve vontade de ir mostrar o trabalho
 av. A idia porm de que a Sr. D. Leonarda lhe passaria uma spera
repreenso a demoveu do intento e a obra ficou indita at passar s mos do
jovem Gustavo.

No pense a leitora que a Sr. D.
Leonarda ignorasse absolutamente o namoro da neta. Oh! no! A Sr. Leonarda,
alm de ser excelente doceira, tinha o olho mais perspicaz deste mundo.
Percebeu o namoro e calou-se a ver (dizia ela) em que paravam as modas. J
estava de longa data acostumada a estes romances da neta, e s lastimava no
ver o captulo do fim.

A culpa  dela, pensava a Sr. D.
Leonarda. Quem h de querer casar com uma estouvada daquele gnero, que ainda
bem no acabou um namoro, j comea outro?

Indiretamente fazia-lhe sentir
esta censura toda ntima, dizendo-lhe s vezes:

 O Major Alvarenga (era o defunto
esposo da Sr. D. Leonarda) foi o primeiro e ltimo namoro. Vi-o num dia de
entrudo; casamo-nos logo depois da Pscoa. Hoje, as moas gostam de andar de
namoro em namoro, sem acabar de escolher um. Por isso muitas ficam para tias.

Ora,  de notar que o bacharel
Gustavo cara-lhe em graa, e que de todos os namorados de Marianinha era este
o que mais adequado lhe parecia. No aprovaria certamente a idia da fita
bordada com os dois nomes, porque a Sr. D. Leonarda tinha como teoria que uma
moa apenas deve olhar para o namorado; escrever-lhe era j atrevimento, e
(usemos os seus prprios termos) e profunda imoralidade. Mas desejava e muito
que aquele casamento se fizesse, porque, mais que nenhum outro, o genro lhe
parecia de feio. Com um pouco mais de ardor da parte dos dois namorados,
estou certo de que nem escreveria estas pginas; tinham casado, estavam com
filhos, vivendo em paz. No precipitemos entretanto os acontecimentos,
esperemos ao segundo captulo.

CAPTULO II

Gustavo foi  casa de D. Leonarda
na quinta-feira seguinte, isto , dois dias depois do dia em que Marianinha acabava de bordar os dois nomes na fita azul.

 Tenho uma coisa para lhe dar,
disse a moa.

 Ah! O que ?

 Adivinhe.

 No posso adivinhar.

 Adivinhe.

 Um par de botes?

 No.

 Uma flor?

 No.

 Uma charuteira?

 No.

 No posso... Ora, espere...
Ser?... no... no .

 No  o qu?

 Um leno de assoar.

 Ora! respondeu Marianinha
encolhendo os ombros.

E tirou do bolso a fita azul com
os dois nomes bordados.

 Bonito! exclamou Gustavo.

  uma lembrana para se no
esquecer de mim.

 Oh! querida! pois eu hei
de nunca esquecer-me de voc. No  voc o anjo...

Aqui entrava a qinquagsima
edio do sonho que ele no tivera nunca.

Gustavo disfaradamente beijou a
fita azul e guardou-a no bolso, de maneira que o no visse a Sr. D. Leonarda.

Marianinha ficou muito contente
com o bom agasalho que tivera a sua lembrana no menos que com o elogio da
obra, to certo  que o amor no dispensa a vaidade, antes esta  muita vez
complemento daquele.

 Que lhe darei eu para que se no
esquea de mim? disse Gustavo da a pouco, em ocasio em que pde murmurar-lhe
estas palavras.

 Nada, disse a moa sorrindo.

 Ama-me ento como sempre?
perguntou ele.

 Como sempre!

Todo o resto do dilogo foi assim
por este gosto, como naturalmente o leitor e a leitora compreendem, se  que j
no passaram pelo mesmo como eu sou capaz de jurar.

Marianinha era muito graciosa,
alm de bonita. Os olhos eram pequenos e vivos; ela sabia-os mover com
muita gentileza. No era mulher que do primeiro lance fizesse apaixonar um
homem; mas com o tempo tinha o condo de insinuar-se-lhe no corao.

Foi isto justamente o que
aconteceu com o nosso jovem Gustavo, cujo namoro durava j mais tempo que os
outros. Comeara por brinquedo, e acabara srio. Gustavo foi-se a pouco e pouco
sentindo preso nas mos da moa, de maneira que o casamento, coisa em que no
pensara nunca, entrou a surgir-lhe no esprito como uma coisa muito desejvel e
indispensvel.

 Afinal, pensava ele, devo acabar
casado, e mais vale que seja com uma boa menina como aquela , alegre,
afetuosa, educada... A educao acab-la-ei eu, e o terreno  prprio para
isso; farei dela uma verdadeira esposa.

Com estas disposies, deixou
Gustavo as suas habituais distraes, teatros, passeios, ceatas e todo se
entregou ao cultivo do amor. D. Leonarda viu que a assiduidade era maior e
concluiu razoavelmente que desta vez iria o barco ao mar. Para animar a pequena
falou-lhe na convenincia de casar com pessoa que estimasse, e no deixasse de
dar duas ou trs esperanas ao pretendente.

As coisas foram assim andando de
modo que o bacharel assentou de ir pedir a moa  av por ocasio dos anos dela
(a av), que era a vinte e sete de outubro. Estavam ento no dia dez do
referido ms. Em novembro podiam estar unidos e felizes.

Gustavo conversou com alguns
amigos, e todos lhe aprovaram a resoluo, mormente os que freqentavam a casa
de D. Leonarda e no queriam ficar brigados com o futuro neto da viva do
major.

Um desses freqentadores, comensal
antigo, de passagem lhe observou que a moa era um tanto caprichosa; mas no o
fez com a idia de o afastar da pretenso, o que era difcil naquele caso, mas
antes por lhe aplanar a dificuldade mostrando-lhe o caminho que devia seguir.

 O corao  excelente,
acrescentou este informante; nisto sai  av e  me, que Deus tem.

 Isto  o essencial, disse
Gustavo; caprichos so flores prprias da idade; o tempo as secar de todo.
Gosto muito dela, e quaisquer que fossem os seus defeitos, casaria com ela.

 Oh! sem dvida! Pela minha parte
desde j lhe afiano que ho de ser felizes.

Tudo corria portanto comme sur
des roulettes. O pedido estava prestes; prestes o casamento. Gustavo
imaginou logo um plano de vida, mediante o qual ele seria no ano seguinte
deputado, logo depois presidente de provncia, e um dia alguma coisa mais. A
imaginao pintava-lhe a glria e o prazer que daria a sua mulher; imaginava um
filhinho, uma casa cercada de laranjeiras, um paraso...

CAPTULO III

Ora, logo na noite do dia 10,
estando a conversar com a namorada, esta lhe perguntou pela fita azul. Eram
passados seis meses desde a noite em que ela lha dera. Gustavo empalideceu; e a
razo era que, no estando naquele tempo apaixonado como agora, nunca
mais pusera olhos em cima da fita. Murmurou como pde alguma coisa, que ela no
ouviu, nem se lhe deu de ouvir, por haver logo percebido a sua perturbao.

 Naturalmente no sabe onde a
ps, disse ela com ar azedo.

 Ora!...

 Talvez a lanasse  rua...

 Que idia!

 Estou a ler isso no seu rosto.

 Impossvel! A fita est l em
casa...

 Pois bem, veja se a traz amanh.

 Amanh? balbuciou Gustavo.

 Perdeu-a, j sei.

 Oh! no; amanh trago-lhe a
fita.

 Jura?

 Que criancice! Juro.

O esprito de Gustavo achava-se
nessa ocasio na situao de um homem que se deitasse numa cama de espinhos.
Virava-se, revirava-se, espinhava-se, e daria cem ou duzentos mil-ris para
poder ter a fita ali mesmo no bolso. Queria ao menos ter certeza de que a
acharia em casa. Mas no tinha; e o rosto da moa como que lhe anunciava a
tempestade de arrufos que o esperaria no dia seguinte se no levasse a fita.

Efetivamente Marianinha no se riu
mais nessa noite. Gustavo saiu mais cedo que de costume e foi dali direito como
uma flecha para casa.

No tenho tintas na minha paleta
para pintar a cena da investigao da fita, que durou cerca de duas horas e
dava para dois captulos ou trs. Uma s gaveta no ficou em casa por examinar,
uma s caixa de chapu, um s escaninho de secretria. Veio tudo abaixo. A fita
obstinava-se em no aparecer. Gustavo imaginou que ela estaria na saladeira; a
saladeira estava vazia, e era o pior que lhe podia acontecer, porque o furioso
mancebo atirou-a contra um portal e reduziu-a a cacos.

Os dois criados andavam atnitos;
no compreendiam aquilo; muito menos compreendiam o motivo por que o amo os
descompunha, quando eles no tinham notcia nenhuma da fita azul.

Era j madrugada; a fita no dera
sinal de si; toda a esperana se dissipara como fumo. Gustavo tomou a resoluo
de se deitar, que os seus criados acharam excelente, mas que para ele foi
perfeitamente intil. Gustavo no pregou olho; levantou-se s oito horas do dia
11 fatigado, aborrecido, receoso de um imenso desastre.

Durante o dia fez algumas
investigaes relativas  famosa fita; todas elas tiveram o resultado das da
vspera.

Numa das ocasies em que estava
mais aflito, apareceu-lhe em casa um dos freqentadores da casa de D. Leonarda,
o mesmo com quem tivera o dilogo acima transcrito. Gustavo confiou-lhe tudo.

O Sr. Barbosa riu-se.

Barbosa era o nome do freqentador
da casa de D. Leonarda.

Riu-se e chamou-lhe criana;
afirmou-lhe que Marianinha era caprichosa, mas que uma fita era uma coisa de
pouco mais que nada.

 Que lhe pode resultar daqui?
disse o Sr. Barbosa com um gesto grave. Zangar-se a moa durante algumas horas?
Isso que vale se ela lhe h de dever a felicidade mais tarde? Meu amigo, eu no
conheo a histria de todos os casamentos que se tm feito debaixo do sol, mas
creio poder afirmar que nenhuma noiva deixou de casar por causa de um pedao de
fita.

Gustavo ficou mais consolado com
estas e outras expresses do Sr. Barbosa, que se despediu da a pouco. O
namorado, apenas chegou a noite vestiu-se com o maior apuro, perfumou-se,
acendeu um charuto, procurou sair de casa com o p direito, e enfiou para a
casa da Sr. D. Leonarda.

O corao batia-lhe mais
fortemente quando subiu a escada. Vieram abrir-lhe a cancela; Gustavo entrou e
achou na sala a av e a neta, a av risonha, a neta sria e grave.

Ao contrrio do que fazia em
outras ocasies, Gustavo no buscou desta vez achar-se a ss com a moa. Foi
esta quem procurou essa ocasio, no que a av a ajudou mui simplesmente, indo
ao interior da casa saber a causa de um rumor de pratos que ouvira.

 A fita? disse ela.

 A fita...

 Perdeu-a?

 No se pode dizer que esteja
perdida, balbuciou Gustavo; no a pude achar por mais que a procurasse; e a
razo...

 A razo?

 A razo  que eu... sim...
naturalmente est muito guardada... mas creio que...

Marianinha levantou-se.

 Minha ltima palavra  esta...
Quero a fita dentro de trs dias; se no ma der, tudo est acabado; no serei
sua!

Gustavo estremeceu.

 Marianinha!

A moa deu um passo para dentro.

 Marianinha! repetiu o pobre
namorado.

 Nem mais uma palavra!

 Mas...

 A fita, dentro de trs dias!

CAPTULO IV

Imagina-se, no se descreve a
situao em que ficou a alma do pobre Gustavo, que deveras amava a moa e que
por to pequena coisa via perdido o seu futuro. Saiu dali (desculpem a
expresso que no  muito nobre), saiu dali vendendo azeite s canadas.

 Leve o diabo o dia em que vi
aquela mulher! exclamava ele caminhando para casa.

Mas logo:

 No! ela no tem culpa: o
culpado nico sou eu! Quem me mandou ser to pouco zeloso de um mimo dado de
to boa feio? Verdade seja que eu ainda nesse tempo no tinha no corao o
que agora sinto...

Aqui parava o moo para examinar o
estado do seu corao, que reconhecia ser gravssimo, a ponto de lhe parecer
que, se no casasse com ela, impreterivelmente iria ter  cova.

H paixes assim, como devem saber
o leitor e a leitora, e se a dele no fosse assim,  muito provvel que eu no
tivesse de contar esta mui verdica histria.

Ao chegar  casa procedeu Gustavo
a uma nova investigao, que deu o mesmo resultado negativo. Passou uma noite
como se pode imaginar, e levantou-se de madrugada, aborrecido e furioso consigo
mesmo.

s 8 horas levou-lhe o criado o
caf do costume, e na ocasio em que lhe acendia um fsforo para o amo acender
charuto, aventurou esta conjetura:

 Meu amo chegaria a tirar a fita
da algibeira do palet?

 Naturalmente tirei a fita,
respondeu com rispidez o moo; no me lembra se tirei, mas  provvel que sim.

  que...

  qu?

 Meu amo deu-me h pouco tempo um
palet, e pode ser que...

Isto foi um raio de esperana no
nimo do pobre namorado. Deu um pulo da cadeira em que se achava, quase
entornou a xcara no cho, e sem mais prembulo perguntou ao criado:

 Joo! tu vieste salvar-me!

 Eu?

 Sim, tu. Onde est o palet?

 O palet?

 Sim, o palet...

Joo cravou os olhos no cho e no
respondeu.

 Dize! fala! exclamou Gustavo.

 Meu amo h de desculpar-me...
Aqui h tempos uns amigos convidaram-me para uma ceia. Eu nunca ceio porque me
faz mal; mas essa noite tive vontade de cear. Havia uma galinha...

Gustavo impaciente bateu com o p
no cho.

 Acaba! disse ele.

 Havia uma galinha, mas no havia
vinho. Era preciso vinho. Alm do vinho, houve quem lembrasse um paio, comida
indigesta, como meu amo sabe...

 Mas o palet?

 L vou. Faltava, portanto, algum
dinheiro. Eu, esquecendo por um instante os benefcios que recebera de meu amo
e sem reparar que uma lembrana daquelas guarda-se para sempre...

 Acaba, demnio!

 Vendi o palet!

Gustavo deixou-se cair na cadeira.

 Valia a pena fazer-me perder
tanto tempo, disse ele, para chegar a esta concluso! Estou quase certo de que
a fita estava no bolso desse palet!...

 Mas, meu amo, aventurou Joo,
no ser a mesma coisa comprar outra fita?

 Vai-te para o diabo!

 Demais, nem tudo est perdido.

 Como assim?

 Talvez o homem ainda no
vendesse o palet.

 Que homem?

 O homem do Pobre Jaques.

 Sim?

 Pode ser.

Gustavo refletiu um instante.

 Vamos l! disse ele.

Gustavo vestiu-se no curto prazo
de 7 minutos; saiu acompanhado do criado e a trote largo caminharam para a Rua
da Carioca.

Entraram na casa do Pobre
Jaques.

Acharam um velho assentado numa
cadeira examinando um par de calas que lhe levara o fregus talvez para
almoar nesse dia. O dono da casa oferecia-lhe pelo objeto cinco patacas; o
dono do objeto instava por mil e oitocentos. Afinal cortaram a dvida,
diminuindo o fregus um tosto e subindo o dono da casa outro tosto.

Acabado o negcio, o velho atendeu
aos dois visitantes, um dos quais, de impaciente andava de um lado para outro,
a passear os olhos nas roupas com a esperana de encontrar o suspirado palet.

Joo era conhecido do velho e
tomou a palavra.

 No se lembra de um palet que
eu lhe vendi h coisa de trs semanas? disse ele.

 Trs semanas!

 Sim, um palet.

 Um palet?

Gustavo fez um gesto de
impacincia. O velho no reparou no gesto. Ps-se a afagar o queixo com a mo
esquerda e os olhos no cho a ver se lembrava do destino que tivera o palet introuvable.

 Lembra-me de que lhe comprei um
palet, disse ele, e por sinal que tinha gola de veludo...

 Isso! exclamou Gustavo.

 Mas creio que o vendi, concluiu
o velho.

 A quem? perguntou Gustavo
desejoso e ansioso ao mesmo tempo de lhe ouvir a resposta.

Antes porm que a ouvisse,
ocorreu-lhe que o velho podia desconfiar do interesse com que procurava saber
de um palet velho, e julgou necessrio explicar que no se tratava de nenhuma
carteira, mas de uma lembrana de namorada.

 Seja l o que for, disse o velho
sorrindo, eu nada tenho com isso... Agora me lembro a quem vendi o palet.

 Ah!

 Foi ao Joo Gomes.

 Que Joo Gomes? perguntou o
criado.

 O dono da casa de pasto que fica
ali quase no fim da rua...

O criado estendeu a mo ao velho e
murmurou algumas palavras de agradecimento; quando porm voltou os olhos, no
viu o amo, que apressadamente se dirigia na direo indicada.

CAPTULO V

Joo Gomes animava os caixeiros e
a casa regurgitava de gente que comia o seu modesto almoo. O criado do
bacharel conhecia o dono da casa de pasto. Foi direito a ele.

 Sr. Joo Gomes...

 Ol! voc por aqui!

  verdade; venho tratar de um
assunto importante.

 Importante?

 Muito importante.

 Fale, respondeu Joo Gomes entre
receoso e curioso.

Ao mesmo tempo lanou um olhar
desconfiado para Gustavo que se conservara de parte.

 No comprou o senhor um palet
em casa do Pobre Jaques?

 No, senhor, respondeu muito
depressa o interpelado.

Era evidente que receava alguma
complicao de polcia. Gustavo compreendeu a situao e interveio para
sossegar o nimo do homem.

 No se trata de nada que seja
grave para o senhor, nem para ningum exceto para mim, disse Gustavo.

E contou o mais sumariamente que
pde o caso da fita, o que tranqilizou efetivamente o esprito do comprador do
palet.

 Uma fita azul, diz V. Sr.?
perguntou Joo Gomes.

 Sim, uma fita azul.

 Achei-a na algibeira do palet
e...

 Ah!

 Tinha dois nomes bordados, creio
eu...

 Isso.

 Obra muito fina!

 Sim, senhor, e ento?

 Ento? Ora, espere... Eu tive
esta fita alguns dias comigo... at que um dia... de manh... no, no era de
manh, era de tarde... mostrei-a a um fregus...

Estacou o Sr. Joo Gomes.

 Que mais? perguntou o criado do
bacharel.

 Creio que era o Alvarenga...
Era, era o Alvarenga. Mostrei-lha, gostou muito... e pediu-ma.

 E o senhor?

 Eu no precisava daquilo e
dei-lha.

Gustavo teve vontade de engolir o
dono da casa de pasto. Como porm nada adiantasse com esse ato de selvageria
preferiu fazer indagaes relativas ao Alvarenga, e soube que morava na Rua do
Sacramento.

 Ele guarda aquilo por
curiosidade, observou Joo Gomes; se V. S. lhe contar o que h, estou certo de
que lhe entrega a fita.

 Sim.

 Estou certo disso... At se
quiser eu mesmo lhe falo; ele h de c vir almoar e talvez a coisa se arranje
hoje mesmo.

 Tanto melhor! exclamou Gustavo.
Pois, meu amigo, veja se me consegue isso, e far-me- um grande favor. O Joo
aqui fica para me levar a resposta.

 No tem dvida.

Gustavo foi dali almoar no Hotel
dos Prncipes, onde Joo devia ir ter a dar-lhe conta do que houvesse. O criado
demorou-se muito menos porm do que pareceu ao ansioso namorado. J lhe parecia
que ele no viria mais, quando a figura de Joo assomou  porta. Gustavo
levantou-se  pressa e saiu.

 Que h?

 O homem apareceu...

 E a fita?

 A fita estava com ele...

 Achou-se?

 Estava com ele, porque o Joo
Gomes lha tinha dado, como meu amo sabe, mas parece que j no est.

 Inferno! exclamou Gustavo
lembrando-se de um melodrama em que ouvira exclamao anloga.

 J no est, continuou o criado
como se estivesse saboreando estas nsias do amo, j no est, mas podemos dar
com ela.

 Como?

 O Alvarenga  procurador, deu a
fita  filhinha do desembargador com quem trabalha. Ele mesmo incumbiu-se de
arranjar tudo...

Gustavo perdera de todo as
esperanas. A esquiva fita nunca mais lhe tornaria s mos, pensava ele, e com
esta idia ficou acabrunhado.

Joo entretanto reanimou-se como
pde, afianando-lhe que achava no Sr. Alvarenga muito boa vontade de o servir.

 Sabes o nmero da casa dele?

 Ele ficou de ir  casa de meu
amo.

 Quando?

 Hoje.

 A que horas?

 s ave-marias.

Era um suplcio faz-lo esperar
tanto tempo, mas como no havia outro remdio, Gustavo curvou a cabea e foi
para casa, disposto a no sair sem saber o que era feito da encantada fita.

CAPTULO VI

Cruelssimo foi aquele dia para o
msero namorado, que no podia ler, nem escrever, que s podia suspirar,
ameaar o cu e a terra e que mais de uma vez ofereceu ao destino as suas
aplices por um pedao de fita.

Dizer que jantou mal,  noticiar
ao leitor uma coisa que ele naturalmente adivinhou. A tarde foi terrvel de
passar. A incerteza misturava-se  nsia; Gustavo ardia por ver o procurador,
mas receava que nada trouxesse, e que a noite desse dia fosse muito pior que a
antecedente. Pior seria decerto, porque o plano de Gustavo estava feito:
atirava-se do segundo andar  rua.

A tarde caiu de todo, e o
procurador, fiel  sua palavra, bateu palmas na escada.

Gustavo estremeceu.

Joo foi abrir a porta:

 Ah! Entre. Sr. Alvarenga, disse
ele, entre para a sala; meu amo est  sua espera.

Alvarenga entrou.

 Ento que h? perguntou Gustavo
depois de feitos os primeiros cumprimentos.

 H alguma coisa, disse o
procurador.

 Sim:

E logo:

 H de admirar-se talvez da
insistncia com que procuro esta fita, mas...

 Mas  natural, acudiu o
procurador abrindo a caixa de rap e oferecendo uma pitada ao bacharel, que com
um gesto recusou.

 Ento parece-lhe que h alguma
coisa? perguntou Gustavo.

 Sim, senhor, respondeu o
procurador. Eu tinha dado aquela fita  filha do desembargador, menina de dez
anos. Quer que lhe conte a maneira por que isso aconteceu?

 No precisa.

 Sempre lhe direi que eu gosto
muito dela, e ela de mim. Posso dizer que a vi nascer. A menina Ceclia  um
anjo. Imagine que tem os cabelos loiros e est muito desenvolvida...

 Ah! fez Gustavo no sabendo o
que havia de dizer.

 No dia em que o Joo Gomes me
deu a fita dizendo-me: Tome l o senhor que tem em casa exposio! Exposio
chama o Joo Gomes a uma coleo de objetos e trabalhos preciosos que tenho e
vou aumentando... Nesse dia, antes de ir para casa, fui  casa do
desembargador...

Neste ponto entrou na sala o
criado Joo, que, por uma idia delicada, lembrou-se de trazer uma xcara de
caf ao Sr. Alvarenga.

 Caf? disse este. No recuso
nunca. Est bom de acar... Oh! e que excelente caf! V. S. no sabe como eu
gosto de caf; bebo s vezes seis, oito xcaras por dia. V. S. tambm gosta?

 s vezes, respondeu Gustavo em
voz alta.

E consigo mesmo:

Vai-te com todos os diabos! Ests
apostado para fazer-me morrer de aflio!

O Sr. Alvarenga ia saboreando o
caf, como entendedor, e contando ao bacharel a maneira por que dera a fita 
filha do desembargador.

 Ela estava a brincar comigo,
enquanto eu tirava do bolso alguns papis para dar ao pai. Com os papis veio a
fita. Que bonita fita! disse ela. E pegou na fita, e pediu-me que lha desse.
Que faria V. S. no meu caso?

 Dava.

 Foi o que eu fiz. Se visse como
ficou alegre!

O Sr. Alvarenga acabara de tomar o
caf, ao qual fez um novo elogio; e depois de sorver voluptuosamente uma
pitada, continuou:

 J eu no me lembrava da fita
quando hoje o Sr. Joo Gomes me contou o caso. Era difcil achar a fita, porque
isto de crianas V. S. sabe que so endiabradas, e ento aquela!

 Est rasgada? perguntou Gustavo
ansioso por v-lo chegar ao fim.

 Parece que no.

 Ah!

 Quando l cheguei perguntei com
muita instncia pela fita  senhora do desembargador.

 E ento?

 A senhora do desembargador
respondeu-me com muita polidez que no sabia da fita; imagine como fiquei.
Chamou-se porm a menina, e esta confessou que uma sua prima, moa de vinte
anos, lhe tirara a fita da mo, logo no dia em que eu lha dei. A menina chorara
muito, mas a prima dera-lhe em troco uma boneca.

Esta narrao foi ouvida por
Gustavo com a ansiedade que o leitor naturalmente imagina; as ltimas palavras,
entretanto, foram um golpe mortal. Como haver agora essa fita? De que maneira e
com que razes, se iria procurar nas mos da moa o objeto desejado?

Gustavo comunicou estas impresses
ao Sr. Alvarenga, que depois de sorrir e tomar outra pitada, lhe respondeu que
dera alguns passos a ver se a fita pudesse vir parar s suas mos.

 Sim?

  verdade; a senhora do
desembargador ficou to penalizada com a ansiedade que eu mostrava, que me
prometeu fazer alguma coisa. A sobrinha mora no Rio Comprido; a resposta s
pode estar nas suas mos depois de amanh porque eu amanh tenho muito que
fazer.

 Mas vir a fita? murmurou
Gustavo com desnimo.

 Pode ser, respondeu o
procurador; tenhamos esperana.

 Com que lhe hei de pagar tantos
favores? disse o bacharel ao procurador que se levantara e pegara no chapu...

 Sou procurador... d-me alguma
coisa em que eu possa prestar-lhe os meus servios.

 Oh! sim! a primeira que me vier
agora  sua! exclamou Gustavo para quem uma causa era ainda objeto puramente
mitolgico.

O procurador saiu.

 Ento, at depois de amanh?
disse Joo que ouvira quase toda a conversa, colado no corredor.

 Sim, at depois de amanh.

CAPTULO VII

O dia em que o procurador devia
voltar  casa de Gustavo era o ltimo do prazo marcado por Marianinha. Gustavo
esperou por ele sem sair de casa; no queria aparecer sem estar desenganado ou
feliz.

O Sr. Alvarenga no marcara hora.
Gustavo acordou cedo, almoou, e esperou at o meio-dia sem que o procurador
desse sinais de si. Era uma hora quando apareceu.

 H de desculpar-me, disse ele
logo ao entrar; tive uma audincia na segunda vara, e por isso...

 Ento?

 Nada.

 Nada!

 Ela tem a fita e declara que a
no d!

 Oh! mas isso  impossvel!

 Tambm eu disse isso, mas depois
refleti que no h outro recurso seno contentarmo-nos com a resposta. Que
poderamos ns fazer?

Gustavo deu alguns passos na sala,
impaciente e abatido ao mesmo tempo. Tanto trabalho para to triste fim! Que
importava que ele soubesse onde parava a fita, se no podia hav-la s mos? O
casamento estava perdido; o suicdio unicamente.

Sim, o suicdio. Apenas o
procurador Alvarenga saiu da casa de Gustavo, este sondou o seu corao e mais
uma vez se convenceu de que no podia resistir  recusa de Marianinha; seno
matar-se.

Caso-me com a morte! rugiu ele
surdamente.

Outra reminiscncia de melodrama.

Assim assentado o seu plano, saiu
Gustavo de casa, logo depois de ave-marias e dirigiu-se para a casa de D.
Leonarda. Entrou comovido; estremeceu quando deu com os olhos em Marianinha. A moa tinha o mesmo ar severo com que lhe falara a ltima vez.

 Por onde andou estes trs dias?
disse D. Leonarda.

 Estive muito ocupado, respondeu
secamente o moo, e por isso... As senhoras tm passado bem?

 Assim, assim, disse D. Leonarda.

Depois:

Estes pequenos andam arrufados!
pensou ela.

E posto fosse severssima em
pontos de namoro, todavia compreendeu que para explicar e acabar arrufos a
presena de uma av era de algum modo prejudicial. Pelo que, assentou
retirar-se durante cinco minutos (de relgio na mo), a pretexto de ir ver o
leno de tabaco.

Apenas se acharam ss os dois
namorados, rompeu o seguinte dilogo a muito custo de ambos, porque nenhum
deles queria comear primeiro. Foi Gustavo quem cedeu:

 No lhe trago a fita.

 Ah! disse a moa com frieza.

 Algum ma tirou, talvez, porque
eu...

 Que faz a polcia?

 A polcia!... Est zombando
comigo, creio eu.

 Apenas cr?

 Marianinha, por quem ,
perdoe-me se...

Neste ponto teve Gustavo uma idia
que lhe pareceu luminosa.

 Falemos franco, disse ele; eu
tenho a fita comigo.

 Sim? deixe ver.

 No est aqui; mas posso
afirmar-lhe que a tenho. Imponho todavia uma condio... Quero ter este prazer
de impor uma condio...

 Impor?

 Pedir. Mostrar-lhe-ei a fita
depois que estivermos casados.

A idia, como a leitora v, no era
to luminosa como ele pensava; Marianinha deu uma risadinha e levantou-se.

 No acredita? disse Gustavo meio
enfiado.

 Acredito, disse ela; e tanto que
aceito a condio.

 Ah!

 Com a certeza de que no a h de
cumprir.

 Juro...

 No jure! A fita est aqui.

E Marianinha tirou da algibeira o
pedao de fita azul com os nomes de ambos bordados a seda, a mesma fita que ela
lhe dera.

Se o bacharel Gustavo tivesse
visto as torres de S. Francisco de Paula subitamente transformadas em duas
muletas, no se admiraria tanto como quando a moa lhe mostrou o pedao de fita
azul.

S no fim de dois minutos pde
falar:

 Mas... esta fita?

 Silncio! disse Marianinha vendo
entrar a av.

A leitora naturalmente acredita
que a fita fora entregue a Marianinha pela sobrinha do desembargador, e
acredita a verdade. Eram amigas; sabiam do namoro uma da outra; Marianinha
tinha mostrado  amiga a obra que fazia para dar ao namorado, de maneira que
quando a fita azul caiu nas mos da pequena suspeitou naturalmente que era a
mesma, e obteve-a para mostr-la  neta de D. Leonarda.

Gustavo no suspeitara nada disto;
estava aturdido. Estava sobretudo envergonhado. Acabava ser apanhado em
flagrante delito de peta e fora desmentido do mais formidvel modo.

Nestas alturas no h de demorar o
desfecho. Apresso-me a dizer que Gustavo saiu dali abatido, mas que no dia
seguinte recebeu uma carta de Marianinha, em que lhe dizia, entre outras
coisas, esta: Perdo-lhe tudo!

Nesse mesmo dia foi pedida a moa.
Casaram-se pouco depois e vivem felizes, no direi onde, para que os no vo
perturbar na sua lua-de-mel que dura h largos meses.

Desejo o mesmo s leitoras.
