MISCELNEA, Secretaria de Agricultura, 1890

Secretaria da Agricultura

Texto-fonte:

Obra Completa, Machado de Assis,

Rio de Janeiro: Nova Aguilar, V.III, 1994.

Publicado originalmente em Gazeta de Notcias, Rio de Janeiro, 11/09/1890.

O Sr. Dr. Joo Brgido escreveu no Libertador do Cear, de 20 do ms findo, um artigo, a que  mister
  dar alguma resposta. No recebi a folha, mas vrias pessoas a receberam,
  naturalmente o artigo marcado, como est no exemplar que um amigo me fez chegar
  s mos. Este sistema no  novo, mas  til;  o que se pode chamar uma carta
  annima assinada.

Trata-se das minas da Viosa. O Sr. Joo Brgido 
  advogado de Antnio Rodrigues Carneiro, que contende com o Baro de Ibiapaba.
  De duas peties deste h certides, uma do Sr. Baro de Guimares, meu respeitvel
  antecessor, datada de 9 de janeiro de 1889, e outra  minha, datada de
  18 de maio. Pouco depois de expedida a segunda, escreveu-me o Sr. Dr. Joo
  Brgido, dizendo que a certido de janeiro dava as duas peties assinadas pelo
  Sr. Conselheiro Tristo de Alencar Araripe, como procurador, e a de maio pelo
  Dr. Artur de Alencar Araripe, filho daquele cidado.Conclua assim:

Uma das duas certides, portanto, h de no ser verdadeira,
  e d-se o caso de ter sido induzido em erro, ou V. ou o Sr. Baro de Guimares,
  pelo oficial que extraiu uma das duas certides. Trazendo este fato ao
  conhecimento de V., cuja probidade folgo de reconhecer, peo-lhe a explicao
  que julgar razovel, e sendo preciso me obrigo a produzir os dois documentos
  que esto a se desmentirem.

Respondi que, tendo verificado nas peties aludidas que a
  assinatura era justamente a do Dr. Artur de Alencar Araripe, no podia
  suspeitar do oficial que extraiu a certido; acrescentei que o empregado que
  extrara a primeira j no estava na secretaria, e conclu que no podia
  adiantar mais nada.

Contentou-se o Sr. Dr. Joo Brgido com a resposta; tanto
  que, chegando do Cear, para tratar da questo das minas, veio ter comigo, e
  falou-me, no uma, nem duas, mas muitas vezes, e sempre o achei corts e
  afvel. Ouvi-lhe a histria do litgio da Viosa, sobre a qual me deu vrios
  folhetos. Pediu-me umas certides; e dizendo-lhe o Sr. Dr. Toms Cochrane,
  chefe da seo por onde corre a questo, que as certides s podiam ser dadas
  depois que os papis baixassem do gabinete do sr. ministro, aceitou a resposta
  naturalmente, sem fazer nenhuma objeo, que seria escusada. Ao retirar-se para
  o Cear, veio despedir-se, sem ressentimento, menos ainda indignao.

Eis aparece agora o artigo do Libertador, em que o
  Sr. Dr. Joo Brgido me acusa pela carta que lhe escrevi, h um ano, pela
  demora das certides, diz que os crditos da secretaria desceram tanto, no regmen
  anterior, que muitos ministros saram com reputao prejudicada;
  e, finalmente, escreve isto: que eu, ao passo que lhe guardava sigilo
  inviolvel acerca das concluses do meu parecer, no o guardava para o
  plutocrata, que, pelo vapor de 30 de junho ou outro, assegurara que o meu
  parecer era a seu favor.

No sei o que assegurou o Sr. Baro de Ibiapaba, a quem s
  de vista conheo. Desde, porm, que eu afirmo que jamais confiei a ningum,
  sobre nenhum negcio da secretaria, a minha opinio dada ou por dar nos papis
  que examino -- e desafio a que algum me diga o contrrio -- creio responder suficientemente
  ao artigo do Sr. Dr. Joo Brgido.

Plutocrata exprime bem a insinuao maliciosa do Sr. Dr. Joo
  Brgido; e o processo de Filipe de Macednia, frase empregada no mesmo
  perodo, ainda melhor exprime o seu pensamento. Eu sou mais moderado; fao ao
  Sr. Dr. Joo Brgido a justia de crer que em tudo o que escreveu contra mim
  no teve a menor convico.
