ROMANCE, Helena,1876

Helena

Texto-fonte:
Obra Completa, de Machado de Assis,
  vol. I,
Rio de Janeiro: Nova
  Aguilar, 1994.

Publicado originalmente
  em folhetins, a partir de 06/08/1876, em  O Globo.

ADVERTNCIA

Esta nova edio de Helena sai com vrias emendas de linguagem e outras, que no alteram a
  feio do livro. Ele  o mesmo da data em que o compus e imprimi,
  diverso do que o tempo me foi depois, correspondendo assim ao captulo da
  histria do meu esprito, naquele ano de 1876.

No me culpeis pelo que
  lhe achardes romanesco. Dos que ento fiz, este me era particularmente prezado.
  Agora mesmo, que h tanto me fui a outras e diferentes pginas, ouo um eco
  remoto ao reler estas, eco de mocidade e f ingnua.  claro que, em nenhum
  caso, lhes tiraria a feio passada; cada obra pertence ao seu tempo.

M. de A.

CAPTULO PRIMEIRO

O Conselheiro Vale
  morreu s 7 horas da noite de 25 de abril de 1859. Morreu de apoplexia
  fulminante, pouco depois de cochilar a sesta, -- segundo costumava dizer,
  -- e quando se preparava a ir jogar a usual partida de voltarete em casa de um
  desembargador, seu amigo. O Dr. Camargo, chamado  pressa, nem chegou a tempo
  de empregar os recursos da cincia; o Padre Melchior no pde dar-lhe as
  consolaes da religio: a morte fora instantnea.

No dia seguinte fez-se
  o enterro, que foi um dos mais concorridos que ainda viram os moradores do
  Andara. Cerca de duzentas pessoas acompanharam o finado at  morada ltima,
  achando-se representadas entre elas as primeiras classes da sociedade. O
  conselheiro, posto no figurasse em nenhum grande cargo do Estado, ocupava
  elevado lugar na sociedade, pelas relaes adquiridas, cabedais, educao e
  tradies de famlia. Seu pai fora magistrado no tempo colonial, e figura de
  certa influncia na corte do ltimo vice-rei. Pelo lado materno descendia de uma
  das mais distintas famlias paulistas. Ele prprio exercera dois empregos,
  havendo-se com habilidade e decoro, do que lhe adveio a carta de conselho e a
  estima dos homens pblicos. Sem embargo do ardor poltico do tempo, no estava
  ligado a nenhum dos dois partidos, conservando em ambos preciosas amizades, que
  ali se acharam na ocasio de o dar  sepultura. Tinha, entretanto, tais ou
  quais idias polticas, colhidas nas fronteiras conservadoras e liberais,
  justamente no ponto em que os dois domnios podem confundir-se. Se nenhuma
  saudade partidria lhe deitou a ltima p de terra, matrona houve, e no s
  uma, que viu ir a enterrar com ele a melhor pgina da sua mocidade.

A famlia do
  conselheiro compunha-se de duas pessoas: um filho, o Dr. Estcio, e uma irm,
  D. rsula. Contava esta cinqenta e poucos anos; era solteira; vivera sempre
  com o irmo, cuja casa dirigia desde o falecimento da cunhada. Estcio tinha
  vinte e sete anos, e era formado em matemticas. O conselheiro tentara
  encarreir-lo na poltica, depois na diplomacia; mas nenhum desses projetos
  teve comeo de execuo.

O Dr. Camargo, mdico e
  velho amigo da casa, logo que regressou do enterro, foi ter com Estcio, a quem
  encontrou no gabinete particular do finado, em companhia de D. rsula. Tambm a
  dor tem suas volpias; tia e sobrinho queriam nutri-la com a presena dos
  objetos pessoais do morto, no lugar de suas predilees quotidianas. Duas
  tristes luzes alumiavam aquela pequena sala. Alguns momentos correram de
  profundo silncio entre os trs. O primeiro que o rompeu, foi o mdico.

-- Seu pai deixou
  testamento?

-- No sei, respondeu
  Estcio.

Camargo mordeu a ponta
  do bigode, duas ou trs vezes, gesto que lhe era habitual quando fazia alguma
  reflexo.

--  preciso procur-lo,
  continuou ele. Quer que o ajude?

Estcio apertou-lhe
  afetuosamente a mo.

-- A morte de meu pai,
  disse o moo, no alterou nada as nossas relaes. Subsiste a confiana
  anterior, do mesmo modo que a amizade, j provada e antiga.

A secretria estava
  fechada; Estcio deu a chave ao mdico; este abriu o mvel sem nenhuma comoo
  exterior. Interiormente estava abalado. O que se lhe podia notar nos olhos era
  uma viva curiosidade, expresso em que, alis, nenhum dos outros reparou. Logo
  que comeou a revolver os papis, a mo do mdico tornou-se mais febril. Quando
  achou o testamento, houve em seus olhos um breve lampejo, a que sucedeu a
  serenidade habitual.

--  isso? perguntou
  Estcio.

Camargo no respondeu logo; olhou
  para o papel, como a querer adivinhar o contedo. O silncio foi muito demorado
  para no fazer impresso no moo, que alis nada disse, porque o atribura 
  comoo natural do amigo em to dolorosas circunstncias.
-- Sabem o que estar aqui dentro?
  Disse enfim Camargo. Talvez uma lacuna ou um grande excesso.
Nem Estcio, nem D. rsula,
  pediram ao mdico a explicao de semelhantes palavras. A curiosidade, porm,
  era natural, e o mdico pde l-la nos olhos de ambos. No lhes disse nada;
  entregou o testamento a Estcio, ergueu-se e deu alguns passos na sala,
  absorvido em suas prprias reflexes, ora arranjando maquinalmente um livro da
  estante, ora metendo a ponta do bigode entre os dentes, com a vista queda,
  alheio de todo ao lugar e s pessoas.

Estcio rompeu o silncio:

-- Mas que lacuna ou que excesso 
  esse? perguntou ao mdico.

Camargo parou diante do moo.

-- No posso dizer nada, respondeu
  ele. Seria inconveniente, antes de saber as ltimas disposies de seu pai.

D. rsula foi menos discreta que o
  sobrinho; aps longa pausa, pediu ao mdico a razo de suas palavras.

-- Seu irmo, disse este, era boa
  alma; tive tempo de o conhecer de perto e apreciar-lhe as qualidades, que as
  tinha excelentes. Era seu amigo; sei que o era meu. Nada alterou a longa
  amizade que nos unia, nem a confiana que ambos depositvamos um no outro. No
  quisera, pois, que o ltimo ato de sua vida fosse um erro.

-- Um erro! exclamou D. rsula.

-- Talvez um erro! suspirou
  Camargo.

-- Mas, doutor, insistiu D. rsula,
  por que motivo nos no tranqiliza o esprito? Estou certa de que no se trata
  de um ato que desdoure meu irmo; alude naturalmente a algum erro no modo de
  entender... alguma coisa, que eu ignoro o que seja. Por que no fala
  claramente?

O mdico viu que D. rsula tinha
  razo; e que, a no dizer mais nada, melhor fora ter-se calado de todo. Tentou
  dissipar a impresso de estranheza que deixara no nimo dos dois; mas da
  hesitao com que falava, concluiu Estcio que ele no podia ir alm do que
  havia dito.

-- No precisamos de explicao
  nenhuma, interveio o filho do conselheiro; amanh saberemos tudo.

Nessa ocasio entrou o Padre
  Melchior. O mdico saiu s 10 horas, ficando de voltar no dia seguinte, logo
  cedo. Estcio, recolhendo-se ao seu quarto, murmurava consigo:

-- Que erro ser esse? E que
  necessidade tinha ele de vir lanar-me este enigma no corao?

A resposta, se pudesse ouvi-la,
  era dada nessa mesma ocasio pelo prprio Dr. Camargo, ao entrar no carro que o
  esperava  porta:

-- Fiz bem em preparar-lhes o
  esprito, pensou ele; o golpe, se o houver, h de ser mais fcil de sofrer.

O mdico ia s; alm disso, era
  noite, como sabemos. Ningum pde ver-lhe a expresso do rosto, que era fechada
  e meditativa. Exumou o passado e devassou o futuro; mas de tudo o que reviu e
  anteviu, nada foi comunicado a ouvidos estranhos.

As relaes do Dr. Camargo com a
  famlia do conselheiro eram estreitas e antigas, como dissera Estcio. O mdico
  e o conselheiro tinham a mesma idade; cinqenta e quatro anos. Conheceram-se
  logo depois de tomado o grau, e nunca mais afrouxara o lao que os prendera
  desde esse tempo.

Camargo era pouco simptico 
  primeira vista. Tinha as feies duras e frias, os olhos perscrutadores e sagazes,
  de uma sagacidade incmoda para quem encarava com eles, o que o no fazia
  atraente. Falava pouco e seco. Seus sentimentos no vinham  flor do rosto.
  Tinha todos os visveis sinais de um grande egosta; contudo, posto que a morte
  do conselheiro no lhe arrancasse uma lgrima ou uma palavra de tristeza, 
  certo que a sentiu deveras. Alm disso, amava sobre todas as coisas e pessoas
  uma criatura linda, -- a linda Eugnia, como lhe chamava, -- sua filha nica e a
  flor de seus olhos; mas amava-a de um amor calado e recndito. Era difcil
  saber se Camargo professava algumas opinies polticas ou nutria sentimentos
  religiosos. Das primeiras, se as tinha, nunca deu manifestao prtica; e no
  meio das lutas de que fora cheio o decnio anterior, conservara-se indiferente
  e neutral. Quanto aos sentimentos religiosos, a aferi-los pelas aes, ningum
  os possua mais puros. Era pontual no cumprimento dos deveres de bom catlico.
  Mas s pontual; interiormente, era incrdulo.

Quando Camargo chegou a casa, no
  Rio Comprido, achou sua mulher, -- D. Tomsia, -- meio adormecida numa cadeira de
  balano e Eugnia ao piano, executando um trecho de Bellini. Eugnia tocava com
  habilidade; e Camargo gostava de a ouvir. Naquela ocasio, porm, disse ele,
  parecia pouco conveniente que a moa se entregasse a um gnero de recreio
  qualquer. Eugnia obedeceu, algum tanto de m vontade. O pai, que se achava ao
  p do piano, pegou lhe nas mos, logo que ela se levantou, e fitou-lhe uns
  olhos amorosos e profundos, como ela nunca lhe vira.

-- No fiquei triste pelo que me
  disse, papai, observou a moa. Tocava por distrar-me. D. rsula como est?
  Ficou to aflita! Mame queria demorar-se mais tempo; mas eu confesso que no
  podia ver a tristeza daquela casa.

-- Mas a tristeza  necessria 
  vida, acudiu D. Tomsia, que abrira os olhos logo  entrada do marido. As dores
  alheias fazem lembrar as prprias, e so um corretivo da alegria, cujo excesso
  pode engendrar o orgulho.

Camargo temperou esta filosofia,
  que lhe pareceu demasiado austera, com algumas idias mais acomodadas e
  risonhas.

-- Deixemos a cada idade a sua
  atmosfera prpria, concluiu ele, e no antecipemos a da reflexo, que  tornar
  infelizes os que ainda no passaram do puro sentimento.

Eugnia no compreendeu o que os
  dois haviam dito. Voltou os olhos para o piano, com uma expresso de saudade.
  Com a mo esquerda, assim mesmo de p, extraiu vagamente trs ou quatro notas
  das teclas suas amigas. Camargo tornou a fit-la com desusada ternura; a fronte
  sombria pareceu alumiar-se de uma irradiao interior. A moa sentiu-se
  enlaada nos braos dele; deixou-se ir. Mas a expanso era to nova, que ela
  ficou assustada e perguntou com voz trmula:

-- Aconteceu l alguma coisa?

-- Absolutamente nada, respondeu
  Camargo, dando-lhe um beijo na testa.

Era o primeiro beijo, ao menos o
  primeiro de que a moa tinha memria. A carcia encheu-a de orgulho filial; mas
  a prpria novidade dela impressionou-a mais. Eugnia no creu no que lhe
  dissera o pai. Viu-o ir sentar-se ao p de D. Tomsia e conversarem em voz
  baixa. Aproximando-se, no interrompeu a conversa, que eles continuaram no
  mesmo tom, e versava sobre assuntos puramente domsticos. Percebeu-o; contudo,
  no ficou tranqila. Na manh seguinte escreveu um bilhete, que foi logo caminho
  de Andara. A resposta, que lhe chegou s mos no momento em que provava um
  vestido novo, teve a cortesia de esperar que ela terminasse a operao. Lida
  finalmente, dissipou todos os receios da vspera.

CAPTULO II

No dia seguinte, foi
  aberto o testamento com todas as formalidades legais. O conselheiro nomeava
  testamenteiros Estcio, o Dr. Camargo e o Padre Melchior. As disposies gerais
  nada tinham que fosse notvel: eram legados pios ou beneficentes, lembranas a
  amigos, dotes a afilhados, missas por sua alma e pela de seus parentes.

Uma disposio havia,
  porm, verdadeiramente importante. O conselheiro declarava reconhecer uma filha
  natural, de nome Helena, havida com D. ngela da Soledade. Esta menina estava
  sendo educada em um colgio de Botafogo. Era declarada herdeira da parte que
  lhe tocasse de seus bens, e devia ir viver com a famlia, a quem o conselheiro
  instantemente pedia que a tratasse com desvelo e carinho, como se de seu
  matrimnio fosse.

A leitura desta disposio causou
  natural espanto  irm e ao filho do finado. D. rsula nunca soubera de tal
  filha. Quanto a Estcio, ignorava menos que a tia. Ouvira uma vez falar em uma
  filha de seu pai; mas to vagamente que no podia esperar aquela disposio
  testamentria.

Ao espanto sucedeu em ambos outra
  e diferente impresso. D.rsula reprovou de todo o ato do conselheiro.
  Parecia-lhe que, a despeito dos impulsos naturais e licenas jurdicas, o
  reconhecimento de Helena era um ato de usurpao e um pssimo exemplo. A nova
  filha era, no seu entender, uma intrusa, sem nenhum direito ao amor dos
  parentes; quando muito, concordaria em que se lhe devia dar o quinho da
  herana e deix-la  porta. Receb-la, porm, no seio da famlia e de seus
  castos afetos, legitim-la aos olhos da sociedade, como ela estava aos da lei,
  no o entendia D.rsula, nem lhe parecia que algum pudesse entend-lo. A
  aspereza destes sentimentos tornou-se ainda maior quando lhe ocorreu a origem
  possvel de Helena. Nada constava da me, alm do nome; mas essa mulher quem
  era? em que atalho sombrio da vida a encontrara o conselheiro? Helena seria
  filha de um encontro fortuito, ou nasceria de algum afeto irregular embora, mas
  verdadeiro e nico? A estas interrogaes no podia responder D. rsula;
  bastava, porm, que lhe surgissem no esprito, para lanar nele o tdio e a
  irritao.

D. rsula era eminentemente severa
  a respeito de costumes. A vida do conselheiro, marchetada de aventuras
  galantes, estava longe de ser uma pgina de catecismo; mas o ato final bem
  podia ser a reparao de leviandades amargas. Essa atenuante no a viu D.
  rsula. Para ela, o principal era a entrada de uma pessoa estranha na famlia.

A impresso de Estcio foi muito
  outra. Ele percebera a m vontade com que a tia recebera a notcia do reconhecimento
  de Helena, e no podia negar a si mesmo que semelhante fato criava para a
  famlia uma nova situao. Contudo, qualquer que ela fosse, uma vez que seu pai
  assim o ordenava, levado por sentimentos de eqidade ou impulsos da natureza,
  ele a aceitava tal qual, sem pesar nem reserva. A questo pecuniria pesou
  menos que tudo no esprito do moo; no pesou nada. A ocasio era dolorosa
  demais para dar entrada a consideraes de ordem inferior, e a elevao dos
  sentimentos de Estcio no lhe permitia inspirar-se delas. Quanto  camada
  social a que pertencia a me de Helena, no se preocupou muito com isso, certo
  de que eles saberiam levantar a filha at  classe a que ela ia subir.

No meio das reflexes produzidas
  pela disposio testamentria do conselheiro, ocorreu a Estcio a conversa que
  tivera com o Dr. Camargo. Provavelmente era aquele o ponto a que aludira o
  mdico. Interrogado acerca de suas palavras, Camargo hesitou um pouco; mas
  insistindo o filho do conselheiro:

-- Aconteceu o que eu previa, um erro,
  disse ele. No houve lacuna, mas excesso. O reconhecimento dessa filha  um
  excesso de ternura, muito bonito, mas pouco prtico. Um legado era suficiente;
  nada mais. A estrita justia...

-- A estrita justia  a vontade de
  meu pai, redargiu Estcio.

-- Seu pai foi generoso, disse
  Camargo; resta saber se podia s-lo  custa de direitos alheios.

-- Os meus? No os alego.

-- Se os alegasse seria pouco digno
  da memria dele. O que est feito, est feito. Uma vez reconhecida, essa menina
  deve achar nesta casa famlia e afetos de famlia. Persuado-me de que ela
  saber corresponder-lhes com verdadeira dedicao...

-- Conhece-a? inquiriu Estcio,
  cravando no mdico uns olhos impacientes de curiosidade.

-- Vi-a trs ou quatro vezes, disse
  este no fim de alguns segundos; mas era ento muito criana. Seu pai falava-me
  dela como de pessoa extremamente afetuosa e digna de ser amada e admirada.
  Talvez fossem olhos de pai.

Estcio desejara ainda saber
  alguma coisa acerca da me de Helena, mas repugnou-lhe entrar em novas
  indagaes, e tentou encarreirar a conversa para outro assunto. Camargo,
  entretanto, insistiu:

-- O conselheiro falou-me algumas
  vezes no projeto de reconhecer Helena; procurei dissuadi-lo, mas sabe como era
  teimoso, acrescendo neste caso o natural impulso de amor paterno. O nosso ponto
  de vista era diferente. No me tenho por homem mau; contudo, entendo que a
  sensibilidade no pode usurpar o que pertence  razo.

Camargo proferiu estas palavras no
  tom seco e sentencioso que to natural e sem esforo lhe saa. A velha amizade
  dele e do finado era sabida de todos; a inteno com que falava podia ser
  hostil  famlia? Estcio refletiu algum tempo no conceito que acabava de ouvir
  ao mdico, curta reflexo que por nenhum modo lhe abalou a opinio j assentada
  e expressa. Seus olhos, grandes e serenos como o esprito que os animava,
  pousaram benevolamente no interlocutor.

-- No quero saber, disse ele, se
  h excesso na disposio testamentria de meu pai. Se o h,  legtimo, justificvel
  pelo menos; ele sabia ser pai; seu amor dividia-se inteiro. Receberei essa
  irm, como se fora criada comigo. Minha me faria com certeza a mesma coisa.

Camargo no insistiu. Sobre ser
  esforo baldado dissuadir o moo daqueles sentimentos, que aproveitava j agora
  discutir e condenar teoricamente a resoluo do conselheiro? Melhor era
  execut-la lealmente, sem hesitao nem pesar. Isso mesmo declarou ele a
  Estcio, que o abraou cordialmente. O mdico recebeu o abrao sem
  constrangimento, mas sem fervor.

Estcio ficara satisfeito consigo
  mesmo. Seu carter vinha mais diretamente da me que do pai. O conselheiro, se
  lhe descontarmos a nica paixo forte que realmente teve, a das mulheres, no
  lhe acharemos nenhuma outra saliente feio. A fidelidade aos amigos era antes
  resultado do costume que da consistncia dos afetos. A vida correu-lhe sem
  crises nem contrastes; nunca achou ocasio de experimentar a prpria tmpera.
  Se a achasse, mostraria que a tinha mediana.

A me de Estcio era diferente; possura
  em alto grau a paixo, a ternura, a vontade, uma grande elevao de
  sentimentos, com seus toques de orgulho, daquele orgulho que  apenas
  irradiao da conscincia. Vinculada a um homem que, sem embargo do afeto que
  lhe tinha, despendia o corao em amores adventcios e passageiros, teve a
  fora de vontade necessria para dominar a paixo e encerrar em si mesma todo o
  ressentimento. As mulheres que so apenas mulheres, choram, arrufam-se ou
  resignam-se; as que tm alguma coisa mais do que a debilidade feminina, lutam
  ou recolhem-se  dignidade do silncio. Aquela padecia,  certo, mas a elevao
  de sua alma no lhe permitia outra coisa mais do que um procedimento altivo e
  calado. Ao mesmo tempo, como a ternura era elemento essencial de sua organizao,
  concentrou-a toda naquele nico filho, em quem parecia adivinhar o herdeiro de
  suas robustas qualidades.

Estcio recebera efetivamente de
  sua me uma boa parte destas. No sendo grande talento, deveu  vontade e 
  paixo do saber a figura notvel que fez entre seus companheiros de estudos.
  Entregara-se  cincia com ardor e afinco. Aborrecia a poltica; era
  indiferente ao rudo exterior. Educado  maneira antiga e com severidade e
  recato, passou da adolescncia  juventude sem conhecer as corrupes de esprito
  nem as influncias deletrias da ociosidade; viveu a vida de famlia, na idade
  em que outros, seus companheiros, viviam a das ruas e perdiam em coisas nfimas
  a virgindade das primeiras sensaes. Da veio que, aos dezoito anos,
  conservava ele tal ou qual timidez infantil, que s tarde perdeu de todo. Mas,
  se perdeu a timidez, ficara-lhe certa gravidade no incompatvel com os verdes
  anos e muito prpria de organizaes como a dele. Na poltica seria talvez meio
  caminho andado para subir aos cargos pblicos; na sociedade, fazia que lhe
  tivessem respeito, o que o levantava a seus prprios olhos. Convm dizer que
  no era essa gravidade aquela coisa enfadonha, pesada e chata, que os
  moralistas asseveram ser quase sempre um sintoma de esprito chocho; era uma
  gravidade jovial e familiar, igualmente distante da frivolidade e do tdio, uma
  compostura do corpo e do esprito, temperada pelo vio dos sentimentos e pela
  graa das maneiras, como um tronco rijo e reto adornado de folhagens e flores.
  Juntava s outras qualidades morais uma sensibilidade, no feminil e doentia,
  mas sbria e forte; spero consigo, sabia ser terno e mavioso com os outros.

Tal era o filho do conselheiro; e
  se alguma coisa h ainda que acrescentar,  que ele no cedia nem esquecia nenhum
  dos direitos e deveres que lhe davam a idade e a classe em que nascera.
  Elegante e polido, obedecia  lei do decoro pessoal, ainda nas menores partes
  dela. Ningum entrava mais corretamente numa sala; ningum saa mais
  oportunamente. Ignorava a cincia das nugas, mas conhecia o segredo de tecer um
  cumprimento.

Na situao criada pela clusula
  testamentria do conselheiro, Estcio aceitou a causa da irm, a quem j via,
  sem a conhecer, com olhos diferentes dos de Camargo e D. rsula. Esta comunicou
  ao sobrinho todas as impresses que lhe deixara o ato do irmo. Estcio
  procurou dissipar-lhas; repetiu as reflexes opostas ao mdico; mostrou que, ao
  cabo de tudo, tratava-se de cumprir a derradeira vontade de um morto.

-- Bem sei que no h j agora outro
  remdio mais que aceitar essa menina e obedecer s determinaes solenes de meu
  irmo, disse D. rsula, quando Estcio acabou de falar. Mas s isso; dividir
  com ela os meus afetos no sei que possa nem deva fazer.

-- Contudo, ela  do nosso mesmo
  sangue.

D. rsula ergueu os ombros como
  repelindo semelhante consanginidade. Estcio insistiu em traz-la a mais
  benvolos sentimentos. Invocou, alm da vontade, a retido do esprito de seu pai,
  que no havia dispor uma coisa contrria  boa fama da famlia.

-- Alm disto, essa menina nenhuma
  culpa tem de sua origem, e visto que meu pai a legitimou, convm que no se
  ache aqui como enjeitada. Que aproveitaramos com isso? Nada mais do que perturbar
  a placidez da nossa vida interior. Vivamos na mesma comunho de afetos; e
  vejamos em Helena uma parte da alma de meu pai, que nos fica para no desfalcar
  de todo o patrimnio comum.

Nada respondeu a irm do
  conselheiro. Estcio percebeu que no vencera os sentimentos da tia, nem era
  possvel consegui-lo por meio de palavras. Confiou ao tempo essa tarefa. D.
  rsula ficou triste e s. Aparecendo Camargo da a pouco, ela confiou-lhe todo
  o seu modo de sentir, que o mdico interiormente aprovava.

-- Conheceu a me dela? perguntou a
  irm do conselheiro.

-- Conheci.

-- Que espcie de mulher era?

-- Fascinante.

-- No  isso; pergunto-lhe se era
  mulher de ordem inferior, ou...

-- No sei; no tempo em que a vi,
  no tinha classe e podia pertencer a todas; demais, no a tratei de perto.

-- Doutor, disse D. rsula, depois
  de hesitar algum tempo; que me aconselha que faa?

-- Que a ame, se ela o merecer, e
  se puder.

-- Oh! confesso-lhe que me h de
  custar muito! E merec-lo-? Alguma coisa me diz ao corao que essa menina vem
  complicar a nossa vida; alm disso, no posso esquecer que meu sobrinho,
  herdeiro...

-- Seu sobrinho aceita as coisas
  filosoficamente e at com satisfao. No compreendo a satisfao, mas concordo
  que nada mais h do que cumprir textualmente a vontade do conselheiro. No se
  deliberam sentimentos; ama-se ou aborrece-se, conforme o corao quer. O que
  lhe digo  que a trate com benevolncia; e caso sinta em si algum afeto, no o
  sufoque; deixe-se ir com ele. J agora no se pode voltar atrs. Infelizmente!

Helena estava a concluir os
  estudos; semanas depois determinou a famlia que ela viesse para a casa. D.
  rsula recusou a princpio ir busc-la; convenceu-a disso o sobrinho, e a boa senhora
  aceitou a incumbncia depois de alguma hesitao. Em casa foram-lhe preparados
  os aposentos; e marcou-se uma tarde de segunda-feira para ser a moa trasladada
  a Andara. Dona rsula meteu-se na carruagem, logo depois do jantar. Estcio
  foi nesse dia jantar com o Dr. Camargo, no Rio Comprido. Voltou tarde. Ao
  penetrar na chcara, deu com os olhos nas janelas do quarto destinado a Helena;
  estavam abertas; havia algum dentro. Pela primeira vez sentiu Estcio a
  estranheza da situao criada pela presena daquela meia-irm e perguntou a si
  prprio se no era a tia quem tinha razo. Repeliu pouco depois esse
  sentimento; a memria do pai restituiu-lhe a benevolncia anterior. Ao mesmo
  tempo, a idia de ter uma irm sorria-lhe ao corao como promessa de venturas
  novas e desconhecidas. Entre sua me e as demais mulheres, faltava-lhe essa
  criatura intermediria, que ele j amava sem conhecer, e que seria a natural
  confidente de seus desalentos e esperanas. Estcio contemplou longo tempo as
  janelas; nem o vulto de Helena apareceu ali, nem ele viu passar a sombra da
  habitante nova.

CAPTULO III

Na seguinte manh, Estcio
  levantou-se tarde e foi direito  sala de jantar, onde encontrou D.rsula,
  pachorrentamente sentada na poltrona de seu uso, ao p de uma janela, a ler um
  tomo do Saint-Clair das Ilhas, enternecida pela centsima vez com as
  tristezas dos desterrados da ilha da Barra; boa gente e moralssimo livro,
  ainda que enfadonho e maudo, como outros de seu tempo. Com ele matavam as
  matronas daquela quadra muitas horas compridas do inverno, com ele se encheu
  muito sero pacfico, com ele se desafogou o corao de muita lgrima
  sobressalente.
-- Veio? perguntou
  Estcio.

-- Veio, respondeu a boa
  senhora, fechando o livro. O almoo esfria, continuou ela, dirigindo-se 
  mucama que ali estava de p, junto da mesa; j foram chamar...nhanh Helena?

-- Nhanh Helena disse
  que j vem.

-- H dez minutos,
  observou D. rsula ao sobrinho.

-- Naturalmente no
  tarda, respondeu este. Que tal?

D.rsula estava pouco
  habilitada a responder ao sobrinho. Quase no vira o rosto de Helena; e esta,
  logo que ali chegou, recolheu-se ao aposento que lhe deram, dizendo ter
  necessidade de repouso. O que D.rsula pde afianar foi somente que a sobrinha
  era moa feita.

Ouviu-se descer a
  escada um passo rpido, e no tardou que Helena aparecesse  porta da sala de
  jantar. Estcio estava ento encostado  janela que ficava em frente da porta e
  dava para a extensa varanda, donde se viam os fundos da chcara. Olhou para a
  tia como esperando que ela os apresentasse um ao outro. Helena detivera-se ao
  v-lo.

-- Menina, disse D.
  rsula com o tom mais doce que tinha na voz, este  meu sobrinho Estcio, seu
  irmo.

-- Ah! disse Helena,
  sorrindo e caminhando para ele.

Estcio dera igualmente
  alguns passos.

-- Espero merecer sua
  afeio, disse ela depois de curta pausa. Peo desculpa da demora; estavam 
  minha espera, creio eu...

-- amos para a mesa
  agora mesmo, interrompeu D. rsula, como protestando contra a idia de que ela
  os fizesse esperar.

Estcio procurou
  corrigir a rudez da tia.

-- Tnhamos ouvido o seu
  passo na escada, disse ele. Sentemo-nos, que o almoo esfria.

D. rsula j estava
  sentada  cabeceira da mesa; Helena ficou  direita, na cadeira que Estcio lhe
  indicou; este tomou lugar do lado oposto. O almoo correu silencioso e
  desconsolado; raros monosslabos, alguns gestos de assentimento ou recusa, tal
  foi o dispndio da conversa entre os trs parentes. A situao no era cmoda
  nem vulgar. Helena, posto forcejasse por estar senhora de si, no conseguia
  vencer de todo o natural acanhamento da ocasio. Mas, se o no vencia de todo,
  podiam ver-se atravs dele certos sinais de educao fina. Estcio examinou aos
  poucos a figura da irm.

Era uma moa de
  dezesseis a dezessete anos, delgada sem magreza, estatura um pouco acima da
  mediana, talhe elegante e atitudes modestas. A face, de um moreno-pssego,
  tinha a mesma imperceptvel penugem da fruta de que tirava a cor; naquela
  ocasio tingiam-na uns longes cor-de-rosa, a princpio mais rubros, natural
  efeito do abalo. As linhas puras e severas do rosto parecia que as traara a
  arte religiosa. Se os cabelos, castanhos como os olhos, em vez de dispostos em
  duas grossas tranas lhe cassem espalhadamente sobre os ombros, e se os
  prprios olhos alassem as pupilas ao cu, dissreis um daqueles anjos
  adolescentes que traziam a Israel as mensagens do Senhor. No exigiria a arte
  maior correo e harmonia de feies, e a sociedade bem podia contentar-se com
  a polidez de maneiras e a gravidade do aspecto. Uma s coisa pareceu menos
  aprazvel ao irmo: eram os olhos, ou antes o olhar, cuja expresso de
  curiosidade sonsa e suspeitosa reserva foi o nico seno que lhe achou, e no
  era pequeno.

Acabado o almoo,
  trocadas algumas palavras, poucas e soltas, Helena retirou-se ao seu quarto,
  onde durante trs dias passou quase todas as horas, a ler meia dzia de livros
  que trouxera consigo, a escrever cartas, a olhar pasmada para o ar, ou
  encostada ao peitoril de uma das janelas. Alguma vez desceu a jantar, com os
  olhos vermelhos e a fronte pesarosa, apenas com um sorriso plido e fugitivo
  nos lbios. Uma criana, subitamente transferida ao colgio, no desfolha mais
  tristemente as primeiras saudades da casa de seus pais. Mas a asa do tempo leva
  tudo; e ao cabo de trs dias, j a fisionomia de Helena trazia menos sombrio
  aspecto. O olhar perdeu a expresso que primeiro lhe achou o irmo, para
  tornar-se o que era naturalmente, mavioso e repousado. A palavra saa-lhe mais
  fcil, seguida e numerosa; a familiaridade tomou o lugar do acanhamento.

No quarto dia, acabado
  o almoo, Estcio encetou uma conversa geral, que no passou de um simples duo,
  porque D. rsula contava os fios da toalha ou brincava com as pontas do leno
  que trazia ao pescoo. Como falassem da casa, Estcio disse  irm:

-- Esta casa  to sua
  como nossa; faa de conta que nascemos debaixo do mesmo teto. Minha tia lhe
  dir o sentimento que nos anima a seu respeito.

Helena agradeceu com um
  olhar longo e profundo. E dizendo que a casa e a chcara lhe pareciam bonitas e
  bem dispostas, pediu a D. rsula que lhas fosse mostrar mais detidamente. A tia
  fechou o rosto e secamente respondeu:

-- Agora no, menina;
  tenho por hbito descansar e ler.

-- Pois eu lerei para a
  senhora ouvir, replicou a moa com graa; no  bom cansar os seus olhos; e,
  alm disso,  justo que me acostume a servi-la. No acha? Continuou ela
  voltando-se para Estcio.

--  nossa tia,
  respondeu o moo.

-- Oh! ainda no  minha
  tia! interrompeu Helena. H de s-lo quando me conhecer de todo. Por enquanto
  somos estranhas uma  outra; mas nenhuma de ns  m.

Estas palavras foram
  ditas em tom de graciosa submisso. A voz com que ela as proferiu, era clara,
  doce, melodiosa; melhor do que isso, tinha um misterioso encanto, a que a
  prpria D rsula no pde resistir.

-- Pois deixe que a
  convivncia faa falar o corao, respondeu a irm do conselheiro em tom
  brando. No aceito o oferecimento da leitura, porque no entendo bem o que os
  outros me lem; tenho os olhos mais inteligentes que os ouvidos. Entretanto, se
  quer ver a casa e a chcara, seu irmo pode conduzi-la.

Estcio declarou-se
  pronto para acompanhar a irm. Helena, entretanto, recusou. Irmo embora, era a
  primeira vez que o via, e, ao que parece, a primeira que podia achar-se a ss
  com um homem que no seu pai. D. rsula, talvez porque preferisse ficar s
  algum tempo, disse-lhe secamente que fosse. Helena acompanhou o irmo.
  Percorreram parte da casa, ouvindo a moa as explicaes que lhe dava Estcio e
  inquirindo de tudo com zelo e curiosidade de dona da casa. Quando chegaram 
  porta do gabinete do conselheiro, Estcio parou.

-- Vamos entrar num
  lugar triste para mim, disse ele.

-- Que ?

-- O gabinete de meu
  pai.

-- Oh! deixe ver!

Entraram os dois. Tudo
  estava do mesmo modo que no dia em que o conselheiro falecera. Estcio deu
  algumas indicaes relativas ao teor da vida domstica de seu pai; mostrou-lhe
  a cadeira em que ele costumava ler, de tarde e de manh; os retratos de
  famlia, a secretria, as estantes; falou de quanto podia interess-la. Sobre a
  mesa, perto da janela, estava ainda o ltimo livro que o conselheiro lera: eram
  as Mximas do Marqus de Maric. Helena pegou nele e beijou a pgina
  aberta. Uma lgrima brotou-lhe dos olhos, quente de todo o calor de uma alma
  apaixonada e sensvel; brotou, deslizou-se e foi cair no papel.

-- Coitado! murmurou
  ela.

Depois sentou-se na
  mesma cadeira em que o conselheiro costumava dormir alguns minutos depois de
  jantar, e olhou para fora. O dia comeava a aquecer. O arvoredo dos morros
  fronteiros estava coberto de flores de quaresma, com suas ptalas roxas e
  tristemente belas. O espetculo ia com a situao de ambos. Estcio deixou-se
  levar ao sabor de suas recordaes da meninice. De envolta com elas veio
  pousar-lhe ao lado a figura de sua me; tornou a v-la, tal qual se lhe fora
  dos braos, uma crua noite de outubro, quando ele contava dezoito anos de
  idade. A boa senhora morrera quase moa, -- ainda bela, pelo menos, -- daquela
  beleza sem outono, cuja primavera tem duas estaes.

Helena ergueu-se.

-- Gostava dele?
  perguntou ela.

-- Quem no gostaria
  dele?

-- Tem razo. Era uma
  alma grande e nobre; eu adorava-o. Reconheceu-me; deu-me famlia e futuro;
  levantou-me aos olhos de todos e aos meus prprios. O resto depende de mim, do
  juzo que eu tiver, ou talvez da fortuna.

Esta ltima palavra
  saiu-lhe do corao como um suspiro. Depois de alguns segundos de silncio,
  Helena enfiou o brao no do irmo e desceram  chcara. Fosse influncia do
  lugar ou simples mobilidade de esprito, Helena tornou-se logo outra do que se
  revelara no gabinete do pai. Jovial, graciosa e travessa, perdera aquela gravidade
  quieta e senhora de si com que aparecera na sala de jantar; fez-se lpida e
  viva, como as andorinhas que antes, e ainda agora, esvoaavam por meio das
  rvores e por cima da grama. A mudana causou certo espanto ao moo; mas ele a
  explicou de si para si, e em todo o caso no o impressionou mal. Helena
  pareceu-lhe naquela ocasio, mais do que antes, o complemento da famlia. O que
  ali faltava era justamente o gorjeio, a graa, a travessura, um elemento que
  temperasse a austeridade da casa e lhe desse todas as feies necessrias ao
  lar domstico. Helena era esse elemento complementar.

A excurso durou cerca
  de meia hora. D. rsula viu-os chegar, ao cabo desse tempo, familiares e
  amigos, como se houvessem sido criados juntos. As sobrancelhas grisalhas da boa
  senhora contraram-se, e o lbio inferior recebeu uma dentada de despeito.

-- Titia... disse
  Estcio jovialmente; minha irm conhece j a casa toda e suas dependncias.
  Resta somente que lhe mostremos o corao.

D. rsula sorriu, um
  sorriso amarelo e acanhado, que apagou nos olhos da moa a alegria que os
  tornava mais lindos. Mas foi breve a m impresso; Helena caminhou para a tia,
  e pegando-lhe nas mos, perguntou com toda a doura da voz:

-- No querer
  mostrar-me o seu?

-- No vale a pena! respondeu
  D. rsula com afetada bonomia; corao de velha  casa arruinada.

-- Pois as casas velhas
  consertam-se, replicou Helena sorrindo.

D. rsula sorriu
  tambm; desta vez, porm, com expresso melhor. Ao mesmo tempo, fitou-a; e era
  a primeira vez que o fazia. O olhar, a princpio indiferente, manifestou logo
  depois a impresso que lhe causava a beleza da moa. D. rsula retirou os
  olhos; porventura receou que o influxo das graas de Helena lhe torcessem o
  corao, e ela queria ficar independente e inconcilivel.

CAPTULO IV

As primeiras semanas correram sem
  nenhum sucesso notvel, mas ainda assim interessantes. Era, por assim dizer, um
  tempo de espera, de hesitao, de observao recproca, um tatear de
  caracteres, em que de uma e de outra parte procuravam conhecer o terreno e
  tomar posio. O prprio Estcio, no obstante a primeira impresso,
  recolhera-se a prudente reserva, de que o arrancou aos poucos o procedimento de
  Helena.

Helena tinha os
  predicados prprios a captar a confiana e a afeio da famlia. Era dcil,
  afvel, inteligente. No eram estes, contudo, nem ainda a beleza, os seus dotes
  por excelncia eficazes. O que a tornava superior e lhe dava probabilidade de
  triunfo, era a arte de acomodar-se s circunstncias do momento e a toda a
  casta de espritos, arte preciosa, que faz hbeis os homens e estimveis as
  mulheres. Helena praticava de livros ou de alfinetes, de bailes ou de arranjos
  de casa, com igual interesse e gosto, frvola com os frvolos, grave com os que
  o eram, atenciosa e ouvida, sem entono nem vulgaridade. Havia nela a
  jovialidade da menina e a compostura da mulher feita, um acordo de virtudes
  domsticas e maneiras elegantes.

Alm das qualidades
  naturais, possua Helena algumas prendas de sociedade, que a tornavam aceita a
  todos, e mudaram em parte o teor da vida da famlia. No falo da magnfica voz
  de contralto, nem da correo com que sabia usar dela, porque ainda ento,
  estando fresca a memria do conselheiro, no tivera ocasio de fazer-se ouvir.
  Era pianista distinta, sabia desenho, falava correntemente a lngua francesa,
  um pouco a inglesa e a italiana. Entendia de costura e bordados e toda a sorte
  de trabalhos feminis. Conversava com graa e lia admiravelmente. Mediante os
  seus recursos, e muita pacincia, arte e resignao, -- no humilde, mas digna,
  -- conseguia polir os speros, atrair os indiferentes e domar os hostis.

Pouco havia ganho no
  esprito de D. rsula; mas a repulsa desta j no era to viva como nos
  primeiros dias. Estcio cedeu de todo, e era fcil; seu corao tendia para
  ela, mais que nenhum outro. No cedeu, porm, sem alguma hesitao e dvida. A
  flexibilidade do esprito da irm afigurou-se-lhe a princpio mais calculada
  que espontnea. Mas foi impresso que passou. Dos prprios escravos no obteve
  Helena desde logo a simpatia e boa vontade; esses pautavam os sentimentos pelos
  de D. rsula. Servos de uma famlia, viam com desafeto e cime a parenta nova,
  ali trazida por um ato de generosidade. Mas tambm a esses venceu o tempo. Um
  s de tantos pareceu v-la desde princpio com olhos amigos; era um rapaz de 16
  anos, chamado Vicente, cria da casa e particularmente estimado do conselheiro.
  Talvez esta ltima circunstncia o ligou desde logo  filha do seu senhor. Despida
  de interesse, porque a esperana da liberdade, se a podia haver, era precria e
  remota, a afeio de Vicente no era menos viva e sincera; faltando-lhe os
  gozos prprios do afeto, -- a familiaridade e o contato, -- condenado a viver da
  contemplao e da memria, a no beijar sequer a mo que o abenoava, limitado
  e distanciado pelos costumes, pelo respeito e pelos instintos, Vicente foi, no
  obstante, um fiel servidor de Helena, seu advogado convicto nos julgamentos da
  senzala.

As pessoas da
  intimidade da casa acolheram Helena com a mesma hesitao de D. rsula. Helena
  sentiu-lhes a polidez fria e parcimoniosa. Longe de abater-se ou vituperar os
  sentimentos sociais, explicava-os e tratava de os torcer em seu favor, -- tarefa
  em que se esmerou, superando os obstculos na famlia; o resto viria de si
  mesmo.

Uma pessoa, entre os
  familiares da casa, no os acompanhou no procedimento reservado e frio; foi o
  padre-mestre Melchior. Melchior era capelo em casa do conselheiro, que mandara
  construir alguns anos antes uma capelinha na chcara, onde muita gente da
  vizinhana ouvia missa aos domingos. Tinha sessenta anos o padre; era homem de
  estatura mediana, magro, calvo, brancos os poucos cabelos, e uns olhos no
  menos sagazes que mansos. De compostura quieta e grave, austero sem formalismo,
  socivel sem mundanidade, tolerante sem fraqueza, era o verdadeiro varo
  apostlico, homem de sua Igreja e de seu Deus, ntegro na f, constante na
  esperana, ardente na caridade. Conhecera a famlia do conselheiro algum tempo depois
  do consrcio deste. Descobriu a causa da tristeza que minou os ltimos anos da
  me de Estcio; respeitou a tristeza, mas atacou diretamente a origem. O
  conselheiro era homem geralmente razovel, salvo nas coisas do amor; ouviu o
  padre, prometeu o que este lhe exigia, mas foi promessa feita na areia; o
  primeiro vento do corao apagou a escritura. Entretanto, o conselheiro ouvia-o
  sinceramente em todas as ocasies graves, e o voto de Melchior pesava em seu
  esprito. Morando na vizinhana daquela famlia, tinha ali o padre todo o seu
  mundo. Se as obrigaes eclesisticas no o chamavam a outro lugar, no se
  arredava de Andara, stio de repouso aps trabalhosa mocidade.

Das outras pessoas que
  freqentavam a casa e residiam no mesmo bairro de Andara, mencionaremos ainda
  o Dr. Matos, sua mulher, o Coronel Macedo e dois filhos.

O Dr. Matos era um
  velho advogado que, em compensao da cincia do direito, que no sabia,
  possua noes muito aproveitveis de meteorologia e botnica, da arte de
  comer, do voltarete, do gamo e da poltica. Era impossvel a ningum
  queixar-se do calor ou do frio, sem ouvir dele a causa e a natureza de um e
  outro, e logo a diviso das estaes, a diferena dos climas, influncia
  destes, as chuvas, os ventos, a neve, as vazantes dos rios e suas enchentes, as
  mars e a pororoca. Ele falava com igual abundncia das qualidades teraputicas
  de uma erva, do nome cientfico de uma flor, da estrutura de certo vegetal e
  suas peculiaridades. Alheio s paixes da poltica, se abria a boca em tal
  assunto era para criticar igualmente de liberais e conservadores, -- os quais
  todos lhe pareciam abaixo do pas. O jogo e a comida achavam-no menos ctico; e
  nada lhe avivava tanto a fisionomia como um bom gamo depois de um bom jantar.
  Estas prendas faziam do Dr. Matos um conviva interessante nas noites que o no
  eram. Posto soubesse efetivamente alguma coisa dos assuntos que lhe eram mais
  prezados, no ganhou o peclio que possua, professando a botnica ou a
  meteorologia, mas aplicando as regras do direito, que ignorou at a morte.

A esposa do Dr. Matos
  fora uma das belezas do primeiro reinado. Era uma rosa fanada, mas conservava o
  aroma da juventude. Algum tempo se disse que o conselheiro ardera aos ps da
  mulher do advogado, sem repulsa desta; mas s era verdade a primeira parte do
  boato. Nem os princpios morais, nem o temperamento de D. Leonor lhe consentiam
  outra coisa que no fosse repelir o conselheiro sem o molestar. A arte com que
  o fez iludiu os malvolos; da o sussurro, j agora esquecido e morto. A
  reputao dos homens amorosos parece-se muito com o juro do dinheiro: alcanado
  certo capital, ele prprio se multiplica e avulta. O conselheiro desfrutou essa
  vantagem, de maneira que, se no outro mundo lhe levassem  coluna dos pecados todos
  os que lhe atribuam na Terra, receberia dobrado castigo do que mereceu.

O Coronel Macedo tinha
  a particularidade de no ser coronel. Era major. Alguns amigos, levados de um
  esprito de retificao, comearam a dar-llhe o ttulo de coronel, que a princpio
  recusou, mas que afinal foi compelido a aceitar, no podendo gastar a vida
  inteira a protestar contra ele. Macedo tinha visto e vivido muito; e, sobre o
  peclio da experincia, possua imaginao viva, frtil e agradvel. Era bom
  companheiro, folgazo e comunicativo, pensando srio quando era preciso. Tinha
  dois filhos, um rapaz de vinte anos, que estudava em So Paulo, e uma moa de
  vinte e trs, mais prendada que formosa.

Nos primeiros dias de
  agosto a situao de Helena podia dizer-se consolidada. D.rsula no cedera de
  todo, mas a convivncia ia produzindo seus frutos. Camargo era o nico
  irreconcilivel; sentia-se, atravs de suas maneiras cerimoniosas, uma averso
  profunda, prestes a converter-se em hostilidade, se fosse preciso. As demais pessoas,
  no s domadas, mas at enfeitiadas, estavam s boas com a filha do
  conselheiro. Helena tornara-se o acontecimento do bairro; seus ditos e gestos
  eram o assunto da vizinhana e o prazer dos familiares da casa. Por uma natural
  curiosidade, cada um procurava em suas reminiscncias um fio biogrfico da
  moa; mas do inventrio retrospectivo ningum tirava elementos que pudessem
  construir a verdade ou uma s parcela que fosse. A origem da moa continuava
  misteriosa; vantagem grande, porque o obscuro favorecia a lenda, e cada qual
  podia atribuir o nascimento de Helena a um amor ilustre ou romanesco, --
  hipteses admissveis, e em todo o caso agradveis a ambas as partes.

CAPTULO V

Por esse tempo resolveu Estcio dar
  um passo decisivo. Ligado por amor  filha de Camargo, desde antes da morte do
  conselheiro, hesitara sempre em pedi-la ao pai, diferindo a resoluo para
  quando fosse propcio o ensejo. A condio no era fcil, porque o sentimento
  que ele nutria em relao  Eugnia tinha alternativas de tibieza e fervor. A
  causa disso pode crer-se estava tambm em seu corao; mas principalmente
  residia nela. Num dos primeiros dias de agosto, assentara Estcio de ir
  solicitar de Eugnia autorizao para fazer oficialmente o pedido. Assim
  disposto, dirigiu-se  casa de Camargo.

Mal o avistou de longe,
  desceu Eugnia  porta do jardim. O chapelinho de palha, de abas largas, que
  lhe protegia o rosto dos raios do sol, -- eram trs horas da tarde, -- tornava
  mais bela a figura da moa. Eugnia era uma das mais brilhantes estrelas entre
  as menores do cu fluminense. Agora mesmo, se o leitor lhe descobrir o perfil
  em camarote de teatro, ou se a vir entrar em alguma sala de baile,
  compreender, -- atravs de um quarto de sculo, -- que os contemporneos de sua
  mocidade lhe tivessem louvado, sem contraste, as graas que ento alvoreciam
  com o frescor e a pureza das primeiras horas.

Era de pequena
  estatura; tinha os cabelos de um castanho escuro, e os olhos grandes e azuis,
  dois pedacinhos do cu, abertos em rosto alvo e corado; o corpo, levemente
  refeito, era naturalmente elegante; mas se a dona sabia vestir-se com luxo, e
  at com arte, no possua o dom de alcanar os mximos efeitos com os meios
  mais simples.

Estcio contemplou-a
  namorado sem ousar dizer palavra; a primeira que lhe ia sair dos lbios, era
  justamente o pedido que o levava ali. Mas Eugnia deteve-lha, mostrando o anel
  que a madrinha, fazendeira de Cantagalo, lhe mandara na vspera. Era uma opala
  magnfica, a tal ponto que Eugnia dividia os olhos entre o namorado e ela.
  Esta simultaneidade esfriou o mancebo. Entraram ambos em casa, onde D.Tomsia
  os esperava. A me de Eugnia sabia combinar o decoro com os desejos de seu
  corao; no seria obstculo aos dois namorados; infelizmente, a presena de
  duas visitas veio destruir o clculo dos trs. Estcio espreitava uma ocasio
  de pedir a Eugnia a autorizao que desejava; at ao jantar no se lhe deparou
  nenhuma.

Desceram todos ao
  jardim. D. Tomsia entreteve uma das visitas; Camargo foi mostrar  outra a sua
  coleo de flores. Estcio e Eugnia afastaram-se cautelosamente dos dois
  grupos, a pretexto de no sei que flor aberta na manh daquele dia. A flor
  existia; Eugnia colheu-a e deu a Estcio.

-- No v perd-la; h
  de entreg-la a Helena da minha parte. Diga-lhe que estou com muitas saudades.

Estcio colocou a flor
  na botoeira.

-- Vai cair! disse
  Eugnia. Quer que pregue um alfinete?

Estcio no teve tempo
  de responder, porque a filha de Camargo, tirando um alfinete do cinto, prendeu
  o p da flor, gastando muito mais tempo do que o exigia a operao. A moa no
  era mope; todavia aproximou de tal modo a cabea ao peito do mancebo, que este
  teve mpetos de lhe beijar os cabelos, e seria a primeira vez que seus lbios
  lhe tocassem.

-- Pronto! disse ela.
  Diga a Helena que  a flor mais bonita do nosso jardim. Sabe que eu gosto muito
  de sua irm?

-- Acredito.

-- Suponho que  minha
  amiga; h de s-lo com certeza. Oh! eu preciso muito de uma amiga verdadeira!

-- Sim?

-- Muito! Tenho tantas
  que no prestam para nada, e s me do desgostos, como Ceclia... Se soubesse o
  que ela me fez!

-- Que foi?

Eugnia desfiou uma
  historiazinha de toucador, que omito em suas particularidades por no
  interessar ao nosso caso, bastando saber que a razo capital da divergncia
  entre as duas amigas fora uma opinio de Ceclia acerca da escolha de um
  chapu.

Estcio no escutou a
  histria com a ateno que a moa desejara; limitou-se a ouvir a voz de
  Eugnia, que era na verdade anglica. Alguma coisa, porm lhe ficou; e quando
  ela ps termo s suas queixas:

-- O que me parece,
  observou o sobrinho de D. rsula,  que no valia a pena brigar por to pouca
  coisa...

-- Pouca coisa! exclamou
  Eugnia. Parece-lhe pouco chamar-me caprichosa e de mau gosto?

-- Fez mal, se o disse,
  em todo o caso...

Estcio fez uma pausa e
  continuou a andar. Eugnia esperou que ele continuasse o que ia dizer; mas o
  silncio prolongou-se mais do que era natural.

-- Em todo o caso?
  repetiu a moa erguendo para ele os olhos lmpidos e curiosos.

-- Eugnia, disse
  Estcio, quer saber a verdadeira razo do mau sucesso de suas afeies? 
  deixar-se levar mais pelas aparncias que pela realidade;  porque d menos
  apreo s qualidades slidas do corao do que s frvolas exterioridades da
  vida. Suas amizades so das que duram a roda de uma valsa, ou quando muito, a
  moda de um chapu; podem satisfazer o capricho de um dia, mas so estreis para
  as necessidades do corao.

-- Jesus! exclamou
  Eugnia, estacando o passo; um sermo por to pouca coisa! Se tivesse algum
  pedao de latim, era o mesmo que estar ouvindo o Padre Melchior.

Estcio no respondeu;
  contentou-se com erguer os ombros, e os dois continuaram a andar
  silenciosamente, acanhados e descontentes um do outro. A diferena  que o
  enfado de Eugnia se manifestava por um movimento nervoso de impacincia e
  despeito.

-- Se o ofendi,
  perdoe-me, disse ela, com um leve tom de ironia.

-- Oh! exclamou ele,
  apertando-lhe a mo, como quem s esperava um pretexto para reatar a conversa
  interrompida.

-- Talvez ofendesse,
  continuou a moa; eu sei dizer as coisas como elas me vm  boca, e parece que
  no so as mais acertadas...

-- No digo que o sejam
  sempre, replicou Estcio sorrindo. Agora, pelo menos, foi um pouco precipitada
  em zombar do que eu lhe dizia, que era justo e de boa inteno. Francamente, 
  para lastimar uma amizade, ganha entre duas quadrilhas e perdida por causa de
  um chapu? No vale a pena esperdiar afetos, Eugnia; sentir mais tarde que
  essa moeda do corao no se deve nunca reduzir a trocos midos nem despender
  em quinquilharias.

Eugnia ouviu calada as
  palavras do moo; no as entendeu muito. Sabia-lhes a significao; no lhes
  viu, porm nexo nem sentido; sobretudo, no lhes sentiu a aplicao. O que a
  irritou mais foi o tom pedagogo de Estcio; estouvada e voluntariosa, no
  admitia que ningum lhe falasse sem submisso ou a repreendesse por atos seus,
  que ela julgava legtimos e naturais. A insistncia do moo foi o ponto de
  partida a um desses arrufos, no raros entre amantes, e comuns entre aqueles
  dois. Os de Eugnia no eram simples silncios; seu esprito rebelde e livre
  no adormecia nesses momentos de enfado; pelo contrrio, irritava-se e traduzia
  a irritao por meio de pirraas e acessos de mau humor. Estcio viu murmurar,
  crescer e desabar a tempestade. A moa articulava algumas frases soltas, batia
  no cho com o pezinho mimoso, que por acaso esmagou uma pobre erva, alheia s
  divergncias morais daquelas duas criaturas. Ora parava e desandava o caminho;
  mas logo se dirigia para o moo, com as plpebras trmulas de clera e um
  remoque nos lbios; comprazia-se em torcer a ponta da manga ou morder a ponta
  do dedo. Estcio, afeito a essas exploses, no lhes sabia remdio prprio:
  tanto o silncio como a rplica eram ali matrias inflamveis. Contudo, o
  silncio era o menor dos dois perigos. Estcio limitava-se a ouvir calado,
  olhando  sorrelfa para a filha de Camargo, cujo rosto parecia mais belo quando
  a raiva o coloria. Uma terceira pessoa era a nica esperana de pacificao;
  Estcio alongou o olhar pelo jardim em busca desse deus ex-machina.
  Apareceu ele enfim sob a forma de um Carlos Barreto, -- estudante de medicina,
  que cultivava simultaneamente a patologia e a comdia, mas prometia ser melhor
  Esculpio que Aristfanes. Mal os viu de longe, apertou o passo para o grupo.

-- Vem gente, Eugnia,
  disse Estcio; no demos espetculos e... perdoe-me.

Eugnia ergueu os
  ombros, procurou com os olhos o intruso que da a pouco lhes estendia a mo.

O cu no ficou logo
  claro; mas o vento amainou, e era de esperar que o sol se desfizesse enfim do
  seu capote de nuvens. Carlos Barreto deu a Eugnia a agradvel notcia de que
  trouxera a seu pai um convite para o baile que daria no sbado prximo uma de
  suas parentas. A perspectiva do baile foi uma brisa salutar que dispersou o
  resto das nuvens; Eugnia sorriu. J'ai ri; me voil dsarme, como na comdia de
    Piron. Vinte
      minutos depois, no havia em Eugnia vestgio da cena do jardim. Mas a idia do
      casamento estava adiada.

O efeito foi agro e
  doce para Estcio. Estimando ver dissipada a clera, doa-lhe que a causa
  fosse, no a prpria virtude do amor, mas um motivo comparativamente ftil. A
  resoluo de a consultar sobre o pedido de casamento esvaiu-se-lhe como de
  outras vezes. Saiu dali  noite, antes do ch, aborrecido e azedo. Esse estado
  no durou muito; dez minutos depois de deixar a casa de Camargo, sentiu alguma
  coisa semelhante  dentada de um remorso. O amor de Estcio tinha a
  particularidade de crescer e afirmar-se na ausncia e diminuir logo que estava
  ao p da moa. De longe, via-a atravs da nvoa luminosa da imaginao; ao p
  era difcil que Eugnia conservasse os dotes que ele lhe emprestava. Da, um
  dissentimento provvel e um remorso certo. Agora que a deixava, ia ele irritado
  contra si mesmo; achava-se ridculo e cruel; chegava a adorar toda a graciosa
  futilidade de Eugnia; concedia alguma coisa  idade,  educao, aos costumes,
   ignorncia da vida.

Nesse estado de
  esprito entrou em casa, onde o esperava um incidente novo.

CAPTULO VI

Chegando  casa, achou
  Estcio remdio ao mau humor. Era uma carta de Lus Mendona, que dois anos
  antes partira para a Europa, donde agora regressava. Escrevia-lhe de
  Pernambuco, anunciando-lhe que dentro de poucas semanas estaria no Rio de
  Janeiro. Mendona fora o seu melhor companheiro de aula. Havia entre eles
  certos contrastes de gnio. O de Mendona era mais folgazo e ativo. Quando
  este partiu para a Europa, quis que o antigo colega o acompanhasse, e o prprio
  conselheiro opinara nesse sentido. Estcio recusou pelo receio de que, sendo
  diferente o esprito de um e outro, a viagem tivesse de obrigar ao sacrifcio
  de hbitos e preferncias de um deles.

A notcia da volta de
  Mendona encheu de contentamento o sobrinho de D. rsula. D. rsula estava
  ento na sala de costura, relendo algumas pginas do seu Saint-Clair,
  encostada a uma mesa. Do outro lado, ficava Helena, a concluir uma obra de crochet .

-- Titia, disse ele,
  dou-lhe uma novidade agradvel para mim.

-- Que ?

-- O Mendona chegou a
  Pernambuco; est aqui dentro de pouco tempo.

-- O Mendona?

-- Lus Mendona.

-- O que foi para a
  Europa, sei. H quanto tempo?

-- Dois anos.

-- Dois anos! Parece que
  foi ontem.

-- No lhe leio a carta
  que me escreveu por ser muito longa. Diz-me que devo ir tambm  Europa, quanto
  antes. Querem ir?

-- Eu? disse D. rsula,
  marcando a pgina do livro com os culos de prata que at ento conservara
  sobre o nariz. No so folias para gente velha. Daqui para a cova.

-- A cova! exclamou
  Helena. Est ainda to forte! Quem sabe se no me h de enterrar primeiro?

-- Menina! exclamou D.
  rsula em tom de repreenso.

Helena sorriu de
  alegria e agradecimento; era a primeira palavra de verdadeira simpatia que
  ouvia a D. rsula. Bem o compreendeu esta; e talvez a mortificou aquela
  espontaneidade do corao. Mas era tarde. No podia recolher a palavra, no
  podia sequer explic-la.

-- Que tal vir o teu
  amigo? perguntou ela ao sobrinho. Era bom rapaz antes de ir; um pouco tonto,
  apenas.

-- H de vir o mesmo,
  respondeu Estcio; ou ainda melhor. Melhor decerto, porque dois anos mais
  modificam o homem.

Estcio fez aqui um
  panegrico do amigo, intercalado com observaes da tia, e ouvido
  silenciosamente pela irm. Vieram chamar para o ch. D. rsula largou
  definitivamente o seu romance, e Helena guardou o crochet na cestinha de
  costura.

-- Pensa que gastei toda
  a tarde em fazer crochet? perguntou ela ao irmo, caminhando para a sala de
  jantar.

-- No?

-- No, senhor; fiz um
  furto.

-- Um furto!

-- Fui procurar um livro
  na sua estante.

-- E que livro foi?

-- Um romance.

-- Paulo e Virgnia?

-- Manon Lescaut.

-- Oh! exclamou Estcio.
  Esse livro...

-- Esquisito, no ?
  Quando percebi que o era, fechei-o e l o pus outra vez.

-- No  livro para
  moas solteiras...

-- No creio mesmo que
  seja para moas casadas, replicou Helena rindo e sentando-se  mesa. Em todo o
  caso, li apenas algumas pginas. Depois abri um livro de geometria... e
  confesso que tive um desejo...

-- Imagino! interrompeu
  D. rsula.

-- O desejo de aprender
  a montar a cavalo, concluiu Helena.

Estcio olhou espantado
  para a irm. Aquela mistura de geometria e equitao no lhe pareceu
  suficientemente clara e explicvel. Helena soltou uma risadinha alegre de
  menina que aplaude a sua prpria travessura.

-- Eu lhe explico, disse
  ela; abri o livro, todo alastrado de riscos que no entendi. Ouvi porm um
  tropel de cavalos e cheguei  janela. Eram trs cavaleiros, dois homens e uma
  senhora. Oh! com que garbo montava a senhora! Imaginem uma moa de vinte e
  cinco anos, alta, esbelta, um busto de fada, apertado no corpinho de amazona, e
  a longa cauda do vestido cada a um lado. O cavalo era fogoso; mas a mo e o
  chicotinho da cavaleira quebravam-lhe os mpetos. Tive pena, confesso, de no
  saber montar a cavalo...

-- Quer aprender comigo?

-- Titia consente?

D. rsula levantou os
  ombros com o ar mais indiferente que pde achar no seu repertrio. Helena no
  esperou mais.

-- Escolha voc o dia.

-- Amanh?

-- Amanh.

Estcio costumava dar
  um passeio a cavalo quase todas as manhs. O do dia seguinte foi dispensado;
  comeariam as lies de Helena. Antes disso, porm, escreveu Estcio  filha de
  Camargo uma carta recendente a ternura e afeto. Pedia-lhe desculpa do que se
  passara na vspera; jurava-lhe amor eterno; coisas todas que lhe dissera mais
  de uma vez, com o mesmo estilo, se no com as mesmas palavras. A carta
  dissipou-lhe a ltima sombra de remorso. Antes que ela chegasse ao seu destino,
  reconciliara-se ele consigo mesmo. O portador saiu para o Rio Comprido, e ele
  desceu ao terreiro que ficava nos fundos da casa, ao p do qual estava situada
  a cavalaria. Naquele lado da casa corria a varanda antiga, onde a famlia
  costumava s vezes tomar caf ou conversar nas noites de luar, que ali
  penetrava pelas largas janelas. Do meio da varanda descia uma escada de pedra
  que ia ter ao terreiro.

J ali estava Helena.
  D. rsula emprestara-lhe um vestido de amazona, com que algumas vezes montara,
  antes da morte do irmo. O vestido ficava-lhe mal; era folgado demais para o
  talhe delgado da moa. Mas a elegncia natural fazia esquecer o acessrio das
  roupas.

-- Pronta! exclamou
  Helena apenas viu o irmo assomar no alto da escada.

-- Oh! isso no vai
  assim! respondeu Estcio. No suponha que h de montar j hoje como a moa que
  ontem viu passar na estrada. Vena primeiramente o medo...

-- No sei o que  medo,
  interrompeu ela com ingenuidade.

-- Sim? No a supunha
  valente. Pois eu sei o que ele .

-- O medo? O medo  um
  preconceito dos nervos. E um preconceito desfaz-se; basta a simples reflexo.
  Em pequena educaram-me com almas do outro mundo. At a idade de dez anos era
  incapaz de penetrar numa sala escura. Um dia perguntei a mim mesma se era
  possvel que uma pessoa morta voltasse  Terra. Fazer a pergunta e dar-lhe
  resposta era a mesma coisa. Lavei o meu esprito de semelhante tolice, e hoje
  era capaz de entrar, de noite, num cemitrio... E da talvez no: os corpos que
  ali dormem tm direito de no ouvir mais um s rumor de vida.

Estcio chegara ao
  ltimo degrau da escada. As derradeiras palavras ouviu-as ele com os olhos
  fitos na irm e encostado ao poial de pedra.

-- Quem lhe ensinou
  essas idias? perguntou ele.

-- No so idias, so
  sentimentos. No se aprendem; trazem-se no corao. Senhor gemetra, continuou
  brandindo caprichosamente o chicote, -- veja se transcreve em algum compndio
  estas figuras de minha inveno, e ande cavalgar comigo.

Com um movimento rpido
  travou da cauda do vestido, e caminhou para diante. Estcio acompanhou-a, a
  passo lento, como solicitado por dois sentimentos diferentes: a afeio que o
  prendia  irm, e a estranha impresso que ela lhe fazia sentir. Quando chegou
   porta da cavalaria, viu aparelhados dois animais, o cavalo de seus passeios
  da manh, e a gua que a tia cavalgava uma ou outra vez.

-- Que  isso? disse
  ele. Por ora vamos a algumas indicaes somente, aqui no terreiro.

-- Justamente! respondeu
  a moa.

Um escravo, que ali
  estava, trouxe um tamborete. Estcio aproximou-se de Helena, que afagava com a
  mo alva e fina as crinas da gua.

-- Como se chama?
  perguntou ela.

-- Moema.

-- Moema! Ora
  espere...  um nome indgena, no ?

Estcio fez um sinal
  afirmativo. Helena tinha um p sobre o tamborete; repetiu ainda o nome da gua,
  como quem refletia sobre ele, sem que o irmo percebesse que no era aquilo
  mais do que um disfarce. De repente, quando ele menos esperava, Helena deu um
  salto, e sentou-se no selim. A gua alteou o colo, como vaidosa do peso.
  Estcio olhou para a irm, admirado da agilidade e correo do movimento, e sem
  saber ainda o que pensasse daquilo. Helena inclinou-se para ele.

-- Fui bem? perguntou
  sorrindo.

-- No podia ir melhor;
  mas o que me admira...

As patas de Moema interromperam a reflexo do moo. A cavaleira brandira o chicotinho, e o animal
  sara a trote largo pelo terreiro fora. Estcio, no primeiro momento, deu um
  passo e estendeu a mo como para tomar a rdea ao animal; mas a segurana da
  moa logo lhe deixou ver que ela no fazia ali os primeiros ensaios. Ficou
  parado, de longe, a admirar-lhe o garbo e a destreza. No fim de vinte passos,
  Helena torceu a rdea e regressou ao ponto donde sara.

-- Que tal? disse ela
  logo que estacou. Terei jeito para a equitao?

-- Criana!

-- Que  isso? J
  aprendeu? interveio D. rsula, do alto da varanda, aonde acabava de chegar.

-- Estava caoando
  conosco, disse Estcio. V como sabe montar?

-- Ela sabe tudo,
  murmurou D. rsula entre dentes.

Estcio montou no
  cavalo. Consultou o relgio; eram sete horas e meia.

-- Permite que o
  acompanhe? perguntou Helena.

-- Com uma condio,
  disse ele;  que h de ter juzo. No quero temeridades; a gua  aparentemente
  mansa; convm no brincar com ela. J vejo que voc  capaz de muitas coisas
  mais...

-- Prometo ir
  pacificamente.

Helena cumprimentou a
  tia com um gesto gracioso, deu de rdea ao animal e seguiu ao lado do irmo.
  Transposto o porto, seguiram os dois para o lado de cima, a passo lento. O sol
  estava encoberto e a manh fresca. Helena cavalgava perfeitamente; de quando em
  quando a gua, instigada por ela, adiantava-se alguns passos ao cavalo; Estcio
  repreendia a irm, a seu pesar, porque ao mesmo tempo que temia alguma
  imprudncia, gostava de lhe ver o airoso do busto e a firme serenidade com que
  ela conduzia o animal.

-- No me dir voc,
  perguntou ele, por que motivo, sabendo montar, pedia-me ontem lies?

-- A razo  clara,
  disse ela; foi uma simples travessura, um capricho... ou antes um clculo.

-- Um clculo?

-- Profundo, hediondo,
  diablico, continuou a moa sorrindo. Eu queria passear algumas vezes a cavalo;
  no era possvel sair s, e nesse caso...

-- Bastava pedir-me que
  a acompanhasse.

-- No bastava. Havia um
  meio de lhe dar mais gosto em sair comigo; era fingir que no sabia montar. A
  idia momentnea de sua superioridade neste assunto era bastante para lhe
  inspirar uma dedicao decidida...

Estcio sorriu do clculo;
  logo depois ficou srio, e perguntou em tom seco:

-- J lhe negamos algum
  prazer que desejasse?

Helena estremeceu e
  ficou igualmente sria.

-- No! murmurou; minha
  dvida no tem limites.

Esta palavra saiu-lhe
  do corao. As plpebras caram-lhe e um vu de tristeza lhe apagou o rosto.
  Estcio arrependeu-se do que dissera. Compreendeu a irm; viu que, por mais
  inocentes que suas palavras fossem, podiam ser tomadas  m parte, e, em tal
  caso, o menos que se lhe podia argir era a descortesia. Estcio timbrava em
  ser o mais polido dos homens. Inclinou-se para ela e rompeu o silncio.

-- Voc ficou triste,
  disse Estcio; mas eu desculpo-a.

-- Desculpa-me?
  perguntou a moa erguendo para o irmo os belos olhos midos.

-- Desculpo a injria
  que me fez, supondo-me grosseiro.

Apertaram-se as mos, e
  o passeio continuou nas melhores disposies do mundo. Helena deu livre curso 
  imaginao e ao pensamento; suas falas exprimiam, ora a sensibilidade
  romanesca, ora a reflexo da experincia prematura, e iam direitas  alma do
  irmo, que se comprazia em ver nela a mulher como ele queria que fosse, uma
  graa pensadora, uma sisudez amvel. De quando em quando faziam parar os
  animais para contemplar o caminho percorrido, ou discretear acerca de um
  acidente do terreno. Uma vez, aconteceu que iam falando das desvantagens da
  riqueza.

-- Valem muito os bens
  da fortuna, dizia Estcio; eles do a maior felicidade da Terra, que  a
  independncia absoluta. Nunca experimentei a necessidade; mas imagino que o
  pior que h nela no  a privao de alguns apetites ou desejos, de sua
  natureza transitrios, mas sim essa escravido moral que submete o homem aos
  outros homens. A riqueza compra at o tempo, que  o mais precioso e fugitivo
  bem que nos coube. V aquele preto que ali est? Para fazer o mesmo trajeto que
  ns, ter de gastar, a p, mais uma hora ou quase.

O preto de quem Estcio
  falara, estava sentado no capim, descascando uma laranja, enquanto a primeira
  das duas mulas que conduzia, olhava filosoficamente para ele. O preto no
  atendia aos dois cavaleiros que se aproximavam. Ia esburgando a fruta e
  deitando os pedaos de casca ao focinho do animal, que fazia apenas um
  movimento de cabea, com o que parecia alegr-lo infinitamente. Era homem de
  cerca de quarenta anos; ao parecer, escravo. As roupas eram rafadas; o chapu
  que lhe cobria a cabea, tinha j uma cor inverossmil. No entanto, o rosto
  exprimia a plenitude da satisfao; em todo o caso, a serenidade do esprito.

Helena relanceou os
  olhos ao quadro que o irmo lhe mostrara. Ao passarem por ele, o preto tirou
  respeitosamente o chapu e continuou na mesma posio e ocupao que dantes.

-- Tem razo, disse
  Helena: aquele homem gastar muito mais tempo do que ns em caminhar. Mas no 
  isto uma simples questo de ponto de vista? A rigor, o tempo corre do mesmo
  modo, quer o esperdicemos, quer o economizemos. O essencial no  fazer muita
  coisa no menor prazo;  fazer muita coisa aprazvel ou til. Para aquele preto
  o mais aprazvel , talvez, esse mesmo caminhar a p, que lhe alongar a
  jornada, e lhe far esquecer o cativeiro, se  cativo.  uma hora de pura
  liberdade.

Estcio soltou uma
  risada.

-- Voc devia ter
  nascido...

-- Homem?

-- Homem e advogado.
  Sabe defender com habilidade as causas mais melindrosas. Nem estou longe de
  crer que o prprio cativeiro lhe parecer uma bem-aventurana, se eu disser que
   o pior estado do homem.

-- Sim? retorquiu Helena
  sorrindo; estou quase a fazer-lhe a vontade. No fao; prefiro admirar a cabea
  de Moema. Veja, veja como se vai faceirando. Esta no maldiz o
  cativeiro; pelo contrrio, parece que lhe d glria. Pudera! Se no a
  tivssemos cativa, receberia ela o gosto de me sustentar e conduzir? Mas no 
  s faceirice,  tambm impacincia.

-- De qu?

-- Impacincia de correr
  por essa estrada da Tijuca fora, e beber o vento da manh, espreguiando os
  msculos, e sentindo-se alguma coisa senhora e livre. Mas que queres tu, minha
  pobre gua? continuou a moa inclinando a cabea at s orelhas do animal; vai
  aqui ao ps de ns um homem muito mau e medroso, que  ao mesmo tempo meu irmo
  e meu inimigo...

-- Helena! interrompeu
  Estcio; voc  muito capaz de disparar a correr.

-- E se fosse?

-- Eu deixava-a ir, e
  nunca a traria em meus passeios. Voc monta bem; mas no desejo que faa
  temeridades. Ns somos responsveis, no s por sua felicidade, mas tambm por
  sua vida.

Helena refletiu um
  instante.

-- Quer dizer, perguntou
  ela, que se eu fosse vtima de um desastre, no faltaria quem o imputasse 
  minha famlia?

-- Justo.

-- Singular gente! No
  h de ser tanto assim... Pois se eu me lembrasse --  uma suposio -- se eu me
  lembrasse de deixar a vida por aborrecimento ou capricho, seria voc acusado de
  me haver propinado o veneno? No h melhor modo de me fazer evitar a morte.

-- Deixemos conversas
  lgubres, e voltemos para casa, interrompeu Estcio.

-- J!

-- Raras vezes passo
  daqui; e no pense voc que  perto.

-- Parece-me que ainda
  agora samos de casa. Vamos uns cinco minutos adiante? Sim?

Estcio consultou o
  relgio.

-- Cinco minutos justos,
  disse ele.

-- At aquela casa que
  ali est com uma bandeira azul.

Havia, efetivamente,
  cerca de quatro minutos adiante,  esquerda da estrada, uma casa de insignificante
  aparncia, sobre cujo telhado flutuava uma bandeira azul presa a uma vara.
  Estcio conhecia a casa, mas era a primeira vez que via a bandeira. Helena
  pediu-lhe a explicao daquele apndice.

-- V l saber, disse o
  irmo rindo.

Helena deu de rdea 
  gua e adiantou-se alguns passos. Estcio apertou o animal e alcanou-a.

-- No v fazer tolices!
  disse ele em tom de branda repreenso. Aquilo  fantasia do morador, ou algum
  sinal de pssaros, ou qualquer outra coisa que no vale a pena de uma
  travessura. Contemplemos antes a manh, que est deliciosa.

Helena no atendeu 
  proposta do irmo e foi andando, a passo lento, na direo da casa. A casa era
  velha, abrindo por uma porta para o alpendre antigo que lhe corria na frente.
  As colunas deste estavam j lascadas em muitas partes, aparecendo, aqui e ali,
  a ossada de tijolo. A porta estava meio aberta. Havia absoluta solido,
  aparente ao menos. Quando eles lhe passaram pela frente, a porta abriu-se, mas
  se algum espreitava por ela, ficou sumido na sombra, porque ningum de fora o
  viu.

Cerca de cinco braas
  adiante, Estcio resolveu definitivamente regressar, e Helena no ops objeo
  nenhuma. Torceram a rdea aos animais e desceram.

-- No poderei falar 
  bandeira? perguntou a moa. Deixe-me ao menos dizer-lhe adeus.

Tinha j tirado da
  algibeira o seu fino leno de cambraia; agitou-o na direo da casa. Quis o
  acaso que a bandeira, at ento quieta, se movesse ao sopro de uma aragem que
  passou.

-- V como ela me
  respondeu? No se pode ser mais corts! exclamou Helena rindo.

Estcio riu tambm da
  lembrana da irm, e ambos desceram, a passo lento, como haviam subido. Helena
  vinha taciturna e pensativa. Os olhos, cravados nas orelhas de Moema,
  no pareciam ver sequer o caminho que o animal seguia. Estcio, para arranc-la
  ao silncio, fez-lhe uma observao acerca de um incidente do caminho. Helena
  respondeu distraidamente.

-- Que tem voc?
  perguntou ele.

-- Nada, disse ela; ia.
  . . ia embebida naquela toada. No ouve?

Ouvia-se, efetivamente,
  a algumas braas adiante, uma cantiga da roa, meio alegre, meio plangente. O
  cantor apareceu, logo que os cavaleiros dobraram a curva que a estrada fazia
  naquele lugar. Era o preto, que pouco antes tinham visto sentado no cho.

-- Que lhe dizia eu?
  observou a irm de Estcio. Ali vai o infeliz de h pouco. Uma laranja chupada
  no capim e trs ou quatro quadras,  o bastante para lhe encurtar o caminho.
  Creia que vai feliz, sem precisar comprar o tempo. Ns poderamos dizer o mesmo?

-- Por que no?

A moa recolheu-se ao
  silncio.

-- Helena, isso que voc
  acaba de dizer... Vamos, estamos ss; confesse alguma tristeza que tenha.

-- Nenhuma, respondeu a
  moa. Peo-lhe, entretanto, uma coisa.

-- Diga.

-- Peo-lhe que me
  comunique todas as ms impresses que tiver a meu respeito. Explicarei umas,
  procurarei desvanecer-lhe outras, emendando-me. Sobretudo, peo-lhe que escreva
  em seu esprito esta verdade:  que sou uma pobre alma lanada num turbilho.

Estcio ia pedir
  explicao mais desenvolvida daquelas ltimas palavras; mas Helena, como se
  esperasse a pergunta, brandira o chicote, e deitou a gua a correr. Estcio fez
  o mesmo ao cavalo; da a alguns minutos entravam na chcara, ele aturdido e
  curioso, ela com a face vermelha e a bater-lhe violentamente o corao.

CAPTULO VII

Apearam-se os dois no
  terreiro e dirigiram-se para a escada que ia ter  varanda. Pisando o primeiro
  degrau, disse Estcio:

-- Helena, explique-me
  suas palavras de h pouco.

-- Quais?

E como Estcio
  levantasse os ombros, com ar de despeito, continuou Helena:

-- Perdoe-me; a pergunta
  no tem nem podia ter outra resposta mais do que a simples recusa. No lhe
  direi mais nada. Nunca se devem fazer meias confisses; mas, neste caso, a
  confisso inteira seria imprudncia maior. Se se tratasse de fatos, creia que a
  ningum melhor podia confi-los do que a voc; mas por que motivo irei
  perturbar-lhe o esprito com a narrao de meus sentimentos, se eu prpria no
  chego a entender-me?

Estcio no insistiu.
  Subiram a escada, atravessaram a varanda e entraram na sala de jantar, onde
  acharam Dona rsula dando as ordens daquele dia a dois escravos. Estcio entrou
  pensativo; Helena mudou totalmente de ar e maneiras. Alguns segundos antes era
  sincera a melancolia que lhe ensombrava o rosto. Agora regressara  jovialidade
  de costume. Dissera-se que a alma da moa era uma espcie de comediante que
  recebera da natureza ou da fortuna, ou talvez de ambas, um papel que a obrigava
  a mudar continuamente de vesturio. D. rsula viu-a entrar risonha e ir a ela
  dar-lhe os costumados bons dias, -- que eram sempre um beijo, -- ou antes
  dois, -- um na mo, outro na face.

-- Demorei-me muito? perguntou
  ela voltando rapidamente o corpo, de maneira a ver o relgio que ficava do
  outro lado da sala. Nove horas! Que passeio, senhor meu irmo!

Estcio olhava para ela
  silencioso e no lhe respondeu. Foram logo depois mudar de roupa, e o almoo
  reuniu a famlia. D.rsula props, durante ele, algumas mudanas na disposio
  da chcara, mudanas que foram longamente discutidas com o sobrinho, e aceitas
  afinal por este. O dia estava sombrio e fresco; D. rsula desceu  chcara com
  Estcio.As alteraes foram ainda estudadas e combinadas no prprio terreno,
  com assistncia do feitor. Logo que acabou a deliberao e que o projeto de D.
  rsula foi definitivamente assentado, Estcio reteve-a e lhe disse:

-- Preciso falar-lhe um
  instante.

--Tambm eu.

-- Quais so os seus
  sentimentos atuais em relao a Helena? Oh! no precisa franzir a testa nem
  fazer esse gesto de aborrecimento. Tudo so meras aparncias. No creio que
  seja absolutamente amiga dela; mas no pode negar que a antipatia desapareceu
  ou diminuiu muito.

-- Diminuiu, talvez.

-- E com razo. Pensa
  que tambm eu no tive repugnncias, depois que ela aqui entrou? Tive-as; mas
  se no houvessem desaparecido, -- desapareceriam hoje de manh.

-- Como?

Estcio referiu  tia a
  cena do captulo anterior e as palavras que lhe dissera Helena. D. rsula
  sorriu ironicamente.

-- No a impressiona
  isto? perguntou Estcio.

-- No, respondeu D.
  rsula com deciso; a frase de Helena  achada em algum dos muitos livros que
  ela l. Helena no  tola; quer prender-nos por todos os lados, at pela
  compaixo. No te nego que comeo a gostar dela;  dedicada, afetuosa,
  diligente; tem maneiras finas e algumas prendas de sociedade. Alm disso, 
  naturalmente simptica. J vou gostando dela; mas  um gostar sem fogo nem paixo,
  em que entra boa dose de costume e necessidade. A presena de outra mulher
  nesta casa  conveniente, porque eu estou cansada. Helena preenche essa lacuna.
  Se alguma coisa, entretanto, a podia prejudicar nas nossas relaes  esse
  dito.

Estcio tomou
  calorosamente a defesa da irm.

-- O que eu lhe contei,
  disse ele, foram apenas as palavras. No pude nem poderei reproduzir a
  expresso sincera com que ela as proferiu, e a profunda tristeza que havia em
  seus olhos. No lhe nego que, ao v-la mudar to depressa e entrar alegre na
  sala, senti tal ou qual abalo de dvida, mas passou logo. Ela tem o poder de
  concentrar a amargura no corao; tambm a dor tem suas hipocrisias...

-- Mas que dor? que
  amargura? interrompeu D. rsula. A dor de ser legitimada? a amargura de uma
  herana?

Estcio protestou
  calorosamente contra aquele caminho que a tia dava s suas idias; enfim
  pediu-lhe que interrogasse com cautela a irm.

-- Um homem, concluiu
  ele,  menos apto para obter tais confisses; uma senhora, respeitvel e
  parenta, est mais no caso de lhe captar a confiana e obter tudo. Quer
  incumbir-se desse delicado papel?

-- Pedes muito,
  respondeu D. rsula. Verei se te posso dar metade disso. Era s o que tinhas para
  dizer?

-- S.

-- Uma criancice! Eu
  tenho coisa mais sria. O Dr. Camargo escreveu-me; trata-se...

-- No precisa dizer
  mais nada, interrompeu Estcio; l vem ele.

Camargo aparecera
  efetivamente a vinte passos de distncia.

-- Doutor, disse D. rsula,
  logo que este se aproximou deles, chega um pouco fora de propsito. Eu mal tive
  tempo de assustar meu sobrinho, que ainda no sabe o que o senhor lhe quer.

-- Saber agora;  s
  bastante que a senhora lhe diga que me aprova.

-- Completamente.

-- Trata-se... disse
  Estcio.

-- De uma conspirao;
  todos conspiramos em seu benefcio.

D. rsula retirou-se
  para casa; os dois ficaram ss. Uma vez ss, Camargo pousou a mo no ombro de
  Estcio, fitou-o paternalmente, enfim perguntou-lhe se queria ser deputado.
  Estcio no pode reprimir um gesto de surpresa.

-- Era isso? disse ele.

-- Creio que no se
  trata de um suplcio. Uma cadeira na Cmara! No  a mesma coisa que um quarto
  no Aljube...

-- Mas a que
  propsito...

-- Esta idia
  apoquentava-me h algumas semanas. Doa-me v-lo vegetar os seus mais belos
  anos numa obscuridade relativa. A poltica  a melhor carreira para um homem em
  suas condies; tem instruo, carter, riqueza; pode subir a posies
  invejveis. Vendo isso, determinei met-lo na Cadeia... Velha. Fala-se em
  dissoluo. Para facilitar-lhe o sucesso, entendi-me com duas influncias
  dominantes. O negcio afigura-se-me em bom caminho.

Estcio ouviu com
  desagrado as notcias que lhe dava o mdico.

-- Mas, doutor, disse
  ele depois de curto silncio, houve de sua parte alguma precipitao. Pelo
  menos, devia consultar-me. Do modo por que arranjou as coisas, quase me acho
  desobrigado de lhe agradecer a inteno. Quanto a aceitar, no aceito.

Camargo no perdeu a
  tramontana; deixou passar por cima da cabea a primeira onda de desagrado,
  surgiu fora e insistiu tranqilamente:

-- Vejamos as coisas com
  os culos do senso comum. Em primeiro lugar, no creio que tenha outros
  projetos na cabea...

-- Talvez.

-- Duvido que sejam mais
  vantajosos do que este. A cincia  rdua e seus resultados fazem menos rudo.
  No tem vocao comercial nem industrial. Medita alguma ponte pnsil entre a
  Corte e Niteri, uma estrada at Mato Grosso ou uma linha de navegao para a
  China?  duvidoso. Seu futuro tem por ora dois limites nicos, alguns estudos
  de cincia e os aluguis das casas que possui. Ora, a eleio nem lhe tira os
  aluguis nem obsta a que continue os estudos; a eleio completa-o, dando-lhe a
  vida pblica, que lhe falta. A nica objeo seria a falta de opinio poltica;
  mas esta objeo no o pode ser. H de ter, sem dvida, meditado alguma vez nas
  necessidades pblicas, e...

-- Suponha, --  mera
  hiptese, -- que tenho alguns compromissos com a oposio.

-- Nesse caso,
  dir-lhe-ei que ainda assim deve entrar na Cmara -- embora pela porta dos
  fundos. Se tem idias especiais e partidrias, a primeira necessidade  obter o
  meio de as expor e defender. O partido que lhe der a mo, -- se no for o seu, --
  ficar consolado com a idia de ter ajudado um adversrio talentoso e honesto.
  Mas a verdade  que no escolheu ainda entre os dois partidos; no tem opinies
  feitas. Que importa? Grande nmero de jovens polticos seguem, no uma opinio
  examinada, ponderada e escolhida, mas a do crculo de suas afeies, a que os
  pais ou amigos imediatos honraram e defenderam, a que as circunstncias lhe
  impem. Da vm algumas legtimas converses posteriores. Tarde ou cedo o
  temperamento domina as circunstncias da origem, e do boto luzia ou saquarema
  nasce um magnfico lrio saquarema ou luzia. Demais, a poltica  cincia
  prtica; e eu desconto de teorias que s so teorias. Entre primeiro na Cmara;
  a experincia e o estudo dos homens e das coisas lhe designaro a que lado se
  deve inclinar.

Estcio ouviu atento
  estas vozes com que a serpente lhe apontava para a rvore da cincia do bem e
  do mal. Menos curioso que Eva, entrou a discutir filosoficamente com o rptil.

-- Entra-se na poltica,
  disse ele, por vocao legtima, ambio nobre, interesse, vaidade, e at por
  simples distrao. Nenhum desses motivos me impele a dobrar o cabo
  Tormentrio...

-- Da Boa Esperana,
  emendou Camargo rindo; no suprima trs sculos de navegao.

Estcio riu tambm.
  Depois falou ao mdico da sua ndole e ambies. No negava que tivesse
  ambies; mas nem s as havia polticas, nem todas eram da mesma estatura. Os
  espritos, disse ele, nascem condores ou andorinhas, ou ainda outras espcies
  intermdias. A uns  necessrio o horizonte vasto, a elevada montanha, de cujo
  cimo batem as asas e sobem a encarar o sol; outros contentam-se com algumas
  longas braas de espao e um telhado em que vo esconder o ninho. Estes eram os
  obscuros, e, na opinio dele, os mais felizes. No seduzem as vistas, no
  subjugam os homens, no os menciona a Histria em suas pginas luminosas ou
  sombrias; o vo do telhado em que abrigaram a prole, a rvore em que pousaram,
  so as testemunhas nicas e passageiras da felicidade de alguns dias. Quando a
  morte os colhe, vo eles pousar no regao comum da eternidade, onde dormem o
  mesmo perptuo sono, tanto o capito que subiu ao sumo estado por uma escada de
  mortos, como o cabreiro que o viu passar uma vez e o esqueceu duas horas
  depois. Suas ambies no eram to nfimas como seriam as do cabreiro; eram as
  do proprietrio do campo que o capito atravessasse. Um bom peclio, a famlia,
  alguns livros e amigos, -- no iam alm seus mais arrojados sonhos.

Um sorriso de lstima
  foi a primeira resposta do mdico.

-- Meu caro Estcio,
  disse ele depois, esse trocadilho de andorinhas e cabreiros  a coisa mais
  extraordinria que eu esperava ouvir a um matemtico. Saiba que detesto
  igualmente a filosofia da obscuridade e a retrica dos poetas. Sobretudo, gosto
  que respondam em prosa quando falo em prosa.

-- Parece-lhe que
  poetei? perguntou Estcio rindo.

-- Despropositadamente!
  Ora, eu falo de coisas srias; e convm no confundir alhos, que so a metade
  prtica da vida, com bugalhos, que so a parte ideolgica e v.

-- Eu serei idelogo.

-- No tem direito de o
  ser.

-- Pois bem, deixe-me
  com as minhas matemticas, as minhas flores, as minhas espingardas.

-- No! H de intercalar
  tudo isso com um pouco de poltica.

Puxando-o familiarmente
  pela gola do palet, Camargo f-lo sentar ao p de si, no banco que ali estava
  mais prximo. Depois falou. O novo discurso foi o mais longo que proferiu em
  todos os seus dias. Nenhuma das vantagens da vida pblica deixou de ser
  apontada com uma complacncia de tentador; todas as glrias, pompas e
  satisfaes da poltica, e no s as reais, mas as fictcias ou duvidosas,
  foram inventariadas, pintadas, douradas e iluminadas pelo mdico. A palavra
  revelou um poder de evocao, uma veemncia, uma energia, que ningum era capaz
  de supor-lhe. O taciturno desabrochou tagarela. Para falar tanto e com tal
  fora era preciso que o animasse um grande sentimento ou um grande interesse.

Estcio, lisonjeado com
  a afeio que ele lhe mostrava, no teve ensejo de fazer essa reflexo. Nem se
  animou a repetir a recusa; adotou o alvitre de diferir a resposta para outra
  ocasio.

-- J lhe disse o que
  sinto a tal respeito. Contudo, estou pronto a refletir, e a consultar o Padre
  Melchior e Helena.

O nome de Helena
  produziu em Camargo uma careta interior. Exteriormente, no passou o efeito de
  um sorriso sardnico e dissimulado. Interveio uma pitada de rap, que o mdico
  inseriu lentamente, depois de a extrair de uma caixa de tartaruga, presente do
  conselheiro Vale.

-- Helena! disse ele com
  alguma hesitao. Que vem fazer sua irm neste negcio?

--  um voto, redargiu
  Estcio; e menos leve do que lhe parece. H nela muita reflexo escondida, uma
  razo clara e forte, em boa harmonia com as suas outras qualidades feminis.

Entre as sobrancelhas
  de Camargo projetou-se uma longa ruga, e foi toda a expresso de seu espanto e
  desgosto. A resposta de Estcio revelara-lhe uma situao nova na famlia: o
  voto de Helena, consultivo agora, podia vir a ser preponderante. Esta soluo,
  que porventura faria estremecer de alegria os ossos do conselheiro, no a
  previra o mdico. Limitou-se a not-la de si para si; e, terminando subitamente
  a conversa, disse:

-- Consulte as pessoas
  de seu agrado. Quem no estiver com a minha opinio, no  seu amigo. Em todo o
  caso, ningum lhe poder afirmar que no  a amizade, a longa amizade...

Estcio cortou-lhe a
  palavra, apertando-lhe afetuosamente a mo. Tinham-se levantado. Era quase
  meio-dia; Camargo despediu-se ali mesmo; ia ver dois doentes no caminho da
  Tijuca. O filho do conselheiro atravessou sozinho a chcara; ia pensativo, e
  aborrecido. A poltica, na sua opinio, era uma noiva importuna; mas, se todos
  conspirassem a favor dela, no seria ele obrigado a despos-la? A esta reflexo
  respondeu a voz do Padre Melchior, do alto de uma janela:

-- Venha c, senhor
  deputado; quando teremos o seu primeiro discurso?

CAPTULO VIII

D. rsula tinha j
  confiado ao velho capelo a proposta de Camargo. Consultado por Estcio,
  respondeu o padre:

-- Consulte as suas
  foras e a responsabilidade do cargo, e escolha.

-- J escolhi, disse
  Estcio; pedia-lhe conselho para apoiar melhor a minha prpria deciso. No 
  esse o destino de todos os conselhos? Decidi que no aceito a candidatura. A
  vida poltica  turbulenta demais para o meu esprito. Estou pronto para a
  ao, mas no h de ser exterior. Dado o meu temperamento, que iria eu buscar 
  Cmara, alm de algumas prerrogativas e um papel acessrio? Eu s me meteria na
  poltica se pudesse oficiar; mas ser apenas sacristo...

-- Entre o oficiante e o
  sacristo, observou Melchior, est o pregador, que  cargo nobre e influente.

-- Mas o tema do sermo,
  padre-mestre? retorquiu Estcio rindo; falta-me o tema.

D. rsula, a quem
  seduziam exclusivamente a posio e o rumor pblico em favor do sobrinho, viu
  naquelas razes um pretexto ou uma puerilidade. Defendeu, como pde, a causa de
  Camargo; instou com o sobrinho para que refletisse maduramente, antes de
  qualquer resposta definitiva. Estcio prometeu como prometera ao mdico, por
  simples condescendncia; mas sobretudo para pr termo ao assunto e ir saber a
  causa do sorriso quase imperceptvel que viu roar os lbios de Helena. A moa
  erguera-se e dirigira-se para uma das janelas; Estcio foi at ali.

-- Adivinhei, pelo seu
  sorriso, disse ele, que tudo isto lhe parece pueril, e que eu fao bem em no
  aceitar o que se me oferece.

Helena olhou um pouco
  espantada para ele, mas respondeu com tranqilidade:

-- Pelo contrrio, penso
  que deve aceitar. Alm de haver consentimento de minha tia, parece ser um
  grande desejo do pai de Eugnia.

Era a primeira vez que
  Helena aludia ao amor de Estcio, e fazia-o por modo encoberto e oblquo.
  Estcio escapou dessa vez  regra de todos os coraes amantes; resvalou pela
  aluso e discutiu gravemente o assunto da candidatura. Era pesado demais para
  cabea feminina; Helena intercalou uma observao sobre dois passarinhos que
  bailavam no ar, e Estcio aceitou a diverso, deixando em paz os eleitores.

Durante dois dias no
  saiu ele de casa. Tendo recebido alguns livros novos, gastou parte do tempo em
  os folhear, ler alguma pgina, coloc-los nas estantes, alterando a ordem e a
  disposio dos anteriores, com a prolixidade e o amor do biblifilo. Helena ajudava-o
  nesse trabalho, -- um pouco parecido com o de Penlope, -- porque a ordem
  estabelecida ao meio-dia era s vezes alterada s duas horas, e restaurada na
  seguinte manh. Estcio, entretanto, no ficava todo entregue aos livros;
  admirava a solicitude da irm, a ordem e o cuidado com que ela o auxiliava.
  Helena parecia no andar; o vulto resvalava silenciosamente, de um lado para
  outro, obedecendo s indicaes do irmo, ou pondo em experincia uma idia
  sua. Estcio parava s vezes, fatigado; ela continuava imperturbavelmente o
  servio.Se ele lhe fazia algum reparo, a moa respondia erguendo os ombros ou
  sorrindo, e prosseguia. Ento Estcio segurava-lhe nos pulsos e exclamava
  rindo:

-- Sossega, borboleta!

Helena parava, mas eram
  s poucos minutos; volvia logo ao trabalho com a mesma serena agitao. Era
  assim que as horas se passavam na intimidade mais doce, e que a recproca
  afeio ia excluindo toda a preocupao alheia; era assim que a influncia de
  Helena assumia as propores de voto preponderante.

No terceiro dia, D.
  Tomsia e Eugnia foram jantar a Andara. Eugnia estava nesse dia mais sisuda
  e dcil que nunca; dissera-se que trazia a alma to nova como o vestido, e
  menos enfeitada que ele. Estcio sentia-se satisfeito; o ideal reconciliava-se
  com o real. Puderam falar sozinhos, mais de uma vez; todas as pessoas da casa
  pareciam conspiradas para lhes deixar a solido. Foi ela quem recordou a
  proposta poltica do pai, da qual soubera casualmente, ouvindo a narrao que
  este fizera a D. Tomsia. O desejo de Eugnia era pela afirmativa; e Estcio,
  receoso de despertar os caprichos adormecidos da moa, frouxamente resistiu, e
  consentiu ainda mais frouxamente em reconsiderar o assunto.

-- Deputado! exclamava
  Eugnia com os olhos no cu.

Estcio acompanhou
  Eugnia e D. Tomsia na carruagem que as levou ao Rio Comprido. O dia fora mais
  ou menos alegre; a viagem foi divertida e palreira como um regresso de romaria.
  Os cavalos mostravam-se to lpidos como as pessoas que iam no carro, e
  encurtaram alguns minutos o caminho, com desgosto de Eugnia.

Voltando a Andara,
  Estcio trazia a alma pura de todas as ms impresses que lhe deixavam
  usualmente as visitas  casa de Camargo. Nenhum dissentimento houvera naquele
  dia. Eugnia parecia modificada. Em casa esperava-o, porm, uma desagradvel
  notcia: a tia sentira-se incomodada pouco depois que ele sara e recolhera-se
  ao quarto. O caso afligiu-o, mas no tardou a aparecer Helena, que o
  tranqilizou, dizendo-lhe que D. rsula tinha apenas uma forte dor de cabea,
  j diminuda com o emprego de um remdio caseiro.

No dia seguinte de
  manh, informado de que a tia dormia sossegadamente, Estcio abriu uma das
  janelas do quarto e relanceou os olhos pela chcara. A alguns passos de
  distncia, entre duas laranjeiras, viu Helena a ler atentamente um papel. Era
  uma carta, longa de todas as suas quatro laudas escritas. Seria alguma mensagem
  amorosa?

Esta idia molestou-o
  muito. Afastou-se da janela, conchegou as cortinas, e pela fresta procurou
  observar a irm. Helena estava de p, no mesmo lugar, e percorria rapidamente
  as linhas, at ao final da ltima pgina. Ali chegando, deu dois passos, tornou
  a parar, volveu ao princpio da carta, para a ler de novo, no j depressa, mas
  repousadamente. Estcio sentiu-se movido de imperiosa curiosidade,  qual vinha
  misturar-se uma sombra de despeito e cime. A idia de que Helena podia
  repartir o corao com outra pessoa desconsolava-o, ao mesmo tempo que o
  irritava. A razo de semelhante exclusivismo no a explicou ele, nem tentou
  investig-la; sentiu-lhe somente os efeitos, e ficou ali sem saber que faria.
  Duas vezes saiu da janela para ir ter com a irm, mas recuou de ambas,
  refletindo que a curiosidade pareceria impolidez, se no era talvez tirania. Ao
  cabo de alguns minutos de hesitao, saiu do quarto e dirigiu-se  chcara.

Quando ali chegou,
  Helena passeava lentamente, com os olhos no cho. Estcio parou diante dela.

-- J fora de casa!
  exclamou em tom de gracejo.

Helena tinha a carta na
  mo esquerda; instintivamente a amarrotou como para escond-la melhor. Estcio,
  a quem no escapou o gesto, perguntou-lhe rindo se era alguma nota falsa.

-- Nota verdadeira,
  disse ela, alisando tranqilamente o papel, e dobrando-o conforme recebera; 
  uma carta.

-- Segredos de moa?

-- Quer l-la? perguntou
  Helena, apresentando-lha.

Estcio fez-se vermelho
  e recusou com um gesto. Helena dobrou lentamente o papel e guardou-o na
  algibeira do vestido. A inocncia no teria mais puro rosto; a hipocrisia no
  encontraria mais impassvel mscara. Estcio contemplava-a, a um tempo
  envergonhado e suspeitoso;a carta fazia-lhe ccegas; o olhar ambicionava ser
  como o da Providncia que penetra nos mais ntimos refolhos do corao. Vieram,
  entretanto, dizer a Helena que D. rsula lhe pedia fosse ter com ela. Estcio
  ficou s. Uma vez s, entregou-se a um inqurito mental sobre a procedncia da
  misteriosa missiva. Um indcio havia de que podia conter alguma coisa secreta:
  era o gesto com que ela a escondeu. Mas no podia ser de alguma antiga
  companheira do colgio, que lhe confiava segredos seus? Estcio abraou com
  alvoroo esta hiptese. Depois, ocorreu-lhe que, ainda provindo de uma amiga, a
  carta podia tratar de algum idlio de colgio, em que Helena fosse protagonista,
  idlio vivo ou morto, pgina de esperana ou de saudade. Ainda nesse caso, que
  tinha ele com isso?

Fazendo esta ltima
  reflexo, Estcio sacudiu do esprito o assunto e seguiu a examinar as novas
  obras da chcara, entre as quais figurava um vasto tanque. J ali estavam os
  operrios; ia comear o trabalho do dia. Estcio viu a obra feita e deu vrias
  indicaes novas. Algumas eram contrrias ao plano assentado; como lhe fizessem
  tal observao, Estcio retificou-as. Depois admirou-se de no ver um vaso, que
  alis dois dias antes mandara remover; enfim, recomendou a rega de uma planta,
  ainda mida da gua que o feitor lhe deitara nessa manh.

D. rsula no estava de
  todo boa, mas pde almoar  mesa comum. O sobrinho apareceu aborrecido, a
  sobrinha triste; o dilogo foi mastigado como o almoo. No fim deste, recebeu
  Estcio uma carta de Eugnia. Era uma tagarelice meio frvola, meio
  sentimental, mistura de risos e suspiros, sem objeto definido a no ser
  pedir-lhe que escrevesse se no pudesse ir v-la.

Acabava ele de ler a
  carta, quando Helena lhe apareceu  porta do gabinete. No a escondeu;
  lembrou-lhe mostr-la  irm, na esperana de que esta, pagando-lhe com igual
  confiana, lhe mostrasse a sua. Helena percorreu com os olhos a carta de
  Eugnia e esteve algum tempo silenciosa.

-- Permite-me um
  conselho? perguntou ela.

E como Estcio
  respondesse com um gesto de assentimento:

-- V ter com Eugnia,
  solicite licena para ir pedi-la a seu pai, e conclua isso quanto antes. No 
  verdade que se amam? Dela creio poder afirmar que sim; de voc...

-- De mim?

-- Penso que  mais
  duvidoso; ou voc  mais hbil. H de ser isso. Naturalmente parece-lhe
  fraqueza amar, -- isto , a coisa mais natural do mundo, -- a mais bela, -- no
  direi a mais sublime. Os homens srios tm preconceitos extravagantes. Confesse
  que ama, que no  indiferente a esse sentimento inexprimvel que liga, ou para
  sempre, ou por algum tempo, duas criaturas humanas.

-- Ou por algum tempo!
  repetiu mentalmente Estcio.

E estas quatro
  palavras, to naturais e to comuns, tinham ares de uma revelao nova no
  estado de esprito em que ele se achava. Se Helena tivesse propsito de lhe
  lanar a perplexidade na alma, no empregaria mais eficaz conceito. Seria na
  verdade aquele amor, to travado de desnimos, dissentimentos e alternativas,
  to discutido em seu prprio corao, uma afeio destinada a perecer no ocaso
  da primeira lua matrimonial?

-- Pois sim, concordou
  ele, ao cabo de alguns instantes,  verdade. Eugnia no me  indiferente; mas
  poderei estar certo dos sentimentos dela? Ela mesma poder afirmar alguma coisa
  a tal respeito? H ali muita frivolidade que me assusta; ilude-a, talvez, uma
  impresso passageira.

-- Pode ser; mas ao
  marido cabe a tarefa de fixar essa impresso passageira... O casamento no 
  uma soluo, penso eu;  um ponto de partida. O marido far a mulher. Convenho
  que Eugnia no tem todas as qualidades que voc desejaria; mas, no se pode
  exigir tudo: alguma coisa  preciso sacrificar, e do sacrifcio recproco  que
  nasce a felicidade domstica.

As reflexes eram
  exatas; por isso mesmo Estcio as interrompeu. O filho do conselheiro achava-se
  numa posio difcil. Caminhara para o casamento com os olhos fechados; ao
  abri-los, viu-se  beira de uma coisa que lhe pareceu abismo, e era
  simplesmente um fosso estreito. De um pulo poderia transp-lo; mas, se no era
  irresoluto nem dbil, tinha ele acaso vontade de dar esse salto?

Insistindo Helena,
  prometeu ele que nessa tarde iria visitar Camargo. De tarde desabou um temporal
  violento. A fora do vento e da trovoada abrandou; mas a chuva continuou a cair
  com a mesma violncia; era impossvel ir ao Rio Comprido. Estcio estimou
  aquele obstculo; era melhor adorar de longe a imagem da moa do que ir colher
  algum desgosto junto a ela.

De p, encostado a uma
  das vidraas da sala de visitas, via cair as grossas toalhas de gua. Ao lado
  estava sentada Helena, no alegre, mas taciturna e melanclica.

--  to bom ver chover
  quando estamos abrigados! exclamou ele. Tenho l na estante um poeta latino que
  diz alguma coisa neste sentido... Que tem voc?

-- Estou pensando nos
  que no tm abrigo ou o tm mau; nos que no tm, neste momento, nem tetos
  slidos nem coraes amigos ao p de si.

A voz da moa era
  trmula; uma lgrima lhe brotou dos olhos, to rpida que ela no teve tempo de
  a dissimular. Surpreendida nessa manifestao de sensibilidade, inexplicvel
  talvez para o irmo, ergueu-se e procurou gracejar e rir. O riso parecia uma
  cristalizao da lgrima, e o gracejo tinha ares de responso. Estcio no se
  iludiu; nada daquilo era claro, ou era to claro como a carta. O olhar, severo
  e frio, interrogou mudamente a moa. Helena, que tivera tempo de se
  tranqilizar, voltou o rosto para a rua, e comeou a rufar com os dedos na
  vidraa.

CAPTULO IX

Naquela mesma noite, D. rsula,
  que no havia de todo melhorado, adoeceu deveras. A famlia, mal convalescida
  da perda do velho chefe, via-se agora ameaada de uma nova dor, em todo o caso,
  exposta a novos receios. O Dr. Camargo declarou que o caso era grave, e deu
  princpio a rigoroso tratamento.

Helena era naquela ocasio a
  natural enfermeira. Pela primeira vez patenteou-se em todo o esplendor a
  dedicao filial da moa. Horas do dia, e no poucas noites inteiras,
  passava-as na alcova de D. rsula, atenta a todos os cuidados que a gravidade
  da enferma exigia. Os remdios e o pouco alimento que esta podia receber, no
  lhe eram dados por outras mos. Helena velava  cabeceira, durante o sono leve
  e interrompido da doente, achando em suas prprias foras a resistncia que a
  natureza confiou especialmente s mes. Quando dava algum repouso ao corpo, no
  era ele ininterrupto nem longo; e mais de uma vez, alta noite, erguia-se do
  leito, colocado provisoriamente no quarto contguo, para ir espreitar a mucama
  que, em seu lugar, acompanhava a enferma. As prescries do mdico era ela que
  as recebia e cumpria. A voz seca e dura com que Camargo lhe falava, no era
  prpria a torn-lo amvel e aceito; mas Helena cerrava os ouvidos  antipatia
  do homem para s obedecer ao mdico. Este no tinha outra pessoa a quem
  interrogasse acerca dos fenmenos da doena, nem podia achar quem melhor os
  observasse e referisse; fora lhe era aceit-la. Assim, essas duas pessoas que
  se repeliam e detestavam, iam de acordo, desde que se tratava da vida de um
  terceiro.

O que completava a pessoa de
  Helena, e ainda mais lhe mereceu o respeito de todos,  que, no meio das
  ocupaes e preocupaes daqueles dias, no fez padecer um s instante a
  disciplina da casa. Ela regeu a famlia e serviu a doente, com igual desvelo e
  benefcio. A ordem das coisas no foi alterada nem esquecida fora da alcova de
  D. rsula; tudo caminhou do mesmo modo que antes, como se nada extraordinrio se
  houvesse dado. Helena sabia dividir a ateno sem a dispersar.

De si  que ela no curou muito. O
  vestido era singelo. Os cabelos, colhidos  pressa e presos por um pente no
  alto da cabea, no receberam, em todo aquele tempo, a forma elegante e graciosa
  com que ela os sabia realar. Acrescia o abatimento, que era impossvel evitar
  no meio de tanta fadiga, certo cansao dos olhos, que os fazia moles e talvez
  mais adorveis, um rosto sem riso nem viveza, um silncio atento e laborioso.

A doena durou cerca de vinte
  dias. Afinal, venceu a prpria natureza de D. rsula, robusta apesar dos anos.
  A convalescena comeou; com ela volveu a satisfao da famlia. O papel de
  Helena no estava acabado; diminua, contudo, e Estcio interveio para que a
  irm tivesse, enfim, alguns dias de absoluto repouso. Ela recusou, dizendo que
  o repouso perdido aos poucos seria aos poucos recuperado.

Havia no corao de D. rsula uma
  fonte de ternura, que Helena devia tocar, para jorrar livre e impetuosamente. A
  dedicao, em tal crise, foi a vara misteriosa daquele Horebe. A afeio da tia
  era at ento frouxa, voluntria e deliberada. Depois da molstia, avultou
  espontnea. A experincia do carter da moa dera esse resultado inevitvel.
  Toda a preveno cessou; a gratido da vida ligou fortemente o que tantas
  circunstncias anteriores pareciam separar. No o ocultou a irm do
  conselheiro; j no tinha acanhamento nem reserva, as palavras subiam do
  corao  boca sem atenuao nem clculo; fez-se carinhosa e me.

No dia em que ela pde sair do
  quarto pela primeira vez, Helena deu-lhe o brao e levou-a at  sala de
  costura e das reunies ntimas. Estcio amparou-a do outro lado. Ali chegando,
  foi ela sentada numa poltrona. Estcio abriu um pouco a janela, para penetrar,
  alm da luz, um pouco de ar. D. rsula respirou  larga, como lavando o pulmo
  com aquela primeira onda de vida. Depois, segurando as mos de Helena, que
  ficara de p a seu lado, f-la inclinar a fronte, e imprimiu-lhe um beijo longo
  e verdadeiramente maternal. Estcio aproximara-se; aquela manifestao encheu-o
  de jbilo.

-- Bem merecido beijo! exclamou
  ele. Helena foi um anjo em todo este tempo.

-- Bem sei, retorquiu D. rsula;
  foi um verdadeiro anjo, foi mulher, me e filha. Obrigada, Helena! Pode ser que
  a medicina tenha ajudado a cura, mas o principal mrito  s teu.

Helena abraou a convalescente.

-- Estcio, disse esta, agradece 
  tua irm, como eu fiz.

Estcio inclinou-se para Helena, a
  fim de lhe pousar na fronte o casto sculo de irmo. No o conseguiu, porque
  Helena, desviando o busto, estendeu-lhe sorrindo a mo esquerda e disse:

-- No foi servio que merecesse
  tanta paga; basta um aperto de mo e o afeto de todos.

Estcio apertou-lhe a mo, e sentiu-lha
  trmula. Aquele movimento de castidade no lhe pareceu exagerado nem descabido;
  achou-a assim mais bela. Uma criatura to ciosa de si mesma, que nem admitia a
  carcia do irmo, no era digna de honrar o nome da famlia?

A convalescena de D. rsula foi
  lenta, e no a houve mais rodeada de cuidados e atenes. Os dois sobrinhos no
  a deixaram um instante sozinha, e inventavam toda a sorte de recreio com que
  pudessem distra-la: jogos de famlia ou leitura, msica ou simples palestra
  ntima. Uma vez, lembraram-se de representar, s para ela, uma comdia de duas
  pessoas. Outra vez, Helena organizou um sarau musical, em que tomaram parte
  Eugnia Camargo e mais trs moas da vizinhana. Foi a primeira vez que a
  ouviram cantar. O sucesso no podia ser mais completo. Como o aplauso que lhe
  deram pareceu desconsolar um pouco a filha do mdico, Helena preparou-lhe
  habilmente um triunfo, fazendo-a executar ao piano uma composio brilhante,
  sua favorita. Estcio, que quase no tirava os olhos da irm, percebeu-lhe a
  inteno, e disse-lho. Helena esquivou-se  aluso; mas, insistindo ele:

-- No h nada que admirar, disse
  ela; Eugnia toca perfeitamente; era justo que tambm fosse aplaudida. Se h
  arte no que fiz, parece-me que  a mais singela do mundo. O melhor modo de
  viver em paz  nutrir o amor-prprio dos outros com pedaos do nosso. Mas,
  olhe; Eugnia nem precisa disso; tem a primazia da beleza. Veja se h criatura
  mais deliciosa.

Estcio dirigiu os olhos para onde
  Helena lhe indicava. Era um grupo de duas moas e dois rapazes. Eugnia, pelo
  brao de um deles, estava de p, ouvindo sem atender as palavras que ali
  diziam, porque os olhos inquietos derramavam-se-lhe por toda ela e pela sala.
  Admirava-se e espreitava a admirao dos outros. A figura era realmente
  graciosa; mas Estcio quisera-a mais inconsciente, menos preocupada do efeito
  que produzia.

-- H cem belezas como aquela,
  disse ele.

-- Estcio! exclamou Helena com ar
  de repreenso.

-- A beleza  como a bravura; vale
  mais se no a metem  cara dos outros.

-- Voc  um ingrato.

Naquela noite ficou mais patente
  que nunca a preponderncia ganha por Helena, que se tornara a verdadeira dona
  da casa, a diretora ouvida e obedecida. D. rsula cedera, em poucas semanas, o que lhe negara durante meses.

Por que razo, pensando em todas
  as coisas, no conseguira ela apressar o casamento de Estcio? Estcio
  continuava a hesitar, a recuar, a adiar; pedia tempo para refletir. Ia agora
  menos ao Rio Comprido; os dias, quase todos, eram desfiados no remanso da
  famlia. Mas Helena insistiu tanto que ele prometeu fazer o solene pedido no
  primeiro dia do ano.

Estcio no havia esquecido a
  carta lida pela irm; entretanto, por mais que a espreitasse e estudasse, nada
  descobria que lhe fizesse supor afeio encoberta. Nenhum dos homens que iam
  ali, - e eram poucos, - parecia receber de Helena mais do que a cortesia comum.
  D. rsula, a quem ele incumbira de interrogar a irm acerca das palavras que
  esta lhe dissera na manh do primeiro passeio, no obteve resposta mais
  decisiva.

A promessa de ir pedir Eugnia,
  f-la Estcio na segunda semana de dezembro, em uma noite sem visitas, que eram
  as melhores noites para ele. No dia seguinte de manh, erguendo-se tarde, soube
  que Helena sara a cavalo.

-- Sozinha?

-- Com o Vicente.

Vicente era o escravo que, como
  sabemos, se afeioara, primeiro que todos, a Helena; Estcio designara-o para
  servi-la. A notcia do passeio no lhe agradou. O tempo andava com o passo do
  costume, mas  ansiedade do mancebo afigurava-se mais longo. Estcio chegava 
  janela, ia at ao porto da chcara, com ar de aparente indiferena, que a
  todos iludia, a comear por ele prprio. Numa das vezes em que voltou  casa,
  achou levantada D. rsula; falou-lhe; D. rsula sorriu com tranqilidade.

-- Que tem isso? disse ela. J uma
  vez saiu a passeio com o Vicente e no aconteceu nada.

-- Mas no  bonito, insistiu
  Estcio. No est livre de um ato de desateno.

-- Qual! Toda a vizinhana a
  conhece. Demais, Vicente j no  to criana. Tranqiliza-te, que ela no
  tarda. Que horas so?

-- Oito!

-- Dez ou quinze minutos mais.
  Parece-me que j ouo um tropel...

Os dois estavam na sala de jantar;
  passaram  varanda, e viram efetivamente entrar no terreiro Helena e o pajem.
  Helena deu um salto e entregou a rdea de Moema ao pajem que acabava de
  apear-se. Depois subiu a escada da varanda. Ao colocar o p no primeiro degrau,
  deu com os olhos no irmo e na tia. Fez-lhes um cumprimento com a mo, e subiu
  a ter com eles.

-- J de p! exclamou abraando
  D.rsula.

-- J, para lhe ralhar, disse esta
  sorrindo. Que idia foi essa de bater a linda plumagem?  a segunda vez que
  voc se lembra de sair sem o urso do seu irmo.

-- No quis incomodar o urso,
  replicou ela voltando-se para Estcio. Tinha imensa vontade de dar um passeio,
  e Moema tambm. Apenas hora e meia.

Aquele dia foi o de maior tristeza
  para a moa. Estcio passou quase todo o tempo no gabinete; nas poucas ocasies
  em que se encontraram, ele s falou por monosslabos, s vezes por gestos. De
  tarde, acabado o jantar, Estcio desceu  chcara. J no era s o passeio de
  Helena que o mortificava; ao passeio juntava-se a carta. Teria razo a tia em
  suas primeiras repugnncias? Como ele fizesse essa pergunta a si mesmo, ouviu
  atrs de si um passo apressado e o farfalhar de um vestido.

-- Est mal comigo? perguntou
  Helena com doura.

Ao ouvir-lhe a voz, fundiu-se a
  clera do mancebo. Voltou-se; Helena estava diante dele, com os olhos submissos
  e puros. Estcio refletiu um instante.

-- Mal? disse ele.

-- Parece que sim. No me fala, no
  se importa comigo, anda carrancudo... Seria por eu sair de manh?

-- Confesso que no gostei muito.

-- Pois no sairei mais.

-- No; pode sair. Mas est certa de
  que no corre nenhum perigo indo s com o pajem?

-- Estou.

-- E se eu lhe pedir que no saia
  nunca sem mim?

-- No sei se poderei obedecer. Nem
  sempre voc poder acompanhar-me; alm disso, indo com o pajem,  como se fosse
  s; e meu esprito gosta, s vezes, de trotar livremente na solido.

-- Naturalmente a pensar de coisas
  amorosas... acrescentou Estcio cravando os olhos interrogadores na irm.

Helena no respondeu; tomou-lhe o
  brao e os dois seguiram silenciosamente uns dez minutos. Chegando a um banco
  de madeira, Estcio sentou-se; Helena ficou de p diante dele. Olharam um para
  outro sem proferir palavra; mas o lbio de Estcio tremera duas ou trs vezes
  como hesitando no que ia dizer. Por fim, o moo venceu-se.

-- Helena, disse ele, voc ama.

A moa estremeceu e corou
  vivamente; olhou em volta de si, como assustada, e pousou as mos nos ombros de
  Estcio. Refletiu ela no que disse depois?  duvidoso; mas a voz, que nessa
  ocasio parecia concentrar todas as melodias da palavra humana, suspirou
  lentamente:

-- Muito! Muito! Muito!

Estcio empalideceu. A moa recuou
  um passo, e, trmula, ps o dedo na boca, como a impor-lhe silncio. A vergonha
  flamejava no rosto; Helena voltou as costas ao irmo e afastou-se rapidamente. Ao
  mesmo tempo, a sineta do porto era agitada com fora, e uma voz atroava a
  chcara:

-- Licena para o amigo que vem do
  outro mundo!

CAPTULO X

Estcio dirigiu-se ao porto.
  Abriu-o; um moo que ali estava entrou precipitadamente. Era Mendona. Os dois
  mancebos lanaram-se nos braos um do outro. Helena, a alguma distncia,
  presenciou aquela efuso, e no lhe foi difcil adivinhar quem era o
  recm-chegado.

A efuso cessou, ou antes
  interrompeu-se, para repetir-se. Quando os dois rapazes se julgaram assaz
  abraados, tomaram o caminho da casa. Helena, que estava um pouco adiante
  deles, foi apresentada a Mendona. Ao ouvir que era irm de Estcio, Mendona
  ficou espantado. Cortejou cerimoniosamente a moa, e os dois seguiram at 
  casa, onde pouco depois entrou Helena.

Mendona era da mesma estatura que
  Estcio, um pouco mais cheio, ombros largos, fisionomia risonha e franca,
  natureza mbil e expansiva. Vestia com o maior apuro, como verdadeiro
  parisiense que era, arrancado de fresco ao grand boulevard, ao caf
  Tortoni e s rcitas do Vaudeville. A mo larga e forte calava fina
  luva cor de palha, e sobre o cabelo, penteado a capricho, pousava um chapu de
  fbrica recente.

Estcio, antes de entrar, explicou
  ao amigo a situao de Helena, cujas qualidades e educao louvou, com o fim de
  lhe fazer compreender o respeito e a afeio que ela de todos merecia. Helena
  adivinhou esse trabalho preparatrio do irmo, logo que entrou na sala.

Mendona divertiu a famlia uma
  parte da noite, contando os melhores episdios da viagem. Era narrador
  agradvel, fluente e pinturesco, dotado de grande memria e certa fora de
  observao. Esprito galhofeiro, achava facilmente o lado cmico das coisas e
  mais se comprazia em dizer os acidentes de um jantar de hotel ou de uma noite
  de teatro que em descrever as belezas da Sua ou os destroos de Roma.

A visita durou pouco mais de hora.
  Estcio quis acompanh-lo at  cidade; ele no consentiu que fosse alm do
  porto. Atravessando a chcara, falaram do passado, e um pouco do futuro, a
  trechos soltos, como o lugar e a ocasio lhes permitiam. Mendona, vendo que
  Estcio no tocava em um ponto essencial, foi o primeiro que o aventou.

-- Falaste-me em uma de tuas cartas
  de certa Eugnia...

-- A filha do Camargo.

-- Justo. Negcio roto?

-- Quase terminado.

-- Terminado... na igreja, suponho?

-- Tal qual.

-- Quando?

-- Brevemente.

-- Marido, enfim! Era s o que te
  faltava. Nasceste com a bossa conjugal, como eu com a bossa viajante, e no sei
  qual de ns ter razo.

-- Talvez ambos.

-- Creio que sim. Tudo depende do
  gosto de cada um. O casamento  a pior ou a melhor coisa do mundo; pura questo
  de temperamento. Eu vi algumas vezes essa moa; era ento muito menina. No te
  pergunto se  um anjo...

--  um anjo.

-- Como todas as noivas. Feliz
  Estcio! Segues a carreira de tua vocao, enquanto eu...

-- Tu?

-- Interrompo a minha, e talvez
  para sempre. Preciso cuidar da vida; no sou capitalista, nem meu pai tampouco.
  Adeus, viagens!

-- Tanto melhor! Arranjo-te noiva.
  No  a tua vocao, mas no sers o primeiro que a erre, sem que da venha mal
  ao mundo.

-- Pois arranja l isso... Em todo
  caso no ser tua irm.

-- Oh! no, disse vivamente
  Estcio.

-- Na verdade,  bonita; mas... se permites
  a franqueza de outrora, acho-lhe uma costela de desdm...

-- Que idia!  a mais afvel
  criatura do mundo. Vers mais tarde; hoje estava, talvez, preocupada. Em todo o
  caso, no havias de querer que ela saltasse a danar contigo na sala, de mais a
  mais sem msica.

Mendona acabava de acender um
  charuto; apertou a mo de Estcio e saiu. Estcio acordou de um sonho. A
  realidade ps-lhe as mos de chumbo e repetiu-lhe ao ouvido a confisso
  interrompida de Helena. Ansioso por saber o resto, entrou ele imediatamente em
  casa. A diligncia foi estril, porque a irm se recolhera ao quarto. Estcio
  imitou-a. Era foroso esperar uma noite inteira, demora que afligia, porque,
  dizia ele consigo mesmo, cumpria-lhe velar pela sorte de Helena, como irmo e chefe
  de famlia, indagar de seus sentimentos, e ordenar o que fosse melhor. Uma
  noite no era muito; contudo, a preocupao retardou-lhe o sono. A confisso
  sbita, lacnica e eloqente da irm ficara-lhe no esprito, como se fora o eco
  perptuo de uma voz extinta.

Nem no dia seguinte, nem nos
  subseqentes alcanou o que esperava. Helena, ou evitava ficar a ss com ele,
  ou esquivava-se a maior explicao. Nos passeios matinais, que eram freqentes,
  procurou Estcio, mais de uma vez, tratar do assunto que o preocupava. Helena
  ouvia com um sorriso, e respondia com um gracejo; depois, dava de rdea 
  conversao e galopava na direo oposta. Como a fantasia era campo vasto,
  nunca mais o moo lograva traz-la ao ponto de partida.

Um dia, a insistncia de Estcio
  teve tal carter de autoridade, que pareceu constranger e molestar Helena. Ela
  replicou com um remoque; ele redargiu com uma advertncia spera. Iam ambos a
  p, levando os animais pela rdea. Ouvindo a palavra do irmo, Helena susteve o
  passo, e fitou-o com um olhar digno, um desses olhares que parecem vir das
  estrelas, qualquer que seja a estatura da pessoa. Estcio possua estas duas
  coisas, a retratao do erro e a generosidade do perdo. Viu que cedera a um
  mau impulso, e confessou-o; mas, confessou-o com palavras tais que Helena
  travou-lhe da mo e lhe disse:

-- Obrigada! Se me no dissesse
  isso, ver-me-ia disparar por este caminho fora at ao fim do mundo ou at ao
  fim da vida.

-- Helena!

-- Oh! no  vo melindre,  a
  prpria necessidade da minha posio. Voc pode encar-la com olhos benignos;
  mas a verdade  que s as asas do favor me protegem... Pois bem, seja sempre
  generoso, como foi agora; no procure violar o sacrrio de minha alma. No
  insista em pedir a explicao de palavras mal pensadas e ditas em m hora...

-- Mal pensadas? Pode ser; mas por
  isso  que so verdadeiras; se voc tivesse tempo de as meditar, guard-las-ia
  consigo, avara de seus segredos e suspeitosa de coraes amigos. Meu fim era
  somente ajud-la a ser venturosa, destruir...

--  tarde! interrompeu a moa,
  consultando o reloginho preso  cintura. Vamos?

Estcio sorriu melancolicamente;
  ofereceu-lhe o joelho, ela pousou nele o pezinho afilado e leve e saltou no
  selim. A volta foi menos alegre do que costumava ser. Eles falavam, mas a
  palavra vinha aos lbios, como uma onda vagarosa e surda; nenhuma clera, mas
  nenhuma animao. Assim correu aquele dia; assim correriam outros, se no fora
  a vara mgica de Helena. O natural influxo era to forte que o irmo voltou
  desde logo s boas, sendo as melhores horas as que passava ao p dela, a
  escut-la e a v-la, ambos contentes e felizes. O episdio da confisso vinha
  s vezes, como hspede importuno, projetar entre eles o nebuloso perfil; mas o esprito
  de Estcio repelia-o, e a alegria da irm fazia o resto.

Entretanto, graas ao amigo
  recm-chegado, o filho do conselheiro saiu um pouco de suas regras habituais, e
  comeou a provar alguma coisa mais da vida exterior. Mendona buscava realizar,
  em miniatura, o seu esvado ideal parisiense; havia nele o movimento, a
  agitao, a galhofa, que absolutamente faltavam a Estcio, e vieram dar-lhe 
  vida a variedade que ela no tinha. Alguns espetculos e passeios, uma ou outra
  ceia alegre, tal foi o programa de uma parte ntima da existncia de Estcio.
  Para contrastar com ela, tinha ele as manhs do Andara e algumas noites do Rio
  Comprido. Ao amigo e  sua conscincia, dizia o moo que estava a despedir-se
  da liberdade.

A influncia de Mendona estendeu-se
   prpria casa de Estcio. Mendona gostava sobretudo da variedade no viver;
  no tolerava os mesmos prazeres nem os mesmos charutos; para os apreciar tinha
  necessidade de os alternar freqentemente. Se fosse possvel, era capaz de
  fazer-se monge durante um ms, antes do carnaval, trocar o hbito por um
  domin, e atar as ltimas notas das matinas com os preldios da contradana. A
  fidelidade  moda custava-lhe um pouco, quando esta no ia a passo com a
  impacincia. Em sua opinio, o que distinguia o homem do co era a faculdade de
  fazer que uma noite se no parecesse com outra. O Rio de Janeiro no lhe
  oferecia a mesma variedade de recursos que Paris; tendo o gnio inventivo e
  frtil, no lhe faltaria meio de fugir  uniformidade dos hbitos.

O pior que lhe acontecia era a
  disparidade entre os desejos e os meios. Filho de um comerciante, apenas
  remediado, no teria ele podido realizar a viagem  Europa, nas propores
  largas em que o fez, a no ser a interveno benfica de uma parenta velha, que
  se incumbira de lhe ministrar os recursos de que ele carecesse durante aquela
  longa ausncia. Nem a parenta continuaria a abrir-lhe a bolsa, nem o pai queria
  criar-lhe hbitos de ociosidade. Tratava este, portanto, de obter-lhe um
  emprego pblico. Mendona estava longe de recusar; pedia somente que o emprego
  o no deslocasse da Corte.

Inquieto, amigo da vida ruidosa e
  fcil, inteligente sem largos horizontes, possuindo apenas a instruo precisa
  para desempenhar-se regularmente de qualquer comisso de certa ordem, Mendona,
  com todos os seus defeitos e boas qualidades, era homem agradvel e aceito. Os
  defeitos eram antes do esprito do que do corao. A variedade que ele pedia
  para as coisas externas e de menor tomo, no a praticava em suas afeies, que
  eram geralmente inalterveis e fiis. Era capaz de sacrifcio e dedicao;
  sobretudo se lhe no pedissem o sacrifcio deliberado ou a dedicao refletida,
  mas aquele que exige uma circunstncia imprevista e sbita.

No admira que a presena de tal
  homem viesse modificar o tom da sociedade de que era centro a famlia de
  Estcio, quando ele ali fazia alguma apario. Era o sol daquela terra. No
  tinha a rijeza do figurino, nem o ar do estrangeirado. A tesoura do alfaiate
  no lhe dissimulara a ndole expansiva e franca. Acolhido como um filho, achava
  ali uma poro de casa. Que melhor aspecto podia ter a vida em tais condies,
  naquela famlia ligada por um sentimento de amor?

A noite do ltimo dia do ano veio
  turvar a limpidez das guas.

CAPTULO XI

Naquele dia fazia anos Estcio, e
  D. rsula assentara receber algumas pessoas a jantar, e outras mais  noite, em
  reunio ntima. Ela e Helena tomavam a peito fazer que a pequena festa de
  famlia fosse digna do objeto. Estcio opinou pela supresso do sarau; mas era
  difcil alcanar a desistncia de coraes que o amavam.

Logo de manh, como ele se
  levantasse cedo, encontrou Helena que o convidou a segui-la  sala de costura.

-- Quero dar-lhe o meu presente de
  anos, disse ela.

Ali entrados, abriu a moa uma
  pasta de desenhos, na qual havia um s, mas significativo: era uma parte da
  estrada de Andara, a mesma por onde eles costumavam passear, mas com algumas
  particularidades do primeiro dia. Dois cavaleiros, ele e ela, iam subindo a
  passo lento; ao longe, e acima via-se a velha casa da bandeira azul; no
  primeiro plano,desciam o preto e as mulas. Por baixo do desenho uma data: 25
    de julho de 1850.

Estcio no pde conter um gesto
  de admirao, quando a moa retirou de cima do desenho a folha de papel de seda
  que o cobria. Apertou a mo de Helena e examinou o trabalho. Notou a firmeza
  das linhas, a exao das circunstncias locais, as impresses de uma hora
  fugitiva que o lpis da irm tivera a arte de fixar no papel.

-- No podia fazer-me presente melhor,
  disse ele; d-me uma parte de si mesma, um fruto de seu esprito. E que fruto!
  No h muita moa que desenhe assim. Era talvez por isso que voc saa algumas
  vezes sozinha com o pajem?

Estcio contemplou ainda instantes
  o desenho; depois levou-o aos lbios. O beijo acertou de cair na cabea da
  cavaleira. Foi o original que corou.

-- Andavam a gabar os meus
  talentos, disse Helena aps um instante; tive a vaidade de dar uma pequena
  amostra...

-- Excelente amostra! No acha,
  titia? disse o moo a D. rsula, que nesse instante aparecera  porta, trazendo
  o seu presente, numa bocetinha de joalheiro.

D. rsula no tinha, decerto, o
  instinto da arte; mas o amor da famlia lhe ensinara uma esttica do corao, e
  essa bastou a faz-la admirar o trabalho de Helena.

-- Mas que digo eu todos os dias?
  exclamou D. rsula. Esta pequena sabe tudo!

-- Quase tudo, emendou Helena;
  ignoro, por exemplo, como lhes hei de agradecer...

-- O qu, tontinha? interrompeu a
  tia. Algum disparate, naturalmente, imprprio em qualquer dia, mas muito mais
  ainda no dia de hoje.

Enquanto as duas senhoras foram
  tratar das disposies do dia, Estcio mandou selar o cavalo e saiu. Queria
  comparar ainda uma vez o desenho de Helena com o stio copiado. A fidelidade
  era completa, e o quadro seria absolutamente o mesmo, se se dessem algumas
  circunstncias da primeira ocasio. Helena no ia ao lado dele; mas a vinte
  braas de distncia flutuava a bandeira azul da casa do alpendre. Estcio
  afrouxou o passo do cavalo, como saboreando as recordaes da primeira manh,
  quando Helena se lhe mostrara to singularmente comovida. Volveu a refletir na
  situao dela, e na paixo que lhe confessara, dias antes, com tamanha
  veemncia. Se se tratava de uma felicidade possvel, embora difcil, Estcio
  prometeu a si mesmo alcanar-lha. No era isso servir o sangue do seu sangue?

A casa do alpendre, at ali
  indiferente a Estcio, criava agora para ele um interesse especial.  medida
  que se aproximava, ia achando no edifcio a fiel reproduo do desenho. Este
  no apresentava todas as particularidades da vetustez; mas continha as mesmas
  disposies exteriores, como se fora feito diante do original.

A uma das janelas estava um homem,
  com a cabea inclinada, atento a ler o livro que tinha sobre o peitoril. Nessa
  atitude no era fcil examin-lo; afigurava-se, entretanto, uma criatura
  mscula e bela. A duas braas de distncia, o indivduo levantou a cabea, e
  cravou em Estcio um par de olhos grandes e serenos; imediatamente os retirou,
  baixando-os ao livro.

-- Mal sabes tu, filsofo matinal,
  disse Estcio consigo, mal sabes tu que a tua casa teve a honra de ser
  reproduzida pela mais bela mo do mundo!

O filsofo continuou a ler, e o
  cavalo continuou a andar. Quando Estcio regressou da a alguns minutos, achou
  somente a casa; o morador desaparecera; circunstncia indiferente, que escapou
  de todo  ateno do moo. Nem ele pensava mais naquilo; o esprito trotava
  largo,  inglesa, como o ginete, e ambos bebiam o ar, como ansiosos de chegar
  ao ponto da partida.

CAPTULO XII

A festa correu animada, posto a
  reunio fosse restrita. Alguns giros da valsa, duas ou trs quadrilhas, jogo e
  msica, muita conversa e muito riso, tal foi o programa da noite, que a encheu
  e fez mais curta.

Se as honras da casa foram feitas
  por Helena, a alma da festa era Mendona, cujo esprito havia j recebido e
  colhido o sufrgio universal. Eugnia dera-lhe, antes de todos, o seu voto.
  Havia entre ambos tal ou qual afinidade de ndole, que naturalmente os
  aproximava. Mendona lisonjeava os caprichos de Eugnia, aplaudia-a,
  compreendia-a, obedecia-lhe sem constrangimento nem reparo. Quando Mendona
  valsava com Eugnia, todos os olhos se concentravam neles. Eram valsistas de
  primeira ordem. As ondulaes do corpo de Eugnia, e a serenidade e segurana
  de seus passos adaptavam-se maravilhosamente quela espcie de dana. Era belo
  v-los percorrer o vasto crculo deixado aos movimentos; v-los enfim parar com
  a mesma preciso e sem o menor sintoma de cansao. Eugnia punha toda a ateno
  no gesto de brao com que, logo que interrompia ou cessava de todo a valsa,
  conchegava ao corpo a saia do vestido. O prazer com que fazia esse gesto, e a
  graa com que o acompanhava de uma leve inclinao do corpo mostravam que, mais
  ainda a faceirice do que a necessidade, lhe movia o corpo e a mo.

Esta sorte de triunfos enchia a
  alma de Eugnia; e, porque ela no possua nem a modstia nem a arte de a
  simular, via-se-lhe no rosto o orgulho e a satisfao. A dana no era para a
  filha de Camargo um gozo ou um recreio somente; era tambm um adorno e uma
  arma. Da vinha que o valsista mais intrpido e constante era tambm o
  principal parceiro do seu esprito; e ningum disputava esse papel ao filho do
  comerciante.

-- Sua filha  a rainha da noite,
  murmurou o Dr.Matos ao ouvido de Camargo, em um intervalo do voltarete.

-- No  verdade? acudiu o mdico.

E a alma do pai voava enrolada nas
  pontas da fita que apertava a cintura de Eugnia, no regressando ao domiclio
  seno quando a moa parava. Ento volvia Camargo um olhar em torno de si, como
  pedindo igual admirao. Depois, ficava sombrio, e mais do que usualmente, caa
  em longos e mortais silncios. Trs ou quatro vezes aproximara-se de Helena sem
  lograr det-la, nem achar em si mais que duas palavras triviais. Insistia; no
  a perdia de vista, parecia ansioso de a conversar sobre alguma coisa.

Helena repartia-se entre todas as
  pessoas, atenta aos mil cuidados que a noite requeria. Cantou uma vez, danou
  uma quadrilha, e no valsou. Em vo Mendona insistira com ela; a moa
  desculpou-se dizendo que a valsa lhe fazia vertigens. Na opinio do filho do
  comerciante esta razo encobria somente a ignorncia de Helena. Estcio pensava
  antes que era a castidade selvagem da irm que lhe no permitia o contato de um
  homem, idia que lhe fez bem ao corao.

Pela volta da meia-noite,
  terminada a ceia, comeou aquela hora de repouso que precede a total disperso.
  As senhoras trocavam impresses e comentrios, os rapazes fumavam, os jogadores
  decidiam as ltimas remissas. A noite no refrescara, e a agitao aumentara o
  calor. Helena, to cansada como D.rsula, retira-se por alguns instantes para a
  sala contgua  principal; ali sentou-se num sof, e derreou levemente o corpo,
  deixando cair os clios, no sei se pensativos, se pesados de sono. O esprito
  no tivera tempo de encadear duas idias ou esboar um sonho, quando uma voz a
  acordou:

-- J dormindo!

Era Camargo.

Helena abriu os olhos sobressaltada.
  A voz de Camargo produzira-lhe a impresso de desagrado que lhe fazia sempre.
  Sorriu a moa contrafeitamente, e, vendo que ele se dispunha a sentar-se no
  sof, no arredou o vestido, como se quisesse deixar entre ambos larga
  distncia. Camargo sentou-se.

-- Parece que se assustou? disse
  ele.

-- Um pouco.

Camargo agitou entre as mos os
  perendengues do relgio, to numerosos como eles se usavam naquele tempo;
  depois pegou familiarmente no leque da moa, abriu-o, contou as varetas, tornou
  a fech-lo e restituiu-o com um elogio. Helena respondeu-lhe com um sorriso. Ia
  levantar-se, quando ele a deteve com estas palavras:

-- Estimei ach-la s, porque
  precisava pedir-lhe um conselho.

A testa de Helena contraiu-se
  interrogativamente.

-- Um conselho e um favor,
  continuou o mdico. No ser, creio eu, a primeira vez que a velhice consulte a
  mocidade. Demais, trata-se de assunto em que a gente moa l de cadeira.

Helena olhou para ele desconfiada.
  Nunca vira o mdico to afvel, e essa mudana de maneiras e de tom  que lhe
  fazia medo. Verdade  que ele ia pedir-lhe alguma coisa. Camargo no se deteve.
  Fez uma exposio rpida de suas relaes com a famlia do conselheiro, da
  amizade que o ligava a ela.

-- A perda do meu finado amigo,
  concluiu ele, no pde ser suprida por nenhuma coisa; mas, h alguma
  compensao na afeio que sobrevive e me faz considerar esta famlia como
  minha prpria. Estou certo de que seu irmo e D. rsula sentem a meu respeito
  do mesmo modo. Quanto  senhora,  recente na famlia, mas no tem menor
  direito que ela. Vi-a to pequena!

-- A mim? perguntou Helena.

Camargo fez um gesto afirmativo,
  enquanto a moa olhava em volta da sala, receosa de que algum tivesse entrado
  e ouvido. Uma vez segura de que ningum havia, recebeu impresso contrria 
  primeira; envergonhou-se daquele receio. A vergonha aumentou quando o mdico
  acrescentou em voz baixinha:

-- No falemos nisso...

-- Pelo contrrio! exclamou ela.
  Pode falar com franqueza; diga tudo. Era minha me. No sei o que foi para o
  mundo; mas, se me perdoaram a irregularidade do nascimento, no creio que me
  pedissem em troca a renncia do meu amor de filha; a lei que o ps em meu
  corao  anterior  lei dos homens. No repudio uma s das minhas recordaes
  de outro tempo. Sei e sinto que a sociedade tem leis e regras dignas de
  respeito; aceito-as tais quais; mas deixem-me ao menos o direito de amar o que
  morreu. Minha pobre me! Vi-a expirar em meus braos, recolhi o seu ltimo
  suspiro. Tinha apenas doze anos; contudo, no consenti que outra pessoa velasse
   cabeceira a ltima noite que passou sobre a Terra... Oh! no a esquecerei
  nunca! nunca! nunca!

Helena proferiu estas palavras num
  estado de exaltao que at ali se lhe no vira. Em vo Camargo procurou duas
  ou trs vezes interromp-la, receoso de que a ouvissem fora, porque a moa
  tinha levantado a voz. Helena no obedeceu; no viu sequer o gesto suplicante
  do mdico. O seio, castamente velado pelo corpinho, que subia at ao pescoo,
  estava ofegante e onduloso como a gua do mar. A ltima palavra saiu-lhe como
  um soluo. Camargo sentiu-se surpreendido com aquela exploso de ternura. Era
  evidente que ele esperava outra coisa. Seguiu-se um breve silncio, durante o
  qual Helena mordia a ponta do leno, como para conter a palavra que lhe
  tumultuava no corao. O mdico prosseguiu enfim:

-- Ningum lhe pede que a esquea,
  disse ele, todos respeitam esses sentimentos de piedade filial. O passado morreu,
  e o menos que se deve aos mortos  o silncio. A senhora tem o direito de lhe
  dar o amor e a saudade. Mas falemos dos vivos; e perdoe-me se lhe toquei, sem
  querer, em to dolorosa recordao.

-- No! no  dolorosa! disse ela,
  abanando a cabea.

-- Falemos dos vivos. No est
  certa do amor de sua famlia?

Helena fez um gesto afirmativo.

-- No poderia encontrar outra
  melhor nem to boa. D. rsula  uma santa senhora; Estcio, um carter austero
  e digno. Venhamos agora ao conselho. H muito tempo ando com idia de ir 
  Europa; estou caminhando para a velhice; no quero deixar de ir ver alguma
  coisa, alm do nosso Po de Acar. J desfiz o projeto mais de uma vez. Cuido
  que agora vou definitivamente realiz-lo. D-se, porm, uma circunstncia grave.
  Sabe que minha filha ama seu irmo? Meus olhos descobriram desde muito tempo
  essa inclinao de um e outro, porque tambm seu irmo ama minha filha.
  Merecem-se; e de algum modo continuam a afeio dos pais; a natureza completa a
  natureza. Esta  a situao. O que eu desejava, porm,  que me dissesse se
  devo partir j, levando-a; ou se  melhor esperar que eles se casem.

Helena ouvira o mdico sem olhar
  para ele; quando ele acabou, fitou-o admirada e curiosa. A puerilidade da
  pergunta era to evidente que a moa procurou ler no rosto do interlocutor o
  pensamento verdadeiro e oculto. Camargo apressou-se a explicar-se.

-- Estcio, disse ele, pode amar
  Eugnia com idias matrimoniais; mas tambm pode no passar isto de um captulo
  de romance, como o que se l em uma viagem da Corte a Niteri. O carter 
  srio; o corao tem leis especiais. Confesso que o procedimento de Estcio
  nada me afirma a tal respeito. H nele umas mudanas pouco explicveis. O tempo
  decorrido  mais que muito suficiente para que... Est refletindo?

-- Estou.

-- E...

-- Suponho que pede mais do que me
  disse. Quer que eu indague a tal respeito as intenes de Estcio?

-- Isso.

-- Mas por que no se dirige a ele
  mesmo?

-- No havia inconveniente;
  estabeleceu-se, porm, que um pai no deve ser o primeiro a falar em tais
  coisas.  preciso respeitar a dignidade paterna. Acresce que Estcio  rico, e
  tal circunstncia podia fazer supor de minha parte um sentimento de cobia, que
  est longe de meu corao. Podia falar a D. rsula; creio, porm, que ela no
  tem a sua habilidade, e... por que o no direi? a sua influncia no esprito de
  Estcio.

-- Eu!

-- Oh! influncia incontestvel! A
  senhora veio completar a alma de seu irmo.  visvel a afeio e o respeito
  que ele lhe tem. Demais, em tais assuntos uma irm  natural confidente e
  conselheira.

Helena deu trs pancadinhas no
  joelho com a ponta do leque, e enfiou os olhos pela porta de comunicao entre
  aquela e a sala principal. Depois voltou-se para o mdico.

-- Sei que eles se amam, disse ela,
  e j dei a minha opinio a tal respeito. Eugnia parece ser minha amiga; meu
  irmo  meu irmo; desejo-lhes todas as felicidades. H, porm, um limite 
  interveno de uma irm; e no desejo ir alm. Demais, seu pedido  ocioso.

-- Por qu?

-- Anuncie a viagem, e Estcio se
  apressar a pedir-lhe sua filha. Se o no fizer,  porque a no ama, conforme
  ela merece, e em tal caso mais vale perder um casamento do que o fazer mau.

-- Sim? perguntou Camargo.

-- Naturalmente.

-- O conselho  excelente, disse o
  mdico depois de um instante, mas tem o defeito substancial de suprimir a sua
  interveno, que me  necessria. Vejamos o meio de combinar as coisas.
  Suponhamos que, anunciada a viagem, Estcio no corresponde s minhas esperanas.
  Que devo fazer?

-- Embarcar.

-- Embarcar  arriscar o casamento.
  Ora, este casamento...  um de meus sonhos. Desejo que os filhos continuem a
  afeio dos pais. Se Estcio recuar, minhas esperanas esvaem-se como fumo; o
  tempo cavar um abismo entre os dois; Eugnia amar outro... Enfim, conto com a
  senhora.

-- Comigo?

-- A senhora tem uma fora de
  resoluo, uma fertilidade de expedientes, um esprito capaz de empresas
  delicadas; e, tratando-se da felicidade de um irmo, creio que empenhar todas
  as foras para levar a cabo a mais pura das ambies. No lhe peo um absurdo,
  peo-lhe a felicidade de minha filha.

Helena no respondeu; olhou de
  revs para ele, e cravou depois os olhos na guia branca tecida no tapete,
  sobre o qual pousava o p impaciente e colrico. Podia referir mais detidamente
  qual o seu papel junto de Estcio, a respeito de Eugnia, os pedidos que lhe
  fez, e a promessa do irmo, que deveria ser cumprida, se o fosse, em algum dos
  seguintes dias. Mas, nem quis dar esperanas que os acontecimentos podiam
  dissipar, nem o corao lhe consentia mais larga confidncia. Ambos eles viam
  que se detestavam cordialmente; mas, se em Helena havia clera abafada, em
  Camargo havia tranqilidade e observao. Ele contemplava a moa, com o olhar
  fixo e metlico dos gatos; a mo esquerda, pousada sobre o joelho, rufava com
  os dedos magros e peludos. Nada dizia; todo ele era uma interrogao imperiosa.
  Helena olhou ainda uma vez para o mdico.

-- D-me o seu brao at  sala?
  perguntou.

Camargo sorriu.

-- S isso? Eu dizia comigo outra
  coisa.

-- Que dizia ento? perguntou
  Helena.

-- Dizia que muito se devia esperar
  da dedicao de uma moa, que acha meio de visitar s seis horas da manh uma
  casa velha e pobre, no to pobre que a no adorne garridamente uma flmula
  azul...

Helena fez-se lvida; apertou
  nervosamente o pulso de Camargo. Nos olhos pareciam falar-lhe ao mesmo tempo o
  terror, a clera e a vergonha. Atravs dos dentes cerrados Helena gemeu esta
  palavra nica:

-- Cale-se!

-- Falo entre ns e Deus, disse
  Camargo.

Uma onda de sangue invadiu a face
  da moa, com a mesma rapidez com que ela lhe empalidecera. Helena quis
  erguer-se, mas sentiu-se exausta. Ningum da sala pde perceber a impresso e o
  movimento; ningum olhava para ali. Camargo, entretanto, inclinou-se para
  Helena e proferiu algumas palavras de animao, que ela interrompeu, murmurando
  com amargura:

-- O senhor  cruel!

-- Sou pai, respondeu o mdico; pai
  extremoso e discreto, mais discreto ainda que extremoso. Conto com a senhora.

CAPTULO XIII

Dissolvida a reunio, Helena
  recolheu-se  pressa com o pretexto de que estava a cair de sono, mas realmente
  para dar  natureza o tributo de suas lgrimas. O desespero comprimido tumultuava
  no corao, prestes a irromper. Helena entrou no quarto, fechou a porta, soltou
  um grito e lanou-se de golpe  cama, a chorar e a soluar.

A beleza dolorida  dos mais
  patticos espetculos que a natureza e a fortuna podem oferecer  contemplao
  do homem. Helena torcia-se no leito como se todos os ventos do infortnio se
  houvessem desencadeado sobre ela. Em vo tentava abafar os soluos, cravando os
  dentes no travesseiro. Gemia, entrecortava o pranto com exclamaes soltas,
  enrolava no pescoo os cabelos deslaados pela violncia da aflio, buscando
  na morte o mais pronto dos remdios. Colrica, rompeu com as mos o corpinho do
  vestido; e o jovem seio, livre de sua casta priso, pde  larga desafogar-se
  dos suspiros que o enchiam. Chorou muito; chorou todas as lgrimas poupadas
  durante aqueles meses plcidos e felizes, leite da alma com que fez calar a
  pouco e pouco os vagidos de sua dor.

Calar somente, no adormec-la,
  porque ela a lhe ficou, companheira daquela noite cruel, para velarem ambas.
  Quando os olhos cansaram, e foram mais intervalados os soluos, Helena jazeu
  imvel no leito, com o rosto sobre o travesseiro, fugindo com a vista 
  realidade exterior. Uma hora esteve assim, muda, prostrada, quase morta, uma
  hora longa, longa, longa, como s as tem o relgio da aflio e da esperana.

Quando a tormenta pareceu extinta,
  a moa sentou-se na cama e olhou vagamente em torno de si. Depois ergueu-se;
  dirigiu-se trpega ao quarto de vestir; ali parou diante do espelho, mas fugiu
  logo, como se lhe pesasse encarar consigo mesma. Uma das janelas estava aberta.
  Helena foi ali aspirar um pouco do ar da noite. Esta era clara, tranqila e
  quente. As estrelas tinham uma cintilao viva que as fazia parecer alegres.
  Helena enfiou um olhar por entre elas como procurando o caminho da felicidade.
  Esteve  janela cerca de meia hora; depois entrou, sentou-se e escreveu uma
  carta.

A carta era longa, escrita a
  golfadas, sem nexo nem ordem; continha muitas queixas e imprecaes, ternura
  expansiva de mistura com um desespero profundo; falava daqueles que, tendo
  nascido sob a influncia de m estrela, s tem felicidades intermitentes e
  mutveis; dizia que para ela a prpria felicidade era um grmen de morte e
  dissoluo, -- idia que repetia trs vezes, como se tal observao fosse o
  transunto de suas experincias certas. A carta falava tambm de um homem, cujo
  egosmo de pai no conhecia limites, e que a todo o transe queria que a filha
  desposasse uma grande riqueza e uma grande posio, -- 'homem, dizia ela,
  que me viu a princpio com olhos avessos, pela diminuio que eu trazia 
  herana'. No fim dizia que havia naquelas linhas muito de obscuro e
  incompleto, que oportunamente contaria tudo, mas que desde j podia dar a
  triste notcia de que lhe era foroso abster-se de sair.

Helena releu o escrito e meditou
  longo tempo sobre ele; acrescentou ainda algumas linhas; depois, rasgou o papel
  em dois pedaos, chegou-os  vela, e os destruiu. Como arrependida, voltou a
  escrever outra carta, mas no chegou a acabar seis linhas; rasgou-a como fizera
   primeira, e s ento recorreu ao remdio melhor de uma alma ulcerada e pia:
  rezou. A prece  a escada misteriosa de Jac: por ela sobem os pensamentos ao
  cu; por ela descem as divinas consolaes.

Entretanto, a noite comeava a
  inclinar a urna das horas s mos da madrugada. O sono fugira dos olhos de
  Helena; mas era foroso repousar. Assim mesmo vestida, atirou-se sobre o leito.
  No dormiu, no se pode dizer que dormisse; ficou ali num estado que no era
  viglia nem sono, at que a manh rompeu inteiramente. Abrindo os olhos,
  pareceu acordar de um sonho; a imaginao recomps as fases todas do
  acontecimento da vspera. Depois suspirou, e ficou longo tempo a olhar para o
  cho, com a fixidez trgica e solene da morte.

-- Era justo! murmurava de quando
  em quando.

Levantou-se enfim; levantou-se
  abatida e cansada. Viu-se ao espelho; a descor da face e a linha roxa que lhe
  circulava as plpebras dificilmente podiam deixar de impressionar a famlia.
  Helena disfarou como pde esses vestgios da tempestade; explicou-os do modo
  mais verossmil: o cansao da vspera e a insnia de toda uma noite. A
  explicao no achou obstculo no nimo da tia e do irmo. Somente o Padre
  Melchior, presente a ela, fitou na moa um olhar dubitativo, que a obrigou a
  baixar os clios.

Se Helena padecia, o lugar de
  Estcio no era ao p dela? Assim pensou o sobrinho de D. rsula, que em todo
  esse dia resolveu no sair de casa. Cercou-a de cuidados, buscou distra-la,
  pediu-lhe que fosse repousar um instante. Para justificar a explicao que
  dera, Helena obedeceu s instrues do irmo. Este foi encerrar-se no gabinete,
  onde se ocupou em examinar e colecionar alguns papis. Era o dia marcado para
  solicitar de Eugnia o consentimento matrimonial, e ele no cogitava em ir ao
  Rio Comprido. Na irm, sim; na irm pensava ele, ora relendo as pginas de sua
  predileo, ora mandando saber se dormia sossegada, ora contemplando o desenho
  com que ela o presenteara na vspera. Sentia-se to feliz naquela aurora do
  ano!

Pouco antes do jantar, ouviu no
  corredor um rumor de saias, e no tardou que a irm aparecesse  porta. Vinha
  como fora; mas a Estcio pareceu que efetivamente o descanso e o sono lhe
  haviam restaurado as foras. A razo era o sorriso estudado que lhe avivava o
  rosto. Helena parou e Estcio foi ter com ela, travou-lhe da mo, f-la entrar.

-- Ests melhor? perguntou.

-- Estou boa.

-- No dizia eu que era melhor
  desistir da idia da reunio? Essas festas prolongam-se, e fatigam, sobretudo
  as pessoas franzinas...

Helena ergueu os ombros.

-- Anda sentar-te um pouco.

-- Primeiro h de responder-me a
  uma coisa.

-- Que ?

-- Que dia  hoje? perguntou ela.

-- Ano-bom.

-- Lembra-se do que me prometeu?

-- Perfeitamente. Vs estes papis?
  disse ele mostrando sobre a secretria uma poro de papis classificados e
  postos por ordem. Ocupei-me at agora em liquidar o passado; faltam-me umas
  ltimas contas, que o procurador h de trazer amanh. Depois, irei...

Helena abanou a cabea com ar de
  desaprovao.

-- No, disse ela; no h de ir
  depois, h de ir hoje mesmo. Que tm as contas com a autorizao que deve pedir
  a Eugnia? V logo de noite. Sou supersticiosa; creio que o pedido feito no dia
  de hoje  de excelente agouro. Dar um ano feliz.

-- Minha inteno era ir dentro de
  quatro ou cinco dias, respondeu Estcio, depois de um silncio; mas no tenho
  dvida em faz-lo. Uma vez preenchida a formalidade...

-- Pedi-la- imediatamente ao pai?

-- No!

-- Por qu?

-- Porque precisarei meditar ainda
  vinte e quatro horas, pelo menos. Vinte e quatro horas no  muito para quem
  tem de amarrar-se eternamente. Quero sondar o meu prprio esprito, e...

-- Mas tudo isso  uma
  extravagncia! interrompeu Helena sentando-se na borda da rede em que Estcio
  costumava ler. Pretender voc recuar depois de lhe falar, a ela?

-- Oh! no! Mas, uma vez que
  caminho para soluo to grave, no h inconveniente em ir p ante p.
  Admiras-te? perguntou ele, vendo que a irm fazia um gesto de impacincia.

-- Zango-me.

-- Mas...

-- Voc  insuportvel. Falta ao
  que prometeu.

-- J disse que hei de cumprir.

-- No recuar?

-- No.

-- Ir pedi-la hoje mesmo?

-- A ela.

-- A ela e ao pai.

-- Ao pai escreverei uma carta.

-- Pois seja uma carta! Contanto
  que acabe com isso. O casamento ser...

-- Quando convier ao Dr. Camargo.

-- Antes do fim do ms.

-- To cedo!

-- Dou-lhe ms e meio. Nem uma hora
  a mais! Estou morta por v-los casados, tanto por voc como por ela, coitada!
  que o ama tanto...

-- Crs? Perguntou vivamente
  Estcio.

-- Se creio! Posso afirm-lo. No
  ser amor como voc quisera que fosse, mas  o amor que ela lhe pode dar, e 
  muito... Est dito! Palavra?

Estcio estendeu silenciosamente a
  mo, que Helena apertou.

-- Vou confiar todo o meu destino 
  cabea mais leve do universo, disse Estcio, com os olhos fitos no cho. No 
  de seu corao que me queixo; mas de seu esprito, que nunca deixou as roupas
  da infncia. Demais,  medida que me aproximo da hora solene, sinto que me
  repugna o estado conjugal.  to boa a minha vida de solteiro! to cheios os
  meus dias...

Helena tapou-lhe a boca com uma
  das mos; com a outro fez-lhe um gesto para que se calasse. Depois, fugiu. Uma
  vez s, Estcio refletiu longamente na situao em que se achava; reconheceu
  que estava moralmente obrigado a pedir Eugnia, desde que seus coraes se
  tinham aberto um para o outro, celebrando um contrato, que ele s no podia
  romper. A conscincia rebelou-se contra as irresolues do corao, e a deciso
  foi curta.

Naquela mesma noite, ouviu Eugnia
  a esperada palavra. A alegria que se lhe derramou nos olhos, foi imensa e
  caracterstica. Um pouco mais de recato no era descabido em tal ocasio. No
  houve nenhum; o primeiro ato da mulher foi uma meninice. Eugnia ignorava tudo,
  at a dissimulao do sexo. Concedendo a mo a Estcio, no era uma castel que
  entregava o prmio, mas um cavaleiro que o recebia com alvoroo e submisso.

Transposto a Rubicon, no havia
  mais que caminhar direito  cidade eterna do matrimnio. Estcio escreveu no
  dia seguinte uma carta ao Dr. Camargo, pedindo-lhe a mo de Eugnia, carta seca
  e digna, como as circunstncias a pediam. Antes de a remeter, mostrou-a a
  Helena, que recusou l-la. No a leu, nem lhe pegou. Ele teve-a alguns
  instantes na mo, sem se atrever a d-la ao escravo que esperava por ela. Por
  fim, deitou-a sobre a secretria.

-- Amanh, disse ele sorrindo para
  Helena.

Helena lanou mo da carta e deu-a
  ao escravo.

-- Leva  casa do Sr. Dr. Camargo,
  ordenou a moa. No tem resposta.

CAPTULO XIV

Camargo ia sentar-se  mesa quando
  lhe entregaram a carta de Estcio; leu-a para si, mas a filha leu-a nos olhos
  dele. Uma aura de bem-aventurana desrugou a fronte do mdico; seus lbios -
  coisa pasmosa! - abriram-se num sorriso franco, sorriso que chegou a
  desabrochar em gargalhada, a primeira que D. Tomsia lhe ouviu. Acabado o
  jantar, Camargo deu conta do pedido  mulher, e os dois pais chamaram a filha 
  sala. Eugnia ouviu a notcia sem baixar os olhos nem corar. Interrogada,
  respondeu que era muito do seu gosto o casamento.

-- Sim? perguntou Camargo,
  simulando espanto.

Eugnia fez uma leve inclinao de
  cabea, com certo ar de quem dizia no acreditar no espanto do pai. Este pegou
  nas mos da filha e puxou-a para si.

-- Assim, pois, meu anjo, disse
  ele, casas-te por tua livre vontade? Estcio  o eleito de teu corao? Louvo a
  escolha, que no podia ser mais digna. Sers herdeira das virtudes de tua me,
  que te proponho como o melhor modelo da Terra.

-- O mais consciencioso pelo menos,
  acudiu D. Tomsia, satisfeita e vaidosa do louvor do marido. H de ser boa
  esposa, modesta, solcita e econmica.

-- Econmica, sem avareza, emendou
  Camargo. A riqueza no deve ser dissipada, mas  certo que impe obrigaes
  imprescindveis, e seria da maior inconvenincia viver a gente abaixo de seus
  meios. No fars isso nem cairs no extremo oposto; procura um meio-termo, que
   a posio do bom senso. Nem dissipada, nem miservel.

D. Tomsia concordou com esta
  explicao do marido, enquanto Eugnia, olhando alternadamente para um e outro,
  parecia no lhes dar a mnima ateno. O pensamento estava em Andara; ela via
  j na imaginao a cerimnia do consrcio, as carruagens, o apuro do noivo, a
  sua prpria graa, a coroa de flores de laranjeira, que a havia de adornar;
  enfim talhava j o vestido branco e pregava as rendas de Malines com que havia
  de levar os olhos a ambas as metades do gnero humano. Daquele sonho foi
  despertada pelo pai, que lhe imprimiu na testa o seu segundo beijo. O primeiro,
  como o leitor se h de lembrar, foi dado na noite da morte do conselheiro. O
  terceiro seria provavelmente no dia em que ela se casasse.

-- Sabes que te amo, Eugnia? disse
  Camargo olhando para ela.

-- Papai!

Camargo no pde dizer mais nada.
  O amor, um instante expansivo, volveu a aninhar-se no fundo do corao, onde
  sempre estivera. A satisfao do mdico precisava do silncio e do recolhimento
  para saborear-se. Foi ento que Eugnia passou s mos de D. Tomsia. A mulher
  do Dr. Camargo via aquele casamento com olhos diferentes do marido. O que ela
  sobretudo via, eram as vantagens morais da filha. Sentou-a ao p de si e
  recitou-lhe um catecismo de deveres e costumes, que Eugnia interrompia de
  quando em quando, com exclamaes de obedincia filial:

-- Sim, mame!... Deixe estar!...
  Mame h de ver!...

D. Tomsia sentia-se feliz. O
  rosto, cuja expresso era vulgar, tinha naquela ocasio alguma coisa que o
  tornava sublime. Ela fez que a filha se lhe sentasse no regao; e esta,
  sentindo que a molestava, deixou-se lentamente cair de joelhos, ficando entre
  os dela, a olhar para ela.

Camargo, entretanto, j no era
  daquele mundo. Passeava de um para outro lado, com as mos para trs, a morder
  a ponta do bigode. De quando em quando parava e olhava para o grupo das duas
  senhoras, mas era s maquinalmente; o seu olhar bao indicava que ele ia
  mergulhado em profundas cogitaes.

Naquele homem ctico, moderado e
  taciturno, havia uma paixo verdadeira, exclusiva e ardente: era a filha.
  Camargo adorava Eugnia: era a sua religio. Concentrara esforos e pensamentos
  em faz-la feliz, e para o alcanar no duvidaria empregar, se necessrio
  fosse, a violncia, a perfdia e a dissimulao. Nem antes nem depois sentira
  igual sentimento; no amou a mulher; casou porque o matrimnio  uma condio
  de gravidade. O maior amigo que teve foi o conselheiro do Vale; mas essa mesma
  amizade que o ligara ao pai de Estcio, nunca recebera a contraprova do
  sacrifcio; alis apareceria em toda a sinceridade a natureza do mdico. Ele s
  conhecia os afetos, por assim dizer, caseiros e inertes, os que no sabem nem
  podem afrontar as intempries da vida. Nas relaes morais dos homens possua
  somente o troco mido da polidez; a moeda de ouro dos grandes afetos nunca lhe
  entrara nas arcas do corao. Um s existia ali: o amor de Eugnia.

Mas esse mesmo amor, alis
  violento, escravo e cego, era uma maneira que o pai tinha de amar-se a si
  prprio. Entrava naquilo uma soma larga de fatuidade. Menos graciosa, Eugnia
  seria, talvez, menos amada. Ele contemplava-a com o mesmo orgulho com que o
  joalheiro admira o adereo que lhe saiu das mos. Era a ternura do egosta;
  amava-se na prpria obra. Caprichosa, rebelde, superficial, Eugnia no teve a
  fortuna de ver emendados os defeitos; antes foi a educao que lhos deu. Dos
  lbios de Camargo nunca saiu a expresso corretiva; nenhum de seus atos revelou
  esse procedimento vigilante e diretor, que  a nobre atribuio da paternidade.
  Se a ndole da filha fosse m, a cumplicidade do pai f-la-ia pssima.

No era, felizmente; o corao
  conhecia as douras da bondade; a rebeldia era um hbito, no um vcio nativo.
  A prpria frivolidade foi-lhe desenvolvida pela educao, nada podendo o zelo
  da me contra as complacncias do pai. Esta era a explicao tambm da
  fascinao que exercia nela o tumulto exterior da vida. Quase se pode dizer que
  ela no conhecera o vestido curto; a modista a desmamou; uma contradana foi a
  sua primeira comunho.

No era fcil dar a Eugnia a
  felicidade que o pai ambicionava e a que mais lhe apetecia a ela. Posto no
  fosse perdulrio, eram poucos os haveres do mdico, de modo que a filha no
  podia caber peclio suficiente a satisfazer todas as veleidades. Ele espreitou
  durante longo tempo um noivo, armando com algum dispndio a gaiola em que o
  pssaro devia cair. No dia em que percebeu a inclinao de Estcio, fez quanto
  pde para prend-lo de vez. Esperou muitos meses a iniciativa de Estcio; e quando
  ela lhe entrou a fugir para a regio das coisas problemticas, suspeitou a
  influncia de Helena. J era muito que esta moa diminusse a herana do futuro
  genro; arrancar-lhe o genro era demais. Camargo no hesitou um instante, foi
  direito ao fim. O resultado confirmou-lhe a suspeita.

O casamento era muito, mas no
  bastava. Camargo cuidara na carreira poltica de Estcio, como um meio de dar
  certo relevo pblico ao da filha, e, por um efeito retroativo, a ele prprio,
  cuja vida fora tanto ou quanto obscura. Se o marido de Eugnia se confinasse no
  repouso domstico, entre a horta e a lgebra, a ambio de Camargo padeceria
  imenso. Vimo-lo apresentar a Estcio a ma poltica; recusada a princpio,
  foi-lhe de novo apresentada, e finalmente aceita com a noiva. Esta dupla
  vitria foi o momento mximo da vida do mdico. Ele ouvia j o rumor pblico;
  sentia-se maior, -- antegostava as delcias da notoriedade, -- via-se como que
  sogro do Estado e pai das instituies.

-- Vou entrar na cova dos lees,
  sem a convico de Daniel, suspirou Estcio na ocasio em que cedeu s
  instncias de Camargo.

-- Seu talento amansar os lees,
  acudiu este.

Assentou-se logo ali que o
  casamento seria celebrado na primeira semana de maro. Os dois meses de
  intervalo foram destinados s formalidades eclesisticas e ao preparo do
  enxoval. Estcio aceitou tudo sem objeo. D. rsula e Helena aprovaram o
  plano. A primeira acrescentou uma clusula: -- os noivos viriam morar com elas
  em Andara.

O Padre Melchior, consultado sobre
  o casamento, deu-lhe inteira aprovao, e s lhe pareceu que o prazo era longo
  demais. A efuso com que abraou Estcio, as palavras de aplauso que lhe disse,
  impressionaram vivamente o mancebo.

-- Desejava muito este casamento?
  perguntou ele.

-- Muito! Seu pai h de aprov-lo
  no cu!

At os mortos conspiravam contra
  ele; Estcio aceitou resolutamente o destino. A alegria do padre,
  ordinariamente contida e digna, transps os limites do costume, para se mostrar
  quase infantil; D. rsula no cabia em si de contente; Helena parecia colher
  naquele casamento a sua prpria felicidade. Era a bem-aventurana universal que
  Estcio ia comprar a troco de um vnculo eterno.

Surgiu, entretanto, um obstculo
  temporrio. A madrinha de Eugnia, a fazendeira que lhe mandara um dia a opala,
  que a moa admirou namorando ao mesmo tempo os olhos do futuro noivo, a
  madrinha de Eugnia adoeceu gravemente, menos ainda da molstia que a acometeu
  que dos anos que lhe pesavam nos ombros. Era senhora rica, viva, flanqueada
  por duas sobrinhas solteiras, uma cunhada, um primo, dois filhos destes e uma
  vintena de afilhados. J daqui se pode inferir a estreiteza das esperanas de
  Camargo. Posto que ele no tivesse nunca preterido os deveres que lhe impunha o
  vnculo espiritual, dando  fazendeira todas as provas possveis de um grande
  afeto, ainda assim era de recear que a ltima vontade da moribunda no
  trouxesse o cunho da estrita justia, ou, quando menos, de razovel eqidade.
  Nestas circunstncias, a viagem a Cantagalo era urgentssima, e cumpria
  realiz-la  custa dos maiores incmodos. Todo o incmodo  aprazvel quando
  termina em legado. Camargo no perdia a esperana desse desenlace igualmente
  afetuoso e pecunirio. Resolveu ir com a famlia toda, e avisou por carta ao
  futuro genro.

Estcio estimou o obstculo, mas
  no contou com o que ele trazia no bojo. Chegando ao Rio Comprido achou aflitos
  o mdico e D. Tomsia; Eugnia recusava sair da Corte. Em vo lhe mostravam a convenincia
  de corresponder, em ocasio to grave,  afeio da madrinha; debalde lhe
  diziam que era ser ingrata no ir recolher o ltimo suspiro da venervel
  senhora, sua me espiritual. Eugnia recusava a ps juntos.

Assistiu o noivo  ltima fase da luta
  entre os pais e a filha. Esta trazia os olhos vermelhos de chorar; batia com as
  mos uma na outra, declarando que s iria  fora. Estcio procurou cham-la 
  razo, apoiando as reflexes do pai, sem alcanar mais do que ele. Enfim,
  Eugnia ps uma condio  sua aquiescncia:

-- Irei, se o Dr. Estcio for
  conosco.

Camargo aprovou a condio in
  petto; verbalmente, ops-se ao sacrifcio. Estcio enfiara; posto entre a
  espada e a parede, j a viagem de Eugnia lhe parecia suprflua.

-- Acompanha-nos? insistiu a moa.

-- No  possvel, acudiu o mdico,
  tamanho incmodo por um simples capricho.

-- Pois ento no vou!

D. Tomsia ficou um tanto vexada
  com a teima de Eugnia. Estcio mordia o lbio, olhando para a moa, cujo rosto
  o interrogava instantemente. Venceu-o o decoro; considerando Eugnia sua
  mulher, quis cortar por uma cena que lhe parecia ridcula.

-- Acompanh-los-ei, disse ele, sem
  entusiasmo.

A soluo era favorvel a todos; os
  trs aceitaram de boa feio. Marcou-se a viagem para dois dias depois. D.
  rsula, apesar dos bons olhos com que via o casamento, achou desnecessria a
  ida do sobrinho, mas no empreendeu dissuadi-lo. Helena aprovou tudo. Ele fez
  sentir s duas parentas a extenso do sacrifcio, e esteve a ponto de retirar a
  palavra. Era tarde. A ltima noite passada em Andara foi cruel para ele; as
  horas voaram ligeiras como nunca. Como devia sair no dia seguinte, logo cedo,
  ali mesmo se despediu da tia e da irm, despedida de alguns dias que lhe custou
  como se fora de anos. Prometeu, entretanto, que o regresso seria breve.

O que ele no podia prometer era
  conjurar o drama que se lhes preparava, drama que ia enfim desenvolver-se,
  intenso, funesto e irremedivel, -- do qual no o consolariam jamais nem as
  douras da paz domstica, nem as glrias da vida pblica.

CAPTULO XV

Estcio levantou-se ao amanhecer.
  Uma vez pronto, quis surpreender a tia e a irm com uma lembrana sua, e
  escreveu numa folha de papel estas simples palavras: 'At  volta; 6 horas
  da manh".Dobrou-a e foi p-la sobre a mesa de costura de D. rsula. Dali
  passou  sala de jantar, depois  varanda. Aqui chegando, deu com os olhos em
  Helena, que o esperava ao p da escada.

-- Silncio! disse graciosamente a
  moa. No faa espantos, que pode acordar titia. Vim saber se voc precisa de
  alguma coisa.

-- De nada, respondeu Estcio
  comovido. Mas que imprudncia foi essa de se levantar to cedo?

-- Cedo! O sol no tarda a
  cumprimentar-nos. Adeus! muitas recomendaes a Eugnia. No lhe falta nada,
  no  assim?

-- Nada.

Estcio recebeu a mo que Helena
  lhe estendera e ficou a olhar para ela.

-- Olhe que  tarde!

Dizendo isto, Helena apertou-lhe a
  mo e procurou retirar a sua; Estcio reteve-a.

-- Se soubesses como me custa ir!

-- So apenas alguns dias...

-- Valem por meses, Helena! Adeus,
  no te esqueas de mim. Escreve-me; eu escreverei logo que chegar. No faas
  imprudncias; no saias a passeio enquanto eu estiver ausente.

-- Adeus!

-- Adeus!

Estcio quis dar-lhe o abrao da
  despedida; mas a moa, menos ainda com a palavra que com o gesto, f-lo recuar.

-- No, disse ela afastando-se; as
  despedidas mais longas so as mais difceis de suportar.

Recuou at  porta da sala de
  jantar, fez um gesto de despedida e entrou. Estcio desceu a custo as escadas.
  Helena viu-o descer e sair; depois subiu cautelosamente ao seu aposento. Ali
  sentou-se alguns minutos, pensativa e triste. Ergueu-se enfim, vestiu
  rapidamente as roupas de montar; colocou o chapelinho preto sobre os cabelos
  penteados  ligeira, e desceu. Na chcara esperava-a Vicente, com a gua
  ajaezada e pronta. Helena montou sem demora; o pajem cavalgou uma das duas
  mulas que havia na cavalaria e os dois saram a trote na direo da casa do
  alpendre e da bandeira azul.

A casa estava ainda silenciosa;
  porta e janelas conservavam-se hermeticamente fechadas. Helena apeou-se e bateu
  de mansinho; repetiu as pancadas progressivamente mais fortes. Ningum lhe
  respondeu. Helena impaciente rodeou a casa; mas, parece que achou igualmente
  fechadas as portas do fundo, porque volveu logo. Colou o ouvido  porta e
  esperou. Quando lhe pareceu que era baldado o esforo, tirou da algibeira um
  lpis e um pedacinho de papel; colocou o p no degrau de tijolo e sobre o
  joelho escreveu algumas palavras; dobrou depois o papel e introduziu-o por
  baixo da porta. Esperou ainda alguns minutos, caminhou para a gua, montou e
  regressou  casa.

Vinha triste e pensativa. A gua,
  a passo vagaroso, no sentia o esforo da cavaleira, que a deixava ir, frouxa a
  rdea, intil o chicote. O pajem levava os olhos na moa com um ar de adorao
  visvel; mas, ao mesmo tempo, com a liberdade que d a confiana e a
  cumplicidade fumava um grosso charuto havans, tirado s caixas do senhor.

D. rsula no estava ainda
  levantada; Helena no lhe ocultou o passeio. O dia correu triste e solitrio,
  como os seguintes, sem embargo da companhia que iam fazer s duas senhoras as
  pessoas mais ntimas. Mendona, a quem Estcio as recomendara, era ali pontual;
  conseguia disfarar um pouco as saudades do moo ausente. O Padre Melchior
  prolongava visitas quotidianas. O mesmo sentimento ligava a todas as pessoas.

O mesmo era, e no nico, porque
  outro e mais egosta e pessoal veio ali viar tambm. Mendona sentiu que
  metade de seu destino estava acabada, e que a outra metade ia comear, mais
  circunspecta que a primeira. O relgio em que ele viu bater essa hora fatdica,
  foram os olhos de Helena. Mendona comeava a amar. Estouvado, e no corrupto,
  atravessara o delrio dos primeiros anos sem perder a flor dos castos afetos,
  sem sequer a haver colhido. Helena sentiu nascer e crescer essa adorao
  silenciosa, sem parecer que a descobrira. No animou o mancebo nem o repeliu;
  redobrou de confiana, -- dessa confiana que s se d aos simples familiares, e
  que mostra claramente a um namorado a inanidade de suas esperanas. Ao parecer
  de estranhos, a situao afigurava-se de perfeita concrdia. O coronel-major
  piscou um dia os olhos ao Dr. Matos; o Dr. Matos proferiu um -- latet anguis
    in herba -- e ambos foram repartir o po das conjeturas com a esposa do
  advogado, senhora muito perspicaz nos namoros de salo. A opinio dos trs 
  que o casamento era coisa provvel, e talvez certa. Um s obstculo podia haver;
  eram os escrpulos do pai de Mendona. Esse mesmo obstculo no existia,
  porquanto, alm das qualidades estimveis da moa, havia o reconhecimento legal
  e social, pblico e domstico; acrescendo (observao do Dr. Matos) que
  duzentas e tantas aplices mereciam um cumprimento de chapu e no davam lugar
  a cinco minutos de reflexo.

As primeiras cartas de Estcio
  chegaram uma tarde em que as duas senhoras e Mendona se achavam na varanda,
  acabado o jantar, bebendo as ltimas gotas de caf. D. rsula, depois de por em
  atividade trs mucamas para lhe irem procurar os culos, levantou-se e foi ela
  prpria  cata deles, com a sua carta na mo. Helena ficou com a que lhe era
  dirigida; estava sentada junto a uma das janelas, abriu-a e leu-a para si:

Quando esta carta te chegar s
  mos, estarei morto, morto de saudades de minha tia e de ti. Nasci para os
  meus, para a minha casa, os meus livros, os meus hbitos de todos os dias.
  Nunca o senti tanto como agora que estou longe do que h mais caro neste mundo.
  Poucos dias l vo, e j me parecem meses. Que seria se a separao no fosse
  to limitada? Na carta que escrevo a titia dou conta da nossa viagem e da sade
  de todos. Dona Clara est, na verdade,  beira da morte; mas pode durar ainda
  alguns dias, e o Dr. Camargo resolveu esperar at dar-lhe os ltimos adeuses. A
  recepo que nos fez a famlia foi cordialssima. H aqui uma cunhada da
  enferma, um primo, trs sobrinhos, outros parentes e vrios afilhados. O primo
   comendador e tenente-coronel; ele e os outros so a gente mais afvel do
  mundo. Os homens da famlia so influncias eleitorais; quando souberam da
  minha candidatura, ofereceram-me logo os seus servios, com a clusula nica de
  que haja prvia recomendao do Rio de Janeiro. Agradeci o favor, com muita
  abundncia d'alma, porque a tal candidatura, que no me seduzia nem seduz, no
  h remdio seno cuidar dela, de modo que o meu nome no padea a injria da
  derrota. Que te parece esta pontazinha de vaidade? Mudemos de assunto, que este
  me aflige, e no quero filosofar sem ti, que s a minha companheira nestas
  vadiaes de esprito. A no te lembrars, talvez, das nossas palestras; aqui
  lembra-me tudo. De manh, dou o meu passeio eqestre, como l; mas que
  diferena! Quem vai a meu lado  o tenente-coronel, excelente homem, corao de
  pomba, com o defeito nico e enorme de se no chamar D. Helena do Vale, a minha
  boa Helena, que l est na Corte, a divertir-se sem seu irmo. Ele fala de tudo
  e muito: do caf, do governo, das eleies, dos escravos, dos impostos. Eu
  ouo, que  o menos que posso fazer, e deixo-o ir sem interrupo. s vezes,
  como que desconfiado, recolhe-se ao silncio; eu ato o fio da conversa e ele
  encarrega-se de desenrolar o novelo. To pouca coisa o faz feliz! J cacei uma
  vez; confesso-te que  o que me pode distrair um pouco. Pensava ter perdido o
  costume; mas no perdi. A modstia impede-me dizer mais. A fazenda  vasta e a
  casa excelente. No te direi que gosto da vida agrcola; no gosto, no me dou
  com ela. Mas viver num recanto como este, a dois passos do mato, a tantas
  lguas da Rua do Ouvidor, isso creio que se d com a minha ndole.
  Consultaremos titia. Eu no sei o que  amar o tumulto exterior; acho que 
  dispersar a alma e crestar a flor dos sentimentos. Nasci para monge... e creio
  que tambm para dspota, porque estou a planear uma vida ignorada e deserta,
  sem consultar tuas preferncias. Sou um Cromwell com tendncias de frade; ou,
  por dizer tudo numa s palavra: sou um Lutero... muito inferior. Pobre Helena!
  J l vo quatro pginas s a falar de mim. Vejamos o que tens feito. Andas
  muito triste? passeias? ls? jogas? tocas? Conta-me a tua vida o mais
  miudamente que puderes; conta-me a vida de todos. No me escondas nada; se, por
  exemplo, ao abrir um livro ou tocar uma tecla do piano, pensares em mim,
  escreve isso mesmo, marcando o dia e at a hora, se puder ser. E depois dou-te
  o direito de perguntar onde ficou a minha gravidade, e responderei que h uma
  puerilidade sria, e que os extremos se tocam. Quando assim no seja, a culpa 
  do cu, que me no deu uma irm criana; agora  preciso que comecemos pela
  primeira fase da vida. Deixei muito recomendado ao Mendona que fosse  nossa
  casa com freqncia. No sei se ele se ter lembrado e cumprido a promessa que
  me fez. Se no tiver cumprido, hs de mandar-lhe dizer que eu o detesto e
  abomino; que ele  o maior traidor que o cu cobre; que tudo fica acabado entre
  mim e ele; que a amizade  um culto, etc. Dize o que te parecer e pelo modo que
  te  usual. Lembro-me de ti a propsito de tudo. Hoje de tarde, por exemplo, o
  terreiro oferecia um aspecto bonito e caracterstico. Se ela estivesse aqui,
  disse comigo, faria um magnfico desenho. Peguei de um lpis que trouxe, meia
  folha de papel, e quis reproduzir o panorama. Escrevi um problema algbrico!
  Foi um conselho que me deu o lpis: ningum se meta a fazer aquilo que ignora.
  Eu ignorava o que era estar ausente da famlia; por que motivo me determinei a
  tent-lo? Interrompi esta carta para receber o Dr. Fris, que  o mdico de D.
  Clara; veio ao meu quarto para me dizer que o estado da doente  perdido, que a
  morte  certa; mas que a vida pode prolongar-se ainda por muitos dias. V que
  perspectiva! Estou com raiva de mim mesmo; esses ltimos dias da enferma pesam
  sobre mim como se fora o punho fechado do destino. Se a morte  certa, por que
  viver alguns dias mais? E  vida isso, ou  morrer aos goles, sem conscincia
  do que se perde nem do que se vai ganhar? Est decidido; posso ir daqui a seis
  dias ou daqui a um ms. Ser o que Deus quiser. Manda-me, entretanto, alguns
  livros. No meu quarto s achei um Manual de Medicina Prtica. Manda-me
  alguma coisa que me faa lembrar o Andara. Tira da estante oito ou dez
  volumes,  tua escolha. Manda tambm algum trabalho de agulha teu; quero
  mostr-lo  cunhada de D. Clara, a quem gabei muito os teus talentos. Se
  puderes desenhar alguma coisa,  pressa, o tanque, a varanda ou qualquer outro
  lugar, faze-o, e manda com o resto. Escreve-me longamente; conta-me tudo o que
  houver interessante; fala-me de ti, que  o meio de consolar minhas saudades,
  que so imensas, imensas como este amor que tenho  minha famlia toda. Vou
  fazer por voltar breve. Adeus, minha boa Helena; adeus, minha vida, adeus, 
  mais bela e doce de todas as irms!

P.S. -- Reli a carta, e fiquei
  envergonhado do trecho a respeito da vida da doente. Perdoa-me a ferocidade, e
  leva-a em conta da solido.

CAPTULO XVI

Helena leu e releu a carta. Depois
  ficou silenciosa, a olhar para as folhas da trepadeira, que do lado de fora
  viera a subir pela muralha da varanda e a debruar-se enfim do parapeito para
  dentro. A carta ficara aberta sobre os joelhos da moa. Mendona, a poucos
  passos, olhava para esta, sem ousar falar-lhe.

Goethe escreveu um dia que a linha
  vertical  a lei da inteligncia humana. Pode dizer-se, do mesmo modo, que a
  linha curva  a lei da graa feminil. Mendona o sentiu, contemplando o busto
  de Helena e a casta ondulao da espdua e do seio, cobertos pela cassa fina do
  vestido. A moa estava um pouco inclinada. Do lugar em que ficava, Mendona
  via-lhe o perfil correto e pensativo, a curva mole do brao, e a ponta
  indiscreta e curiosa do sapatinho raso que ela trazia. A atitude convinha 
  beleza melanclica de Helena. O rapaz olhava para ela sem movimento nem voz.

A tarde expirava; a cor verde do
  morro fronteiro ia tomando o aspecto cinzento-escuro que precede a cor fechada
  da noite. A prpria noite desceu, e um escravo entrou na varanda a acender as duas
  lmpadas que pendiam do teto. Esta circunstncia acordou a moa, e bastou-lhe
  voltar um pouco a cabea para ver o amigo de Estcio a alguns passos de
  distncia.

-- Estava a? perguntou Helena,
  estremecendo.

-- D. rsula no voltou, respondeu
  Mendona com timidez; no quis interromper a leitura que a senhora fazia.

-- A leitura? A leitura acabou h
  muito tempo.

-- Mas tambm se l de cor.

Helena lanou-lhe um olhar
  suspeitoso.

-- No sei ler de cor, disse ela,
  erguendo-se e saindo da varanda.

Mendona ficou aturdido. Que lhe
  dissera ele to grave que a pudesse ofender? Repetiu as prprias palavras e no
  lhes achou sentido mau. Certo, porm, de que a molestara, ali ficou aborrecido
  de si mesmo, desejoso de lhe explicar tudo, se alguma coisa houvesse
  explicvel. Aps alguns instantes, resolveu entrar tambm. Entrou; Helena no
  estava nem na sala de jantar, nem na do jogo, onde achou D. rsula com o Dr.
  Matos e o coronel-major. Dali passou  sala de visitas. Helena no o viu
  entrar; estava mergulhada numa poltrona com a cabea nas mos. Comovido,
  deteve-se alguns instantes a contempl-la; depois caminhou para ela e
  falou-lhe.

Helena ergueu a cabea.

-- Perdoe-me, disse ele, se alguma
  coisa lhe disse que a magoou. Confesso que no sei o que poderia haver em
  minhas palavras. Ficou triste por isso?

A moa cravou nele um olhar ainda
  suspeitoso, e no lhe respondeu logo. Mendona adotou o melhor dos alvitres
  naquela ocasio; inclinou-se e recuou para sair. Helena chamou-o; ele
  aproximou-se outra vez, com um ar de to doce resignao que lisonjearia o mais
  levantado orgulho. Helena estendeu-lhe a mo; ele apertou-a e teve mpetos de a
  beijar uma e muitas vezes, triunfando naquele nico instante da hesitao de
  todos os dias; faltou-lhe resoluo. Helena mostrou-lhe o trecho da carta em
  que Estcio se referia a ele; falaram dos ausentes e dos presentes, de todos e
  de tudo, menos do assunto que exclusivamente preocupava o moo. Ele saiu dali
  sem haver dito nada de seu corao. Chegando  rua, achou-se poltro e
  ridculo, disse mil nomes feios a si prprio; enfim, prometeu declarar tudo a
  Helena no dia seguinte.

No dia seguinte, que era domingo,
  Helena dirigiu-se  capela a ouvir a missa do Padre Melchior. Acabada a
  cerimnia, no seguiu para casa, com D. rsula, mas foi ter  sacristia, onde o
  padre acabava de tirar os paramentos. Melchior, logo que soubera da carta de
  Estcio, nessa manh, pedira a Helena que lha deixasse ver.

-- Falam sempre ao corao as
  letras dos amigos, dissera ele.

Helena deu-lhe a carta, que o
  padre recebeu com uma expresso antes de curiosidade que de afeto. Leu-a
  vagarosamente, como escrutando o sentido e as palavras; e sendo longa a
  epstola, longo foi o tempo que ele despendeu em a interpretar. Durante esse
  tempo, Helena admirava-lhe a figura austera, a serenidade religiosa. A
  sacristia era pequena; duas altas janelas deixavam entrar a luz, o ar e o aroma
  das folhas e das flores da chcara. Entre a cimalha e o telhado algumas
  andorinhas haviam fabricado os ninhos, donde saam, como pensamentos de
  juventude, a adejar ao sol da manh. Ao p daquele quadro exterior de alegria e
  verdura, a sacristia tinha certo ar melanclico e severo, que lanava n'alma o
  esquecimento das vicissitudes humanas. Helena deixou-se cativar desse sentimento
  de absteno e elevao; se alguma dor ou remorso a pungia, esqueceu-os, por um
  minuto ao menos, entre aquelas paredes desataviadas, diante de um padre, entre
  uma imagem de Jesus e as obras vivas do Criador.

Lida a carta, Melchior dobrou-a
  com ar pensativo; depois entregou-a  moa.

-- J respondeu? perguntou ele.

-- J; trouxe-lhe a carta que vou
  mandar hoje mesmo.

Melchior abriu-a e leu; no gastou
  menos tempo, ainda que era de menores dimenses. O estilo era afetuoso, mas
  muito menos exuberante que o da carta de Estcio. Ela contava-lhe, em suas
  feies gerais, a vida que ali passavam, desde que ele partira, as ocupaes de
  cada dia e as distraes da noite.

Vivemos, dizia a moa, como podem
  viver duas criaturas que sabem a afeio que lhes tem um parente amigo, ausente
  embora, mas no esquecido, -- nem ingrato. O Padre Melchior, algum dos vizinhos,
  e o Dr. Mendona so as nossas visitas habituais. Voc sabe o que vale o padre;
   a mais bela alma que Deus mandou ao mundo. Os vizinhos so afveis, como
  sempre. O Dr. Mendona  verdadeiramente digno da nossa afeio e confiana.
  Disse-lhe o que voc me escreveu; ele riu, como homem seguro de escapar 
  punio. Pena  que voc tenha de se demorar a tanto tempo; mas, se alguma
  esperana pode haver de salvar a doente, damo-nos por bem pagas da demora. 
  verdade que voc no  mdico; mas h a outra doente, para quem , no s
  mdico, mas at toda a medicina. Por que razo me no escreveu Eugnia? Eu no
  cuidei que essa amiga me esquecesse na vspera de ser minha cunhada. Se
  estivssemos mais perto, ia puxar-lhe as orelhas. Diga-lhe isto; e se tiver
  ocasio de emprestar-me os seus dedos, aplique-lhe o castigo, declarando-lhe o
  delito cometido e o juiz que a sentenciou. O que voc diz da vida solitria 
  muito justo, mas impraticvel. Os amigos no nos iriam ver; e poderamos ns
  dispens-los? Tal  a opinio de titia e a minha. O melhor de tudo  este
  meio-termo de Andara; nem estamos fora do mundo nem no meio dele. O rudo
  externo pode ter os efeitos de que voc fala; mas ele  s vezes preciso para
  aturdir e distrair o esprito. Tambm a solido tem suas dores, e fundas;
  tambm ela abala o corao. Nem um extremo nem outro.

A carta continha alguns perodos
  mais, no muitos; trs ou quatro vezes falava em Eugnia, com tamanha
  insistncia que punha em relevo o silncio a tal respeito conservado por
  Estcio; falava-lhe da beleza da noiva, do casamento prximo, do amor que os
  faria felizes, e da ventura que ambos dariam a todos os seus.

Quando o padre acabou de ler a
  resposta, abriu os braos a Helena; depois abrangeu com as mos a cabea da
  moa e contemplou-a durante alguns segundos.

-- Toda a sua alma est nesse
  escrito, disse ele; vejo a a reflexo e o afeto. Tanto melhor! H contudo uma
  lacuna: no transmite a seu irmo as minhas saudades; h tambm uma
  excrescncia: louva mritos que no possuo. Embora! Mande-a...

-- Escreverei duas linhas mais.

-- Pois sim. Diga-lhe que se
  apresse, porque estou velho e posso morrer antes.

-- Oh! protestou Helena.

Melchior olhou para ela
  silenciosamente.

-- Cr que Estcio seja feliz?
  perguntou ele enfim.

-- Creio.

-- Tambm eu.

Outro silncio. O primeiro que o
  rompeu foi o padre.

-- Por que se no casa tambm?
  disse ele.

-- Eu?

-- Decerto. Pode ser que muito
  breve, talvez...

-- Talvez nunca.

Melchior franziu a testa; a
  fisionomia, de ordinrio meiga, tornou-se severa, como a conscincia dele. O
  padre tinha uma das mos de Helena entre as suas; deixou-a insensivelmente
  cair. Entre os dois estabeleceu-se um silncio que os acabrunhava e que no
  ousavam romper; como subjugados por um mistrio, receava cada um deles que o
  outro lho lesse na fronte; instintivamente desviaram os olhos.

Melchior foi o primeiro que voltou
  a si. A reflexo corrigiu a espontaneidade, e o padre reassumiu o gesto usual,
  com essa dissimulao que  um dever, quando a sinceridade  um perigo.

-- Vamos l, disse ele; ningum
  pode decidir o que h de fazer amanh; Deus escreve as pginas do nosso
  destino; ns no fazemos mais que transcrev-las na terra.

--  verdade! confirmou ela com um
  gesto de cabea, e sem erguer os olhos.

-- Amanh, continuou o padre, o
  acaso, -- isso a que os incrdulos chamam acaso, e que  a deliberao da
  vontade infinita, -- lhe apontar um homem digno da senhora, e seu corao lhe
  dir:  este; e o suspiro desalentado de hoje converter-se- num olhar de
  graas ao cu. Ora, o que eu lhe peo, o que eu desejo,  que se apresse tanto
  que eu possa cas-los...

-- Oh! mas no vai morrer amanh,
  interrompeu Helena.

-- Estou velho, minha filha; estes
  cabelos brancos so j a neve desse mar polar para onde navegamos todos. Conto
  sessenta anos. A morte pode colher-me um dia prximo...

-- Vamos almoar, disse Helena
  sorrindo.

Saram da sacristia, atravessaram
  a capela, e penetraram na chcara. Na ocasio em que iam transpor a porta da
  capela, viram Mendona entrar em casa. Melchior estacou e olhou para Helena.
  Esta ia como acabrunhada e absorta. O gesto do padre, quando ela lhe declarou que
  no se casaria talvez nunca, ficara-lhe gravado na memria, como um enigma, que
  talvez receava decifrar. Poucos minutos eram passados; contudo, ela pde
  refletir, e coligir os elementos de uma resoluo. Detendo-se, com o padre, 
  porta da capela, viu tambm entrar Mendona. Os olhos da moa e do padre
  interrogaram-se de novo, mas desta vez nenhum deles os desviou.

-- V aquele homem? perguntou
  Helena. Parece-lhe que seria bom marido?

-- Excelente, decerto, disse
  vivamente Melchior; carter, educao, sentimentos...

-- Tem ainda uma virtude
  particular: ama-me.

-- Sei.

-- Ele lho disse?

-- No, mas v-se.  sabido de
  todos os que freqentam esta casa. A probabilidade do casamento  objeto de comentrios,
  e a opinio geral  que ele se far dentro de pouco tempo. Confessou-lhe alguma
  coisa?

-- Nada; mas os olhos da mulher
  amada no so menos sagazes que os dos padres amigos. Acha que devo confirmar a
  opinio dos outros?

-- Acho; consulte, porm, seu
  corao.

-- J consultei.

-- Neste nico instante?

-- Nada menos.

-- Deveras? disse Melchior,
  derramando um olhar de paternal ternura no rosto srio de Helena.

-- No digo que o ame desde j; mas
  a afeio que ele me tem, refletir em meu corao, e eu virei a am-lo. O que
  importa saber  que  digno de mim. De todos os que me pretendessem nenhum lhe
  seria superior.

-- Ainda bem! Contudo, repare que
  vai contrair uma obrigao perptua, e que um contrato destes no pode ser
  deliberado em poucos instantes.

-- Oh! nesse ponto a minha
  ignorncia sabe mais do que a sua teologia. Que so minutos e que so meses?
  Paixes de largos anos, chegando ao casamento, acabam muitas vezes pela
  separao ou pelo dio, quando menos pela indiferena. O amor no  mais que um
  instrumento de escolha; amar  eleger a criatura que h de ser companheira na
  vida, no  afianar a perptua felicidade de duas pessoas, porque essa pode
  esvair-se ou corromper-se. Que resta  maior parte dos casamentos, logo aps os
  anos de paixo? Uma afeio pacfica, a estima, a intimidade. No peo mais ao
  casamento, nem lhe posso dar mais do que isso.

-- No gosto de tanta reflexo em
  to verde idade, replicou benevolamente Melchior; todavia, encanta-me esse
  raciocnio que, ao cabo de tudo, pode ser verdadeiro. Mas no me desdigo;
  alguns minutos  pouco tempo; reflita ainda vinte e quatro horas.

-- Nem um instante mais, insistiu
  Helena. Minhas reflexes so lentas ou sbitas: ou cinco minutos ou um ano;
  escolha.

-- Pois reflita cinco minutos,
  replicou o padre sorrindo.

-- J l vo quatro; aproveitarei o
  ltimo para lhe dizer que em nada disto falaria, se no fossem as qualidades
  notveis desse moo; e para acrescentar que a ele me liga certa simpatia de gnios...
   talvez a semente do amor.

Tinham chegado ao primeiro degrau
  da escada da varanda. Subiram e penetraram na sala de jantar, onde acharam D.
  rsula e Mendona, este a percorrer com os olhos um jornal do dia. O almoo
  serviu-se imediatamente.

-- Padre-mestre, disse D. rsula,
  demorou-se tanto que cuidei... tivesse idia de me arrebatar Helena.

-- Estive-a ouvindo de confisso,
  respondeu Melchior.

-- E pde absolv-la?

-- Decerto.

-- Mas com grande penitncia, no?

-- A mais fcil de todas, acudiu
  Helena, olhando para o padre.

-- Oh! ento  que os pecados so
  leves! concluiu D. rsula. No lhe parece?

Estas ltimas palavras foram
  dirigidas a Mendona, na ocasio em que todos caminhavam para a mesa. Mendona
  no respondeu nada. Contra o costume, falava pouco, -- menos ainda que na
  vspera e nos dias anteriores. D. rsula via a diferena, mas no a
  compreendia.

-- No quero saber que pecados
  confessou, disse ela sentando-se; estou certa de que o maior deles no levaria
  ningum ao purgatrio.

-- Veja o que  uma tia indulgente,
  observou Helena a Mendona, sentando-se ao seu lado.

Preocupado com a conversa que
  acabava de ter na sacristia e na chcara, Melchior pouca ateno prestou a
  princpio ao filho do comerciante. Analisava as circunstncias do momento e
  pesava a responsabilidade que lhe podia vir de qualquer resoluo que adotasse.
  Aps um longo dilogo com a conscincia, o velho sacerdote inclinou os olhos ao
  mancebo, que lhe ficava defronte, ao lado de Helena. Viu-os conversar. Ela mostrava-se
  graciosa, solcita e atenta, como uma esposa amante; ele parecia enamorado da
  voz e das falas da donzela; como que um claro interior lhe desvendara  alma
  os horizontes infinitos da esperana. Familiarizado com Helena, tratado por ela
  com esquisita ateno, era contudo a primeira vez que ela lhe falava, no como
  a um confidente amigo, mas como a um homem que poderia vir a ser seu esposo.
  Alguma seriedade, um olhar submisso, uma ateno continuada, fizeram essa
  diferena, que antes foi sentida pelo corao do que descoberta pelos olhos.

No fim do almoo, Melchior
  dirigiu-se para a sala de visitas, com Helena. Mendona acompanhou-os. A
  resoluo do padre estava assentada de raiz; ele aceitava aquele casamento como
  um presente do cu. Apenas entrados na sala, travou as mos de um e outro e
  lhes disse, com voz comovida:

-- Prometem no zangar-se comigo?

-- Por qu? interrogou Mendona com
  os olhos.

Helena baixara os seus.

-- Prometem?

-- Padre-mestre... comeou Mendona
  sem poder concluir a frase.

O padre olhou silenciosamente para
  um e outro. Talvez hesitava falar; talvez buscava o melhor meio de dizer o que
  tinha no corao. Urgia romper o silncio; f-lo com solenidade:

-- Serei duas vezes padre: segundo
  a natureza e segundo o Evangelho. Quando duas criaturas se merecem,  servir a
  Deus emprestar a voz ao corao que no ousa falar. O senhor ama esta menina;
  leio-lhe nos olhos o sentimento que o arrasta para ela; so dignos um do outro.
  Se  a timidez que lhe fecha os lbios, eu sou a voz da verdade e do amor
  infinito; se outro motivo, serei juiz complacente para escut-lo.

Ouvindo estas palavras, Mendona
  ficou aturdido e mudo. No s a fortuna lhe chegava s mos, quando ele menos
  esperava, mas at escolhera um caminho desusado e estranho. A realidade
  confundia-se ali com o sonho. A presena de um terceiro era suficiente motivo
  para acanhar os mais resolutos; acrescia a veste sacra do sacerdote, que dava
  quilo um ar de solenidade e consagrao. Mendona recobrou, enfim, o uso dos
  sentidos; a resposta nica e eloqente foi estender a mo a Helena, gesto a que
  a moa correspondeu com simpleza e naturalidade.

-- No se enganaram meus olhos,
  disse o padre. Ama-a, e pode dar-lhe a felicidade que lhe desejo a ela. Tambm
  Helena o far venturoso, no? perguntou ele, voltando-se para a moa.

-- Mas  isto um sonho? perguntou
  enfim Mendona.

-- A vida no  outra coisa,
  retorquiu o capelo; velho pensamento e velha verdade. Faamos por que o sonho
  seja agradvel e no rido ou triste. Prometem-me que se faro felizes?

-- No ambiciono outra coisa, disse
  o rapaz; ser o meu cuidado e a minha glria.

-- Seu amor, continuou Melchior, 
  mais forte que o de Helena; eu consultei-a antes, e li em seu corao. Elege-o
  com prazer, embora sem entusiasmo. No  a paixo cega que a faz falar;  um
  sentimento brando e singelo, por isso mesmo duradouro. A reflexo de um
  corrigir a violncia do outro, e os dois sentimentos se completaro pela
  virtude especial de cada um.

Esta explicao franca de Melchior
  teve o condo de ser agradvel aos dois. Helena estimou que ele nem lisonjeasse
  as iluses de Mendona, nem a desse como aceitando indiferente e estouvada o
  casamento proposto. Pela sua parte, Mendona viu nas palavras do padre um
  indcio da sinceridade de Helena, e aceitou o pouco oferecido, com a certeza de
  multiplic-lo. O carter de Melchior e a venerao que mereciam suas virtudes,
  eram fianas de veracidade e davam ao ato singelo que ali se passava, um forte
  cunho de santidade e elevao. No era uma vulgar declarao de amor, sujeita
  s variaes do esprito ou do interesse, mas verdadeiros esponsais em que a
  religio era inspiradora e testemunha.

CAPTULO XVII

Aquele dia foi marcado no
  calendrio de Mendona com letras de ouro e cetim; a noite desceu coroada de
  murta e rosas. Ele viveu essas horas todas num estado de sonambulismo e xtase.
  Tencionava referir tudo  me, logo que entrou em casa ao meio-dia; mas no se
  atreveu, porque ele mesmo no estava certo se vivia a realidade ou se voava nas
  asas de uma quimera. De noite voltou a Andara; achou em Helena o mesmo modo
  afetuoso, a mesma solicitude e carinho; nenhuma ternura expansiva, nenhuma
  contemplao namorada; um meio-termo que o continha a ele prprio, e no era
  menos aprazvel ao corao. A nova situao era, entretanto, sensvel, porque
  os vigilantes de fora trocaram entre si olhares cheios de graves descobertas;
  um deles, o coronel-major, chegou a proferir uma aluso, que os interessados
  fingiram no perceber.

Quando Mendona chegou  casa
  nessa noite, ia mais que nunca cheio de comoo e nadando em plena glria. A
  cidade, apenas a entrou, pareceu-lhe transformada por uma vara mgica; viu-a
  povoada de seres fantsticos e rutilantes, que iam e vinham do Cu  Terra e da
  Terra ao Cu. A cor deste era nica entre todas as da palheta do divino
  cengrafo. As estrelas, mais vivas que nunca, pareciam saud-lo de cima com
  ventarolas eltricas, ou fazerem-lhe figas de inveja e despeito. Asas
  invisveis lhe roavam os cabelos, e umas vozes sem boca lhe falavam ao
  corao. Os ps como que no pousavam no solo; ia exttico e sem conscincia de
  si. Era aquele o galhofeiro de h pouco? O amor fizera esse milagre mais.

Um dos teatros estava aberto;
  comprou um bilhete e entrou. No era desejo de divertir-se ou interessar-se
  pelo drama, que alis expirava de parceria com o protagonista; era necessidade
  de ver gente, de apalpar a realidade das coisas, to quimrico se lhe afigurava
  tudo o que se passara desde manh.

Um espectador, o filho do
  coronel-major, viu-o a alguma distncia e foi sentar-se ao p dele.

-- O senhor que tem melhor vista,
  disse o acadmico, desengane-me; aquela moa que ali est, naquele camarote,
  no  a andorinha viajante?

-- A andorinha viajante? repetiu
  Mendona, olhando para ele; que quer dizer esse nome?

--  a alcunha da irm de Estcio.
  Ser ela que est ali, com uma senhora idosa?

-- Mas por que lhe chamam assim?

-- Eu sei! Naturalmente porque sai
   rua todos os dias. Na verdade,  um passear! Mal amanhece, l vai trepada no
  cavalinho, com o pajem atrs...

-- Quem lhe ps essa alcunha?

-- As alcunhas so como as mofinas:
  no tm autor.

Cara o pano; Mendona despediu-se
  ali mesmo e saiu. Na rua repetiu mentalmente as palavras do jovem acadmico. Ao
  cabo de alguns minutos, sorriu; compreendera que, apenas suspeitada a sua
  felicidade, j a inveja lhe deitava na taa uma gota de veneno. Ergueu os
  ombros, resoluto a suportar tranqilo essa lvida companheira do xito.

Guiou para casa, onde entrou pouco
  depois. Helena volvera a ocup-lo exclusivamente. S, na alcova de solteiro,
  inventariou os acontecimentos daquele dia e achou-se morgado da fortuna. Como
  precisava conversar com algum, escreveu uma longa carta a Estcio,
  narrando-lhe toda a histria do seu corao, as esperanas e a pronta
  realizao delas. A alma derramou-se no papel impetuosa e exuberante. O estilo
  era irregular, a frase incorreta; mas havia ali a eloqncia e a sinceridade da
  paixo. Quando fechou a carta, anteviu o prazer que ia dar ao amigo, logo que
  ela lhe chegasse s mos, levando a notcia de que os vnculos atados na aula
  iam apertar-se na famlia.

'Vem quanto antes, dizia ele
  ao terminar a missiva; tenho nsia de abraar-te e ouvir de ti mesmo o
  consentimento que me far o mais feliz dos homens!".

Quando essa carta chegou a
  Cantagalo, Estcio voltava de uma pequena excurso que fizera com o pai de
  Eugnia. Conheceu a letra do sobrescrito; abriu negligentemente a carta; leu-a
  com assombro. A impresso foi to visvel que Camargo lhe perguntou de que se
  tratava.

-- Recebo uma notcia que me obriga
  a partir amanh, disse ele.

-- Negcio grave?

-- Grave.

-- Ainda assim, nesta ocasio...

-- Que tem? D. Clara pode ainda
  resistir  morte alguns dias; e, posto que a minha ausncia no prejudique nada
  do fato a que aludo, contudo  mister que me informe e providencie.

-- Algum negcio relativo ao
  inventrio? aventurou Camargo, que nada conhecia mais grave que o dinheiro.

-- Justamente, respondeu
  maquinalmente Estcio.

Camargo consolou a filha do
  desgosto que lhe causava a partida do noivo; falou-lhe a linguagem da razo;
  disse que havia assuntos prticos, a que os sentimentos tinham de ceder o passo
  alguma vez. No dia seguinte de manh, partiu Estcio na direo da Corte, no
  sem prometer que voltaria, se a molstia ou qualquer outro motivo obrigasse a
  famlia a demorar-se em Cantagalo.

Ningum esperava por ele em Andara.
  Entrando na chcara, -- era de noite, -- viu Estcio que a sala que ficava no
  ngulo esquerdo da frente da casa, estava alumiada e tinha gente. A sala ficava
  ao rs-do-cho e as janelas estavam abertas. Parou a pouca distncia, e pde
  distinguir o coronel-major e o Dr. Matos jogando o gamo; a mulher do advogado
  falava a D. rsula e Melchior, em um dos lados; do outro estava assentada
  Helena, tendo Mendona diante de si.

Estcio deu volta aos fundos da
  chcara, e entrou pela varanda. Os escravos que o viram chegar, deram sinal de
  novidade, com vozes de alegria, que, alis, no chegaram at s pessoas da
  sala. Estas s souberam do recm-chegado quando ele assomou  porta. A
  satisfao de o ver foi geral e sincera em todos. Estcio distribuiu abraos e
  apertos de mo. Melchior, que se deixara ficar de lado, foi o ltimo com quem
  falou.

-- O Dr. Camargo veio? perguntou D.
  rsula ao sobrinho, logo depois que este cumprimentara a todos.

-- No, respondeu Estcio, a doente
  no pode escapar, mas ainda a deixei com vida.

-- Imagino a impacincia dos
  herdeiros.

Esta observao filosfica do
  coronel-major no teve nenhum efeito. Melchior, que a reprovara interiormente,
  fez mudar a conversa, informando-se da famlia de Camargo. Estcio deu todas as
  notcias que podiam interessar; depois, falou de alguns incidentes da viagem;
  enfim, retirou-se por alguns minutos.

Mendona acompanhou o amigo,
  alcanando-o ainda na escada. Subiram juntos e juntos entraram no quarto.

-- Agora que estamos ss, perguntou
  Mendona, houve por l alguma coisa?

-- Nada.

-- Tanto melhor!

Um escravo entrou no quarto, a fim
  de servir a Estcio; Mendona, ansioso por lhe falar de Helena, contentou-se
  com trocar algumas vagas indicaes.

-- Recebeste a minha carta? disse
  ele.

-- Recebi.

-- No esperavas por ela, aposto...

-- No.

-- Como eu no esperava escrev-la.
  Ests aborrecido?

-- Estou cansado.

-- Naturalmente, assentiu Mendona,
  abrindo um livro que achou sobre a mesa e tornando-o a fechar.

O silncio prolongou-se alguns
  minutos, durante os quais Mendona tornou a abrir o livro, examinou uma
  espingarda de caa, preparou um cigarro e fumou. O escravo ajudava o senhor a
  mudar de roupa. Estcio continuava mortalmente calado; Mendona falou algumas
  vezes, sobre coisas indiferentes, e o tempo no correu, andou com a lentido
  que lhe  natural, quando trata com impacientes. Logo que Estcio se deu por
  pronto, e o escravo saiu, Mendona voltou diretamente ao assunto que o
  preocupava.

-- Estava ansioso por ver-te, disse
  ele. No nos  possvel falar agora; no temos tempo. Mas quero dar-te um
  abrao, ao menos, um abrao de agradecimento pela felicidade...

-- Parece que s esperavas a minha
  ausncia?

-- Creio que no. J antes de
  seguires, comeava a sentir alguma coisa nova, que vim a descobrir ser paixo
  violenta.

-- Helena ama-te?

-- Com igual amor, no creio; mas
  aceita-me; tem-me algum afeto.

-- Tratarei de consult-la.

Mendona no pde continuar,
  porque Estcio descia a escada ao dar-lhe a ltima resposta. Mendona desceu
  tambm. Na sala estavam ainda as mesmas pessoas. Perto de uma janela conversava
  Helena com o padre. O ch foi logo servido e a conversa tornou-se geral, ainda
  que sem grande animao. Melchior falou menos que todos.

Nem por isso foi o primeiro que
  saiu; foi o ltimo. Na chcara, dirigindo-se ao porto, ergueu os olhos ao
  firmamento, no para ver a lua e as estrelas, seno para subir a regio mais
  alta. O que disse ningum o soube, mas o anjo das rogativas humanas porventura
  colheu em seu regao os pensamentos do ancio, e os levou aos ps do eterno e
  casto amor.

CAPTULO XVIII

-- Helena, disse Estcio no dia
  seguinte, logo que pde falar a ss  irm, -- sabes por que vim mais depressa? Foi
  por tua causa. O Mendona escreveu-me dizendo haver alcanado de ti uma
  promessa de casamento.

--  verdade.

--  verdade?

-- At ao ponto em que a minha
  vontade tem um limite, que  a sua. Por mim s nada posso decidir; mas no
  creio que voc se oponha de nenhum modo. No  certo que deseja a minha
  felicidade?

Estavam sentados em um banco de
  pau, defronte do grande tanque. Estcio ficou algum tempo a olhar para a gua.

-- No entendo, disse ele enfim.

-- Por qu?

-- Mais de uma vez me confessaste
  no sei que paixo violenta, paixo que parecia conter a tua vida toda. Que,
  sem embargo de um amor nico e forte, uma mulher despose um homem que no  o
  preferido de seu corao,  caso no vulgar e muita vez justificvel. Mas que
  este casamento seja para ela felicidade, confesso que no o poderei entender
  nunca.

-- Recusa ento o seu
  consentimento?

-- No recuso; desejo compreender.

-- Nada mais simples, retorquiu a
  moa.

-- Ah!

-- Falei-lhe de um amor forte,  certo,
  no extinto naquele tempo, mas totalmente sem esperana. Que moa no tem
  dessas fantasias, uma vez ao menos? A fantasia passou. Ou eu no devo casar
  nunca, ou posso desposar um homem digno, que me ame. No casar foi algum tempo
  o meu desejo; no o  hoje, desde que voc, titia e o Padre Melchior ambicionam
  ver-me casada e feliz. Para obter a felicidade, alm do casamento, escolhi
  pessoa que me parece capaz de dar a paz domstica e os melhores afetos de seu
  corao.

-- De maneira que te sacrificas a
  um desejo nosso?

-- Quando fosse sacrifcio,
  f-lo-ia de boa cara; mas no .

-- No se trata de um sacrifcio
  repugnante e odioso; entretanto, cumpre examinar o que perdes. Dizes que a
  fantasia passou; no creio, Helena, no creio que ela passasse. Tu amas
  decerto; amas violentamente algum; amas sem esperana nem futuro; isto ,
  levas para casa do teu marido um corao que te no pertence, um sentimento
  intruso e inimigo...

Helena quis interromp-lo.

-- Ouve, continuou Estcio. Esse
  sentimento, se vier a extinguir-se e se for substitudo pela afeio que
  criares a teu marido, no te far desventurosa; mas supe que no morre esse
  amor, qual ser a tua situao?

-- Tudo isso  um castelo no ar,
  disse Helena sorrindo; eu amei, no amo; ou amo somente a meu futuro marido.

Estcio abanou a cabea com ar de
  incredulidade. Seus olhos pousaram no rosto plcido da irm, como tentando
  arrancar-lhe uma confisso silenciosa. Os dela, firmes e tranqilos, cruzavam o
  olhar com os dele. Estcio conhecia j o domnio que a moa exercia sobre si
  mesma; a tranqilidade no o convenceu. Assim pensava, assim o disse, sem
  rebuo.

-- Por que razo negaria eu a
  verdade? retorquiu Helena.

Estcio ergueu os ombros.

-- Supondo que voc tenha razo,
  tornou ela, no deverei casar nunca?

-- No digo isso; mas, h dois
  caminhos para a felicidade, alm de Mendona.

-- No os vejo.

-- Esse amor misterioso ser
  realmente sem esperana? Nada h definitivo no mundo; nem o infortnio nem a prosperidade.
  O que a tua imaginao supe estar perdido, acha-se apenas transviado ou
  oculto...

-- Adivinho o segundo caminho,
  atalhou Helena; no casando agora, posso vir a amar um dia, mais do que a
  Mendona, algum homem to digno como ele.

-- Parece-te absurdo isso?

-- No, mas  uma loteria: perco um
  bem certo por outro duvidoso. O jogador no faz clculo diferente. Essa
  felicidade pode no vir; eu contento-me com a que me cabe agora. Mendona
  ama-me deveras; senti-o desde algum tempo. O Padre Melchior abriu-me os olhos;
  aceito o destino que os dois me oferecem. Esta  a razo e a realidade; o mais
   iluso e fantasia.

Enquanto ela falava, Estcio, que
  tirara o chapu de Chile, ocupava-se em fazer circular na copa a fita larga que
  o cingia. Houve entre ambos grande silncio. Pela beira do tanque seguia uma
  longa carreira de formigas, conduzindo as mais delas trechos de folhas verdes.
  Com um galho seco, Estcio distraa-se em perturbar a marcha silenciosa e
  laboriosa dos pobres animais. Fugiam todas, umas para o lado da terra, outras
  para o lado da gua, enquanto as restantes apressavam a jornada na direo do
  domiclio. Helena arrancou-lhe o galho da mo; Estcio pareceu acordar de
  largas reflexes; ergueu-se, deu alguns passos e voltou a ela.

-- Helena, declarou ele, no creio
  nada do que voc me diz; voc sacrifica-se sem necessidade e sem glria. No
  consinto;  meu dever opor-me a semelhante coisa...

Helena ergueu-se tambm.

-- Mendona comea a ser o fruto
  proibido, observou ela, sorrindo;  o meio seguro de o fazer amado.

A moa afastou-se na direo da
  casa. Estcio viu-a desaparecer por entre as rvores, e ficou algum tempo entre
  o banco e o tanque. As formigas, dispersas alguns minutos antes, tinham agora
  entrado no primeiro caminho, com a mesma ordem anterior. Viu-as o moo, e
  comparou-as s prprias idias, tambm necessitadas de que um galho invisvel
  as no dispersasse e confundisse. No meio de suas reflexes, lembrou-lhe o
  padre; Estcio atravessou a chcara, saiu  rua e dirigiu-se  casa de
  Melchior.

Melchior habitava uma casinha,
  situada no centro de um jardim diminuto, a algumas braas da residncia de
  Estcio. Tinha duas salas o prdio, janelas por todos os lados, uma porta na
  frente e outra nos fundos. A da frente abria entre duas janelas de venezianas.
  A sala de visitas era ao mesmo tempo gabinete de estudo e de trabalho. Simples
  era a moblia, nenhuns adornos, uma estante de jacarand, com livros grossos
  in-quarto e in-flio; uma secretria, duas cadeiras de repouso e pouco mais.

Na ocasio em que Estcio ali
  entrou, Melchior passeava de um para outro lado, com um livro aberto nas mos,
  algum Tertuliano ou Agostinho, ou qualquer outro da mesma estatura, porque o
  padre amava contemplar os grandes espritos do passado, quando no encarava os
  mistrios do futuro. Naquele corpo mediano havia uma guia cativa. Entre as
  quatro paredes da casa, limitada a vista pelos arbustos e as flores do jardim,
  Melchior olvidava o tempo e eliminava o espao, vivendo a vida retrospectiva ou
  proftica, doce e misteriosa volpia das almas solitrias. Melchior era um
  solitrio; sem embargo das relaes sociais, que ele cultivava, amava sobretudo
  estar separado dos homens. Nessas horas, que eram a maior parte do tempo, lia
  ou meditava, esquecido ou estranho a todas as coisas do seu sculo.

Naquela ocasio lia. Vendo assomar
   porta o vulto de Estcio, Melchior fechou o rosto; contudo, recebeu-o
  afavelmente.

-- Vim interromp-lo, disse
  Estcio; mas era preciso.

Melchior deps o livro sobre a mesa
  redonda que havia no meio da sala, marcando a lauda com uma velha estampa.
  Depois sentaram-se ao p de uma das janelas laterais. Estcio no se atreveu a
  dizer logo o motivo que o levara ali; mas de sua prpria hesitao deduziu
  Melchior qual era ele.

-- Era preciso? repetiu o padre.

-- Trata-se de Helena. Sei que 
  nosso amigo, confio em seu conselho e discrio. Como deseja a felicidade de
  minha famlia, buscou facilitar o casamento de Helena e Mendona...

-- Contando com a sua aprovao,
  explicou o padre.

-- Hesito em d-la.

-- Por qu?

Estcio explicou que Helena no
  tinha inclinao ao noivo que se lhe propunha, ao que Melchior respondeu,
  referindo singelamente a verdade.

--  certo que o no ama ardentemente,
  concluiu ele, mas aceita-o, aprecia-o, est a meio caminho da felicidade que
  lhe devemos dar.

-- H uma dificuldade,
  padre-mestre;  que ela ama a outro.

Melchior empalideceu; o olhar
  escrutador, como o de um juiz, cravou-se imvel e afiado no rosto de Estcio. A
  fronte severa do moo no se alterou, nem seus olhos baixaram a terra.

-- Ama a outro, continuou ele;
  paixo violenta, mas sem esperana, e to real quo misteriosa. Uma ou duas
  vezes aludiu a ela; nada mais lhe pude arrancar. Agora mesmo, quando lhe falei
  a tal respeito, desviou da o sentido e a conversao. Nada mais sei; sei,
  porm, que ama, e casar com outro em tais circunstncias d dois inconvenientes
  igualmente graves: priva-se da possibilidade de uma unio feliz com o homem que
  interiormente elegeu, e leva para a casa do marido um sentimento de pesar e de
  remorso. Parece-lhe isso tolervel?

-- No h remorso, no h pesar
  onde no h esperana, redargiu o padre. Helena aceita o Mendona por
  espontnea vontade; e conheo-a tanto que no acho j possvel que ela recuse.

-- Salvo o meu consentimento.

--  claro; mas por que o no
  daria?

-- Porque no desanimo de descobrir
  a pessoa a quem Helena entregou o corao. Talvez ela ache impossvel aquilo
  que  simplesmente difcil. Demais, no esqueamos que Helena mal tem dezessete
  anos.

-- Valem por vinte e cinco.

-- Pode ser; mas convm no aceitar
  de corao leve uma condescendncia ou um capricho, ou qualquer outro motivo
  oculto que a inspira nesta resoluo.

-- Que motivo seria?

-- Eu sei! Talvez a suspeita de que
  estimssemos v-la afastar-se de casa.

-- No a calunie; Helena tem
  perfeita cincia e conscincia dos afetos que a rodeiam e da estima em que 
  tida. Suas objees no valem nada diante da declarao que ela prpria fez.
  No compliquemos uma situao simples e definida.

Melchior proferiu estas palavras
  com voz branda, mas em tom firme; Estcio no se animou a responder logo.
  Voltou, porm, ao primeiro argumento; depois, aventurou uma objeo nova.

-- Mendona  bom corao, disse
  ele; mas no possui as qualidades que, em meu entender, devem distinguir o
  marido de Helena. Nunca exercer sobre ela a influncia que deve ter um marido.
  Entre os dois inverte-se a pirmide. Mas isto, ao menos, se destrua uma das
  condies do casamento, podia conservar a felicidade domstica. O perigo maior
   outro; e vir ele a perder a estima da mulher. Nesse caso, que lhe daramos
  ns a ela? Um casamento aparente e um divrcio real.

No olhava para ele o padre, mas
  para fora, com uns olhos dolorosos e o gesto impaciente. Quando ele acabou,
  fitou-o com resoluo; disse que se tratava de casar Helena, no com um marido
  especial, mas com o que ela prpria escolhera de sua vontade livre; casamento
  que cumpria fazer sem demora. Era certo que, como chefe de famlia, Estcio
  podia opor-se ao casamento ou marcar-lhe condies; mas nem convinha isso ao
  interesse de Helena nem ao prprio interesse da famlia.

Estcio ergueu-se quando o padre
  acabou; percorreu a sala, calado e pensativo. No fim de alguns segundos, o
  padre foi a ele.

-- V contar tudo  sua tia, disse;
  aprove sua irm; cas-los-ei a todos no mesmo dia.

-- Pois bem, disse Estcio, como
  concluindo um raciocnio interior; consinto em que Helena se case, mas
  procuremos outro marido. Mendona, no; h de ser outro. Vou casar-me tambm;
  receberei todas as semanas; algum rapaz aparecer que a merea e de quem ela
  venha a gostar seriamente...  a minha ltima resoluo.

CAPITULO XIX

No momento em que Estcio proferia
  estas palavras, transpunha Mendona a porta do jardim do capelo. Preocupado
  com a frieza de Estcio, lembrara-lhe falar a Melchior e pedir-lhe conselho.
  Melchior ia responder ao sobrinho de D. rsula, quando ouviu rumor de passos na
  areia do jardim.

-- A vem o noivo, disse ele.

Estcio deu dois passos para pegar
  no chapu; reconsiderou e foi sentar-se ao p da mesa redonda. Havia ali um
  exemplar das Escrituras. Abriu-as ao acaso; a pgina acertou ser um captulo
  dos Provrbios; leu este versculo: 'Quem quer abrir mo de seu
  amigo, busca-lhe as ocasies; ele ser coberto de oprbrio". Envergonhado,
  voltou a folha. Mendona entrara na sala. No contava com Estcio, mas estimou
  v-lo ali.

-- Venha, disse Melchior; tratvamos
  justamente do seu casamento.

Estcio lanou ao padre um olhar
  de exprobrao. O padre no o viu; olhava para Mendona, que imediatamente lhe
  respondeu:

-- No venho c para outra coisa.
  Uma vez que a fortuna o fez confidente, desejo constitu-lo meu conselheiro e
  diretor.

-- Antes de tudo, sou advogado da
  sua causa, disse Melchior; estava expondo agora as vantagens dela.

Mendona olhou fixamente para o
  amigo, e, depois de curta pausa:

-- Rejeitas ou aceitas o noivo?
  perguntou ele.

Posto entre a espada e a parede,
  Estcio no soube logo que respondesse; ficou a olhar para a lauda aberta,
  receoso de encontrar a vista dos dois. O silncio era pior que a resposta; e
  nem o caso nem as pessoas permitiam to grande pausa. Estcio fechou de golpe o
  livro e ergueu-se.

-- Discutia somente as vantagens do
  casamento, disse ele.

-- E qual  a tua opinio?

-- Minha opinio  que Helena est
  ainda muito menina. Mas no  s essa, nem  a principal; o voto, em todo caso,
   a favor do casamento. A principal razo  o teu prprio crdito.

-- Meu crdito?

Helena pode vir a amar-te como lhe
  mereces; a verdade  que no sente ainda hoje igual paixo  tua; foi o
  padre-mestre que mo disse. Estima-te,  certo; mas a estima  flor da razo, e
  eu creio que a flor do sentimento  muito mais prpria no canteiro do
  matrimnio...

-- H muita flor nesse ramalhete de
  retrica, interrompeu benevolamente o padre. Falemos linguagem singela e nua.
  No creia literalmente o que lhe diz este filsofo, prosseguiu ele, voltando-se
  para Mendona; ele gosta de ambos e quer v-los felizes;  o prprio zelo que
  lhe faz falar assim. Numa palavra, deseja que o senhor a conquiste, depois de
  campanha formal...

Mendona respondeu ao capelo com
  um sorriso plido, que lhe arrebitou um pouco as pontas do bigode,
  recolhendo-se logo medroso e frio. O rosto ficara carregado e pensativo; a
  lngua de Estcio tocara-lhe o corao. Disposto a aceitar a estima e a
  simpatia de Helena com a esperana de converter esse pequeno dote em avultado
  capital, no lhe ocorrera que, a olhos estranhos, podia parecer que o fim
  exclusivo era a riqueza da moa. Estcio rompera o vu a essa probabilidade.
  Uma s palavra desfizera a iluso de poucos dias.

-- Vamos l, disse o padre,
  abracem-se como irmos.

Nenhum deles se mexeu. Melchior
  sentiu toda a gravidade da situao; viu perdidos os esforos, desfeita a unio
  assentada, um abismo cavado entre os dois amigos, incerto o destino de Helena.
  Interveio outra vez com palavras de brandura, que os dois ouviram sem
  interromper. Quando acabou:

-- O Estcio tem razo, disse
  Mendona; meu crdito padecer, desde que algum se lembre de dizer que o
  casamento foi arranjado sem nenhuma preocupao das preferncias de D. Helena.
  Ela me desobrigar, em troca da palavra que lhe restituo.

A frase brotou-lhe dolorida, mas
  sem hesitao nem fraqueza. Estcio olhava para ele e sentia alguma coisa
  semelhante a um remorso. Uma voz interior parecia dizer-lhe: -- 'Sonmbulo,
  abre os olhos, tem conscincia de tuas aes; teu abrao enforca; teus
  escrpulos fazem-te odioso; tua solicitude  pior do que a clera". Viu o
  mancebo cortejar o padre; deteve-o pelo brao.

-- Onde vais? disse ele.

-- Vou aonde me leva o pundonor,
  disse singelamente Mendona.

-- Pobres rapazes! exclamou o
  padre. So dois estouvados, nada mais; um quer catar argumentos onde sua irm
  s achou nobre e franca resoluo; o outro rompe de corao leve uma promessa
  feita em presena de um sacerdote. Estouvados, disse eu? So mais do que isso:
  so dois dementes. Ora, como s eu tenho juzo e conseqente autoridade, digo
  que nem um h de sair assim desenganado, nem o outro h de recusar a
  aquiescncia que lhe peo em nome de seu finado pai.

Estcio estremeceu, Mendona
  conservou-se frio. A arma era rija, mas o golpe excedia a necessidade. Mendona
  no quereria dever a esposa  evocao do nome do conselheiro: equivalia a um
  rapto. Percebeu-o Melchior, quando viu Estcio estender a mo ao amigo, mo que
  este recebeu com dignidade e frieza. Contaria Estcio com essa mesma repulsa do
  pretendente? O certo  que lhe disse, sem a menor sombra de hesitao:

-- Meu zelo foi talvez excessivo; a
  inteno  boa e pura. Que posso eu desejar seno ver felizes os meus? Amem-se;
  ser o remate das minhas aspiraes. Prometes faz-la feliz?

-- No prometo nada, disse
  Mendona; o casamento  j impossvel. Tu abriste-me os olhos; no te quero mal
  por isso. Perco muito,  certo, mas no me exponho  lngua dos maus.

Mendona foi buscar o chapu e
  disps-se a sair, no obstante a interveno de Melchior, que procurou traz-lo
  a sentimentos de reconciliao. No insistiu o padre; viu no rosto do mancebo
  uma resoluo digna e firme, que era impossvel dobrar naquele momento. Quando
  Mendona lhe estendeu a mo em despedida, ele apertou-lha com ternura e
  esperana. Estcio tentou ainda ret-lo; foi intil; Mendona saiu dali sem
  rancor, mas sem pesar. O corao sangrava-lhe, a conscincia ia contente.

Melchior foi at  porta, a
  despedir-se de Mendona. Quando este saiu, ele voltou o rosto para dentro,
  cruzou os braos e fitou o sobrinho de D. rsula. O moo desviou os olhos.

-- Viu? perguntou o padre. No sei
  qual seja a sua resoluo; mas prometo que serei como Maom -- Deus me perdoe! --
  ainda que veja o sol  minha direita e a lua  minha esquerda, no deixarei de
  executar o meu desgnio. V ter com sua famlia; deixe-me alguns instantes com
  o meu brevirio.

Estcio no pode resistir 
  intimao do sacerdote; no achou uma palavra para lhe dizer. Saiu aturdido,
  desconsolado, colrico. Na rua e na chcara, ia pensando na cena daquela ltima
  hora, e parecia apenas reconstruir um sonho. Desconhecia-se, apalpava a
  inteligncia, chamava em seu auxlio todas as foras da realidade; olhava para
  o cho, suspeitoso de que ia calcando as nuvens. Quando a razo tomou p no
  meio de lembranas to desconcertadas, ele viu claramente o resultado de suas
  aes: perdia um amigo de longos anos e abdicava a direo da famlia, pelo
  menos em relao ao casamento da irm. Se esta lhe agradecesse a resistncia,
  Estcio dar-se-ia por bem pago de tudo. No era em seu favor que ele
  conspirara? Este pensamento levantou-lhe o nimo; tivesse a aprovao de
  Helena, pouco lhe importaria o resto.

Helena ouviu-lhe a narrao fiel
  do que se passara em casa de Melchior. Ouviu-a comovida; no fim reprovou tudo o
  que ele fizera.

-- Mendona  j o fruto proibido,
  concluiu a moa; comeo a am-lo. Se ainda assim me obrigar a desistir do
  casamento, ador-lo-ei.

-- Chegamos ao capricho! exclamou
  ele;  o fundo do corao de todas as mulheres.

Helena sorriu e voltou-lhe as
  costas. Subiu ao quarto, travou de uma pena e escreveu um bilhetinho. A tinta
  secou primeiro que duas grossas lgrimas cadas no papel; mas as lgrimas
  secaram tambm. Antes de fechar o bilhete, desceu Helena a mostr-lo ao irmo.

Quando a moa entrou no gabinete,
  Estcio ia ter com ela. Tinha resoluo assentada. Uma vez que a irm aceitava
  de boa feio o casamento, no havia mais que o aprovar e celebrar.
  Encontraram-se na porta; Estcio recuou para dentro.

-- Helena, disse ele, faa-se a tua
  vontade.

-- Consente?

Estcio fez um gesto afirmativo.

-- No basta isso, tornou a moa; Mendona
  no voltar c depois do que se passou. Peo-lhe a remessa deste bilhete.

Estcio abriu o bilhete; continha
  estas poucas palavras: 'Venha hoje a Andara;  o meu corao que o pede e
  a nossa felicidade que o exige".Cinco minutos gastou o moo a ler as duas
  linhas; leu o que estava escrito e o que no estava. Helena desarmava os
  escrpulos de Mendona, tirando  futura unio qualquer suspeita de interesse.
  Leu e fechou lentamente o papel.

-- Aprova? perguntou a moa.

-- Assim, pois, disse o moo
  tristemente, a tua felicidade exige que esse homem venha c, que te cases com
  ele, que nos fujas? No te basta a famlia, a afeio de nossa tia, a minha
  prpria afeio? Estes meses de doce intimidade vo ser esquecidos em um s
  instante, sacrificados aos ps do primeiro homem que te apraz escolher e
  seguir? No dia em que penetraste nesta casa, entrou contigo um raio de luz
  nova, alguma coisa que nos faltava e que tu trouxeste contigo; nossa famlia
  completou-se; nossos coraes receberam um sentimento ltimo. Pensvamos que
  isto seria duradouro, e era simplesmente fugaz. Oh! Helena, melhor fora no ter
  vindo!

Helena quis responder, a voz
  travou-se-lhe na garganta, e a palavra retrocedeu ao corao. Apontou para o
  papel como pedindo-lhe, ainda uma vez, que o enviasse e saiu.

De tarde, apareceu Melchior; ia
  tranqilo e resoluto a dar um golpe decisivo. Estcio rendeu-se, antes que ele
  falasse.

-- Padre-mestre, disse o moo logo
  que o viu, a reflexo venceu-me; faa-se a vontade de todos.

-- Fala de corao?

-- De corao.

Pois bem, seja completo, tornou o
  padre. Sou ministro de uma religio que condena o orgulho. No h de ser em
  curar as feridas de um amigo; v ter com o seu amigo; traga-o a esta casa, como
  irmo.

-- Irei amanh.

-- No; v hoje mesmo.

A noite caiu logo; Estcio foi
  dali vestir-se. No tendo enviado o bilhete de Helena, meteu-o na algibeira
  para entreg-lo ele prprio; depois tirou-o e releu-o; tendo-o relido, fez um
  gesto para rasg-lo, conteve-se e perpassou-o ainda uma vez pelos olhos. A mo,
   semelhana de mariposa indiscreta, parecia atrada pela luz; resistiu,
  resistiu algum tempo; enfim chegou o bilhete  vela e queimou-o.

CAPTULO XX

A visita de Estcio no causou
  nenhum espanto a Mendona; ele a esperava com a confiana das ndoles ingnuas
  e avessas ao dio. No era crvel que um amigo de longos anos dormisse sobre a
  injustia de um minuto; contudo dormiu. Foi na seguinte manh que Estcio
  procurou o pretendente de Helena.

Entrou naturalmente em casa de
  Mendona, sem expanso nem secura. A entrevista foi breve e cordial;
  houveram-se os dois com afetuosa dignidade. Estcio explicou os escrpulos,
  declarou-se contente com a aliana. O contentamento podia existir; todavia, a
  manifestao foi parca e seca. Houve mais calor e expanso quando ele lhe pediu
  que desse vida feliz  irm.

-- Ser para mim um eterno remorso,
  se Helena vier a ser desgraada, disse ele. No tivemos o mesmo bero, vivemos
  nossa infncia debaixo de teto diferente, no aprendemos a falar pelos lbios
  da mesma me. Importa pouco; nem por isso lhe quero menos. Meu pai recomendou-a
   nossa famlia, e ela correspondeu ao sentimento que ditou essa ltima
  vontade.

Mendona no respondeu nada; refletira,
  durante a noite, nas palavras que ouvira a Estcio no dia anterior; -- palavras
  que bem podiam ser ditas ou pensadas por outros, talvez por todos, logo que
  soubessem do casamento. Helena viria a am-lo, talvez; mas, desde logo lhe
  levava para casa a chave da independncia. Mendona recuou. Quando o padre
  Melchior o soube, no pode conter um gesto de admirao; mas, se louvou o
  escrpulo, no aprovou a resoluo, que vinha derrubar tudo.

-- No tapar nunca a boca aos
  maus, disse o padre; eles acharo meio de envenenar-lhe a generosidade.

-- Pacincia! tornou o moo, 
  menor esse perigo. Se casar, diro que fao uma operao vantajosa; talvez a
  famlia o suponha; talvez ela prpria o pense.

Helena teve notcia dos receios do
  pretendente, e da resoluo a que parecia inclinar o corao. Perguntou-lhe se
  era verdade. Mendona afirmou que sim. Ela contemplou-o longamente, sem dizer
  palavra; travou-lhe das mos, apertou-as com efuso; ele persistiu.

No desinteresse de Mendona havia
  porventura um pouco de faceirice. A moa o percebeu, nem por isso deixou de
  crer na sinceridade do rapaz. Tentou dissuadi-lo; e, posto nada alcanasse nos
  primeiros minutos, estava certa de que venceria o derradeiro obstculo. Teria
  os olhos mais hbeis e felizes que os lbios do padre. Foi o que ela disse ao
  capelo.

-- Tomo  minha conta efetuar este
  casamento, continuou Helena.

-- Resolvida a tudo?

-- A tudo.

-- Mas, se ele insistir...

-- Se ele insistir, venc-lo-ei, ou
  por um modo ou por outro. Uma moa que quer ser noiva, vale por um exrcito; eu
  sou um exrcito.

-- Muito bem! Contudo, sua
  dignidade...

-- Oh! em ltimo caso abro mo da
  herana.

-- Era capaz disso? perguntou
  Melchior.

-- Se era capaz? Desejo-o at, disse
  a moa com veemncia.

E acrescentou em tom mais brando:

-- Sobre o homem de minha escolha
  desejo que no paire a mnima desconfiana.

Tal era a situao, dois dias
  depois da volta de Estcio. O casamento podia contar-se feito. Mendona no
  resistiu ao desinteresse de Helena. D. rsula aprovou tudo com efuso e amor,
  nada sabendo das incertezas e contradies dos ltimos dias.

Na noite desse dia, Estcio
  escreveu para Cantagalo dando notcias suas. Do casamento de Helena falou
  pouco, quase nada. Tudo o descontentava; tanto o que ele fizera e dissera, sem
  proveito, como o desenlace da situao. No soubera opor-se com eficcia, nem
  aplaudir oportunamente.

Posto fosse tarde, o sono teimava
  em fugir-lhe, e ele velou at muito alm da meia-noite. Ocupado, sem dvida, em
  adormecer organizaes menos sensveis e existncias menos complicadas, o sono
  fez-lhe apenas uma curta visita. Pelas cinco horas da manh, Estcio acordou e
  ergueu-se. A manh estava fresca; quase toda a famlia dormia. Estcio desceu;
  o nico escravo que achou levantado preparou-lhe uma xcara de caf. No tendo
  ainda chegado os jornais, bebeu-a sem a leitura do costume.

Quem sabe por que fios tnues se
  prendem muitas vezes os acontecimentos humanos? Estcio ouviu o som longnquo de
  um tiro; era algum caador, talvez; a suposio deu-lhe a idia de ir caar,
  foi buscar a espingarda, proveu-se de plvora e chumbo,e saiu.

Se a habilidade no era muita,
  parecia ter ainda diminudo naquela manh, ou porque a mo estivesse menos firme,
  ou porque a vista andasse menos segura. Estcio caminhava longo tempo sem
  pensar no fim que o levava; ia absorto, alheio ao lugar e s coisas. Fez
  algumas tentativas de caa. Quando cansou de errar, consultou o relgio e viu
  que no era cedo. Tinha o brao cansado de suster a espingarda; s ento
  reparou que no trouxera um pajem consigo. Disps-se a voltar. Vendo uma
  parasita, colheu-a com a inteno de a dar a Helena, como seu primeiro presente
  de npcias. Depois desceu, em caminho para casa.

Vinha descendo, com a espingarda
  debaixo do brao, os olhos no cho, a passo lento, apesar de ser tarde. De uma
  vez que ergueu os olhos, viu um caso estranho, que lhe fez deter o passo. Um
  pouco abaixo, saa, de trs de uma casa velha, o pajem de Helena, conduzindo a
  mula e a gua. Estcio no soube que pensar daquilo; cedendo ao impulso, que
  no pde dominar, deu um salto por cima da cerca de espinhos, agachou-se e
  esperou o resto.

O resto no se demorou muito.
  Assomou  porta da frente a figura de Helena. Depois de olhar cautelosamente
  para um e outro lado, saiu e montou a gua; o pajem cavalgou a mula e os dois
  desceram a trote.

Estcio sentiu uma nuvem
  cobrir-lhe os olhos; ao mesmo tempo, apertava o primeiro objeto que achou
  debaixo das mos: era a cerca de espinhos. A dor f-lo voltar a si; tinha a mo
  ensangentada. Ao longe, cavalgavam Helena e o pajem. Logo que os viu
  desaparecer, Estcio saltou de novo  estrada. Sem resoluo nem plano,
  caminhou em direo  casa donde vira sair a irm. Era a mesma da bandeirinha
  azul que Helena cumprimentara de longe, alguns meses antes, e no esquecera de
  reproduzir na paisagem que dera ao irmo, no dia dos anos dele. Estas
  circunstncias, antes indiferentes, apareciam-lhe agora como outros tantos
  artigos de um libelo.

O prdio parecia ainda mais velho
  do que a primeira vez que o vira; a calia das paredes e das colunas ia caindo,
  e o esqueleto de tijolo estava a nu, em mais de um lugar. Alguma erva mofina
  brotava a custo junto s paredes, cobrindo com folhas descoloridas o cho
  desigual e mido. Por baixo de uma das janelas havia um banco de pau, gretado
  pelo tempo, com as bordas rolias de longo uso. Tudo ali respirava penria e
  senilidade.

-- No, dizia Estcio consigo, no
   este o asilo de um Romeu de contrabando. Mora aqui alguma famlia pobre, que
  a caridade engenhosa de Helena vem afagar de longe em longe.

A soluo do enigma pareceu-lhe
  to natural que o moo resolveu parar a meio da aventura, e chegou a dar alguns
  passos para trs. Mas a suspeita  a tnia do esprito; no perece enquanto lhe
  resta a cabea. Estcio sentiu o desejo imperioso de indagar o que aquilo era,
  e voltou sobre os passos. Para entrar ali era necessrio um motivo ou pretexto.
  Procurou algum; a aventura dera-lhe o melhor de todos. Olhou para a mo ferida
  e ensangentada, e foi bater  porta.

CAPTULO XXI

Poucos instantes esperou Estcio.
  Veio um homem abrir-lhe a porta; era o mesmo que ele vira ali uma vez. Entre
  ambos houve meio minuto de silncio, durante o qual nem Estcio se lembrou de
  dizer o que queria, nem o desconhecido de lhe perguntar quem era. Olhavam um
  para o outro.

-- Que desejava? disse enfim o dono
  da casa.

-- Um favor, respondeu Estcio,
  mostrando-lhe a mo ferida. Ia a cair h pouco; procurando amparar-me, numa
  cerca de espinhos, feri-me, como v. Podia dar-me um pouco d'gua para lavar
  este sangue, e...

-- Pois no, interrompeu o outro.
  Queira sentar-se a no banco, ou, se prefere, entrar... E melhor entrar,
  concluiu, abrindo-lhe caminho.

Em qualquer outra ocasio, Estcio
  teria recusado o convite, porque o espetculo da pobreza lhe repugnava aos
  olhos saturados de abastana. Agora, ardia por haver a chave do enigma. Entrou.
  O desconhecido abriu uma das janelas para dar mais alguma luz, ofereceu ao
  hspede a melhor cadeira e foi por um instante ao interior.

Estcio pde ento examinar, 
  pressa, a sala em que se achava. Era pequena e escura. A parede, pintada a cola
  j de longa data, tinha em si todos os sinais do tempo; primitivamente de uma
  s cor, a pintura apresentava agora uma variedade triste e desagradvel. Aqui o
  bolor, ali uma greta, acol o rasgo produzido por um mvel; cada acidente do
  tempo ou do uso dava quelas quatro paredes o aspecto de um asilo da desgraa.
  A moblia era pouca, velha, mesquinha e desigual. Cinco ou seis cadeiras, nem
  todas ss, uma mesa redonda, uma cmoda e uma marquesa, um aparador com duas
  mangas de vidro cobrindo castiais de lato, sobre a mesa um vaso de loua com
  flores, e na parede dois pequenos quadros cobertos de escumilha encardida, tais
  eram as alfaias da sala. S as flores davam ali um ar de vida. Eram frescas,
  colhidas de pouco. Atentando nelas, Estcio estremeceu: pareceu-lhe reconhecer
  uma accia plantada em sua chcara. Quando a suspeita germina na alma, o menor
  incidente assume um aspecto decisivo. Estcio sentiu um calafrio.

Voltou o dono da casa, trazendo
  nas mos uma bacia, e nos braos uma toalha, cuja alvura contrastava
  singularmente com a cor da parede e o aspecto senil da casa. Estcio ergueu-se.

-- Deixe-se estar, disse o
  desconhecido.

-- Estou perfeitamente bem.

-- Nesse caso, faa o favor de
  chegar  janela.

A bacia foi posta na janela; o
  desconhecido quis lavar ele prprio a mo do hspede; o moo no lho consentiu.

-- Ao menos, disse o dono da casa,
  h de consentir que a enxugue. Eu entendo um pouco disto; infelizmente, no
  tenho aqui nenhum medicamento caseiro para aplicar.

Estcio aceitou o oferecimento. O
  dono da casa abriu a toalha e comeou cuidadosamente a operao. O sobrinho de
  D. rsula pde ento examin-lo  vontade.

Era um homem de trinta e seis a
  trinta e oito anos, forte de membros, alto e bem proporcionado. Uma cabeleira
  espessa e comprida, de um castanho escuro, descia-lhe da cabea at quase tocar
  nos ombros. Os olhos eram grandes, e geralmente quietos, mas riam, quando
  sorriam os lbios, animando-se ento de um brilho intenso, ainda que
  passageiro. Havia naquela cabea, -- salvo as suas, -- certo ar de tenor
  italiano. O pescoo, cheio e forte, surgia dentre dois ombros largos, e, pela
  abertura da camisa, que um leno atava frouxamente na raiz do colo, podia
  Estcio ver-lhe a alva cor e a rija musculatura. Vestia pobre, mas limpamente,
  um rodaque branco, cala de ganga e colete de brim pardo. O vesturio, disparatado
  e mesquinho, no diminua a beleza mscula da pessoa; acusava semente a penria
  de meios.

Quando acabou de lavar os
  arranhes de Estcio, -- eram pouco mais do que isso, -- props-se a ir buscar um
  pedao de pano. Estcio, com a outra mo e os dentes, rasgou o leno que
  trazia, e o dono da casa completou o sumrio curativo.

-- Pronto! disse ele. Se tiver em
  casa algum medicamento apropriado, ser conveniente aplic-lo. Toda a cautela 
  pouca; convm evitar alguma inflamao.

-- Obrigado, respondeu Estcio.
  Realmente, vim dar-lhe uma maada, sem grande necessidade, talvez...

-- Por qu?

-- Podia fazer isto mesmo quando
  chegasse  casa.

-- Mora perto?

-- Um pedao abaixo.

-- Foi conveniente curar j; nenhuma
  precauo  intil em coisa nenhuma da vida.

-- Mxima de prudncia, observou
  Estcio, procurando sorrir.

-- Que s aprende tarde quem a no
  traz na massa do sangue, replicou o outro, suspirando.

A no ser indiscreto ou falador,
  era difcil levar a conversa por diante. O favor estava feito, o assunto
  esgotado. Restava agradecer, despedir-se e sair. Estcio, entretanto, tinha
  necessidade de mais tempo; queria arrancar quele homem uma palavra menos
  indiferente  situao, ou conhecer-lhe, se fosse possvel, o carter e os
  costumes. Para isso havia, talvez, um meio; contrafazer-se, empregar maneiras
  estranhas s suas, apegar-se  ocasio por todas as bordas. Estcio
  determinou-se a isso, confiando o resto ao acaso. Voltou  cadeira e sentou-se.

-- Consente que descanse um pouco?
  Estou fatigadssimo.

-- No pelo que caou, disse o
  desconhecido, rindo.

-- Volto com as mos abanando.
  Nunca fui bom caador, e tenho, no obstante, a mania de atirar aos pssaros.

-- No  esse o defeito de muita outra
  gente, em mais elevada ordem de coisas? Eu fui vtima desse defeito mortal.

-- Ah! exclamou Estcio com certa
  entonao interrogativa.

O dono da casa sorriu levemente,
  mas no pareceu molest-lo a curiosidade do hspede; talvez mesmo no desejasse
  outra coisa.

--  verdade, disse ele; devo a
  minha atual penria ao erro de teimar em coisas estranhas  minha ndole e
  aptido, estranhas e totalmente opostas...

-- H de perdoar-me, interrompeu Estcio
  com um ar de familiaridade indiscreta, que lhe no era habitual; eu creio que
  um homem forte, moo e inteligente no tem o direito de cair na penria.

-- Sua observao, disse o dono da
  casa sorrindo, traz o sabor do chocolate que o senhor bebeu naturalmente esta
  manh antes de sair para a caa. Presumo que  rico. Na abastana  impossvel
  compreender as lutas da misria, e a mxima de que todo o homem pode, com
  esforo, chegar ao mesmo brilhante resultado, h de sempre parecer uma grande
  verdade  pessoa que estiver trinchando um peru... Pois no  assim; h
  excees. Nas coisas deste mundo no  to livre o homem, como supe, e uma
  coisa, a que uns chamam mau fado, outros concurso de circunstncias, e que ns
  batizamos com o genuno nome brasileiro de caiporismo, impede a alguns ver o
  fruto de seus mais hercleos esforos. Csar e sua fortuna! toda a sabedoria
  humana est contida nestas quatro palavras.

O desconhecido proferiu isto com o
  tom mais simples e natural do mundo, e uma facilidade de elocuo que Estcio
  mal lhe podia supor. Era aquilo uma comdia ou a expresso da verdade? Estcio
  olhou fixamente para ele, como a querer penetr-lo. Ao mesmo tempo, ouviu-se um
  rumor na parte da casa que ficava alm da sala; Estcio voltou a cabea com um
  gesto de desconfiana. A porta abriu-se e apareceu uma preta velha trazendo nas
  mos uma bandeja. A criada estacou a meio caminho.

-- Pe em cima da mesa, disse o
  dono da casa.  o meu almoo, continuou ele, voltando-se para Estcio; almoo
  parco e higinico. Ousarei oferecer-lho?

Estcio fez um gesto negativo, e
  disps-se a sair.

-- J! No  meu intento
  despedi-lo; almoarei conversando. Vivo to solitrio que a presena de alguma
  pessoa  para mim um encanto.

Estcio aceitou sem dificuldade o
  convite; sentou-se defronte do homem, ao p da mesa, e assistiu ao almoo, que
  no podia ser mais escasso: um po, duas hstias de queijo duro e uma chvena
  de caf. O que mais valia era o contentamento do dono da casa e a franqueza com
  que ostentava aos olhos de um estranho a simplicidade de seus hbitos.

-- No  refeio de prncipe,
  dizia ele, mas satisfaz todas a ambies de um estmago sem esperana. Aqui  a
  sala de visitas e a sala de jantar; a cozinha  contgua; alm, ficam duas
  braas de quintal; para l do quintal... o infinito da indiferena humana.

E depois de um silncio:

-- No digo bem, emendou ele; nem
  sempre acho indiferena. Meu trabalho no me d mais do que escasso po de cada
  dia; mas tenho algumas alegrias, no meio de minha perptua quaresma; e essas
  recebo-as de mos caridosas e puras.

Dizendo isto, o desconhecido
  esgotou a chvena, e reclinou-se sobre a cadeira, fitando em cheio a cara do
  hspede. Estcio refletiu nas ltimas palavras, e um raio de esperana veio
  rasgar-lhe a nuvem que lhe entenebrecia a fronte. Os dois homens pareciam
  interrogar-se. O filho do conselheiro sacou do bolso um charuto e ofereceu-o ao
  dono da casa.

-- Obrigado, disse este.

-- No fuma?

-- J fumei; hoje economizo esse vcio.
  Nem por isso fao mais lentamente a digesto.

-- Mora s?

-- S.

-- No tem famlia?

-- Nenhuma.

-- H de achar-me singularmente
  indiscreto...

-- No; suponho que a sua
  curiosidade tem uma causa honrosa e legtima.

-- Acertou; o senhor inspira-me
  simpatia. E se eu conhecesse alguma dessas mos puras, que lhe emendam as
  lacunas da sorte...

-- Dar-me-ia, por intermdio delas,
  o seu bolo?

-- Se o no ofendesse. . .

-- No ofendia, mas eu recusava, se
  soubesse; peo-lhe desde j que o no faa s escondidas...

Estcio fez um gesto de
  assentimento.

-- No  orgulho, continuou o dono
  da casa;  um resto de pudor que a pobreza me no tirou ainda. Fiz-lhe agora um
  obsquio, um simples dever de vizinho... Pareceria que o senhor mo pagava com
  um benefcio. O benefcio seria menos espontneo de sua parte e menos agradvel
  para mim. Agradvel no exprime, talvez, toda a minha idia; mas o senhor
  facilmente compreender o que quero dizer.

-- Entendeu-me mal; o meu bolo no
  seria na espcie a que o senhor alude. Tenho amigos e alguma influncia;
  poderia arranjar-lhe melhor posio...

O desconhecido refletiu um
  instante.

-- Aceitaria? perguntou Estcio.

-- Estou pensando na maneira de
  recusar. Ouro  o que ouro vale. Eu vexar-me-ia eternamente de dever qualquer
  melhora da sorte ao cumprimento de um dever de caridade.

-- J me no admira a vida pobre
  que tem tido.

-- Excessivo escrpulo, talvez?...

-- Escrpulo desarrazoado.

-- Antes demais que de menos.

--Nem de menos nem demais; mas, s
  a poro justa.

-- A poro varia, conforme as
  necessidades morais de cada um. Mas eu mesmo, que lhe estou a falar, nem sempre
  tive esta virtude intratvel; e porventura alguma vez fraqueei...

A fronte do desconhecido tornou-se
  sombria; a voz morreu-lhe nos lbios, e os olhos caram naquela atonia que
  exprime uma grande concentrao de esprito. Era ocasio de interrog-lo
  diretamente ou sair. Estcio preferiu o ltimo alvitre.

-- No o quero demorar mais, disse
  o dono da casa, quando o mancebo proferiu as palavras de despedida. J  tarde,
  e sua me talvez esteja ansiosa...

Estcio limitou-se a olhar para
  ele em cheio, dizendo:

-- Se alguma vez resolver dar de mo
  a seus escrpulos, mande procurar-me. Minha casa  conhecida em todo Andara
  pela casa do conselheiro Vale...

O desconhecido, em cujo rosto
  Estcio esperou ver um sinal qualquer de abalo ou surpresa, conservou-se
  impassvel e risonho. Curvou-se em sinal de agradecimento; e como Estcio
  hesitasse em estender-lhe a mo, ele meteu as suas nas algibeiras.

-- Talvez nos vejamos ainda, disse
  Estcio j fora da porta.

-- Sim?

-- Passeio algumas vezes por estes
  lados.

-- Nem sempre estou em casa; mas, ainda
  estando, conservo fechadas as portas. Quando quiser descansar, bata; a casa 
  pobre, mas ser amiga.

Estcio afastou-se rapidamente.
  Eram dez horas, e o sol aquecia; ele no deu pelo sol nem pelo tempo.
  Semelhante ao transviado florentino, achava-se no meio de uma selva escura, a
  igual distncia da estrada reta, -- diritta via -- e da fatal porta, onde
  temia ser despojado de todas as esperanas. Nada sabia, nada conjeturava; eram
  tudo novas dvidas e oscilaes. O homem com quem acabava de conversar, parecia-lhe
  sincero; a pobreza era autntica, sensvel a nota de melancolia que, por vezes,
  lhe afrouxava a palavra. Mas, onde cessava ali a realidade e comeava a
  aparncia? Vinha de tratar com um infeliz ou um hipcrita? Estcio rememorou
  todos os incidentes da manh, e todas as palavras do desconhecido; eram outros
  tantos pontos de interrogao suspeitos e irrespondveis. Repelia com horror a
  idia do mal: custava-lhe a aceitar a idia do bem; e a pior das angstias, -- a
  dvida, -- continha-o todo e agitava-o em suas mos felinas. O sol e a agitao
  alastravam-lhe a testa de prolas de suor; ao ofego da marcha apressada
  juntava-se o da violenta comoo. Estcio no via os objetos que ia costeando,
  nem as pessoas que lhe passavam ao lado; ia cego e surdo, at que o choque da
  realidade o despertasse.

Chegou enfim  casa. Ao porto
  estava um escravo, a quem deu a espingarda. A demora causara alguma inquietao
   famlia; logo que as duas senhoras souberam de seu regresso, correram a
  receb-lo, ficando D. rsula a uma janela, e descendo Helena at meio caminho.
  A apario sbita da moa, a alegria e o amor, que pareciam impeli-la, a
  perfeita ingenuidade do gesto, tudo produziu nele a necessria reao, -- reao
  de um instante,-- mas salutar, porque a crise era demasiado violenta. Estcio
  apertou as mos da moa com energia. Um fluido sutil percorreu as fibras de
  Helena, e aquele rpido instante teve toda a doura de uma reconciliao.

-- Estcio contava recolher-se ao
  quarto para pr em ordem as idias, compar-las, extrair uma conjetura, pelo
  menos, e verific-la ou desmenti-la. Mas, nem a tia nem a irm haviam almoado,
   espera dele, e foroso lhe foi acompanh-las na satisfao de uma necessidade
  que no sentia. Durante o almoo, Estcio procurou observar Helena; trabalho
  ocioso, porque o rosto da moa, se alguma coisa traa nessa ocasio, eram as
  alegrias inefveis da famlia. Ela prpria servia por suas mos a Estcio e D.
  rsula; inexcedvel na ateno com que sabia repartir-se entre os convivas, no
  o era menos no carinho, e na graa. Nos olhos parecia estampada a ignorncia do
  mal, e o sorriso era o das almas cndidas. Poder-se-ia atribuir quela criatura
  de dezessete anos corrupo e hipocrisia? Estcio envergonhou-se de tal idia;
  sentiu as vertigens do remorso.

Mas o almoo acabou, dispersou-se
  a companhia, o mancebo recolheu-se ao gabinete, e, desfeita a viso, voltou a
  suspeita. Estcio buscou dominar a situao. Ele no ia ao ponto de supor em
  Helena a completa perverso dos sentimentos; o limite do mal, que se lhe podia
  atribuir, era o de uma culposa leviandade. Se, em vez de um ato leviano, fosse
  aquilo um simples estratagema de caridade, Helena no mereceria menos uma
  advertncia; mas a pureza da inteno salvava tudo, e a paz da famlia, no menos
  que o seu decoro, se restabeleceria inteira. Estcio examinou um por um todos
  os indcios de culpabilidade e de inocncia; buscou sinceramente os elementos
  de prova; no esqueceu um s argumento de induo. Nesse trabalho despendeu
  longo tempo, sem resultado aprecivel, pela razo de que, se a sentena era
  difcil de formular, o juiz era incompetente para decidir; entre a dignidade e
  a afeio balouava incerto.

Quase  hora do jantar, Estcio,
  que no sara uma s vez do gabinete, chegou a uma das janelas, e viu
  atravessar a chcara a mais humilde figura daquele enigma, humilde e importante
  ao mesmo tempo: o pajem. O pajem apareceu-lhe como uma idia nova; at aquele
  instante no cogitara nele uma s vez. Era o confidente e o cmplice. Ao v-lo,
  recordou-se de que Helena lhe pedira uma vez a liberdade daquele escravo. A
  ameaa rugiu-lhe no corao; mas a clera cedeu  angstia, e ele sentiu na
  face alguma coisa semelhante a uma lgrima.

Nesse momento duas mos lhe
  taparam os olhos.

CAPTULO XXII

No era preciso grande esforo
  para adivinhar a dona das mos. Estcio, com as suas, afastou as mos de
  Helena, segurando-lhe os pulsos de modo que lhe arrancou um leve gemido.
  Voltando-se, deu com os olhos na irm, que lhe disse em tom de gracioso
  reproche:

-- Voc  muito mau! Pagou-me a
  carcia com um aperto. Deixe estar que nunca mais cairei em outra. Vim v-lo,
  porque voc hoje no se lembrou ainda de dar  gente um ar de sua graa...
  Doeu-me! continuou ela olhando para os pulsos. Mas... tenho os dedos molhados;
  seria... voc estaria... que ? que foi?

Estcio, que ouviu o discurso da
  irm, com o rosto desfeito e o olhar ansioso, no lhe respondeu s ltimas
  interrogaes, e continuou a olhar para ela, como a querer ler a fisionomia da
  moa a explicao do enigma que o atordoava. Helena ainda insistiu, aterrada e
  aflita. Indo pegar-lhe nas mos, Estcio desviou o corpo, dirigiu-se  parede,
  despendurou o desenho que Helena lhe dera no dia de seus anos, e aproximou-se
  da moa.

-- Que ? repetiu esta admirada.

A nica resposta de Estcio foi
  estender o dedo sobre a misteriosa casa reproduzida na paisagem. Helena olhou
  alternadamente para o desenho e para o irmo. A expresso interrogativa e
  imperiosa deste f-la atenta no ponto indicado. Sbito empalideceu; os lbios
  tremeram-lhe como a murmurar alguma coisa, mas a alma falou to baixo que a
  palavra no chegou  boca. Durou aquilo poucos instantes. A angstia lia-se no
  rosto dos dois; a moa, para ocultar a sua, cobriu os olhos com as mos. O
  gesto era eloqente; Estcio lanou para longe de si o quadro, com um movimento
  de clera. Helena atirou-se para o corredor.

D. rsula aguardava os sobrinhos
  para jantar. Demorando-se estes, dirigiu-se ela prpria ao gabinete de Estcio.
  A porta estava aberta; D. rsula entrou e deu com ele, sentado numa poltrona,
  com o leno na cara, como a soluar. A tia correu com a velocidade que lhe
  permitiam os anos. Estcio no a ouviu entrar; s deu por ela quando as mos da
  boa senhora lhe arrancaram as suas dos olhos. O assombro de D. rsula foi
  indescritvel, sobretudo quando Estcio, erguendo-se, atirou-se-lhe aos braos,
  exclamando:

-- Que fatalidade!

-- Mas... que ?... explica-te.

Estcio enxugou as faces molhadas
  do longo e silencioso pranto, com o gesto decidido de um homem que se
  envergonha de um ato de debilidade. A exploso desabafara-lhe o esprito; podia
  enfim ser homem, e era preciso que o fosse. D. rsula pediu e ordenou que lhe
  confiasse a causa da inexplicvel aflio em que viera ach-lo. Estcio recusou
  diz-la.

-- Saber tudo amanh ou logo.
  Agora s poderia dar-lhe um enigma, e eu sei o que ele me h custado. Algumas
  horas mais, e precisarei de seu conselho e apoio.

D. rsula resignou-se  demora.
  Quando chegou  sala de jantar, achou um recado de Helena; mandava-lhe dizer
  que se sentira repentinamente incomodada e que a dispensasse naquela tarde e
  noite. Dona rsula suspeitou logo que o recado de Helena tivesse relao com a
  aflio de Estcio, e correu ao quarto da sobrinha. Achou-a meio inclinada
  sobre a cama, com o rosto na almofada, e o corpo tranqilo e como morto. Ao
  sentir os passos de D. rsula, ergueu a cabea. A palidez era grande e profundo
  o abatimento; mas no houvera lgrimas. A dor, se a houve, e houve, parecia ter-se
  petrificado. O que restava ainda vivo na figura da moa, eram os olhos, que no
  perderam o fulgor natural. Ela ergueu-os a medo, e abraou a tia com um olhar
  de splica e de amor. D. rsula travou-lhe das mos, encarou-a silenciosamente,
  e murmurou:

-- Conte-me tudo.

-- Saber depois! suspirou a moa.

-- No tens confiana em tua tia?

Helena ergueu-se e lanou-se-lhe
  nos braos; duas lgrimas rebentaram-lhe dos olhos, e foram as primeiras que
  eles verteram naquela meia hora. Depois beijou-lhe as mos com ternura:

-- Pode receber estes beijos, disse
  ela, os anjos no os tm mais puros.

Foram as ltimas palavras que D.
  rsula pode arrancar-lhe; a moa recolheu-se ao silncio em que ela a
  encontrou. D. rsula saiu; e foi dali ter com Estcio. O sobrinho
  encaminhava-se para a sala de jantar.

-- Vamos para a mesa, disse ele,
  no convm que os escravos saibam de tais crises...

D. rsula referiu o estado em que
  achara Helena e as palavras que trocara com ela. Estcio ouviu-a sem nenhuma
  expresso de simpatia. O jantar foi um simulacro; era um meio de iludir a
  perspiccia dos escravos, que alis no caam naquele embuste. Eles conheceram
  perfeitamente que algum acontecimento oculto trazia suspensos e concentrados os
  espritos. As iguarias voltavam quase intactas; as palavras eram trocadas com
  esforo entre a sinh velha e o senhor moo. A causa daquilo era, com certeza,
  nhanh Helena.

Estcio deu ordem para que a todas
  as pessoas estranhas se declarasse estar ausente a famlia. A nica exceo era
  o Padre Melchior. A esse escreveu pedindo-lhe que os fosse ver.

-- No posso esperar at amanh,
  disse D. rsula; se tens de revelar alguma coisa a um estranho, por que o no
  fazes a mim primeiro? Diz-me o que h. No posso ver padecer Helena; quero
  consol-la e anim-la.

-- O que tenho para dizer  longo e
  triste, retorquiu Estcio; mas, se deseja sab-lo desde j, peo-lhe ao menos
  que espere a presena do Padre Melchior. Eu no poderia dizer duas vezes as
  mesmas coisas, seria revolver o punhal na ferida.

A curiosidade de D. rsula cresceu
  com estas meias palavras do sobrinho; mas era foroso esperar, e esperou. Foi
  dali ao quarto de Helena. Como a porta estivesse fechada, espreitou pela
  fechadura. Helena escrevia. Esta nova circunstncia veio complicar as
  impresses de D. rsula.

-- Helena est encerrada no quarto,
  e escreve, disse ela ao sobrinho.

-- Naturalmente, respondeu este,
  com sequido.

O Padre Melchior no se demorou em
  acudir ao chamado de Estcio. O bilhete era instante e a letra febril. Algum
  acontecimento grave devia ter-se dado. A reflexo do padre era justa, como
  sabemos; ele o reconheceu desde logo, no s no aspecto lgubre da famlia,
  como na nsia com que era esperado. Os trs recolheram-se a uma das salas
  interiores.

-- Helena? perguntou Melchior.

-- Vamos tratar dela, respondeu
  Estcio.

Referir o que se passara naquela
  fatal manh era mais fcil de planear que de executar. No momento de expor a
  situao e as circunstncias dela, Estcio sentiu que a lngua rebelde no
  obedecia  inteno. Achava-se num tribunal domstico, e o que at ento fora
  conflito interior entre a afeio e a dignidade, cumpria agora reduzi-lo s
  propores de um libelo claro, seco e decidido. Inocente ou culpada, Helena
  aparecia-lhe naquele momento como uma recordao das horas felizes, -- doce
  recordao que os sucessos presentes ou futuros podiam somente tornar mais
  saudosa, mas no destruiriam nunca, porque  esse o misterioso privilgio do
  passado. Reagiu, entretanto, sobre si mesmo; e, ainda que a custo, referiu
  minuciosa e sinceramente o que se passara desde aquela manh.

No fora talhado para to
  melindrosas revelaes o corao de D. rsula. Desde o princpio da conversao
  sentiu o atordoamento que do os grandes golpes. Esperava, decerto, um grande
  infortnio de Helena, um episdio da famlia anterior, alguma coisa que
  desafiasse a compaixo, sem diminuir o sentimento da estima. Acontecia
  justamente o contrrio; a estima era impossvel e a compaixo tornava-se apenas
  provvel.

-- Mas no!  impossvel! exclamou
  ela da a pouco, logo que a razo, obscurecida pelo abalo, pde readquirir
  alguma luz... no! eu a vi h pouco; senti-lhe as lgrimas na minha face,
  ouvi-lhe palavras que s a inocncia pode proferir. E, alm disso, seu
  procedimento irrepreensvel, um ano quase de convivncia sem mcula, a elevao
  de seus sentimentos... no posso crer que tudo isso... No! pobre Helena! Vamos
  cham-la, ela explicar tudo. Interroguemos o Vicente.

Um gesto dos dois homens mostrou
  que nenhum deles julgava digno este ltimo recurso para conhecer a verdade.

D. rsula cara em prostrao,
  recordava suas apreenses do primeiro dia, e recuava com horror  idia de ter acertado.
  Defronte dela, Estcio ocupava uma poltrona rasa, em cujos braos fincava os
  cotovelos, apoiando nas mos a cabea ardente e abatida. A alma ruminava a dor.

Um s dos trs vingava a dignidade
  da situao. O Padre Melchior no sentira menor assombro que os dois parentes
  de Helena, nem padeceu menos profundo golpe; mas reergueu-se de um e outro;
  pde vencer-se e conservar a razo clara, fria e penetrante. Entre os dois
  coraes ulcerados e sem fora, compreendeu Melchior que lhe cabia a principal ao,
  e no recuou ante a responsabilidade que da poderia deduzir. Viu de um lance a
  extenso possvel do mal, a desunio da famlia, os desesperos da ocasio, os
  dios do dia seguinte, as amarguras indelveis, e, talvez, as indelveis
  saudades; mas nem este quadro o aterrou, nem ele o aceitou sem exame. Melchior
  no condenava nem absolvia; esperava. Ele pertencia ao nmero dessas virtudes
  singelas para as quais o vcio  uma rara exceo; natureza sincera e franca,
  era-lhe difcil crer na hipocrisia. Enquanto Estcio prosseguia calado e
  pensativo, e D. rsula, ora sentada, ora de p, intercalava o silncio com
  exclamaes de dor, Melchior observava-os e refletia tambm consigo. Enfim,
  proferiu estas palavras de animao:

-- Sossegue, D. rsula; a verdade h
  de aparecer, e no estamos certos de que seja o que nos parece. Em todo o caso,
  no antecipemos a aflio. Seria padecer duas vezes. H tempo de chorar 
  larga.

Melchior levantou-se:

-- Convm sacudir o abatimento,
  continuou, dirigindo-se a Estcio;  a hora da ao e do vigor. Sobretudo, 
  necessrio no boquejar de semelhante assunto por agora; daria azo s vozes
  estranhas e seus naturais comentrios. Eu tomarei nesta coliso o lugar que me
  compete, se mo no contestam...

-- Oh! exclamou Estcio.

--...Mas, desejo que desde j se
  compenetrem bem de que, se a dignidade pede uma coisa, a caridade pede outra, e
  que o dever estrito  concili-las. Nada de dios; perdo ou esquecimento.

-- Mas, padre-mestre, que lhe parece?
  perguntou D. rsula com ansiedade.

-- D. rsula, disse o padre, 
  preciso agora que a razo fale e trabalhe; o sentimento deve retrair-se e
  esperar. Examinarei o caso, e aconselharei o necessrio remdio. Talvez
  estejamos a debater-nos no vcuo; quem sabe? trata-se de um equvoco, de uma
  aparncia...

-- Oh! ela confessou tudo!
  interrompeu Estcio. Vi-lhe a expresso da culpa nos olhos. Mas, enfim, estou
  pronto para tudo, continuou ele erguendo-se. No foi o senhor um dos melhores
  amigos de meu pai? No o  ainda nosso? Ajude-nos, aconselhe-nos; faremos o que
  lhe parecer melhor. Na situao em que nos achamos, nenhum de ns tem o
  esprito bastante senhor de si para colher os elementos da verdade, apur-la e
  resolver. Esse papel  seu.

Vieram trazer a Estcio uma carta.
  Era do Dr. Camargo, anunciando-lhe que a madrinha de Eugnia falecera, e que
  ele no prazo de alguns dias estaria na Corte. Era o pior momento para
  semelhante vinda; Estcio no pde reprimir um gesto de desgosto. O padre,
  dizendo-lhe o mancebo de que tratava a carta, observou que nenhum inconveniente
  podia haver no regresso de Camargo, uma vez que, sem demora, ficasse liquidado
  o assunto que os afligia.

-- D. rsula, continuou ele,
  deixe-nos agora ss alguns instantes; v tranqila, confie em Deus, e no faa
  suspeitar a ningum o que se passa nesta casa.

D. rsula obedeceu. Logo que ela
  saiu, Melchior fechou a porta. Estcio sentou-se de novo, disposto a ouvir o
  capelo. Este deu alguns passos entre a porta e uma das janelas. Ia anoitecendo;
  Estcio acendeu um candelabro. Melchior sentou-se ao p dele, sem lhe falar nem
  lhe voltar sequer os olhos. Meditava ou lutava consigo mesmo; a fronte pesada e
  merencria traduzia a agitao interior. J no era a inaltervel placidez,
  reflexo de uma conscincia religiosa e pura. Se a conscincia era a mesma, no
  o era o corao, a braos com uma crise nova. Aps dez minutos de profundo
  silncio entre ambos, o padre falou.

CAPTULO XXIII

-- s forte? perguntou o padre.

-- Sou.

-- Crs em Deus?

Estcio estremeceu e olhou para o
  ancio, sem responder. Melchior insistiu:

-- Crs?

-- Essa pergunta...

--  menos ociosa do que parece.
  No basta supor que se cr; nem basta crer  ligeira, como na existncia de uma
  regio obscura da sia, onde nunca se pretende por os ps. O Deus de que te
  falo, no  s essa sublime necessidade do esprito, que apenas contenta alguns
  filsofos; falo-te do Deus criador e remunerador, do Deus que l no fundo de
  nossas conscincias, que nos deu a vida, que nos h de dar a morte, e, alm da
  morte, o prmio ou o castigo. Crs?

-- Creio.

-- Pois bem, tu transgrediste a lei
  divina, como a lei humana, sem o saber. Teu corao  um grande inconsciente;
  agita-se, murmura, rebela-se, vaga  feio de um instinto mal expresso e mal
  compreendido. O mal persegue-te, tenta-te, envolve-te em seus liames dourados e
  ocultos; tu no o sentes, no o vs; ters horror de ti mesmo, quando deres com
  ele de rosto. Deus que te l, sabe perfeitamente que entre teu corao e tua
  conscincia h como um vu espesso que os separa, que impede esse acordo
  gerador do delito.

-- Mas que , padre-mestre?

Melchior inclinou-se e encarou o
  moo. Os olhos, fitos nele, eram como um espelho polido e frio, destinado a reproduzir
  a imagem do que lhe ia dizer.

-- Estcio, disse Melchior
  pausadamente, tu amas tua irm.

O gesto mesclado de horror,
  assombro e remorso com que Estcio ouvira aquela palavra, mostrou ao padre, no
  s que ele estava de posse da verdade, mas tambm que acabava de a revelar ao
  mancebo. O que a conscincia deste ignorava, sabia-o o corao, e s lho disse
  naquela hora solene. A conscincia, depois de tatear nas trevas, recuou
  apavorada, como afastando de si o claro sbito que acendera nela a palavra do
  sacerdote. Estcio no respondeu nada; no podia responder nada. Com que
  vocbulo e em que lngua humana exprimiria ele a comoo nova e terrvel que
  lhe abalara a alma toda? que fio pudera atar-lhe as idias rotas e dispersas?
  Nem falou, nem se atreveu a erguer os olhos; ficou como estpido e morto.
  Melchior contemplou-o alguns minutos, silencioso e compassivo. Os olhos, que
  eram de guia para os mistrios da vida, eram de pomba para os grandes
  infortnios. Abaixo da cabea mscula, havia um corao feminino.

A mudez de Estcio cessou enfim; o
  corpo agitou-se; o lbio articulou algumas frases desconcertadas. Vago era o
  sentido delas; podia concluir-se que ele no cria na revelao de Melchior, que
  o suposto sentimento era to absurdo e desnatural que s a maus instintos devia
  ser atribudo. Melchior ouviu-o, sorriu com satisfao. No era aquilo mesmo um
  protesto de conscincia honrada?

-- Maus instintos, no, respondeu
  Melchior; um desvio da lei social e religiosa, mas desvio inconsciente. Entra
  em teu corao, Estcio; revolve-lhe os mais ntimos recantos, e l achars
  esse grmen funesto; lana-o fora de ti,que  o preceito do Eterno Mestre. No
  o sentiste nunca; a tentao usa essa ttica serpentina e dolorosa; 
  insinuante com a calnia, e pertinaz como a suspeita. Mas eu sou a verdade que
  afirma, e a caridade que consola. Digo-te, no que pecaste, mas que ficaste 
  beira do pecado, e estendo-te a mo para que recues do abismo.

-- Padre-mestre! murmurou Estcio,
  cujo corao recebia a influncia da palavra de Melchior, a um tempo severa e
  meiga.

-- No fales, continuou o padre;
  neg-lo  mentir; confess-lo  ocioso. Como nasceu em teu corao semelhante
  sentimento? Quis a fortuna que entre vocs dois no houvesse a imagem da
  infncia e a comunho dos primeiros anos; que, em plena mocidade, passassem, do
  total desconhecimento um do outro, para a intimidade de todos os dias. Esta foi
  a raiz do mal. Helena apareceu-te mulher, com todas as sedues prprias da
  mulher, e mais ainda com as de seu prprio esprito, porque a natureza e a
  educao acordaram em a fazer original e superior. No sentiste a transformao
  lenta que se operou em ti, nem podias compreend-la. So Paulo o disse: para os
  coraes limpos, todas as coisas so limpas. Vias a afeio legtima naquilo
  que era j feio espria; da vieram os zelos, a suspiccia, um egosmo
  exigente, cujo resultado seria subtrair a alma de Helena a todas as alegrias da
  Terra, unicamente para o fim de a contemplares sozinho, como um avaro.

Ouvindo a palavra do padre,
  Estcio soletrava o prprio corao e lia claramente o que at ento era para
  ele como um livro fechado. A situao tornava-se, entretanto, por demais
  aflitiva, profunda a vergonha, intenso o remorso. Estcio ergueu-se: erguendo-se,
  deu com os olhos no retrato do conselheiro que, na penumbra em que ficava,
  parecia olhar para o filho e interrog-lo. Esta circunstncia desorientou o
  moo:

-- No, padre-mestre! exclamou ele
  deixando-se cair na cadeira.  impossvel! isto que me est dizendo  um sonho
  mau,  um funesto equvoco;  impossvel; juro-lhe que  impossvel.  certo
  que a amo... que a amava, com sentimentos de irmo; mas esquecer-me, aninhar em
  minha alma to odioso afeto... oh! era impossvel!

Melchior erguera-se. Aps meia
  dzia de passos, aproximou-se de Estcio, sobre cuja cabea estendeu a mo
  direita, enquanto com a outra lhe erguia a barba, obrigando-o a olhar para ele.

-- Digo-te que tens uma raiz de m
  erva no corao; esta  a cruel verdade. H no homem uma ligao de
  sentimentos, s vezes inexplicvel. Produtos de climas opostos a se alternam
  ou se confundem... Mas queres saber o resto?

-- O resto?

-- Ouve, continuou o padre,
  sentando-se. A planta ruim bracejou um ramo para o corao virgem e casto de
  Helena, e o mesmo sentimento os ligou em seus fios invisveis. Nem tu o vias,
  nem ela; mas eu vi, eu fui o triste espectador dessa violenta e miservel
  situao. So irmos e amam-se. A poesia trgica pode fazer do assunto uma ao
  teatral; mas o que a moral e a religio reprovam, no deve achar guarida na
  alma de um homem honesto e cristo.

-- Impossvel! impossvel! exclamou
  Estcio. Mas, dado que assim fosse, por que acumular  dificuldade presente o
  horror de semelhante revelao?

-- Porque a revelao explica a
  dificuldade. Helena no saber que ama, mas ama. Ora, um amor clandestino, de
  parceria com esse outro amor incestuoso, embora inconsciente, provaria da parte
  de Helena uma perverso que ela no pode ter, e que, em tal idade, faria dela
  um monstro. Ser Helena esse monstro? Se o fosse, eu desesperaria da natureza
  humana. No! essa casa, onde a viste entrar,  com certeza asilo de misria: o
  que ela a vai levar  a esmola e a compaixo.

Um raio de esperana alumiou a
  fronte de Estcio. O raciocnio do padre era exato, e por mais perigosa que
  fosse a situao revelada por ele, j agora no se podia desejar outra coisa; a
  dignidade da famlia ficava intacta. Estcio refletiu largo tempo no que
  acabava de ouvir. Mas a esperana foi curta, embora a necessidade dela fosse
  grande.

-- Helena continua recolhida?
  perguntou o padre.

Estcio fez um leve sinal
  afirmativo.

-- Falar-lhe-ei amanh; por hoje
  convm no dizer palavra nem deixar transpirar coisa nenhuma.

Dizendo isto, Melchior recolheu-se
  ao silncio, como se refletisse ainda alguma coisa. Estcio erguera-se e
  entrara a passear lentamente. De quando em quando, apertava a cabea entre as
  mos; tantas comoes bastavam para atordoar mais forte esprito. O mistrio o
  cercava de todos os lados. Ele ia at  janela, da at  porta, intercalando
  as reflexes interiores com sacudimentos nervosos do brao ou da cabea. A
  intervalos, olhava a furto e de travs para o capelo, como o criminoso olha
  para a conscincia; no podia evitar o sentimento de terror, e ao mesmo tempo
  de respeito, que lhe infundia aquele investigador exato e profundo de seus
  sentimentos mais recnditos e inacessveis. Ruminava o que o padre lhe dissera;
  cada minuto lhe ia tornando mais clara a verdade revelada, e o que era obscuro
  fizera-se-lhe enfim transparente.  assim que a luz de um astro, acesa desde
  sculos, chega finalmente a ferir a retina de nossos olhos mortais.

Uma vez, interrompendo os passos,
  ergueu os olhos para o retrato do conselheiro. No os retirou aterrado; cravou-os
  com ar de reproche e de amargura, em que o padre reparou, e que o fez sorrir
  tristemente. O olhar do filho pedia contas ao pai.

-- Paz aos mortos! Observou
  Melchior. Os atos de seu pai j no pertencem  jurisdio deste mundo.

Melchior proferiu estas palavras
  j de p.

-- O Dr. Camargo, disse ele mudando
  de tom, deve chegar um dia destes, segundo anuncia. H alguma razo para
  demorar o casamento?

-- Nenhuma.

-- Convm realiz-lo imediatamente?

-- Imediatamente.

Melchior caminhou para a porta. Ia
  dar volta  chave e deteve-se.

-- Antes de nos separarmos, disse
  ele, desejo a promessa de que no falars a Helena antes de amanh.

-- Prometo.

O padre refletiu um instante;
  Estcio pareceu adivinh-lo.

-- Quer ainda outra promessa?
  perguntou ele. Quer que a evite de todos os modos?

-- Sim; que a considere com pessoa
  totalmente estranha.

-- Poderia ser de outra maneira?
  observou melancolicamente Estcio. Os sucessos destes dias so, por enquanto ao
  menos, uma barreira entre ela e sua famlia. Demais, eu seria destitudo de
  todo o senso moral...

-- Juras?

-- Juro.

Melchior desabrochou a camisa, e
  aventou um crucifixo de marfim, que lhe pendia de uma fita preta, ao pescoo.

-- Este, disse ele com voz singela,
   a efgie do teu Deus. To puro exemplo de castidade no viram os sculos nem
  antes nem depois que ele desceu  Terra. Jura o que me prometes.

-- Padre-mestre, retorquiu Estcio;
  minha palavra era bastante. Mas, se  preciso afirmao mais solene, eu a darei
  tal qual me pede.

Estcio inclinou a cabea sobre o
  crucifixo e beijou-o respeitosamente; depois beijou a mo ao Padre Melchior
  abenoou-o e saiu.

Saindo do gabinete de Estcio,
  dirigiu-se para a sala de costura, onda achou D. rsula um pouco menos agitada.

-- Falou a Helena? perguntou ela,
  dirigindo-se ao padre.

-- Ainda no; sei que no quer sair
  do quarto; deixemos passar a primeira comoo. Amanh virei saber tudo. Por
  hoje  preciso que a senhora sossegue.

-- Oh! estou sossegada! No perdi a
  confiana.

D. rsula proferiu estas palavras
  com tamanha serenidade e to profunda convico que fortaleceu o esprito do
  prprio Melchior, alis, no inclinado a crer no mal. O ancio deteve-se alguns
  instantes a contemplar o rosto plcido de D. rsula, a admirar a fora secreta
  que a tornava surda ao clamor da realidade, -- pelo menos, da realidade
  aparente. Contemplou-a silencioso, e desceu  chcara.

CAPTULO XXIV

A noite era escura. Calcando a terra
  e a areia das largas calhes da chcara, Melchior, em sua imaginao, refloria o
  passado, nem sempre feliz, mas geralmente quieto. Mais de uma vez buscara
  dissipar a sombra pesarosa que alguns erros do conselheiro acumularam na fronte
  da consorte. Haveria naquela casa uma gerao de dores, destinadas a abater o
  orgulho da riqueza com o irremedivel espetculo da debilidade humana?

-- No, dizia ele consigo mesmo. A
  verdade  que tudo se encadeia e desenvolve logicamente. Jesus o disse: no se
  colhem figos dos abrolhos. A vida sensual do marido produziu o infortnio
  calado e profundo daquela senhora, que se foi em pleno meio-dia; o fruto h de
  ser to amargo como a rvore; tem o sabor travado de remorsos.

Neste ponto chegava ao porto. A
  deteve-se um instante. O passo cauteloso e tmido de algum f-lo voltar a
  cabea. Um vulto, cujo rosto no via, to escuro como a noite, ali estava e lhe
  tocava respeitosamente as abas da sobrecasaca. Era o pajem de Helena.

-- Seu padre, disse este, diga-me
  por favor o que aconteceu em casa. Vejo todos tristes; nhanh Helena no
  aparece; fechou-se no quarto... Me perdoe a confiana. O que foi que aconteceu?

-- Nada, respondeu Melchior.

-- Oh!  impossvel! Alguma coisa
  h por fora. Seu padre no tem confiana em seu escravo. Nhanh Helena est
  doente?

-- Sossega; no h nada.

-- Hum! gemeu incredulamente o
  pajem. H alguma coisa que o escravo no pode saber; mas tambm o escravo pode
  saber alguma coisa que os brancos tenham vontade de ouvir...

Melchior reprimiu uma exclamao.
  A noite no lhe permitia examinar o rosto do escravo, mas a voz era dolente e
  sincera. A idia de interrog-lo passou pela mente do padre, mas no fez mais
  do que passar; ele a rejeitou logo, como a rejeitara algumas horas antes.
  Melchior preferia a linha reta; no quisera empregar um meio tortuoso. Iria
  pedir a Helena a soluo das dificuldades. Entretanto, o pajem, como
  interpretasse de modo afirmativo o silncio do sacerdote, continuou:

-- Nhanh Helena  uma santa. Se
  algum a acusa, acusa o bom procedimento dela. Eu lhe direi tudo...

Melchior ia recusar, mas um
  incidente interrompeu a palavra do pajem, contra a vontade deste, e talvez
  contra o desejo de Melchior. Ouviram-se passos; era um escravo que vinha fechar
  o porto.

-- Vem gente, disse Vicente;
  amanh...

O pajem tateou nas trevas em
  procura da mo do padre; achou-a, enfim, beijou-a e afastou-se. Melchior seguiu
  para casa, abalado com a meia revelao que acabava de ouvir. Outro qualquer podia
  duvidar um instante da sinceridade do escravo; podia supor que o ato dele era
  menos espontneo do que parecia; enfim, que a prpria Helena sugerira aquele
  meio de transviar a expectao e congraar os sentimentos. A interpretao era
  verossmil; mas o padre no cogitou de tal coisa. A ele era principalmente
  aplicvel a mxima apostlica: para os coraes limpos, todas as coisas so
  limpas.

A seguinte aurora alumiou um cu
  puro de nuvens. Estcio acordou com ela, depois de uma noite mal dormida. Nunca
  a manh lhe pareceu mais rumorosa e jovial; nunca o ar apresentara to fina
  transparncia nem a folhagem to lustrosa cor. Da janela a que se encostara,
  via as flores de todos os matizes, quebrando a monotonia da verdura, e
  enviando-lhe, a ele, uma nuvem invisvel de aromas; aspecto de festa e ironia
  da natureza. Estcio achava-se ali como um saimento em horas de carnaval.

Almoou sozinho; D. rsula estava
  com Helena. Logo depois do almoo, recebeu uma carta de Mendona, que, tendo
  ido na vspera a Andara recebera a resposta dada a todos, e mandava saber se
  havia molstia em casa. Estcio respondeu afirmativamente, acrescentando que,
  posto no se tratasse de coisa grave, s o esperava dois dias depois. A
  resposta podia ser mais circunspecta; no estado em que ele se achava,
  pareceu-lhe excelente.

Pela volta do meio-dia, chegou
  Melchior. Na sala de visitas achou D.rsula, que o espreitava de uma das
  janelas.

-- Helena? perguntou ele ansioso.

-- J hoje desceu, respondeu D.
  rsula. Est mais tranqila. No lhe perguntei nada, mas dizendo-lhe que o
  senhor viria falar-lhe, mostrou-se ansiosa por v-lo, e pediu-me at que o
  mandasse chamar.

Seguram os dois at  saleta que
  ficava ao p da sala de jantar. Helena estava sentada, com a cabea cada sobre
  as costas da cadeira, e os olhos metade cerrados. Logo que o padre entrou,
  Helena abriu os olhos e ergueu-se. Vivo e passageiro rubor coloriu-lhe as faces
  plidas da viglia e da aflio. Ergueu-se e deu dois passos para o padre, que
  lhe apertou as mos entre as suas.

-- Imprudente! murmurou Melchior.

Helena sorriu, um sorriso plido e
  to passageiro como a cor que lhe tingira o rosto. D. rsula disps-se a ir
  chamar Estcio, que estava no andar de cima. Apenas a viu sair, Helena segurou em
  uma das mos do padre.

-- Queria v-lo! disse ela. No
  tenho nimo de falar a ningum mais, de dizer tudo...

--  intil; tudo sei, interrompeu
  Melchior sorrindo. O Vicente foi hoje de manh  minha casa; foi de movimento
  prprio; relatou-me quanto sabia; disse-me que esse homem  seu irmo; que a
  senhora o ia ver, a ocultas, no podendo ou no querendo apresent-lo em casa
  de seus parentes. O escrpulo era excessivo, e o ato leviano. Por que motivo
  dar aparncia incorreta a um sentimento natural? Teria poupado muita aflio e
  muita lgrima, a si e aos seus, se tomasse antes o caminho direito, que 
  sempre o melhor.

Helena ouviu estas palavras do
  padre com a alma debruada dos olhos. No parecia sequer respirar. Quando ele
  acabou, perguntou sfrega:

-- Com que intento lhe falou ele?

-- Com o mais puro de todos;
  desconfiou que a senhora padecia e por isso veio contar-me tudo.

Helena cruzou os dedos e ergueu os
  olhos. Melchior no a quis interromper nessa ascenso mental ao cu; limitou-se
  a contempl-la. A beleza de Helena nunca lhe parecera mais tocante do que nessa
  atitude implorativa. A contemplao no durou muito, porque a orao foi breve.

-- Orei a Deus, disse ela, descendo
  as mos, porque infundiu a no corpo vil do escravo to nobre esprito de
  dedicao. Delatou-me para restituir-me a estima da famlia. Aquilo que ningum
  lhe arrancaria do corao, tirou-o ele mesmo no dia em que viu em perigo o meu
  nome e a paz de meu esprito. Infelizmente, mentiu.

Melchior empalideceu.

-- Mentiu sem o saber, continuou a
  moa. Disse o que supunha ser verdade, o que eu lhe dei como tal. No  meu
  irmo esse homem.

Melchior inclinou-se para a moa e
  pegando-lhe nos pulsos, disse imperiosamente:

-- Ento quem ? Seu silncio  uma
  delao; no tem j direito de hesitar.

No hesito, replicou Helena; em
  tais situaes, uma criatura, como eu, caminha direto a um rochedo ou a um
  abismo; despedaa-se ou some-se. No h escolha. Este papel, -- continuou,
  tirando da algibeira uma carta, -- este papel lhe dir tudo; leia e refira tudo
  a Estcio e a D. rsula. No tenho nimo de os encarar nesta ocasio.

Melchior, atordoado, fez um leve
  sinal de cabea.

-- Lido esse papel, esto rotos os
  vnculos que me prendem a esta casa. A culpa do que me acontece, no  minha, 
  de outros; aceitarei contudo as conseqncias. Poderei contar ao menos com a
  sua bno?

A resposta do padre foi pousar-lhe
  um beijo na fronte, beijo de absolvio ou de clemncia, que ela lhe pagou com
  muitos na destra enrugada e trmula de comoo. Helena precipitou-se depois
  para o corredor, deixando o padre s, com a carta nas mos, sem ousar abri-la,
  receoso dos males que iam dali sair, sem certeza ao menos de que ficaria no
  fundo a esperana. Ia abri-la, e hesitou se o devia fazer na ausncia de
  Estcio e D. rsula; venceu o escrpulo e leu.

D. rsula, que entrou na ocasio
  em que ele fechava a carta, recuou aterrada. Melchior estava plido como um
  defunto. Antes que nenhum deles falasse, entrou Estcio na saleta. Melchior
  dirigiu-se a ele e entregou a carta. Leu-a Estcio e dizia assim:

Minha boa filha. Sei pelo Vicente
  que alguma coisa a h que te aflige. Presumo adivinhar o que . O Estcio
  esteve comigo, logo depois que saste a ltima vez. Entrou desconfiado, e deu
  como razo ou pretexto a necessidade de curar algumas feridas feitas na mo.
  Talvez ele prprio as fizesse para entrar aqui em casa. Interrogou-me; respondi
  conforme pedia o caso. Supondo que ele soubesse de tuas visitas, no lhe
  ocultei a minha pobreza; era o meio de atribu-las a um sentimento de caridade.
  A virtude serviu assim de capa a impulsos da natureza. No  isso em grande
  parte o teor da vida humana? Fiquei, entretanto, inquieto; talvez lhe no
  arrancasse o espinho do corao. Pelo que me disse o Vicente, receio que assim
  acontecesse. Conta-me o que h, pobre filha do corao; no me escondas nada.
  Em todo caso, procede com cautela. No provoques nenhum rompimento. Se for
  preciso, deixa de vir aqui algumas semanas ou meses. Contentar-me-ia a idia de
  saber que vives em paz e feliz. Abeno-te, Helena, com quanta efuso pode
  haver no peito do mais venturoso dos pais, a quem a fortuna, tirando tudo, no
  tirou o gosto de se sentir amado por ti. Adeus. Escreve-me. -- Salvador. P.
    S. -- Recebi o teu bilhete. Pelo amor de Deus, no faas nada; no saias
  da; seria um escndalo.

Estcio no compreendeu desde logo
  o que acabava de ler. A verdade parecia inverossmil. O primeiro movimento foi
  sair dali e ir ter com Helena. Melchior deteve-o a tempo.

-- No precipitemos nada, disse
  ele. Sossegue primeiro.

Estcio deixou-se cair numa
  cadeira. Melchior comunicou o contedo da carta a D. rsula, cujo pasmo foi
  ainda mais profundo que o do sobrinho, porque ela no soltou uma palavra, no
  fez um gesto; ficou a olhar estupidamente para o papel. Houve ento entre
  aqueles trs personagens dez minutos de mortal silncio. D. rsula no pensava;
  olhava para a carta, logo depois para o sobrinho e o padre, como a esperar uma
  concluso que seu prprio esprito no podia deduzir dos acontecimentos.
  Estcio ficara desorientado; em vo procurava um fio de deduo entre as
  idias; a revelao nova era uma complicao mais. Se a carta era sincera, como
  explicar a declarao testamentria de seu pai? Se o no era, como explicar a
  audcia de semelhante inveno? Ele no podia discernir o que era favorvel a
  Helena, nem ousava afirmar o que lhe era adverso.

No meio daquela famlia, arriscada
  a dispersar-se, Melchior considerava a superioridade da morte sobre alguns
  lances terrveis da vida. Se o bito de Helena tomara o lugar da carta, a dor
  seria violenta, mas o irremedivel desfecho e o consolo da religio teriam
  contribudo para sarar a alma dos que ficassem e converter o desespero de
  alguns dias na saudade da vida inteira. Em vez disso, estava ele, talvez,
  diante de um destino aniquilado; via um abismo possvel entre coraes que a
  vontade de um morto vinculara. Qualquer que fosse a veracidade da carta, o
  resultado era talvez esse.

Melchior foi dali ter com Helena,
  para alcanar mais detida explicao do que acabava de ler. Ela ergueu-se
  quando o viu, e pareceu reviver ao contemplar o gesto benvolo com que ele lhe
  falou. Um longo suspiro de alvio rompeu-lhe do corao: os braos caram sobre
  os ombros do padre, em cujo seio escondeu o rosto e repousou enfim, -- um minuto
  -- das dores que a afligiam.

-- Perdoaram-me? Disse ela.

-- Ho de perdoar; conte-me tudo.

-- Oh! no posso, no sei; sei que
   meu pai.

O capelo no insistiu; voltou aos
  outros dois, a quem achou na posio em que os deixara. Interrogaram-no com os
  olhos.

-- Nada, disse ele. O corao dela
  no possui nesta ocasio a necessria fora para responder a quanto se lhe
  devia perguntar; demais no saber tudo. Temos a primeira confisso da
  verdade...

-- Da verdade? interrompeu
  melancolicamente Estcio. Quem sabe se  verdade o que lemos nesse papel?

-- , deve ser. Faltam-nos, 
  certo, os fundamentos da asseverao; mas eu incumbo-me de ir busc-los.

-- Iremos ambos.

D. rsula quis dissuadir o sobrinho
  de ir  casa do homem, causa dos desastres da famlia, no tanto porque lhe
  parecia que entre Estcio e ele nenhuma relao convinha estabelecer, mas
  sobretudo porque ela precisava de algum que a acompanhasse em to graves
  circunstncias. Melchior inclinou-se ao alvitre de D. rsula.

-- Irei eu s, disse ele; depois
  conduzi-lo-ei at c, se for preciso.

-- No posso esperar, insistiu
  Estcio; preciso falar a esse homem, ouvi-lo, ler-lhe a verdade ou o embuste
  nas linhas do rosto. Talvez o decoro da famlia exigisse outra coisa; mas,
  padre-mestre, meu corao goteja sangue...

Era impossvel dissuadi-lo:
  Melchior tratou somente de o moderar. De resto, a crise era violenta; cumpria
  resolv-la sem demora nem hesitao O padre animou D. rsula, e saiu
  acompanhado de Estcio, cujo corao, convalescido do primeiro abalo, deixava
  as regies da dvida para entrar na atmosfera da verdade, -- pelo menos da
  esperana. Quaisquer que fossem as conseqncias da nova revelao, vinha esta
  como um blsamo, aps to dolorosas comoes; era um rasgo azul no cu
  tempestuoso daqueles dias. Ia ele pensando assim, -- ou antes sentindo, -- porque
  o pensamento no ousava reg-lo, desde que a vida inteira do moo se lhe
  concentrara no corao.

Chegando  frente da casa, Estcio
  desviou os olhos; custava-lhe encar-la, mas venceu-se. Houve demora em abrir a
  porta; abriu-se esta enfim, e a figura do dono da casa apareceu aos dois.
  Vendo-os, empalideceu um pouco, mas um sorriso procurou disfarar a impresso.
  Estcio foi direito ao fim.

-- Suponho que se lembra de mim?
  disse ele.

-- Perfeitamente.

-- Sabe que motivo nos traz  sua
  casa?

-- No, senhor.

-- Confessa a autoria desta carta?

Salvador estremeceu; depois
  respondeu com um gesto afirmativo.

-- Pretende que Helena  sua filha,
  disse o moo depois de um instante. Confirma verbalmente o que escreveu?

-- Helena  minha filha.

Melchior interveio:

H um ano, falecendo, o meu velho amigo
  conselheiro Vale reconheceu Helena, por uma clusula testamentria: recomendava
   famlia que a tratasse com afeto e carinho e designava o colgio em que ela
  estava sendo educada. O fato do reconhecimento e as circunstncias que apontou,
  do toda a veracidade  palavra do morto. Que prova apresenta o senhor em
  contrrio a ela?

-- Nenhuma, disse Salvador; no
  tenho prova de nenhuma natureza.

-- Na falta de provas, prosseguiu o
  capelo, poderia dizer-nos como supor da parte do conselheiro uma falsificao,
  tratando-se de disposio to grave como essa de introduzir uma pessoa estranha
  na famlia?

Salvador sorriu amargamente.

-- Suponha, disse ele, que eu havia
  iludido a confiana do conselheiro, e que ele acreditava ser pai de Helena.

-- Era isso?

-- No era. Na posio em que nos
  achamos, j no h lugar para meias palavras. Fora  referir tudo. Dez minutos
  apenas.

Os trs sentaram-se. Melchior
  olhava para o dono da casa com a persistncia e a curiosidade naturais da
  ocasio. Salvador esteve alguns instantes calado; enfim, voltou-se para o
  capelo.

-- Estimo, disse ele, que o Sr.
  padre viesse; sua caridade temperar a legtima indignao deste moo; e eu
  farei as declaraes indispensveis na presena das duas pessoas a quem mais
  amo, abaixo de Helena.

-- Queira falar, disse secamente
  Estcio.

CAPTULO XXV

-- A me de Helena, disse Salvador,
  cuja beleza foi a causa, a um tempo, da sua m e boa fortuna, era filha de um
  nobre lavrador do Rio Grande do Sul, onde tambm nasci. Apaixonamo-nos um pelo
  outro. Meu pai ops-se ao casamento; tinha alguns bens, mandara-me estudar,
  queria ver-me em posio brilhante. ngela podia ser obstculo  minha
  carreira, dizia ele. Ops-se, e eu resisti; raptei-a; fomos viver na campanha
  oriental, donde passamos a Montevidu, e mais tarde ao Rio de Janeiro. Tinha
  vinte anos quando deixei a casa paterna; possua alguns estudos, poucos, meia
  dzia de pataces, muito amor e muita esperana. Era de sobra para a minha
  idade, mas insuficiente para o meu futuro. A lua-de-mel foi desde logo uma
  noite de privaes e trabalhos. Minha vida comeou a ser um mosaico de
  profisses; aqui onde me vem, fui mascate, agente do foro, guarda-livros,
  lavrador, operrio, estalajadeiro, escrevente de cartrio; algumas semanas vivi
  de tirar cpias de peas e papis para teatro. Trabalhava com energia, mas a
  fortuna no correspondia  constncia, e o melhor dos anos gastei-o em luta
  spera e desigual. Uma compensao havia, a mais doce de todas: era o amor e o
  contentamento de ngela, a igualdade do nimo com que ela encarava todas as
  vicissitudes. Pouco tempo depois da nossa fuga, havia outra compensao mais:
  era Helena. Essa menina nasceu em um dos momentos mais tristes da minha vida.
  Os primeiros caldos da me foram obtidos por favor de uma mulher da vizinhana.
  Mas nasceu em boa hora, e foi um lao mais que nos prendeu um ao outro. A
  presena de um ente novo, sangue do meu sangue, fez-me redobrar de energia. Trabalhava
  com alma, lutava resoluto contra todas as foras adversas, certo de encontrar 
  noite a solicitude da me e as ingnuas carcias da filha. Os senhores no so
  pais; no podem avaliar a fora que possui o sorriso de uma filha para
  dissolver todas as tristezas acumuladas na fronte de um homem. Muita vez,
  quando o trabalho me tomava parte da noite, e eu, apesar de robusto, me sentia
  cansado, erguia-me, ia ao bero de Helena, contemplava-a um instante e parecia
  cobrar foras novas. Se o prprio bero era obra de minhas mos! Fabriquei-o de
  alguns sarrafos de pinho velho; obra grosseira e sublime; servia a adormecer
  metade da minha felicidade na Terra.

Salvador interrompeu-se comovido.

-- Perdoem-me, continuou ele, depois
  de alguns instantes, se estas memrias me abalam o corao. Eu era pobre, to
  pobre como hoje. Desse tempo s resta um eco doloroso e consolador. Crescia
  Helena e cresciam suas graas. Era o encanto e a esperana do meu albergue.
  Quando pode aprender os rudimentos da leitura, dei-lhe as primeiras lies;
  assisti pasmado  aurora daquela inteligncia que os senhores vem hoje to
  desenvolvida e lcida. Aprendia com facilidade, porque estudava com amor.
  ngela e eu construamos os mais lindos castelos do mundo. Ns a vamos j
  mulher, formosa como viria a ser, porque j o era, inteligente e prendada,
  esposa de algum homem que a adorasse e elevasse. Vivamos dessa antecipao,
  que era apenas um sonho, e no sentamos os golpes da fortuna.

-- Por que razo, perguntou
  Melchior, dado esse amor e nascida uma filha, no santificou o senhor a
  situao em que se achavam?

-- A curiosidade  justa, replicou
  Salvador, mas a resposta  decisiva. Casar era a nossa justificao; era um
  argumento contra o ressentimento de meu pai. Nos primeiros dias da nossa fuga
  do Rio Grande, a prpria embriaguez da felicidade desviou qualquer idia de
  santificar e legalizar uma unio consentida pela natureza. Depois vieram os
  trabalhos e as necessidades. Como eu tinha certeza de no fugir ao dever que
  tomara em meus ombros, ia adiando o ato de ms para ms, de ano para ano.
  Afinal o projeto esvaiu-se de todo. Estvamos ligados pela misria e pelo
  corao, no pretendamos o respeito da sociedade; triste desculpa; e ainda
  mais triste recordao, porque o casamento teria talvez obstado os
  acontecimentos posteriores. Helena contava seis anos. Minha fortuna, adversa
  sempre, com intermitncias favorveis, parecia abrandar um pouco. Ia encetar um
  novo meio de vida, quando uma circunstncia grave me chamou ao Rio Grande. Meu
  pai adoecera; mandava-me o seu perdo, ordenando-me que o fosse ver sem demora.
  Obedeci prontamente. Do que ele me remeteu para as despesas de viagem e outras,
  deixei alguma coisa a ngela e Helena, e parti. Vinte e quatro horas depois de
  ver meu pai, tive a dor de o perder. A liquidao dos negcios foi curta; os
  bens todos ficaram pertencendo aos credores; restavam-me alguns pataces.
  Recebi esse golpe novo com a filosofia da insensibilidade. Quem sabe se no era
  eu o culpado do acontecimento? Os negcios entretanto, apesar de curtos,
  demoraram-me mais do que eu pretendia e convinha. A nsia de voltar cresceu,
  desde que no recebi a resposta das ltimas cartas que escrevi a ngela. Enfim,
  pude regressar ao Rio de Janeiro com um luto mais e uma esperana a menos.
  Neste ponto entra a pessoa de seu pai.

Estcio desviou os olhos.

-- Logo que cheguei, continuou
  Salvador, corri  casa; achei-a fechada. Um vizinho, testemunha da minha
  aflio, deu-me notcia de que ngela se mudara para So Cristvo. No sabia
  nem o nmero nem a rua; mas deu-me algumas indicaes que me guiaram. Ainda
  hoje tenho ante os olhos o sorriso com que aquele homem me respondia. Era um
  sorrir de compaixo que humilhava. Sem nunca haver recebido de mim a menor
  ofensa, vejo que ele tinha um prazer secreto com o meu infortnio. Por qu?
  Deixo aos filsofos liquidarem esse enigma da natureza humana. Voei a So
  Cristvo; gastei tempo em procurar a casa, mas dei com ela. Quando a vi,
  duvidei de meus olhos ou das indicaes. Era uma casa elegante, escondida entre
  o arvoredo, no meio de um pequeno jardim. Podia ser aquela a residncia da
  companheira de minha misria? Receoso de ir bater ali, vi assomar ao porto um
  homem, que me pareceu ser o jardineiro. Perguntei pela dona da casa, a quem dei
  o seu prprio nome, dizendo que lhe desejava falar. 'A senhora saiu',
  respondeu ele distraidamente. Dispus-me a esperar, mas o jardineiro observou-me
  que ia sair e fechar o porto, e que a senhora s voltaria  noite. 'Esperarei
  at  noite', redargi. O jardineiro mediu-me de alto a baixo, circulou um
  olhar cauteloso pela rua e disse-me baixinho: 'Aconselho ao senhor que no
  volte; o patro no h de gostar'. No escrevo um romance; dispenso-me de
  lhes pintar o efeito que produziram essas palavras. O que senti excede a toda a
  descrio. H catstrofes mais solenes, h situaes mais patticas; mas
  naquela ocasio parecia-me que todas as dores do mundo se tinham convergido
  para meu corao. O jardineiro era verdadeiramente compassivo; lendo em meu
  rosto o efeito de suas palavras, disse-me alguma coisa de que absolutamente no
  me lembro. Convidou-me com brandura a sair; obedeci maquinalmente. Podendo
  informar-me acerca de ngela, no o fiz. A febre reteve-me trs dias de cama,
  numa pobre cama alugada em pssima estalagem da Cidade Nova. No terceiro dia
  recebi uma carta de ngela. Pedia-me que lhe perdoasse o passo que dera; que
  uma paixo nova e delirante a havia guiado, e que, se viesse a arrepender-se,
  seria essa a minha vingana. Quando li a carta, tive mpeto de ir ter com ela e
  esgan-la; mas o mpeto passou, e a dor desfez-se em reflexes. Poucos dias
  antes, a bordo, um engenheiro ingls que vinha do Rio Grande para esta Corte,
  emprestara-me um volume truncado de Shakespeare. Pouco me restava do pouco
  ingls que aprendi; fui soletrando como pude, e uma frase que ali achei fez-me
  estremecer, na ocasio, como uma profecia; recordei-a depois, quando ngela me
  escreveu. 'Ela enganou seu pai, diz Brabantio a Otelo, h de enganar-te a
  ti tambm".Era justo; pelo menos, era explicvel. Dois dias depois da carta de
  ngela, escrevi-lhe pedindo meia hora de conversao; nada mais. ngela
  concedeu-me a entrevista. Meu plano era arrebatar-lhe Helena; ela parece que o
  previu, recebendo-me sozinha, no jardim, s nove horas da noite.

-- Por que razo recorda todas
  essas mincias? interrompeu Melchior com brandura; ns desejamos somente saber
  o essencial.

-- Tudo  essencial na minha
  narrao, disse Salvador. Aquela entrevista mostrou-me a toda a luz o carter
  de ngela. Que outra mulher se arriscaria, em tais circunstncias, a afrontar a
  clera do homem desprezado? ngela era um complexo de qualidades singulares.
  Capaz de suportar as maiores angstias, forte e risonha no meio das mximas privaes,
  esqueceu num instante as virtudes que tinha para correr atrs de uma fantasia
  de amor. No foi a riqueza que a seduziu; ela iria, ainda que tivesse de trocar
  a riqueza pela misria. ngela nasceu metade freira e metade bailarina; capaz
  das austeridades de um claustro, no o era menos das pompas da cena. E da...
  no fui eu mesmo que a desviei da estrada real para met-la por um atalho
  obscuro? Disse-lho naquela noite em que procurei ser tranqilo e superior aos
  acontecimentos. 'Meu fim, declarei eu,  s um: levar Helena; Helena 
  minha filha, no quero deix-la entregue a seus maus exemplos".As lgrimas com
  que me banhou as mos, as rogativas que me fez, ajoelhada a meus ps, para que
  lhe deixasse Helena, no h negar que foi tudo sincero. Cedi aparentemente.
  Minha resoluo estava assentada; sem Helena, a vida parecia-me impossvel. Que
  outro vnculo me prendia ao mundo? A morte e a misria tinham feito em redor de
  mim completa solido. A nica felicidade sobrevivente era ela.

-- Segundo rapto, observou o padre.
  O senhor condenava-se a s adquirir um vislumbre de felicidade por meios
  violentos.

-- Tem razo, respondeu Salvador
  com tristeza; um abismo chamava outro abismo. Felizes os que sabem o caminho
  reto da vida e nunca se arredaram dele! Quis arrebatar Helena; espreitei-a
  noite e dia. No a via nunca; a prpria casa rara vez tinha uma porta ou janela
  aberta. Havia ali o recato e o mistrio. Um dia resolvi ir ter com o protetor
  de ngela. A notcia que me deram do conselheiro Vale era a mais honrosa do
  mundo. Assentei que me ouviria e cederia a meus justos rogos. O demnio do
  orgulho impediu a execuo do plano. Quase a entrar em casa do conselheiro,
  recuei. Decorreram assim cerca de dois meses. Emagreci; as longas viglias
  fizeram-me plido; o trabalho no me atraa; cheguei a padecer fome. O poeta
  que disse que a saudade  um pungir delicioso, no consultou meu corao.
  Acerbo o achei eu;  certo que a ela misturava-se a clera, a clera da
  impotncia e o desgosto mortal do abandono. Um dia, dirigi-me para So
  Cristvo, disposto a empregar a violncia, contanto que trouxesse Helena ou
  fosse dali para o Aljube. Era  tardinha. Aproximei-me do jardim de ngela,
  ouvi a voz de minha filha. Era a primeira vez depois de longos meses! Parou-me
  o sangue todo. Passado o primeiro abalo, caminhei cauteloso, encostado  cerca;
  Helena falava a algum. Por uma abertura da cerca, pude espreit-la. Estava ao
  colo de um homem. Esse homem era o conselheiro. Olhei para um e outro; ora para
  o meu rival, ora para a minha Helena. Helena acariciava as barbas dele; este
  sorria para ela com um ar de ternura, que o absolvia quase da ofensa a mim
  feita. O corao, porm, apertou-se-me, ao ver dar a outros afagos a que s eu
  tinha direito. Era um roubo feito  natureza; mas, se meu prprio sangue me
  repudiava, que podia eu exigir de alheios coraes? Da a algum tempo, -- no
  sei se foi curto ou longo, porque eu ficara a olhar para ambos, pasmado de amor
  e de clera, ouvi que falavam de mim. 'Mas, olhe, dizia Helena, papai quando
  vem?' O conselheiro deu um beijo na menina, e falou de uma borboleta que
  nesse momento pairava sobre a cabea dela. As crianas, porm, so implacveis;
  aquela repetiu a pergunta. 'Papai no volta', respondeu o
  conselheiro. Helena ficou sria. 'No volta? por que?' 'Tua
  mame disse ontem que papai est no cu'. Helena levou as mos aos olhos,
  donde lhe rebentaram lgrimas copiosas. Uma nuvem passou-me pelos olhos...
  tentei dar alguns passos, entrar no jardim, dizer quem era e exigir minha
  filha. Os msculos no corresponderam  inteno; senti fraqueza nas pernas;
  achei-me de bruos. Quando dei acordo de mim, volvi de novo os olhos para o
  lugar onde os vira. Ainda ali estavam, mas a atitude era diferente. O
  conselheiro erguera-se, tendo nos braos Helena, que j no chorava. Ele
  beijava-lhe as mozinhas e dizia-lhe: 'Se papai foi para o cu, fiquei eu
  no lugar dele, para dar-te muito beijo, muito doce e muita boneca. Queres ser
  minha filha?' A resposta de Helena foi a do nufrago; estendeu-lhe os
  braos em volta do pescoo, como se dissesse: 'Se no tenho ningum mais
  no mundo!' O gesto foi to eloqente que eu vi borbulhar uma lgrima nos
  olhos do conselheiro. Essa lgrima decidiu do meu destino; vi que ele a amava,
  e de todos os sacrifcios que o corao humano pode fazer, aceitei o maior e
  mais doloroso: eliminei a minha paternidade, desisti da nica herana que tinha
  na Terra, fora da minha juventude, consolo de minha misria, coroa de minha
  velhice, e voltei  solido mais abatido que nunca!

Salvador interrompeu a narrao;
  levou a mo direita aos olhos; por entre seus dedos escorreram algumas
  lgrimas, que ele, de envergonhado, enxugou rapidamente.

-- Essas recordaes so penosas,
  disse o padre; no convm despert-las de uma vez; seria abrir feridas que o
  tempo cicatrizou. Sabemos o essencial...

-- No, resta ainda alguma coisa,
  disse Salvador.

Estcio erguera-se. Visivelmente
  comovido, procurava lutar contra o sentimento que o dominava, a fim de
  conservar a necessria independncia de esprito para julgar da narrativa e do
  alcance que ela podia ter. Tinha involuntariamente apertado a mo de Salvador,
  ao escutar-lhe as ltimas palavras; e arrependera-se desse primeiro movimento,
  que podia parecer uma absolvio sumria. A verdade  que ele no refletia nem
  sentia claramente: a mente e o corao eram um campo de idias e comoes
  contrrias.

-- Vou acabar, disse Salvador,
  depois de alguns minutos. Resta explicar o procedimento de Helena.

CAPITULO XXVI

-- Seu pai, continuou Salvador dirigindo-se
  a Estcio, que, para acabar de compor o rosto, tinha ido at  janela e voltara
  a sentar-se, -- seu pai era honrado e cavalheiro. Arrebatando-me ngela, no me
  traiu, porque no me vira nunca; no contribuiu diretamente para a traio
  dela, porque supunha cortadas nossas relaes. Soube depois que ngela, quando
  eles se apaixonaram um pelo outro, lhe ocultara completamente o motivo da minha
  viagem; dera-se como separada de mim. Mentiu, como mentiu mais tarde, dizendo
  que eu havia morrido. O conselheiro no sabia sequer o meu nome. A mentira no
  primeiro caso no teve fim nenhum; no houve clculo; foi uma sugesto de amor
  ou um esquecimento; foi, talvez, um modo de respeitar-me; no segundo caso,
  houve clculo: era o de redobrar o afeto que o conselheiro tinha a Helena.
  Assim aconteceu, porque o conselheiro sentiu-se pai de Helena, e assumiu esse
  carter desde aquela tarde. Do contrato, feito ali entre o homem e a criana,
  cumpriu ele todas as clusulas com generosa pontualidade. Pode crer que lhe fiquei
  profundamente grato. Uma vez, passando por uma litografia, vi um retrato dele;
  comprei-o e conservo-o ali ao lado do de Helena.

Melchior e Estcio olharam para a
  parede, onde pendiam dois quadrinhos, ainda cobertos, conforme Estcio os vira,
  no primeiro dia em que ali foi.

-- Os meses e os anos passaram,
  continuou Salvador. Helena deu entrada em um colgio de Botafogo, onde recebeu
  apurada educao. O conselheiro a levou ali, dando-a como rf de um amigo de
  Minas; ngela, que se dera por sua tia, ia busc-la aos sbados. Omito mil
  circunstncias intermedirias, e as vezes, poucas, em que pude ver minha filha,
  de passagem e a ocultas. Se o tempo houvesse produzido em mim os seus naturais
  efeitos, se a natureza no se ajustasse em fazer contraste com a fortuna,
  conservando-me o vigor e o vio da mocidade,  possvel que eu achasse meio de
  empregar-me no colgio ou nas imediaes, a fim de ver mais freqentemente
  Helena. Mas eu era o mesmo; passado o primeiro abalo, voltaram-me as carnes,
  voltou-me a cor, e eu era o mesmo que antes de partir para o Rio Grande. Helena
  podia reconhecer-me; e eu faltava  conveno tcita que fizera com o
  conselheiro. Um sbado, porm, tinha Helena doze anos, vindo ambas do colgio,
  parou o carro defronte do Passeio Pblico. Vi-as descer e entrar. Levado por um
  impulso irresistvel, entrei tambm. Queria contempl-las de longe, sem lhes
  falar; mas a resoluo estava acima das minhas foras. Que pai no faria outro
  tanto? No lugar mais solitrio do Passeio, corri para Helena. Vendo-me, a
  menina pareceu no reconhecer-me logo; mas atentou um pouco, recuou espavorida
  e agarrou-se  me, abraando-a pela cintura. Conheci que no estava ali um
  pai, mas um espectro que regressava do outro mundo. Ia afastar-me, quando ouvi
  a voz de Helena perguntar  me: 'Papai?' Voltei-me. ngela envolvera
  o rosto da criana entre os vestidos. O gesto equivalia a uma confisso; mas
  esta foi ainda mais clara quando a me, cedendo  boa parte da sua natureza,
  ergueu resoluta os ombros, descobriu rosto da filha, pousou-lhe um beijo na
  testa, fitou-a e fez com a cabea um gesto afirmativo. A menina no exigiu
  mais; correu para mim e atirou-se-me nos braos. ngela no se atreveu a
  impedir o movimento da filha; o passado e o sacrifcio falavam em meu favor.
  Abracei Helena e beijei-a como doido. ngela interveio: 'Basta!'
  disse ela. Pegou na mo da filha e estendeu-me a sua. Apertei-a maquinalmente;
  meus olhos estavam pregados na criana. Era to gentil, com o vestido rico que
  trazia, os cabelos enlaados com fitas azuis, um chapelinho de palha e os
  pezinhos calados com botinas de seda! 'Fez bem, disse eu a ngela, depois
  de alguns instantes; deu-lhe um pai melhor do que eu".Reparei ento que ela
  prpria se transformara; trajava com elegncia e estava superiormente bela. A
  abastana aperfeioara a natureza. Olhei-a sem inveja nem clera, -- mas com
  saudade, -- dessa vez deliciosa, porque rememorei os bons tempos da nossa
  ebriedade e loucura. O passado  um peclio para os que j no esperam nada do
  presente ou do futuro; h ali sensaes vivas que preenchem as lacunas de todo
  o tempo. 'Fez mal', disse-me ela baixinho. E suspirou.'Sei que
  morri, disse eu, e no pretendo ressuscitar".Depois voltei-me para Helena: --
  'Minha filha, faze de conta que no me viste; morri para ti e para o
  mundo. Teu pai  outro. Prometes que no dirs nada?' Helena fez um leve
  sinal de cabea e beijou-me a mo a furto, como se no quisesse ser vista de
  ngela. Nesse simples gesto reconheci que ela ia obedecer-me; mas a tristeza
  que lhe ficou, foi o castigo de sua me. Pedamos  natureza mais do que ela
  podia dar.

Salvador fez uma pausa, ergueu-se,
  foi  cmoda, e de uma das gavetas tirou uma caixinha, que colocou sobre a
  mesa. Melchior e Estcio trocaram um olhar de curiosidade. Salvador sentara-se
  de novo.

-- ngela morreu, prosseguiu ele,
  da a um ano. Seu pai e alguns amigos, poucos, foram lev-la  sepultura.
  Tambm eu l me achei. A diferena  que ele enterrava uma aventura, e eu via
  enterrar o meu passado. Vi-o triste e taciturno, como sinceramente pesaroso da
  criatura que perdera. Helena, entretanto, no podendo estar s na mesma casa,
  foi removida para o colgio, onde ficou residindo definitivamente. O
  conselheiro ia visit-la todas as semanas. Pela minha parte, certo da descrio
  de minha filha, encetei com ela uma correspondncia que era toda a consolao
  que me podia caber. Uma escrava do colgio servia de intermediria entre ns.
  Ento como hoje, achei uma alma compassiva que me ajudou a ser feliz com
  mistrio; a diferena  que naquele tempo era precisa a interveno pecuniria.
  Eu tinha pouco, mas dava o jantar de um dia para ler as cartas de Helena.
  Conservo-as todas, tanto as de outrora como as destes ltimos meses; esto
  fechadas aqui.

Salvador mostrou a caixinha que
  colocara sobre a mesa.

-- Um dia, almoando em um
  botequim, li a notcia da morte do conselheiro. O fato consternou-me; mas eu
  peo licena para lhes dizer tudo: de envolta com o sentimento de pesar, houve
  em mim alguma coisa semelhante a uma satisfao. Respirava enfim! O contrato
  expirava com ele; eu ia entrar na posse de minha filha. No escrevi desde logo
  a Helena; fi-lo ao cabo de alguns dias. Tive duas respostas: a primeira era no
  sentido da minha carta; a segunda anunciava-me que o conselheiro a reconhecera
  por testamento. Podia procurar e ler-lhes a segunda carta:  um documento da
  elevao dos sentimentos daquela menina. Exprimia-se com a maior gratido e
  saudade a respeito do conselheiro; mas negava-se a aceitar o favor pstumo.
  Sabendo a verdade, no queria escond-la ao mundo. Aceitando o reconhecimento,
  entendia que prejudicava direitos de terceiro, alm de repudiar-me solenemente,
  o que no queria fazer desde que adquiria a liberdade de ao. Entre a herana
  e o dever, dizia ela, escolho o que  honesto, justo e natural. Esta carta
  tirou-me o sono uma noite inteira, perplexo como fiquei entre o ato do finado e
  a resoluo da herdeira. Que mo invisvel tocara no corao do conselheiro
  essa corda de sensibilidade? Melhor fora que ele houvesse traduzido em uma
  simples lembrana a afeio que tinha a Helena. Longo tempo refleti nisso; o
  pai lutava com o pai. T-la comigo era a minha ventura, o meu sonho, a minha
  ambio; era a realidade que eu chegara a tocar com as mos. Mas, podia at-la
  ao carro decrpito da minha fortuna, dar-lhe o po amargo de todos os dias? A
  famlia do conselheiro ia afianar-lhe futuro, respeito, prestgio; a lei ia
  ampar-la. Perguntei a mim mesmo se, depois de haver morrido para o mundo, me
  era lcito ressuscitar para reclamar e reaver um ttulo de que me havia
  despojado; finalmente, se possua j o direito de fazer um escndalo. Estas
  reflexes, se viessem ss, teriam triunfado desde logo; mas, em oposio a
  elas, vieram as sugestes do corao. Adverti que, cedendo  vontade do morto,
  cavaria um abismo entre mim e Helena, e que no mais, ou s raramente e a
  ocultas, podia desfrutar a felicidade de lhe dizer que a amava, de ouvir a
  mesma palavra de seu corao. Nessa luta gastei trs longos dias. Helena
  escreveu-me outra carta, insistindo na resoluo que dizia haver tomado.
  Urgindo responder-lhe, fi-lo sacrificando-me. No a convenci. Procurei ter uma
  entrevista com ela. No era fcil; mas o interesse venceu tudo; a escrava
  intermediria aumentou o preo da complacncia. O que se passou entre ns no o
  poderei repetir agora; curto era o prazo concedido, mas a luta foi renhida e
  longa. Busquei persuadi-la com reflexes e splicas; ela resistiu com
  indignao e lgrimas. A nobre alma repudiava a cumplicidade e o lucro de uma
  usurpao. Eu no via usurpao, porque a meus olhos nem os interesses da
  famlia do conselheiro, nem as noes da simples moral prevaleciam; eu via
  minha filha e seu futuro: nada mais. Talvez os culpados desse meu proceder
  fossem somente ngela e seu benfeitor. Eles me acostumaram a am-la de longe, a
  no disputar a outrem o benefcio que ela recebia. Enfim, meu corao, egosta
  e ulcerado, entendia que o reconhecimento daquela pobre criana era o simples
  retorno das carcias de que eu havia sido defraudado; tais foram os motivos da
  minha conscincia. Helena resistiu at  ltima; cedeu somente  necessidade da
  obedincia,  imagem de sua me que eu invoquei, como um supremo esforo, 
  fiana que lhe dei de que a acompanharia sempre, de que iria viver perto dela,
  onde quer que o destino a levasse; cedeu exausta, sem convico nem fervor. Se
  nesse ato decisivo de Helena h culpa,  toda minha, porque eu fui o autor
  nico; ela no passou de simples instrumento, instrumento rebelde e passivo.
  Seu erro foi no ter a prudncia necessria para no transpor o abismo que nos
  separava. Eu devia contar com as resolues sbitas e prontas dessa menina; h
  ali uma costela de sua me. Mandando-lhe dizer, com. as indicaes precisas,
  onde morava, estava longe de esperar que ela viesse ver-me. A princpio fiquei
  aterrado com as possveis conseqncias; mas se o homem se habitua ao mal e 
  dor, por que se no h de acostumar ao prazer e ao bem? Helena veio mais vezes;
  o gosto de a ver fez olvidar o perigo, e eu bebi, em horas escassas e furtivas,
  a nica felicidade que me restava na Terra, a de ser pai e a de me sentir amado
  por minha filha.

CAPTULO XXVII

Tinha acabado; grossas lgrimas,
  retidas a custo enfim lhe rebentaram dos olhos e rolaram pelo rosto abaixo do
  narrador. A comoo no ficou s nele; os dois ouvintes a sentiram tambm.
  Acabara; e o pior que podia acontecer, era isso mesmo. Uma vez finda a
  narrao, ficaram os dois calados e perplexos, sem que ousassem contradiz-lo.
  Depois de curta pausa, Salvador rematou assim:

-- De tudo o que lhes disse no
  tenho outras provas alm destas cartas, que seriam bastante, e de minhas
  lgrimas, que ho de ser eternas. Mas, ainda quando haja outras, creio que no sero
  precisas. Na situao em que estamos, s h duas solues possveis; ou nada se
  altera do que o conselheiro estatuiu, e somente eu carregarei as conseqncias
  da sorte, desaparecendo; ou a famlia rejeita Helena, e eu a levarei comigo.
  Dir-se- que a lei a protege a todo transe? Pois ela assinar todas as
  desistncias necessrias...

Estcio cortou-lhe a palavra,
  dizendo que oportunamente lhe dariam resposta. Saram logo depois; no trocaram
  uma s palavra; cada um deles ia absorto. Contudo, o padre observava de quando
  em quando o sobrinho de D. rsula, buscando adivinhar-lhe os pensamentos.

Chegando  porta da chcara, o
  padre perguntou ao moo:

-- Que pretende fazer?

-- No sei ainda.

-- Sei eu o que deve fazer: nada.

-- Conservar esta situao?

-- Decerto. Helena obedeceu 
  vontade de seus dois pais, aceitando o equvoco em que ambos a vieram colocar.
  Obedeceu  fora. Agora, est reconhecida;  um fato que no podemos discutir
  nem alterar.

Estcio esteve silencioso alguns
  instantes.

-- Mas, posso eu,  vista do que
  acabamos de ouvir, conservar a Helena um ttulo que rigorosamente lhe no
  pertence? Helena no  minha irm;  absolutamente estranha  nossa famlia; o
  ttulo que nos ligava, desaparece. Por que motivo continuaramos ns uma
  falsificao...

-- De seu pai? atalhou Melchior.

-- Padre-mestre!

-- Aquele homem falou verdade; mas
  nem a lei nem a Igreja se contentam com essa simples verdade. Em oposio a
  ela, h a declarao derradeira de um morto. A justia civil exige mais do que
  palavras e lgrimas; a eclesistica no extingue, com um trao de pena, a
  afirmao pstuma. Demais, no se espera que esse homem reproduza perante
  ningum as declaraes de h pouco; s o far quando perder a ltima esperana.
   evidente que ele nada quer alterar do que se pai estabeleceu, e antes se
  sacrificar do que envergonhar a filha. Sente-se disposto a fazer o que ele
  recusa?

Estcio no respondeu; tinham
  entrado na chcara, e caminhavam lentamente na direo da casa. Melchior
  deteve-o.

-- Estcio! disse o padre, depois
  de olhar para ele um instante. Compreendo, quisera despojar Helena do ttulo
  que seu pai lhe deixou, para lhe dar outro, e lig-la  sua famlia por
  diferente vnculo...

Estcio fez um gesto como
  protestando.

-- Esquece duas coisas graves: o
  escndalo e o casamento de um e outro; j se no pertence, nem ela se pertence
  a si. Vamos l; seja homem. Sepultemos quanto se passou no mais profundo
  silncio, e a situao de ontem ser a mesma de amanh.

Quando Estcio e Melchior entraram
  em casa, j D. rsula sabia tudo; lograra desatar a lngua de Helena. Abatida
  com a leitura da carta, no lhe levantara o nimo a narrao verbal da moa;
  preferia talvez que Helena fosse verdadeiramente filha do conselheiro. Alguns
  meses de espao e a convivncia afetuosa produziram a diferena de sentimento
  entre o primeiro e o ltimo dia.

-- Nada podemos fazer j agora,
  disse o padre; provocaramos um escndalo sem esperana do resultado.

D. rsula fez um gesto de
  assentimento. Chamada a ouvi-los, Helena desceu da a alguns minutos. A cor da
  vergonha tingiu-lhe a face, logo que ela deu com Estcio, que a esperava, ao
  lado de Melchior, ambos calados, mas sem nenhum vislumbre de irritao. Aps um
  silncio longo e abafado, Estcio comunicou a Helena a resoluo da famlia e
  seus sentimentos de generosidade e confiana; concluiu dizendo que, sobre todas
  as coisas, prevalecia a vontade derradeira de seu pai. Helena empalideceu e
  cerrou os olhos; D.rsula correu a ampar-la. O organismo debilitado pelas
  viglias e comoes das ltimas horas no pudera resistir; mas o delquio foi
  leve e curto. Voltando a si, Helena beijou ardentemente as mos de D. rsula e
  as do padre, estendeu a sua a Estcio, que a apertou; depois, com voz trmula,
  disse:

-- Meu corao ficar eternamente
  grato ao resto de estima que no perdi; a situao mudou, e fora  mudar com
  ela. No quero a proteo da lei, nem poderia receber a complacncia de
  coraes amigos. Cometi um erro, e devo expi-lo. Enquanto a vergonha vivia s
  comigo, era possvel continuar nesta casa; eu atordoava-me para esquec-la; mas
  agora que  patente, v-la-ei nos olhos de todos e no sorriso de cada um.
  Peo-lhes que me perdoem e me deixem ir! No devera ter entrado,  certo. Expio
  a fraqueza de um corao que eu me habituara a amar de longe, com o prestgio
  do mistrio e o encanto do fruto proibido. De hoje em diante, am-los-ei de
  longe ou de perto, mas estranha... e perdoada!

Dizendo isto, Helena abraou D.
  rsula, como a pedir o benefcio da sua interveno. D. rsula abraou-a
  igualmente, mas fez com a cabea um gesto negativo. Melchior observou que a
  repulsa era pelo menos um sintoma de desprendimento pouco explicvel em relao
   famlia que, sem embargo dos ltimos sucessos, no lhe retirara a estima nem
  a proteo.

-- Herdou o orgulho do pai!
  murmurou Estcio.

A frase foi dita em voz baixa, mas
  Helena ouviu-a, e seus olhos fulgiram de momentnea satisfao. Atribuir a
  orgulho o que era vergonha e remorso, dava-lhe certa superioridade que a moa
  julgava no ter naquele lance. Protestou em favor de seus sentimentos de
  gratido, com a palavra viva, animada, cordial que todos trs lhe conheciam,
  interrompida a intervalos pela comoo interior, e pelas lgrimas que lhe
  escorriam dos olhos, quase exaustos de chorar. Estcio ps termo a todas as
  hesitaes.

-- Pois bem, disse ele, ser isso
  mais tarde; a lei  por ns; e nossa vontade  que nos obedea.

Helena mordeu o lbio com
  desesperao, mas no respondeu. A cabea descaiu-lhe lentamente como ao peso
  de uma idia, a mais e mais opressora. Depois, ergueu-a; os olhos tristes, mais
  animados dos ltimos raios de uma esperana, dirigiram-se para os de Estcio,
  que nessa ocasio pareciam falar as dores todas da paixo sufocada e rebelde.
  Ambos eles os baixaram  terra, medrosos de si mesmos.

-- No creio que ela aceite
  facilmente a sua deciso, disse Melchior a Estcio, logo que pde achar-se s
  com ele. Acautele-se;  capaz de fugir-nos.

-- Cr?

-- No a conhece ainda? A posio em
  que estes acontecimentos a deixaram, repugna-lhe mais que tudo. Prefere a
  misria  vergonha, e a idia de que interiormente no a absolvemos,  o verme
  que lhe fica no corao.

De noite, recebeu Estcio uma
  carta de Salvador, acompanhada de um pacote.

"Refleti muito durante estas duas
  horas, dizia ele, e cheguei a uma concluso nica. Elimino-me.  o meio de
  conservar a Helena a considerao e o futuro que lhe no posso dar. Quando esta
  carta lhe chegar s mos, terei desaparecido para sempre. No me procure, que 
  intil. Irei abeno-lo de longe. Recaia, entretanto, sobre mim todo o
  ressentimento; eu s o mereo, porque s eu o provoquei. Vo as cartas de
  Helena; guardo trs apenas, como recordao da felicidade que perdi".

Estcio teve vontade de ler as
  cartas de Helena, mas a tempo recuou; mandou-as dar  moa. Helena, que estava
  com D. rsula, entregou-as a esta.

-- So a minha histria, disse ela;
  peo-lhe que as leia e me julgue.

Havia em seus olhos uma expresso
  que no era usual. Recolheu-se imediatamente a seu quarto, onde jazeu longo
  tempo, calada, quieta, sinistra, o corpo atirado em um sof, a alma sabe Deus
  em que regies de infinito desespero.

CAPTULO XXVIII

Naquela noite, a segunda de to
  extraordinrios sucessos, foi que Estcio sentiu toda a violncia do amor que
  lhe inspirara Helena. Enquanto os detinha um vnculo sagrado, amara sem
  conscincia; e ainda depois de esclarecido pelo padre, o esforo empregado em
  vencer-se e a prpria natureza da catstrofe no lhe permitiram ver a extenso
  do mal. Agora, sim; roto o vnculo, restituda a verdade, ele conhecia que a
  voz da natureza, mais sincera e forte que as combinaes sociais, os chamava um
  para o outro, e que a mulher destinada a am-lo e ser amada era justamente a
  nica que as leis sociais lhe vedavam possuir.

Durante as primeiras horas o
  corao mordeu rebelde o freio da necessidade. A viglia foi longa e crua; e a
  reflexo veio enfim dominar a tempestade interior, ou antes alumiar seus
  destroos. Ele viu que o padre tinha razo; que era fora desfolhar a esperana
  de um dia. Ao mesmo tempo, o exemplo de Helena deu-lhe nimo. Senhora do
  segredo de seu nascimento, e consciente de amar sem crime, a moa apressara,
  no obstante, o casamento de Estcio e escolhera para si um noivo estimado
  apenas. Se uma vez a palavra delatora lhe rompeu dos lbios, ela a retraiu
  logo, fazendo o mais obscuro dos sacrifcios.

No quis Estcio ser menos
  generoso. Logo de manh escreveu a Mendona, pedindo-lhe que no deixasse de os
  ir visitar nesse dia. No o fez sem custo, mas f-lo sem arrependimento. Tinha
  por fim apressar o casamento de Helena e o seu, condenando-se a sofrer calado
  os golpes do avesso destino.

A manh, entretanto, no trouxe a Helena
  o esquecimento e a paz. A noite no lhe serviu de remdio, antes legou  aurora
  toda a sua mortal angstia. Debilitada, nervosa, impaciente, no podia a moa
  vencer-se nem suportar-se. Ora, repelia com sequido as boas palavras de D.
  rsula; ora, pedia intercedesse com Estcio para a resoluo que ela admitia
  como nico meio de a poupar  vergonha. A excitao moral era grande; cumpria
  aquiet-la por meios persuasivos. Helena fugia a todos; no encarava Estcio e
  D. rsula, sem que o pejo lhe colorisse a face, mudana tanto mais visvel
  quanto que a viglia e a dor a tinham empalidecido muito. Diziam-lhe que a
  vontade do conselheiro estatura uma lei na famlia, segundo a qual ela
  continuava a ser parenta como dantes, e to amada como era. A moa agradecia a
  generosidade, mas no podia fugir  idia de haver contribudo para uma
  usurpao. Queria que a deixassem ir ter com o pai, ao p de quem a natureza e
  a conscincia lhe indicavam que poderia estar sem remorso. Estcio e D. rsula
  respondiam-lhe com afagos e protestos; mas quando viram que estes eram inteis,
  no houve mais que revelar-lhe a carta de Salvador.

O Padre Melchior incumbiu-se de
  lhe fazer essa delicada comunicao.

-- Seu pai, disse ele, praticou em
  seu favor um ato herico; fugiu para lhe no fazer perder a considerao e o
  futuro. Leia esta carta, e veja se ela lhe d a fora necessria para resistir.

Helena pegou na carta com
  sofreguido, leu-a de um lance d'olhos. O gemido que lhe rompeu do corao
  mostrou bem a ferida que acabava de receber. O padre acolheu-a lacrimosa e
  esvaecida em seus braos; disse-lhe palavras de conforto e de esperana. Nos
  primeiros minutos, Helena nada pde ouvir; o golpe ensurdecera a alma. Melchior
  f-la sentar ao p de si; ela obedeceu sem conscincia. Aps alguns minutos de
  silncio e concentrao, a moa dirigiu a palavra ao padre e agradeceu-lhe a
  caridade. Depois referiu-lhe os acontecimentos de sua infncia, os mesmos que o
  capelo ouvira. A sagacidade natural do esprito cedo lhe fizera ver que a posio
  de sua me no era a mesma das outras mes; essa descoberta, porm, no teve
  outra virtude mais que comunicar ao amor de filha uma intensidade e energia
  capazes de afrontar os mais fortes obstculos, como se ela quisesse reunir em
  si toda a soma de afetos e respeitos que a sociedade afiana s situaes
  regulares. Melchior ouviu-a comovido; nutrido da medula do Evangelho,
  reconheceu um efeito da graa divina nesse amor imaculado, que valia por todas
  as absolvies da Terra. Ele a aplaudiu e confortou; falou-lhe do futuro, do
  carinho de sua famlia, -- sua, a despeito de tudo; enfim da obrigao em que
  ela estava de corresponder a tanta confiana.

Talvez Helena, em sua razo,
  correspondesse aos conselhos de Melchior; mas a razo  o que menos a dirigia
  naquelas circunstncias aflitivas. Ela deixou o padre para recolher-se aos
  aposentos. Quando D.rsula ali foi, meia hora depois, achou-a profundamente
  abatida; a violncia da crise passara. A linguagem que lhe falou foi maternal,
  ungida de amor e perdo; Helena ouviu-a agradecida, mas um sorriso descorado e
  sem convico lhe entreabria os lbios. Supunha ler comiserao onde havia
  afeto e respeito, e o orgulho rebelava-se de inspirar o nico sentimento que a
  conscincia lhe dizia merecer.

As instncias de D. rsula para
  que Helena se alimentasse foram inteis; ela apenas recebia o que bastava para
  no sucumbir  fome. A companhia repugnava-lhe; assim, poucas vezes a viram
  desde os dias que se seguiram quela funesta manh. Mendona no conseguiu mais
  do que os outros. A famlia teve o cuidado de anunciar que Helena se achava
  enferma. A aflio do noivo foi grande; mas todos buscaram tranqiliz-lo. Nada
  havendo transpirado do acontecimento, fcil foi sustentar aquela explicao.

Melchior encomendara muito 
  famlia que vigiasse a moa, cujo esprito lhe parecia atrevido e tenaz; ele
  receava que Helena ou fugisse de casa, ou recorresse a algum ato de desespero.
  O mesmo padre desvelou-se em trazer a alma de Helena ao sentimento da
  resignao. A autoridade do carter religioso, a influncia que ele tinha no
  esprito de Helena, eram armas poderosas, temperadas com o amor verdadeiro e
  paternal que o ligava  donzela. Nada poupou; mas tais esforos no tiveram
  mais fruto que os da famlia. Helena mal podia tolerar a situao.

Uma vez, como ela descesse 
  chcara, saiu Estcio a procur-la, no a encontrando seno ao cabo de alguns
  minutos. Achou-a ao p do tanque, no lugar em que lhe falara poucos dias antes,
  sentada no mesmo banco de pau. Vendo-o, estremeceu; ele aproximou-se, contente
  de a haver encontrado enfim. O dia estava feio; grossas nuvens negras pejavam o
  ar, tmidas de temporal prximo. Estcio convidou-a a recolher-se.

-- Deixe-me estar aqui um instante
  mais, respondeu ela.

-- Dois minutos apenas.

Sentou-se ao p dela e ficaram
  calados. Helena tinha uma taquara na mo; Estcio quis tomar-lha; ela
  arremessou-a para longe. Ergueu-se ento o moo e foi busc-la; s ento viu
  que estava molhada at certa altura; calculou que seria o fundo do tanque. O
  tanque era raso; no poderia dar a morte; mas, a suspeita de que Helena no
  recuaria diante do suicdio, aterrou novamente o esprito de Estcio.
  Parecendo-lhe que a causa no comportava o efeito, perguntou a si mesmo se os
  sucessos daqueles dias no teriam velado a razo da moa. Sentou-se de novo e
  falou-lhe com brandura.

Ao escut-lo, sentiu Helena como
  uma ressurreio de outras horas, que ela julgava escoadas para sempre; um
  sorriso lhe animou os lbios sem cor, ao passo que os olhos doridos e murchos
  pareciam reviver de um resto de luz. Estcio falou-lhe de si, da tia, do padre
  e de Mendona, dos prximos casamentos, da felicidade futura. Depois insistiu
  com ela para que entrasse. Uma brisa mais forte comeava a agitar as rvores, e
  a tempestade ameaava cair de repente.

-- Ainda no, disse a moa; alguns
  minutos mais.

-- Mas pode adoecer...

-- Talvez, se todos quiserem a
  minha sade. H criaturas to malfadadas que aqueles mesmos que as desejam
  fazer venturosas no alcanam mais do que preparar-lhe o infortnio. Tal foi o
  meu destino. Seu pai e minha me no tiveram outro pensamento; meu prprio pai
  foi levado pelo mesmo impulso, quando me obrigou a ser cmplice de uma generosa
  mentira. Agora mesmo que ele me foge, com o fim nico de me no tolher a
  felicidade, arranca-me o ltimo recurso em que eu tinha posto a esperana...

-- Helena! interrompeu Estcio.

-- O ltimo, repetiu a moa.

Esvara-se-lhe o sorriso, e o
  olhar tornara a ser opaco. Estcio teve medo daquela atonia e concentrao;
  travou-lhe do brao; a moa estremeceu toda e olhou para ele.

A princpio foi esse olhar um
  simples encontro; mas, dentro de alguns instantes, era alguma coisa mais. Era a
  primeira revelao, tcita mas consciente, do sentimento que os ligava. Nenhum
  deles procurara esse contato de suas almas, mas nenhum fugiu. O que eles
  disseram um ao outro, com os simples olhos, no se escreve no papel, no se
  pode repetir ao ouvido; confisso misteriosa e secreta, feita de um a outro
  corao, que s ao Cu cabia ouvir, porque no eram vozes da Terra, nem para a
  Terra as diziam eles. As mos, de impulso prprio, uniram-se como os olhares;
  nenhuma vergonha, nenhum receio, nenhuma considerao deteve essa fuso de duas
  criaturas nascidas para formar uma existncia nica.

O vento tornara-se mais rijo; uma
  lufada os despertou, em m hora, porque h sonhos que deviam acabar na
  realidade do outro sculo. Estcio ergueu-se; sacudiu valorosamente o torpor da
  felicidade, e reassumiu o papel que o pai lhe assinara ao p de Helena. Esta
  desviou os olhos e cravou-os na gua, fascinada e absorta. A idia do suicdio
  roaria deveras sua asa invisvel pela fronte da moa? Estcio foi a ela,
  pegou-lhe nas mos e convidou-a a sair dali.

-- Entremos, disse ele pela
  terceira vez, olhe que vai chover.

Helena deixou-se levantar; um
  calafrio percorreu-lhe o corpo todo, e as mos, que o moo ainda tinha entre as
  suas, estavam muito mais quentes que o natural.

-- Ande repousar, continuou
  Estcio; pode adoecer, e no tem direito para tanto; nossa afeio no o
  consentir nunca. Vamos...

-- Amar-me-o sempre? perguntou
  Helena.

-- Oh! sempre!

-- Impossvel! H uma voz no mundo
  de seu corao, que lhe dir, de quando em quando, esta triste palavra: aventureira!

-- Helena!

-- No posso ser outra coisa a seus
  olhos, prosseguiu a moa, tristemente. Quem o convencer de que a declarao de
  seu pai no foi obtida por artifcios de minha me? Quem lhe dar a prova de que,
  cedendo aos rogos de meu pai, no fiz mais do que executar um plano preparado
  j? So dvidas que lhe ho de envenenar o sentimento e tornar-me suspeita a
  seus olhos. Resista quem puder; -me impossvel encarar semelhante futuro!

Helena cara ofegante no banco.
  Estcio falou-lhe com abundncia e ternura; jurou-lhe que sua famlia era
  incapaz da mnima suspeita; pediu-lhe por seu pai que no julgasse mal deles.
  Ela sorriu, mas foi um sorrir de incrdula.

Grossos pingos de chuva comeavam
  a rufar nas rvores. Estcio pegou na mo de Helena para conduzi-la a casa. A
  moa fugiu-lhe, indo colocar-se alguns passos adiante, onde a chuva lhe caa
  mais em cheio na cabea nua e no corpo levemente coberto. Quando Estcio,
  desvairado de terror, correu para ela, Helena afastou-se dele; mas nem seus ps
  o poderiam vencer nunca, nem lho permitiam agora as foras quebradas por tantas
  e to profundas comoes. Ele alcanou-a; estendeu o brao em volta da cintura
  da moa, dizendo:

-- Que capricho  esse? Vamos
  embora; eu quero que venha comigo para dentro.

Ao sentir o brao de Estcio,
  Helena estremeceu e fez um movimento para arred-lo de si; mas a fraqueza
  traiu-lhe o pudor. Ela fitou no moo uns olhos de cora moribunda; as pernas
  fraquearam, e o corpo esmorecido iria a terra, se lho no sustivessem as mos
  de Estcio.

-- Deixe-me morrer! murmurou ela.

-- No! bradou o mancebo.

Com um gesto rpido, tomou nos
  braos, estendido, o corpo exausto de Helena, e caminhou na direo da casa. O
  vento flagelava-os; a chuva, que subitamente caa a jorros, alagava-os sem
  misericrdia; ele ia andando, o mais depressa que lhe permitia o peso de
  Helena, cuja cabea pendia para a terra, e de cujos lbios brotavam trechos
  soltos de frases sem sentido.

D. rsula viu entrar aquele
  doloroso espetculo; correu a receber Helena, que Estcio depositou em um sof,
  donde foi transferida ao leito. A febre, j comeada antes dela sair, tomara
  conta enfim da pobre moa. Um mdico foi chamado  pressa; o Padre Melchior
  correu por baixo d'gua at  casa de Estcio. As primeiras horas foram de
  ansiedade e susto; o estado da doente era grave; assim o disse o mdico; assim
  o tinham j sentido os coraes amigos.

D. rsula pagou naquela ocasio os
  servios que, em caso anlogo, lhe prestara Helena, mau grado o peso dos anos,
  que lhe no permitiam longas viglias nem aturado trabalho. Velou a boa senhora
   cabeceira da enferma durante essa primeira noite de incerteza e terror.
  Mendona, que ali fora sem suspeitar nada, porque a doena que lhe disseram ter
  padecido Helena, supunha ele ser passageira, e em todo caso, estar quase
  extinta, Mendona recebeu essa triste notcia com a morte no corao.

Durante sete dias o estado de
  Helena apresentou alternativas que lanavam na alma dos seus a confiana e a
  desesperao. Algumas horas houve de delrio, durante o qual dois nomes volviam
  freqentemente aos lbios da enferma, -- o de Estcio e o do pai. Nas horas da
  razo, falava pouco, no proferia nenhum nome, salvo o de Melchior que ela
  queria ver junto de si. O capelo obedecia docilmente. Ao p dela, via-a com
  pena, mas sem desesperao; primeiramente, porque ele aceitava sem murmrio os
  decretos da vontade divina; depois, porque no sabia ao certo se, em tal
  situao, era a vida melhor do que a morte. Em todo caso, consolava-a.

No quarto dia chegou a famlia de
  Camargo, e, sabendo da doena de Helena, apressou-se a ir a Andara. Ao ver
  Eugnia, a moa sorriu tristemente, lampejo de inveja que para logo se apagou e
  morreu no corao.

Estcio mal ousava entrar na
  alcova da doente e no podia viver fora dela. Sua aflio era patente. Ele
  prometia a si mesmo todos os sacrifcios em troca da vida de Helena, espreitava
  uma esperana no rosto do mdico, e interrogava o corao da tia e do padre. Na
  noite do stimo dia da cena do jardim, D.rsula, que ficara ao p de Helena,
  mandou chamar  pressa o sobrinho e o Padre Melchior, que estavam na sala
  contgua. Acorreram os dois. Helena tivera uma sncope, que D. rsula cuidara
  ser a morte. Voltando a si, leu a moa a sua sentena no rosto de todos trs.

-- Ainda no, murmurou ela; ainda
  no  a morte.

D. rsula chegou-se-lhe mais
  perto, beijou-a, disse-lhe algumas palavras de conforto.

-- Deixe estar, respondeu ela, deixe
  que eu no morro; estou s muito doente.

Estcio buscou anim-la, mas a voz
  morreu-lhe s primeiras expresses, e ele saiu. Melchior acompanhou-o.

-- Uma coisa poderia talvez
  salv-la, disse aflito o moo; era a presena do pai. Vou mand-lo procurar por
  toda a parte. Havemos de ach-lo;  preciso que o achemos.

Melchior aprovou a idia do
  mancebo; e no lhe disse que o remdio viria talvez tarde, se viesse. Estcio
  ordenou as coisas para a seguinte manh. Voltaram  alcova da enferma. Esta
  fechara os olhos, como se dormisse. Houve ento entre aquelas quatro paredes
  meia hora de silncio, interrompido apenas, de quando em quando, pelos
  movimentos que a doente fazia, como a querer mudar de posio. No fim desse
  tempo, abriu os olhos e murmurou algumas palavras. Chegou o mdico, viu-a e
  desenganou a famlia.

Enquanto Melchior dava as ordens
  precisas para que Helena tivesse os socorros espirituais, Estcio saiu dali,
  para ir, longe, desabafar o desespero; desceu  chcara, vagou por ela
  delirante, a soluar como uma criana, ora abraado a uma rvore, ora ajoelhado
  e pedindo a Deus a vida de Helena. O corao do moo no conhecia o fervor
  religioso; mas a imagem da morte deu-lhe o que a vida lhe levara, e ele rezou,
  rezou sozinho, sem hipocrisia nem dvida. Mendona veio ach-lo nessa luta
  derradeira entre a realidade e a esperana. No o consolou; no tinha
  consolaes que distribuir, porque tambm a dor lhe devastara o corao. Nos
  braos um do outro, choraram o mesmo bem que se lhes ia embora.

Um escravo veio chamar Estcio 
  pressa; ele subiu trpego as escadas, atravessou as salas, entrou desvairado no
  quarto, e foi cair de joelhos, quase de bruos, junto ao leito de Helena. Os
  olhos desta, j volvidos para a eternidade, deitaram um derradeiro olhar para a
  terra, e foi Estcio que o recebeu, -- olhar de amor, de saudade e de promessa.
  A mo plida e transparente da moribunda procurou a cabea do mancebo; ele
  inclinou-a sobre a beira do leito, escondendo as lgrimas e no se atrevendo a
  encarar o final instante. Adeus! -- suspirou a alma de Helena, rompendo o
  invlucro gentil. Era defunta.

A noite foi cruel para todos. D.
  rsula, profundamente abatida pela dor e pelas viglias, no consentiu, ainda
  assim, que outras mos amortalhassem Helena; ela mesma lhe prestou esse
  derradeiro e triste obsquio. A morte no diminura a beleza da donzela; pelo
  contrrio, o reflexo da eternidade parecia dar-lhe um encanto misterioso e
  novo. Estcio contemplou-a com os olhos exaustos, o padre com os seus midos. Melchior
  suportara a dor at ao momento da definitiva separao; agora, que a moa se ia
  de vez, deixou-se abater enfim, ao p daqueles plidos restos, despojo ltimo
  de generosas iluses.

No dia seguinte, prestes a sair o
  enterro, as senhoras deram  donzela morta as despedidas derradeiras. D. rsula
  foi a primeira que lhe prestou esse dever; seguiu-se Eugnia e seguiram as
  outras. Estcio viu-as subir, uma a uma, o estrado em que repousava a essa.
  Depois, quando ia fechar-se o fretro, caminhou lentamente para ele; trepou ao
  estrado, e pela ltima vez contemplou aquele rosto, -- sede h pouco de tanta
  vida, -- e a coroa de saudades que lhe cingia a cabea, em vez de outra, que ele
  tinha direito de pousar nela. Enfim, inclinou-se tambm, e a fronte do cadver recebeu
  o primeiro beijo de amor.

Fecharam o fretro; ao moo
  pareceu que o encerravam a ele prprio. Saindo o enterro, deixou-se Estcio
  cair numa cadeira, sem pensar nada, sem sentir nada. Pouco a pouco,
  despovoou-se a casa; os amigos saram; um s de tantos ainda ali ficou, a
  lastimar consigo a noiva, to cedo prometida e to cedo roubada. Esse mesmo
  saiu, enfim, no ficando mais do que a famlia, cujo pai espiritual era
  Melchior.

Sozinho com Estcio, o capelo
  contemplou-o longo tempo; depois, alou os olhos ao retrato do conselheiro,
  sorriu melancolicamente, voltou-se para o moo, ergueu-o e abraou com ternura.

-- nimo, meu filho! disse ele.

-- Perdi tudo, padre-mestre! gemeu Estcio.

Ao mesmo tempo, na casa do Rio Comprido, a noiva de
  Estcio, consternada com a morte de Helena, e aturdida com a lgubre cerimnia,
  recolhia-se tristemente ao quarto de dormir, e recebia  porta o terceiro beijo
  do pai.

FIM
