Conto, O Escrivo Coimbra, 1906

O escrivo Coimbra

Texto Fonte:

Relquias de Casa Velha, Machado de Assis,

Rio de Janeiro: Edies W. M.
Jackson, 1938.

Publicado originalmente em Almanaque Brasileiro Garnier, 1906.

Aparentemente h poucos
espetculos to melanclicos como um ancio comprando um bilhete de loteria.
Bem considerado,  alegre; essa persistncia em crer, quando tudo se ajusta ao
descrer, mostra que a pessoa  ainda forte e moa. Que os dias passem e com
eles os bilhetes brancos, pouco importa; o ancio estende os dedos para
escolher o nmero que h de dar a sorte grande amanh  ou depois  um dia
enfim, porque todas as coisas podem falhar neste mundo, menos a sorte grande a
quem compra um bilhete com f.

No era a f que faltava ao escrivo
Coimbra. Tambm no era a esperana. Uma coisa no vai sem outra. No confundas
a f na Fortuna com a f religiosa. Tambm tivera esta em anos verdes e
maduros, chegando a fundar uma irmandade, a irmandade de S. Bernardo, que era o
santo de seu nome; mas aos cinqenta, por efeito do tempo ou de leituras,
achou-se incrdulo. No deixou logo a irmandade; a esposa pde cont-lo no
exerccio do cargo de mesrio e levava-o s festas do santo; ela, porm,
morreu, e o vivo rompeu de vez com o santo e o culto. Resignou o cargo da mesa
e fez-se irmo remido para no tornar l. No buscou arrastar outros nem
obstruir o caminho da orao; ele  que j no rezava por si nem por ningum.
Com amigos, se eram do mesmo estado de alma, confessava o mal que sentia da religio.
Com familiares, gostava de dizer pilhrias sobre devotas e padres.

Aos sessenta anos j no cria em
nada, fosse do cu ou da terra, exceto a loteria. A loteria, sim, tinha toda a
sua f e esperana. Poucos bilhetes comprava a princpio, mas a idade, e depois
a solido, vieram apurando aquele costume e o levaram a no deixar passar
loteria sem bilhete.

Nos primeiros tempos, no vindo a
sorte grande, prometia no comprar mais bilhetes, e durante algumas loterias
cumpria a promessa. Mas l aparecia algum que o convidava a ficar com um
bonito nmero, comprava o nmero e esperava. Assim veio andando pelo tempo fora
at chegar aquele em que loterias rimaram com dias, e passou a comprar seis
bilhetes por semana; repousava aos domingos. O escrevente juramentado, um
Amaral que ainda vive, foi o demnio tentador nos seus desfalecimentos. To
depressa descobriu a devoo do escrivo, comeou a anim-lo nela, contando-lhe
lances de pessoas que tinham enriquecido de um momento para outro.

 Fulano foi assim, Sicrano assim,
dizia-lhe Amaral expondo a aventura de cada um.

Coimbra ouvia e cria. J agora
cedia s mil maneiras de convidar a sorte, a que a superstio pode emprestar
certeza, nmero de uns autos, soma de umas custas, um arranjo casual de
algarismos, tudo era combinao para encomendar bilhetes, compr-los e esperar.
Na primeira loteria de cada ano comprava o nmero do ano; empregou este mtodo
desde 1884. Na ltima loteria de 1892 inventou outro, trocou os algarismos da
direita para a esquerda e comprou o nmero 2981. J ento no cansava por duas
razes fundamentais e uma acidental. Sabeis das primeiras, a necessidade e o
costume, a ltima  que a Fortuna negaceava com gentileza. Nem todos os
bilhetes saam brancos. s vezes (parecia de propsito) Coimbra dizia de um
bilhete que era o ltimo e no compraria outro se lhe sasse branco; corria a
roda, tirava cinqenta mil-ris, ou cem, ou vinte, ou ainda o mesmo dinheiro.
Quer dizer que tambm podia tirar a sorte grande; em todo caso, aquele dinheiro
dava para comprar de graa alguns bilhetes. Comprar de graa era a sua
prpria expresso. Uma vez a sorte grande saiu dois nmeros adiante do dele,
7377; o dele era 7375. O escrivo criou alma nova.

Assim viveu os ltimos anos do
imprio e os primeiros da repblica, sem j crer em nenhum dos dois regimes.
No cria em nada. A prpria justia em que era oficial, no tinha a sua f;
parecia-lhe uma instituio feita para conciliar ou perpetuar os desacordos
humanos, mas por diversos e contrrios caminhos, ora  direita, ora  esquerda.
No conhecendo as Ordenaes do Reino, salvo de nome, nem as leis imperiais e
republicanas, acreditava piamente que tanto valiam na boca de autores como de
rus, isto , que formavam um repositrio de disposies avessas e cabidas a
todas as situaes e pretenses. No lhe atribuas nenhum ceticismo elegante;
no era dessa casta de espritos que temperam a descrena nos homens e nas
coisas com um sorriso fino e amigo. No, a descrena era nele como uma capa
esfarrapada.

Uma s vez saiu do Rio de Janeiro;
foi para ir ao Esprito Santo  cata de uns diamantes que no achou. Houve quem
dissesse que essa aventura  que lhe pegou o gosto e a f na loteria; tambm
no faltou quem sugerisse o contrrio, que a f na loteria  que lhe dera a
vista antecipada dos diamantes. Uma e outra explicao  possvel. Tambm 
possvel terceira explicao, alguma causa comum a diamantes e prmios. A alma
humana  to sutil e complicada que traz confuso  vista nas suas operaes
exteriores. Fosse como fosse, s daquela vez saiu do Rio de Janeiro. O mais do
tempo viveu nesta cidade, onde envelheceu e morreu. A irmandade de S. Bernardo
tomou a si dar-lhe cova e tmulo, no que lhe faltassem a ele meios disso, como
se vai ver, mas por uma espcie de obrigao moral com o seu fundador.

Morreu no comeo da presidncia
Campos Sales, em 1899, fins de abril. Vinha de assistir ao casamento do
escrevente Amaral, na qualidade de testemunha, quando foi acometido de uma
congesto, e antes da meia-noite era defunto. Os conselhos que se lhe acharam
no testamento podem todos resumir-se nesta palavra: persistir. Amaral
requereu traslado daquele documento para uso e guia do filho, que vai em cinco
anos, e entrou para o colgio. F-lo com sinceridade, e no sem tristeza,
porque a morte de Coimbra sempre lhe pareceu efeito de seu caiporismo; no dera
tempo a nenhuma lembrana afetuosa do velho amigo, testemunha do casamento e
provvel compadre.

Antes do golpe que o levou,
Coimbra no padecia nada, no tinha a menor leso, apenas algum cansao. Todos
os seus rgos funcionavam bem, e o mesmo crebro, se nunca foi grande coisa,
no era agora menos que dantes. Talvez a memria acusasse alguma debilidade,
mas ele consolava-se do mal dizendo que com a memria lhe saram muitas coisas
ruins da cabea. No foro era benquisto e no cartrio respeitado. Em 1897, pelo
S. Joo, o escrevente Amaral insinuou-lhe a convenincia de descansar e
props-se a ficar  testa do cartrio para seguir o exemplo fortificante do
amigo. Coimbra recusou, agradecendo. Entretanto, no deixava de temer que
viesse a fraquear e cair de todo, sem mais corpo nem alma que dar ao ofcio. J
no saa do cartrio, s tardes, sem um olhar de saudades prvias.

Chegou o Natal de 1898. Desde a
primeira semana de dezembro foram postos  venda os bilhetes da grande loteria
de quinhentos contos, chamada por alguns cambistas, nos anncios,
loteria-monstro. Coimbra comprou um. Parece que dessa vez no cedeu a nenhuma
combinao de algarismos; escolheu o bilhete dentre os que lhe apresentaram no
balco. Em casa, guardou-o na gaveta da mesa e esperou.

 Desta vez, sim, disse ele no dia
seguinte ao escrevente Amaral, desta vez cesso de tentar fortuna; se no tirar
nada, deixo de jogar na loteria.

Amaral ia aprovar a resoluo, mas
uma idia contrria suspendeu a palavra antes que ela lhe casse da boca, e ele
trocou a afirmao por uma consulta. Por que deixar para sempre? Loteria 
mulher, pode acabar cedendo um dia.

 J no estou em idade de esperar,
retrucou o escrivo.

 Esperana no tem idade,
sentenciou Amaral, recordando uns versos que fizera outrora, e concluiu com
este velho adgio: Quem espera sempre alcana.

 Pois eu no esperarei e no
alcanarei, teimou o escrivo; este bilhete  o ltimo.

Tendo afirmado a mesma coisa
tantas vezes, era provvel que ainda agora desmentisse a afirmao, e,
malogrado no dia de Natal, voltaria  sorte no dia de Reis. Foi o que Amaral
pensou e no insistiu em convenc-lo de um vcio que estava no sangue. A
verdade, porm,  que Coimbra era sincero. Tinha aquela tentao por ltima.
No pensou no caso de ser favorecido, como de outras vezes, com alguns
cinqenta ou cem mil-ris, quantia mnima para os efeitos da ambio, mas
bastante para convid-lo a reincidir. Ps a alma nos dois extremos: nada ou
quinhentos contos. Se fosse nada, era o fim. Faria como fez com a irmandade e a
religio; deitaria o hbito s urtigas, remia-se de fregus e iria ouvir a
missa do Diabo.

Os dias comearam a passar, como
eles costumam, com as suas vinte e quatro horas iguais umas s outras, na mesma
ordem, com a mesma sucesso de luz e trevas, trabalho e repouso. A alma do
escrivo aguardava o dia 24, vspera do Natal, quando devia correr a roda, e
continuou os traslados, juntadas e concluses dos seus autos. Convm dizer, em
louvor deste homem, que nenhuma preocupao estranha lhe tirara o gosto 
escrivania, por mais que preferisse a riqueza ao trabalho.

S quando o dia 20 alvoreceu e ps
a menor distncia  data fatdica  que a imagem dos quinhentos contos veio
interpor-se de vez aos papis do foro. Mas no foi s a maior proximidade que
trouxe este efeito, foram as conversas na rua e no mesmo cartrio acerca de
sortes grandes, e, mais que conversas, a prpria figura de um homem beneficiado
com uma delas, cinco anos antes. Coimbra recebera um tal Guimares,
testamenteiro de um importador de sapatos, que ali foi assinar um termo.
Enquanto se lavrava o termo, algum que ia com ele perguntou-lhe se estava
habilitado para a loteria do Natal.

 No, disse Guimares.

 Tambm nem sempre h de ser
feliz.

Coimbra no teve tempo de
perguntar nada; o amigo do testamenteiro deu-lhe notcia de que este, em 1893,
tirara duzentos contos. Coimbra fitou o testamenteiro cheio de espanto. Era
ele, era o prprio, era algum que, mediante uma pequena quantia e um bilhete
numerado, entrara na posse de duzentos contos de ris. Coimbra olhou bem para o
homem. Era um homem, um feliz.

 Duzentos contos? disse ele para
ouvir a confirmao do prprio.

 Duzentos contos, repetiu
Guimares. No foi por meu esforo nem desejo, explicou; no costumava comprar,
e daquela vez quase quebro a cabea ao pequeno que me queria vender o bilhete;
era um italiano. Guardate, signore, implorava ele metendo-me o bilhete 
cara. Cansado de ralhar, entrei num corredor e comprei o bilhete. Trs dias
depois tinha o dinheiro na mo. Duzentos contos.

O escrivo no errou o termo
porque nele j os dedos  que eram escrives; realmente, no pensou em nada
mais que decorar esse homem, reproduzi-lo na memria, escrut-lo, bradar-lhe
que tambm tinha bilhete para os quinhentos contos do dia 24 e exigir-lhe o
segredo de os tirar. Guimares assinou o termo e saiu; Coimbra teve mpeto de
ir atrs dele, apalp-lo, ver se era mesmo gente, se era carne, se era
sangue... Ento era verdade? Havia prmios? Tiravam-se prmios grandes? E a paz
com que aquele sujeito contava o lance da compra! Tambm ele seria assim, se
lhe sassem os duzentos contos, quanto mais os quinhentos!

Essas frases cortadas que a ficam
dizem vagamente a confuso das idias do escrivo. At agora trazia em si a f,
mas j reduzida a costume s, um costume longo e forte, sem assombros nem sobressaltos.
Agora via um homem que passara de nada a duzentos contos com um simples gesto
de fastio. Que ele nem sequer tinha o gosto e a comicho da loteria; ao
contrrio, quis quebrar a cabea da Fortuna; ela, porm, com olhos de namorada,
f-lo trocar a impacincia em condescendncia, pagar-lhe cinco ou dez mil-ris,
e trs dias depois... Coimbra fez todo o mais trabalho do dia automaticamente.

De tarde, caminhando para casa,
foi-se-lhe metendo na alma a persuaso dos quinhentos contos. Era mais que os
duzentos do outro, mas tambm ele merecia mais, teimando como vinha de anos
estirados, desertos e brancos, mal borrifados de algumas centenas, raras, de
mil-ris. Tinha maior direito que o outro, talvez maior que ningum. Jantou,
foi  casa pegada, onde nada contou pelo receio de no tirar coisa nenhuma e
rirem-se dele. Dormiu e sonhou com o bilhete e o prmio; foi o prprio cambista
que lhe deu a nova da felicidade. No se lembrava bem, de manh, se o cambista
o procurou ou se ele procurou o cambista; lembrava-se bem das notas, eram
parece que verdes, grandes e frescas. Ainda apalpou as mos ao acordar; pura
iluso!

Iluso embora, deixara-lhe nas
palmas a maciez do sonho, o fresco, o verde, o avultado dos contos. Ao passar
pelo Banco da Repblica pensou que poderia levar ali o dinheiro, antes de o
empregar em casas, ttulos e outros bens. Esse dia 21 foi pior, em nsia, que o
dia 20. Coimbra estava to nervoso que achou o trabalho demasiado, quando de
ordinrio ficava alegre com a concorrncia de papis. Melhorou um pouco, 
tarde; mas, ao sair, entrou a ouvir meninos que vendiam bilhetes de loteria, e
esta linguagem, gritada da grande banca pblica, novamente lhe fez agitar a
alma.

Ao passar pela igreja onde era
venerada a imagem de S. Bernardo, cuja irmandade ele fundou, Coimbra deitou
olhos saudosos ao passado. Tempos em que ele cria! Outrora faria uma promessa
ao santo; agora...

 Infelizmente, no! suspirou
consigo.

Sacudiu a cabea e guiou para
casa. No jantou sem que a imagem do santo viesse espreit-lo duas ou trs
vezes, com o olhar serfico e o gesto de imortal bem-aventurana. Ao pobre
escrivo vinha agora mais esta mgoa, este outro deserto rido e maior. No
cria; faltava-lhe a doce f religiosa, dizia consigo. Saiu a passeio,  noite e,
para encurtar caminho, enfiou por um beco. Deixando o beco, pareceu-lhe que
algum chamava por ele, voltou a cabea e viu a pessoa do santo, agora mais
celeste; j no era a imagem de madeira, era a pessoa, como digo, a pessoa viva
do grande doutor cristo. A iluso foi to completa que lhe pareceu ver o santo
estender-lhe as mos, e nelas as notas do sonho, aquelas notas largas e
frescas.

Imagina essa noite de 21 e a manh
de 22. No chegou ao cartrio sem passar pela igreja da irmandade e entrar
outra vez nela. A razo que deu a si mesmo foi saber se a gente local trataria
a sua instituio com o zelo do princpio. Achou l o sacristo, um velho
zeloso que veio para ele com a alma nos olhos, exclamando:

 Vossa senhoria por aqui!

 Eu mesmo,  verdade. Passei,
lembrou-me saber como  aqui tratado o meu hspede.

 Que hspede? perguntou o
sacristo sem entender a linguagem figurada.

 O meu velho S. Bernardo.

 Ah! S. Bernardo! Como h de ser
tratado um santo milagroso como ele ? Vossa Senhoria veio  festa deste ano?

 No pude.

 Pois esteve muito bonita. Houve
muitas esmolas e grande concorrncia. A mesa foi reeleita, sabe?

Coimbra no sabia, mas disse que sim,
e sinceramente achou que devia sab-lo; chamou-se descuidado, relaxado, e
voltou para a imagem olhos que sups contritos e pode ser que o fossem. Ao
sacristo pareceram devotos. Tambm este elevou os seus  imagem e fez a
reverncia habitual, inclinando meio corpo e dobrando a perna. Coimbra no foi
to extenso, mas imitou o gesto.

 A escola vai bem, sabe? disse o
sacristo.

 A escola? Ah! sim. Ainda existe?

 Se existe? Tem setenta e nove
alunos.

Tratava-se de uma escola que ainda
em tempo da esposa do escrivo, a irmandade fundara com o nome do santo, a
escola de S. Bernardo. O desapego religioso do escrivo chegara ao ponto de no
acompanhar a prosperidade do estabelecimento, quase esquec-lo de todo. Ouvindo
a notcia, ficou pasmado. No tempo dele no houve mais de uma dzia de alunos,
agora eram setenta e nove. Por algumas perguntas sobre a administrao, soube
que a irmandade pagava a um diretor e trs professores. No fim do ano ia haver
a distribuio dos prmios, grande festa a que esperavam trazer o arcebispo.

Quando saiu da igreja, trazia
Coimbra no sei que ressurreies vagas e cinzentas. Propriamente no tinham
cor, mas esta expresso serve a indicar uma feio nem viva, como dantes, nem
totalmente morta. O corao no  s bero e tmulo,  tambm hospital. Guarda
algum doente, que um dia, sem saber como, convalesce do mal, sacode a paralisia
e d um salto em p. No corao de Coimbra o enfermo no deu salto, entrou a
mover os dedos e os lbios, com tais sinais de vida que pareciam chamar o
escrivo e dizer-lhe coisas de outro tempo.

 O ltimo! Quinhentos contos!
bradavam os meninos, quando ele ia a entrar no cartrio. Quinhentos contos! O
ltimo!

Estas vozes entraram com ele e
repetiram-se vrias vezes durante o dia, ou da boca de outros vendedores ou dos
ouvidos dele mesmo. Quando voltou para casa, passou novamente pela igreja mas
no entrou; um diabo ou o que quer que era desviou o gesto que ele comeou a
fazer.

No foi menos inquieto o dia 23.
Coimbra lembrou-se de passar pela escola de S. Bernardo; j no era na casa
antiga; estava em outra, uma boa casa assobradada, de sete janelas, porto de
ferro ao lado e jardim. Como  que ele fora um dos primeiros autores de obra
to conspcua? Passou duas vezes por ela, chegou a querer entrar, mas no
saberia que dissesse ao diretor e temeu o riso dos meninos. Foi para o cartrio
e, de caminho, mil recordaes lhe restituam o tempo em que aprendia a ler.
Que ele tambm andou na escola, e evitou muita palmatoada com promessas de oraes
a santos. Um dia, em casa, ameaado de apanhar por haver tirado ao pai um doce,
alis indigesto, prometeu uma vela de cera a Nossa Senhora. A me pediu por
ele, e alcanou perdo-lo; ele pediu  me o preo da vela e cumpriu a
promessa. Reminiscncias velhas e amigas que vinham temperar o rido preparo
dos papis. Ao mesmo S. Bernardo fizera mais de uma promessa, quando era irmo
efetivo e mesrio, e cumpriu-as todas. Onde iam tais tempos?

Enfim, surdiu a manh de 24 de
dezembro. A roda tinha de correr ao meio-dia. Coimbra acordou mais cedo que de
costume, mal comeava a clarear. Conquanto trouxesse de cor o nmero do
bilhete, lembrou-se de o escrever na folha da carteira para hav-lo bem fixo, e
no caso de tirar a sorte grande... Esta idia f-lo estremecer. Uma derradeira
esperana (que o homem de f nunca perde) lhe perguntou sem palavras: que  que
lhe impedia tirar os quinhentos contos? Quinhentos contos! Tais coisas viu
neste algarismo que fechou os olhos deslumbrados. O ar, como um eco, repetiu:
Quinhentos contos! E as mos apalparam a mesma quantia.

De caminho, foi  igreja, que
achou aberta e deserta. No, no estava deserta. Uma preta velha, ajoelhada
diante do altar de S. Bernardo, com um rosrio na mo, parecia pedir-lhe alguma
causa, se no  que lhe pagava em oraes o beneficio j recebido. Coimbra viu
a postura e o gesto. Advertiu que ele era o autor daquela consolao da devota
e olhou tambm para a imagem. Era a mesma do seu tempo. A preta acabou beijando
a cruz do rosrio, persignou-se, levantou-se e saiu.

Ia a sair tambm, quando duas
figuras lhe passaram pelo crebro: a sorte grande, naturalmente, e a escola.
Atrs delas veio uma sugesto, depois um clculo. Este clculo, por mais que
digam do escrivo que ele amava o dinheiro (e amava), foi desinteressado; era
dar de si muita coisa, contribuir para elevar mais e mais a escola, que era
tambm obra sua. Prometeu dar cem contos de ris para o ensino, para a escola,
Escola de S. Bernardo, se tirasse a sorte grande. No fez a promessa nominalmente,
mas por estas palavras sem sobrescrito, e todavia sinceras: Prometo dar cem
contos de ris  Escola de S. Bernardo, se tirar a sorte grande. J na rua,
considerou bem que no perdia nada se no tirasse a sorte, e ganharia
quatrocentos contos, se a tirasse. Picou o passo e ainda uma vez penetrou no
cartrio, onde buscou enterrar-se no trabalho.

No se contam as agonias daquele
dia 24 de dezembro de 1898. Imagine-as quem j esperou quinhentos contos de
ris. Nem por isso deixou de receber e contar as quantias que lhe eram devidas
por atos judiciais. Parece que entre onze horas e meio-dia, depois de uma
autuao e antes de uma concluso, repetiu a promessa de cem contos  Escola:
Prometo dar, etc. Bateu meio-dia e o corao do Coimbra no bateu menos, com
a diferena que as doze pancadas do relgio de S. Francisco de Paula foram o
que elas so desde que se inventaram relgios, uma ao certa, pausada e
acabada, e as do corao daquele homem foram precipitadas, convulsas,
desiguais, sem acabar nunca. Quando ele ouviu a ltima de S. Francisco, no se
pde ter que no pensasse mais vivo na roda ou o que quer que era que faria
sair os nmeros e os prmios da loteria. Era agora... Teve idia de ir dali
saber notcias, mas recuou. Mal se concebe tanta impacincia em jogador to
velho. Parece que estava adivinhando o que lhe ia acontecer.

Desconfias o que lhe aconteceu? s
quatro horas e meia, acabado o trabalho, saiu com a alma nas pernas e correu  primeira
casa de loterias. L estavam, escritos a giz em tbua preta, o nmero do
bilhete dele e os quinhentos contos. A alma, se ele a tinha nas pernas, era de
chumbo, porque elas no andaram mais, nem a luz lhe tornou aos olhos seno
alguns minutos depois. Restitudo a si, consultou a carteira, era o nmero
exato. Ainda assim, podia ter-se enganado, ao copi-lo. Voou num tlburi a
casa; no se enganara, era o nmero dele.

Tudo se cumpriu com lealdade.
Cinco dias depois, a mesa da irmandade recebia os cem contos de ris para a
Escola de S. Bernardo e expedia um oficio de agradecimento ao fundador das duas
instituies, entregue a este por todos os membros da mesa em comisso.

No fim de
abril, casara o escrevente Amaral, servindo-lhe Coimbra de testemunha, e
morrendo na volta, como ficou dito atrs. O enterro que a irmandade lhe fez e o
tmulo que lhe mandou levantar no cemitrio de S. Francisco Xavier
corresponderam aos benefcios que lhe devia. A escola tem hoje mais de cem
alunos e os cem contos dados pelo escrivo receberam a denominao de
patrimnio Coimbra.
