ROMANCE, Ressurreio,1872

Ressurreio

Texto-fonte:
Obra Completa, Machado de Assis,
Rio de Janeiro: Editora
  Nova Aguilar, 1994.

Publicado originalmente
  pela Editora Garnier, Rio de Janeiro, 1872.

ADVERTNCIA DA NOVA
  EDIO

Este foi o meu primeiro romance,
  escrito a vo muitos anos. Dado em nova edio, no lhe altero a composio
  nem o estilo, apenas troco dois ou trs vocbulos, e fao tais ou quais
  correes de ortografia. Como outros que vieram depois, e alguns contos e
  novelas de ento, pertence  primeira fase da minha vida literria.

M. DE A.
1905.

ADVERTNCIA DA PRIMEIRA
  EDIO

No sei o que deva pensar deste
  livro; ignoro sobretudo o que pensar dele o leitor. A benevolncia com que foi
  recebido um volume de contos e novelas, que h dois anos publiquei, me animou a
  escrev-lo.  um ensaio. Vai despretensiosamente s mos da crtica e do
  pblico, que o trataro com a justia que merecer.

A crtica desconfia sempre da
  modstia dos prlogos, e tem razo. Geralmente so arrebiques de dama elegante,
  que se v ou se cr bonita, e quer assim realar as graas naturais. Eu fujo e
  benzo-me trs vezes quando encaro alguns desses prefcios contritos e singelos,
  que trazem os olhos no p da sua humildade, e o corao nos pncaros da sua
  ambio. Quem s lhes v os olhos, e lhes diz verdade que amargue, arrisca-se a
  descair no conceito do autor, sem embargo da humildade que ele mesmo confessou,
  e da justia que pediu.

Ora pois, eu atrevo-me a dizer 
  boa e sisuda crtica, que este prlogo no se parece com esses prlogos. Venho
  apresentar-lhe um ensaio em gnero novo para mim, e desejo saber se alguma
  qualidade me chama para ele, ou se todas me faltam, -- em cujo caso, como em
  outro campo j tenho trabalhado com alguma aprovao, a ele volverei cuidados e
  esforos. O que eu peo  crtica vem a ser -- inteno benvola, mas expresso
  franca e justa. Aplausos, quando os no fundamenta o mrito, afagam certamente o
    esprito e do algum verniz de celebridade; mas quem tem vontade de aprender e
    quer fazer alguma coisa, prefere a lio que melhora ao rudo que lisonjeia.

No extremo verdor dos anos
  presumimos muito de ns, e nada, ou quase nada, nos parece escabroso ou
  impossvel. Mas o tempo, que  bom mestre, vem diminuir tamanha confiana, deixando-nos
    apenas a que  indispensvel a todo o homem, e dissipando a outra, a confiana
    prfida e cega. Com o tempo, adquire a reflexo o seu imprio, e eu incluo no
    tempo a condio do estudo, sem o qual o esprito fica em perptua infncia.

D-se ento o contrrio do que era
  dantes. Quanto mais versamos os modelos, penetramos as leis do gosto e da arte,
  compreendemos a extenso da responsabilidade, tanto mais se nos acanham as mos
    e o esprito, posto que isso mesmo nos esperte a ambio, no j presunosa, seno
    refletida. Esta no  talvez a lei dos gnios, a quem a natureza deu o poder
    quase inconsciente das supremas audcias; mas , penso eu, a lei das aptides
    mdias, a regra geral das inteligncias mnimas.

Eu cheguei j a esse tempo. Grato
  s afveis palavras com que juzes benvolos me tm animado, nem por isso deixo
  de hesitar, e muito. Cada dia que passa me faz conhecer melhor o agro destas
  tarefas literrias, -- nobres e consoladoras,  certo, -- mas difceis quando as
  perfaz a conscincia.

Minha idia ao escrever este livro
  foi pr em ao aquele pensamento de Shakespeare:

Our
  doubts are traitors,
And
  make us lose the good we oft might win,
By fearing to attempt.

No quis fazer romance de
  costumes; tentei o esboo de uma situao e o contraste de dois caracteres; com
  esses simples elementos busquei o interesse do livro. A crtica decidir se a
  obra corresponde ao intuito, e sobretudo se o operrio tem jeito para ela.

 o que lhe peo com o corao nas mos.

M. A.
1872.

CAPTULO PRIMEIRO / NO
  DIA DE ANO BOM

Naquele dia, -- j l vo dez anos!
  -- o Dr. Flix levantou-se tarde, abriu a janela e cumprimentou o sol. O dia
  estava esplndido; uma fresca bafagem do mar vinha quebrar um pouco os ardores
  do estio; algumas raras nuvenzinhas brancas, finas e transparentes se
  destacavam no azul do cu. Chilreavam na chcara vizinha  casa do doutor
  algumas aves afeitas  vida semi-urbana, semi-silvestre que lhes pode oferecer
  uma chcara nas Laranjeiras. Parecia que toda a natureza colaborava na
  inaugurao do ano. Aqueles para quem a idade j desfez o vio dos primeiros
  tempos, no se tero esquecido do fervor com que esse dia  saudado na meninice
  e na adolescncia. Tudo nos parece melhor e mais belo, -- fruto da nossa iluso,
  -- e alegres com vermos o ano que desponta, no reparamos que ele  tambm um
  passo para a morte.

Teria esta ltima idia entrado no
  esprito de Flix, ao contemplar a magnificncia do cu e os esplendores da
  luz? Certo  que uma nuvem ligeira pareceu toldar-lhe a fronte. Flix embebeu
  os olhos no horizonte e ficou largo tempo imvel e absorto, como se
  interrogasse o futuro ou revolvesse o passado. Depois, fez um gesto de tdio, e
  parecendo envergonhado de se ter entregue  contemplao interior de alguma
  quimera, desceu rapidamente  prosa, acendeu um charuto, e esperou
  tranqilamente a hora do almoo.

Flix entrava ento nos seus
  trinta e seis anos, idade em que muitos j so pais de famlia, e alguns homens
  de Estado. Aquele era apenas um rapaz vadio e desambicioso. A sua vida tinha
  sido uma singular mistura de elegia e melodrama; passara os primeiros anos da
  mocidade a suspirar por coisas fugitivas, e na ocasio em que parecia esquecido
  de Deus e dos homens, caiu-lhe nas mos uma inesperada herana, que o levantou
  da pobreza. S a Providncia possui o segredo de no aborrecer com esses lances
  to estafados no teatro.

Flix conhecera o trabalho no
  tempo em que precisava dele para viver; mas desde que alcanou os meios
  de no pensar no dia seguinte, entregou-se corpo e alma  serenidade do
  repouso. Mas entenda-se que no era esse repouso aquela existncia aptica e
  vegetativa dos nimos indolentes; era, se assim me posso exprimir, um repouso
  ativo, composto de toda a espcie de ocupaes elegantes e intelectuais que um
  homem na posio dele podia ter.

No direi que fosse bonito, na
  significao mais ampla da palavra; mas tinha as feies corretas, a presena
  simptica, e reunia  graa natural a apurada elegncia com que vestia. A cor
  do rosto era um tanto plida, a pele lisa e fina. A fisionomia era plcida e
  indiferente, mal alumiada por um olhar de ordinrio frio, e no poucas vezes
  morto.

Do seu carter e esprito melhor
  se conhecer lendo estas pginas, e acompanhando o heri por entre as
  peripcias da singelssima ao que empreendo narrar. No se trata aqui de um
  carter inteirio, nem de um esprito lgico e igual a si mesmo; trata-se de um
  homem complexo, incoerente e caprichoso, em quem se reuniam opostos elementos,
  qualidades exclusivas e defeitos inconciliveis.

Duas faces tinha o seu esprito, e
  conquanto formassem um s rosto, eram todavia diversas entre si, uma natural e
  espontnea, outra calculada e sistemtica. Ambas, porm, se mesclavam de modo
  que era difcil discrimin-las e defini-las. Naquele homem feito de sinceridade
  e afetao tudo se confundia e baralhava. Um jornalista do tempo, seu amigo,
  costumava compar-la ao escudo de Aquiles -- mescla de estanho e ouro, --
  'muito menos slido', acrescentava ele.
Aquele dia, aurora do ano,
  escolhera-o o nosso heri para ocaso de seus velhos amores. No eram velhos;
  tinham apenas seis meses de idade. E contudo iam acabar sem saudade nem pena,
  no s porque j lhe pesavam, como tambm porque Flix lera pouco antes um livro
  de Henri Murger, em que achara um personagem com o sestro destas catstrofes
  prematuras. A dama dos seus pensamentos, como diria um poeta, recebia assim um
  golpe moral e literrio.

Havia meia hora j que o doutor
  sara da janela, quando lhe apareceu uma visita. Era um homem de quarenta anos,
  vestido com certo apuro, gesto ao mesmo tempo familiar e grave, estouvado e
  discreto.

-- Entre, Sr. Viana, disse Flix
  quando o viu aparecer  porta da sala. Vem almoar comigo, j sei.

-- Esse  um dos trs motivos da
  minha visita, respondeu Viana; mas afirmo-lhe que  o ltimo.

-- Qual  o primeiro?

-- O primeiro, disse o
  recm-chegado,  dar-lhe o cumprimento de bons anos. Folgo que lhe corra este
  to feliz como o passado. O segundo motivo  entregar-lhe uma carta do coronel.

Viana tirou uma cartinha da algibeira e entregou-a ao
  doutor, que a leu rapidamente.

-- Creio que  um convite para o
  sarau de hoje? perguntou Viana quando o viu dobrar a carta.

-- ; transtorna-me um pouco,
  porque eu tencionava ir para a Tijuca.

-- No caia nessa, acudiu Viana; eu
  era capaz de deixar todas as viagens do mundo s para no perder uma reunio do
  coronel;  um excelente homem, e d boas festas. Vai?

Flix hesitou algum tempo.

-- Olhe que eu venho incumbido de
  lhe destruir todas as objees que fizer, disse Viana.

-- No fao nenhuma. O convite transtorna-me o programa;
  mas, apesar disso, aceito.

-- Ainda bem!

Um moleque veio dar parte de que o
  almoo estava na mesa. Viana descalou as luvas e acompanhou o anfitrio.

-- Que novidades h? perguntou
  Flix sentando-se  mesa.

-- Nada que me conste, respondeu
  Viana imitando o dono da casa; o Rio de Janeiro vai a pior.

-- Sim?

--  verdade; j no aparece um
  escndalo. Vivemos em completa abstinncia, e chegou o reinado da virtude.
  Olhe, eu sinto a nostalgia da imoralidade.

Viana era um homem essencialmente
  pacato com a mania de parecer libertino, mania que lhe resultava da freqncia
  de alguns rapazes. Era casto por princpio e temperamento. Tinha a libertinagem
  do esprito, no a das aes. Fazia o seu epigrama contra as reputaes
  duvidosas, mas no era capaz de perder nenhuma. E, todavia, teria um secreto
  prazer se o acusassem de algum delito amoroso, e no defenderia com extremo
  calor a sua inocncia, contradio que parece algum tanto absurda, mas que era
  natural.

Como Flix no lhe animasse a
  conversa no terreno em que ele a ps, Viana entrou a elogiar-lhe os vinhos.

-- Onde acha o senhor vinhos to
  bons? perguntou depois de esvaziar um clice.

-- Na minha algibeira.

-- Tem razo; o dinheiro compra tudo, inclusive os bons
  vinhos.

A resposta de Flix foi um sorriso
  ambguo, que podia ser benevolente ou malvolo, mas que pareceu no produzir
  impresso no hspede. Viana era um parasita consumado, cujo estmago tinha mais
  capacidade que preconceitos, menos sensibilidade que disposies. No se
  suponha, porm, que a pobreza o obrigasse ao ofcio; possua alguma coisa que
  herdara da me, e conservara religiosamente intacto, tendo at ento vivido do
  rendimento de um emprego de que pedira demisso por motivo de dissidncia com o
  seu chefe. Mas estes contrastes entre a fortuna e o carter no so raros.
  Viana era um exemplo disso. Nasceu parasita como outros nascem anes. Era
  parasita por direito divino.

No me parece provvel que
  houvesse lido S de Miranda; todavia, punha em prtica aquela mxima de um
  personagem do poeta: 'boa cara, bom barrete e boas palavras, custam pouco
  e valem muito...'

Chamando-lhe parasita no aludo s
   circunstncia de exercer a vocao gastronmica nas casas alheias. Viana era
  tambm o parasita da considerao e da amizade, o intruso polido e alegre, que,
   fora de arte e obstinao, conseguia tornar-se aceitvel e querido, onde a
  princpio era recebido com tdio e frieza, um desses homens metedios e
  dobradios que vo a toda a parte e conhecem todas as pessoas, 'boa cara,
  bom barrete, boas palavras'.

Parecendo-lhe que Flix estaria
  preocupado, Viana entendeu no dizer palavra antes de achar ocasio oportuna.
  Veio o caf, e o primeiro que rompeu o silncio foi o doutor. Viana aproveitou
  habilmente o ensejo para reatar o fio dos louvores, to asperamente quebrado
  pelo dono da casa. No lhe elogiou desta vez os vinhos, mas as qualidades
  pessoais; afirmou-lhe que ningum era mais querido na casa do Coronel Morais, e
  que ele prprio no se recordava de pessoa a quem mais estimasse neste mundo.

-- O senhor  to feliz a este respeito,
  terminou o hspede, que at as pessoas que o no vem h muito conservam em
  toda a integridade o afeto que o senhor lhes inspirou. Adivinha de quem lhe
  falo?

-- No.

-- Bem, sab-lo- de noite; l ver
  em casa do coronel uma pessoa que o admira, e que o no v h muito. Sejamos
  francos;  minha irm Lvia.

-- Admira-me isso, porque eu apenas a vi duas vezes.

-- No  possvel, insistiu Viana.
  Lembra-me que eu mesmo os apresentei um ao outro. Se no me engano foi em dia
  da Glria, h dois anos...

-- Eu descia o outeiro, continuou
  Flix, quando os encontrei. Estivemos parados cinco minutos.  noite
  encontramo-nos em um baile; cumprimentamo-nos apenas e nada mais.

-- S isso?

-- Nada mais.

-- Nesse caso, concluiu Viana,
  cuido que o senhor possui o segredo de fascinar as moas, s com cinco minutos
  de conversa e um cumprimento de sala. Minha irm fala muito no senhor; pelo
  menos depois que veio de Minas...

-- Ah! ela esteve em Minas?

-- Foi para l h perto de dois
  anos, depois que lhe morreu o marido. Veio h oito dias; sabe o que me prope?

-- No.

-- Uma viagem  Europa.

-- E vo?

-- Os desejos de Lvia so ordens
  para mim. Contudo era talvez melhor que eu fosse s, porque uma senhora 
  sempre obstculo aos desmandos de um pecador como eu. No lhe parece?

--  ento uma viagem de recreio? perguntou Flix.

-- Ou de romance; Lvia tem esse
  defeito capital:  romanesca. Traz a cabea cheia de caraminholas, fruto
  naturalmente da solido em que viveu nestes dois anos e dos livros que h de
  ter lido. Faz pena porque  boa alma.
 -- Vejo que tem todas as condies
  necessrias a um poeta, observou o doutor; lembra-me que era bonita.

-- Oh! a esse respeito a viuvez foi
  para ela uma renovao. Era bonita quando o senhor a viu; hoje est fascinante.
  H ocasies em que eu sinto ser irmo dela; tenho mpetos de a adorar de
  joelhos. Com franqueza, assusta-me.

Leve sorriso encrespou os lbios
  de Flix, enquanto Viana prosseguia o panegrico da irm, com um entusiasmo que
  podia ser sincero e interessado ao mesmo tempo. Ao fim de um quarto de hora
  levantou-se este para sair.

-- At  noite? disse, apertando a mo do dono da casa.

-- At  noite.

Flix ficou s.

-- Que mulher ser essa, perguntou
  a si mesmo, to bela que mete medo, to fantasiosa que causa lstima?

CAPTULO II / LIQUIDAO
  DO ANO VELHO

Meia hora depois apeava-se Flix
  de um tlburi  porta de uma casa no Rocio. Subiu lentamente as escadas; a
  porta do fundo estava aberta; Flix deu uma volta pelo interior da casa, e foi
  at  sala, sem que o sentisse uma moa, que estava assentada perto da janela, com
  o rosto voltado para a rua.

-- Ceclia! disse ele.

A moa estremeceu e voltou-se.

-- Ah! s tu. To tarde!

Flix aproximou-se, deu-lhe um beijo, e tirou-lhe o livro
  da mo.

-- Tarde? disse ele folheando o
  livro; no pde ser mais cedo; tive visitas em casa.

A moa contentou-se com a resposta; levantou-se e
  pondo-lhe os braos  roda do pescoo, perguntou:

-- Jantas hoje com algum?

-- Janto l em casa.

-- L em casa? repetiu ela; e por que no c em casa?

-- No posso.

-- Tens visitas?

-- No.

-- Jantas s?

-- Janto.

-- Preferes isso  minha companhia?
  murmurou enfim a moa com voz triste.

-- Ceclia, respondeu Flix dando 
  voz toda a doura compatvel com a rigidez da sua resoluo, h circunstncias
  que me obrigam a no jantar c nem hoje nem nunca.

Ceclia empalideceu. Flix
  procurou tranqiliz-la dizendo que ia explicar-se melhor. Insensvel s suas
  palavras, foi ela sentar-se no sof e a permaneceu alguns instantes
  silenciosa. Flix deu alguns passos na sala, aspirou as flores que tinham sido
  postas numa jarra, naquele mesmo dia, talvez para receb-lo melhor; acendeu um
  charuto, e foi sentar-se em frente de Ceclia. A moa fitou nele os olhos
  midos de lgrimas. Depois, como se os lbios tivessem medo de romper uma
  cratera  chama interior, murmurou estas palavras:

-- E por que nunca mais?

-- Ceclia, disse o doutor deitando
  fora o charuto apenas encetado, eu tenho a infelicidade de no compreender a
  felicidade. Sou um corao defeituoso, um esprito vesgo, uma alma inspida,
  incapaz de fidelidade, incapaz de constncia. O amor para mim  o idlio de um
  semestre, um curto episdio sem chamas nem lgrimas. H seis meses que nos
  amamos; por que perders tu o dia em que comea o ano novo, se podes tambm
  comear uma vida nova?

Ceclia no respondeu; fitava nele
  os olhos, que, se eram ternos e buliosos nas horas de alegria, eram naquele
  momento sombrios e profundos. Flix pegou-lhe na mo. Estava fria

-- No fiques abatida; o que fao
  agora no  novidade; ouviste-me dizer muita vez que a nossa afeio era um
  captulo curto. Rias ento de mim; fazias mal, porque era alimentar uma
  esperana v.

-- Era, interrompeu Ceclia com voz
  trmula; reconheo agora que era. Esperava, com efeito, que eu pudesse, com a
  minha constncia, resgatar os erros que me pesavam na conscincia. Agarrei-me a
  ti como a uma tbua de salvao; a tbua no compreendeu que salvaria uma vida
  e deixa-se levar pela onda que a arrebata das minhas mos. Enganei-me. No te
  fao recriminaes; espero que me fars justia...

-- Fao-te toda a justia,
  redargiu ele; acuso-me eu mesmo de estar abaixo do papel de redentor.

Ceclia no prestou ateno ao tom
  irnico destas palavras, nem sequer as ouviu. Levantou-se, deu alguns passos,
  encostou-se ao piano e pondo a cabea entre as mos soluou  vontade. Mas essa
  exploso foi quase silenciosa e durou pouco.

Meia hora depois despedia-se Flix
  de Ceclia, declarando-lhe que saa dali como um gentleman, e que ela
  receberia os meios necessrios para viver at que o esquecesse de todo.

Ceclia recusou esse ato de
  generosidade. Espantou-o imensamente tamanho desinteresse; concluiu que ela teria
  algum amor em perspectiva.

Saiu.

Na Rua do Ouvidor encontrou o
  Doutor Meneses, jovem advogado com quem entretinha relaes.

-- Vem jantar comigo, disse.

-- No jantas com Ceclia?

-- Acabei o captulo; Ceclia est livre.

-- Houve choro?

-- O choro pertence ao cerimonial
  da separao. Era indispensvel. Ceclia verteu algumas lgrimas, que eu
  procurei enxugar, prometendo-lhe os meios de viver algum tempo. Recusou; mas eu
  no lhe aceito a recusa.

-- Fizeste mal em separar-te dela; Ceclia amava-te.

-- Meneses, disse Flix, eu nunca
  fao mal quando quebro uma cadeia: liberto-me.

-- Talvez tenhas razo...

-- Mas vem jantar comigo, continuou Flix, dando-lhe o
  brao.

-- No posso, vou jantar com minha me.

-- Ah!

-- So apenas duas horas; passearei
  contigo at s trs. Ou vais para casa?

-- No.

Deram o brao e desceram a rua.

-- Se no  indiscrio, Flix,
  disse Meneses ao cabo de alguns minutos, houve algum arrufo srio entre vocs?

-- No.

-- Desconfiavas dela?

-- Tambm no.

-- Nem te arrufaste, nem tinhas
  desconfiana. Sei que ela gostava de ti, e tu mesmo me afirmaste que no era
  nenhuma desperdiada. Havia portanto um milheiro de razes para que vocs
  prosseguissem neste romance. Dar-se- que tenhas em vista algum casamento?

Flix riu-se e levantou os ombros.

-- Ento, no compreendo, concluiu Meneses.

-- Eu te digo, respondeu Flix; os
  meus amores so todos semestrais; duram mais que as rosas, duram duas estaes.
  Para o meu corao um ano  a eternidade. No h ternura que v alm de seis
  meses; ao cabo desse tempo, o amor prepara as malas e deixa o corao como um
  viajante deixa o hotel; entra depois o aborrecimento -- mau hspede.

Menezes ouviu as palavras de Flix
  com os olhos postos no cho; sorriu ligeiramente quando ele acabou.

-- Queres ouvir uma coisa? perguntou.

-- Dize.

-- O teu cinismo parece-me hipocrisia

-- No  hipocrisia nem cinismo;  temperamento.

-- No creio.

-- Por qu?

Meneses no respondeu.

-- Quase me arrependo de ser teu amigo,
  disse ele depois de algum tempo.

-- s meu amigo? perguntou Flix com ar de mofa.

Meneses parou e encarou o companheiro.

-- Duvidas?

-- No duvido; mas ignorava isso
  at agora; sabes que as nossas relaes datam de pouco tempo.

-- Que importa o tempo? H amigos de oito dias e
  indiferentes de oito anos.

-- H.

A conversa tomou outra direo.
  Meneses ainda tentou falar da moa, mas Flix no lhe prestou ateno. s 3
  horas separaram-se, Flix para as Laranjeiras, Meneses para o Rocio.

Meneses era uma boa alma,
  compassiva e generosa. Tinha em flor todas as iluses da juventude; era
  entusiasta e sincero; estava totalmente limpo da menor eiva de clculo. Podia
  ser que com os anos perdesse algumas das suas qualidades nativas, que nem todos
  resistem a estes dois terrveis dissolventes: os lances da fortuna e o atrito
  dos caracteres. Mas naquele tempo ainda no era assim.

A situao de Ceclia tinha-o comovido. Resolveu ir ter
  com ela.

Ceclia ficara resignada, mas
  triste. Quando Meneses entrou na sala estava ela ao piano, tinha apoiada a
  cabea em uma das mos, e corria os dedos pelo teclado. Contou-lhe tudo o que
  se passara; confessou que no esperava a sbita mudana de Flix; que a sua dor
  fora imensa, e que daria tudo para fazer reviver o recente passado; mas que no
  nutria nenhuma esperana de reconciliao.

-- E se eu tentar fazer alguma coisa?

-- Tentar em vo, respondeu ela.
  Alm de que, eu no tenho nenhum direito de prolongar uma felicidade incompatvel
  com a vontade dele. Errei, confiando demais; errarei se tiver ainda uma
  esperana...

-- Quem sabe, Ceclia? disse o
  moo, pondo-lhe a mo no ombro;  possvel que Flix tenha cedido a um
  capricho. Vir a arrepender-se depois, mas o seu orgulho no lhe deixar dar o
  primeiro passo. Nesse caso uma pessoa influente pode convenc-lo de que a
  primeira glria  a reparao dos erros.

Ceclia levantou os ombros; foi a sua nica resposta.

Meneses perguntou se haveria alguma razo de cimes.

-- Posso jurar-lhe que durante todo
  este tempo pertenci-lhe exclusivamente.

O juramento de Ceclia no devia
  valer muito aos olhos de um homem que conhecesse bem todos os recursos de uma
  mulher naquelas condies. Mas o nosso Meneses era ingnua em coisas tais. Saiu
  de l cheio de piedade. Nessa mesma tarde mandou uma carta s Laranjeiras,
  justamente na ocasio em que Flix acabava de ler outra carta de Ceclia. A
  carta da moa era tranqila e at certo ponto nobre. No lhe fazia nenhuma
  recriminao, nem implorava nenhum favor. Defendia-se apenas, retirando de si a
  responsabilidade da separao.

A carta de Meneses era cavalheiresca: descobria o estado
  de alma de Ceclia e no hesitava em chamar ingrato ao prfugo dardnio. Flix
  sorriu lendo ambas as missivas; depois atirou-as a uma cesta e nunca mais as
  viu.

CAPTULO III / AO SOM
  DA VALSA

A casa do coronel podia conter o
  triplo das pessoas convidadas para o sarau daquela noite; mas o coronel
  preferia convidar apenas as pessoas mais ntimas e familiares. Era homem pouco
  cerimonioso, gostava sobretudo da intimidade.

Quando Flix entrou danava-se uma
  quadrilha. O coronel foi ter com ele e levou-o para onde estava a mulher, que
  j o esperava com ansiedade, pela razo, dizia ela, de que era um dos poucos
  rapazes que ainda conversavam com velhas, estando entre moas. Flix sentou-se
  ao p de D. Matilde. Estava ento de bom humor e conversou alegremente at que
  a msica parou.

A mulher do coronel era o tipo da
  me de famlia. Tinha quarenta anos, e ainda conservava na fronte, embora
  secas, as rosas da mocidade. Era uma mistura de austeridade e meiguice, de
  extrema bondade e extrema rigidez. Gostava muito de conversar e rir, e tinha a
  particularidade de amar a discusso, exceto em dois pontos que para ela estavam
  acima das controvrsias humanas: a religio e o marido. A sua melhor esperana,
  afirmava, seria morrer nos braos de ambos. Dizia-lhe Flix s vezes que no
  era acertado julgar pelas aparncias, e que o coronel, excelente marido em
  reputao, fora na realidade pecador impenitente. Ria-se a boa senhora destes
  inteis esforos para abalar a boa fama do esposo. Reinava uma santa paz
  naquele casal, que soubera substituir os fogos da paixo pela reciprocidade da
  confiana e da estima.

A conversa com a dona da casa
  roubou algum tempo s moas, segundo a expresso do coronel. Era necessrio que
  Flix se dividisse com as senhoras que ainda tinham amor aos exerccios
  coreogrficos. Recusou, pretextando a presena de D. Matilde.

-- Oh! por mim no! respondeu a boa
  senhora; o direito das velhas tem um limite no direito das moas. V, doutor, e
  mais tarde volte c, se o no agarrarem por a...

Valsava-se. Flix levantou-se e
  foi buscar um par. No tendo preferncia por nenhuma senhora, lembrou-lhe ir
  pedir a filha do coronel. Atravessava a sala para ir busc-la defronte, quando
  foi abalroado por um par valsante. Conquanto fosse navegante prtico daqueles
  mares, no pde evitar o turbilho. Susteve o equilbrio com rara felicidade e
  foi procurar melhor caminho, costeando a parede. Nesse momento os valsantes
  pararam perto dele. Pareceu-lhe reconhecer Lvia, irm de Viana. Com as faces
  avermelhadas e o seio ofegante, a moa pousava molemente o brao no brao do
  cavalheiro. Murmurou algumas palavras, que Flix no pde ouvir, e depois de
  lanar um olhar em roda de si, continuou a valsar.

Durou isto minutos.

Flix, apenas se achou livre, foi
  buscar a filha do coronel, interessante criana de dezessete anos, figura
  delgada, rosto anglico, formas graciosas, toda languidez e eflvios. Era uma
  dessas mulheres que fazem o mesmo efeito que um vaso de porcelana fina:
  toca-se-lhes com medo de as quebrar. Raquel era o seu nome; tinha grandes
  pretenses a mulher, que lhe no ficavam mal naquela idade de transio; mas o
  que Flix lhe achava melhor era justamente o seu aspecto de criana, mal
  disfarado pela formao do seio. Como carter, fazia-lhe a me grandes
  elogios, e eram fundados, posto fossem de me.

Raquel aceitou o convite. Flix
  passou-lhe o brao  roda da cintura, e ela estremeceu da cabea aos ps;
  depois entregou-se-lhe toda, com aquele abandono que a valsa prescreve ou
  permite, e voaram pela sala no turbilho geral. A agitao coloriu um pouco as
  faces da moa, comumente descoradas. Quando pararam estava ofegante.

-- Sentemo-nos, disse Flix.

-- No; passeemos um pouco. Por que no aparece c?

-- Receio no os encontrar; esto sempre fora...

-- No; h dois meses estamos na
  cidade. Mame diz que j no est para estas viagens contnuas, e eu acho que
  tem razo. Tambm me cansam a mim; o mais infludo  papai.

-- No gosta da roa?

-- Eu no tenho preferncias; gosto
  tanto da roa como da cidade; contudo... dou-me melhor c. Est olhando para
  aquela moa? no a acha bonita?

-- Quem? Eu no olhava para ningum.

-- Pois fazia mal; porque valia a pena olhar: Lvia  a
  rainha da noite.

Conquanto Raquel, na opinio de
  Flix, fosse uma menina, no deixou este de estranhar que to facilmente cedesse
  a realeza da noite a outra mulher; mas, por outro lado, refletia que esta
  abdicao bem podia ser uma afetao de modstia. Contudo, o lmpido olhar da
  moa revelava a mais absoluta ingenuidade. Fez-lhe um cumprimento  beleza
  dela, e entrou a admirar de longe a beleza de Lvia.

Lvia tinha efetivamente um ar de
  rainha, uma natural majestade, que no era rigidez convencional e afetada, mas
  uma grandeza involuntria e sua. A impresso de Flix foi boa e m; achou-lhe
  uma beleza deslumbrante, mas pareceu-lhe ver atravs daquele rosto senhoril uma
  alma altiva e desdenhosa.

-- Ser a rainha da noite, disse ele voltando-se para
  Raquel; mas no serei eu quem lhe faa a corte.

-- Por qu?

-- Parece-me orgulhosa; h de
  tratar a todos como vassalos seus. No v com que desdm ouve as palavras do
  cavalheiro que lhe d o brao?

O cavalheiro era o mesmo rapaz que
  valsara com a viva, um Dr. Batista, descendente em linha reta do Leonardo de
  Cames, 'manhoso e namorado'.

-- Oh! isso no  razo, disse Raquel; Lvia no gosta
  dele.

Pouco tempo depois foi servida a
  ceia. Flix dirigiu-se para uma sala interior, onde o coronel tinha os livros,
  e que servia temporariamente de refgio aos fumantes. Flix acendeu um charuto
  e comeou a correr os olhos pelos livros.

Ali foram ter alguns rapazes que
  falaram entusiasticamente da irm de Viana. Era o objeto de todas as atenes
  da noite. E foi no meio das apologias daqueles cortesos da beleza, que ela
  apareceu pelo brao do coronel, atravessando a sala, para ir ter ao toucador.

-- Doutor! disse Viana, aproximando-se de Flix.

E voltando-se para a irm:

-- O Dr. Flix quer falar-te.

-- Ah! disse a moa, voltando-se para o mdico.

Flix aproximou-se.

-- No sei se se lembra de mim? perguntou ele.

-- O Dr. Flix? Perfeitamente:
  foi-me apresentado h muito tempo, mas eu tenho boa memria. De mais, s se
  esquecem as pessoas vulgares.

Flix agradeceu-lhe o cumprimento.
  Ela estendeu-lhe a ponta dos dedos elegantemente apertados na pelica da luva.
  Trocaram algumas palavras mais. Da a pouco, tendo-se ouvido o preldio de uma
  quadrilha, toda a gente se retirou. Ficaram na sala Flix e Moreirinha.

Moreirinha tinha cerca de trinta
  anos, um bigode espesso, uma aparncia agradvel e um esprito frvolo. Confessou
  que estava impressionado pela viva, mas que eram muitos os seus rivais.

-- Mas no so temveis esses rivais? perguntou Flix.

-- No; um apenas.

-- Qual?

-- O Batista.

--  o que est nas graas?

-- No sei; mas  o mais valente de
  todos, e o que dispe de mais tempo, posto seja casado.

-- Casado?

-- Com um anjo.

Flix procurou reanimar o
  pretendente, pondo em relevo todas as suas qualidades merecedoras de admirao.
  Inventou-lhe algumas que no tinha, reconheceu-lhe outras que possua
  realmente, inda que de um merecimento relativo ou duvidoso. No se podia negar
  a influncia do Moreirinha entre senhoras. Era ele galanteador por ndole e por
  sistema; tinha, alm disso (coisa importante), a plena convico de que a sua
  conversa era preferida pelas damas. Ningum melhor do que ele sabia lisonjear o
  amor-prprio feminino; ningum prestava com mais alma esses leves servios de
  sociedade, que constituem muita vez toda a reputao de um homem. Dirigia os
  piqueniques, comprava o romance ou a msica da moda, encomendava os camarotes
  para as representaes de celebridades, levava os pianistas aos saraus, tudo
  isso com um modo to servial que era de se ficar morrendo por ele.

Flix voltou  sala quando se
  danavam os ltimos passos da quadrilha. Lvia estava esplndida de graa e
  elegncia. Nenhuma afetao nem acanhamento; seus movimentos eram a um tempo
  desembaraados e modestos. O mdico procurou ver se o doutor pretendente
  estaria nas graas da moa; mas ele danava do mesmo lado em que ela estava; os
  olhares no podiam encontrar-se. Um sobrinho do coronel indicou-lhe a mulher do
  Batista; era uma moa de vinte anos, loura, assaz bonita e digna de inspirar
  amores. Por que motivo, o marido, casado h pouco, queria ir queimar a um
  templo estranho os perfumes que a esposa merecia?

Algum tempo depois de finda a
  quadrilha, disps-se Flix a deixar a casa do coronel, que lhe interceptou a
  passagem em nome, disse ele, da mulher e das moas. Flix respondeu-lhe que
  estava incomodado.

-- Pretextos de peraltice, disse o
  velho, rindo alegremente; no o deixo sair nem que me caia morto na sala. Faz
  favor, minha senhora?

Estas ltimas palavras eram
  dirigidas  irm de Viana, que ia atravessando a saleta onde se achavam os
  dois.

-- Que me quer, coronel? disse ela parando.

-- Um favor apenas. Retenha-me este
  senhor, que se quer ir embora. No tenho foras para tanto. Veja se mo
  consegue. Comece dando-lhe uma quadrilha.

-- Dou-lhe a prxima, que  a minha ltima.

-- Tambm se vai embora?

-- Tambm.

--  uma debandada geral. Vou mandar trancar as portas.

O coronel afastou-se depois desta
  ameaa. Flix deu o brao a Lvia e foram sentar-se num sof que ficava
  prximo.

-- Meu irmo  muito seu amigo,
  disse Lvia acomodando as ondas de seda do vestido. Fala-me muito no senhor.

--  muito meu amigo, repetiu
  Flix, fazendo interiormente uma careta.

-- No admira, observou ela; o senhor merece ser estimado.

-- Como sabe disso?

-- Todos o afirmam.

-- Nem todos sero sinceros, observou Flix.

Flix no se iludia a respeito da
  estima de Viana. Sem negar que o irmo da viva lhe tivesse alguma amizade,
  dava-lhe todavia limitado valor. Lvia asseverava, entretanto, que o irmo
  falava dele com grande entusiasmo, e at certo ponto o entusiasmo era sincero.
  Flix tinha sobre Viana certa ascendncia moral; alm disso, era um homem
  franco e hospedeiro, rude mas servial.

Dentro de pouco tempo a conversa
  entre o mdico e a viva foi perdendo a frieza cerimoniosa do comeo. Passaram
  a falar do baile, e Lvia manifestou com expansiva alegria as suas excelentes
  impresses, sobretudo porque, dizia ela, vinha da roa, onde tivera uma vida
  reclusa e monstica. Falaram naturalmente da viagem que ela pretendia fazer.
  Confessou ela que era um desejo antigo e vrias vezes diferido.

-- No pense, acrescentou Lvia,
  que me seduzem unicamente os esplendores de Paris, ou a elegncia da vida
  europia. Eu tenho outros desejos e ambies. Quero conhecer a Itlia e a
  Alemanha, lembrar-me da nossa Guanabara junto s ribas do Arno ou do Reno.
  Nunca teve iguais desejos?

-- Estimaria poder faz-lo, se me
  suprimissem os incmodos da viagem; mas com os meus hbitos sedentrios
  dificilmente me resolveria a isso. Eu participo da natureza da planta; fico
  onde nasci. V. Ex.a ser como as andorinhas...

-- E sou, disse ela reclinando-se
  molemente no sof; andorinha curiosa de ver o que h alm do horizonte. Vale a
  pena comprar o prazer de uma hora por alguns dias de enfado.

-- No vale, respondeu Flix, sorrindo;
  esgota-se depressa a sensao daquele momento rpido; a imaginao ainda pode
  conservar uma leve lembrana, at que tudo se desvanece no crepsculo do tempo.
  Olhe, os meus dois plos esto nas Laranjeiras e na Tijuca; nunca passei destes
  dois extremos do meu universo. Confesso que  montono, mas eu acho felicidade
  nesta mesma monotonia.

Lvia entrou a combater isto que
  lhe parecia um insigne paradoxo, mas sem que nenhuma de suas palavras mostrasse
  a mais leve sombra de pedantismo. Tinha uma maneira natural e simples de dizer
  as coisas menos vulgares deste mundo. Sabia exprimir as suas idias em frase
  elegante, mas despretensiosa.

O preldio de uma valsa chamou a
  ateno dos dois para o baile. Flix convidou-a para valsar; ela desculpou-se,
  dizendo que se achava cansada.

-- Vi-a valsar quando entrei, disse
  Flix, e afirmo que poucas pessoas valsaro to bem. Creia na sinceridade do
  elogio, porque eu no os fao nunca.

A moa aceitou este cumprimento com ingnua satisfao.

-- Gosto muito da valsa, disse ela.
  No admira;  a primeira dana do mundo.

-- Pelo menos  a nica dana em que h poesia, acrescentou
  Flix. A quadrilha tem certa rigidez geomtrica; a valsa tem todo o abandono da
  imaginao.

-- Justamente! exclamou Lvia, como
  se Flix lhe tivesse reunido em poucas palavras todas as suas idias a respeito
  daquele assunto.

-- Demais, continuou o doutor,
  animado pelo entusiasmo da viva, a quadrilha francesa  a negao da dana,
  como o vesturio moderno  a negao da graa, e ambos so filhos deste sculo,
  que  a negao de tudo.

-- Oh! murmurou ela sorrindo.

E o protesto no foi s com os
  lbios, foi tambm com os olhos -- uns olhos aveludados e brilhantes, feitos
  para os desmaios de amor. Flix comeou a sentir-se bem ao lado daquela moa, e
  esquecendo de boa vontade a festa em que s aparentemente figurava, ali se
  demorou longo tempo com ela, alheio aos comentrios estranhos, todo entregue ao
  capricho do seu prprio pensamento.

Todavia, escapou-lhe, no meio da conversa,
  no sei que frase de melanclico ceticismo que fez estremecer a moa. Lvia
  olhou para ele e depois para o cho, parecendo to absorta que nem deu pelo
  silncio que se seguiu ao seu gesto e s palavras de Flix. Este aproveitou a
  circunstncia para examin-la melhor.

Lvia representava ter vinte e
  quatro anos. Era extremamente formosa; mas o que lhe realava a beleza era um
  sentimento de modesta conscincia que ela tinha de suas graas, uma coisa
  semelhante  tranqilidade da fora. Nenhum gesto seu revelava o amor-prprio
  geralmente inseparvel das mulheres bonitas. Sabia que era formosa, mas tinha
  para si que, se a natureza se havia esmerado com ela, era por uma razo de
  harmonia e de ordem nas coisas terrestres. Afeiar as suas graas, parecia-lhe
  um crime; tirar orgulho delas, frivolidade.

Flix examinou-lhe detidamente a
  cabea e o rosto, modelo de graa antiga. A tez, levemente amorenada, tinha
  aquele macio que os olhos percebem antes do contato das mos. Na testa lisa e
  larga, parecia que nunca se formara a ruga da reflexo; no obstante, quem
  examinasse naquele momento o rosto da moa veria que ela no era estranha s
  lutas interiores do pensamento: os olhos, que eram vivos, tinham instantes de
  languidez; naquela ocasio no eram vivos nem lnguidos; estavam parados.

Sentia-se que ela olhava com o esprito.

Flix contemplou-lhe longo tempo
  aquele rosto pensativo e grave, e involuntariamente foram-lhe os olhos descendo
  ao resto da figura. O corpinho apertado desenhava naturalmente os contornos
  delicados e graciosos do busto. Via-se ondular ligeiramente o seio trgido,
  comprimido pelo cetim; o brao esquerdo, atirado molemente no regao,
  destacava-se pela alvura sobre a cor sombria do vestido, como um fragmento de
  esttua sobre o musgo de uma runa. Flix recomps na imaginao a esttua
  toda, e estremeceu. Lvia acordou da espcie de letargo em que estava. Como
  tambm estremecesse, caiu-lhe o leque da mo. Flix apressou-se a apanhar-lho.

-- Obrigado, murmurou ela distrada.

Depois, parecendo envergonhada
  daquele longo silncio, pretextou um incmodo nervoso; levantaram-se e
  dirigiram-se ao salo. Ali, no meio da conversa e do bulcio, readquiriu ela o
  imprio de si mesma, e conversaram largamente com volubilidade e galanteria. A
  viva era um pouco sarcstica, mas daquele sarcasmo benvolo e andino, que
  sabe misturar espinhos com rosas. Pela primeira vez Flix a conhecia, porquanto
  apenas a tinha visto duas vezes, e no basta ver uma mulher para a conhecer, 
  preciso ouvi-la tambm; ainda que muitas vezes basta ouvi-la para a no
  conhecer jamais.

Lvia demorou-se em casa do
  coronel mais tempo do que prometera, milagre devido ao doutor, dizia Viana. O
  certo  que o resto da noite quase no existiram para ningum mais.

No passou isto sem que o notassem
  alguns lbios despeitados. Um cavalheiro disse a uma senhora:

-- No lhe parece que D. Lvia tem um gosto deplorvel?

A senhora arregaou levemente a ponta esquerda do lbio
  superior, e respondeu:

-- O Flix no o tem melhor.

A viva saiu no meio de um geral
  murmrio de curiosidade. Flix no se demorou muito tempo mais; meteu-se no
  carro e foi para as Laranjeiras.

Uma hora depois o baile, a viva,
  a dana, tudo se lhe desvaneceu do esprito, graas a um sono tranqilo e
  profundo, como essas nuvens douradas do ocaso que a noite absorve ou dissipa.

CAPTULO IV / PRELDIO

No dia seguinte partiu Flix para
  a Tijuca, onde tinha uma casa de recreio e refgio; regressou duas semanas
  depois. Durante esse tempo nada soube do que ocorrera na cidade: no leu
  jornais nem abriu cartas de amigos.

Alguma coisa, entretanto, havia
  ocorrido: a primeira notcia com que o saudaram os amigos, apenas ele chegou 
  cidade, foi que Ceclia conquistara o corao de Moreirinha.

O sucessor de Flix, pouco depois
  que este chegou, no deixou de lhe ir participar a sua boa fortuna, no sei se
  por fatuidade, se por despicar a dama.

-- Dou-lhe os meus parabns,
  respondeu Flix; conquistou uma rapariga sossegada, carinhosa, capaz de o
  compreender...

-- Tanto melhor! acudiu o rapaz. O
  que me faltava era isso mesmo: uma mulher que me compreendesse. Ceclia no 
  positivamente uma alma perdida; no est na linha dessas outras mulheres com
  quem tenho despendido o meu dinheiro sem colher nada mais que alguns tardios
  remorsos.  uma moa de bons sentimentos, conserva certa dignidade no vcio,
  tem uma alma nobre, elevada...

Este panegrico durou alguns
  minutos mais. Dentro de to pouco tempo descobrira-lhe Moreirinha qualidades
  desconhecidas para o antecessor. Seria mais nscio ou mais perspicaz? Ceclia
  no era hipcrita quando dizia gostar de um homem; qualquer que fosse a
  natureza dos seus afetos, ela os sentia sinceramente; mas era raro que
  sobrevivessem vinte e quatro horas  causa que lhos inspirara. No se lhe
  desmentira a constncia durante os seis meses de intimidade com Flix; mas se
  ela era amante para querer a um s homem, era independente para o esquecer
  depressa. Tinha uma fidelidade filha do costume; a sua mxima era no esquecer
  o amante presente, no recordar o amante passado, nem se preocupar com o amante
  futuro.

Moreirinha era o amante presente;
  podia contar com a fidelidade da rapariga, ao menos com as suas boas intenes.

Quando Meneses soube deste
  desenlace ficou atnito. Julgou a princpio que era apenas uma afobao de
  Moreirinha; mas logo verificou que no. Foi ter com o mdico.

-- Meu amigo, disse, peo-te que me
  desculpes a carta ridcula que te escrevi.

-- Que carta?

-- A respeito de Ceclia. Nunca pensei
  que fossem fingidas aquelas lgrimas que me entraram pelo corao. Aprendi a
  no crer to superficialmente.

-- No aprendeste coisa nenhuma,
  retorquiu Flix, encolhendo os ombros; no  em terra que se fazem os
  marinheiros, mas no oceano, encarando a tempestade.

O episdio dos amores de Ceclia
  foi assunto de conversa no crculo dos rapazes que aqueles freqentavam. Nem
  tardou que passasse alm. No fim de algum tempo, pouca gente ignorava que a
  moreninha que passeava todas as tardes em carro descoberto pela Praia de
  Botafogo era o altar em que o Moreirinha fazia os seus sacrifcios dirios e
  pecunirios. Flix admirou-se ao princpio desta mania de passear to contrria
  aos hbitos preguiosos de Ceclia; mas atinou logo com a chave do enigma. Moreirinha
  no compreendia o que era ser feliz sem publicidade. Para ele, a ilha de Citera
  no podia ser jamais a ilha de Robinson.

Entretanto, passara um ms desde o
  sarau do conselheiro. Flix no se havia aproveitado do convite que a viva lhe
  fizera, nem cedido s instncias de Viana. Encontrou-os, porm, uma noite no
  Ginsio. Estava ele nas cadeiras quando os viu num camarote da 2 ordem. No fim
  do 2 ato Flix subiu ao camarote.

Teve excelente recepo, posto que
  a viva, sem deixar de ser corts e graciosa, parecia um pouco reservada e
  preocupada. No falava com a mesma volubilidade da noite do baile. Esquecia-se
  s vezes de si e dos outros. Duas vezes lhe aconteceu dar uma resposta sem
  pergunta e deixar uma pergunta sem resposta.

A conversa, portanto, no foi
  muito animada. Felizmente Viana encarregou-se de preencher os intervalos com a
  sinfonia das suas reflexes.

Quando se levantou o pano para o
  terceiro ato, Flix quis sair, mas tanto a viva como o irmo pediram lhe que
  ficasse. Aceitou o convite e ficou. Do que houve em cena durante esse ato
  pode-se afirmar que Flix nada soube absolutamente. O ato era curto, e Flix
  empregou todo o tempo em observar a moa, que, molemente reclinada na cadeira,
  acompanhava distrada o dilogo dos atores.

-- Em que estar pensando esta
  moa? dizia Flix consigo. Evidentemente, no lhe importam os suspiros do gal,
  nem as faccias do gracioso. Olha, mas no v a cena. Estar  espera de algum
  namorado remisso? Mas quem  ento esse lorpa que deixa entristecer uns olhos
  to bonitos?

A ingnua da pea, que desde o ato
  anterior se sabia estar apaixonada pelo gal, como  de jeito no teatro e no
  mundo, entrou precipitadamente em cena e lanou-se nos braos do amado. Algumas
  palmas do pblico premiaram essa resoluo inesperada e enrgica. Ento comeou
  entre a dama e o gal um dilogo de sentimento e paixo, um duelo de suspiros,
  um protestar de fidelidade e constncia, que a platia ouviu com demonstraes
  de entusiasmo.

-- Ama, no h dvida, continuou
  Flix a dizer entre si; basta ver como lhe brilham os olhos a cada frase do
  dilogo. Agradam-lhe os protestos do namorado e as lgrimas da dama. Creio que
  sorri;  de aprovao. Oh! como est divina!

Enfim, caiu o pano; e a viva, que
  j no fim do ato, parecera ter voltado  sua anterior preocupao, levantou-se,
  dizendo que se ia embora.

Viana pediu-lhe para ficar at o
  fim da pea; ela insistiu, e era foroso ceder. Flix acompanhou-os at o
  carro.

-- At quando? perguntou Lvia,
  aceitando a mo que Flix lhe oferecia.

-- At breve.

Seria acaso ou iluso? Flix
  sentiu uma forte presso dos dedos da moa, enquanto esta subia rapidamente
  para o carro, e ia responder com um aperto ainda mais forte; mas era tarde; a
  moa j estava sentada, e Viana punha o p no estribo para subir.

Iluso era decerto; iluso ou
  casualidade. Mas o mdico no o percebeu logo, e foi um primeiro erro na
  maneira de julgar a viva.

Poucos dias depois do encontro no
  teatro, dirigiu-se Flix a Catumbi onde eles moravam. No os achou. Quando
  Lvia voltou para casa soube da visita de Flix pelo carto que a mucama lhe
  deu. To apressadamente descalou as luvas que as rasgou; e como o irmo
  fizesse um reparo a este respeito, a moa respondeu com azedume. Viana estava
  acostumado s asperezas da irm, levantou os ombros e saiu.

Flix encontrou-a dois dias depois
  na Rua do Ouvidor, fazendo compras para a viagem.

-- Se adivinhasse a sua visita, no
  teria sado de casa, disse a viva.

Flix inclinou-se.

-- Por outro lado, estimo ter
  estado fora; morando eu to longe, no teria o prazer de receb-lo segunda vez,
  e nesse caso antes nada.

-- O tlburi encurta as distncias,
  observou Flix; procurarei desempenhar-me da obrigao em que estou.

-- Da obrigao j se desempenhou; agora...

-- Perdo; o seu cumprimento constitui uma obrigao nova.

Despediram-se.

Meneses, que estava na calada
  oposta, durante as poucas palavras trocadas entre Flix e a viva, atravessou a
  rua e veio ter com o amigo.

-- Quem  aquela moa?

--  a irm do Viana.

-- Bravo!  lindssima.

--  realmente bonita, o que lhe
  merece a admirao geral. V como todos lhe esto com os olhos em cima...

-- Se no h indiscrio, disse
  Meneses depois de a ver entrar em uma loja, queimas os teus perfumes naquele
  altar?

-- No. Para qu?

-- Talvez algum casamento incubado...

-- Casar?... disse Flix rindo. A
  pergunta  to original que merece um sorvete. Vem ao Carceler.

No Carceler contou-lhe Meneses que
  andava incomodado e triste. Vivia ele maritalmente com uma prola que pouco
  antes encontrara no lodo. Na vspera descobrira em casa vestgios de outro
  amador de pedras finas. Estava certo da infidelidade da amante; pedia-lhe
  conselho.

-- No te dou conselho nenhum,
  respondeu o mdico; resolve tu mesmo.

-- Mas, se eu pudesse resolver
  alguma coisa no estado em que estou, no viria falar a um amigo...

-- Lisonjeia-me a escolha; mas no
  passa disso. Imita-me, se podes; mas no me peas reflexes.

-- Mas, no meu caso, que farias tu?

-- Coisa nenhuma; pegava no chapu e saa.

-- E se o no pudesses fazer sem dor?

-- Hiptese absurda.

-- Para ti.

-- Naturalmente.

Houve uma pausa.

-- Dou-te enfim um conselho, disse Flix.

Meneses levantou os olhos com ansiedade.

-- Qualquer que seja a resoluo
  que tomares, continuou Flix, no recues um passo.

-- Onde acharei esta resoluo?

-- Aqui, disse Flix pondo-lhe o dedo na testa.

-- Oh! no! suspirou Meneses; a
  cabea nada tem com isso; todo o mal est no corao.

-- Recorre  cirurgia: corta o mal pela raiz.

-- Como?

-- Suprime o corao.

CAPTULO V / FICO

Dois dias depois, estando Flix a
  vestir-se para ir a Catumbi, entrou-lhe Meneses por casa. Vinha plido e
  abatido, olhos vermelhos, passo trmulo. No se sentou, deixou-se cair numa
  cadeira.

-- Que  isso? perguntou Flix.

-- Est tudo acabado, respondeu
  ele, romperam-se os vnculos fatais. Custou-me muito, mas era necessrio; foi
  agora h pouco; corri para c; precisava de algum com quem desabafasse. Isto 
  ridculo, bem sei; mas que queres? Eu sofro... tenho um corao miservel, e
  deixo-me levar por ele...

Flix pareceu condoer-se da
  situao do rapaz, e disse-lhe algumas palavras de animao, que ele ouviu com
  reconhecimento.

-- Eu j desconfiava, disse Meneses,
  de que era trado; s tive a certeza ontem. O que mais me di em tudo isso,
  continuou ele depois de alguns instantes de silncio,  que, para servir ao
  homem que me traiu, desfazia-me eu em obsquios, e at, confesso-te aqui, era
  seu credor.

--  por isso que eu no empresto
  dinheiro a ningum, respondeu Flix, penteando as suas.

-- Mas quem pode adivinhar o mal,
  quando nos apresentam uma fisionomia risonha? Eu confiava em ambos.

Flix encolheu os ombros.

-- Toma um charuto, disse.

-- No quero fumar.

-- Fuma; eu j observei que o fumo
  impede as lgrimas, e ao mesmo tempo leva ao crebro uma espcie de nevoeiro
  salutar.

-- Vais sair? perguntou Meneses,
  vendo que o outro punha o chapu na cabea.

-- Vou  casa do Viana. Queres vir?

-- No posso.

-- Devias vir comigo;
  apresentava-te  irm dele, e passvamos algumas horas em companhia amvel.
  Esquecerias depressa as tuas penas.

Meneses recusou; Flix levou-o no
  carro at  Rua do Lavradio, onde ele morava.

Em caminho conversaram dos seus extintos
  amores. Meneses jurava que era a ltima aventura a que expunha o seu corao;
  achava-se curado de uma vez.

-- No afirmes nada, Meneses; podes
  errar. Sabes o que te falta? Tmpera. Amanh, entre duas lgrimas, aparece-te
  um raio de sol; e eis-te de novo namorado, confiado e arriscado.

-- Oh! no! protestou Meneses.

-- Quem dera que no! Mas eu estou
  a ler no teu rosto que a nica maneira de te consolar deste naufrgio  dar-te
  outro navio. S muito tarde te convencers de que viver no  obedecer s
  paixes, mas aborrec-las ou sufoc-las. Os maricas, como tu, choram; os
  homens, esses ou no sentem ou abafam o que sentem. Isto no tem rplica,
  meu... amigo, diria eu, se me no lembrasse do teu afortunado rival, que 
  positivamente um mariola. Vem  casa do Viana; hs de gostar da Lvia;
  parece-se contigo.

-- No posso, respondeu Meneses,
  que s ouvira as ltimas palavras de Flix.

-- Mas hs de ir depois?

-- Sim, depois.

-- E se te apaixonas por ela?

Meneses sorriu tristemente; o
  carro parou; despediram-se um do outro, e Flix seguiu para Catumbi.

Lvia estava s em casa. Fora convidada a um jantar, mas respondeu pretextando um incmodo que no tinha. O
  irmo encarregou-se de ir represent-la.

-- Tinha o pressentimento, disse
  ela depois de referir estas coisas ao doutor, tinha o pressentimento de que o
  senhor vinha c hoje, e no desejava que lhe acontecesse a mesma coisa que da
  primeira vez.

-- E acredita em pressentimentos? perguntou Flix.

-- No os explico, mas acredito neles.

Lvia parecia mais bela que das
  outras vezes. No s a luz natural dizia melhor com a sua tez, como tambm a
  simplicidade do vesturio era para ela um realce. Flix no dissimulou a
  impresso que lhe causava aquele novo aspecto da moa. Lvia, que, como toda a
  mulher bela, e posto no fosse vaidosa, sabia mirar-se na fisionomia dos
  outros, no deixou de perceber a impresso do doutor.

A cena da portinhola do carro no
  havia sado do esprito de Flix, que se convencera de duas coisas: primeiro,
  que a viva gostava dele; depois, que era fcil triunfar da viva. As
  aparncias davam fundamento  opinio de que a moa o amava. Flix aproveitou a
  situao e disps-se a tirar dela todo o proveito possvel. Pouco se demorou,
  entretanto, naquele dia. Quando anunciou que se ia embora, pediu-lhe a viva
  que no esquecesse a casa.

-- Aproveitarei o tempo, observou
  Flix, enquanto no embarcam para a Europa. Seu irmo diz-me que a viagem 
  breve.

-- Se no houver transtorno. Em
  todo o caso, venha, e no faa visitas de mdico.

-- Eu fui mdico; fiquei com esse
  costume, respondeu Flix sorrindo.

-- J no  mdico?

-- Do corpo, no.

-- Mas da alma?

-- Talvez. Deixei agora mesmo um
  doente da alma, que eu desejaria apresentar-lhe, porque estes ares do sade,
  creio eu.

-- De que sofre o seu doente?

Flix sorriu-se.

-- Vtima de uma inconstncia,
  molstia vulgar. Est no perodo agudo.  um pobre rapaz, inocente e singelo,
  que vai buscar as regras da vida nos compndios da imaginao. Maus livros, no
  lhe parece?

Lvia no respondeu; estava embebida a ouvi-lo.

-- Meneses no conhece outros,
  continuou Flix. Parece filho daquele astrlogo antigo que, estando a
  contemplar os astros, caiu dentro de um poo. Eu sou da opinio da velha, que
  apostrofou o astrlogo: 'Se tu no vs o que est a teus ps, por que
  indagas do que est acima da tua cabea?'

-- O astrlogo podia responder,
  observou a viva, que os olhos foram feitos para contemplar os astros.

-- Teria razo, minha senhora, se
  ele pudesse suprimir os poos. Mas que  a vida seno uma combinao de astros
  e poos, enlevos e precipcios? O melhor meio de escapar aos precipcios 
  fugir aos enlevos.

Lvia ficou pensativa alguns instantes.

-- O pensamento  melanclico,
  disse ela; contudo pode ser verdadeiro. Mas por que razo condenaremos a vida
  contemplativa dos que no conhecem a vida positiva? Os livros da imaginao...
  esses livros no so detestveis, como o senhor disse; no os h detestveis
  nem timos. Deus os d conforme a cincia de cada um.

Flix despediu-se de Lvia, no
  enlevado, no palpitante, mas disposto a uma aventura. Amiudou as suas visitas
  a Catumbi, a grande aprazimento de Viana, que suspeitou alguma afeio entre os
  dois, e imaginara uma aliana de famlia.

A presena de Flix era at
  vantajosa naquela casa. Entre a viva e o irmo havia um abismo. Eram
  dessemelhantes nos sentimentos, nos hbitos de viver, na maneira de pensar.
  Lvia tinha alternativas de afabilidade e rispidez, ao passo que o irmo era de
  uma inaltervel paz de esprito. Viana tinha coisas ms e boas, sendo que as
  coisas boas eram justamente as que se opunham ao gnio especulativo da viva.
  Era homem essencialmente prtico; o seu reino era todo deste mundo. Apesar das
  suas pretenses a rapaz estouvado e extravagante, tinha hbitos de ordem e
  economia. Lvia era a este respeito negligente e 'meia doida', como
  lhe chamava o irmo; alheava-se muitas vezes das coisas que a cercavam para
  subir a um mundo superior e quimrico. O mdico era entre ambos uma espcie de
  mediador plstico. No pertencia  esfera de nenhum deles, mas sabia a maneira
  de os conciliar.

Flix encontrou algumas vezes em
  Catumbi o Dr. Batista, que ele vira danar com a viva em casa do coronel.
  Lvia no parecia prestar-lhe ateno, nem o pretendente magoar-se por isso.
  Era um modelo de dissimulao e clculo. Conhecia todos os artifcios da
  campanha amorosa, a indiferena, o desdm, o entusiasmo, e at a resignao.

Uma noite em que saram de l
  juntos, Flix procurou sondar-lhe o esprito a respeito da moa.

-- Nada h, respondeu Batista com
  indiferena; nem eu pretendo cortej-la. Mas, se o pretendesse, triunfaria; a
  pacincia  a gazua do amor.

-- No lhe parece que essa sua mxima  imoral?

-- Efetivamente  assim; mas  por
  isso mesmo que estes amores so deliciosos.

Quinze dias depois apareceu Viana
  em casa de Flix. Deu-lhe parte de que a irm j no ia para a Europa.

-- Por que motivo? perguntou Flix.

--  justamente o que eu desejara
  saber, disse Viana com um gesto de mal contido despeito; mas estou certo de que
  o no saberei jamais. Aquela minha irm no me parece ter a cabea no seu
  lugar.

-- Alguma razo haveria. Estar doente?

-- Est de perfeita sade.

-- Quem sabe se.... algum namoro?

-- J pensei nisso, disse Viana; pode ser algum namoro.

-- Naquela idade as paixes so
  soberanas. Seria intil querer dissuadi-la, e ainda que no fosse intil, seria
  desarrazoado, porque uma viva moa... Ela amava muito o marido, no?

-- Antes de casar, muito; trs
  meses depois, muitssimo; ao cabo de alguns meses, nem muito nem pouco. Toda
  essa histria  mistrio para mim...

-- No lhe vejo mistrio nenhum; o
  casamento  justamente isso; acalma os afetos para os tornar mais duradouros.
  Se a paixo de sua irm se tornou mais calma...

-- No se trata disso. Lvia no
  amava menos; aborrecia o marido... Mas por que nos demoraremos nestas coisas
  que no podemos explicar? A nica explicao que lhe acho  o seu carter
  esquisito. O senhor no imagina bem que eterna variao de gnio  aquela moa.
  H dias em que se levanta meiga e alegre, outros em que toda ela  irritao e
  melancolia. Ningum a entende, e eu menos que ningum.

-- No esteja o senhor a exagerar
  uma coisa naturalssima. Todos temos essa mesma alterao de humor. H manhs
  tristes e aziagas. Quer que lhe d um conselho? No a contrarie nunca,  o
  melhor.

-- Mas o senhor h de concordar que
  quando a gente j preparava os beios para ir saborear a vida parisiense...

-- H tempo para tudo, disse Flix,
  e o senhor ainda est moo. Iremos juntos daqui a um ano.

-- Palavra?

-- Palavra.

CAPITULO VI / DECLARAO

-- Ento, j no vai para a Europa?
  perguntou Flix  viva nessa mesma tarde.

-- Quem lho disse?

-- Seu irmo.

-- Desfiz a viagem, bem contra a
  vontade dele, que me chamou caprichosa e no sei que mais. Talvez tenha razo.
  Eu mesma no me entendo s vezes. Esta viagem, que era um desejo ardente,
  acha-me agora fria. Que lhe parece isto?

-- Alguma razo h de haver, ponderou
  o mdico; e eu sentiria se o motivo...

-- Se o motivo? repetiu a moa.

Calaram-se e ficaram algum tempo a
  olhar um para o outro. A explicao, que j os lbios no pediam nem davam,
  comearam a pedi-la e a l-la os olhos de ambos.

Lvia baixou os seus.

-- Vamos para o terrao, disse ela
  por fim; a tarde est bonita.

A tarde estava realmente linda.
  Flix, entretanto, cuidava menos da tarde que da moa. No queria perder o
  ensejo de lhe dizer, como se fora verdade, que a amava loucamente. Encostada ao
  parapeito do terrao que dava para a chcara, a viva simulava contemplar os
  esplendores do ocaso; na realidade, afiava o ouvido para escutar a confisso
  amorosa.

Flix olhava para ela e no ousava
  romper o silncio. Quase a soltar dos lbios a palavra decisiva, a si mesmo
  perguntava se ela no iria pesar no seu destino mais do que imaginava ento, e
  se daquele capricho de momento no resultaria o mal de toda a sua vida. Mas a
  hesitao foi curta; Flix ia enfim lanar a sorte, quando um escravo apareceu
  no terrao, a anunciar a visita do Dr. Batista.

-- No quero falar a ningum, Joo,
  disse a moa; estou incomodada.

-- Que resposta  essa? perguntou
  Flix, baixinho, quando o escravo voltou as costas.

-- Joo! disse a moa.

O escravo voltou.

-- Eu hoje s posso receber as
  pessoas mais ntimas de casa, os amigos de meu irmo. s outras dize que estou
  incomodada.

O escravo saiu.

-- Adota esta explicao?

-- Antes essa, respondeu Flix;  melhor
  para a senhora; sinto-a contudo por mim; no quisera ser envolvido entre os
  ntimos da casa.

-- Quer que eu corrija a ordem que dei?...

-- No peo tanto; no tenho direito a isso; e todavia...

-- E todavia?...

Houve um curto silncio.

-- No me compreende? disse Flix com voz quase sumida.

-- Compreendo, murmurou ela, depois
  de uma pausa; mas receio enganar-me.

-- No se engana, insistiu Flix
  com calor; amo-a, e seria impossvel neg-lo, porque a minha voz e o meu rosto
  ho de t-lo dito melhor do que as minhas palavras. No percebe isso h muito
  tempo? No adivinhou j que a esperana do seu amor  para mim toda a
  felicidade de amanh? Diga! diga uma palavra s, cruel ou benvola, mas uma e
  definitiva.

Lvia escutara-o enlevada, e a sua
  resposta foi mais eloqente que a declarao do doutor; estendeu-lhe a mo
  trmula e fria, e embebeu nos olhos dele um longo olhar de agradecimento e
  felicidade.

-- Ama-me tambm? perguntou Flix
  depois de alguns minutos de muda contemplao.

-- Oh! muito! suspirou a moa.

E ambos ali ficaram silenciosos,
  ofegantes e namorados, nesse xtase dulcssimo que  porventura o melhor estado
  da alma humana. Ambos, porque o corao do mdico, naquele instante ao menos,
  palpitava com igual fervor.

-- Muito! repetiu Lvia, como se
  essa palavra fosse apenas um eco do seu pensamento ou uma resposta  muda
  interrogao dos olhos do mdico.

Flix passou-lhe o brao  roda da
  cintura e puxou-a docemente para si; depois segurou-lhe a cabea entre as mos,
  e inclinou os lbios para lhe imprimir um beijo na fronte. Deteve-o um rumor
  estranho, uma voz infantil e desconhecida.

Instantes depois apareceu no
  terrao um menino de cinco anos, criana gentil e esperta, rosada e gorda, como
  os anjos e os cupidos que a arte nos representa em seus painis.

-- Mame! mame! gritava o pequeno,
  correndo a abraar-se com a me e fugindo  mucama que vinha atrs dele.

Lvia recebeu a criana nos braos; beijou-a e p-la ao
  colo.

-- Apresento-lhe meu filho, disse
  ela ao mdico; estava em casa da madrinha; veio ontem para c.

E voltando-se para o menino:

-- Lus, conheces o Dr. Flix?

O menino olhou para o mdico com a
  expresso pasmada e interrogativa das crianas que vem uma pessoa pela
  primeira vez, e voltou-se para a me, sem parecer impressionar-se muito. Lvia
  encheu-lhe as faces de beijos. A criana rindo de prazer, repeliu com as
  mozinhas aquela chuva de carcias maternas.

-- Ora bem, disse a viva, quem te
  deu ordem de andar a correr por aqui?

-- Ningum, respondeu o menino, eu
  pedi a Clara para me deixar vir; ela no quis, mas eu vim. No fiz bem, mame?

-- Fizeste mal. Vai brincar, vai, mas no corras.

-- Quem  esse moo? perguntou
  Lus, olhando outra vez para Flix.

-- J te disse:  o Dr. Flix.

-- Ah!

Lus encarou o mdico; depois
  olhou para a me, e fez um gesto para descer. Lvia p-lo no cho.

-- Posso ir  chcara?

-- Podes; leva-o, Clara.

Lus deitou a correr seguido pela
  mucama. A me acompanhou-o com os olhos at v-lo desaparecer do terrao.

Durante esta cena, Flix parecera
  completamente estranho a tudo que o rodeava. No ouvia as repreenses da moa,
  nem a tagarelice da criana; ouvia-se a si mesmo. Contemplava aquele quadro com
  deleitosa inveja, e sentia pungir-lhe um remorso.

--  me, repetia o moo consigo;  me!

-- Olhe, dizia a moa, debruada
  sobre o parapeito que dava para a chcara; veja como ele vai correndo...

Flix debruou-se tambm; o menino
  corria efetivamente adiante de Clara que o acompanhava de longe. De quando em
  quando, parava o menino aguardando a mucama; mas to depressa esta se lhe
  aproximava, a criana negaceava o corpo, e deitava a correr outra vez. A me
  parecia esquecida de tudo mais; Flix contemplava-a com religioso respeito.
  Estiveram assim calados alguns segundos. De repente Lvia voltou-se para
  o mdico:

-- V? disse ela; a pouco se reduz
  a minha felicidade: o senhor e aquela criana.

Dizendo isto, deixou pender a
  fronte; Flix beijou-a ardentemente, mas no pde dizer nada. A comoo embargou-lhe
  a voz; a reflexo imps-lhe silncio.

CAPTULO VII / O GAVIO E A POMBA

Iniciando afoitamente esta
  aventura, era natural que Flix sasse de Catumbi com a vaidade satisfeita de
  um triunfador. No era ele amado, e amado sem esforo seu, sem resistncia nem
  combate? E a mulher que lhe acabava de dar francamente o corao no
  tinha todas as qualidades que podem seduzir um homem e lisonjear-lhe o
  amor-prprio?

Qualquer outro teria motivo de se
  julgar superior ao resto dos mortais; mas era a natureza mesma da vitria que
  vinha travar a felicidade de Flix. A que propsito interviria o corao neste
  episdio, que devia ser curto para ser belo, que no devia ter passado nem
  futuro, arroubos nem lgrimas?

-- Fui longe demais, ia ele dizendo
  consigo; no devia alimentar uma paixo que h de ser uma esperana, e uma
  esperana que no pode ser outra coisa mais que um infortnio. Que lhe posso eu
  dar que corresponda ao seu amor? O meu esprito, se quiser, a minha dedicao,
  a minha ternura, s isso... porque o amor... Eu amar? Pr a existncia toda nas
  mos de uma criatura estranha... e mais do que a existncia, o destino, sei eu
  o que isso ?

Neste ponto, parece que alguma
  idia vaga e remota lhe surgiu no esprito e o levou a uma longa excurso no
  campo da memria. Quando voltou  realidade presente tinha o carro entrado no
  Largo do Machado. Apeou-se e seguiu a p para casa.

A viva tornou a ocupar-lhe o
  esprito. Recapitulou ento tudo o que se passara em Catumbi, as palavras
  trocadas, os olhares ternos, a confisso mtua; evocou a imagem da moa e viu-a
  junto dele, pendente de seus lbios, palpitante de sentimento e ternura. Ento
  a fantasia comeou a debuxar-lhe uma existncia futura, no romanesca nem
  legal, mas real e prosaica; como ele supunha que no podia deixar de ser com um
  homem inbil para as afeies do Cu.

-- E que outra coisa quer ela?
  dizia o mdico a si mesmo. Era, sem dvida, melhor que houvesse menos
  sentimento naquela declarao, que tivssemos navegado mais junto  terra, em
  vez de nos lanarmos ao mar largo da imaginao. Mas, enfim,  uma questo de
  forma; creio que ela sente da mesma maneira que eu. Devia t-lo percebido. Fala
  com muita paixo,  verdade; mas naturalmente sabe a sua arte;  colorista. De
  outro modo pareceria que se entregava por curiosidade, talvez por
  costume. Uma paixo louca pode justificar o erro; prepara-se para errar. No me
  anda ela a seduzir h tanto?  positivo; mete-se-me pelos olhos. E eu a
  imaginar que...

Quando Flix chegou a casa, estava
  plenamente convencido de que a afeio da viva era uma mistura de vaidade,
  capricho e pendor sensual. Isto lhe parecia melhor que uma paixo
  desinteressada e sincera, em que, alis, no acreditava. No admira pois que
  ainda desta vez a lembrana de Lvia lhe no perturbasse o sono, e que o
  primeiro claro da aurora, atravessando os vidros da janela da alcova,
  alumiasse o rosto do mdico, to grave e plcido como na vspera.

Flix voltou a Catumbi naquele
  mesmo dia. A viva estava radiante de felicidade, trmula de alegria.
  Estendeu-lhe a mo, que ele apertou, no palpitante como ela, mas cheio de
  delicadeza e graa. A presena de Viana, alm disso, impedia qualquer outra
  manifestao exterior. O parasita, que parecia empenhado em preparar uma
  aliana de famlia com o mdico, disps-se a no ser cruel para os dois
  namorados; fechou os olhos, cerrou os ouvidos, e, se em todo o caso foi
  importuno, no o deveu  vontade, mas  situao, porque em tais circunstncias
  nem todo o engenho de Voltaire pode fazer um homem interessante.

Amiudaram-se ainda mais as visitas
  de Flix, que ali encontrou algumas vezes a famlia do Coronel Morais, e
  outras, poucas, da intimidade de Lvia. D. Matilde sentia entusiasmo pelo
  mdico; quanto a Raquel olhava para ele com uma espcie de adorao. Dos homens
  alguns o detestavam cordialmente, outros tinham-lhe medo, no raros inveja, e
  alguns poucos simpatia.

Flix, entretanto, parecia
  indiferente aos sentimentos que inspirava, e deste modo obedecia a um sistema
  no menos que  disposio do seu esprito. O mesmo praticava em relao ao
  amor. Evitava, quanto podia, animar as esperanas da moa, e posto soubesse a
  fundo a retrica da paixo, no a empregava sem uma parcimnia, que lhe parecia
  economia razovel.

Lvia, porm, no dissimulava nem
  hesitava; deixava transparecer no rosto o que sentia no corao. Jogava com as
  cartas na mesa sem previso nem clculo. Expansiva e discreta, enrgica e
  delicada, entusiasta e refletida, Lvia possua esses contrastes aparentes, que
  no eram mais que as harmonias do seu carter. Os prprios defeitos dela
  nasciam de suas qualidades. Era crdula  fora de ser confiante, rspida com
  tudo o que lhe parecia baixo ou ftil. Tinha a imaginao quimrica, s vezes --
  o corao supersticioso, a inteligncia austera, mas compensava estes defeitos,
  se o eram, por qualidades capitais e raras.

Um dia em que ambos conversavam do
  nico assunto que lhes podia interessar -- pelo menos do nico que lhe
  interessava a ela, Flix pediu-lhe explicao de uma coisa que lhe parecia
  obscura.

-- Obscura? repetiu Lvia.

-- Lembra-se da noite em que a
  encontrei no Ginsio? disse o mdico. Estava preocupada e alheia a tudo.
  Conversou mal e distrada, interessavam-lhe as cenas amorosas, tudo mais
  parecia aborrec-la. No fim do terceiro ato levantou-se e foi-se embora.
  Diz-me, entretanto, que desde o sarau do coronel j comeava a sentir este amor
  que  a sua vida. Pois bem, no estava eu l, a seu lado, no teatro?

-- No.

-- Oh!

-- Estava outro homem, muito
  diverso deste que eu vejo agora ao p de mim, porque ainda no me amava. Mas
  no era s isso; era mais. Pensa que os seus atos, sentimentos e pessoa, no
  so objeto dos comentrios estranhos?

-- Importam-me to pouco os
  comentrios!

-- Pois bem, falaram-me muito mal
  do seu corao naquele dia.

-- Que lhe disseram desse viajante
  incgnito?

-- Viajante? perguntou Lvia.

-- Que foi, emendou Flix.

-- Disseram-me muitas coisas ms.

-- Deu-lhes crdito?

-- No; mas fiquei triste. Eu estava
  acostumada a admir-lo de longe. Conhecia-o pouco, mas meu irmo falava-me muita
    vez a seu respeito nas cartas que me escrevia para Minas, e Raquel fazia coro
    com ele.

-- Seu irmo tem certo entusiasmo por
  mim, disse Flix;  natural que exagere os meus mritos. Quanto  filha do
    coronel,  uma criana, que se acostumou a ver-me com olhos de irm mais moa.

-- Quer ento que eu acredite antes
  nas coisas ms?

-- Nem ms nem boas, Lvia;
  conhea-me primeiro; far depois juzo seguro.

-- Oh! conheo-te! exclamou ela.

A entrada de Viana
  interrompeu o colquio. Flix dirigiu-se  mesa e abriu um lbum, enquanto
  Viana referia  irm as peripcias de um jantar a que assistira.

O lbum da viva, que o mdico abria
  pela primeira vez, estava j alastrado de prosa e verso. Nem tudo era bom, como
  acontece nesses livros, que so s vezes verdadeiros asilos de invlidos do
  Parnaso, onde as musas reumticas e manetas vo soltar os seus gemidos. Uma
  pgina havia que lhe pareceu misteriosa: era uma declarao de amor sem
  assinatura. Leu-a, e no pde deixar de sorrir: s havia uma coisa pior que a
  forma, era o pensamento.

-- De que se ri? perguntou a viva.

Viana aproximou-se de Flix e
  lanou os olhos para a pgina aberta.

-- Ah! disse ele estouvadamente,
  isto  de meu defunto cunhado.

Lvia estremeceu e corou.

-- Viva de um nscio! pensou
  Flix. Estava pedindo um homem inteligente.

CAPTULO VIII / QUEDA

O desenlace desta situao
  desigual entre um homem frio e uma mulher apaixonada parece que devera ser a
  queda da mulher: foi a queda do homem. Para triunfar da viva, Flix contava
  apenas com a sua resoluo; mas a viva, alm do seu amor, tinha dois
  auxiliares ativos e latentes: o tempo e o hbito. Cada dia que passava caa
  como uma gota d'gua no corao do mdico, e ia cavando fundo com a fria
  tenacidade do destino.

Ironia da sorte chamar o leitor a
  este desfecho de uma situao que, algumas semanas antes, to outra se lhe
  afigurava. Chame-lhe antes lgica da natureza, porque o corao de Flix, que
  aparentava ser de mrmore, era simplesmente da nossa comum argila. No era
  seguramente um corao virginal e puro; tinha uma certa dose do egosmo que a
  natureza maternalmente repartiu por todos os homens, e no se pode dizer que
  no fosse algum tanto ctico; mas estes senes exagerava-os ele de maneira que
  veio a perder, na imaginao dos outros, a sua fisionomia original.

As armas com que lutava eram
  certamente de boa tmpera, mas se valiam muito para esgrimir, valiam pouco para
  pelejar. Com uma mulher que apenas tivesse a soma de afeto necessria para
  dissimular o erro, o nosso heri ficaria na altura da reputao; mas o amor da
  viva era um verdadeiro combate. Quando Flix chegou a encarar-lhe o corao,
  sentiu a fascinao do abismo, e caiu nele.

Esta queda, como disse, foi lenta;
  o mdico comeou a sentir que a presena da moa era para ele uma necessidade.
  Pesavam-lhe as ausncias mais longas, e, o que era mais, vinham suavizar-lhas
  umas saudades, que ele definia por outro modo, mas que, em suma, eram saudades.
  Quando a ia ver, e  proporo que se aproximava dela, sentia bater-lhe alguma
  coisa dentro do peito; o mdico dizia que era o sangue ainda juvenil e
  irrequieto. Seria uma razo fisiolgica; mas havia tambm uma razo moral; era
  a lava da paixo que se ia formando e subindo at romper a garganta do vulco.
  Longa foi a gestao do amor; mas quando o mdico descobriu o estado de sua
  alma, no era centelha que se pudesse abafar, mas incndio que lavrava e
  consumia tudo.

Decidam l os doutores da
  Escritura qual destes dois amores  melhor, se o que vem de golpe, se o que
  invade a passo lento o corao. Eu por mim no sei decidir, ambos so amores,
  ambos tm suas energias. O de Flix parecia ter criado no silncio uma fora
  invencvel.

Um potro arisco e selvagem, quando
  a mo do homem lhe pe o freio pela primeira vez, no se irrita mais do que o
  nosso heri no dia que sentiu violada a liberdade do seu corao. Clera
  singular e insensata, mas amarga e sincera. Planeou desde logo uma separao
  violenta, que lhe desse tempo e armas para vencer-se a si prprio. A execuo
  seguiu de perto a idia; e o mdico cessou repentinamente as suas visitas a
  Catumbi.

A ausncia, porm, foi ainda um auxiliar
  da viva. O despeito do mdico no se aplacou, transformou-se; no acusava j a
  fraqueza do corao, mas a rebeldia dele. O que a princpio lhe parecera
  necessrio para restituir-lhe a paz do esprito, comeou a ter a seus olhos o
  carter de ingratido. Ingratido, era j confessar muito, mas o mdico foi
  alm, achou-se ridculo. Aqui j no era possvel a resistncia. Algum homem
  pode gloriar-se de ser ingrato; dir, com um moralista ctico, que  uma
  maneira de ser independente. Mas ningum  ridculo convencido; convencer-se 
  emendar-se.

A essas razes que o mdico dava a
  si prprio, e que eram filhas da conscincia, acresciam outras que ele no
  articulava, mas sentia, as saudades, as recordaes, os desejos, a voz misteriosa
  e constante que lhe sussurrava aos ouvidos o nome de Lvia.

Demais, a bela viva escreveu-lhe.
  Flix, como um verdadeiro namorado, jurara no abrir as cartas que ela lhe
  mandasse, e correu  porta para receber a primeira. No era carta de recriminaes,
  mas de surpresa e de lgrimas. Quando veio segunda carta, j o mdico sabia a
  outra de cor. A segunda era a ltima, dizia Lvia; eram j recriminaes, mas
  no contra ele, nem contra o destino; eram recriminaes contra si mesma. A
  melanclica resignao da moa comoveu o mdico; no fim de uma semana estava
  aos ps dela, fazendo ato de sincera contrio.

Lvia perdoou-lhe as lgrimas
  choradas durante aqueles oito dias de angustiosa incerteza. Perdoou-lhas como
  sabem perdoar as almas verdadeiramente boas, -- sem ressentimento. Mas a causa
  da ausncia no a explicou Flix.

-- No me perdoou j? disse o
  mdico, quando ela lhe fez uma pergunta direta a este respeito. Isso basta; no
  queira saber a razo desta singular loucura, que me levou to longe do nico
  lugar em que me  possvel a felicidade. Para minha expiao basta o que sofri
  tambm nestes oito dias e a vergonha de ter...

Calou-se; receava dizer tudo. A
  moa ouviu aquelas palavras com manifesta satisfao, e murmurou:

-- Cimes?

Flix estremeceu. Uma sombra
  ligeira pareceu toldar-lhe os olhos. Lvia inclinou para ele o rosto como
  querendo ler-lhe na fisionomia a verdade que ele forcejava por esconder.

-- No, disse Flix, no foram
  cimes. Cimes de que e de quem?

-- De ningum, bem sei; mas est-me
  a parecer, Flix, que o seu amor  um pouco visionrio e melindroso. Oh! no me
  lastimo por to pouco; agradeo-lhe at. Que perderia eu com isso? Alguns dias
  de paz, talvez; mas a certeza de ser amada  uma grande compensao. O
  Purgatrio no  uma porta que abre para o Cu? Cada qual sabe amar a seu modo;
  o modo pouco importa; o essencial  que saiba amar. Pode ser que eu me engane,
  continuou ela pondo-lhe as mos na fronte, mas eu creio que h nesta cabea
  muita imaginao, e imaginao doente. Ou ento...

-- Ou ento? repetiu o mdico,
  vendo que ela fazia uma pausa.

-- Ou ento, a doena est aqui,
  concluiu Lvia apontando-lhe para o corao. No importa; eu suportarei tudo,
  contanto que me ame.

-- Oh! Lvia, exclamou Flix,
  depois de lhe beijar ternamente a fronte, essa resoluo ser o penhor do nosso
  futuro. Consulte o seu corao; veja se h nele bastante misericrdia para mim,
  e prometo-lhe que seremos felizes.

-- Tudo lhe perdoarei, contanto que
  me ame, disse a moa.

Compreenderia ela ento que
  dolorosa e pesada obrigao contrara? Talvez no. Confiava em si mesma, no
  prestgio do seu amor, no corao de Flix, para vencer tudo, e realizar o que
  era agora o sonho da sua vida.

O caminho melhor para isto era seguramente
  o da igreja. Que obstculo podia haver? Um e outro dependiam exclusivamente de
  si; o casamento era o desfecho lgico e sacramental daquele romance. Mas nem a
  viva o insinuava, nem o mdico o propunha, e nesta situao mal definida
  alguns dias correram de tranqila felicidade.

Aos olhos estranhos buscavam ambos
  esconder o seu segredo; mas a reserva de Lvia era apenas a que bastava para
  acatar as convenincias, ao passo que a de Flix era to completa e calculada
  que  prpria moa iludia. Esta facilidade de dissimulao desconsolou-a.
  Achava-a perfeita demais. Era um sintoma de tranqilidade que desdizia com o
  amor impetuoso de Flix. Demais, que razo haveria para esconder to
  misteriosamente dos olhos dos outros, uma coisa que deveria e no tardaria a
  ser pblica?

A indiferena de Flix,
  entretanto, no era to completa como parecia, era uma indiferena vigilante.
  Quando os olhos da viva procuravam os do mdico, este desviava cautelosamente
  os seus; mas olhava, digamo-lo assim, por baixo da plpebra.

Foi ento que comeou para ela uma
  vida de luta.

CAPTULO IX / LUTA

O amor de Flix era um gosto
  amargo, travado de dvidas e suspeitas. Melindroso lhe chamara ela, e com
  razo; a mais leve folha de rosa o magoava. Um sorriso, um olhar, um gesto,
  qualquer coisa bastava para lhe turbar o esprito. O prprio pensamento da moa
  no escapava s suas suspeitas: se alguma vez lhe descobria no olhar a atonia
  da reflexo, entrava a conjeturar as causas dela, recordava um gesto da
  vspera, um olhar mal explicado, uma frase obscura e ambgua, e tudo isto se
  amalgamava no nimo do pobre namorado, e de tudo isto brotava, autntica e
  luminosa, a perfdia da moa.

Lvia preferia decerto uma
  confiana honesta e leal, mas a desconfiana estava longe de lhe amargurar o
  corao, aceitava-a com alegria.

-- Antes isto, dizia-lhe depois de
  uma reconciliao; vejo que me ama. A confiana tambm se parece com a
  indiferena, e a indiferena  o pior de todos os males.

Esta filosofia teve seus instantes
  de desmaio. No bastava a fora do amor para resistir  suspeita de todos os
  dias, que se apagava s vezes logo, mas que renascia depois, para de novo se
  apagar e renascer. Lvia comeou a fugir dos lugares que at ento freqentava
  habitualmente. Raras vezes aparecia no teatro ou numa reunio. Flix
  compreendeu a causa desta reserva e disse-lha. A moa negou; mas, como ele
  insistisse em afirmar e pedir que ela no alterasse os seus hbitos, respondeu:

--  bom de dizer, Flix; assim
  vamos melhor; l fora como aqui, l pior do que aqui, a menor coisa basta para
  lhe transviar o esprito.

-- Juro-lhe que no.

Jurava, mas quebrava o juramento.
  O esprito no ratificava as promessas do corao.

De que lhe servia a ela a mxima prudncia
  nas suas relaes com as demais pessoas, se tudo era pouco para obter a
  confiana de Flix? Uma hora de inaltervel felicidade era comprada  custa de
  muitas horas de tdio, s vezes de lgrimas. Ele as sentia decerto, e
  pagar-lhas-ia com sacrifcios, se precisos fossem; mas eram curtos esses
  lcidos instantes.

Lvia no se acostumou a ler logo
  na fisionomia do mdico. Ele possua em alto grau a faculdade de esconder o bem
  e o mal que sentisse. Era uma faculdade preciosa, que o orgulho educara, e se
  fortificou com o tempo. O tempo, entretanto, a pouco e pouco lhe foi
  adelgaando essa couraa,  medida que se prolongava e multiplicava a luta.
  Ento os olhos da viva aprenderam a soletrar-lhe no rosto os terrores e as
  tempestades do corao. s vezes, no meio de uma conversa indiferente, alegre,
  pueril, os olhos de Lvia se obscureciam e a palavra lhe morria nos lbios. A
  razo da mudana estava numa ruga quase imperceptvel que ela descobria no
  rosto do mdico, ou num gesto mal contido, ou num olhar mal disfarado.

Esta situao pde esconder-se aos
  olhos de todos, menos aos de Lus Batista. Observador e perspicaz, e ao mesmo
  tempo sem paixes nem escrpulos, percebeu este que quanto mais o amor de Flix
  se tornasse suspeitoso e tirnico, tanto mais perderia terreno no corao da
  viva, e assim roto o encanto, chegaria a hora das reparaes generosas com que
  ele se propunha a consolar a moa dos seus tardios arrependimentos.

Para alcanar esse resultado, era
  mister multiplicar as suspeitas do mdico, cavar-lhe fundamente no corao a
  ferida do cime, torn-lo em suma instrumento de sua prpria runa. No adotou
  o mtodo de Iago, que lhe parecia arriscado e pueril; em vez de insinuar-lhe a
  suspeita pelo ouvido, meteu-lha pelos olhos.

A dificuldade era certamente maior
  e mais delicada, mas o pretendente tinha em larga escala as qualidades precisas
  para ela. Era-lhe necessrio afetar com a moa uma intimidade misteriosa, mas
  discreta, sem aparato, antes cercada de infinitas cautelas, to hbil que ela no
  percebesse, mas to claramente dissimulada que fosse direito ao corao de
  Flix.

Mas a mulher dele? A mulher dele,
  amigo leitor, era uma moa relativamente feliz. Estava mais que resignada,
  estava acostumada  indiferena do marido. Dera-lhe a Providncia essa grande
  virtude de se afazer aos males da vida. Clara havia buscado a felicidade
  conjugal com a nsia de um corao que tinha fome e sede de amor. No logrou o
  que sonhara. Pedira um rei e deram-lhe um cepo. Aceitou o cepo e no pediu
  mais.

Todavia o cepo no o fora tanto
  antes do casamento. Paixo no a teve nunca pela noiva; teve, sim, um
  sentimento todo pessoal, mistura de sensualidade e fatuidade, espcie de
  entusiasmo passageiro, que os primeiros raios da lua-de-mel abrandaram at
  apag-lo de todo. A natureza readquiriu os seus aspectos normais; a pobre
  Clarinha, que havia ideado um paraso no casamento, viu desfazer-se em fumo a
  sua quimera, e aceitou passivamente a realidade que lhe deram, -- sem
  esperanas,  certo, mas tambm sem remorsos.

Faltava-lhe, -- e ainda bem que lhe
  faltava, -- aquela curiosidade funesta com que o anfbio clssico, desenganado
  do cepo, entrou a pedir um rei novo, e veio a ter uma serpente que o engoliu. A
  virtude salvou-a da queda e da vergonha. Lastimava-se, talvez, no refgio do
  seu corao, mas no fez imprecaes ao destino. E como nem tinha fora de
  aborrecer, a paz domstica nunca fora alterada; ambos podiam dizer-se criaturas
  felizes.

Ora, pois, enquanto Clarinha
  nenhum lugar ocupava no esprito do marido, este executou o plano que havia
  organizado. O resultado foi lento, mas certo. O corao de Flix bebeu aos
  poucos o veneno que lhe propinava tranqilamente o astuto rival; mil
  circunstncias fortuitas vieram favorecer a obra de Lus Batista. O esprito de
  Flix era apropriado terreno para ela; a suspeita rara vez lhe morria em
  embrio; uma vez lanada a semente, germinava com fora, crescia, apoderava-se
  dele, e ento batia a hora da crise, a hora que o seu rival pacientemente
  esperou, e conseguiu.

Desta vez assentou Flix numa
  resoluo herica: romper o encanto que o prendia  bela viva. Tinham j
  passado alguns meses, todos eles assim entremeados de felicidade e amargura.
  Cem vezes se convencera das suas injustias; mas a cada suspeita nova
  ressurgiam as anteriores, as que ela perdoara, e a ltima confirmava ento as
  primeiras, e o pobre rapaz achava-se sinceramente ludibriado e ridculo.

Escreveu uma carta longa e
  violenta, em que acusava a moa de perfdia e dissimulao. Havia amargura na
  carta, mas havia tambm dio e desprezo, tudo quanto podia ferir para sempre um
  corao que at ali soubera amar e sofrer, mas que enfim podia cansar e
  desprezar.

Enviada a carta, deixou-se ele
  entregue  sua dor, disposto a no voltar a Catumbi. Ningum viu ento uma lgrima
  que o desespero lhe arrancou, e que ele se apressou de enxugar com vergonha de
  si mesmo. Recapitulou ento todos os sucessos dos ltimos dias; nunca lhe
  parecera mais evidente a traio da moa, nem mais cruel a situao do seu
  esprito. Um raio de esperana veio entretanto projetar-se na sua noite de
  dvidas. Imaginou que tudo podia ser erro e iluso, e, esperou que a resposta
  de Lvia tudo viesse esclarecer.

No esclareceu a resposta da moa,
  porque o portador da carta voltou sem ela. Ao cime que o devorava, veio
  misturar-se o despeito; complicou-se a dor com o orgulho ofendido. Lvia
  apareceu-lhe com todos os caracteres de uma loureira vulgar, e loureira no
  traduz bem o pensamento do moo.

Nesse estado passou Flix o resto
  do dia. Longas lhe correram as horas, friamente longas como elas so, quando o
  corao padece ou espera. Enfim, caiu a tarde, apagou-se de todo o sol, as
  sombras da noite comearam a lutar com os derradeiros lampejos do crepsculo,
  at que de todo dominaram o cu.

A melancolia da hora insinuou-se
  no corao do mdico, e a pouco e pouco lhe aquietou o desespero do dia. Flix
  meditou longo tempo na situao que as circunstncias lhe haviam criado. Viu o
  imenso espao que aquele amor lhe tomara na vida, e a terrvel influncia que
  poderia exercer nela, caso no achasse foras para resistir  separao. Qual
  seria o meio de escapar a esse desenlace, pior que tudo? Flix pensou numa
  viagem, como o meio mais fcil e pronto. Dispunha mentalmente as coisas para
  esse fim, quando ouviu parar um carro.

Da a pouco entrou um escravo
  dizendo que uma pessoa insistia em falar-lhe: era uma senhora.

-- Uma senhora! repetiu Flix.

Era Lvia. Quando Flix chegou 
  sala, estava ela  porta, com o rosto coberto por um vu que arregaou
  imediatamente. Flix no pde reter um grito de surpresa.

Lvia trazia pela mo um menino:
  era o filho. Caminhou para o mdico depois de alguns instantes de absoluto
  silncio, e estendeu-lhe a mo.

-- No esperava a minha visita?
  disse ela com tranqilidade.

-- Confesso que no.

-- Devia esperar, porque eu no
  havia respondido  sua carta, e alguma coisa cumpria que lhe dissesse.

-- No receou que os olhos da
  sociedade... disse ele.

-- A sociedade est tomando ch,
  atalhou a viva procurando sorrir. Era preciso que eu viesse e vim.

Flix fez um movimento.

-- Sim, era preciso, insistiu
  Lvia. Uma carta seria j intil; entre ns as cartas perderam a virtude, Flix.
  Eu j no sei, j no tenho palavras com que lhe restitua a confiana ao
  corao. Esta ousadia talvez...

A luz batia de chapa no rosto da
  moa; Flix viu tremerem-lhe duas lgrimas nos olhos, hesitarem um instante, e
  rolarem depois na face, levemente corada de agitao e de pejo.

-- Fui talvez cruel no que lhe
  escrevi, disse ele, e quero crer que fosse tambm injusto, mas amo-a,  todo o
  meu crime...

Lvia suspirou.

-- No o amo eu tambm? disse ela.
  Nem por isso sou cruel ou injusta. Mas no o acuso; se o acusasse no viria
  aqui. Venho porque sei que padece, e a despeito de tudo devia vir.

Flix conduziu-a para o sof, e
  sentou-se numa cadeira. Lus ficou de p, entre ele e ela, meio indiferente,
  meio curioso do que ouvia sem entender.

-- No receou que este menino
  pudesse dizer alguma coisa? perguntou Flix.

-- No pensei nisso. Fui visitar
  Raquel, que est muito mal; fui s com ele. Tinha a idia de vir s
  Laranjeiras: isso dominava tudo. Se conseguir dissipar-lhe as novas dvidas que
  o afligem, pouco me importam as conseqncias. Que quer? Eu sou assim. Vejo no
  mundo o meu amor e a sua felicidade; tudo o mais me  estranho ou nulo.

Lvia dizia estas palavras com um
  tom singelo e verdadeiramente d'alma, que comoveu o mdico.

-- Oh! para isso basta uma coisa,
  disse Flix com impetuosidade. Jura-me que nenhuma razo havia para suspeitar?

Lvia abriu muito os olhos como
  espantada do que ouvira; depois, abanando tristemente a cabea:

-- O senhor h de quebrar todo o
  meu orgulho, disse com amargura. Eu arrisco tudo para lhe restituir a
  felicidade e a paz; o senhor recompensa-me este sacrifcio com a humilhao.
  Jurar-lhe! De que serve um juramento mais entre ns? Se o que acabo de fazer
  no  bastante, Flix, concluamos aqui o nosso romance; e oxal que alguma
  pgina dele possa algum dia lembrar-lhe com saudade.

Dizendo estas palavras, a moa
  voltou o rosto para esconder a sua comoo. Flix sentiu pungir-lhe um remorso,
  e teve mpeto de cair aos ps da bela viva. Murmurou algumas palavras, que ela
  no percebeu ou no ouviu, at que o menino chamou a ateno de ambos, dizendo:

-- Vamos, mame?

Lvia levantou-se e desceu o vu
  sobre o rosto.

-- Perdoe-me tudo, disse Flix;
  ainda uma vez lhe peo perdo. No me julgue como os outros fariam, se conhecessem
  esta triste histria de alguns meses. No sou mau; falta-me confiana; algum
  dia lhe direi por qu. Por agora, perdoe-me outra vez. Injuriei-a, bem sei; no
  devia pedir-lhe nada mais, porque me deu generosamente a maior consolao que o
  meu esprito ousaria esperar.

-- Esse homem? disse a viva,
  depois de um instante.

-- Por que me pergunta?

-- Quero afast-lo de minha casa,
  se ele l vai, ou evitar as ocasies de me encontrar com ele.

--  um homem que a no respeita
  sequer, um libertino, cuja mulher  um anjo...

-- O Dr. Batista?

-- Esse.

Lvia estendeu-lhe a mo. Flix
  quis ainda falar-lhe, mas a viva observou que era tarde e dirigiu-se para a
  porta. Flix acompanhou-a at o jardim. Ao despedir-se dela pela ltima vez, o
  mdico apertou-lhe Flix fervorosamente a mo.

-- Perdoa-me?

-- Sim! disse ela.

E pela primeira vez nessa noite
  era a sua voz terna e amorosa como de costume.

Flix viu-a entrar no carro que
  partiu imediatamente. Voltou para a sala. Estava irritado contra si mesmo.
  Reconhecia a sua precipitao; achava-se grosseiramente injusto. Se lhe houvera
  lembrado a visita da moa, t-la-ia pedido como o meio nico de lhe desvanecer
  de todo as suspeitas. Agora que ela o deixava, acusava-se de a haver obrigado
  quele extremo recurso.

A noite pareceu-lhe ainda mais
  longa que o dia. Velava e remordia-lhe a conscincia. Ouviu bater uma por uma
  as horas todas, ansioso por que viesse o dia seguinte para ir a Catumbi
  resgatar  fora de ternura e respeito a injustia com que tratara a viva.
  Cerrou os olhos quando a arraiada despontou no cu; pouco dormiu, entretanto.
  Ao levantar-se tinha o esprito mais sossegado, e pde apreciar melhor a
  situao.

-- O casamento me restituir a
  confiana, pensava ele; quando estivermos juntos os dois, afastados da
  convivncia e do contato de estranhos, a paz morar no meu corao; s ento
  seremos felizes sem amargura nem remorso.

CAPTULO X / A ENFERMA

A doena de Raquel era grave;
  durante alguns dias chegaram a recear um desenlace funesto. Os velhos pais
  quase enlouqueceram, quando o mdico os preparou para a terrvel catstrofe. A
  menina percebeu o seu estado, mas nem o medo da morte, nem a saudade da terra
  lhe fez doer o corao. Morria como flor que era. A mgoa era toda para os que
  a viam assim condenada sem remdio.

O mdico assistente dera 
  molstia um nome tirado no sei se do grego, se do latim. Na opinio da me,
  havia alguma coisa mais do que o nome e a molstia; havia uma inexplicvel
  melancolia, anterior  doena, uma espcie de tdio precoce da vida, se no era
  antes alguma esperana malograda, -- ou mais claramente, alguma afeio sem
  esperana.

Para obter dela a confisso que
  imaginava, tinha D. Matilde o necessrio tato e doura: era mulher e me. Mas,
  ou porque nada houvesse realmente, ou porque quisesse levar consigo o segredo
  da sua melancolia, Raquel nenhuma confisso lhe fez.

Dois dias depois da visita de
  Lvia, Flix foi  casa do coronel. O coronel estava na sala, mergulhado numa
  poltrona, com os olhos parados e as feies abatidas pela viglia e pela dor.
  Quis levantar-se quando Flix apareceu  porta, mas este correu para ele e
  impediu o movimento.

-- Soube anteontem do estado de sua
  filha, disse Flix sentando-se ao lado do velho pai. Disseram-me que estava
  mal...

-- Mal, repetiu o coronel,
  definitivamente mal. A pouca esperana que tnhamos veio tirar-no-la o mdico.
  O senhor no sabe o que  perder assim metade da alma.

Flix disse algumas palavras
  banais de consolao, e chegou at a falar de esperana; mais ainda que a esperana
  fala sempre ao corao dos desgraados, o bom velho em outra coisa no
  acreditava mais que na morte.

Algum tempo estiveram calados;
  enfim o coronel rompeu o silncio:

-- Raquel  muito sua amiga, disse
  ele. Duas vezes perguntou pelo senhor.

-- Desde quando est doente?

-- De cama est h quinze dias; mas
  j sofria antes disso. A princpio no me deu muito cuidado; a molstia, porm,
  agravou-se rapidamente, e tem ido a pior.

Foram interrompidos pelo mdico
  assistente. Tinha este sido companheiro de Flix na escola. Ao v-lo ali
  suspeitou que o tivessem mandado chamar; Flix apressou-se a explicar o motivo
  da sua visita.

-- Em todo o caso, doutor, disse o
  outro, aproveito as suas luzes, e faamos, se lhe parece, uma conferncia.

O coronel foi ver se Raquel estava
  acordada; voltou pouco depois e acompanhou os dois mdicos  alcova da doente.

Flix foi o primeiro que assomou 
  porta; parou alguns instantes, impressionado com o espetculo que se lhe
  oferecia.

Sentada  cabeceira da cama estava
  D. Matilde, descorada e abatida, com os olhos tmidos, e porventura cansados de
  chorar. Aos ps da cama via-se uma moa amiga da infncia de Raquel, e sua
  dedicada enfermeira nesta ocasio. Ambas, triste e silenciosamente,
  contemplavam a doente.

Raquel estava branca como a fronha
  do travesseiro em que descansava a formosa cabea. Tinha os lbios entreabertos
  e a respirao curta e difcil. O pequeno rumor que fizeram os mdicos ao
  entrar um pouco a sobressaltou. Raquel abriu os olhos, que ardiam de febre.

Quando Flix se aproximou do leito
  e tomou o pulso da moa, esta olhou para ele e fez um gesto de espanto. Olhou
  depois em volta de si, como se duvidasse do lugar em que se achava. D. Matilde
  inclinou-se para a filha e disse:

--  o Dr. Flix.

Raquel olhou outra vez para Flix,
  com aquele sorriso apagado e triste dos doentes e murmurou:

-- Obrigada!

-- Como se sente? perguntou Flix.

-- Melhor, disse ela com uma voz
  to fraca que parecia um suspiro.

-- Deveras melhor?

Raquel fez um gesto de
  indiferena e no respondeu.

-- Vamos l, no desanime, disse
  Flix, e sobretudo no faa entristecer seus pais, que lhe querem tanto.

Flix examinou a doente,
  fazendo-lhe algumas perguntas, a que ela debilmente respondia. Quando ele cessou
  de a interrogar, a moa murmurou:

-- Morro, no ?

-- No, disse Flix, no h de
  morrer, no deve morrer. Tem ainda vida larga, mas  preciso nimo.

Raquel fez um gesto de quem no
  acreditava nas boas palavras do mdico, e voltou os olhos para a me. D.
  Matilde tinha os seus cravados em Flix, como se lhe quisesse ler no rosto a
  sentena da filha. A doente pareceu adivinhar o pensamento, e disse com
  esforo:

-- Por que no d as suas
  consolaes a mame?

A conferncia no durou muito
  tempo. Flix comeou opinando por uma modificao no tratamento at ali
  seguido, e declarou que no julgava todas as esperanas perdidas. O colega
  concordou facilmente na alterao pedida por Flix, tanto mais, disse ele,
  quanto as esperanas eram nenhumas.

Em sua opinio, Raquel estava
  irremediavelmente perdida. No era opinio area e infundada; ele podia
  demonstr-la com argumentos cabais e irrefutveis. Demonstrou-o efetivamente,
  durante vinte minutos, com a justa apreciao dos fatos, os dados seguros da
  cincia, e uma dialtica to cerrada que era impossvel fazer-lhe a menor
  objeo.

Quinze dias depois, entrava Raquel
  em convalescena.

No sentir dos pais, era Flix o
  salvador da filha. Fora ele quem lhes restitura a esperana, e a realizara com
  os seus bons conselhos e diligente desvelo.

O colega de Flix, para quem o
  restabelecimento da moa era a destruio de todas as noes mdicas recebidas,
  ficou profundamente surpreendido com esse resultado. Em todo caso, era
  impossvel neg-lo; limitou-se a aplaudi-lo, e quando a moa entrou em
  convalescena aconselhou os pais que a mandassem para algum arrabalde da
  cidade, a fim de respirar ares melhores.

No podia vir mais a propsito o
  conselho. Lvia mudara-se para as Laranjeiras. A idia da mudana era de Viana,
  que um dia a props  irm, e fora aprovado por ela. A casa ficava pouco acima
  da de Flix, do lado oposto.

Era um prdio elegante, levantado
  no meio de uma chcara, no extensa nem esmeradamente tratada. Viana,
  entretanto, organizara um programa de reforma, que prometia executar
  pontualmente. Seu contentamento parecia no ter limites; alm de preferir
  aquele bairro ao outro em que morava, havia a circunstncia de ir ficar ao p
  da casa de Flix, -- o que era j meia felicidade, dizia ele.

Lvia aprovara a mudana sob a
  influncia de igual idia. Aqueles ltimos dias tinham sido de plena e
  deliciosa paz. Seus projetos de futuro eram imensos; delineava uma vida
  independente de todas as escravides sociais, vida exclusiva deles, cheia de
  todos os prestgios da poesia e do amor. s vezes receava que esses sonhos
  fossem apenas sonhos. Ainda assim no os dera por nenhum preo deste mundo.

Estavam ento nos primeiros dias
  de outubro; o casamento fora marcado para meados de janeiro. Marcado, entenda-se
  bem, apenas entre os dois, porque Flix conseguira da viva a promessa de que a
  notcia seria dada nas vsperas do acontecimento.

-- Mas a razo deste segredo?
  perguntou Lvia depois de lhe prometer o que pedia.

-- Um capricho.

A razo verdadeira era
  a vacilao do seu esprito; mas a que ele deu contentou perfeitamente a moa.

-- Se eu tivesse o teu corao,
  disse ela, desconfiava desta exigncia; mas, v l, eu creio em ti.

Estavam ss na chcara; Viana,
  fiel ao seu programa de no perturbar os dois namorados, foi meditar a alguma
  distncia nas reformas que pretendia fazer. Caminhavam os dois calados e
  distrados, ou melhor, concentrados em si mesmos. De repente, a viva levantou
  a cabea e disse como continuao das suas anteriores palavras:

-- H contudo ocasies em que esta
  confiana parece abalar-se, no porque eu duvide de ti, mas porque duvido do
  destino. J te disse que sou supersticiosa, -- defeito das mulheres e das
  crianas. Estremeo algumas vezes, quando encaro o futuro, e, sem saber por que,
  pergunto a mim mesma qual ser o fim de tudo isto. Desmaios apenas, e raros, de
  um corao que ambiciona, talvez, mais do que poderia obter.

-- No te parece que eu esteja
  emendado? disse Flix sorrindo. H quantos dias no h sequer...

-- Cala-te! interrompeu Lvia
  tocando-lhe os lbios com os dedos. Tenho medo de te ouvir falar assim.

E depois de um instante de
  silncio:

-- No  o teu corao que me faz
  tremer; o teu corao  bom. No  tambm o teu esprito, apesar de caprichoso,
  visionrio, inconstante. Receio do futuro,  vista do passado.

-- Do passado? perguntou Flix
  estacando o passo.

Lvia suspirou.

-- Que houve de mau no teu passado?
  continuou o mdico fitando nela um olhar perscrutador.

-- Tudo.

Havia perto um velho sof de vime.
  Lvia encaminhou-se lentamente para ele e sentou-se. Flix contemplou-a algum
  tempo do lugar em que ficara. J no sorria; a dvida ensombrava-lhe os olhos.
  Enfim, deu alguns passos e parou em frente dela.

CAPTULO XI / O
  PASSADO

-- Serei indiscreto perguntando que
  passado foi esse? disse Flix depois de alguns instantes.

-- Oh! descansa! No me pesa nada
  na conscincia; mas no corao...

-- Amaste algum?

-- Amei a meu marido.

A esta resposta de
  Lvia seguiu-se novo e longo silncio. A memria do passado a que ela to
  misteriosamente aludira parecia doer-lhe na alma. Arfava-lhe o seio, e as mos,
  em que o mdico amorosamente tocou, estavam geladas e trmulas.

-- No acreditas que eu possa
  compreender-te melhor que os outros? perguntou finalmente o mdico.

-- Talvez no.

Flix fez um gesto de despeito. A
  moa arredou o vestido e abriu espao no sof, onde o mdico se sentou a um
  sinal dela.

-- Talvez me no compreendas melhor
  que os outros, continuou Lvia, e com isto no quero dizer que sejas to vulgar
  como os mais deles. No o s; mas h coisas que um homem dificilmente
  compreender, creio eu.

-- Nem quando ama? perguntou Flix.

Lvia no respondeu; Flix
  continuou:

-- Mas que passado foi esse? Posso
  no compreender-te, como dizes, mas saberei dizer-te algumas palavras de
  consolao, e dissipar com elas a tristeza que te ficar desta confidncia, que
  no  um remorso, decerto.

-- Amei a meu marido, comeou
  Lvia, e toda a minha confidncia se resume nessas poucas palavras. Tive uma
  paixo da primeira idade, quando o amor vem surpreender a ignorncia do
  corao. Ser esse o amor mais forte? H quem diga que o primeiro amor nasce
  apenas da necessidade de amar. Pode ser. Hoje que te amo sinto que pode ser
  assim. Em todo o caso, aquele afeto dominou-me toda; cobrei uma vida que me
  parecia imortal.

-- E ele?

-- Amava-me, creio, mas no
  entendamos o amor do mesmo modo; tal foi o meu doloroso e tardio desencanto. Para
  mim era um xtase divino, uma espcie de sonho em ao, uma transfuso absoluta
  de alma para alma; para ele o amor era um sentimento moderado, regrado, um
  pretexto conjugal, sem ardores, sem asas, sem iluses... Erraramos ambos, quem
  sabe?

-- Vejo que eram incompatveis,
  interrompeu Flix; mas, por que exigir de todos essa maneira de ver e sentir,
  que  mais da imaginao que da realidade?

Lvia levantou os ombros.

-- Estou explicando a situao da
  minha alma, continuou ela. Foi aflitiva e triste; no lha ocultei. Riu-se de
  mim. Era um homem aptico e frio; honesto,  verdade, e bom corao, mas
  falvamos lngua diversa e no nos podamos entender. Confiei todavia na
  influncia do amor. Empreendi a tarefa de o trazer  atmosfera dos meus
  sentimentos, errada tentativa, que s me produziu atribulao e cansao.
  Fatigava-o com isso a que ele chamava pieguices poticas; da fadiga passou 
  exasperao, da exasperao ao tdio. No dia em que o tdio apareceu conheci
  que o mal estava consumado. Quis emend-lo e no pude. Tinha feito da nossa
  vida conjugal um deserto; e se a minha alma clamava contra o destino, minha
  conscincia me acusava de um erro, o erro de haver perturbado a paz domstica,
  a troco de um sonho que no veio. No me fao melhor do que sou, bem vs; mas
  uma parte da culpa no ser da natureza que me fez to pueril? Tal  o meu
  receio agora, continuou Lvia depois de alguns segundos de silncio; s vezes
  cuido que no vim ao mundo para ser feliz nem para dar a felicidade a ningum.
  Nasci defeituosa, parece. Sers tu capaz de desfazer a apreenso ou corrigir o
  defeito?

A viva concluiu estendendo-lhe a
  mo que o mdico apertou entre as suas. Um sorriso de simpatia ou de
  comiserao, ou de ambas as coisas juntas, entreabriu os lbios de Flix. Nenhum
  deles falou; ambos pareciam conversar consigo mesmo. Enfim, a viva repetiu a
  pergunta.

-- Talvez possa dissipar-te a
  apreenso, respondeu Flix; mas, creio que no ser fcil. Tens um corao
  ainda muito criana, e que o h de ser at a morte, penso eu.

Flix calou-se, e contemplou 
  vontade a fisionomia da viva, que tinha os olhos postos no cho, absorta e
  pensativa. A pouco e pouco o rosto do mdico se foi igualmente fechando, e
  ambos, durante largo espao, se deixaram ir na corrente de seus pensamentos
  sombrios. Flix foi o primeiro que despertou do letargo.

-- Naufragaste  vista de terra,
  disse ele, e do naufrgio trouxeste apenas midos os vestidos. Sabes o que 
  naufragar em mar alto e solitrio, e perder tudo, at a vida? Foi assim comigo.

-- Sim? disse Lvia com um tom em
  que a alegria se misturava  curiosidade.

Flix no pde reter um sorriso.

-- O infortnio  egosta, pensou
  ele.

E continuou:

-- Sim, perdi muito mais. Abraar
  um cadver, que  isso para quem j abraou uma serpente? Tu perdeste apenas
  alguns anos de amor mal compreendido; no perdeste um bem precioso, que o tempo
  me levou: a confiana. Podes hoje ser feliz do mesmo modo que o querias ser
  ento; basta que te ame algum. Eu no, minha querida Lvia, falta-me a
  primeira condio da paz interior: eu no creio na sinceridade dos outros.

Aqui parou como se esperasse
  alguma observao da viva; ela, porm, olhava para ele tranqila e at
  risonha. Flix continuou as suas confidncias do passado. Eram histrias de
  afeies malogradas e tradas, contadas com sincera expanso, como se estivesse
  falando a si mesmo. s vezes a comoo fazia tremer-lhe a voz, e nessas
  ocasies, sobretudo, lia-se nos olhos da moa o enlevo com que ela ouvia
  falar-lhe o corao.

-- Ningum desperdiou mais
  generosamente os afetos do que eu, continuou o mdico, ningum mais do que eu
  soube ser amigo e amante. Era crdulo como tu; a hipocrisia, a perfdia, o
  egosmo nunca me pareceram mais que lastimveis aberraes. Meu esprito criara
  um mundo seu, uma sociedade platnica, em que a fraternidade era a lngua
  universal, e o amor a lei comum. Deixei-me ir assim, rio abaixo dos anos,
  gastando a seiva toda da juventude, sem clculo nem arrependimento, at que me
  bateu a hora das decepes funestas.

Calou-se. Sentira um rumor
  prximo; era Viana que passeava na chcara entregue s suas combinaes de
  horticultura. Ouviria ele a voz de Flix? Parece que sim, porque a pouco e
  pouco se foi afastando do lugar. Os dois ficaram outra vez ss. O mdico
  prosseguiu:

-- No me caram as iluses como
  folhas secas que um dbil sopro desprega e leva, foram-me arrancadas no pleno
  vigor da vegetao. No me deixaram essas doces recordaes, que so para as
  almas enfermas como que uma aura de vitalidade. Meu esprito ficou rido e
  seco. Invadiu-me ento uma cruel misantropia, a princpio irritada e violenta,
  depois melanclica e resignada. Calejou-se-me a alma a pouco e pouco, e o meu
  corao literalmente morreu.

Flix continuou a narrao por
  este mesmo tom elegaco e triste. Foi longa e fiel. Se a viva no o escutasse
  s com o corao, poderia perceber alguma coisa mais do que ressentimento e
  amargura. Flix no era virtualmente mau; tinha, porm, um ceticismo desdenhoso
  ou hipcrita, segundo a ocasio. No perceberia s isso; veria tambm que a
  natureza fora um tanto cmplice na transformao moral do mdico. A
  desconfiana dos sentimentos e das pessoas no provinha s das decepes que
  encontrara; tinha tambm razes na mobilidade do esprito e na debilidade do
  corao. A energia dele era ato de vontade, no qualidade nativa: ele era mais
  que tudo fraco e volvel.

Lvia no percebia nada disto;
  escutava-o com a f pia de um corao amante. Sabendo que a razo do atual
  abatimento eram os infortnios passados, ela confiava de si mesma o renovar
  aquela alma que envelhecera antes do tempo. Tais foram as suas consolaes
  quando o mdico terminou a longa confidncia. Ele agradeceu-lhas comovido, no
  sem lhe perguntar se ela teria fora bastante para concluir essa misso piedosa.

-- Tenho, afirmou Lvia.

--  certo que me ressuscitaste,
  continuou o mdico; e se o futuro me guarda ainda alguns dias de felicidade sem
  mescla, a ti s os deverei, minha boa Lvia; tu s havers feito o milagre.
  Mas...

-- Mas? repetiu a moa com impacincia.

-- A obra no est completa,
  continuou Flix; metade apenas. Fizeste brotar dentre as runas uma flor
  solitria, mas bela; nica neste rido terreno do meu corao. No basta; 
  preciso agora um raio que a anime e lhe conserve o perptuo vio; essa  a
  confiana, no de uma hora, mas a de todos os dias, a que no falece nunca e
  nos restitui a serenidade dos primeiros tempos. Sem ela, o meu amor ser um
  largo e intil martrio.

Dizendo isto, conchegou-a ao seio;
  tocavam-se quase os rostos, que a ternura, no a voluptuosidade, enlanguescia.
  No foi longo esse instante de mtua contemplao, mas valeu por muitas horas
  de prtica. Se a vida pudesse ser eternamente aquilo,  provvel que o corao
  de Flix adquirisse a paz que almejava. Enfim, a moa deixou cair o corpo, como
  se lho debilitasse o peso de comoes to vivas, e a palavra afluiu aos lbios
  de ambos.

Falaram ento em prosa;
  conversaram de seus projetos de futuro, dos arranjos do casamento, de uma
  viagem que fariam logo depois. Iam levantar-se quando ao longe lhes apareceu o
  irmo de Lvia. Caminhava apressadamente e alegre, ao encontro dos dois
  namorados. Flix comps o rosto com a expresso que o caso pedia; Viana
  aproximou-se, e disse  irm que o Coronel Morais estava na sala com a filha.

Lvia pediu licena ao mdico e
  dirigiu-se para a casa. Flix deu o brao a Viana.

-- Falvamos das suas reformas,
  disse ele, e fazamos prosaicamente o oramento da despesa que vai ter.

Viana sorriu-se  socapa, mas no
  deixou cair o assunto no cho. Falou com volubilidade dos seus planos, que eram
  vastos e originais, concluindo por uma singela confisso, acompanhada de um
  olhar indagador.

-- Receio, disse ele, que a Lvia
  se case mais tarde ou mais cedo.

Flix limitou-se a sorrir com
  indiferena; entravam ambos na sala.

CAPTULO XII / UM PONTO NEGRO

Lvia e Raquel estavam assentadas
  no sof; o coronel, encostado a uma cadeira, consultava o relgio. No
  consultava; tinha o relgio na mo, diante dos olhos, mas os olhos reviam-se na
  filha, enquanto esta respondia s perguntas da viva.

-- Aqui est a doente, disse Lvia
  apenas viu assomar  porta da sala o mdico e o irmo.

Raquel voltou a cabea, e no pde
  reter uma exclamao de surpresa e de alegria. Flix adiantou o passo e foi
  apertar-lhe a mo.

-- Ento? no est salva? disse ele
  olhando alternadamente para as duas moas.

-- Foi o senhor que a salvou, disse
  o coronel chegando-se ao grupo.

-- No fui; auxiliei a natureza,
  nada mais.

-- Havemos de p-la totalmente boa
  e viva como era antes, disse Lvia dando um beijo na convalescente.

Raquel ouviu este dilogo com um
  sorriso triste que parecia ainda mais triste naqueles lbios sem cor. Estava
  extremamente plida e magra; os olhos, agora que o fogo da febre se apagara
  neles pareciam amortecidos e fundos. Ainda assim, no perdera ela a sua natural
  gentileza. Mais: a prpria morbidez do aspecto como que lhe dava realce maior.

Talvez essa circunstncia
  influsse na impresso que o mdico agora recebia; pela primeira vez lhe
  pareceu Raquel uma mulher.

O coronel respirava felicidade por
  todos os poros. A alegria que perdera durante a molstia da filha, voltava
  agora mais que nunca ruidosa e comunicativa. Era um velho palreiro e jovial,
  amigo da palestra e de anedotas, antes gracioso que chocarreiro, tendo aquela
  amvel gravidade com que a gente se familiariza sem perder o respeito. De
  quando em quando olhava para a filha com olhos paternalmente namorados, ento
  parecia esquecer-se do resto do mundo, porque o mundo inteiro, ao menos parte
  dele, que a outra parte lhe ficara em casa, estava ali resumida naquela
  franzina e alquebrada criatura.

-- E promete-me que ma restituir,
  disse ele  viva, no corada, que ela nunca o foi, mas com aspecto de sade,
  viva como era, e alegre, e at se quiser travessa?

-- E por que no? Os ares so bons;
  os carinhos sero fraternais, e melhor que os ares e os carinhos, h de cur-la
  a natureza, e creio tambm que a boa vontade dela. No  assim? disse Lvia
  batendo na face de Raquel.

A resposta de Raquel foi dar-lhe
  um beijo, e sorrir, no j tristemente como da primeira vez. A tarde cara de
  todo. O coronel fez algumas recomendaes derradeiras  filha, agradeceu 
  viva e ao mdico, meteu-se no carro e voltou para Catumbi. Lvia foi mostrar 
  amiga o seu aposento; Flix despediu-se de ambas e dirigiu-se para a porta.

-- Volta? perguntou Lvia.

-- Talvez no, minha senhora,
  respondeu Flix, cuja inteno positiva era ir l tomar ch.

A presena de Raquel veio de algum
  modo alterar as relaes dos dois namorados. J no podiam ser freqentes as
  entrevistas solitrias em que ambos se esqueciam do mundo e de si. Mais que
  nunca, procurou Flix recatar o seu amor das vistas alheias, por modo que,
  apesar da convivncia que tinha com os dois, Raquel nada suspeitou entre eles.
  Alguma coisa adivinharia se reparasse que a viva, quando estava com ela, quase
  que s falava do mdico; mas, como ela tambm no falava de outra pessoa,
  parecia-lhe que era antes a viva quem a imitava.

Por esse tempo comeou Meneses a
  freqentar a casa de Viana, com quem travara relaes alguns meses antes. Flix
  fez a respeito dele um elogio sincero e merecido. O parasita acompanhou a boa
  opinio do mdico com um entusiasmo que cheirava a bons jantares. O advogado
  correspondeu  expectao da viva e no tardou que se tornasse familiar na
  casa.

Estava curado da sua malfadada
  paixo. Curado e vexado, dizia ele, quando Flix o interrogou a esse respeito.

-- Estes amores so as lies da
  escola de meninos, concluiu Meneses sorrindo. J saste da primeira escola; por
  que no sobes de estudos?

A esta metfora, um tanto
  rebuscada, respondeu Flix com um sorriso que podia confessar e negar ao mesmo tempo.
  Meneses, que no tinha nenhuma inteno oculta nas suas palavras, no se deu a
  averiguar qual das duas expresses convinha ao sorriso do amigo. As relaes de
  ambos pareceram estreitar-se mais. Com um pouco mais de expanso e confiana,
  teria o mdico referido ao amigo os seus amores e a sua felicidade prxima. No
  o fez, nem Meneses lho adivinhou. Teve suspeitas uma noite em que surpreendeu
  os olhos da viva amorosamente cravados no mdico, mas a indiferena com que
  este se levantou para ir gracejar com Raquel de todo o dissuadiu.

Os dias foram assim passando,
  longos para os dois amantes, breves para Meneses e Raquel que achavam naquela
  casa a mais deliciosa companhia deste mundo.

Aqui podia acabar o romance muito
  natural e sacramentalmente casando-se estes dois pares de coraes e indo
  desfrutar a sua lua-de-mel em algum canto ignorado dos homens. Mas para isso,
  leitor impaciente, era necessrio que a filha do coronel e o Dr. Meneses se
  amassem, e eles no se amavam, nem se dispunham a isso. Uma das razes que
  desviavam da gentil menina os olhos de Meneses era que este os trazia namorados
  da viva. De admirao ou de amor? Foi de admirao primeiro, e depois foi de
  amor; coisa de que nem ele, nem o autor do livro temos culpa. Que quer? Ela era
  formosa e moa, ele rapaz e amorvel, e de mais a mais inexperiente ou cego,
  que no adivinhava a situao anterior da viva e do mdico, ainda por entre os
  vus com que lha ocultavam.

Ao inverso de Flix, cujo esprito
  s engendrava receios e dvidas, Meneses era antes de tudo propenso s
  fantasias cor-de-rosa. Irmanavam-se no ponto de serem joguetes de sua
  imaginao. Meneses facilmente entreviu um mundo de esperanas. A afabilidade
  com que a viva o tratava pareceu-lhe auspiciosa; o mais inocente de todos os
  sorrisos servia-lhe de base a um castelo de vento; uma expresso qualquer,
  simples cortesia de sala, afigurava-se-lhe cheia de mil promessas de futuro.
  Nem futuro nem esperanas havia; havia a candura dele, que era boto de flor,
  ainda entrecerrado  corrupo da vida.

Tal era o contraste desses dois
  caracteres, que a estrela da viva, no sei se boa ou m estrela, reuniu a seus
  ps. Um, se viesse a adorar um rosto hipcrita, desceria na escala das
  degradaes, com os olhos fitos na quimera da sua felicidade; outro, ardendo
  pela mais anglica das criaturas humanas, quebraria com as prprias mos a
  escada que o levaria ao Cu.

Flix percebeu, enfim, o que se
  passava no corao do amigo. Sua primeira impresso foi de clera, no porque
  duvidasse logo da moa, mas por isso mesmo que outro homem se atrevia a am-la.
  E no havia perigo em tal situao? A simples pergunta era suficiente para dar
  largas ao esprito de Flix. Veio imediatamente a idia de que  moa ano fosse
  desagradvel o amor de Meneses. A vaidade, primeiro, depois o hbito, enfim a
  curiosidade do corao, os levariam um para o outro. Talvez os houvessem levado
  j.

Aconteceu uma vez que, falando
  dela, a fisionomia de Meneses, de risonha que estava, se tornasse subitamente
  sria. Flix era mais hbil que ele, no lhe foi difcil sondar-lhe o corao.
  O amigo contou-lhe tudo, com o fervor que lhe era prprio, e a singeleza de um
  homem ainda pouco conversado nas coisas do mundo. O mdico escutou-o com
  sofreguido, mas aparentemente quieto.

-- E esperanas? disse ele.

-- Poucas ou muitas; no sei bem o
  que seja. H ocasies em que tudo se me afigura fcil e decisivo; outras vezes
  desanimo e descreio de mim mesmo. Ela  afvel comigo, mas tambm o  contigo e
  com os mais. Adivinharia j alguma coisa? Quero crer que sim, e visto que se
  no agasta,  bom sinal, penso eu. O pior de tudo  que eu me no atrevo a
  dizer-lhe o que sinto.

Uma s palavra bastava ao mdico
  para arredar do seu caminho aquele rival nascente; Flix repeliu essa idia,
  metade por clculo, metade por orgulho, -- mal-entendido orgulho, mas natural
  dele. O clculo era coisa pior; era uma cilada, -- experincia, dizia ele; -- era
  pr em frente uma da outra, duas almas que lhe pareciam, por assim dizer,
  consangneas, tent-las a ambas, aquilatar assim a constncia e a sinceridade
  de Lvia.

Assim pois, era ele o artfice do
  seu prprio infortnio, com as suas mos reunia os elementos do incndio em que
  viria a arder, se no na realidade, ao menos na fantasia, porque o mal que no
  existisse depois, ele mesmo o tiraria do nada, para lhe dar vida e ao.

Meneses explicou ainda mais o
  estado de sua alma; no era amor violento que sentia, era afeio serena e
  branda; tranqila, mas irresistvel fascinao. O mdico, por um sentimento de
  pudor que lhe ficara, no animou abertamente as esperanas do amigo;
  entretanto, a sua palavra era to alegre, o riso de to boa feio, que o
  esprito de Meneses para logo sentiu reflorirem-lhe as esperanas, se  que
  elas haviam secado alguma vez.

CAPTULO XIII / CRISE

Lvia no percebeu logo o amor de
  Meneses; mas, era impossvel que tarde ou cedo o no suspeitasse. No se fingiu
  admirada quando ele lho confiou depois de algum tempo de assiduidade nas
  Laranjeiras. Nem se admirou nem se irritou; alm de no ser motivo para clera,
  havia entre ambos, como Flix dissera um dia, certa conformidade de sentir e
  pensar, que de algum modo os vinculava.

A resposta que lhe deu foi
  certamente fria e decisiva, no desdenhosa nem severa. Quando viu porm a
  tristeza que lhe causou, esqueceu de todo as formalidades convencionais e
  necessrias; procurou suavizar as penas do moo. Tirou-lhe toda a esperana
  presente ou futura; no poderia am-lo nunca. A amizade, porm, que lhe tinha,
  talvez o consolasse do desengano. Isso apenas; no devia simular um amor que
  no sentia nem acenar-lhe com uma felicidade que lhe no podia dar.

-- Que me no pode dar! repetiu
  Meneses apegando-se ainda a uma esperana fugitiva; e se eu esperar que algum
  dia soe a hora da felicidade que me nega? Nada depende de ns; os prprios
  movimentos do corao parecem nascer de mil circunstncias fortuitas, se no 
  que os rege uma lei misteriosa, e essa... Quem sabe? um dia, talvez, -- ouso
  cr-lo, -- um dia sentir que a simpatia que lhe inspiro se transforma, e...

-- Basta! interrompeu Lvia em tom
  imperioso.

Meneses calou-se; ela continuou:

-- O amor no  isso que o senhor
  diz; no nasce de uma circunstncia fortuita, nem de uma longa intimidade, 
  uma harmonia entre duas naturezas, que se reconhecem e completam. Por mais
  semelhante que seja o nosso esprito, sinto que Deus no nos fez para que o
  amor nos unisse.

Meneses no estava para estas
  averiguaes tericas;  at duvidoso que prestasse ateno s ltimas palavras
  da viva. O quimrico edifcio que to laboriosamente construra via-o ele
  desfazer-se em fumo, e esta s impresso o dominava agora.

Decorreu algum tempo de completo e
  acanhado silncio. Estavam encostados  janela que dava para o jardim. Meneses
  no ousava levantar os olhos para ela; no era s natural vexame da posio em
  que se achava, era tambm medo de contemplar ainda uma vez o bem que perdia.
  Lvia compreendia esse estado da alma do moo. Lastimava, quem sabe? no ser
  ele o escolhido do seu corao. Era o mais que lhe podia dar, e era muito.
  Enfim:

-- Fiquemos amigos, disse ela. A
  amizade lhe far esquecer o amor;  mais serena que ele, e talvez menos exposta
  a perecer. Conheo que sou egosta; peo-lhe uma coisa que s a mim
  aproveitar. Amigos, no lhe ser difcil ach-los; eu no os acharia to
  facilmente nem tais como o senhor.

Meneses tocou levemente na mo que
  ela lhe estendeu ao terminar estas palavras. O pedido que ela lhe fazia era
  mais afetuoso que judicioso; a um corao desenganado no h imediatamente
  compensaes possveis nem eficazes consolaes. A bondade da viva o comoveu
  todavia; ia agradecer-lhe quando Raquel entrou na sala.

Raquel estacou. Ambos estavam
  acanhados. A viva foi a primeira que rompeu o silncio chamando a filha do coronel.
  Que queria dizer o sorriso benvolo, mas sonso, que lhe pairava nos lbios? No
  o viu Meneses que olhava para fora, mas viu-o a viva e estremeceu.

Meneses no voltou l durante uma
  semana; prolongaria a ausncia, se o amor, fecundo de iluses, lhe no houvesse
  enchido o peito de esperanas novas. Lvia tratou-o com a costumada
  afabilidade, talvez com afabilidade maior. Como a confiana de Flix no se
  havia alterado, Lvia usava assim uma dissimulao honesta, por simples motivo
  de piedade e gratido. Estava no seu carter esse modo de interpretar as
  coisas, e de as tratar assim sem grande respeito s convenincias sociais.
  Profanas, diria eu antes, se quisesse exprimir os verdadeiros sentimentos da
  viva, que achava naquela obra de simpatia uma espcie de misso espiritual.

s missionrias daquela espcie,
  se as h, desejo-lhes maior perspiccia ou mais feliz estrela. Nem a estrela
  nem a perspiccia da nossa herona estavam acima do seu corao. O sentimento
  que a impelia era bom; o procedimento  que era errado. Ela no atentava nisso.
  Interrogava o rosto do mdico, mais confiante e alegre que nunca, e s isto lhe
  bastava a seus olhos. Fossem eles menos namorados, e veriam que a tranqilidade
  de Flix era to exagerada e fora dele, que no podia ser sincera.

A esses erros e iluses, que
  podiam conter os elementos de um drama no remoto, veio juntar-se ainda a
  iluso de Raquel. Esta aplaudia sinceramente os sentimentos que atribua 
  viva em relao a Meneses; o sorriso com que os surpreendera no queria dizer
  outra coisa. F-lo sentir um dia  viva; a energia com que ela lhe respondeu
  mais a persuadiu ainda. Lvia quis ento referir-lhe tudo, o verdadeiro objeto
  do seu amor e o seu prximo casamento; mas, posto que a idade no as separasse
  muito, Lvia considerava-a ainda criana e reprimiu o seu primeiro impulso.

Raquel ficou com as suas
  suspeitas.

Perdoemos agora  inexperincia da
  boa moa, -- criana, como dizia a viva -- a leviandade com que insinuou ao
  mdico as suspeitas que alimentava. F-lo por meio de aluso delicada e fina
  numa ocasio em que o pedia a conversa. O golpe foi profundo; a prova pareceu
  decisiva desta vez.

Raquel notou a impresso do
  mdico. O sorriso inocente e brinco que lhe entreabria os lbios
  repentinamente se lhe apagou. Flix olhava para ela sem ver a mudana que se
  lhe havia operado. Viu-a enfim, mas no a entendeu. Tentou fazer-se galhofeiro
  como sempre fora com ela; conseguiu faz-la sorrir.

Os dias que se seguiram a este
  foram de triste provao para a viva. Sabemos j que o cime de Flix era s
  vezes rspido. Nunca o fora mais que desta vez. Longas cartas trocaram ambos,
  amargas as dela, as dele friamente cruis e chocarreiras. Flix no lhe disse
  logo a causa desta nova crise: adivinhou-a Lvia, e tudo lhe contou lealmente,
  sem lhe negar a boa inteno com que tratava o corao de Meneses. Era
  mostrar-se muito pouco mulher. Flix viu em tudo aquilo um tecido de absurdos.

O que lhe disse ento foi o
  transunto das cartas que lhe escrevera. Grosseiro, irnico, incoerente, tudo
  isso foi nas palavras com que fulminou a pobre senhora.

Lvia no protestava. Quis
  interromp-lo uma vez; quando ele acabou nada achou que lhe merecesse resposta.
  Estavam na sala. Olhou assustada para todas as portas, deixou-se cair frouxamente
  numa cadeira e tapou o rosto com as mos.

Flix deu um passo para ela; o
  movimento era bom, mas o arrependimento veio logo.

-- Adeus! disse ele.

A moa descobriu o rosto.

-- Flix! exclamou ela.

O mdico parou alguns instantes. Lvia
  levantou-se e foi a ele arrebatadamente. Chegou a pegar-lhe numa das mas,
  abatida e lacrimosa ia comear uma ltima splica. Ele porm puxou a mo
  violentamente, olhou para ela, e depois de longo silncio, repetiu:

-- Adeus!

CAPTULO XIV / OU CAPTULO
  DO ACASO

Flix chegou a casa cheio de
  clera e desespero. Entrou impetuoso na sala; como se precisasse de vingar em
  alguma coisa a suposta injria, lanou mo do primeiro vaso que se lhe deparou
  e deitou-o ao cho. O vaso fez-se em estilhas.

-- Que  isso? disse uma voz
  estranha.

Flix estacou espantado; olhou
  para o vo de uma janela, donde viera a voz, e deu com a figura de Moreirinha,
  comodamente sentado, com um livro de gravuras aberto sobre os joelhos.

-- Sou eu, disse o visitante
  levantando-se e indo apertar a mo ao dono da casa. Admira-se de me ver aqui?
  Tomei a liberdade de o esperar, a despeito das observaes que me fez o seu
  criado.

Flix no pde encobrir o
  desprazer que lhe causava a visita. Moreirinha leu-lhe isso claramente nos
  olhos, e continuou:

-- Talvez no lhe seja agradvel a
  minha presena, sobretudo porque me parece ter alguma coisa que parece ter
  alguma coisa que o molesta nesta ocasio; mas no podia ser de outro modo...

Flix levantou os ombros.

-- E maior ser ainda o seu
  desgosto, continuou Moreirinha, quando souber que no lhe peo asilo s por uma
  hora, mas at amanh.

Dizendo isto, estendeu-lhe a mo.
  Flix estendeu-lhe a sua, e friamente lhe disse que podia ficar o tempo que
  quisesse.

Quando o corao padece no h maior
  importuno que um conversador indiferente e frvolo. Esta circunstncia veio
  ainda azedar mais o esprito de Flix. A solido lhe daria talvez um blsamo
  salutar, se o havia para ele. O acaso deparou-lhe, entretanto, uma testemunha
  diante de quem lhe era foroso aparentar a serenidade que no tinha.

O hspede compreendeu a situao,
  e francamente lhe disse que o no queria perturbar; viera como asilado, no
  como visita; no tinha direito s atenes do dono da casa. Flix respondeu o
  melhor que pode a esta cortesia, que alis o obrigava ainda mais. No havendo
  meio de escapar, procurou ao menos ser igualmente corts. Demais, Moreirinha
  no era to importuno como pareceria, porque falava sempre, e no tinha o
  sestro dessa outra casta de importunos que interrompem a cada passo os
  discursos com perguntas... de boca e de gesto.

No se demorou o hspede em dizer
  a causa que o trouxera ali: era Ceclia. Apesar da situao em que se achava,
  Flix no pde deixar de lhe prestar ateno.

-- Ceclia? perguntou ele.

--  verdade:  o meu mau anjo.
  Lembra-se dos elogios que lhe fiz dela? Eram sinceros, e eram tambm justos
  naquele tempo. At ento no havia encontrado docilidade igual. No sou piegas,
  sabe; mas gosto de um episdio assim. No sei que lhe fizeram  boa rapariga,
  que de todo mudou e veio a ser um verdadeiro diabo. Aquelas cadeias to leves
  que nos prendiam um ao outro, e que eu chamava cadeias de rosas, tornaram-se de
  ferro pesado. Quero fugir-lhe e no posso; tenho tentado tudo para escapar-lhe,
  mas em vo. Escondo-me em casa, na casa dos amigos, nos hotis; onde quer que
  esteja l ir buscar-me, e ento Deus sabe o que sofro. Hoje lembrou-me vir
  passar aqui o resto do dia e a noite com o senhor; estou certo de que no dar
  comigo.

Flix ouvira atentamente a
  exposio do Moreirinha, no sem achar alguma relao entre o estado dele e o
  seu. Moreirinha referiu ento muitos episdios do que ele chamava sua
  escravido.

-- E no conhece nenhum meio de lhe
  escapar por uma vez?

-- Nenhum; ainda quando eu pudesse
  sair da corte, estou certo de que ela iria buscar-me a bordo do navio ou 
  portinhola do carro que me levasse.

To notvel mudana no
  carter de Ceclia no deixou de chamar a ateno de Flix. Compreendeu
  facilmente que era obra do prprio amante. A rola fizera-se gavio, pela nica
  razo de que Moreirinha lhe dera ensejo de conhecer a prpria fora.

De abatimento em abatimento
  chegara Moreirinha  miservel posio atual. No era ele homem de salutares
  reaes nem de resignaes filosficas: era, sim, homem de fugir e adiar, --
  carter feito de inrcia e medo, maravilhosamente disposto para os desesperos
  inteis e as capitulaes vergonhosas.

-- Mas, por que no sai da corte
  algum tempo? disse Flix aps alguns minutos. Sempre h de haver meio de fugir...

Moreirinha refletiu um instante.

-- Por duas razes, disse ele: a
  primeira  que, apesar de tudo, no deixo de gostar dela, e se pudesse
  escapar-lhe durante trinta dias, ia no trigsimo primeiro procur-la...

-- A segunda razo... interrompeu Flix
  a quem parecia incomodar essa ingnua confisso.

-- A segunda razo, respondeu
  Moreirinha com hesitao,  que... no posso.

Flix desceu os olhos no vesturio
  do rapaz, e viu nele o comentrio das palavras que acabava de ouvir. Elegncia
  ainda havia, mas j pobre e rafada; os botins tinham sinais de longo servio; o
  palet alis bem lanado, era de fazenda visivelmente inferior. Trazia luvas
  cor havana, mas ao olhar curioso de Flix no escapou a circunstncia de que as
  pontas dos dedos j estavam assinaladas por uma leve pasta de cor preta,
  vestgio de aturado uso.

No era preciso grande perspiccia
  para compreender que aquilo tudo era obra de Ceclia. Nem ficaria longe da
  verossimilhana quem afianasse que Moreirinha estava eternamente condenado ao
  capricho daquela mulher. No tinha decerto o rapaz com que lhe satisfazer todas
  as vaidades e necessidades; ela incumbia-se de abrir outras verbas no oramento
  da receita, mediante um bem combinado sistema de impostos.

Flix compreendeu tudo isso de relance,
  e procurou trazer o esprito de Moreirinha a idias mais alegres, menos ainda
  por ele que por si.

No foi coisa difcil. Ao esprito
  de Moreirinha repugnavam as preocupaes graves. Aproveitou o ensejo que o
  mdico lhe ofereceu e entrou a falar das coisas correntes do dia. Dos mil
  episdios da vida de certa classe, no havia gazeta melhor informada que o
  amante de Ceclia. Os novos amores de uma, os arrufos de outra, o dito chistoso
  desta, a aventura daquela, tudo ele sabia em primeira mo. No lhe perguntassem
  por estrias literrias nem crises polticas; mas a moblia com que Fulano
  presenteara a certa dama, a cela equvoca em que Sicrano chegara a beber champagne por uma botina, esse era domnio seu, desde que
  os amores de Ceclia de todo o separaram da sociedade.

Isto no recreava nem interessava,
  mas enchia o tempo, e desde que estava obrigado a sofrer o hspede, era melhor
  sofr-lo assim.

Era impossvel, entretanto, no
  volver o esprito  sua prpria situao. De quando em quando o mdico esquecia
  o narrador, e o seu pensamento ia esvoaar em derredor da viva. Foi numa
  dessas ocasies que lhe chegou uma carta dela. Flix abriu-a sofregamente e
  leu-a duas vezes. Era longa; recapitulava a histria daqueles ltimos meses, e
  conclua fazendo um apelo  razo do mdico. Adivinhava-se que a moa escrevera
  com lgrimas, mas j no havia o tom splice com que em anlogas ocasies lhe
  pedia a reconciliao.

O tempo alguma obra havia j feito
  no esprito de Flix; a carta veio consum-la. Flix no estava ainda certo da
  inocncia da viva, mas j estava certssimo da brutalidade da sua exploso, e
  este reconhecimento era uma dor nova, quase to profunda como a outra.

Seu primeiro impulso foi ir ter
  com Lvia; desistiu dele e preferiu escrever-lhe uma carta. Trs vezes a
  comeou sem lograr chegar ao fim. Vacilava entre ser afetuoso ou severo; num
  caso lembrava-lhe a perfdia possvel, noutro, a provvel inocncia; temia ser
  injusto ou ridculo. Como todos os caracteres indecisos, no achou mais recurso
  que uma intil desesperao.

Anoitecera; Moreirinha estava mais
  alegre que nunca, e pagava a hospitalidade do mdico com as suas galhofas
  costumadas. No contava com Ceclia, mas adivinhou que era ela quando ouviu
  parar um carro  porta.

-- Estou perdido! disse ele
  desatando um longo suspiro.

Era ela.

Cansada de esperar que lhe
  levassem resposta do recado que dera, Ceclia desceu do carro e entrou em casa. Ao chegar  porta relanceou os olhos pela sala, onde no viu desde logo o amante; Moreirinha
  metera-se no vo de uma janela. Flix olhou severamente para Ceclia, como quem
  lhe estranhava a liberdade que tomara. Mas onde iam j as flores de antanho? A
  dcil rapariga de outro tempo tornara-se mulher desgarrada e solta. Caminhou
  afoitamente para o mdico e estendendo-lhe a mo:

-- Como ests, mon vieux? disse
  com um risinho de mofa.

Nessa ocasio descobriu o amante,
  que parecia entretido em contar as estrelas. Foi a ele, e soltava j as
  primeiras palavras de uma veemente apstrofe, quando Flix julgou prudente
  intervir a tempo de evitar um escndalo; reconciliou-os como pde, e secamente
  os despediu.

Lvia estava  janela desconsolada
  e triste, enquanto Raquel, no menos triste que ela, executava no piano uma
  melodia adequada  situao de ambas. No viera resposta do mdico; a viva
  sentia desvanecer-se-lhe a esperana de tantos meses, e com ela o futuro que
  to perto se lhe afigurava. Estas eram as suas melanclicas reflexes, quando
  viu parar  porta de Flix um carro, descer uma mulher, entrar, sair depois com
  um homem e partirem ambos.

O golpe foi terrvel e mais
  profundo que nunca. A viva no temia decerto uma rival triunfante; mas via e
  sentia o desprezo do homem por quem tantas lgrimas chorara naquele dia. Se o
  mdico lhe aparecesse ento, ela reconheceria o seu engano, e a alegria de se
  sentir estimada lhe daria foras contra a dor de se ver ofendida. Flix no
  veio. Lvia mal pde resistir  humilhao. Uma lgrima, -- a ltima que lhe
  restava, -- foi a nica expresso do seu imenso desespero.

CAPTULO XV / ENFANT
  TERRIBLE

No dia seguinte, logo cedo, Viana
  foi  casa do mdico. No ia almoar com ele; ia convid-lo para jantar.

-- Fao anos hoje, disse o
  parasita, e quisera ter  mesa alguns amigos, poucos. O senhor  dos primeiros,
  no pode faltar.

-- No faltarei, respondeu Flix.

Viana emitiu em seguida algumas
  idias a respeito da maneira por que encarava um jantar de anos. No devia
  compreender seno amigos ntimos, por ser festa do corao, alegria domstica, em
  que tudo o que no falasse a lngua da amizade seria estrangeiro ou talvez
  inimigo. No bastava gosto para a escolha de tais amigos; era preciso jeito e
  sagacidade para discernir os que se prendiam pelo afeto dos que aderiam pelo
  costume. Esqueceu-lhe o principal; esqueceu-lhe dizer que, no seu ponto de
  vista, um jantar de anos era tambm um jantar a juros.

Flix aceitou o convite com
  sofreguido; esperava um pretexto para voltar  casa de Lvia. Pungia-o ainda o
  cime, mas a irritao passara, e em lugar dela nascera o desejo de ver
  restabelecida a harmonia antiga, no por ato de vontade prpria, mas por uma
  completa justificao da amada.

Com tais sentimentos saiu de casa.
  Lvia estava  janela quando o viu chegar; foi receb-lo no patamar da escada que
  dava para o jardim. Ao apertar-lhe a mo, entre triste e risonha.

-- Era eu que devia perdoar-lhe,
  disse; mas seria ofender o seu orgulho.

-- O meu orgulho? Perdoar-me?
  repetiu Flix.

-- Sim, disse ela fazendo um gesto
  afirmativo.

Leu-lhe Flix no rosto
  to sincera tranqilidade, que esteve quase a aceitar a reconciliao. Hesitou
  algum tempo; deitou os olhos  sala, e viu atravess-la na direo da escada a
  figura de Raquel. Ento lembrou-lhe a semiconfidncia que esta lhe fizera, e
  amargamente respondeu  viva:

-- Sejamos srios.

Lvia empalideceu. Quis responder
  alguma coisa, e no pde; Raquel estava com eles.

Pouco depois chegaram o coronel e
  D. Matilde; Meneses no tardou muito. Algumas pessoas mais completavam o
  pessoal da festa. A presena de estranhos constrangia a viva e o mdico; era
  foroso ser alegre como os outros, e isso custava a ambos, mais ainda a ela que
  a ele.

O jantar passou sem novidade de
  vulto. As pilhrias do coronel, e os brindes repetidos de Viana entretiveram a
  sociedade. Flix tentou seguir a corrente da alegria e logrou obt-lo. No
  reparava, -- ainda mal! -- que a fronte da viva parecia entristecer-se mais;
  seus olhos procuravam antes os de Meneses que os dela. Meneses tinha os seus
  embebidos nela.

No fim do jantar Viana props que
  fossem conversar na chcara. Meneses pediu que a filha do coronel tocasse
  primeiro uma melodia que lhe ouvira alguns dias antes. Raquel consentiu. A
  melodia era extremamente melanclica, e Raquel tocava-a com alma. O tom da
  msica influiu nos nimos; no havia s o simples silncio da ateno, mas o
  recolhimento da tristeza.

Em alguns dos convivas esta
  impresso era mais natural e foi mais pronta. O mdico, entretanto, forcejava, no
  s por sacudir a estranha influncia, como por afetar completa iseno de
  esprito.

Lus estava em p diante dele, com
  os cotovelos fincados nos seus joelhos. Flix brincava-lhe com os cabelos, e
  ambos sorriam um para o outro, como se fossem os nicos estranhos  comoo
  geral.

Ora, no meio do absoluto silncio
  da sala, apenas interrompido pelas notas soltas e magoadas que os dedos de
  Raquel tiravam do piano, o filhinho de Lvia fez esta singela pergunta ao
  mdico:

-- Por que  que o senhor no se
  casa com mame?

Lvia estremeceu. Raquel cessou de
  tocar e volveu rapidamente a cabea para o grupo donde partira a voz. Dos
  outros convivas uns sorriam da inocente indiscrio do menino, outros
  observavam a viva, ningum reparava em Raquel.

A filha do coronel deixou
  imediatamente o piano. Viana lembrou ento o passeio da chcara. Todos
  aceitaram o alvitre e saram da sala. A espcie de acanhamento que a pergunta
  do menino deixara em todos, para logo desapareceu de alguns.

Lvia no sara logo. A alguma distncia
  repararam na falta dela, e Raquel props-se a ir busc-la. Achou-a a abraar e
  beijar o filho. Conquanto ela fosse me extremosa, no havia razo imediata
  para aquela exploso de ternura. Raquel estacou sem compreender nada.

A viva olhou para ela conchegando
  o filho ao corao.

-- Que queres? perguntou.

Raquel no respondeu. A pouco e
  pouco se lhe ia alumiando o esprito. Olhou longo tempo para ela, como se 
  fora quisesse arrancar-lhe a explicao, que o seu corao pressentia. Enfim,
  pareceu adivinhar tudo.

-- Ama-o ento? perguntou ela com
  os lbios trmulos.

-- Creio que o amei, respondeu
  Lvia baixando tristemente a cabea.

Se o esprito de Raquel no fosse
  ainda o regao da castidade, aquela confisso mentirosa da viva, porque ela
  ainda amava, podia fazer-lhe nascer alguma desairosa suspeita. Mas Raquel no
  viu naquelas palavras mais do que um amor medroso e no compreendido. Sua
  eloqente resposta foi apert-la nos braos.

Lvia apertou-a com fora. Era a
  primeira vez que o acaso lhe deparava uma confidente. Alteava-se-lhe o seio,
  tmido de suspiros; duas lgrimas lhe romperam dos olhos e foram morrer na
  espdua de Raquel. O menino interrompeu essa doce efuso. Lvia respirou
  largamente, e beijando com ternura a moa, disse:

-- Vamos.

Mas Raquel no se movia. Tinha os
  olhos postos nela, os lbios apertados, os braos pendentes. Lvia sacudiu-lhe
  brandamente os ombros.

-- Que tens? disse.

-- Nada, suspirou Raquel.

Lvia estremeceu. Sbito relmpago
  lhe atravessou as sombras do esprito. Interrogou-a de novo, mas foi em vo. Ento sentiu em si todas as energias do seu temperamento, e com um grito, que a clera
  abafava, exclamou:

-- Ah! tu o amas tambm!

Raquel no lhe respondeu. Se a
  viva lhe houvera falado com brandura  provvel que lhe fizesse plena
  confisso de seus sentimentos. Mas, s palavras colricas de Lvia, a pobre
  moa comeou a tremer.

-- Tu o amas tambm! repetiu Lvia
  com voz surda e concentrada.

Raquel curvou o corpo, ps as mos
  em atitude de splica, e murmurou com voz trmula:

-- Perdo!

Pairou nos lbios da viva um
  sorriso sarcstico. Raquel repetiu ainda muitas vezes a palavra perdo; mas
  a nica resposta da sua rival foi pegar-lhe do brao e indicar-lhe a porta.

-- Vai ter com ele! exclamou.

Depois saiu arrebatada da sala.
  Raquel, magoada pela violncia do gesto da viva, acompanhou-a com o olhar at
   porta. Os olhos da cora ofendida no chamejavam dio contra a leoa irritada.

CAPTULO XVI / RAQUEL

Quando Raquel ficou s atirou-se ao
  sof, trmula, fria, com os olhos secos, sem compreender bem aquele drama
  ntimo, mas sentindo-lhe j algum terrvel desenlace. O que ela via claro  que
  a outra amava o mesmo homem, e com tal fora que cedera a um impulso de clera,
  to contrrio aos seus hbitos de brandura.

As reflexes de Raquel no
  passaram da. Nem todas as almas podem encarar as grandes crises. Quer-se um
  esprito robusto para estas situaes complexas. Raquel ficou simplesmente
  atnita e abatida.

Na chcara foi notada a ausncia
  das duas. Viana deixou os hspedes e foi  sala.

-- Que faz aqui? perguntou ele 
  filha do coronel.

Raquel ficara perturbada com a
  presena de Viana, e ainda mais com a pergunta. Enfim, balbuciou uma resposta
  infantil.

-- Estava pensando numa coisa, disse
  ela.

-- Onde est Lvia? perguntou Viana
  sem atender  resposta da moa nem ao sorriso forado que lhe entreabria os
  lbios.

-- Creio que est incomodada; foi
  para dentro.

-- Coisa de cuidado?

-- Parece que no.

Viana deu duas voltas na sala e saiu
  para a chcara, pedindo  moa que l se fosse reunir aos outros.

Flix, entretanto, viera at o
  jardim, que ficava em frente da casa. Mal havia dado alguns passos quando viu
  encostada  porta da sala a filha do coronel, com os olhos postos no cu, acaso
  pedindo a Deus que lhe estendesse a mo para subir at l. Era sol posto, hora
  de melancolia; tudo ali em volta assumia a cor pardacenta e luminosa dos
  ltimos instantes da tarde.

Flix caminhou cautelosamente para
  a casa, subiu por um dos lanos da escada, e surpreendeu a moa, dizendo-lhe:

-- Est linda assim; mas ns
  precisamos v-la c fora.

Raquel retraiu o corpo sem ousar
  dizer uma s palavra. Flix estendeu-lhe a mo convidando-a a descer. A moa
  entrou para dentro; o mdico deu ainda um passo, mas ela, fazendo um gesto
  suplicante, disse com voz aflita:

-- Pelo amor de Deus, saia!

Flix no resistiu; desceu ao
  jardim e caminhou para a chcara a reunir-se s outras pessoas. Em vo buscava
  conjeturar a causa daquela splica. Era impossvel conciliar o procedimento de
  Raquel com a familiaridade e a confiana que entre ambos havia. A razo da
  diferena devia ser grave. Mas qual seria ela?

Os convidados retiraram-se cedo.
  Meneses e Flix foram os ltimos que saram, ao lado um do outro, ambos entregues
  a reflexes diversas, porque Flix pensava nas palavras de Raquel, Meneses na
  pergunta do menino.

A filha do coronel desceu ao
  jardim. Era noite fechada. Sentou-se num banquinho, e ali ficou em triste
  meditao. A pobre moa tremia de susto, de incerteza, de apreenso. No ousava
  encontrar os olhos de Lvia; tinha-lhe medo, medo pueril, escusado, sem razo,
  mas enfim medo, e nada havia que tranqilizasse a sua alma franzina e
  pusilnime.

Como benefcio celeste,
  entraram-lhe a correr as lgrimas, at ento retidas pela presena de
  estranhos. Ningum lhas viu, que a noite era fechada e o stio ermo; mas a aura
  estiva, que comeava a bafejar a folhagem ressequida do sol, acaso lhe ouviu os
  soluos, acaso lhos levou ao seio de Deus. Veio ento, de influxo divino, uma
  doce consolao s suas mgoas solitrias.

No ousando voltar para dentro,
  determinou esperar ali o irmo da viva, que fora acompanhar um amigo da
  vizinhana. Pedir-lhe-ia ento para a levar no dia seguinte  casa de seus
  pais. No hesitava entre a ternura deles e o dio de Lvia.

Assim refletia ela, quando sentiu
  passos no jardim. Voltou-se; era a viva.

-- Ah! exclamou Raquel
  levantando-se, trmula e assustada; pelo amor de Deus! eu no lhe fiz mal
  nenhum!

Lvia acercou-se de Raquel; travou-lhe
  brandamente das mos, apesar do esforo com que ela buscava esquivar-se, e
  disse:

-- Que mal me farias tu, criana? A
  culpada sou eu; sou eu que te peo perdo, porque fui cruel e injusta, e cedi
  ao egosmo do meu corao... Perdoa-me!

-- Perdo-lhe tudo! respondeu
  Raquel.

Caram nos braos uma da outra.
  Jamais duas rivais se estreitaram mais sinceramente amigas do que essas duas.
  Largos minutos correram sem que nenhuma delas falasse; refletiam talvez, talvez
  no pudessem vencer o acanhamento da sua posio. Lvia foi a primeira que
  rompeu o silncio:

-- Como  que vieste a am-lo?
  perguntou ela.

-- No sei, respondeu ingenuamente
  Raquel; nasceu-me o amor sem que eu reparasse nele. Nem sei se nasceria; creio
  que foi apenas transformao, porque eu de pequena me acostumei a admir-lo.
  Foi talvez a admirao que se fez amor quando eu cresci.

-- Nunca lho deste a entender?

-- Oh! nunca.

-- E ele?

-- Percebi que me queria. Brincava
  comigo, como quando eu era criana: nada mais.

-- E resignavas-te  sorte?

-- Que poderia fazer seno isso?
  Alguma esperana tive nestes ltimos tempos; em que a fundava, no sei; talvez
  na circunstncia de nos vermos mais a mido. Enganava-me; penso que no nasci
  para ser feliz.

-- Quem sabe? disse a viva. Nem
  sempre o nosso corao acerta; pode ser que mais tarde te aparea outro a quem
  ames do mesmo modo...

-- Do mesmo modo? interrompeu
  Raquel com surpresa.

Lvia pegou-lhe nas mos.

-- No te parece que assim seja?
  perguntou.

-- Oh! no. Chame-me criana, se
  lhe parece; a senhora h de saber mais do que eu, naturalmente; mas o meu
  corao me diz que eu no poderia amar a ningum mais.

-- A ningum mais! murmurou a viva
  amargamente. Concentraste ento toda a seiva do teu corao, neste amor
  silencioso e quimrico? No digas isso; amars mais tarde a outro que te amar
  tambm, e sers feliz, creio eu. Murchar esta primeira flor do teu corao,
  mas, h seiva nele para dar vida a outra flor, to bela talvez, e com certeza
  mais afortunada. O contrrio, Raquel, seria injustia de Deus. O amor  a lei
  da vida, a razo nica da existncia. Encher de uma s vez a alma, sem que
  ningum lhe beba o licor divino, e regressar ao Cu sem ter conhecido a
  felicidade na Terra, nem o querer Deus, nem o temers tu. Falas pela boca da
  tua amargura de hoje; espera a ao do tempo, que  bom amigo.

Raquel meditava. Era a primeira
  vez que ela ouvia falar daquele modo em coisas do corao. A linguagem da viva
  servia-lhe a um tempo de consolao e de luz.

Lvia falou ainda muito tempo, sem
  preconceito nem reserva; no falou como rival, seno como amiga e me. No
  reparava sequer que lhe dava armas contra si. Falaria talvez de outro modo se
  se considerasse feliz; mas, como a situao de ambas era igual, ela entornou na
  alma de Raquel todo o sentimento de que a sua alma estava cheia, e foi
  eloqente, porque foi sincera.

-- Sim, disse Raquel, quando ela
  acabou; compreendo tudo isso que me est dizendo. A senhora sabe amar... E
  ainda o ama, no?

Lvia calou-se.

-- Que lhe custa dizer? insistiu a
  donzela.

-- Custa-me lgrimas. Eu no te
  poderia explicar nunca este sentimento que me nasceu como erva ruim para me
  envenenar a existncia, e que eu tanto tempo supus que seria a coroa de minha
  vida... No te quero enfadar, que so tristezas para isso.

-- Mas ento ele? aventurou Raquel.

-- No me perguntes mais; afirmo-te
  s que o amei, que talvez tornasse a am-lo...

-- E que ainda o ama, concluiu a
  rival.

Lvia esteve calada alguns
  instantes, procurando ler-lhe no rosto, apesar das sombras da noite, as
  impresses que lhe iriam na alma.

-- No! j o no amo! disse a viva
  com esforo.

Seguiu-se um longo silncio.

-- E se o amasse, disse enfim
  Lvia, que farias tu?

-- Nada! respondeu resolutamente
  Raquel.

-- Deveras, nada?

-- Pediria a Deus que a fizesse
  feliz, e estou certa que Deus me ouviria.

-- Era capaz disso? perguntou a
  viva segurando-lhe nos pulsos e fitando lhe os olhos em cheio.

-- Era, respondeu ingenuamente a
  donzela.

Lvia no disse palavra. Se das
  comoes da sua alma algum vestgio lhe subiu ao rosto, disfarou-lho a noite
  s vistas de Raquel. Ambas ficaram pensativas algum tempo. Uma forte rajada
  f-las estremecer. Era sinal de chuva prxima; nuvens negras comeavam a povoar
  o cu. As duas recolheram-se a casa.

-- Vales mais do que eu, dizia a
  viva entrando com Raquel na sala. Eu sou apenas egosta; egosta e nada mais.
  Guarda essas flores evanglicas do sacrifcio, do perdo e do amor. So raras;
  e por isso  que s um anjo.

Foi diferente a noite que ambas
  passaram.

Raquel estava mais tranqila
  depois da conversa no jardim; mas, que destino teria a flor de sua alma, lrio
  transformado em goivo, vivido de lgrimas, medrado no silncio? No lhe apeteciam
  lutas. Faltavam-lhe as armas de combate: -- a astcia ou a energia; faltava-lhe
  principalmente o desejo de despertar um corao que sabia no ser seu.

Mas esse corao possua-o acaso
  Lvia? Parecia-lhe que no; o mistrio, porm, a reticncia, a indeciso das
  palavras da rival, tudo se lhe afigurava cobrir um drama que ela no
  compreendia nem conjeturava.

No nimo de Lvia outras foram as
  preocupaes. Para ela, a situao era mais clara. Sentia desvanecer-se o amor
  de Flix, e via surgir uma rival perigosa. Tinha medo da ignorncia de Raquel;
  receava que a inocncia dessa alma ainda em flor pudesse dominar o esprito
  rebelde de Flix; e tal seria a catstrofe das suas esperanas.

E quando todas essas sombras lhe
  povoavam o esprito, e o corao lhe pulsava com mais fora, perguntava-lhe a
  conscincia se lhe era lcito opor algum obstculo  felicidade da donzela,
  dado que esta vencesse o corao do seu noivo.

Lvia no dormiu a noite toda. No
  dia seguinte, apenas a claridade da manh lhe entrou no quarto, a viva
  levantou-se, vestiu  pressa um roupo, e foi ao quarto de Raquel.

A filha do coronel dormia
  profundamente. Repousava de suas longas reflexes. Lvia abriu o cortinado
  muito ao de leve, contemplou-lhe o rosto sereno e risonho, os olhos cerrados, e
  os lbios semi-abertos como se em sonhos murmurasse palavras de amor. Os
  cabelos esparsos lhe serviam de resplendor  sua cabea anglica.

-- No! pensava Lvia, o amor no
  dorme assim tranqilo em dias de infortnio e desespero. Criana inconsciente
  que te supes alar s regies do sol, que sabes tu dos precipcios da viagem,
  que conheces tu das voragens do corao?

-- Ah! estava aqui! exclamou Raquel
  acordando; ainda bem!

-- Por qu?

-- Sonhei que morria, e que era
  recebida no Cu. Fora bom morrer assim; mas eu sempre tinha pena de deixar a
  Terra. Acordou hoje muito cedo.

-- Queria dar um passeio, disse
  Lvia indo abrir a janela, mas a manh j est quente.

Raquel olhou para ela; viu-lhe os
  olhos pisados e o rosto desfeito. Compreendeu que no havia dormido, e que
  chorara.

-- Ama-o ento muito? perguntou ela
  a si mesma.

CAPTULO XVII / SACRIFCIO

A situao das duas moas
  demandava um termo. Raquel foi a primeira que resolveu deixar completamente o
  campo; tinha no seu restabelecimento uma excelente razo para regressar a casa.

Lvia compreendeu a inteno da
  amiga quando esta lhe comunicou a sua resoluo. Era to simples e tocante o
  sacrifcio, que a viva no resistiu a um impulso generoso. Respondeu-lhe com
  um beijo. O beijo era de admirao; Raquel acreditou fosse de agradecimento, e
  sorriu com tristeza.

Ficou assentado que Raquel iria no
  domingo prximo, e nesse sentido foi avisado o coronel.

Estavam ainda no dia seguinte ao
  do episdio do menino. Nenhuma das suas circunstncias esquecera ao mdico. A
  esquivana de Raquel continuava a preocupar-lhe o esprito, no menos que a
  infundada suspeita que nutria a respeito da viva. Era meado do ms de
  dezembro. A data do casamento estava prxima. Tudo exigia um desenlace a tempo.

No tardou que o mdico
  descobrisse os sentimentos que a filha do coronel nutria a seu respeito.
  Surpreendeu-a perto de uma janela interior, a beijar uma pgina de um lbum de
  retratos. Aproximou-se cauteloso, lanou os olhos  pgina e viu nela o seu
  prprio retrato.

A descoberta f-lo sorrir. Seria
  aquilo a razo da mudana que notara nela? Nesse caso sabia j da afeio que o
  ligava  viva, talvez do projetado casamento. Era possvel tambm que a volta
  dela  casa de seus pais no tivesse outro motivo.

Por mais isento que seja o
  esprito de um homem,  raro que o no lisonjeie uma afeio assim, medrosa e
  silenciosa, nascida e vivida na soledade da alma. Flix sentiu primeiro essa
  impresso de egosmo. Veio depois outro sentimento melhor, -- o de uma
  respeitosa admirao. Seu pensamento entrou a conjeturar a data daquele
  singular amor;  proporo que se internava nos dias do passado, ia combinando
  uma srie de episdios esparsos, aparentemente vagos, agora significativos e
  eloqentes. No era recente a afeio dela; era talvez anterior  sua
  enfermidade.

Chegara o sbado, vspera da
  partida de Raquel. Era de noite. Flix estava em casa da viva, e ambos, e
  Raquel, e at Viana todos pareciam preocupados e tristes. O mdico olhava para
  a filha do coronel, sem reparar que os olhos de Lvia seguiam os seus e como
  que buscavam ler por eles os sentimentos do corao.

Raquel esquivava-se s atenes do
  mdico. Em certa ocasio, porm, -- achando-se Flix mais afastado, --
  aproximou-se dele com um livro.

-- J leu este romance? perguntou
  ela.

-- Deixe ver, disse Flix,
  convidando-a com um gesto a sentar-se.

Raquel no se sentou;
  estendeu-lhe o livro, e olhou com insistncia para o mdico.

Flix pegou no livro e consultou a
  primeira pgina; ia voltar distraidamente a segunda, quando lhe caiu nos
  joelhos um papelinho dobrado. Raquel voltou assustada a cabea para o lado de
  Lvia, que de p, junto do piano, tirava notas soltas do teclado, sem olhar
  para o grupo. Raquel fez ao mdico um sinal de silncio e afastou-se dele.
  Flix guardou o papel no bolso.

-- Quase uma criana! ia ele
  pensando quando se retirava para casa depois do ch.

Quando ali chegou no se deu ao
  trabalho de tirar o chapu. Abriu a carta logo na sala.

Dizia a carta:

'Pela memria de sua me, no
  seja cruel! Lvia ama-o muito. No a faa morrer, que seria um pecado!'

Flix esfregou os olhos e releu o
  bilhete.

No havia neg-lo; a letra era de
  Raquel e o contedo era uma splica a favor da rival. No sorria o mdico;
  estava atnito. A verdade, to inverossmil desta vez, metia-se-lhe pelos
  olhos, singela, eloqente, espontnea. Espontnea seria? Flix fez essa
  pergunta a si mesmo, e afirmativamente lhe respondeu; no atribua  viva
  tamanha influncia, nem  donzela tamanha submisso, que uma inspirasse e a
  outra escrevesse aquela carta. A coisa pareceu-lhe o que realmente era: um
  sacrifcio de Raquel.

Flix no era homem de grandes
  expanses; mas, se Raquel estivesse diante dele naquela ocasio, era capaz de
  cair-lhe aos ps. Abafar uma afeio silenciosa, a primeira talvez, para pedir
  a felicidade de outra mulher, era abnegao rara, que o surpreendia.

A ao de Raquel fez-lhe esquecer
  por algum tempo a viva, objeto da carta que acabava de ler. Raquel no
  afirmaria to claramente os sentimentos da amiga, se no tivesse plena certeza
  deles. Como conciliaria, entretanto, a afirmao de hoje com a suspeita de
  ontem? A mesma Raquel lhe insinuara diversa inclinao da viva. Naturalmente
  reconhecera o contrrio. A idia da reabilitao de Lvia para logo dominou o
  esprito de Flix. Seu amor existia no mesmo estado de fora e vio; fcil de
  desmaiar, no era menos fcil de se restabelecer. No dia seguinte parecia
  desfeita a nuvem que por alguns dias o abafara.

Foi  casa da viva; era uma hora
  da tarde. Tinha curiosidade de encarar a filha do coronel. Achou-a to alegre e
  travessa como era dantes. Era assim aparentemente; os olhos estranhos no viam
  a mgoa interior e encoberta que lhe roa o corao. Seu infortnio tinha
  pudor.

Ao mdico era impossvel encobrir
  esse estado. A tocante generosidade da moca fez-lhe bem ao corao. Teve ele a
  delicadeza de no tratar a viva por modo que magoasse a donzela; mas, to
  outro se mostrava do que fora at ento, que a viva no pde resistir-lhe, e
  aquele dia foi muito menos triste que os outros.

As travessuras de Lus faziam coro
  com as de Raquel. A porta da sala estava aberta. Lus desceu os degraus que
  comunicavam da sala com o jardim, na ocasio em que Lvia fechava uma pulseira de Raquel. Quando a viva deu por falta do filho, correu 
  porta. O menino corria na direo da porta da rua. A me desceu atrs dele.

Raquel ia descer tambm; Flix
  pegou-lhe na mo. A moa estremeceu toda; afoguearam-se-lhe as faces, e ela
  balbuciou:

-- Leu a minha carta?

-- Li, respondeu Flix cravando
  nela um olhar que era a um tempo de simpatia e de pena. Li, e no sei se deva
  crer o que l me diz.

--  a verdade.

-- Mas ento supe...

-- Que ela o ama; afirmo-lho.

-- E que eu a amo tambm? perguntou
  com hesitao.

-- Isso... creio, assentiu Raquel,
  abaixando os olhos.

Flix calou-se.
  Decorreram dois ou trs minutos de silncio. Raquel continha com dificuldade os
  movimentos do corao. Preferia estar a cem lguas dali, mas lembrava-se da
  outra e isso lhe dava nimo.

O mdico foi o primeiro que falou:

-- Como sabe que ela me ama?

-- Sei, respondeu Raquel sorrindo com
  afetao, e  quanto basta. Demais, nenhuma moa escreveria semelhante carta a
  um homem se no tivesse certeza do que afirmava. S lhe peo uma coisa: destrua
  essa carta. Nada vale, mas eu no quisera que a conservasse.

Lvia aproximava-se; sentiram passos
  na escada de pedra. Raquel correu  porta, enquanto Flix tirava a carteira do
  bolso, e procurava o bilhete de Raquel. Foi nessa ocasio que o coronel e a
  esposa chegaram. As duas moas desceram a receb-los. Flix desceu tambm, e
  caminhou a alguns passos de distncia, com o corao dividido entre o amor de
  Lvia e a admirao de Raquel.

Os pais da moa jantaram nas
  Laranjeiras. Lvia acompanhou depois toda a famlia  cidade. Na ocasio de se
  despedir do mdico, a filha do coronel sentiu que as foras lhe iam faltando.
  Reagiu, porm, sobre si mesma, e sem olhar para ele, estendeu-lhe a mo, que o
  mdico respeitosamente apertou. Ao voltar-lhe as costas um suspiro lhe saiu do
  peito; partira-se o ltimo vnculo da esperana.

CAPTULO XVIII / RENOVAO

Lvia no ignorou muito tempo a
  existncia da carta de Raquel. Flix mostrou-lha no dia seguinte, desejoso de
  saber como havia nascido no esprito da moa a convico to generosamente
  afirmada.

-- Contei-lhe tudo, disse a viva,
  quando supunha que tudo estivesse morto no teu corao. Ela condoeu-se de mim,
  e vejo agora que no era sentimento estril o que me revelara. Pobre Raquel!

-- Esta carta foi excelente
  consolao, Lvia, porque eu sentia uma dvida cruel a teu respeito... Mas a
  que propsito lhe falaste?

Lvia hesitou alguns instantes. Ou
  melhor, reprimiu o seu primeiro impulso, que foi referir ao mdico o amor e a
  confisso de Raquel. Estaria no seu carter se o fizesse; mas um vislumbre de
  reflexo atalhou essa confidncia prestes a subir-lhe aos lbios. Recearia que
  a notcia de um amor to generoso o desviasse dela? Pode ser. A explicao que
  lhe deu foi breve.

-- J lhe disse, respondeu a moa;
  confiei-lhe a causa das minhas mgoas, num dia em que mostrava condoer-se de
  mim. Se errei a culpa  sua.

Flix no insistiu. Pela sua
  parte, deixou tambm de referir a razo da recente frieza nas suas relaes com
  ela. A viva, que o sabia, achou mais acertado no lhe falar nisso.

Tantas vezes apagada no cu, reaparecia
  enfim a estrela da felicidade, e para sempre? Era caso de dvida,  vista do
  passado; mas a credulidade da viva estava acima da sua experincia. A ternura
  de Flix nunca fora mais espontnea e viva do que ento. O corao como que se
  lhe renovara. O sacrifcio de Raquel no era estranho a essa reao, que fazia
  reviver todas as esperanas da amada.

A alegria tornou a florir no rosto
  e no peito da viva. Ela possua a memria da felicidade, no a das tristezas.
  O que eram reminiscncias de infortnio apagaram-se com o tempo; a serenidade
  dos primeiros dias foi s o que lhe ficou.

Houve em certa ocasio uma leve
  nuvem passageira; foi a presena de Meneses, que ainda freqentava a casa da
  viva. A maneira por que Flix recebera o amigo fez compreender  moa que no
  corao dele havia ainda um travo de amargura. No lhe foi difcil extingui-lo
  de todo. Referiu-lhe ingenuamente tudo o que se passara entre ela e Meneses, a
  branda austeridade com que respondera s suas declaraes amorosas, enfim o procedimento
  honesto do rapaz.

Flix abanou a cabea.

-- Censuras-me? inquiriu a moa.

-- No, afirmou o mdico.
  Lastimo-te.

-- A inteno era boa.

--Seria; mas a vida no  fbrica
  de sentimentos; no se vive como se romanceia. mpetos de generosidade so muito
  bons, quando se no corre perigo nenhum. Quem te afianava a honestidade desse
  moo?

-- Oh! adivinha-se!... Queres uma
  prova? Ele no voltar c.

-- Por qu?

-- Creio que percebeu tudo.

O mdico ficou algum tempo
  pensativo. Duas vezes tentou falar e conteve-se. Enfim disse:

-- No  preciso perceber aquilo de
  que h de ter certeza amanh. Casamo-nos na segunda semana de janeiro. A
  notcia ser pblica desde j.

Flix esperava um movimento
  expansivo da viva, ao ouvir esta declarao. Lvia no se alterou; apenas
  empalideceu.

-- Tens razo, disse Flix depois
  de olhar para ela algum tempo; em no tenho direito a mais. Tantas vezes te
  iludi, que  legtimo o teu receio.

No dia seguinte fez o mdico oficialmente
  o seu pedido na presena de Viana, que abraou com entusiasmo o futuro cunhado.

-- Isto devia acabar assim mesmo,
  disse ele; h muito que eu previa e desejava o casamento. Nasceram um para o
  outro; esto na fora da idade; no podia haver melhor unio. Pela minha parte
  desistirei at, se for preciso, da viagem que o senhor me prometeu. Lembra-se?
  No faz mal. O que eu quero  v-los felizes. Eu logo vi que tramavam alguma
  coisa, mas gabo-lhes a habilidade. D-me outro abrao, doutor.

Flix prestou-se s expanses do
  parasita. Lvia contemplava o noivo com adorao. Para ambos eles o mundo
  inteiro havia desaparecido. Inteiro no; Viana fez casualmente aluso a Raquel,
  e essa intempestiva recordao entristeceu a moa. Ela via que a sua felicidade
  era causa da desventura da amiga, e agora que a tinha quase realizada, sentia
  morder-lhe um piedoso remorso.

Adiantaram-se os preparativos do
  casamento. Lvia pediu ao mdico a supresso de todo aparato, para no ferir o
  corao de Raquel, pensava ela. A publicidade seria apenas a necessria. No
  contava com o irmo, que se encarregou de dar ao consrcio propores de
  acontecimento.

A notcia foi referida por ele na
  Rua do Ouvidor, esquina da Rua Direita. Da a dez minutos chegara  Rua da
  Quitanda. To depressa correu que um quarto de hora depois era assunto de
  conversa na esquina da Rua dos Ourives. Uma hora bastou para percorrer toda a
  extenso da nossa principal via pblica. Dali espalhou-se em toda a cidade.

Foi geral o espanto. Ningum
  acreditava que Flix se determinasse ao casamento. Falava-se,  verdade, no
  namoro; mas, alm de ser boato sem importncia nem generalidade, alguns no
  atribuam ao mdico mais do que a inteno de um passatempo, ao passo que
  outros davam s relaes entre ele e a viva um carter absolutamente ntimo,
  sem nenhuma aspirao de legalidade.

A convico entrou enfim no
  esprito pblico. Moreirinha atribua o caso a um desconcerto cerebral do
  mdico. O Dr. Lus Batista no deu opinio; parecia-lhe indiferente o casamento
  da viva.

Raquel recebeu a notcia sem
  admirao, mas com mgoa. Esperanas no as tinha j; o mal que nos no espanta
  no nos di contudo menos por isso. Quem lhe deu a notcia foi Meneses, que a
  recebeu com filosfica resignao. O amor deste tinha-se convertido numa
  espcie de adorao religiosa. Achava na mulher amada todas as qualidades que
  podiam seduzir um homem como ele. Havia, alm disso, aquele vnculo simptico
  de duas criaturas que viviam mais da imaginao que da vida prtica. A recusa
  de Lvia no rompera, transformara as cadeias que o prendiam a ela.

No acontecia o mesmo a Raquel, e
  esta circunstncia no escapou ao rapaz, que habilmente a interrogou, e
  adivinhou tudo. Meneses sacudiu lentamente a cabea, mas no lhe disse palavra.
  Apenas pensou consigo que, se o acaso ou a providncia houvesse disposto as
  coisas de outro modo, ambos eles podiam ser felizes.

Meneses repeliu a idia de fazer
  confidncias  filha do coronel; tanto, porm, lhe falou da viva, que a outra
  alguma coisa desconfiou. Sabedores, enfim, do que padeciam interiormente, a
  comum desventura os vinculou de algum modo. Como as relaes eram antes
  corteses que familiares, nenhum deles falou com a efuso que lhes pedia o
  sentimento; adivinharam-se, o que era muito, e apiedavam-se um do outro, o que
  era quase tudo.

CAPTULO XIX / A
  PORTA DO CU

Dois dias antes do casamento,
  Lvia foi jantar  casa do coronel, a convite deste que reunira algumas pessoas
  de amizade. Flix no compareceu, apesar de instantemente chamado; cedera a um
  sentimento de delicadeza, no querendo mortificar com a sua presena a filho do
  coronel, nem perturbar de algum modo o esprito da viva.

A primeira idia de Lvia foi no
  aceder ao convite, a fim de no afrontar a dor de Raquel. Instaram tanto os
  pais da moa que lhe foi impossvel recusar.

As duas moas encararam-se
  comovidas; a diferena era que Raquel pde ocultar melhor o seu abalo do que a
  viva. Essa vitria da donzela sobre si mesma fez redobrar a admirao da
  rival. Entendeu-lhe a delicada inteno, e agradeceu-lha na primeira ocasio
  que se lhe deparou.

-- Sei tudo, acrescentou Lvia; sei
  da tua carta, que foi a chave com que de novo se me abriram as portas da
  fortuna. Eu no sei se poderia ser to herica como tu. Separa-nos o destino;
  deixa-me beijar-te as mos.

O gesto acompanhou estas palavras:
  Raquel recusou ceder ao desejo da viva.

-- Seja feliz! murmurou ela.

Tais foram as ltimas palavras que
  houve entre ambas. Quando a viva saiu trocaram um beijo, a que no se podiam
  recusar, e que da parte de Raquel foi muito menos espontneo que da outra.
  Lvia o sentiu e sinceramente lho perdoou.

Ao entrar no carro, com o irmo, a
  viva ia desconsolada e triste. Seu corao sabia amar, e a idia de que a sua
  felicidade custaria lgrimas a algum fundamente lhe doa.

-- Por que razo, pensava ela, me
  h de lanar a Providncia esta gota amarga na taa das minhas delcias? Se eu
  ao menos o ignorasse... a minha felicidade no seria travada de remorsos...
  Felicidade? continuou ela dirigindo o pensamento a uma nova ordem de idias;
  ser deveras felicidade? O sonho, tantas vezes dissipado, realizar-se-,
  enfim?... H quase um ano que eu pus toda a minha existncia nesta vaga probabilidade;
  est prximo o termo, no sei que sorte avessa me repele para longe. No a
  mereo talvez, ou ento ambiciono demais... Chamam-me bela; devia talvez
  contentar-me com ser admirada...

Neste ponto foi a moa
  interrompida por uma observao banal do irmo, que tinha um termmetro
  infalvel nos ps e anunciou que havia trovoada iminente. A irm olhou
  silenciosamente para ele, e admirou consigo mesma a ventura daqueles para quem
  as tempestades do ar importam mais que as tempestades da vida. Viana faria provavelmente
  a reflexo inversa se adivinhasse as preocupaes da irm.

Quando chegaram s Laranjeiras,
  acharam Flix na sala, conversando infantilmente com o filho de Lvia, que lhe
  pedia a explicao do mecanismo do relgio. Flix aplicava todos os recursos da
  imaginao para satisfazer a curiosidade do menino. Como ouvisse parar um
  carro, e logo depois rumor de passos no jardim, o mdico disse ao menino que a
  mame estava a, e aproveitou a ocasio para lhe anunciar que ia casar com ela.

Ao ouvir esta notcia, o menino
  subiu aos joelhos do mdico, e perguntou alegremente se era verdade o que
  dizia.

-- Sim,  verdade, repetiu Flix.

-- O senhor casa com mame?

-- Caso, j disse.

Neste momento assomou  porta a
  figura de Lvia. O menino desceu dos joelhos de Flix e correu a abraar a me.

--  verdade que mame casa com o
  Doutor Flix? disse ele depois de receber um beijo da viva.

-- , meu filho, respondeu esta
  entrando e estendendo a mo ao mdico.

A presena de Flix e a alegria de
  Lus mudaram o curso s reflexes da moa. Cinco minutos bastaram para fazer
  esquecer a tristeza prpria e o infortnio da rival abatida. Raquel verteria
  naquela ocasio, no silncio da sua alcova, uma lgrima de saudade? Nenhum
  deles pensou nisso, nem a viva, a quem ela to generosamente servira, nem
  Flix que era o objeto daquelas dores solitrias.

Flix estava mais jovial que
  nunca. Perdera de todo as maneiras friamente polidas; tornara-se expansivo,
  grrulo, terno, quase infantil. O corao parecia-lhe cheio do presente e do
  futuro. No era s a situao que explicava esta mudana; era tambm a
  volubilidade do esprito.

A viva lia-lhe na alma, que,
  enfim, ressurgira, um poema de inefveis venturas. Houve um momento em que lhe
  lembraram as mesmas alegrias da vspera do seu primeiro casamento, e
  estremeceu; mas a impresso durou pouco; o segundo marido no era, como o
  primeiro, uma criatura sem alma, era, sim, uma alma sem ao. Mas o amor no
  comeava j a reanim-la?

Mais quarenta e oito horas, e eles
  uniriam para sempre os seus destinos. Esse ato decisivo e grave da vida do
  homem, j o mdico o encarava com a tranqilidade de nimo resoluto, sem
  tropear na responsabilidade, nem arrecear-se das conseqncias.
  Antolhava-se-lhe o lar domstico como a cidade da paz e da concrdia. No via
  s portas dela o lvido espectro da dvida; flores e folhas verdes, no
  mortferas, seno vivificantes, pareciam alcatifar-lhe o caminho e convid-lo a
  descansar enfim da vida que to mal vivera.

Lvia saboreava esse renascimento
  do amante. Estavam ss e iam dar o penltimo beijo de despedida. O ltimo seria
  o da noite seguinte. As mos dela pousavam nos ombros de Flix, e os olhos de
  ambos procuravam fundir as duas almas no mesmo raio de luz.

O cu no dava razo aos receios
  de Viana; tinham-se dissipado as nuvens que anunciavam prxima borrasca. No
  havia luar, mas a noite estava clara; e as vivssimas estrelas que luziam no
  cu, algum poeta imaginoso as compararia a lnguas de fogo daquele pentecostes
  de amor.

-- Jura-me ainda uma vez que me
  amas! dizia ele.  doce  minha alma ouvir-te essa confisso!

-- Pelo cu, por meu filho, por ti,
  juro que te amarei sempre! Amava-te ainda quando eras indiferente ao meu afeto,
  quando o negavas, quando me pagavas com o desdm. Por que te no amaria agora
  que s todo meu... todo, no?

-- Duvidas?

-- Eu no sei duvidar; recear, sim.
  J te disse por que razo. Mas hoje no receio, no; sinto que sou
  verdadeiramente amada. Quaisquer que fossem as minhas queixas, eu tudo te
  perdoaria agora, que me abres a porta do Cu.

-- Oh! tu s um anjo!

-- Adeus!

-- Adeus! Amas-me muito, no?

-- Muito!

E um beijo casto,
  longo, quase divino, selou esta confisso tantas vezes repetida entre eles.
  Depois apertaram as mos, e Flix saiu.

A rua estava deserta, o silncio
  era profundo. Flix entrou em casa exaltado e alegre. No tinha sono; recorreu
  aos livros, mas no lhe aproveitou o recurso, porque se os olhos corriam no
  papel, o esprito estava ausente, no tempo e no espao: buscava a amada e planeava
  futuros.

Com a fadiga veio o sono. Flix
  adormeceu nos braos dos anjos.

Batiam oito horas quando ele
  acordou e abriu as janelas. O dia estava triste. Caa uma chuva fina e
  constante, que havia comeado pouco antes dos primeiros albores da manh. Que
  lhe importava a ele a melancolia da natureza, se tinha dentro da alma uma fonte
  de inefveis alegrias?

Assentou-se  escrivaninha, e
  durante duas horas fez o inventrio da sua vida de solteiro, rasgando com
  indiferena uma imensidade de cartas que lhe lembravam afeies extintas ou
  simples relaes passageiras. Varria o templo em que devia entrar a escolhida
  de seu corao. Quando relia algumas dessas epstolas, -- folhas cadas da
  estao que se fora, -- desenhava-se-lhe nos lbios um sorriso irnico, mas
  tranqilo, tal era a transformao de sua alma j indiferente s lutas do
  passado.

s dez horas levantou-se para
  almoar. Acabava de sentar-se  mesa quando lhe vieram dizer que uma pessoa o
  procurava.

Era o Dr. Lus Batista.

CAPTULO XX / UMA
  VOZ MISTERIOSA

Flix estacou  porta da sala.
  Lus Batista deu dois passos para ele.

-- Nunca me ofereceu a sua casa,
  disse, e a minha indiscrio vem reparar o seu esquecimento.

Era um gracejo ou um remoque?
  Flix limitou-se a apertar a mo que o outro lhe estendia e convidou-o a
  sentar-se.

-- Disseram-me que estava
  almoando, observou Batista; no quero de nenhum modo interromp-lo. V, e eu
  ficarei aqui folheando algum livro.

-- Ia comear a almoar, respondeu
  o mdico; se quiser almoaremos juntos.

-- No; se me consente, visto que
  ainda est solteiro, irei familiarmente assistir ao seu almoo, e ento lhe
  exporei o motivo que aqui me traz.

Flix convidou-o a entrar e ambos
  se sentaram  mesa. As primeiras frases trocadas foram acanhadas e frias, mas
  as maneiras livres do hspede conseguiram abalar a reserva do dono da casa.

--  verdade, disse Batista, ouvi
  dizer que ia casar...

-- Amanh.

-- Assisto portanto ao seu
  penltimo almoo de rapaz solteiro. H muita gente que ainda no acredita. Creio
  que o senhor tinha fama de celibatrio convencido, e pela regra, um celibatrio
  convencido  um noivo  mo. Tambm eu era assim; e contudo... O casamento 
  bom; tem seus inconvenientes, como tudo neste mundo; mas  bom, com a condio
  nica de o aceitarmos como ele deve ser...

-- Um pouco livre? disse Flix
  sorrindo.

-- No sei se pouco ou muito, 
  questo de temperamento. O essencial  que seja livre. Eu assim o entendo e
  pratico; sou um pecador miservel, confesso, mas tenho ao menos o mrito de no
  ser hipcrita, e agora mesmo...

-- Agora mesmo? repetiu Flix
  depois de alguns instantes de silncio.

-- No sei se deva contar-lhe isto;
  o senhor  ainda nefito, vai naturalmente aborrecer-me e amaldioar-me... Mas,
  em suma,  indispensvel que eu lhe diga tudo, porque isso prende com o motivo
  que me traz  sua casa.

Batista aceitou uma xcara de caf
  que o mdico lhe ofereceu. Depois, com um modo acintemente leviano, referiu ao
  dono da casa uma aventura amorosa daqueles ltimos dias. Tratava-se de uma
  mulher caprichosa e requestada. Seu triunfo era portanto duas vezes glorioso.
  Como beleza, desafiava ao prprio mdico a resistir-lhe depois de meia hora de
  contemplao. Achar-se-iam, talvez, outras mulheres mais formosas; nenhuma,
  porm, tinha como essa o misterioso encanto que sabe agrilhoar a vontade mais
  rebelde.

-- Quando ela me fita os seus
  grandes olhos, continuou pinturescamente Lus Batista,  o mesmo que se me
  entornasse chumbo derretido nas veias.

Todo o estilo da sua descrio era
  assim, -- galhofeiro e sensual. Falou durante vinte minutos com o entusiasmo
  prprio da sua situao. Flix ouvia pacientemente a narrao do hspede, sem
  atinar com a relao que teria aquilo com o pedido que lhe ia fazer.
  Interiormente estava aborrecido. No fora o mdico em sua longa vida de rapaz
  solteiro nem casto nem cauto; mas a atmosfera do noivado comeava a arejar-lhe
  o esprito, e semelhante confidncia, naquela ocasio, lhe parecia de todo
  ponto extravagante.

-- No desconheo, disse Lus
  Batista quando concluiu a sua expanso amorosa, no desconheo que uma aventura
  destas, em vspera de noivado, produz igual efeito ao de uma ria de Offenbach
  no meio de uma melodia de Weber. Mas, meu caro amigo,  lei da natureza humana
  que cada um trate do que lhe d mais gosto. A vida  uma pera bufa com
  intervalos de msica sria. O senhor est num intervalo; delicie-se com
  o seu Weber at que se levante o pano para recomear o seu Offenbach. Estou
  certo de que vir cancanear comigo, e afirmo-lhe que achar bom parceiro.

Dizendo isto, Lus Batista engoliu
  o resto, j frio, do caf que tinha na xcara, acendeu de novo o charuto, e
  recostou-se na cadeira. Flix teve tempo de reassumir a atitude tranqila que
  as ltimas palavras de Batista lhe haviam alterado.

-- Enfim, disse ele, que ligao h
  entre essa aventura e o pedido que me vai fazer?

-- Toda, respondeu Batista; se ela
  no existisse, eu no viria pedir-lhe nenhum favor. O senhor sabe o que  um
  capricho de mulher amante; no ignora tambm que o menor desejo dela  uma
  ordem para o cavalheiro seu escolhido.

Flix fez um gesto afirmativo.

-- Pois bem, continuou Batista.
  Estamos nesse caso. Ela  extremamente caprichosa, e mais ainda que caprichosa,
   amante de coisas d'arte. H dias fui ach-la aborrecida. Interroguei-a; nada
  me quis dizer. Pela conversa adiante falou-me duas ou trs vezes numa gravura
  que vira na Rua do Ouvidor, e que o dono vendera quando ela l voltou, disposta
  a compr-la. O assunto era o mais ortodoxo possvel: a israelita Betsab no
  banho e o rei Davi a espreit-la do seu eirado. No lhe parece galante? A
  gravura creio que era finssima; mas tinha, alm disso, um merecimento para a
  pessoa de quem lhe falo:  que a figura de Betsab era a cpia exata das suas
  feies. Vaidade de moa bonita. Mostrava-se to desconsolada quando falava
  naquilo que facilmente percebi no ser outro o motivo do aborrecimento em que a
  fui encontrar.

-- E ento?

-- Fiz o que faria qualquer outro.
  Era necessrio que a todo o transe ela possusse um exemplar da gravura. Fui
  procur-lo, e no achei. Gastei dois longos dias nessas pesquisas, e quando
  voltei  casa dela no tive remdio seno tirar-lhe a ltima esperana. Ela
  apertou-me afetuosamente as mos, e agradeceu-me o trabalho, dizendo-me que era
  mais uma prova de amor que lhe dava; concluiu, porm, tudo isso com um suspiro.
  Eu no me atrevo a dizer ao senhor o que quer dizer um suspiro neste caso;
  aquele suspiro era uma insistncia do desejo.

-- Parece que sim, disse Flix que
  j adivinhara o final da exposio.

-- Dir-me- o senhor, continuou
  Batista, que eu devia aproveitar o paquete que partiu ontem e mandar vir da
  Europa a gravura. No duvidaria faz-lo, e ela esperaria de boa vontade; mas
  quem pode afirmar que o meu amor dure at  volta do paquete? Tive ento uma
  idia salvadora.

--Ah!

-- Voltei  loja onde ela vira a
  gravura e inquiri do dono da casa quem lhe havia comprado. Depois de algum
  trabalho de memria disse-me que fora o senhor. A princpio hesitei se devia
  importun-lo. O pedido no seria indiscreto em qualquer outra ocasio; mas,
  quando o senhor est para tomar um estado moral, rogar-lhe que me ajude a
  enxugar as lgrimas de uma bela pecadora,  mais que indiscrio, 
  atrevimento. Hesitei, a voz da razo era mais fraca que a do pecado, e venceu o
  pecado.

Lus Batista calou-se, esperando a
  resposta do mdico. Houve um largo silncio. Levantaram-se da mesa e foram para
  a sala, sem que Flix desse a resposta. Lus Batista foi o primeiro que tornou
  ao assunto.

-- No me pode fazer o que lhe
  peo? disse ele.

-- Tenho estado a perguntar a mim
  mesmo se me  lcito faz-lo, respondeu Flix sorrindo, e se ao entrar nas
  fileiras do matrimnio devo ajudar a desero de um camarada.

Lus Batista estava naquele dia
  singularmente falador. A simples observao do mdico deu azo a um largo
  discurso a respeito do regmen matrimonial. Era meio-dia. Flix estava j
  fatigado da visita e da palestra. Aproveitou um interstcio para dizer:

-- Em suma, tem grande desejo de
  possuir a gravura?

-- Queria que ma cedesse.

-- Fao-lhe presente dela.

-- Eu no desejava de nenhum modo
  prejudic-lo, disse Batista; h de consentir ento que eu lhe faa um presente
  de noivado.

Flix no respondeu; foi buscar a
  disputada gravura e trouxe-lha. Lus Batista no pde reter um grito de
  surpresa. A figura de Betsab, dizia ele, parecia realmente uma cpia da sua
  dama. A dama era talvez mais formosa do que a cpia.

Foi nesse momento que trouxeram ao
  mdico uma carta, entregue pelo correio. Flix abriu-a distraidamente, mas
  tanto que lhe leu o contedo ficou muito plido e encostou-se a uma cadeira.
  Com a mo trmula aproximou o papel dos olhos, enquanto os dentes mordiam os
  lbios at deitar sangue. Lus Batista aproximou-se rapidamente de Flix e
  perguntou-lhe o que tinha.

-- Nada, disse o mdico, uma
  vertigem apenas... H de dar-me licena, preciso estar s.

O hspede curvou-se, sorriu e
  saiu.

Flix encerrou-se no seu quarto.
  Do que l se passou ningum de casa soube: algum rumor se ouvia de quando em
  quando, mas abafado, e uma ou outra exclamao vaga e solta. Eram quatro horas
  quando o mdico saiu  sala.

O tempo tinha melhorado. O sol
  reaparecera entre duas nuvens, dando de chapa nas rvores molhadas de chuva e
  nos telhados que escorriam um resto de gua. Dissera-se que a natureza queria
  fazer outro contraste ao inverso do da manh, porque, se a tarde sorria alegre,
  o homem dava sinais de tempestade interior. Tinha os olhos vermelhos, a boca
  contrada, os cabelos em desordem. Saiu com passo vacilante. De quando em
  quando, colhia o alento com a expresso de quem lhe custa respirar. Um escravo,
  a que ele deu algumas ordem, reparou no estado do senhor, e perguntou-lhe se
  estava doente. Flix respondeu secamente que no. O escravo abanou a cabea e
  saiu.

Flix escreveu em seguida uma
  carta que sobrescritou para a viva. Vestiu-se depois. No tardou que lhe
  parasse um carro  porta. Meteu-se nele e mandou tocar para a cidade.

CAPTULO XXI / LTIMO
  GOLPE

Era j sobre tarde quando a
  carta chegou s mos da viva. Viana descera  chcara, enquanto a irm dividia
  a ateno entre os gracejos do filho e o seu prprio pensamento. O menino
  enchia toda a sala com a sua pessoa; as travessuras dele no eram enfadonhas. Lvia
  no o contemplava s com os olhos de me; via nele como que o elo de ouro entre
  uma quimera desfeita e uma quimera realizada. Tais eram as suas reflexes
  quando a mucama lhe veio trazer a carta de Flix. Entregou-lha e saiu.

Lvia estremeceu; a letra do
  sobrescrito revelava o estado febril da mo que o escrevera. Abriu rapidamente
  a carta e leu-a.

Quando Lus, numa das suas voltas,
  se chegou  me, achou-a com os olhos cravados no cho, trmula e plida.
  Chamou por ela inutilmente. Agarrou-lhe as mos e a moa pareceu acordar de um
  letargo.

-- Que tem, mame? perguntou o
  menino, afagando-a com voz lacrimosa.

Lvia no respondera a princpio.
  A voz da criana chamou-a enfim  realidade. Olhou vagamente  roda da sala, e
  como se a pouco e pouco lhe voltasse a conscincia, dirigiu lentamente os olhos
   carta fatal. Tinha-a ainda entre as mos. Releu-a com ansiedade, levantou-se
  arrebatadamente, deu alguns passos e de novo se deixou cair na cadeira. O
  menino correu  porta assustado. O tio entrava nesse momento.

-- Que ? disse Viana vendo o ar
  assustado do menino, e as feies decompostas da irm.

Lvia entregou-lhe a carta.

A carta dizia assim:

"Lvia
O que vou fazer  indigno, bem o
  sei; mas  ainda mais cruel do que indigno. O nosso casamento  fatalmente
  impossvel. No tens nenhuma culpa direta nem indireta na minha resoluo. Esta
  carta, que me condena, ser a tua cabal defesa. Adeus.
Flix".

Quando Viana acabou de ler este estranho
  e misterioso documento, ficou to plido como a irm. No compreendia nada do
  que se passava; indignava-o, todavia, o procedimento de Flix. Sufocou a clera
  a ver se evitava a exploso da viva. Olharam-se ambos silenciosamente alguns
  instantes; o menino tinha-se aproximado e segurava uma das mos da me, olhando
  para o tio como se esperasse dele alguma explicao.

-- Recusa, disse enfim Viana, e
  nenhuma explicao nos d do seu procedimento. O ato  to indigno que no te
  deve mortificar; quando um homem d este triste documento da sua lealdade,
  penso que a mulher que o ama pode dar graas a Deus de o no ter acompanhado
  at o altar. Espero que penses como eu...

Viana no pde acabar. As
  lgrimas, tanto tempo sustidas, romperam enfim dos olhos da viva, impetuosas e
  amargas. A dor, de to concentrada que fora a princpio, fez-se violenta e
  explosiva; mas o organismo estava to abalado por tantas comoes, que a
  infeliz moa perdeu os sentidos.

Quando ela voltou a si era noite;
  achou-se no seu prprio leito, tendo ao p de si o irmo e um mdico.

O mdico falou-lhe e ela respondeu
  sem saber o que dizia nem o que ouvia. A febre era intensa, mas o mdico
  esperava que no dia seguinte cedesse  energia do remdio que lhe ia aplicar.

Viana ficou s com a irm, e
  procurou distra-la do sucesso da tarde, tarefa intil porque a viva no
  pensava nele; o olhar vago indicava que ainda se no havia feito luz no seu
  esprito. s vezes contraa os sobrolhos e fitava o olhar no espao como se
  estivesse a recordar-se. Numa dessas vezes volveu os olhos pelo quarto
  parecendo procurar algum. A ausncia de Flix de todo lhe alumiou o esprito.

Deu um grito abafado e desatou a
  chorar.

Acorreu o irmo, com palavras de
  brandura e conselho, dizendo-lhe que nem tudo estava perdido, e que era
  possvel remediar o mal. Lvia no prestava f a essas vs consolaes; estava
  entregue ao seu desespero. Abafada com soluos, lavada em lgrimas, soltava
  gritos de angstia, e convulsivamente se revolvia no leito.

Viana teve medo desse grave estado
  e mandou chamar o mdico. Quando este chegou, j a doente havia sossegado; mas,
  com as lgrimas, tinha-se ido a razo. O delrio durou toda a noite e parte da
  manh seguinte. De tarde a febre declinou um pouco e a doente adormeceu.

S no dia seguinte, quando o
  abatimento veio substituir a exaltao, pde a moa refletir no recente
  infortnio. Debalde perguntava a si mesma a causa daquele sbito rompimento do
  noivo; nada lho explicava. Algum mistrio haveria, alguma razo aparentemente legtima,
  porque  viva nada lhe dizia o corao que fosse contrrio  lealdade de
  Flix.

Contou-lhe o irmo que havia ido 
  casa do mdico, e no o encontrara, nem l lhe quiseram dizer para onde fora.
  Agora, depois de maduro exame, pensava em ir pedir-lhe uma explicao do
  procedimento.

Lvia desaprovou-lhe a resoluo.

-- Mas, disse Viana, no podemos
  ficar assim...

-- Podemos, interrompeu a viva;
  enquanto estou doente a explicao ser natural para os outros. Quando me levantar
  da cama direi que eu mesma desfiz o casamento. Achaste-me sempre singular; 
  provvel que os outros me vejam com iguais olhos; e tudo se explicar da melhor
  maneira.

-- Mas a explicao dele...

-- A explicao dele no  precisa.

Raquel, apenas soube da doena de
  Lvia, foi passar alguns dias com ela. Naquelas circunstncias o encontro de
  ambas foi profundamente triste. A viva no lhe confiou logo a causa verdadeira
  da sua enfermidade, mas durou pouco a reserva, porque a ausncia de Flix fez impresso
  na moa, e Lvia julgou melhor dizer-lhe tudo. Era a segunda vez que ambas
  achavam no seio uma da outra, no a consolao, que no a h para as desiluses
  recentes, mas o adormecimento momentneo do corao.

Lvia entrou a convalescer do
  abalo que lhe dera a fatal carta. Raquel tornara-se enfermeira dedicada e
  continuou a ser o que sempre fora, amiga afetuosa. A viva no acreditava na
  realidade do seu restabelecimento. Em sua opinio, era uma aparncia que a
  realidade desfaria em pouco tempo.

Dez dias depois do rompimento de
  Flix, apareceu Meneses nas Laranjeiras. Tinha ouvido algumas perguntas
  relativas ao casamento do mdico, que sabia no se ter efetuado, sem que at
  ento transpirasse a causa verdadeira. Soube, porm, da molstia de Lvia, e a
  isso atribuiu a demora do casamento.

A moa abafou um suspiro quando o
  viu entrar. No era arrependimento; era talvez lstima de si prpria, que no
  pudera aceitar esse corao mais confiante e menos escabroso que o do outro.

Mas se era j impossvel uma
  aliana que a natureza no aconselhara, ainda que o pedira a razo, vinha de
  molde o amigo a quem confiaria os seus infortnios. Esse foi o primeiro
  impulso; o segundo foi, no de orgulho, mas de pudor. O corao teve pejo de ir
  confessar o seu erro diante daquele mesmo a quem repelira um dia.

Era difcil que semelhante
  situao se escondesse aos olhos de Meneses. A ausncia do noivo era
  inexplicvel; Meneses suspeitou a verdade e Raquel lha confirmou. O fim com que
  a donzela delatou o segredo confiado foi ainda um sacrifcio; pediu a
  interveno de Meneses para a reconciliao do mdico com a viva.

-- Peo-lhe uma coisa difcil,
  concluiu ela aludindo pela primeira vez ao amor de Meneses, mas  uma boa ao.

--  uma boa ao, e no  difcil,
  replicou Meneses olhando para ela fixamente.

Raquel abaixou severamente os
  olhos. Um espectador atento concluiria, talvez, que a ferida dele no estava
  longe de cicatrizar, mas que, pelo contrrio, a dela continuava a deitar
  sangue.

Meneses disps-se a tentar alguma
  coisa. Reconhecia que o procedimento de Flix era misterioso; mas no
  desesperou de lhe descobrir a causa e confiava em que poderia remov-la.
  Conseguiu saber que o mdico se refugiara na Tijuca. Quando estava pronto a ir
  ter com ele, hesitou, refletiu e recuou da primeira resoluo.

Foi preciso que uma nova crise o
  empuxasse para l. A viva recara enferma, no tendo podido resistir s longas
  viglias e mal dormidas noites. A molstia desta vez trouxe um carter menos violento
  que da primeira vez, mas pertinaz; a febre no era intensa, era constante. O
  mdico assistente no achou que houvesse perigo; recomendou o mais desvelado
  tratamento, e repouso absoluto de esprito.

Meneses no hesitou; partiu para a
  Tijuca.

CAPTULO XXII / A CARTA

Quando Meneses chegou  Tijuca
  eram quatro horas da tarde. A casa de Flix ficava afastada do caminho. O
  porto estava aberto; Meneses atravessou rapidamente o espao que ia da estrada
   casa e bateu. Veio um moleque abrir-lhe a porta. Meneses entrou
  precipitadamente e perguntou:

-- Onde est o senhor?

-- Senhor no fala a ningum,
  respondeu o moleque com a mo na chave como se o convidasse a sair.

-- H de falar comigo, insistiu
  resolutamente Meneses.

O tom decidido do rapaz abalou o
  escravo, cujo esprito, acostumado  obedincia, no sabia quase distingui-la
  do dever. Seguiram ambos por um corredor, chegaram diante de outra porta, e a
  o moleque, antes de a abrir, recomendou a Meneses que esperasse fora. Perdida
  recomendao, porque, apenas o moleque abriu a porta, Meneses entrou
  afoitamente atrs dele.

Era um gabinete pequeno com quatro
  janelas que o enchiam de luz. Perto de uma janela havia uma rede estendida.
  Sobre a rede via-se um homem negligentemente deitado com um livro nas mos.

Era Flix.

Flix levantou a cabea, deu com
  os olhos em Meneses, e empalideceu. Meneses no dera um passo mais. Ficaram
  assim alguns segundos a olhar um para o outro. Enfim, o mdico disse ao escravo
  que se retirasse, e os dois ficaram ss.

O silncio prolongou-se ainda
  mais. Da parte de Flix era confuso; da parte de Meneses desapontamento. Viera
  ele em todo o caminho a descrever na imaginao o estado de Flix, acabrunhado
  por alguma grande dor, e em vez disso achava-o a ler pacificamente um livro.
  Quis lanar mo do livro, para conhecer bem at que ponto a sua desiluso era
  completa; mas o mdico rapidamente o afastou.

-- No atendeste  ordem geral que
  eu havia dado, disse enfim o dono da casa, e creio que s alguma razo poderosa
  te obrigaria a isso.

-- Assim era, retorquiu Meneses,
  mas a razo acabou e eu volto para a cidade.

Dizendo isto, ps o chapu na
  cabea e dirigiu-se para a porta. Parou um instante, caminhou de novo at a
  rede e proferiu secamente estas palavras:

-- Tens conscincia do que fizeste?

-- Tenho, respondeu Flix; fiz o
  que me cumpria fazer. Mas, antes de mais nada, vens aqui por inspirao tua ou
  por mandado de...

-- Venho porque era um dever da
  minha parte livrar-te da vergonha, e a ela da morte.

-- Da morte! exclamou Flix
  levantando-se de um pulo.

O terror que se lhe pintara no
  rosto fez boa impresso no amigo. Suspeitou este que nem tudo estivesse
  perdido. Sentaram-se ambos, e Meneses referiu ao mdico os acontecimentos que
  deixo narrados no captulo anterior. Flix escutou a narrao do amigo com um
  interesse que no podia vir seno do amor. Meneses concluiu pintando-lhe com as
  cores que o caso pedia a baixeza do seu procedimento, o desaire que recaa
  sobre a viva, e o remorso que o havia de acompanhar a ele, ainda quando
  daquele triste episdio no sasse nenhuma fatal conseqncia.

Flix mostrou-se profundamente
  comovido com a narrao de Meneses e as reflexes que lhe fizera.

-- Tens razo, disse ele quando o
  amigo acabou de falar; procedi covardemente. Ela ainda me ama... E perdoa-me,
  no ? Sim, h de perdoar-me... Pobre Lvia! Se tu soubesses como ela tem
  sofrido por minha causa!...

Meneses, satisfeito, disse-lhe que
  era indispensvel voltar  cidade. Enquanto falava, porm, o rosto de Flix
  mudou de expresso. A nica resposta do mdico foi:

-- No! o que est feito, est
  feito; agora  impossvel recuar.

-- Impossvel! gritou Meneses.

-- Impossvel, repetiu placidamente
  Flix.

Meneses levantou-se impaciente e comeou
  a passear. A serenidade do mdico mais lhe doa do que indignava, porque alguma
  razo poderosa devia ele ter para cortar to peremptoriamente toda a tentativa
  de reconciliao. Quisera sab-la e tremia de o interrogar.

O mdico, entretanto, deixara-se
  estar sentado, quase to tranqilo como na ocasio em que Meneses lhe entrara no gabinete.

No era fingida essa
  tranqilidade, que durava j de alguns dias, depois de outros, -- os primeiros,
  -- que foram de aflitiva tempestade.

O homem no se esconde de si
  mesmo, e o maior infortrnio dos coraes pusilnimes  sentirem que o so.
  Quando Flix chegou  Tijuca tinha passado a excitao do primeiro momento; o
  esprito, fraco de si, e abatido pela imensidade do abalo, no achou na solido
  o alvio que lhe pedira. Vieram ento muitos dias de luta e de febre, em que
  ele, para fortalecer o nimo, lia e relia a misteriosa carta que trouxera
  consigo. O remdio era antes veneno para a sua alma ulcerada; lembrava-lhe a
  felicidade que perdera.

Era isto o que padecia o corao.
  A conscincia padecia tambm, porque a sociedade, que ele no vira no primeiro
  instante, agora lhe aparecia como um juiz inflexvel, a pedir-lhe contas de uma
  injria sem explicao. s vezes arrependia-se do ato; outras vezes, no se arrependia,
  mas acusava-se de precipitado e louco. Nunca mais tristemente se revelara a
  inconsistncia do esprito

Com o tempo a conscincia foi
  calando as vozes, e com o tempo, e a distncia, e a sua ndole varivel, se lhe
  foi aquietando o corao. Aquele homem, que alguns dias antes chorava de
  desespero, nenhum vestgio guardara de suas lgrimas. No se lhe apagara o amor
  da viva, mas no lugar da paixo veemente, como que ficara apenas uma
  recordao remota e suave. Esta mudana era em parte obra do seu esforo, que
  buscava no esquecimento um refgio; mas em grande parte era um efeito natural
  dele.

Tal foi a situao em que o achou
  Meneses. A presena deste trouxe  memria do mdico a ltima crise do corao.
  A impresso foi grande, no longa; a face do lago, que uma rajada encrespara,
  voltou  serenidade primitiva.

Meneses passeava de um lado para
  outro, a observar de quando em quando o mdico. Ao seu esprito repugnava a
  idia de que Flix recorresse a um meio extraordinrio para sair de uma
  situao difcil, no sancionada pelo corao. Uma causa havia, decerto, que se
  lhe afigurava grave, e que ele a todo custo queria conhecer. Seus esforos
  convergiam para esse ponto.

Instado pelo amigo, Flix aludiu 
  carta que recebera, mas recusou mostr-la.

-- H nela um segredo, disse ele,
  que me impede de a comunicar a ningum. Lvia tem jus ao meu respeito e possui
  ainda o meu amor.

Estas ltimas palavras foram ditas
  com certa comoo. Meneses no perdeu a esperana de o vencer. A sinceridade
  era a sua eloqncia; podia-se dizer que ele falava com o corao nas mos. O
  esprito de Flix ia cedendo ao encanto; ele mesmo recordava as horas felizes
  do passado e as saudosas esperanas do futuro. O corao palpitou-lhe com mais
  fora e a imaginao fez o resto. A carta, porm, a fatal carta lhe ocupou logo
  o pensamento, e a fronte descaiu diante do insupervel obstculo.

Cansado de lutar, Meneses resolveu
  partir para a cidade.

-- No sei o que pensaro os outros,
  disse ele; eu levo a suspeita de que no a amaste nunca, e que esse rompimento
  estrepitoso foi um meio de salvar a tua liberdade.

Ouvindo estas palavras, Flix no
  pode conter um gesto de clera. A atitude quieta de Meneses o fez cair em si.

-- Tens razo, disse ele depois de
  algum tempo. Quero que pelo menos algum me reconhea inocente e digno. Ds-me
  a tua palavra de honra que nada revelars do que vais ler?

-- Dou.

Flix foi buscar a carteira, tirou
  dela a carta, e entregou-a a Meneses.

Meneses leu o que se segue:

"Msero moo! s amado como era o outro;
  sers humilhado como ele. No fim de alguns meses ters um Cireneu para
  te ajudar a carregar a cruz, como teve o outro, por cuja razo se foi
  desta para a melhor. Se ainda  tempo, recua!"

A carta no tinha assinatura.

Meneses ficou atnito; mas foi
  obra de alguns instantes, poucos. Sua ndole generosa repelia a idia de
  acreditar na revelao que acabava de ler.

 --  impossvel! disse ele.

Flix ergueu a cabea, que
  apertava entre as mos, e replicou:

-- Essa  a tua convico; eu
  quisera que fosse a minha. Mas que testemunho tens tu contra o que a vs
  escrito?

-- No sei, respondeu Meneses com
  calor, mas  o que me diz o corao. Repugna-me crer que essa pobre senhora... No,
   impossvel! Demais, uma carta annima!

-- Pe o nome que quiseres a
  embaixo no lhe aumentas nem lhe tiras o valor, se a revelao  verdadeira.

-- Quem te diz que  verdadeira?

-- Quem me diz que o no ? A
  dvida era j bastante para justificar o que fiz. No foi s o receio do futuro
  que me impeliu, foi principalmente a lembrana do passado. A traio dela, se a
  houve, no deve doer nada ao marido que se foi; mas ao marido que vem, a idia
  da perfdia anterior, destri pela base toda a confiana, que  a condio da
  felicidade. No sei o que farias tu no meu caso; eu segui o impulso do corao
  e da razo.

Meneses ouvira atentamente o
  amigo. Quando ele acabou:

-- Creio-te sincero, disse; e
  compreendo que sofreste.

-- Muito!

-- Mas recusars uma reflexo? Quem
  escreveria esta carta? No foi um amigo, decerto. Um amigo, se lhe pesasse o
  teu ato, viria falar-te cara a cara. Um indiferente tambm no foi. Resta,
  pois, um inimigo, teu ou dela...

-- Dela?

-- Ou um interessado: escolhe.

Flix refletiu um
  instante.

-- Inimigo, no sei se os tinha;
  interessado... em qu?

-- Ela  rica; algum pretendente...

-- No havia nenhum.

Meneses no fraqueou na defesa da
  sua hiptese. Quanto mais atentava na revelao da carta, mais o corao lhe bradava
  contra ela. Para ele a inocncia de Lvia era clara como o sol. Flix
  sentia-lhe a convico, e lastimava-se de a no ter, to viva e to profunda.

A noite cara de todo. Meneses
  declarou que s voltaria  cidade no dia seguinte.

Flix compreendeu que o amigo no
  perdera a esperana de o converter, e longe de se irritar agradeceu-lhe a
  inteno. Era a primeira vez que ele se expandia com algum a respeito do seu
  amor; f-lo com abundncia e sinceridade. No lhe lembrara sequer que Meneses
  tambm amara a viva.

Muitas vezes falaram na carta.
  Meneses perguntou ao mdico em que circunstncias a recebera. Flix referiu a
  visita de Lus Batista, o objeto dela, a conversa travada entre ambos, at que
  a carta lhe chegou s mos.

A singularidade da visita de Lus
  Batista no escapou a Meneses:

-- Visitava-te esse homem?
  perguntou ele.

-- Nunca.

-- Eras amigo dele?

-- Havia mais razes para sermos
  inimigos que outra coisa.

Meneses hesitou; no se atrevia a
  desposar uma suspeita. Mas o esprito do mdico era terreno fecundo para ela.
  Apenas as perguntas de Meneses lhe deitaram o grmen, para logo foi lanando
  razes e cresceu.

-- Crs ento que ele?... aventurou
  o mdico.

-- No sei; mas, no te parece
  curiosa toda essa histria de gravuras?

Flix refletiu algum tempo. Como
  quando os olhos se vo acostumando  meia-luz de um stio, e comeam a
  distinguir a pouco e pouco os objetos, o esprito do mdico entrou a recordar e
  a examinar todos os incidentes daquela fatal manh. O que ele a princpio no
  vira, apareceu-lhe ento claro e evidente. O tom ameno e jovial de Lus
  Batista, a sua estranha verbosidade, o episdio dos amores to levemente
  contados a um homem que no era seu natural confidente, tudo isto com a
  circunstncia da humilhao que recebera quando a viva lhe fechou a sua sala,
  enfim a m reputao dele, eram indcios de sobejo para no achar natural a
  visita que lhe fizera. Mas, como deduzir daqui a autoria da carta?

Meneses resolveu a dvida
  naturalmente.

-- Se no desses crdito  carta,
  disse ele, o ltimo de quem te lembrarias seria Lus Batista, porque ningum
  faz mal a um homem no mesmo instante em que lhe vai pedir um favor.

Flix aceitou esta explicao; mas
  o que acabou de o convencer foi uma circunstncia at ento deslembrada e agora
  decisiva. O mdico levantou-se rapidamente da cadeira; deu alguns passos na
  sala e parou em frente de Meneses.

--  verdade, disse; foi ele com
  certeza! Quando eu li a carta fiquei fulminado. Ele aproximou-se de mim; eu
  pedi-lhe que me deixasse s. Obedeceu, mas um sorriso, que ento me pareceu
  feroz indiferena, mas que hoje vejo que era de triunfo, lhe roou os lbios.
  Foi ele; oh! sinto que foi ele.

Entendamo-nos, leitor; eu, que te
  estou contando esta histria, posso afirmar-te que a carta era efetivamente de
  Lus Batista. A convico, porm, do mdico, -- sincera, decerto, -- era menos
  slida e pausada do que convinha. A alma dele deixava-se ir ao sabor de uma
  desconfiana nova, que as circunstncias favoreciam e justificavam.

Quando Meneses viu que o maior
  trabalho estava feito, no teve mais que falar outra vez de Lvia. A placidez
  do mdico desaparecera; todo ele era agora amor e dio, arrependimento e
  vingana. A noite foi mal dormida, e quando a aurora os convidou a sair do
  leito, Flix era totalmente outro. Ardia por ir fazer aos ps da viva plena
  confisso da sua indignidade. Era o nome que lhe dava; dar-lhe-ia outro, se os
  acontecimentos o fizessem duvidar outra vez.

Apressaram a viagem; Meneses
  estava alegre com o resultado da misso; lamentou com o mdico a fatalidade do
  caso, mas estava certo de que tudo ia acabar como devia. Mil idias cor-de-rosa
  enchiam o crebro de Flix, e ambos desceram rapidamente na direo da cidade.

CAPTULO XXIII / ADEUS

Apenas chegaram  cidade, Flix
  despediu-se de Meneses e seguiu para as Laranjeiras. Ia palpitante e receoso;
  pela primeira vez nesse dia lhe lembrou a doena da viva. Temeu que fosse
  tarde. No era; as janelas estavam abertas. Entrou no jardim; subiu as escadas,
  cabisbaixo; quando levantou os olhos viu Raquel diante de si.

Raquel, cujo corao era menos
  filosfico, posto soubesse resignar-se como o de Meneses, no viu o mdico sem
  algum abalo interior. F-lo entrar e foi ter com a enferma.

Quando Lvia soube que Flix ali estava,
  sorriu tristemente e fechou os olhos. Abriu-os para contemplar a boa amiga que
  esperava ao p do leito. No estavam molhados. Cobria-os um vu de serena
  melancolia.

-- Agradece-lhe por mim, Raquel, e
  dize-lhe que me ver quando eu puder sair daqui.

Flix recebeu o recado e sentiu a
  frieza dele, apesar da doura da voz que lho transmitia. Era muito contudo; no
  estaria longe a reconciliao.

A convalescena de Lvia foi mais
  rpida do que se devera esperar. O intervalo foi aproveitado por Flix em se
  reconciliar com Viana, que achou dentro de si bastante misericrdia para
  perdoar o culpado. A submisso do mdico o lisonjeou, e o seu arrependimento
  lhe pareceu o que realmente era, -- sincero. Era natural perguntar-lhe a razo
  do rompimento. Viana achou melhor calar-se; o que ele queria antes de tudo era
  a reparao do erro.

Lvia consentiu finalmente em
  receber o mdico. Estava na sala, envolvida num roupo branco, com um resto de
  palidez que a enfermidade lhe deixara no rosto. Nas circunstncias em que ambos
  se tornavam a ver no podia ela estar melhor. O ar da moa no era risonho, mas
  tambm no era severo. Flix caminhou lentamente para ela, tmido e fascinado
  ao mesmo tempo. De novo sentia o imprio que a viva sempre exercera em seu
  esprito.

Quando Flix confessou  viva
  todo o seu arrependimento e lhe implorou o perdo da culpa que cometera,
  escutou-o Lvia com grande serenidade, e afetuosa lhe respondeu:

-- No lhe nego o perdo que me
  pede; seria duvidar do seu arrependimento, e eu creio que  sincero. Podia
  talvez exigir que me dissesse a causa que o levou...

-- A causa  triste de confessar,
  interrompeu Flix.

-- No lha peo. Mas quer ouvir o
  resto?

Flix curvou a cabea.

-- Creio no seu arrependimento, e
  no duvido do seu amor, apesar de tudo o que se h passado. Isto lhe deve
  bastar. O destino ou a natureza no nos fez um para o outro. O casamento entre
  ns seria uma cerimnia apenas. Seria mais; seria o nosso infortnio, e mais
  vale sonhar com a felicidade que poderamos ter do que chorar aquela que
  houvssemos perdido.

Flix ouviu as palavras da moa
  cabisbaixo e abatido. No ousava responder-lhe, nem interrog-la; mas do seu
  mesmo silncio colhia a moa a sinceridade da dor e do arrependimento.

-- Se isto lhe di, continuou ela,
  v bem que a culpa no  minha. Eu aceito uma situao no criada por mim, nem
  tambm pelo senhor, mas, -- como eu lhe dizia, -- pela natureza ou pelo destino.
  No ponto a que chegamos  esta a resoluo melhor.

-- No , interrompeu Flix com impetuosidade,
  no  a melhor porque ambos perderemos com ela, e nada nos impede a resoluo
  contrria. Creio que no duvide do meu amor; mas digo-lhe que o no compreende,
  nem avalia. Eu no teria nimo de lhe propor nas circunstncias em que nos
  achamos, um rompimento que...

O sorriso com que a moa o ouvia
  cortou-lhe a palavra neste ponto. Caiu em si, lembrou-lhe, -- que ele facilmente
  esquecia tudo -- lembrou-lhe que lhe no cabia falar de rompimento, e murmurou:

-- No tenho direito de falar
  assim, e vejo que mereo um castigo...

-- No  castigo, atalhou a viva,
   necessidade. Se alguma consolao pode levar desta ltima entrevista, leve a
  certeza de que o amo como dantes, e de que o meu padecimento ser ainda maior
  do que o seu. O casamento  j agora impossvel. Eu no sei o que motivou a sua
  carta, mas imagino que foi alguma dvida nova a meu respeito. Se nos
  casssemos, cessariam elas?

-- Sim! porque eu hoje creio e vejo
  o que padeceu por mim. Para duvidar do seu amor seria preciso que houvesse perdido
  a razo. Demais, continuou Flix enquanto Lvia abanava tristemente a cabea, --
  viveremos s para ns, fecharemos a nossa casa aos olhos estranhos...

-- Ainda assim o ir perseguir esse
  mau gnio, Flix; seu esprito engendrar nuvens para que o cu no seja limpo
  de todo. As dvidas o acompanharo onde quer que nos achemos, porque elas moram
  eternamente no seu corao. Acredite o que lhe digo; amemo-nos de longe;
  sejamos um para o outro como um trao luminoso do passado, que atravesse
  indelvel o tempo, e nos doure e aquea os nevoeiros da velhice.

Lvia proferiu estas ltimas
  palavras com a voz trmula, e uma lgrima lho rolou pela face plida.

-- Por que nos separaremos agora
  que estamos  porta do cu? perguntou Flix. No me cabe o direito de exigir
  uma felicidade que repeli tantas vezes; mas, se pudesse entrar na minha alma
  veria que os meus erros, por maiores que sejam, e so grandes, anima-os sempre
  um sentimento de amor, e que enfim eu cedo sempre ao grito de minha
  conscincia. A mais bela ao seria perdoar-me esquecendo, e o nico modo de
  esquecer seria voltarmos ao tempo de nossas esperanas.

-- Perdoei tudo, e tudo esqueci;
  apagou-se o passado e nenhum ressentimento me ficou. O que se no apaga  o
  futuro.

Flix torcia as mos. Era patente
  o seu desespero. A viva mal podia encar-lo. Seguiu-se um longo silncio,
  interrompido pela chegada de Lus. O menino ps termo  entrevista. Flix olhou
  ainda algum tempo para a moa; mas leu-lhe na fisionomia que a resoluo era
  inabalvel. Levantou-se para sair.

-- Conservaremos a estima
  recproca, disse Lvia estendendo-lhe a mo, e espero que me conserve tambm
  alguma coisa mais... como eu.

Eram as ltimas palavras da moa,
  vieram entrecortadas de soluos. Flix quis pegar-lhe nas mos e aproveitar esse
  passageiro desmaio para conseguir a retratao das palavras. Mas a moa
  abraou-se ao filho em cujo seio escondeu o rosto.

-- No faa chorar mame, disse
  Lus enlaando com os bracinhos o pescoo da viva.

Flix retirou-se lentamente, com os
  olhos anuviados, turvo o esprito, o passo vacilante, e transps a custo a
  soleira daquela porta que se lhe ia fechar para sempre.

CAPTULO XXIV / HOJE

Dez anos volveram sobre os
  acontecimentos deste livro, longos e enfastiados para uns, ligeiros e felizes
  para outros, que  a lei uniforme desta mofina sociedade humana.

Ligeiros e felizes foram eles para
  Raquel e Meneses, que eu tenho a honra de apresentar ao leitor, casados, e
  amantes ainda hoje. A piedade os uniu; a unio os fez amados e venturosos.

A pouco e pouco, o primeiro amor
  de Raquel se foi apagando, e o corao da moa no achou melhor convalescena
  que desposar o enfermeiro. Se lho dissessem no tempo em que ela adoecera por
  amor do mdico, levantaria desdenhosamente os ombros, e com razo. Donde se
  colhe quo acertado  aquele provrbio oriental que diz -- que a noite vem
  pejada do dia seguinte. Qual fosse a aurora que a sua noite trazia no seio no
  o adivinhara Raquel, mas a sua atual opinio  que no a podia haver mais bela
  em toda a escala do tempo.

O coronel e D. Matilde, com poucos
  meses de intervalo, foram continuar na eternidade a doce unio que os
  distinguira neste mundo.

Lvia entra serenamente pelo
  outono da vida. No esqueceu at hoje o escolhido de seu corao, e  proporo
  que volvem os anos, espiritualiza e santifica a memria do passado. Os erros de
  Flix esto esquecidos; o trao luminoso, de que ela lhe falara na ltima
  entrevista, foi s o que lhe ficou.

No tempo em que os mosteiros
  andavam nos romances, -- como refgio dos heris, pelo menos, -- a viva
  acabaria os seus dias no claustro. A solido da cela seria o remate natural da
  vida, e como a olhos profanos no seria dado devassar o sagrado recinto, l a
  deixaramos sozinha e quieta, aprendendo a amar a Deus e a esquecer os homens.

Mas o romance  secular, e os
  heris que precisam de solido so obrigados a busc-la no meio do tumulto.
  Lvia soube isolar-se na sociedade. Ningum mais a viu no teatro, na rua, ou em reunies. Suas visitas so poucas e ntimas. Dos que a conheceram outrora, muitos a
  esqueceram mais tarde; alguns a desconheceriam agora.

Talvez o tempo lhe respeitasse a
  beleza, a no ser a catstrofe que lhe enlutou a vida. J na meiga e serena
  fisionomia vo apontando sinais de decadncia prxima. Os poucos que lhe
  freqentam a casa no reparam nisso, porque a alma no perdeu o encanto, e 
  ainda hoje a mesma feiticeira amvel de outro tempo. Ela, sim, ela v que a
  flor inclina o colo, e que no tarda o vento da noite a dispers-la no cho.
  Mas do mesmo modo que a beleza lhe no acordara vaidades, assim a decadncia
  lhe no inspira terror.

Para consolo e companhia de sua
  velhice tem ela o filho, em cuja educao concentra todos os esforos. Lus
  possui as graas da me, apenas modificadas por uns toques varonis. Tem s
  quinze anos; mas como herdou a ndole austera da viva, e pouco, muito pouco,
  da viveza de imaginao, parece menos um adolescente que um homem.

Flix  que no iria parar no claustro.
  A dolorosa impresso dos acontecimentos a que o leitor assistiu, se
  profundamente o abateu, rapidamente se lhe apagou. O amor extinguiu-se como
  lmpada a que faltou leo. Era a convivncia da moa que lhe nutria a chama.
  Quando ela desapareceu, a chama exausta expirou.

No foi s isto. A sagacidade de
  Lvia adivinhara as provaes que lhe daria o casamento. Quando de todo se lhe
  calou o corao, Flix confessou ingenuamente a si prprio que o desenlace de
  seus amores, por mais que o mortificasse outrora, foi ainda assim a soluo
  mais razovel. O amor do mdico teve dvidas pstumas. A veracidade da carta
  que impedira o casamento, com o andar dos anos, no s lhe pareceu possvel,
  mas at provvel. Meneses disse-lhe um dia ter a prova cabal de que Lus
  Batista fora o autor da carta; Flix no recusou o testemunho nem lhe pediu a
  prova. O que ele interiormente pensava era que, suprimida a vilania de Lus
  Batista, no estava excluda a verossimilhana do fato, e bastava ela para lhe
  dar razo.

A vida solitria e austera da
  viva no pde evitar o esprito suspeitoso de Flix. Creu nela a princpio.
  Algum tempo depois duvidou de que fosse puramente um refgio; acreditou que
  seria antes uma dissimulao.

Dispondo de todos os meios que o
  podiam fazer venturoso, segundo a sociedade, Flix  essencialmente infeliz. A
  natureza o ps nessa classe de homens pusilnimes e visionrios, a quem cabe a
  reflexo do poeta: 'perdem o bem pelo receio de o buscar'. No se
  contentando com a felicidade exterior que o rodeia, quer haver essa outra das
  afeies ntimas, durveis e consoladoras. No a h de alcanar nunca, porque o
  seu corao, se ressurgiu por alguns dias, esqueceu na sepultura o sentimento
  da confiana e a memria das iluses.

FIM
