Conto, Uma excurso milagrosa, 1866

Uma excurso milagrosa



Texto-fonte:

Obra Completa, Machado de Assis, vol. II,

Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.



Publicado originalmente em Jornal
das Famlias, abril a maio de 1866.

Tenho uma viagem milagrosa para
contar aos leitores, ou antes uma narrao para transmitir, porque o prprio
viajante  quem narra as suas aventuras e as suas impresses.

Se a chamo milagrosa  porque as
circunstncias em que foi feita so to singulares, que a todos h de parecer
que no podia ser seno um milagre. Todavia, apesar das estradas que o nosso
viajante percorreu, dos condutores que teve e do espetculo que viu, no se
pode deixar de reconhecer que o fundo  o mais natural e possvel deste mundo.

Suponho que os leitores tero lido
todas as memrias de viagem, desde as viagens do Capito Cook s regies
polares at as viagens de Gulliver, e todas as histrias extraordinrias desde
as narrativas de Edgar Poe at os contos de Mil e Uma Noites. Pois tudo
isso  nada  vista das excurses singulares do nosso heri, a quem s falta o
estilo de Swift para ser levado  mais remota posteridade.

As histrias de viagem so as de
minha predileo. Julgue-o quem no pode experiment-lo, disse o pico
portugus. Quem no h de ir ver as coisas com os prprios olhos da cara,
diverte-se ao menos em v-las com os da imaginao, muito mais vivos e
penetrantes.

Viajar  multiplicar-se.

Mas, devo diz-lo com toda a
franqueza, quando ouo dizer a algum que j atravessou por gosto doze, quinze
vezes o Oceano, no sei que sinto em mim que me leva a adorar o referido
algum. Ver doze vezes o Oceano, roar-lhe doze vezes a cerviz, doze vezes
admirar as suas cleras, doze vezes admirar os seus espetculos, no  isto
gozar na verdadeira extenso da palavra?

Se em vez do Oceano me falam nas
florestas e contam-me mil episdios de uma viagem atravs do templo dos cedros
e dos jequitibs, ouvindo o silncio e a sombra, respirando os faustos daqueles
palcios da natureza, gozando, vivendo, apesar dos tigres, das serpes, ento o
gozo pode mudar de aspecto, mas  o mesmo gozo elevado, puro, grandioso.

O mesmo se d se a viagem for
atravs dos cadveres das cidades antigas, dos desertos da Arbia, dos gelos do
Norte. Tudo chama o esprito, e o educa, e o eleva, e o transforma.

Das viagens sedentrias s
conheo duas capazes de recrear. A Viagem  Roda do Meu Quarto, e a Viagem
 Roda do Meu Jardim, de Maistre e Alphonse Karr.

Ora, com todo este gosto pelas
viagens, ainda assim eu no desejaria fazer a viagem do heri desta narrativa.
Viu muita coisa,  certo; e voltou de l com a bagagem cheia dos meios de
apreciar os fracos da humanidade. Mas por tantas coisas quantos trabalhos!

* * *

Arrependera-se Cato de haver ido
algumas vezes por mar quando podia ir por terra. O virtuoso romano tinha razo.
Os carinhos de Anfitrite so um tanto raivosos, e muitas vezes funestos. Os
feitos martimos dobram de valia por esta circunstncia, que se esquivam de
navegar as almas pacatas, ou para falar mais decentemente, os espritos
prudentes e seguros.

Mas para justificar o provrbio
que diz:  debaixo dos ps se levantam os trabalhos  a via terrestre no 
absolutamente mais segura que a via martima, e a histria dos caminhos de
ferro, pequena embora, conta j no poucos e tristes episdios.

Absorto nestas e noutras reflexes
estava o meu amigo. Tito, poeta aos vinte anos, sem dinheiro e sem bigode,
sentado  mesa carunchosa do trabalho, onde ardia silenciosamente uma vela.

Devo proceder ao retrato fsico e
moral do meu amigo Tito.

Tito no  nem alto, nem baixo, o
que equivale a dizer que  de estatura mediana, a qual estatura  aquela que se
pode chamar francamente elegante, na minha opinio. Possuindo um semblante
anglico, uns olhos meigos e profundos, o nariz descendente legtimo e direto
do de Alcibades, a boca graciosa, a fronte larga como o verdadeiro trono do
pensamento, Tito pode servir de modelo  pintura e de objeto amado aos coraes
de quinze e mesmo de vinte anos.

Como as medalhas, e como todas as
coisas deste mundo de compensaes, Tito tem um reverso. Oh! triste coisa que 
o reverso da cara e da cabea. Parece que a natureza se dividira para dar a
Tito o que tinha de melhor e o que tinha de pior, e p-lo na miservel e
desconsoladora condio do pavo que se enfeita e contempla radioso, mas cujo
orgulho se abate e desfalece quando olha para as pernas e para os ps.

No moral Tito apresenta o mesmo
aspecto duplo do fsico. No tem vcios, mas tem fraquezas de carter que
quebram, um tanto ou quanto, as virtudes que o enobrecem.  bom e tem a virtude
evanglica da caridade; sabe, como o divino Mestre, partir o po da
subsistncia e dar de comer ao faminto com verdadeiro jbilo de conscincia e
de corao. No consta, alm disso, que jamais fizesse mal ao mais impertinente
bicho, ou ao mais insolente homem, duas coisas idnticas, nos curtos dias da
sua vida. Pelo contrrio, conta-se que a sua piedade e bons instintos o levaram
uma vez a ficar quase esmagado, procurando salvar da morte uma galga que dormia
na rua e sobre a qual ia quase quase passando um carro. A galga salva por Tito
afeioou-se-lhe tanto que nunca mais o deixou;  hora em que o vemos absorto em
pensamentos vagos est ela estendida sobre a mesa a contempl-lo grave e
sisuda.

S h que censurar em Tito as
fraquezas de carter, e deve-se crer que elas so filhas mesmo das suas
virtudes. Tito vendia outrora as produes da sua musa, no por meio de uma
permuta legtima de livro e moeda, mas por um meio desonroso e nada digno de um
filho de Apolo. As vendas que fazia eram absolutas, isto , trocando por
dinheiro os seus versos, o poeta perdia o direito de paternidade sobre essas
produes. S tinha um fregus, era um sujeito rico, manaco pela fama de
poeta, e que sabendo da facilidade com que Tito rimava apresentou-se um dia no
modesto albergue do poeta e entabulou a negociao por estes termos:

 Meu caro, venho propor-lhe um
negcio da China...

 Pode falar, respondeu Tito.

 Ouvi dizer que voc fazia
versos...  verdade?

Tito conteve-se a custo diante da
familiaridade do tratamento, e respondeu:

  verdade.

 Muito bem. Proponho-lhe o
seguinte. Compro-lhe por bom preo todos os seus versos, no os feitos, mas os
que fizer de hoje em diante, com a condio de que os hei de dar  estampa como
obra da minha lavra. No ponho outras condies ao negcio: advirto-lhe, porm,
que prefiro as odes e as poesias de sentimento. Quer?

Quando o sujeito acabou de falar,
Tito levantou-se, e com um gesto mandou-o sair. O sujeito pressentiu que, se
no sasse logo, as coisas poderiam acabar mal. Preferiu tomar o caminho da
porta, dizendo entre dentes: Hs de procurar-me, deixa estar.

O meu poeta esqueceu no dia
seguinte a aventura da vspera, mas os dias passaram-se e as necessidades urgentes
apresentaram-se  porta com olhar suplicante e as mos ameaadoras. Ele no
tinha recursos; depois de uma noite atribulada lembrou-se do sujeito, e tratou
de procur-lo; disse-lhe quem era, e que estava disposto a aceitar o negcio; o
sujeito, rindo-se com um riso diablico, fez o primeiro adiantamento, sob a
condio de que o poeta lhe levaria no dia seguinte uma ode aos polacos.

Tito passou a noite a arregimentar
palavras sem idias, tal era o seu estado, e no dia seguinte levou a obra ao
fregus, que a achou boa e dignou-se apertar-lhe a mo.

Tal  a face moral de Tito. A
virtude de ser pagador em dia levava-o a mercar com os dons de Deus; e
ainda assim vemos ns que ele resistiu, e s foi vencido quando se achou com a
corda ao pescoo.

A mesa  qual Tito estava
encostado era um traste velho e de lavor antigo, herdara-o de uma tia que lhe
havia morrido fazia dez anos. Um tinteiro de osso, uma pena de ave, algum
papel, eis os instrumentos de trabalho de Tito. Duas cadeiras e uma cama
completavam a sua moblia. J falei na vela e na galga.  hora em que Tito se engolfava em reflexes e fantasias era noite alta. A chuva caa com violncia e
os relmpagos que de instante a instante rompiam o cu deixavam ver o horizonte
pejado de nuvens negras e tmidas. Tito nada via, porque estava com a cabea
encostada nos braos, e estes sobre a mesa; e  provvel que nada ouvisse,
porque se entretinha em refletir nos perigos que oferecem os diferentes modos
de viajar.

Mas qual o motivo destes
pensamentos em que se engolfava o poeta?  isso que eu vou explicar  legtima
curiosidade dos leitores. Tito, como todos os homens de vinte anos, poetas e
no poetas, sentia-se afetado da doena do amor. Uns olhos pretos, um porte
senhoril, uma viso, uma criatura celestial, qualquer coisa por este teor,
havia infludo por tal modo no corao de Tito, que o pusera, pode-se dizer, 
beira da sepultura. O amor em Tito comeou por uma febre; esteve trs dias de
cama e foi curado (da febre e no do amor) por uma velha da vizinhana, que
conhecia o segredo das plantas virtuosas, e que ps o meu poeta de p, com o
que adquiriu mais um ttulo  reputao de feiticeira que os seus milagrosos
curativos lhe haviam granjeado.

Passado o perodo agudo da doena,
ficou-lhe esse resto de amor que, apesar da calma e da placidez, nada perde da
sua intensidade. Tito estava ardentemente apaixonado, e desde ento comeou a
defraudar o fregus das odes, subtraindo-lhe algumas estrofes inflamadas, que
dedicava ao objeto dos seus ntimos pensamentos, tal qual como aquele Sr.
dOfayel, dos amores leais e pudicos, com quem se pareceu, no na
sensaboria dos versos, mas no infortnio amoroso.

O amor contrariado, quando no
leva a um desdm sublime da parte do corao, leva  tragdia ou  asneira. Era
nesta alternativa que se debatia o esprito do meu poeta. Depois de haver gasto
em vo o latim das musas, aventurou uma declarao oral  dama dos seus
pensamentos. Esta ouviu-o com dureza dalma, e quando ele acabou de falar
disse-lhe que era melhor voltar  vida real e deixar musas e amores, para
cuidar do alinho da prpria pessoa. No presuma o leitor que a dama de quem lhe
falo tinha a vida to desenvolta como a lngua. Era, pelo contrrio, um modelo
da mais serfica pureza e do mais perfeito recato de costumes: recebera a
educao austera de seu pai, antigo capito de milcias, homem de incrvel
boa-f, que neste sculo desabusado, ainda acreditava em duas coisas: nos
programas polticos e nas cebolas do Egito. Desenganado de uma vez nas suas
pretenses, Tito no teve fora de nimo para varrer da memria a filha do
militar; e a resposta crua e desapiedada da moa estava-lhe no corao como um
punhal frio e penetrante. Tentou arranc-lo, mas a lembrana, viva sempre, como
ara de Vesta, trazia-lhe as fatais palavras ao meio das horas mais alegres ou
menos tristes da sua vida, como aviso de que a sua satisfao no podia durar e
que a tristeza era o fundo real dos seus dias. Era assim que os egpcios
mandavam pr um sarcfago no meio de um festim, como lembrana de que a vida 
transitria, e que s na sepultura existe a grande e eterna verdade.

Quando, depois de voltar a si,
Tito conseguiu encadear duas idias e tirar delas uma conseqncia, dois
projetos se lhe apresentaram, qual mais prprio a granjear-lhe a vilta de
pusilnime; um conclua pela tragdia, outro pela asneira; triste alternativa
dos coraes no compreendidos! O primeiro desses projetos era simplesmente
deixar este mundo, o outro limitava-se a uma viagem, que o poeta faria por mar
ou por terra, a fim de deixar por algum tempo a capital. J o poeta abandonava
o primeiro por ach-lo sanguinolento e definitivo; o segundo parecia-lhe
melhor, mais consentneo com a sua dignidade e sobretudo com os seus instintos
de conservao. Mas qual o meio de mudar de stio? Tomaria por terra? tomaria
por mar? Qualquer destes dois meios tinham seus inconvenientes. Estava o poeta
nestas averiguaes, quando ouviu que batiam  porta trs pancadinhas. Quem
seria? Quem poderia ir procurar o poeta quela hora? Lembrou-se que tinha umas
encomendas do homem das odes e foi abrir a porta disposto a ouvir resignado a
muito plausvel sarabanda que ele lhe vinha naturalmente pregar.

Aqui deixa de falar o autor para
falar o protagonista. No quero tirar o encanto natural que h de ter a
narrativa do poeta reproduzindo as suas prprias impresses.

O poeta foi, como disse, abrir a
porta.

Diz ele:

* * *

... Mas, oh! pasmo! eis que uma
slfide, uma criatura celestial, vaporosa, fantstica, trajando vestes alvas,
nem bem de pano, nem bem nvoas, uma coisa entre as duas espcies, ps
algeros, rosto sereno e insinuante, olhos negros e cintilantes, cachos louros
do mais leve e delicado cabelo, a carem-lhe graciosos pelas espduas nuas,
divinas, como as tuas,  Afrodita; eis que uma criatura assim invade o meu
aposento, e estendendo a mo ordena-me que feche a porta e tome assento  mesa.

Eu estava assombrado.
Maquinalmente voltei ao meu lugar sem tirar os olhos da viso. Esta sentou-se
defronte de mim e comeou a brincar com a galga, que dava mostras de no usado
contentamento. Passaram-se nisto dez minutos; depois do que a singular
criatura, cravando os seus olhos nos meus, perguntou-me com uma doura de voz
nunca ouvida:

 Em que pensas, poeta? Pranteias
algum amor mal parado? Sofres com a injustia dos homens? Di-te a desgraa
alheia ou  a prpria que te sombreia a fronte?

Esta indagao era feita de um
modo to insinuante que eu, sem inquirir o motivo da curiosidade, respondi
imediatamente:

 Penso na injustia de Deus.

  contraditria a expresso:
Deus  a justia.

 No . Se fosse teria repartido
irmmente a ternura pelos coraes e no consentiria que um ardesse inutilmente
pelo outro. O fenmeno da simpatia devia ser sempre recproco, de maneira que a
mulher no pudesse olhar com frieza para o homem quando o homem levantasse os
olhos de amor para ela.

 No s tu quem fala, poeta.  o
teu amor-prprio ferido pela m paga do teu afeto. Mas de que te servem as
musas? Ainda no vieram a ti, como eternas consoladoras que so? Entra no
santurio da poesia, engolfa-te no seio da inspirao, esquecers a a dor da
chaga que o mundo te abriu.

 Coitado de mim, que tenho a
poesia fria, e apagada a inspirao.

 De que precisas tu para dar vida
 poesia e  inspirao?

 Preciso do que me falta... e
falta-me tudo.

 Tudo?  exagerado. Tens o selo
com que Deus te distinguiu dos outros homens, e isso te basta. Cismavas em
deixar esta terra?

 ! verdade.

 Bem; venho a propsito. Queres
ir comigo?

 Para onde?

 Que importa? Queres vir?

 Quero. Assim me distrairei.
Partiremos amanh.  por mar, ou por terra?

 Nem amanh, nem por mar, nem por
terra; mas hoje e pelo ar.

Levantei-me e recuei. A viso
levantou-se tambm.

 Tens medo? perguntou ela.

 Medo, no, mas...

 Vamos. Faremos uma deliciosa
viagem.

Era de esperar um balo para a
viagem area a que me convidava a inesperada visita; mas os meus olhos se
arregalaram prodigiosamente quando viram abrirem-se das espduas da viso duas
longas e brancas asas que ela comeou a agitar e das quais caa uma poeira de
ouro.

 Vamos, disse a viso.

E eu maquinalmente repeti:

 Vamos!

E ela tomou-me nos braos, subimos
at o teto que se rasgou, e passamos ambos, viso e poeta. A tempestade tinha,
como por encanto, cessado, estava o cu limpo, transparente, luminoso,
verdadeiramente celestial, enfim. As estrelas fulgiam com a sua melhor luz, e
um luar branco e potico caa sobre os telhados das casas e sobre as flores e a
relva dos campos.

Subimos.

Durou a ascenso algum tempo. Eu
no podia pensar; ia atordoado e subia sem saber para onde, nem a razo por
qu. Sentia que o vento agitava os cabelos loiros da viso, e que eles lhe
batiam docemente na face, do que resultava uma exalao celeste que embriagava
e adormecia. O ar estava puro e fresco. Eu, que me havia distrado algum tempo
da ocupao das musas no estudo das leis fsicas, contava que naquele subir
contnuo breve chegaramos a sentir os efeitos da rarefao da atmosfera.
Engano meu! Subamos sempre e muito, mas a atmosfera conservava-se sempre a
mesma, e quanto mais subamos, melhor respirvamos.

Isto passou rpido pela minha
mente. Como disse, eu no pensava: ia subindo sem olhar para a terra. E para
que olharia para a terra? A viso no podia conduzir-me seno ao cu.

Em breve comecei a ver os planetas
fronte por fronte. Era j sobre a madrugada. Vnus, mais plida e loura que de
costume, ofuscava as estrelas com o seu claro e com a sua beleza. Lancei um
olhar de admirao para a deusa da manh. Mas subia, subamos sempre. Os
planetas passavam  minha ilharga como se foram corcis desenfreados. Afinal
penetramos em uma regio inteiramente diversa das que havamos atravessado
naquela assombrosa viagem. Eu senti expandir-se-me a alma na nova atmosfera.
Seria aquilo o cu? No ousava perguntar, e mudo esperava o termo da viagem. 
proporo que penetrvamos nessa regio ia-se a minha alma rompendo em jbilo;
da a algum tempo entrvamos em um planeta; comeamos a fazer o trajeto a p.

Caminhando, os objetos, at ento
vistos atravs de um nevoeiro, tomavam aspecto de coisas reais. Pude ver ento
que me achava em uma nova terra, a todos os respeitos estranha; o primeiro
aspecto vencia ao que oferece a potica Stambul ou a potica Npoles. Mais
entrvamos, mais os objetos tomavam o aspecto da realidade. Assim chegamos 
grande praa onde estavam construdos os reais paos. A habitao rgia era,
por assim dizer, uma reunio de todas as ordens arquitetnicas, sem excluir a
chinesa, sendo de notar que esta ltima fazia no mediana despesa na estrutura
do palcio.

Eu quis sair da nsia em que
estava por saber em que pas acabava de entrar, e aventurei uma pergunta 
minha companheira.

 Estamos no pas das Quimeras,
respondeu ela.

 No pas das Quimeras?

 Das Quimeras. Pas para onde
viaja trs quartas partes do gnero humano, mas que no se acha consignado nas
tbuas da cincia.

Contentei-me com a explicao. Mas
refleti sobre o caso. Por que motivo iria parar ali? A que era levado? Estava
nisto, quando a fada me advertiu de que ramos chegados  porta do palcio. No
vestbulo havia uns vinte ou trinta soldados que fumavam em grossos cachimbos
de escumas do mar, e que se embriagavam, como outros tantos padixs, na
contemplao dos novelos de fumo azul e branco que lhes saam da boca.  nossa
entrada houve continncia militar. Subimos pela grande escadaria, e fomos ter
aos andares superiores.

 Vamos falar aos soberanos, disse
a minha companheira.

Atravessamos muitas salas e
galerias. Todas as paredes, como no poema de Dinis, eram forradas de papel
prateado e lantejoulas.

Afinal penetramos na grande sala.
O Gnio das bagatelas, de que fala Elpino, estava sentado em um trono de
casquinha, tendo de ornamento dois paves, um de cada lado. O prprio soberano
tinha por coifa um pavo vivo, atado pelos ps, a uma espcie de solidu, maior
que o dos nossos padres, o qual por sua vez ficava firme na cabea por meio de
duas largas fitas amarelas, que vinham atar-se debaixo dos reais queixos. Coifa
idntica adornava a cabea dos gnios da corte, que correspondem aos viscondes
deste mundo, e que cercavam o trono do brilhante rei. Todos aqueles paves, de
minuto a minuto armavam-se, apavoneavam-se, e davam os guinchos do
costume.

Quando entrei na grande sala pela
mo da viso, houve um murmrio entre os fidalgos quimricos. A viso declarou
que ia apresentar um filho da terra. Seguiu-se a cerimnia da apresentao, que
era uma enfiada de cortesias, passagens e outras coisas quimricas, sem excluir
a formalidade do beija-mo. No se pense que fui eu o nico a beijar a mo ao
gnio soberano; todos os gnios presentes fizeram o mesmo, porque segundo ouvi
depois, no se d naquele pas o ato mais insignificante sem que esta
formalidade seja preenchida. Depois da cerimnia da apresentao perguntou-me o
soberano que tratamento tinha eu na terra para dar-me um cicerone
correspondente.

 Eu tenho, se tanto, uma triste
Merc.

 S isso? Pois h de ter o
desprazer de ser acompanhado pelo cicerone comum. Ns temos c a Senhoria, a
Excelncia, a Grandeza, e outras mais; mas quanto  Merc, essa tendo habitado
algum tempo este pas, tornou-se to pouco til que julguei melhor despedi-la.

A este termo a Senhoria e a
Excelncia, duas criaturas empertigadas, que se haviam aproximado de mim,
voltaram-me as costas, encolhendo os ombros e deitando-me um olhar de travs
com a maior expresso de desdm e pouco caso. Eu quis perguntar  minha
companheira o motivo deste ato daquelas duas quimricas pessoas; mas a viso
puxou-me pelo brao, e fez-me ver com um gesto que estava desatendendo ao Gnio
das bagatelas, cujos sobrolhos se contraram, como dizem os poetas antigos
que se contraam os de Jpiter Tonante. Neste momento entrou um bando de
mooilas frescas, lpidas, bonitas e louras... Oh! mas de um louro que se no
conhece entre ns, os filhos da terra! Entraram elas a correr com a agilidade
de andorinhas que voam; e depois de apertarem galhofeiramente a mo aos gnios
de corte, foram ao gnio soberano, diante de quem fizeram umas dez ou doze
mesuras.

Quem eram aquelas raparigas? Eu
estava de boca aberta. Indaguei da minha guia, e soube. Eram as Utopias e as
Quimeras que iam da terra, onde havia passado a noite na companhia de alguns
homens e mulheres de todas as idades e condies.

As Utopias e as Quimeras foram
festejadas pelo soberano, que se dignou sorrir-lhes e bater-lhes na face. Elas
alegres e risonhas receberam os carinhos reais como coisa que lhes era devida;
e depois de dez ou doze mesuras, repeties das anteriores, foram-se da sala,
no sem abraarem-me ou beliscarem-me, quando espantado eu olhava para elas sem
saber por que me tornara objeto de tanta jovialidade. O meu espanto crescia de
ponto quando ouvia a cada uma delas esta expresso muito usada nos bailes de
mscaras: Eu te conheo!

Depois que saram todos, o Gnio
fez um sinal, e toda a ateno concentrou-se no soberano, a ver o que ia
sair-lhe dos lbios. A expectativa foi burlada, porque o gracioso soberano
apenas com um gesto indicou ao cicerone comum o msero hspede que daqui tinha
ido. Seguiu-se a cerimnia da sada, que durou longos minutos, em virtude das
mesuras, cortesias e beija-mo do estilo. Os trs, eu, a fada condutora e o
cicerone passamos  sala da rainha. A real senhora era uma pessoa digna de
ateno a todos os respeitos; era imponente e graciosa; trajava vestido de gaza
e roupa da mesma fazenda, borzeguins de cetim alvo, pedras finas de todas as espcies
e cores, nos braos, no pescoo e na cabea; na cara trazia posturas
finssimas, e com tal arte, que parecia haver sido corada pelo pincel da
natureza; dos cabelos recendiam ativos cosmticos e delicados leos.

No pude disfarar a impresso que
me causava um todo assim. Voltei-me para a companheira de viagem e perguntei
como se chamava aquela deusa.

 No a v? respondeu a fada; no
v as trezentas raparigas que trabalham em torno dela? Pois ento?  a Moda,
cercada de suas trezentas belas, caprichosas filhas.

A estas palavras eu lembrei-me do Hissope.
No duvidava j de que estava no Pas das Quimeras; mas, raciocinei, para que
Dinis falasse de algumas destas coisas  preciso que c tivesse vindo, e
voltasse como est averiguado.

Portanto, no devo recear de c
ficar morando eternamente. Descansado por este lado, passei a atentar para os
trabalhos das companheiras da rainha; eram umas novas modas que se estavam
arranjando para vir a este mundo substituir as antigas.

Houve apresentao com o
cerimonial do estilo. Estremeci quando pousei os lbios na mo fina e macia da
soberana; esta no reparou, porque tinha na mo esquerda um psych, onde
se mirava de momento a momento.

Impetramos os trs licena para
continuar a visita do palcio e seguimos pelas galerias e salas. Cada sala era
ocupada por um grupo de pessoas, homens ou mulheres, algumas vezes mulheres e
homens, que se ocupavam nos diferentes misteres de que estavam incumbidos pela
lei do pas, ou por ordem arbitrria do soberano. Percorria essas salas
diversas com o olhar espantado, estranhando o que via, aquelas ocupaes,
aqueles costumes, aqueles caracteres. Em uma das salas um grupo de cem pessoas
ocupava-se em adelgaar uma massa branca, leve e balofa. Naturalmente este lugar
 a ucharia, dizia comigo; esto preparando alguma iguaria singular para o
almoo do rei. Indaguei do cicerone se havia acertado. O cicerone respondeu:

 No, senhor; estes homens esto
ocupados em preparar massa cerebral para um certo nmero de homens de todas as
classes, estadistas, poetas, namorados, etc.; serve tambm a mulheres. Esta
massa  especialmente para aqueles que no seu planeta vivem com verdadeiras
disposies do nosso pas, aos quais fazemos presente deste elemento
constitutivo.

  massa quimrica?

 Da melhor que se h visto at
hoje.

 Pode ver-se?

O cicerone sorriu-se; chamou o
chefe da sala, a quem pediu um pouco da massa. Este foi com prontido ao
depsito e tirou uma poro que entregou-me. Mal o tomei das mos do chefe
desfez-se a massa como se fora composta de fumo. Fiquei confuso; mas o chefe
bateu-me no ombro:

 V descansado, disse; ns temos
 mo matria-prima;  da nossa prpria atmosfera que nos servimos e a nossa
atmosfera no se enxota.

Este chefe tinha uma cara insinuante,
mas como todos os quimricos, era sujeito a abstraes, de modo que no pude
arrancar-lhe mais uma palavra, porque ele ao dizer as ltimas comeou a olhar
para o ar e a contemplar o vo de uma mosca. Este caso atraiu os companheiros,
que se chegaram a ele e mergulharam-se todos na contemplao do alado inseto.

Os trs continuamos o nosso
caminho.

Mais adiante era uma sala onde
muitos quimricos  roda de mesas discutiam os diferentes modos de inspirar aos
diplomatas e diretores deste nosso mundo os pretextos para encher o tempo e
apavorar os espritos com futilidades e espantalhos. Esses homens tinham ares
de finos e espertos. Havia ordem do soberano para no entrar naquela sala em
horas de trabalho; uma guarda estava  porta. A menor distrao daquele
congresso seria considerada uma calamidade pblica. Continuei com o cicerone e
fui ter a outra sala onde muitos Quimricos, de boca aberta, escutavam as
prelees de um filsofo do pas.

O filsofo falava pausado e
parecia embebido na msica das prprias palavras. Tinha um gesto estudado,
cheio de si, como de Vadius falando a Trissotin. Detive-me a.

Dizia o filsofo:

 Meus caros filhos, o universo 
um composto de maldade e invejas. No h talento, por mais prodigioso, que no
seja ferido pela seta da calnia e do desdm dos egostas. Como fugir a esta
triste situao? De um modo nico. Que cada um comeando a viver deve logo
compenetrar-se de que nada h acima de si, e desta convico prpria nascer a
convico alheia. Quem h de contestar o talento a um homem que comea por
senti-lo em si e diz que o tem?

Os ouvintes alaram a voz e num
coro exclamaram:

 Muito bem.

O filsofo continuou:

 Diro que isso  vaidade; mas se
bem compreendeis a nossa natureza e a natureza dos outros deveis saber que isso
que l embaixo se chama vaidade no  entre ns outra coisa mais do que a
verdadeira tenso do esprito, a conscincia da nossa elevao moral.

A preleo acabou com estas
palavras. O filsofo desceu do espaldar em que estava e todas as Quimeras
fizeram alas para deix-lo passar.

Continuei a minha viagem.

Andei de sala em sala, de galeria
em galeria, aqui visitando um museu, ali um trabalho ou um jogo; tive tempo de
ver tudo, de tudo examinar com ateno e pelo mido. Ao passar pela grande
galeria que dava para a praa, vi que o povo, reunido embaixo das janelas,
cercava uma forca. Era uma execuo que ia ter lugar. Crime de morte? No,
responderam-lhe, crime de lesa-cortesia. Era um Quimrico que havia cometido o
crime de no fazer a tempo e com graa uma continncia; este crime 
considerado naquele pas como a maior audcia possvel e imaginvel. O povo
quimrico contemplou a execuo como se assistisse a um espetculo de
saltimbancos, entre aplausos e gritos de prazer.

Entretanto era a hora do almoo
real.

 mesa do gnio soberano s se
sentavam o rei, a rainha, dois ministros, um mdico, e a encantadora fada que
me havia levado quelas alturas. A fada, antes de sentar-se  mesa, implorou do
rei a merc de admitir-me ao almoo; a resposta foi afirmativa; tomei assento.
O almoo foi o mais sucinto e rpido que  possvel imaginar. Durou alguns
segundos, depois do que todos se levantaram e abriu-se mesa para o jogo das
reais pessoas; fui assistir ao jogo; em roda da sala havia cadeiras onde
estavam sentadas as Utopias e as Quimeras; s costas dessas cadeiras
empertigaram-se fidalgos quimricos, com os seus paves e as suas vestiduras de
escarlate. Aproveitei a ocasio para saber como  que me conheciam aquelas
assanhadas raparigas. Encostei-me a uma cadeira e indaguei da Utopia que se
achava nesse lugar. Esta impetrou licena, e depois das formalidades do
costume, retirou-se a uma das salas comigo, e a perguntou-me:

 Pois deveras no sabes quem
somos? No nos conheces?

 No as conheo, isto ,
conheo-as agora, e isso d-me verdadeiro pesar, porque quisera t-las
conhecido h mais tempo.

 Oh! sempre poeta!

  que deveras so de uma
gentileza sem rival. Mas onde  que me viram?

 Em tua prpria casa.

 Oh!

 No te lembras?  noite, cansado
das lutas do dia, recolhes-te ao aposento, e a, abrindo velas ao pensamento,
deixas-te ir por um mar sereno e calmo. Nessa viagem acompanham-te algumas
raparigas... somos ns, as Utopias, ns, as Quimeras.

Compreendi afinal uma coisa que se
me estava a dizer h tanto tempo. Sorri-me, e cravando os meus olhos nos da
Utopia que tinha diante de mim, disse:

 Ah! sois vs,  verdade.
Consoladora companhia que me distrai de todas as misrias e pesares.  no seio
de vs que eu enxugo as minhas lgrimas. Ainda bem. Conforta-me ver-vos a todas
de face e debaixo de forma palpvel.

 E queres saber, tornou a Utopia,
quem nos leva a todas para a tua companhia? Olha, v.

Voltei-me e vi a peregrina viso,
minha companheira de viagem.

 Ah!  ela, respondi.

  verdade.  a loura Fantasia, a
companheira desvelada dos que pensam e dos que sentem.

A Fantasia e a Utopia entrelaaram
as mos e olhavam para mim. Eu, como que enlevado, olhava para ambas. Durou
isto alguns segundos; quis fazer algumas perguntas, mas quando ia falar reparei
que as duas se haviam tornado mais delgadas e vaporosas. Articulei alguma
coisa; porm vendo que elas iam ficando cada vez mais transparentes, e
distinguindo-se-lhes j pouco as feies, soltei estas palavras:

 Ento, que  isto? por que se
desfazem assim?  mais e mais as sombras desapareciam, corri  sala do jogo;
espetculo idntico me esperava; era pavoroso; todas as figuras se desfaziam
como se fossem feitas de nvoa. Atnito e palpitante, percorri algumas galerias
e afinal sa  praa; todos os objetos estavam sofrendo a mesma transformao.
Dentro de pouco eu senti que me faltava o apoio aos ps e vi que estava solto
no espao.

Nesta situao soltei um grito de
dor. Fechei os olhos e deixei-me ir como se tivesse de encontrar por termo de
viagem a morte. Era na verdade o mais provvel. Passados alguns segundos, abri
os olhos e vi que caa perpendicularmente sobre um ponto negro que me parecia
do tamanho de um ovo. O corpo rasgava como raio o espao. O ponto negro
cresceu, cresceu e cresceu at fazer-se do tamanho de uma grande esfera. A
minha queda tinha alguma coisa de diablica; soltava de vez em quando um
gemido; o ar batendo-me nos olhos obrigava-me a fech-los de instante a
instante.

Afinal o ponto negro que havia
crescido, continuava a crescer, at aparecer-me com o aspecto da Terra. 
Terra! disse comigo.

Creio que no haver expresso
humana para mostrar a alegria que sentiu a minha alma, perdida no espao,
quando reconheceu que se aproximava do planeta natal. Curta foi a alegria;
pensava, e pensava bem, que naquela velocidade quando tocasse em terra seria
para nunca mais se levantar. Tive um calafrio: vi a morte diante de mim e
encomendei a minha alma a Deus. Assim fui, fui, ou antes vim, vim, at que 
milagre dos milagres!  ca sobre a praia, de p, firme como se no houvesse
dado aquele infernal salto. A primeira impresso, quando me vi em terra, foi de
satisfao; depois tratei de ver em que regio do planeta me achava; podia ter
cado na Sibria ou na China; verifiquei que me achava a dois passos de casa.
Apressei-me a voltar aos meus pacficos lares.

A vela estava gasta; a galga,
estendida sobre a mesa, tinha os olhos fitos na porta. Entrei e atirei-me sobre
a cama, onde adormeci, refletindo no que acabava de acontecer-me.

* * *

Tal  a narrativa de Tito.

Esta pasmosa viagem serviu-lhe de
muito.

Desde ento adquiriu um olhar de
lince capaz de descobrir,  primeira vista, se um homem tem na cabea miolos ou
massa quimrica.

No h vaidade que possa com ele.
Mal a v lembra-se logo do que presenciou no reino das Bagatelas, e desfia sem
prembulo a histria da viagem.

Daqui vem que se era pobre e
infeliz, mais infeliz e mais pobre ficou depois disto.

 a sorte de todos quantos
entendem dever dizer o que sabem; nem se compra por outro preo a liberdade de
desmascarar a humanidade.

Declarar guerra  humanidade 
declar-la a toda a gente, atendendo-se a que ningum h que mais ou menos
deixe de ter no fundo do corao esse spide venenoso.

Isto pode servir de exemplo aos
futuros viajantes e poetas, a quem acontecer a viagem milagrosa que aconteceu
ao meu poeta.

Aprendam os outros no espelho
deste. Vejam o que lhes aparecer  mo, mas procurem dizer o menos que possam
as suas descobertas e as suas opinies.
