Conto, Silvestre, 1877

Silvestre

Texto-fonte:

http://www2.uol.com.br/machadodeassis/.

Publicado originalmente em Jornal
das Famlias, de 6/1877 a 8/1877.

CAPTULO PRIMEIRO

Jos S. P. Vargas era o pssimo
dos procuradores: s procurava para os outros. Aps vinte anos de incessante
trabalho, por sis e chuvas, muita canseira e muita humilhao, achava-se ele no
mesmo ponto de onde partira, com a diferena que partira aos vinte anos e s, e
tinha agora mulher e dois filhos. A odissia de um desses lutadores do foro
est ainda por escrever. Se algum a fizer, h de sair-lhe menos brilhante e
variada que a outra, mas pode ser que mais triste ainda que montona, ou talvez
por isso mesmo.

Mas no tratemos agora do
procurador nem das suas peregrinaes. Tratemos do filho dele, Silvestre, um
descorado menino de quinze anos, melanclico, taciturno, metido consigo, flor
nascida em lugar de pouco sol, prestes a dobrar o clice, para a terra, de onde
veio. Silvestre custara  me dores infinitas; talvez por isso era mais amado
do que a irm, menina de doze anos, viva, alegre, refeita, a vender sade por
todos os poros. O pai compensava a filha, amando-a mais do que ao irmo. Ao
cabo, ambos os pais queriam a ambos os filhos, com uma leve nuance e nada mais.

Jos Vargas fez ensinar ao filho
as primeiras letras, que era o mais que lhe podia dar. Silvestre aprendeu
consigo um pouco de francs. Aos catorze anos, o pai quis faz-lo seu ajudante
na procuradoria; mas a organizao franzina do pequeno era pouco auspiciosa
para tais labutaes. Pareceu-lhe melhor met-lo em um cartrio, onde ele se
habilitava para escrevente juramentado, e mais tarde escrivo ou tabelio, no
saindo assim dos limites do foro a dinastia dos Vargas.

Silvestre no exprimiu a menor
objeo acerca de tais planos. Ouviria acaso alguma coisa do que diziam dele?
Sozinho, a olhar para o ar, com a cabea entre as mos, parecia dominado por
uma idia fixa. Seus olhos, grandes e brilhantes, encerravam toda a vida que
fugira do resto do corpo. Com os cabelos lisos, incultos e cados sobre as
tmporas, dava uns ares remotos de Bonaparte, mas um Bonaparte mais do
pensamento que da ao, e muito menos msculo. Na famlia, a opinio aceita 
que Silvestre era doente  doente de alguma coisa fsica  ou corao ou bao 
ou vermes. Da alma no podia ser, o pequeno no tinha desgostos. A famlia
acreditava que a alma s adoece de desgostos.

As noites eram gastadas por ele,
em grande parte, a ler um tomo velho comprado a um algibebe, certo dia em que a
me lhe deu algum dinheiro. Ningum sabia o que era o livro, que estava escrito
em francs; mas a me achou natural explicao daquele amor s letras desde que
a filha lhe deu notcia de que a obra era lardeada de estampas. Era claro que
os bonecos divertiam o menino. Infelizmente, Silvestre descuidou-se um dia e deixou-o
sobre a mesa de jantar. O pai viu-o, abriu-o e confiscou-o.

 Um pirralho a folhear retratos
de mulheres nuas!

Silvestre chorou lgrimas de
desespero no interior da alcova. A me, que o livrara do castigo j planejado
pelo procurador, foi consol-lo da perda, no menos que aconselh-lo a no
perverter-se com estampas desonestas. O pequeno ouviu-a, mas continuou a
chorar, at que a prpria dor adormeceu, os olhos secaram e a esperana lhe
animou o rosto. A primeira quantia que pde obter foi destinada a outro
exemplar da obra; andou por algibebes, catou estantes e gavetas, durante uma
semana e mais, at que descobriu o exemplar suspirado. Se tivesse achado um
brilhante no ficaria mais contente. Meteu o livro entre a camisa e a pele e
guiou para casa, onde o escondeu a sete chaves, tendo cuidado da em diante em
o no deixar rolar por cima das mesas.

Assentado que Silvestre entraria
para um cartrio de escrivo, foi esta ordem transmitida ao pequeno, que
enfiou, mas no resistiu. Pelo contrrio, alegrou-se muito, quando o pai lhe
disse que era preciso ganhar a vida por si, e que, se tivesse juzo, brevemente
podia ver o fruto do seu trabalho. Silvestre disps-se a seguir pontualmente os
conselhos de seu pai e foi para o cartrio. Ali deram-lhe papis a copiar,
autos a coser, servio em que ele, posto lhe repugnasse, empregava o melhor da
ateno que Deus lhe dera. Mas, como tinha muita vez os olhos no ar e o
pensamento alhures, errava laudas e laudas, copiava-as de novo, com dispndio
do papel e da pacincia do escrivo. O fiel do cartrio tomou-lhe ojeriza; ele
caricaturou o fiel, e este pequeno incidente ia cortando a fortuna forense de
Silvestre. Passou, e com ele iam passando os dias, com grande enfado do pobre
menino, que perdia a esperana das vantagens prometidas pelo pai.

Um dia, passando Silvestre pela
Academia das Belas-Artes, viu-a aberta; entrou, pediu para ver alguns quadros.
A simplicidade do pedido desviou a idia de qualquer objeo. Demais, a comoo
do pequeno era visvel; era por fora comoo de artista. Quando ele de l
saiu, duas horas depois, tinha o olhar alucinado, o pulso febril, o passo
trmulo. A vista das salas e dos alunos fascinava-o, revolvia-o todo. Vira com
os olhos os quadros da Academia; com o esprito viu-o uma infinidade de
obras-primas, e sobre todas elas uma que ele trazia em si, indita, virgem, 
espera de ver o sol, de a saudarem os sculos. Essa obra-prima no era a
caricatura do fiel do cartrio, menos ainda os traslados do escrivo. Silvestre
vagou longo tempo pelas ruas da cidade. Quando cansou, refletiu no que lhe
cumpria fazer para substituir a pena pelo pincel; e concluiu que era pedi-lo ao
pai. Assim disposto, dirigiu-se para casa onde entrou alegre como nunca o vira
a famlia. Entrou; foi ter com o livro misterioso, abriu-o e contemplou com a
alma toda. Era uma histria da pintura, entremeada de gravuras representando
painis clebres. As mulheres nuas que tanto irritaram o procurador eram umas
Vnus e Bacantes, ali inseridas entre as Virgens de Correggio e Rafael.
Silvestre fartou-se de contemplar as obras e releu a histria de alguns
pintores. A ambio no lhe falava na alma; ele no perguntava se o futuro lhe
daria as palmas do Dominiquino e Rembrandt. No; o que lhe pulava dentro era um
painel que ele devia fazer, uma idia, um sentimento, alguma coisa sublime que
tinha necessidade de traduzir na tela e legar  imortalidade.

Nesse mesmo dia, Silvestre pediu 
me que o tirassem do cartrio e o mandassem para a Academia. A me sorriu
tristemente do pedido do filho; mas descarregou a conscincia de me
transmitindo-o a seu marido. O procurador vivera at ali na ignorncia do que
podia valer a pintura, salvo para fazer alguns retratos, e isto mesmo nem era
j aplicao sensata depois do daguerretipo, ento em plena posse de ambos os
mundos. Quando a mulher lhe falou no desejo do pequeno, limitou-se a erguer os
ombros; mas indo ele fazer-lhe pessoalmente o pedido, Jos Vargas irritou-se
deveras.

 Tu ests doido? disse ele
agitando as narinas. Pois hs de ganhar a vida a borrar pano!

Silvestre tentou fazer entender ao
pai que no era precisamente o que ele queria, mas a potncia intelectual do
procurador no ia at compreender a transfigurao. O pai cortou a palavra ao
filho e devolveu-o ao cartrio.

No havia mais que obedecer,
Silvestre obedeceu.

Passados os primeiros dias, o
pequeno levantou o esprito do abatimento em que o lanou a recusa paterna.
Achava meio de sair a certas horas, em certos dias, e voltava ao edifcio das
Belas-Artes. Ali travou conhecimento com um dos alunos, tornou-se ntimo;
alcanou confidncias; fez-lhe algumas, e quando a amizade se achou cimentada 
o que custa pouco entre rapazes , obteve em casa do aluno as primeiras lies
de desenho. Mostrou-lhe ento alguns ensaios que fizera a ocultas; o aluno
admirou-se da espontaneidade do talento e no acreditou que ele no tivesse
tido mestre.

 No tive nenhum, respondeu
Silvestre com simplicidade; copiei algumas gravuras que tenho num livro.

Alcanou algumas lies: mas o
mestre, vendo um dia que o discpulo lhe era superior, sentiu-se humilhado e
suspendeu o obsquio. Silvestre colheu desde logo os primeiros espinhos. No
desanimou, nem era caso disso. O que aprendera era bastante para
desenvolver-lhe o talento; atirou-se  arte com o melhor de seu corao.
Imberbe como Rafael, no se acreditava menos votado  glria ainda que para ele
a glria no eram os aplausos dos homens, mas s o fato de produzir alguma
coisa. Quando lhe pareceu que ia bem no desenho, experimentou o emprego das
tintas; arranjou uma tela, armou um cavalete, e trabalhou consigo. Ao cabo de
muita tentativa, convenceu-se de que lhe faltava ainda muita coisa. Voltou 
Academia, a pretexto de visitar o antigo mestre, mas com o nico fim de
observar como ele e os outros trabalhavam. Um professor do estabelecimento
reparando na ateno com que ele assistia s lies e descobrindo-lhe no olhar
alguma coisa superior, travou amizade com ele e deu-lhe na sua oficina lies
particulares e prticas, que o rapaz aprendia com rapidez incrvel. O
desinteresse e o desvelo do professor falaram na alma de Silvestre, e
deram-lhe, com as noes da arte que ele adorava, uma alta idia de
generosidade dos homens. O aluno era escravo do mestre; o mestre era pai do
aluno.

A ambio de Silvestre  no digo
bem  a necessidade de Silvestre era trazer  luz do sol e  contemplao dos
homens uma Vnus que ele tinha na cabea. No prefcio da obra sobre belas-artes
que ele comprara ao algibebe lera o rapaz que o cristianismo expulsara os
deuses pagos do cu; Silvestre ignorava o que fossem deuses pagos, mas alguns
retalhos de frases do mencionado livro lhe deram idias mais ou menos exatas do
paganismo. Imaginava ele pintar uma Vnus expulsa do cu, com uma expresso e
uma atitude inteiramente novas. O professor, homem de seu tempo, forcejava por
arred-lo de assuntos puramente clssicos; infundia-lhe o esprito do sculo. A
natureza americana, a histria moderna, a mesma histria ptria, os costumes e
as lendas nacionais podiam dar-lhe assunto a um painel superior; Silvestre no
abria mo de Vnus. O livro dominava-o; a primeira leitura enfreava-lhe o
esprito.

 Percebo, disse-lhe um dia o
professor, voc tem na cabea um ideal de beleza, -lhe preciso transcrever na
tela; escolhe Vnus que era a deusa das graas. V l; faa esse quadro;
voltar depois aos meus conselhos.

No  preciso dizer que a Vnus e
o escrivo eram inconciliveis, e que, uma vez metido com tintas no podia
Silvestre seguir com a mesma ateno os traslados e as certides. Assim que o
trabalho diminua, as certides saam erradas, e o que mais era, o escrevente
gazeava com freqncia o cartrio. As coisas chegaram a tal ponto que o
escrivo preferia v-lo ausente. Um dia, porm, demorado um traslado por culpa
de Silvestre, no teve o escrivo outro remdio mais que contar tudo ao
procurador. Este notara algumas vezes a ausncia do filho; mas no dia em que o
escrivo lhe contou que as ausncias eram multiplicadas e a desateno do rapaz
sem remdio, ficou mais consternado do que se lhe tirassem todas as
procuraes.

 Maroto! exclamou o pobre pai.
Vou dar-lhe uma lio mestra.  a mania dos bonecos! No cuida em outra coisa.

A lio foi comutada em repreenso
graas  interveno da me de Silvestre.

 Hs de ser homem do foro, quer
queiras quer no! Perorou Jos Vargas. O foro  que te h de dar o po; no ho
de ser os panos pintados! Ou trabalhars como eu quero, ou vou meter-te no
Arsenal de Guerra. Pelintra! Abusar da confiana de um homem honrado,
estragar-lhe os papis, compromet-lo quase! Isto suporta-se? Sai! Vai-te
embora!

A ltima palavra era um grito do
corao do procurador, em quem o olhar doce e lastimado do filho comeava a
influir. Silvestre recolheu-se  alcova com a alma dilacerada. Tinha ento
quinze anos; via j claramente que devia renunciar a uma das duas coisas: a
arte ou a famlia. O amor e a vocao lutaram nele com armas de igual tmpera;
spera e pertinaz refrega que acabou afinal, no pela vitria, mas pela
esperana  a esperana de conciliar o cartrio e a oficina. A soluo
consolou-o, como sabem consolar todas as quimeras. O pai mandou-o chamar.

 Resolvi tirar-te do cartrio,
disse ele, saboreando a alegria v do filho; vais ser escrevente do Dr. Lus
Borges. No s sers seu escrevente, mas at irs morar com ele. Virs ver-nos
aos domingos, ou de ms em ms, conforme te portares.

Silvestre lanou-se-lhe aos ps.

 Adeus! exclamou o pai; no
percas tempo, que  aborrecer-me. Resolvi e no recuo.

Nem os rogos da me nem os da irm
puderam demover o procurador da resoluo assentada. Fora era obedecer. A me
de Silvestre tratou de o aconselhar a proceder bem, com o fim de ver se
afrouxava o nimo do pai; a irm desfazia-se em lgrimas; o procurador afogava
a comoo em rap.

O Dr. Lus Borges que Jos Vargas
tirava assim da algibeira, como um chicote para castigar o filho, estivera com
o procurador duas horas depois da repreenso que este fizera ao rapaz. O
procurador contou-lhe as suas mgoas, a repugnncia do filho ao trabalho
forense, a inclinao de desenhar retratos.

 A maior parte do tempo consome-a
naquilo, disse ele. Se no fosse franzino eu j o tinha metido no Arsenal ou em
alguma outra parte, em que o obrigasse tal ou qual disciplina. No sei
realmente o que espera ele da...

 Mas j viu alguma pintura dele?

 Eu sei l! uns rabiscos e
pinceladas, que no entendo. Mas, ainda que entendesse aquilo  l ofcio que
deixe lucro?

O advogado torceu a pra,
consertou a gravata e disse:

 Vou propor-lhe uma coisa.

 Diga!

 Seu filho precisa de um freio,
no ? Pois eu me encarrego de o pr a bom caminho. Fao-o meu escrevente,
trabalhar debaixo da minha inspeo. Mas, no sendo isso bastante, convm que
ele venha viver comigo; sair do escritrio para casa, e de casa para o
escritrio. F-lo-ei trabalhar, de modo que esquea as tais pinturas.
Serve-lhe?

A proposta era to inesperada que
o procurador no pde responder logo; tudo entrava em seus clculos, menos
separar-se do filho. Contudo, a oferta era to generosa, a proteo do advogado
to til, que fora erro e descortesia no aceitar. O procurador aceitou, com
muito agradecimento. Assentou-se que Silvestre iria na segunda-feira prxima
para casa de Lus Borges.

Silvestre empacotou os seus
pincis, telas e cavalete, o seu livro de artes, alguns desenhos, vrios
esboos, enrolou tudo em folhas verdes de esperana, engolindo muita lgrima, e
declarou-se pronto a seguir seu destino. O pai comoveu-se na ocasio de o
abenoar, mas disfarou o abalo dizendo ao filho:

 Vai com Deus! Se trabalhares com
afinco e zelo, h em ti um bom tabelio.

 No, murmurava o corao do
adolescente, h em mim uma obra-prima.

CAPTULO II

O Dr. Lus Borges morava na praia
da Gamboa, numa casa elegante, ainda que pequena, construda  custa de muitas
razes finais. Era homem de quarenta anos, casado com uma gentilssima senhora
de vinte e cinco, sem filhos nem parentes, quase sem amigos. A fortuna no era
nem surda nem solcita aos rogos do advogado; era como a mar que ele via das
janelas todos os dias; enchia e vazava. Ele tinha a virtude de no esmorecer
com as vazantes nem alucinar-se com as enchentes. Laboremus era a sua
mxima.

Quando Silvestre ali apareceu, no
dia ajustado, acabava o Dr. Borges de ler as folhas e preparava-se para ir ao
almoo. O pai fez entrega do filho e saiu. O pequeno ficou trmulo e sem voz.

 Venha c, meu rebeldezinho,
disse o advogado; venha sem medo. Com que ento, em vez de copiar autos, V. M.
d-se  pintura?...

Silvestre no ousava levantar os
olhos do cho. No se sentia triste somente, mas irritado e indignado. No
falava porque no podia; mas dado que pudesse,  provvel que no rompesse o
silncio.

Lus Borges caminhara para ele,
com a mo esquerda ergueu-lhe a cabea, e contemplou-lhe alguns segundos as
feies finas, os olhos rutilantes de juventude e esperana, a fronte amassada
de talento e ambio. Ao mesmo tempo, Silvestre, que at ento no olhara em
cheio para o advogado, pde ver-lhe o rosto, que ele supunha ser peludo e
ttrico e achava simplesmente franco e amorvel.

 H aqui alguma coisa, murmurou o
advogado.

Silvestre corou at a raiz dos
cabelos.

 Que tem pintado voc?

 Quase nada.

 Alguma coisa, ao menos.

 Mas to pouco!

 H de deixar-me ver.

 No posso; so esboos sem
valor. Quando eu fizer uma grande obra, sim.

 Ol! J pensa nisso?

 No penso em outra coisa.

 Mas, menino, ningum chega a uma
grande obra sem passar por obras pequenas. Engatinha-se antes de andar. Eu
quisera v-lo engatinhar.

Silvestre no disse palavra.

 Tem o pudor do incompleto!
pensou o advogado. Sabe que seu pai trouxe-o para c, continuou ele em voz
alta, para que trabalhe e se deixe de pinturas. Eu, porm, permito-lhe que
pinte.

Silvestre quase desmaiou.
Agarrou-se s mos do advogado, como a pedir-lhe que repetisse o que acabava de
dizer. Riu-se o advogado da alegria do pequeno, e, no s lhe disse que podia
pintar em suas horas vagas, mas at que, se visse algum trabalho srio, de onde
pudesse concluir que havia nele talento, lhe arranjaria um professor. A alma de
Silvestre respirou largamente, livre do infortnio que a oprimia; achava um
protetor, onde cuidava ir buscar um algoz. Podia enfim ser artista!

E de saber que Lus Borges, apesar
dos seus quarenta anos no perdera os entusiasmos juvenis, nem algumas das
iluses da primeira idade. Cria na arte, na glria, na poesia. Quando Jos
Vargas lhe contou desanimado a vocao do filho e a necessidade de refre-la a
fim de lhe dirigir o esprito para alguma coisa mais til, ou menos eventual,
Lus Borges alegrou-se com a idia de haver descoberto um artista e a de
concorrer para desenvolv-lo. Tal foi o motivo da proposta que lhe fez. Tambm
ele tivera ambies, que o tempo levou, como leva outros tantos pedaos da
alma. Agora, sentado nas runas da juventude, contentava-se em espraiar a vista
pelo mar largo da juventude alheia.

Ia pois mudar a vida de Silvestre;
seu gnio achava enfim uma ptria. O advogado mandou-lhe preparar uma sala e
uma alcova, que havia no sto da casa; duas janelas davam para o mar. Ele poucas
vezes vira o mar, quase toda a vida esteve confinado em sua casa do Bairro dos
Cajueiros. Quando estendeu os olhos pela gua adiante, a alma estremeceu, como
o cavalo ao ouvir o clarim da guerra. Tambm ele ia pelejar, a dura e gloriosa
peleja da arte, que o seduzia e arrastava, e que o mataria se ele no acudisse
de pronto. Silvestre encostou-se  janela e deixou-se ir ao sabor de seus
pensamentos; lembrou-lhe a me, a irm e o pai, de quem ia viver separado
doravante, e ficou triste; mas a idia de que lhes pagaria as saudades com
muita glria o consolou da tristeza, e lhe levantou o esprito.

Os aposentos que lhe deram estavam
alfaiados com o estritamente preciso; ainda assim no fosse, ele no repararia em nada. Sua melhor moblia eram os seus quinze anos. Tirou da caixa que trouxera os objetos
necessrios  arte, os pincis, as telas, os desenhos; ps as coisas em ordem,
mas de modo que, em caso de entrar um estranho, pudesse esconder tudo. Feito
isto, entrou a contemplar mentalmente a sua Vnus indita; corrigiu um brao,
avivou o colorido, disps melhor um acessrio. A atitude no o satisfazia de
todo; melhorou-a, mas reparou que a mudana prejudicava a luz, e voltou 
primeira correo. O olhar no lhe parecia assaz expressivo; prometeu trabalh-lo
at alcanar a vida que lhe queria dar. No  possvel dizer com certeza que
tempo gastou ele nessa contemplao e emenda, a verdade  que acordou quando o
vieram chamar para jantar.

Lus Borges recebeu-o no gabinete,
e os dois passaram  sala de jantar onde a mulher do advogado esperava por
eles. Seguiu-se uma apresentao galhofeira, um jantar que a Silvestre pareceu
de prncipe, muito carinho dos donos da casa, nada menos que a felicidade para
o pobre rapaz. Silvestre, entretanto, comeu pouco; o acanhamento e as saudades
no eram de desafiar o apetite. No ousou sequer olhar para a mulher de Lus
Borges, que alis lhe falava com uma voz que devia sair da mais gentil de todas
as bocas humanas.

Camila era o nome dessa moa,
modelo de graa indolente e nativa elegncia. Imaginem uma mulher, no alta,
mas airosa, flexvel como uma serpente, meiga como uma pomba; pondo-lhe no
rosto cor de leite dois olhos pardos e vivos, um nariz reto como os das
esttuas gregas, considerai-lhe a fronte lisa e pensativa, as curvas do colo, a
perfeio do brao, e tereis a esposa de Lus Borges, e no a tereis toda,
porque falta ainda a alma de toda essa figura, a alma que se derramava por toda
ela e era uma coisa mais fcil de sentir que de explicar. Parece que lhe falam
os prprios dedos  foi a primeira expresso de Lus Borges ao v-la pela
primeira vez, dez anos antes, isto  1855, quando ela tinha apenas quinze anos
e ele trinta. Trs meses depois estavam casados. Uma vez casados, extinta a lua
de mel, no se extinguiu o amor, que alis nunca fora violento, seno pacfico,
moderado e igual. Mas a convenincia deu lugar a novas descobertas. Camila,
dizia um dia o marido, tem um gato no crebro. Explicava ele deste modo as
alternativas de carcia e arreganho da mulher, a indolncia das idias, a
irritao fcil e a fcil docilidade.

Informada da histria de
Silvestre, Camila tratou-o com a mesma simpatia do marido, disposta como ele, a
deixar que o gnio do jovem artista se desenvolvesse em plena liberdade. A
figura de Silvestre fez ainda aumentar o interesse que sua histria despertara
nas duas almas sensveis. Aquela palidez potica, o profundo e rutilante dos
olhos, o vu de melancolia com que ele parecia esconder-se s vistas do mundo,
mas atravs do qual se distinguia o trao da vontade e da perseverana, o
prprio acanhamento das maneiras, faziam dele uma criatura interessante e
original. No lhe era preciso arrombar a porta dos coraes; eles a abririam
por si.

Era, pois, a vida de Silvestre a
mais deliciosa coisa do mundo: trabalhava de manh no escritrio; de tarde e
antes do almoo pertencia ao estudo; os domingos eram todos seus. Fechava-se
para trabalhar  vontade. Mais de uma vez, Lus Borges pediu-lhe para ver os
trabalhos; ele recusava-o sempre. Quando cansava, encostava-se  janela e
esquecia-se a contemplar o mar e o cu. O ideal fundia-se no infinito; o
artista ficava s com a sua criao.

Um dia, voltando do escritrio,
achou aberta a porta de seu aposento. Junto da janela viu Camila de p, a
contemplar um desenho, uma cabea de Harpia, copiado de um modelo acadmico.
Antes de saber o que era, Silvestre correu agitado para a moa.

 No tenha medo, disse esta; eu
sou pessoa de segredo. Estava aqui admirando a sua inspirao.  magnfica!

Silvestre estendeu a mo para
pegar no desenho.

 No vale a pena disse ele; so
esboos...

 Ciumento!

Camila proferiu esta palavra com
tanta graa, que era impossvel resistir-lhe; Silvestre esperou que ela
acabasse o exame.

 D-me este! disse ela.

 No posso; dar-lhe-ei outro
melhor.

 Deixe ver.

 Mais tarde.

 Mentiroso!

Silvestre obteve o desenho e
apressou-se a guard-lo; s ento reparou que deixara uma pasta sobre a mesa.
Na pasta havia outros estudos; Camila, porm, s chegara a ver aquele. Enquanto
ele guardava cioso os frutos de suas horas vagas, a mulher de Lus Borges
admirava a fronte rafaelesca de Silvestre; a timidez graciosa de seus
movimentos, os olhos plenos de vida espiritual.

 Escondeu tudo? perguntou ela.

 Tudo; tenho vergonha de deixar
ver coisas to grosseiras. Quando eu fizer alguma obra melhor, no terei dvida
em mostr-la.

 Voc pensa que me contento com
to pouco? disse Camila depois de curto silncio.

Silvestre no sabia que dizer.

 No, continuou ela; h de
mostrar-me o que tem feito; quero apreciar os progressos de seu talento; numa
palavra, no quero ser pblico. Deixe ver!

Silvestre tinha todos os seus
estudos e preparos dentro de um grande ba, encostado a uma das paredes da
sala. A moa caminhara para ele; ele correu a sentar-se no ba.

 Perdoe-me, disse o rapaz, eu lhe
mostrarei depois; procurarei alguma coisa que seja digna de seus olhos.

A lisonja tem uma virtude rara;
Camila, ouvindo o cumprimento de Silvestre, sorriu e parou. Foi a primeira vez
que Silvestre atreveu-se a olh-la de rosto, mais de um minuto. A atitude da
moa, sua beleza caracterstica, a expresso do olhar, tudo parecia prprio a
impressionar um artista. Silvestre ficou literalmente fascinado; e Camila
sentiu a impresso que lhe produzia.

 Pois bem, disse ela; consinto em
esperar, procure alguma coisa digna de meus olhos... Meus olhos so bonitos?

 Oh! muito!

 Criana!

E dando uma volta ao corpo, Camila
saiu da sala, desceu a escada, deixando o pobre rapaz ainda enlevado daqueles
poucos minutos de conversa. Ergueu-se o filho do procurador e foi contemplar o
mar, da janela aberta, com a cabea cheia de todos os seus sonhos. Uma voz lhe
dizia dentro:

  esta a Vnus; este  o modelo
da tua obra imortal. Tua viso incorporou-se, fez-se mulher, falou-te e
ouviu-te. Tens a deusa; podes expuls-la de teu esprito, que  o cu pago.
Eia! ao trabalho! transmite enfim aos homens o pensamento que te faz viver.

Quinze anos tinha, mas sentiu-se
homem naquela suprema ocasio. Nessa mesma tarde cuidou de lanar ao papel os
primeiros lineamentos do esboo. No pde; no se dominava ainda bastante. Mas
no desanimou; trabalhou parte da noite a reproduzir a atitude e a expresso da
figura, tais quais as tinha na mente. No dia seguinte estava pronto o trabalho
preliminar. Pronto? Ele o desfez e inutilizou, como indigno do seu modelo. No
era ainda aquilo; quase desanimado, volveu  obra, at que ela lhe saiu
perfeita.

Silvestre sentiu as primeiras
alegrias da maternidade. O esboo era apenas esboo; no tinha ainda as
propores, a cor, a vida, o movimento; mas era o ovo prestes a soltar a ave
misteriosa da sua inspirao. Guardou-o cuidadosamente e cuidou de preparar a
tela.

Entretanto, Camila no esquecera a
promessa do rapaz; no lha lembrava nunca em presena do marido; essa reserva
pareceu a Silvestre uma prova de discrio, prpria a captar-lhe a confiana. A
insistncia devia ao mesmo tempo falar  vaidade de Silvestre; no falou, porque
ele ainda a no tinha; era cedo para conhecer esse verme do talento.

Durante uma semana, sofismou
Silvestre o cumprimento da promessa; a resistncia no pde ir alm, e ele
cedeu. De seus primeiros trabalhos, todos cpias mais ou menos incorretas, escolheu
o que lhe pareceu melhor, era justamente a Harpia que ela lhe surpreendera
naquela tarde. Camila recebeu-a com expresses de exagerado entusiasmo,
contemplou-a, beijou-a, escondeu-a.

 Promete que no mostrar a
ningum? disse ele timidamente.

 Prometo.

Desse minuto em diante, Camila
tornara-se a confidente natural e zelosa do jovem artista; ele lhe dizia suas
esperanas, seus planos de futuro; falava-lhe ingenuamente da obra-prima com
que queria dotar o mundo.

 Mas o que ? perguntava a mulher
de Lus Borges.

 Depois ver. Tenho l em cima a
tela em que hei de reproduzir o painel que trago na cabea; logo que comece a
trabalhar fecharei a sala de modo que ningum l v quando eu estiver fora.

 E se eu tiver outra chave?

Silvestre ps as mos em ar de
splica. A simplicidade do movimento desarmou a moa. Ela prometeu que no iria
surpreend-lo nunca; mas imps uma condio.

 Desejo ser a primeira que veja o
quadro.

Silvestre respondeu que sim. Nessa
ocasio, Lus Borges entrou na sala em que eles estavam; Camila continuou uma
histria que no havia comeado, com tal arte e prontido, que assombrou o
rapaz e lhe tirou os ltimos receios. A moa fazia-se cmplice da glria.

CAPTULO III

Quinze dias depois, o procurador
foi  casa de Lus Borges, a fim de ver o filho. Havia dois meses que ele no
punha os ps em casa do pai. A me receava menos ainda a molstia do que a
ingratido do filho; o procurador, entretanto, estava de algum modo satisfeito
com a ausncia do rapaz.

 Venho ver o nosso pequeno, disse
ele logo que entrou; minha mulher supe que tenha havido alguma molstia...

 Nada h, respondeu o advogado.
Est so como um pro.

 Tanto melhor. E trabalha?

 Muito.

 Bravo! Acostuma-se enfim ao
trabalho. Talvez ainda fale da mania das pinturas... No importa! h de perder
a idia com o tempo.

 Esprito chocho! dizia consigo o
advogado olhando para Jos Vargas; mal sabes tu que preparo talvez a glria do
teu nome.

Silvestre desceu a ver o pai, e
disps-se a acompanh-lo at a casa. Na rua, interrogado acerca da longa
ausncia, no achou resposta adequada; no queria confessar as preocupaes da
arte e repugnava-lhe mentir. Jos Vargas venceu a dificuldade respondendo logo depois
da pergunta.

 J sei, disse ele; andas
atarefado com o trabalho. No importa! Com ele  que te hs de achar. O foro
no dar a todos um palcio; mas com honra, trabalho e economia pode dar
honesta abastana...

Jos Vargas continuava uma srie infinita
de reflexes, ajustadas ao caso mas alheias ao esprito do filho. Enquanto o
pai falava, ele deixava-se ir atrs do sonho favorito. Em casa a alegria
turbulenta da irm e as lgrimas puras da me tiveram a virtude de o fazer
baixar daquelas nuvens  terra slida das afeies domsticas. Poucas horas
bastaram para matar muita saudade e aquietar muita aflio. Silvestre esqueceu
ali, por algum tempo, os sentimentos de outra ordem. Caindo a noite,
despediu-se no sem prometer que voltaria na seguinte semana; Jos Vargas foi
com ele at meio caminho; logo que o deixou, Silvestre seguiu rpido para casa.

Camila esperava-o com ansiedade;
ele encontrou-a carinhosa e risonha. Lus Borges chegou pouco depois;
conversaram da famlia de Silvestre, algum tempo, antes do ch. Quando
Silvestre se despediu dos dois protetores, disse o advogado  mulher.

 Menti hoje ao pai deste pequeno;
disse-lhe que o filho est absolutamente entregue aos meus trabalhos, quando a
verdade  que s os faz por desempenho de obrigao. Ora, se efetivamente
tivssemos ali um talento, uma esperana, um futuro, a mentira era piedosa e o
resultado viria justific-la; mas que sabemos ns da aptido de Silvestre?
Coisa nenhuma. Estamos a embaar o pai, sem proveito para o filho;  leviandade
pelo menos.

Camila fez um gesto para falar.

Que ? perguntou o marido.

 Nada, disse Camila depois de um
silncio. Esperemos; algum tempo ainda e ele nos dar...

 Quisera contratar-lhe um mestre,
mas se nada vejo do que ele faz... J lhe propus faz-lo entrar para a
Academia; recusou, porque o pai havia de opor-se.

Camila tivera idia de mostrar ao
marido o desenho que Silvestre lhe dera e tal foi o motivo de seu primeiro
movimento; mas a promessa feita ao rapaz de que no o mostraria a ningum,
fechou-lhe a boca. Agora, insistindo o advogado, ela ouvia em sua conscincia
uma voz remota que dizia: No tenhas segredo para teu marido. Ao que outra
voz mais prxima respondia: Lembra-te da promessa que fizeste. Insistia a
primeira: Olha, no cedas a uma puerilidade. Acudia a segunda: Tua palavra 
um contrato. E uma e outra falaram ainda longo tempo, enquanto Lus Borges,
supondo ter um dilogo com a mulher, ficara reduzido a um simples monlogo.

No dia seguinte, que era domingo,
comeou enfim Silvestre o famoso painel que trazia dentro de si. Como se
datasse uma era nova, o jovem artista marcou a hora e o minuto em que lanou na
tela os primeiros traos. Ele tinha a fora dos criadores, que  ao mesmo tempo
a fraqueza dos iludidos: a convico de um grande papel debaixo do sol.
Quantos, diante da tela ainda nua ou da folha de papel imaculada, no crem que
vo trabalhar para os sculos e no chegam a trabalhar para uma semana?
Silvestre tinha essa crena ingnua, poderosa e vivaz. Ele ia dar ao mundo uma
Vnus nova, melhor que as outras, mas digna irm delas.

Camila foi ter com ele na primeira
ocasio azada. Ele cobriu com uma toalha o encetado painel apenas ouviu os
passos da moa; mas o gesto no tinha j o terror do primeiro dia; era antes
coquetice que outra coisa.

 J trabalhando! exclamou ela.

 J.

 Vou-me embora.

 No, ainda no.

  algum retrato?

 No  retrato.

Camila aproximara-se da tela;
pegou na ponta da toalha, em ao de a levantar. Silvestre no obstou o
movimento; ela no insistiu. Ambos davam assim uma prova de confiana e
docilidade apreciada reciprocamente.

 S lhe peo uma coisa, disse
Camila.

 Que ? Diga.

 No falte  promessa que me fez.

Silvestre respondeu com um gesto
de assentimento. Era o mais que podia fazer na ocasio, porque no tinha voz;
todo ele era olhos para a beleza incomparvel de Camila. Vinha a moa num
desalinho intencional  um meio de o familiarizar com ela, e mais que nunca viu
Silvestre que no era outra a sua Vnus, no podia ser outra. Camila baixou os
olhos com um gesto de Diana.

O jovem artista abriu ento as
suas pastas de esboos e estudos; um por um mostrou-os todos  esposa de Lus
Borges. Eram corretos? Camila no podia diz-lo; achou-os, todavia,
lindssimos.

 Oh! se voc me ensinasse a
desenhar! exclamou ela.

 Eu? Sou apenas discpulo.

 Discpulo!

 Discpulo da natureza e de mim
mesmo.

Camila refletiu um instante.

Pois bem, disse ela; no me
ensine; no desejo roubar-lhe o tempo. Mas...

 Diga!

 Era capaz de fazer o meu
retrato?

 Talvez.

Camila interpretou esta palavra
como uma afirmao, e agradeceu-o com to infantil alegria que fez sorrir
Silvestre, no tanto de orgulho como de curiosidade.

 Mas no fale nada ao Lus 
recomendou a moa.

 Por qu?

 Eu lhe peo.

 Pois sim; ser uma surpresa para
ele quando vir o retrato pronto.

Logo que Silvestre se achou s,
pareceu ter colhido nova soma de inspirao. Um bafejo criador guiou o pincel
do jovem artista. Daquele dia em diante a ocupao exclusiva do rapaz era o
painel. Lus Borges comprava-lhe tudo o que era necessrio  obra.

 Quero colaborar de algum modo em
seu trabalho, dizia ele.

E consigo:

 Se quando ele o tiver pronto,
no me mostrar coisa que valha a pena, fora  reconduzi-lo ao foro, onde
dever ento ficar, porque  melhor ser um bom escrivo do que um pintor
detestvel.

No meio do trabalho adoeceu a irm
de Silvestre. O pai foi um dia busc-lo para ir v-la, porque o estado era
grave, e ele no queria que os dois irmos se separassem sem uma palavra
derradeira. Silvestre foi, travou algumas frases com a enferma e regressou  Gamboa.
Lus Borges dirigiu-lhe uma repreenso amigvel de que o pagaram largamente os
olhos de Camila. Trs dias depois faleceu a irm; ele foi a casa, demorou-se l
at o dia seguinte de manh; pela volta do meio dia regressou  casa de Lus
Borges, penalizado com a morte, mas obcecado pela idia que vivia.

O painel seguia seu caminho.
Algumas horas furtadas ao trabalho, eram passadas ao p de Camila, em uma doce
confabulao ntima; ele bebia nos olhos dela a inspirao exausta em longas
horas de aplicao. Depois volvia ao trabalho. Cada dia que passava como que
arrancava o rapaz s cogitaes deste mundo; ele vivia de uma vida exttica e
inconsciente. No se lembrava j de ir visitar seus pais. Se o advogado lhe
lembrava esse dever, ele saa de casa para ir a vinte passos sentar-se na
praia, com a sua Vnus diante de si. A me sentia a ausncia, mas o pobre Jos
Vargas cria firmemente que ele vivia preocupado e ocupado com os papis do
foro.

 Alm disso, dizia ele, no sei
que me parece obrigar o pequeno a vir aqui, quando o Dr. Borges nos faz o favor
de lhe dar casa, comida e educao.  natural que ele trabalhe em paga disso.

 Mas, Jos, um minuto ao menos
que ele viesse ver-nos...

 Um minuto! S em andar gastava
ele mais. Descansa; ele vir quando puder.

No podia, no iria nunca.
Silvestre j no pertencia ao mundo das coisas externas. O mundo para ele,
estava limitado nas dimenses da tela. Nem j dava aos trabalhos que o advogado
lhe cometia aquela ateno com que a princpio correspondera aos sentimentos
dele. Lus Borges desistiu de o ocupar mais; compreendeu a causa da desateno
e dispensou-o de ir ao escritrio. Assim os dias todos eram passados em casa,
entre o painel e Camila.

Um dia, enfim, aps algumas horas
de trabalho, Silvestre desceu e foi ter com a mulher do seu protetor. Ela
estremeceu ao ver-lhe as feies transtornadas. Interrogou-o e a resposta
tranqilizou-a. Nada acontecera que prejudicasse a obra.

 Tive uma vertigem, murmurou ele.

 Uma vertigem! Anda descansar um
pouco.

Silvestre estava ainda plido;
sentou-se; a moa ficou diante dele alguns minutos.

 Quer saber uma coisa? perguntou
Camila. Voc trabalha muito. No quero mais isso; agora h de fazer o que eu
mandar.

Silvestre abanou a cabea.

 No  esse trabalho o que me faz
mal, disse ele;  outro;  este. Dizendo isto o moo bateu com o dedo na testa.
Camila, com as mos arredou-lhe os cabelos, olhou para a testa silenciosamente,
e pousou-lhe um beijo leve e mido. Silvestre no corou, sentia a mesma impresso
de conforto que lhe davam os beijos de sua me. Ergueu-se e subiram os dois. Na
ocasio de descer, Silvestre, apesar de incomodado, cobrira instintivamente o
painel.

 No v trabalhar agora, disse
Camila.

 Por que no?

 Porque eu no quero.

Silvestre insistiu; ela
repetiu-lhe a proibio, no j com a voz doce, mas com alguma coisa da
irritao felina. Silvestre cedeu de m vontade; encostou-se  janela e
estendeu os olhos ao mar. No fim de algum tempo, ouviu um pequeno grito.
Voltou-se. Camila erguera a ponta da toalha que cobria o painel, levantara a
pouco e pouco at descobri-lo todo. Silvestre no correu para ela; deixou-se
ficar de costas para a janela, a olhar para as duas Vnus.

Era o sentimento da arte que lhe
arrancara o grito, que lhe abria extraordinariamente os olhos? No; era a
simples vaidade de moa bonita. As feies da Vnus eram as suas. Camila correu
enfim para o pintor, pegou-lhe nas mos e beijou-as.

 Magnfico! magnfico! exclamava
ela.

Silvestre contemplava o quadro com
igual admirao. A Vnus, expulsa do cu, descia pelo ar abaixo, com os olhos
voltados para cima, uns olhos travados de clera, mas de clera triste e
impotente, que so as quedas definitivas. Os cabelos, soltos no ter, pareciam
a derradeira aurola da divindade. As mos comprimiam o peito, os joelhos
dobravam-se molemente; a figura despenhava-se levada pelo vento da morte. O
painel no estava pronto; e, ainda pronto, faltar-lhe-ia muita coisa que a mo
inexperiente do artista lhe no dera. Contudo, era a aurora de um magnfico
dia.

Camila no cabia em si de
contente. Ele explicou-lhe o pensamento da composio, que a moa ouviu com a
mo dele presa entre as suas.

 A senhora h de perdoar, se tive
o atrevimento...

Camila respondeu com um muxoxo de
faceirice que bem exprimia a vaidade satisfeita. O painel era a sua prpria
apoteose. Que importava que a Vnus ali pintada fosse apenas uma Vnus, em vez
de uma Santa Ceclia e fugisse do cu em vez de caminhar para ele? Era o seu
retrato, tanto bastava. A vaidade, porm, no falava no nimo do artista; ele
via a moa radiante, como um aplauso e no se deixava levar do aplauso.
Contemplava a obra, ainda longe do ideal que desejava dar ao mundo; via s o
que estava feito e o que havia por fazer.

Dali em diante, Camila foi
admitida a v-lo trabalhar no painel; ele retificava uma linha contemplando-lhe
o rosto, avivava a expresso dos olhos fitando os dela. Camila orgulhava-se da
obra; e nunca o famoso gato que o marido dizia haver no crebro da moa se
agitou mais freqentemente, nem mais sbito passou do mole afago  spera
irritao. A mulher de Lus Borges parecia subir ao cu  medida que Vnus
descia; as ocupaes caseiras eram-lhe j agora insuportveis; rspida com
todos, quase s era afvel com o rapaz.

Enfim o painel foi concludo,
certo dia em que o advogado e a mulher saram a jantar fora. De noite,
Silvestre deu a notcia ao advogado.

 Sim? clamou este. No lhe quero
dar um abrao antes de ver a obra; mas prometo-lhe que se for qual a esperamos,
fica com duas costelas partidas.

Silvestre sorriu.

 Ver amanh de tarde, disse ele.

De manh acabado o almoo, Camila
subiu ao aposento do jovem pintor. O painel estava descoberto; Silvestre
sentado na borda da janela que era baixa, contemplava a namorada. No a viu
entrar, no lhe ouviu os passos sequer. Camila parou a olhar para ele. Ao cabo
de alguns minutos, aproximou-se lentamente; de p, ao lado do artista, tambm
ela ficou largos minutos a namorar a obra. Quanto tempo ali estiveram? Nenhum
deles poderia diz-lo. Silvestre acordou enfim; a sua mo, entre as de Camila,
tremia de comoo.

 No  tudo o que eu sonho, disse
ele; mas respiro enfim, porque eu precisava tirar isto de mim.

Camila no lhe disse nada, seu
rosto, sereno e expansivo alguns minutos antes, tornara-se sombrio e o olhar
aterrado.

 Que ? perguntou Silvestre.

 No me havia lembrado nunca...
este quadro... Se outros o virem, se for exposto ao pblico... ver-se- o meu
retrato...

 E ento?

 Lus no h de querer.

 Mas por qu?

 Ora, voc bem sabe... so
escrpulos. Oh! Lus no h de consentir nunca! Mas que loucura foi a nossa?...
Eu devia t-lo impedido desde que voc comeou.

A comoo crescia; a moa andava
de um para outro lado, ora falando a Silvestre, ora consigo, Silvestre f-la
parar, segurando-lhe em uma das mos.

 Descanse, disse ele.

 Como?

 No aparecer o quadro em
pblico.

Os olhos de Camila responderam
primeiro que os lbios.

 Sim? disse ela.

 Afiano-lhe.

 Mas...

Descanse; ser um quadro de
famlia; ficar no lugar mais escondido da casa, ou no mais pblico,  vontade
do Dr. Borges.

Camila voltou os olhos para o
quadro.

 Mas ento, disse ela tristemente
 perder voc a reputao; seu trabalho no ser visto de ningum.

 Que importa? Eu tinha
necessidade de o fazer, no de o expor.  bonito?

 Delicioso!

 Isso me basta!

Silvestre voltou a sentar-se na
borda da janela. Aproximando-se a moa, referiu ele minuciosamente toda a sua
curta vida, curta para os fatos, longa para os sentimentos. Estes, sobretudo,
ningum os conhecia ainda; s ele podia repetir as comoes sentidas, as lutas
anteriores, os sonhos desfeitos e renascentes, labutar da vocao, que acha
obstculos em cada pedra do caminho e os doma e vence. A moa ouviu-o com a
mais terna e submissa das atenes. Era uma alma que se despia diante dela, que
lhe confiava os mais ntimos segredos.

 Mas, disse ela quando ele acabou
 se no me tivesse conhecido teria feito a sua Vnus to bonita?

Silvestre pde refletir e no
responder. A resposta afirmativa ou no, seria a expresso da verdade? Mas a
mulher de Lus Borges insistiu; fora era dizer alguma coisa.

 No faria, murmurou ele.

 Jura?

 No so coisas que se jurem; mas
creio que no podia fazer to bonita, se a no conhecesse.

Oh! eterna vaidade! A resposta de
Silvestre encheu de luz e alegria o rosto da moa; ela agarrou-lhe as mos e
beijou-as. Casto era o movimento; mas a viveza foi tal que o pobre rapaz
empalideceu e entrou a olhar assustado para a Camila. Os olhos da moa,
pregados nele pareciam devor-lo. Nunca a fatuidade olhou mais
complacentemente, nem com tanto fogo, mas tambm nunca a alma de um rapaz foi
mais iludida. Silvestre, com as mos para trs, fincadas no telhado, parecia
querer fugir  moa.

Vaidoso! pensou Camila. Depois
proferiu risonha este gracejo insulso:  Se Lus morresse, voc casava comigo?

 No! no! murmurou Silvestre.

Camila recuou dois passos da
janela; a palidez de Silvestre assustava-a. Ia a falar, mas j ele no a podia
ouvir, atirando o corpo para trs rolara pelo telhado abaixo at a rua; Camila
soltou um grito...

Agora, o melhor era ir buscar o
jovem pintor vivo e so, fazer com que os dois se explicassem; restitu-lo 
famlia e pendurar o quadro. Mas se as coisas no se passaram assim! O rapaz
morreu; Camila enlouqueceu quase; os pais no tiveram nenhuma consolao na terra
 nenhuma, alm da memria do filho.

A morte teve uma explicao: o
delrio do talento satisfeito. Foi a explicao de Lus Borges e dos pais do
artista. Mas h outra explicao muito mais exata; Silvestre iludiu-se; viu um
gesto de amor onde havia uma alterao de vaidade ingnua. E tendo obtido tudo
o que queria, que era a beleza de Camila, fugia-lhe desde que lhe sups a
oferta do corao.
