Conto, O Califa de Platina, 1878

O califa de platina

Texto Fonte:

Pginas Recolhidas, Machado de Assis

Rio de Janeiro: Edies W. M.
Jackson, 1938.

Publicado originalmente em O Cruzeiro, 9 de abril de 1878.

O califa Schacabac era muito
estimado de seus sditos, no s pelas virtudes que o adornavam, como pelos
talentos que faziam dele um dos vares mais capazes de Platina. Os benefcios
de seu califado, alis curto, eram j grandes. Ele iniciara e fundara a
poltica de conciliao entre as faces do Estado, animava as artes e as
letras, protegia a indstria e o comrcio. Se havia alguma rebelio, tratava de
vencer os rebeldes; em seguida perdoava-lhes. Finalmente, era moo, crente,
empreendedor e patriota.

Uma noite, porm, estando a
dormir, apareceu-lhe em sonhos um ano amarelo, que, depois de o encarar
silenciosamente alguns minutos, proferiu estas palavras singulares:

 Comendador dos crentes, teu
califado tem sido um modelo de prncipes; falta-lhe, porm, originalidade; 
preciso que faas alguma coisa original. Dou-te um ano e um dia para cumprir
este preceito: se o no cumprires, voltarei e irs comigo a um abismo, que h
no centro da Tartaria, no qual morrers de fome, sede, desespero e solido.

O califa acordou sobressaltado,
esfregou os olhos e reparou que era apenas um sonho. Contudo, no pde dormir
mais; levantou-se e foi ao terrao contemplar as ltimas estrelas e os
primeiros raios da aurora. Ao almoo, serviram-lhe peras de Damasco. Tirou uma
e quando ia a trinc-la, a pra saltou-lhe das mos e saiu de dentro o mesmo
ano amarelo, que lhe repetiu as mesmas palavras da noite. Imagina-se o terror
com que Schacabac as ouviu. Quis falar, mas o ano desaparecera. O eunuco que
lhe servira a pra estava ainda diante dele, com o prato nas mos.

 Viste alguma coisa? perguntou o
califa, desconfiado e plido.

 Vi que Vossa Grandeza comeu uma
pra, muito tranqilo, e, ao que parece, com muito prazer.

O califa respirou; depois
recolheu-se ao mais secreto de seus aposentos, onde no falou a ningum durante
trs semanas. O eunuco levava-lhe a comida, com excluso das peras. No lhe
aproveitou a excluso, porque no fim de trs semanas, apetecendo-lhe comer
tmaras, viu sair de dentro de uma o mesmo ano amarelo, que lhe repetiu as
mesmssimas palavras de intimao e ameaa. Schacabac no se pde ter; mandou
chamar o vizir.

 Vizir, disse o califa, logo que
este acudiu ao chamado, quero que convoques para esta noite os oficiais do meu
conselho, a fim de lhes propor alguma coisa de grande importncia e no menor
segredo.

O vizir obedeceu prontamente 
ordem do califa. Naquela mesma noite, reuniram-se os oficiais, o vizir e o
chefe dos eunucos; todos estavam curiosos de saber o motivo da reunio; o
vizir, porm, mais curioso ainda que os outros, simulava tranqilamente
achar-se na posse do segredo.

Schacabac mandou vir caramelos,
cerejas, e vinhos do Levante; os oficiais do conselho refrescaram as goelas,
avivaram o intelecto, sentaram-se comodamente nos sofs e cravaram os olhos no
califa, que depois de alguns minutos de reflexo, falou nestes termos:

 Sabeis que tenho feito alguma
coisa durante o meu curto califado; contudo, ainda no fiz nada que
verdadeiramente se possa dizer original. Foi o que me observou um ano amarelo,
que me apareceu h trs semanas e ainda hoje de manh. O ano ameaou-me com a
mais afrontosa das mortes, em um abismo da Tartaria, se no fim de um ano e um
dia, eu no tiver feito alguma coisa positivamente original. Tenho cogitado dia
e noite, e confesso que ainda no achei coisa que merecesse essa qualificao.
Por isso vos convoquei; espero de vossas luzes o concurso necessrio  minha
salvao e  glria da nossa ptria.

O conselho ficou boquiaberto, ao
passo que o vizir, a mais e mais espantado, no movia um nico msculo do
rosto. Cada oficial do conselho fincou a cabea nas mos, a ver se descobria
uma idia original. Schacabac interrogava o silncio de todos, e sobre todos, o
do vizir, cujos olhos, fitos no magnfico tapete da Prsia que forrava o cho
da sala, parecia ter perdido a vida prpria, tal era a grande concentrao dos
pensamentos.

Ao cabo de meia hora, um dos
oficiais, Muley-Ramadan, encomendando-se a Allah, falou nestes termos:

 Comendador dos crentes, se
quereis uma idia extremamente original, mandai cortar o nariz a todos os
vossos sditos, adultos ou menores, e ordenai que a mesma operao seja feita a
todos os que nascerem de hoje em diante.

O chefe dos eunucos e diversos
oficiais protestaram logo contra semelhante idia, que lhes pareceu
excessivamente original. Schacabac, sem a rejeitar de todo, objetou que o nariz
era um rgo interessante e til ao Estado, porquanto fazia florescer a
indstria dos lenos e ministrava anualmente alguns defluxos  medicina.

 Que razo poderia levar-me a
privar o meu povo desse natural ornamento? concluiu o califa.

 Saiba Vossa Grandeza, respondeu
Muley-Ramadan, que, fundado na predio de um sbio astrlogo de meu
conhecimento, tenho por certo que, daqui a um sculo, h de ser descoberta uma
erva fatal ao gnero humano. Essa erva, que se chamar tabaco, ser usada de
duas formas  em rolo ou em p. O p servir para entupir o nariz dos homens e prejudicar a sade pblica. Desde que os vossos sditos no tenham nariz sero
preservados de to pernicioso costume...

Esta razo foi triunfalmente
combatida pelo vizir e todo o conselho, a tal ponto que o califa, alis
inclinado a ela, deixou-a inteiramente de mo. Ento o chefe dos eunucos,
depois de pedir licena a Schacabac para exprimir um voto, que lhe parecia
muito mais original que o primeiro, props que dali em diante o pagamento dos
impostos passasse a ser voluntrio, clandestino e annimo. Desde que assim for,
concluiu ele, estou certo de que o errio regurgitar de sequins; o
contribuinte crescer cem cvados ante a prpria conscincia; algum haver que,
levado de legtimo excesso, pague duas e trs vezes a mesma taxa; e afinado
deste modo o sentimento cvico, melhoraro, e muito, os costumes pblicos.

A maioria do conselho concordou em
que a idia era prodigiosamente original, mas o califa achou-a prematura, e
aventou a convenincia de a estudar e pr em execuo nas proximidades da vinda
do Anticristo. Cada um dos oficiais props a sua idia, que foi julgada
original, mas no tanto que merecesse ser aceita de preferncia a todas. Um
props a inveno da clarineta, outro a proscrio dos legumes, at que o vizir
falou nestes termos:

 Seja-me dado, comendador dos
crentes, propor uma idia que vos salvar dos abismos da Tartaria.  esta:
mandai trancar as portas de Platina a todas as caravanas que vierem de
Brasilina; que nenhum camelo, se ali recebeu mercadoria ou somente bebeu gua,
que nenhum camelo, digo eu, possa penetrar as portas da nossa cidade.

Espantado com a proposta, o califa
ponderou ao vizir:

 Mas que motivo... sim,  preciso
que haja um motivo... para...

 Nenhum, tornou o vizir, e nisto
consiste a primeira originalidade da minha idia. Digo a primeira, porque h
outra maior. Peo-vos, e ao conselho, que acompanheis atentamente o meu
raciocnio...

Todos ficaram atentos.

 Logo que a notcia de semelhante
medida chegar a Brasilina, haver grande rebolio e estupefao. Os mercadores
ficaro pesarosos com o ato, porque so os que mais perdem. Nenhuma caravana,
nem ainda as que vm de Meca, querer mais parar naquela cidade maldita, a qual
(permita-me o conselho uma figura de retrica) ficar bloqueada pelo vcuo. Que
acontece? Condenados os mercadores a no mercar para c, sero obrigados a
fechar as portas, ao menos aos domingos. Ora, como h em Brasilina uma classe
caixeiral, que suspira pelo fechamento das portas aos domingos, para ir fazer
suas oraes nas mesquitas, acontecer isto: o fechamento das portas de c
produzir o fechamento das portas de l, e Vossa Grandeza ter assim a glria
de inaugurar o calembour nas relaes internacionais.

Apenas o vizir concluiu este
discurso, todo o conselho reconheceu, unnime, que a idia era a mais
profundamente original de quantas tinham sido propostas. Houve abraos,
expanses. O chefe dos eunucos disse poeticamente que a idia do vizir era o
loto da sapincia brotando junto ao Nilo das necessidades pblicas. O califa
manifestou o seu entusiasmo ao vizir, dando-lhe de presente uma cimitarra, uma
bolsa com cinco mil sequins e a patente de coronel da guarda nacional.

No dia seguinte, todos os cadis
leram ao povo o decreto que mandava fechar as portas da cidade s caravanas de
Brasilina. A notcia excitou a curiosidade pblica e causou certa estranheza,
mas o vizir tivera o cuidado de espalhar pela boca pequena a anedota do ano
amarelo, e a opinio pblica aceitou a medida como um sinal visvel da proteo
de Allah.

Da em diante, por espao de
alguns meses, um dos recreios da cidade era subir s muralhas a ver chegar as
caravanas. Se estas vinham de Damasco, de Jerusalm, do Cairo ou de Bagd,
abriam-se-lhe as portas, e elas entravam sem a mnima objeo; mas se alguma
confessava que tocara em Brasilina, o oficial das portas dizia-lhe que passasse
de largo. A caravana voltava no meio dos apupos da multido.

Entretanto o califa indagava todos
os dias do vizir se constava que em Brazilina se houvesse procedido ao
fechamento das portas aos domingos; ao que o vizir invariavelmemte respondia
que no, mas que a medida no tardaria a ser proclamada como conseqncia
rigorosa da idia que havia proposto. Nessa esperana, iam voando as semanas e
os meses.

 Vizir, disse um dia Schacabac,
quer-me parecer que estamos enganados.

 Descanse Vossa Grandeza,
retorquiu friamente o vizir; o fato vai consumar-se; assim o exige a cincia.

Pela sua parte, o povo cansou de
apupar as caravanas e comeou a notar que a idia do vizir era simplesmente
amoladora. No vinham da Brasilina as mercadorias do costume, nem o povo
mandava para l as suas cerejas, os seus vinagres e os seus colches. Ningum
ganhava com o decreto. Comeou-se a murmurar contra ele. Um boticrio (ainda
no havia farmacutico) arengou ao povo, dizendo que a idia do vizir era
simplesmente v; que jamais o trocadilho das portas fechadas chegaria a ter a
mnima sombra de realidade cientfica. Os doutores eclesisticos no acharam no
Coro um s versculo que pudesse justificar tais indues e esperanas.
Lavrava a descrena e descontentamento; comeava a soprar uma aragem de
revoluo.

O vizir no teve s de lutar
contra o povo, mas tambm contra o califa, cuja boa f comeou a desconfiar do
acerto do decreto. Trs dias antes de chegar o prazo fatal, o califa intimou o
vizir a dar-lhe notcia do resultado que prometera ou a substitu-lo por uma
idia verdadeiramente original.

Nesse apertado lance, o vizir
chegou a desconfiar de si, e a persuadir-se que aventara aquela idia, levado
do nico desejo de desbancar os outros oficiais. Disso mesmo o advertiu
Abracadabro, varo exmio na geomancia, a quem consultou sobre o que lhe
cumpria fazer.

 Esperar, disse Abracadabro,
depois de traar algumas linhas no cho; esperar at o ltimo dia do prazo
fatal marcado ao califa. O que h de acontecer nesse dia, no o pode
descortinar a cincia, porque h muita coisa que a cincia ignora. Mas faze
isso. No ltimo dia do prazo,  noite, tu e o califa deveis recolher-vos ao
mais secreto aposento, onde vos sero servidos trs figos de Alexandria. O
resto l sabers; e podes ficar certo de que ser coisa boa.

Deu-se pressa o vizir em contar ao
califa as palavras de Abracadabro, e, fiados na geomancia, aguardaram o dia
ltimo. Veio este, e depois dele a noite. Ss os dois, no mais secreto aposento
de Schacabac, mandaram vir trs figos de Alexandria. Cada um dos dois tirou o
seu e abriu-o; o do califa deu um pulo, subiu ao teto e caiu logo no cho, sob
a forma do famoso ano amarelo. Vizir e califa tentaram fugir, correndo s
portas; mas o ano os deteve com gesto amigo.

 No  preciso fugir, disse ele;
no venho buscar-te; venho somente declarar que achei verdadeiramente original
a idia do fechamento das portas. Certo  que no deu de si tudo o que o vizir esperava;
mas nem por isso perdeu de originalidade. Allah seja convosco.

Livre da ameaa, o califa mandou
logo que todas as portas se abrissem s caravanas de Brasilina. O povo
aquietou-se; o comrcio votou mensagens de agradecimento. E porque o califa e o
vizir eram homens instrudos, prticos e dotados de boas intenes, e apenas
tinham cedido ao medo, sentiram-se contentes com repor as coisas no antigo p,
e no se encontravam nunca sem dizer ao outro, esfregando as mos:

 Aquele ano amarelo!
