Conto, Entre duas datas, 1884

Entre duas datas

Texto-fonte:

Obra Completa, de Machado de Assis,
vol. II,

Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1994.

Publicado originalmente em A Estao, de 31/5/1884 a 30/7/1884.

Que duas pessoas se amem e se
separem , na verdade, coisa triste, desde que no h entre elas nenhum
impedimento moral ou social. Mas o destino ou o acaso, ou o complexo das
circunstncias da vida determina muita vez o contrrio. Uma viagem de negcio
ou de recreio, uma convalescena, qualquer coisa basta (consultem La Palise) para cavar um abismo entre duas pessoas.

Era isto, resumidamente, o que
pensava uma noite o bacharel Duarte,  mesa de um caf, tendo vindo do Teatro
Ginsio. Tinha visto no teatro uma moa muito parecida com outra que ele
outrora namorara. H quanto tempo ia isso! H sete anos, foi em 1855. Ao ver a
moa no camarote, chegou a pensar que era ela, mas advertiu que no podia ser;
a outra tinha dezoito anos, devia estar com vinte e cinco, e esta no
representava mais de dezoito, quando muito, dezenove.

No era ela; mas to parecida, que
trouxe  memria do bacharel todo o passado, com as suas reminiscncias vivas
no esprito, e Deus sabe se no corao. Enquanto lhe preparavam o ch, Duarte
divertiu-se em recompor a vida, se acaso tivesse casado com a primeira
namorada,  a primeira! Tinha ento vinte e trs anos. Vira-a na casa de um
amigo, no Engenho Velho, e ficaram gostando um do outro. Ela era meiga e
acanhada, linda a mais no ser, s vezes com ares de criana, que lhe davam
ainda maior relevo. Era filha de um coronel.

Nada impedia que os dois se
casassem, uma vez que se amavam e se mereciam. Mas aqui entrou justamente o
destino ou o acaso, o que ele chamava h pouco complexo das circunstncias da
vida, definio realmente comprida e enfadonha. O coronel teve ordem de seguir
para o Sul; ia demorar-se dois a trs anos. Ainda assim podia a filha casar com
o bacharel; mas no era este o sonho do pai da moa, que percebera o namoro e
estimava poder mat-lo. O sonho do coronel era um general; em falta dele, um
comendador rico. Pode ser que o bacharel viesse a ser um dia rico, comendador e
at general  como no tempo da guerra do Paraguai. Pode ser, mas no era nada, por
ora, e o pai de Malvina no queria arriscar todo o dinheiro que tinha nesse
bilhete que podia sair-lhe branco.

Duarte no a deixou ir sem tentar
alguma coisa. Meteu empenhos. Uma prima dele, casada com um militar, pediu ao
marido que interviesse, e este fez tudo o que podia para ver se o coronel
consentia no casamento da filha. No alcanou nada. Afinal, o bacharel estava
disposto a ir ter com eles no Sul; mas o pai de Malvina dissuadiu-o de um tal
projeto, dizendo-lhe primeiro que ela era ainda muito criana, e depois que, se
ele l aparecesse, ento  que nunca lha daria.

Tudo isso foi pelos fins de 1855.
Malvina seguiu com o pai, chorosa, jurando ao namorado que se atiraria ao mar,
logo que sasse a barra do Rio de Janeiro. Jurou com sinceridade; mas a vida
tem uma parte inferior que destri, ou pelo menos, altera e atenua as
resolues morais. Malvina enjoou. Nesse estado, que toda a gente afirma ser
intolervel, a moa no teve a necessria resoluo para um ato de desespero.
Chegou viva e s ao Rio Grande.

Que houve depois? Duarte teve
algumas notcias, a princpio, por parte da prima, a quem Malvina escrevia,
todos os meses, cartas cheias de protestos e saudades. No fim de oito meses,
Malvina adoeceu, depois escassearam as cartas. Afinal, indo ele  Europa,
cessaram elas de todo. Quando ele voltou, soube que a antiga namorada tinha
casado em Jaguaro; e (vede a ironia do destino) no casou com general nem
comendador rico, mas justamente com um bacharel sem dinheiro.

Est claro que ele no deu um tiro
na cabea nem murros na parede; ouviu a notcia e conformou-se com ela. Tinham
ento passado cinco anos; era em 1860. A paixo estava acabada; havia somente um fiozinho de lembrana teimosa. Foi cuidar da vida,  espera
de casar tambm.

E  agora, em 1862, estando ele
tranqilamente no Ginsio, que uma moa lhe apareceu com a cara, os modos e a
figura de Malvina em 1855. J no ouviu bem o resto do espetculo; viu mal,
muito mal, e, no caf, encostado a uma mesa do canto, ao fundo, rememorava
tudo, e perguntava a si mesmo qual no teria sido a sua vida, se tivessem
realizado o casamento.

Poupo s pessoas que me lem a
narrao do que ele construiu, antes, durante e depois do ch. De quando em
quando, queria sacudir a imagem do esprito; ela, porm, tornava e perseguia-o,
assemelhando-se (perdoem-me as moas amadas) a uma mosca importuna. No vou
buscar  mosca seno a tenacidade de presena, que  uma virtude nas
recordaes amorosas; fica a parte odiosa da comparao para os conversadores
enfadonhos. Demais, ele prprio, o prprio Duarte  que empregou a comparao,
no dia seguinte, contando o caso ao colega de escritrio. Contou-lhe ento todo
o passado.

 Nunca mais a viste?

 Nunca.

 Sabes se ela est aqui ou no Rio
Grande?

 No sei nada. Logo depois do
casamento, disse-me a prima que ela vinha para c; mas soube depois que no, e
afinal no ouvi dizer mais nada. E que tem que esteja? Isto  negcio acabado.
Ou supes que seria ela mesma que vi? Afirmo-te que no.

 No, no suponho nada; fiz a
pergunta  toa.

  toa? repetiu Duarte rindo.

 Ou de propsito, se queres. Na
verdade, eu creio que tu... Digo? Creio que ainda ests embeiado...

 Por qu?

 A turvao de ontem...

 Que turvao?

 Tu mesmo o disseste; ouviste mal
o resto do espetculo, pensaste nela depois, e agora mesmo contas-me tudo com
um tal ardor...

 Deixa-te disso. Contei o que
senti, e o que senti foram saudades do passado. Presentemente...

Da a dias, estando com a prima, 
a intermediria antiga das notcias,  contou-lhe o caso do Ginsio.

 Voc ainda se lembra disso?
disse ela.

 No me lembro, mas naquela
ocasio deu-me um choque... No imagina como era parecida. At aquele jeitinho
que Malvina dava  boca, quando ficava aborrecida, at isso...

 Em todo caso, no  a mesma.

 Por qu? Est muito diferente?

 No sei; mas sei que Malvina
ainda est no Rio Grande.

 Em Jaguaro?

 No; depois da morte do
marido...

 Enviuvou?

 Pois ento? h um ano. Depois da
morte do marido, mudou-se para a capital.

Duarte no pensou mais nisto.
Parece mesmo que alguns dias depois encetou um namoro, que durou muitos meses.
Casaria, talvez, se a moa, que j era doente, no viesse a morrer, e deix-lo
como dantes. Segunda noiva perdida.

Acabava o ano de 1863. No
princpio de 1864, indo ele jantar com a prima, antes de seguir para Cantagalo,
onde tinha de defender um processo, anunciou-lhe ela que um ou dois meses
depois chegaria Malvina do Rio Grande. Trocaram alguns gracejos, aluses ao
passado e ao futuro; e, tanto quanto se pode dizer, parece que ele saiu de l
pensando na recente viva. Tudo por causa do encontro no Ginsio em 1862.
Entretanto, seguiu para Cantagalo.

No dois meses, nem um, mas vinte
dias depois, Malvina chegou do Rio Grande. No a conhecemos antes, mas pelo que
diz a amiga ao marido, voltando de visit-la, parece que est bonita, embora
mudada. Realmente, so passados nove anos. A beleza est mais acentuada, tomou
outra expresso, deixou de ser o alfenim de 1855, para ser mulher verdadeira.
Os olhos  que perderam a candura de outro tempo, e um certo aveludado, que
acariciava as pessoas que os recebiam. Ao mesmo tempo, havia nela, outrora, um
acanhamento prprio da idade, que o tempo levou:  o que acontece a todas as
pessoas. Malvina  expansiva, ri muito, mofa um pouco, e ocupa-se de que a
vejam e admirem. Tambm outras senhoras fazem a mesma coisa em tal idade, e at
depois, no sei se muito depois; no a criminemos por um pecado to comum.

Passados alguns dias, a prima do
bacharel falou deste  amiga, contou-lhe a conversa que tiveram juntos, o
encontro do Ginsio, e tudo isso pareceu interessar grandemente  outra. No
foram adiante; mas a viva tornou a falar do assunto, no uma, nem duas, mas
muitas vezes.

 Querem ver que voc est
querendo recordar-se...

Malvina fez um gesto de ombros
para fingir indiferena; mas fingiu mal. Contou-lhe depois a histria do
casamento. Afirmou que no tivera paixo pelo marido, mas que o estimara
bastante. Confessou que muita vez se lembrara do Duarte. E como estava ele?
tinha ainda o mesmo bigode? ria como dantes? dizia as mesmas graas?

 As mesmas.

 No mudou nada?

 Tem o mesmo bigode, e ri como
antigamente; tem mais alguma coisa: um par de suas.

 Usa suas?

 Usa, e por sinal que bonitas,
grandes, castanhas...

Malvina recomps na cabea a
figura de 1855, pondo-lhe as suas, e achou que deviam ir-lhe bem, conquanto o
bigode somente fosse mais adequado ao tipo anterior. At aqui era brincar; mas
a viva comeou a pensar nele com insistncia; interrogava muito a outra,
perguntava-lhe quando  que ele vinha.

 Creio que Malvina e Duarte
acabam casando, disse a outra ao marido.

Duarte veio finalmente de
Cantagalo. Um e outro souberam que iam aproximar-se; e a prima, que jurara aos
seus deuses cas-los, tornou o encontro de ambos ainda mais apetecvel. Falou
muito dele  amiga; depois quando ele chegou, falou-lhe muito dela, entusiasmada.
Em seguida arranjou-lhes um encontro, em terreno neutro. Convidou-os para um
jantar.

Podem crer que o jantar foi
esperado com nsia por ambas as partes. Duarte, ao aproximar-se da casa da
prima, sentiu mesmo uns palpites de outro tempo; mas dominou-se e subiu. Os
palpites aumentaram; e o primeiro encontro de ambos foi de alvoroo e
perturbao. No disseram nada; no podiam dizer coisa nenhuma. Parece at que
o bacharel tinha planeado um certo ar de desgosto e repreenso. Realmente,
nenhum deles fora fiel ao outro, mas as aparncias eram a favor dele, que no
casara, e contra ela, que casara e enterrara o marido. Da a frieza calculada
da parte do bacharel, uma impassibilidade de fingido desdm. Malvina no
afetara nem podia afetar a mesma atitude; mas estava naturalmente acanhada  ou
digamos a palavra toda, que  mais curta, vexada. Vexada  o que era.

A amiga dos dois tomou a si
desacanh-los, reuni-los, preencher o enorme claro que havia entre as duas
datas, e, com o marido, tratou de fazer um jantar alegre. No foi to alegre
como devia ser; ambos espiavam-se, observavam-se, tratavam de reconhecer o
passado, de compar-lo ao presente, de ajuntar a realidade s reminiscncias.
Eis algumas palavras trocadas  mesa entre eles:

 O Rio Grande  bonito?

 Muito: gosto muito de Porto
Alegre.

 Parece que h muito frio?

 Muito.

E depois, ela:

 Tem tido bons cantores por c?

 Temos tido.

 H muito tempo no ouo uma
pera.

peras, frio, ruas, coisas de
nada, indiferentes, e isso mesmo a largos intervalos. Dir-se-ia que cada um
deles s possua a sua lngua, e exprimia-se numa terceira, de que mal sabiam
quatro palavras. Em suma, um primeiro encontro cheio de esperanas. A dona da
casa achou-os excessivamente acanhados, mas o marido corrigiu-lhe a impresso,
ponderando que isso mesmo era prova de lembrana viva a despeito dos tempos.

Os encontros naturalmente
amiudaram-se. A amiga de ambos entrou a favorec-los. Eram convites para
jantares, para espetculos, passeios, saraus  eram at convites para missas.
Custa dizer, mas  certo que ela at recorreu  igreja para ver se os prendia
de uma vez.

No menos certo  que no lhes
falou de mais nada. A mais vulgar discrio pedia o silncio, ou pelo menos, a
aluso galhofeira e sem calor; ela preferiu no dizer nada. Em compensao
observava-os, e vivia numas alternativas de esperana e desalento. Com efeito,
eles pareciam andar pouco.

Durante os primeiros dias, nada
mais houve entre ambos, alm de observao e cautela. Duas pessoas que se vem
pela primeira vez, ou que se tornam a ver naquelas circunstncias, naturalmente
dissimulam.  o que lhes acontecia. Nem um nem outro deixava correr a natureza,
pareciam andar s apalpadelas, cheios de circunspeco e atentos ao menor
escorrego. Do passado, coisa nenhuma. Viviam como se tivessem nascido uma
semana antes, e devessem morrer na seguinte; nem passado nem futuro. Malvina
sofreou a expanso que os anos lhe trouxeram, Duarte o tom de homem solteiro e
alegre, com preocupaes polticas, e uma ponta de ceticismo e de gastronomia.
Cada um punha a mscara, desde que tinham de encontrar-se.

Mas isto mesmo no podia durar
muito; no fim de cinco ou seis semanas, as mscaras foram caindo. Uma noite,
achando-se no teatro, Duarte viu-a no camarote, e, no pde esquivar-se de a
comparar com a que vira antes, e tanto se parecia com a Malvina de 1855. Era
outra coisa, assim de longe, e s luzes, sobressaindo no fundo escuro do
camarote. Alm disso, pareceu-lhe que ela voltava a cabea para todos os lados
com muita preocupao do efeito que estivesse causando.

Quem sabe se deu em namoradeira?
pensou ele.

E, para sacudir este pensamento,
olhou para outro lado; pegou do binculo e percorreu alguns camarotes. Um deles
tinha uma dama, assaz galante, que ele namorara um ano antes, pessoa que era
livre, e a quem ele proclamara a mais bela das cariocas. No deixou de a ver,
sem algum prazer; o binculo demorou-se ali, e tornou ali, uma, duas, trs, muitas
vezes. Ela, pela sua parte, viu a insistncia e no se zangou. Malvina, que
notou isso de longe, no se sentiu despeitada; achou natural que ele, perdidas
as esperanas, tivesse outros amores.

Um e outro eram sinceros
aproximando-se. Um e outro reconstruam o sonho anterior para repeti-lo. E por
mais que as reminiscncias posteriores viessem salte-lo, ele pensava nela; e
por mais que a imagem do marido surgisse do passado e do tmulo, ela pensava no
outro. Eram como duas pessoas que se olham, separadas por um abismo, e estendem
os braos para se apertarem.

O melhor e mais pronto era que ele
a visitasse; foi o que comeou a fazer  dali a pouco. Malvina reunia todas as
semanas as pessoas de amizade. Duarte foi dos primeiros convidados, e no
faltou nunca. As noites eram agradveis, animadas, posto que ela devesse
repartir-se com os outros. Duarte notava-lhe o que j ficou dito: gostava de
ser admirada; mas desculpou-a dizendo que era um desejo natural s mulheres
bonitas. Verdade  que, na terceira noite, pareceu-lhe que o desejo era
excessivo, e chegava ao ponto de a distrair totalmente. Malvina falava para ter
o pretexto de olhar, voltava a cabea, quando ouvia algum, para circular os
olhos pelos rapazes e homens feitos, que aqui e ali a namoravam. Esta impresso
foi confirmada na quarta noite e na quinta, desconsolou-o bastante.

 Que tolice! disse-lhe a prima,
quando ele lhe falou nisso, afetando indiferena. Malvina olha para mostrar que
no desdenha os seus convidados.

 Vejo que fiz mal em falar a
voc, redargiu ele rindo.

 Por qu?

 Todos os diabos, naturalmente,
defendem-se, continuou Duarte; todas vocs gostam de ser olhadas;  e, quando
no gostam, defendem-se sempre.

 Ento, se  um querer geral, no
h onde escolher, e nesse caso...

Duarte achou a resposta feliz, e
falou de outra coisa. Mas, na outra noite, no achou somente que a viva tinha
esse vcio em grande escala; achou mais. A alegria e expanso das maneiras
trazia uma gota amarga de maledicncia. Malvina mordia, pelo gosto de morder,
sem dio nem interesse. Comeando a freqent-la, nos outros dias, achou-lhe um
riso mal composto, e, principalmente, uma grande dose de ceticismo. A zombaria
nos lbios dela orava pela troa elegante.

Nem parece a mesma disse ele
consigo.

Outra coisa que ele lhe notou,  e
no lhe notaria se no fossem as descobertas anteriores  foi o tom cansado dos
olhos, o que acentuava mais o tom velhaco do olhar. No a queria inocente, como
em 1855; mas parecia-lhe que era mais que sabida, e essa nova descoberta trouxe
ao esprito dele uma feio de aventura, no de obra conjugal. Da em diante,
tudo era achar defeitos; tudo era reparo, lacuna, excesso, mudana.

E, contudo,  certo que ela
trabalhava em reatar sinceramente o vnculo partido. Tinha-o confiado  amiga,
perguntando-lhe esta por que no casava outra vez.

 Para mim h muitos noivos
possveis, respondeu Malvina; mas s chegarei a aceitar um.

  meu conhecido? perguntou a
outra sorrindo.

Malvina levantou os ombros, como
dizendo que no sabia; mas os olhos no acompanhavam os ombros, e a outra leu
neles o que j desconfiava.

 Seja quem for, disse-lhe, o que
 que lhe impede de casar?

 Nada.

 Ento...

Malvina esteve calada alguns
instantes; depois confessou que a pessoa lhe parecia mudada ou esquecida.

 Esquecida, no, acudiu vivamente
a outra.

 Pois s mudada; mas est mudada.

 Mudada...

Na verdade, tambm ela achava
transformao no antigo namorado. No era o mesmo, nem fisicamente nem
moralmente. A tez era agora mais spera; e o bigode da primeira hora estava
trocado por umas barbas sem graa;  o que ela dizia, e no era exato. No 
porque Malvina tivesse na alma uma corda potica ou romntica; ao contrrio, as
cordas eram comuns. Mas tratava-se de um tipo que lhe ficara na cabea, e na
vida dos primeiros anos. Desde que no respondia s feies exatas do primeiro,
era outro homem. Moralmente, achava-o frio, sem arrojo, nem entusiasmo, muito
amigo da poltica, desdenhoso e um pouco aborrecido. No disse nada disto 
amiga; mas era a verdade das suas impresses. Tinham-lhe trocado o primeiro
amor.

Ainda assim, no desistiu de ir
para ele, nem ele para ela; um buscava no outro o esqueleto, ao menos, do
primeiro tipo. No acharam nada. Nem ele era ele, nem ela era ela. Separados,
criavam foras, porque recordavam o quadro anterior, e recompunham a figura
esvada; mas to depressa tornavam a unir-se como reconheciam que o original
no se parecia com o retrato  tinham-lhes mudado as pessoas.

E assim foram passando as semanas
e os meses. A mesma frieza do desencanto tendia a acentuar as lacunas que um
apontava ao outro, e pouco a pouco, cheios de melhor vontade, foram-se
separando. No durou este segundo namoro, ou como melhor nome tenha, mais de
dez meses. No fim deles, estavam ambos despersuadidos de reatar o que fora
roto. No se refazem os homens  e, nesta palavra, esto compreendidas as
mulheres; nem eles nem elas se devolvem ao que foram... Dir-se- que a terra
volta a ser o que era, quando torna a estao melhor; a terra, sim, mas as
plantas, no. Cada uma delas  um Duarte ou uma Malvina.

Ao cabo daquele tempo esfriaram;
seis ou oito meses depois, casaram-se  ela, com um homem que no era mais
bonito, nem mais entusiasta, que o Duarte  ele com outra viva, que tinha as
mesmas caractersticas da primeira. Parece que no ganharam nada; mas ganharam
no casar uma desiluso com outra: eis tudo, e no  pouco.
