Conto, Viagem  roda de mim mesmo, 1885

Viagem  roda de mim mesmo

Texto-fonte:

Obra Completa, de Machado de Assis,
vol. II,

Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1994.

Publicado originalmente em Gazeta
de Notcias, de 04/10/1885.

CAPTULO PRIMEIRO

Quando abri os olhos, era perto de nove horas da manh.
Tinha sonhado que o sol, trajando calo e meia de seda, fazia-me grandes
barretadas, bradando-me que era tempo, que me levantasse, que fosse ter com
Henriqueta e lhe dissesse tudo o que trazia no corao. J l vo vinte e um
anos! Era em 1864, fins de novembro. Contava eu ento vinte e cinco anos de
idade, menos dois que ela. Henriqueta enviuvara em 1862, e, segundo toda a
gente afirmava, jurara a si mesma no passar a segundas
npcias. Eu, que chegara da provncia no meado de julho, bacharel em folha,
vi-a poucas semanas depois, e fiquei logo ardendo por ela.

Tinha o plano feito de despos-la, to certo como trs e
dois serem cinco. No se imagina a minha confiana no futuro. Viera recomendado
a um dos ministros do gabinete Furtado, para algum lugar de magistrado no
interior, e fui bem recebido por ele. Mas a gua da Carioca embriagou-me logo
aos primeiros goles, de tal maneira que resolvi no sair mais da capital.
Encostei-me  janela da vida, com os olhos no rio que corria embaixo, o rio do
tempo, no s para contemplar o curso perene das guas, como  espera de ver
apontar do lado de cima ou de baixo a galera de ouro e sndalo e velas de seda,
que devia levar-me a certa ilha encantada e eterna. Era o que me dizia o
corao.

A galera veio, chamava-se Henriqueta, e no meio das
opinies que dividiam a capital, todos estavam de acordo em que era a senhora
mais bonita daquele ano. Tinha o nico defeito de no querer casar outra vez;
mas isto mesmo era antes um pico, dava maior preo  vitria, que eu no
deixaria de obter, custasse o que custasse, e no custaria nada.

J por esse tempo abrira banca de advogado, com outro, e
morava em uma casa de penso. Durante a sesso legislativa, ia  Cmara dos
Deputados, onde, enquanto me no davam uma pasta de ministro, coisa que sempre
reputei certa, iam-me distribuindo notcias e apertos de mo. Ganhava pouco,
mas no gastava muito; as minhas grandes despesas eram todas imaginativas. O
reino dos sonhos era a minha casa da moeda.

Que Henriqueta estivesse disposta a romper comigo o
juramento de viva, no ouso afirm-lo; mas creio que me tivesse certa
inclinao, que achasse em mim alguma coisa diversa dos demais pretendentes,
diludos na mesma gua de salo. Viu em mim o gnero singelo e exttico. Para
empregar uma figura, que serve a pintar a nossa situao respectiva, era uma
estrela que se deu ao incmodo de descer at  beira do telhado. Bastava-me
trepar ao telhado e traz-la para dentro; mas era justamente o que no acabava
de fazer, esperando que ela descesse por seu p ao peitoril da minha janela.
Orgulho? No, no; acanhamento, acanhamento e apatia. Cheguei ao ponto de crer
que era aquele o costume de todos os astros. Ao menos, o sol no hesitou em
faz-lo naquela clebre manh. Depois de aparecer-me, como digo, de calo e
meia, despiu a roupa, e entrou-me pelo quarto com os raios nus e crus, raios de
novembro, transpirando a vero. Entrou por todas as frestas, cantando
festivamente a mesma litania do sonho: 'Eia, Plcido! acorda! abre-lhe o
corao! levanta-te! levanta-te!'

Levantei-me resoluto, almocei e fui para o escritrio. No
escritrio, seja dito em honra do amor, no minutei nada, arrazoado ou petio,
minutei de cabea um plano de vida nova e magnfica, e, como tivesse a pena na
mo, parecia estar escrevendo, mas na realidade o que fazia eram narizes,
cabeas de porco, frases latinas, jurdicas ou literrias. Pouco antes das trs
retirei-me e fui  casa de Henriqueta.

Henriqueta estava s. Pode ser que ento pensasse em mim,
e at que tivesse idia de negar-se; mas neste caso foi o orgulho que deu
passaporte ao desejo; recusar-me era ter medo, mandou-me entrar. Certo  que
lhe achei uns olhos gelados; o sangue  que talvez no o estivesse tanto,
porque vi sinal dele nas mas do rosto.

Entrei comovido. No era a primeira vez que nos achvamos
a ss, era a segunda; mas a resoluo que levava, agravou as minhas condies.
Quando havia gente  naquela ou noutra casa,  cabia-me o grande recurso, se
no conversvamos, de ficar a olhar para ela, fixo, de longe, em lugar onde os
seus olhos davam sempre comigo. Agora, porm, ramos ss. Henriqueta recebeu-me
muito bem; disse-me estendendo a mo:

 Pensei que me deixasse ir para Petrpolis sem ver-me.

Balbuciei uma desculpa. Na verdade o calor estava apertando,
e era tempo de subir. Quando subia? Respondeu-me que no dia 20 ou 21 de
dezembro, e, a pedido meu, descreveu-me a cidade. Ouvi-a, disse-lhe tambm
alguma coisa, perguntei se ia a certo baile do Engenho Velho; depois veio mais
isto e mais aquilo. O que eu mais temia, eram as pausas; ficava sem saber onde
poria os olhos, e se era eu que reatava a conversao, fazia-o sempre com
estrpito, dando relevo a pequenas coisas estranhas e ridculas, como para
fazer crer que no estivera pensando nela. Henriqueta s vezes tinha-me um ar
enjoado; outras, falava com interesse. Eu, certo da vitria, pensava em ferir a
batalha, principalmente quando ela parecia expansiva; mas, no me atrevia a
marchar. Os minutos voavam; bateram quatro horas, depois quatro e meia.

'Vamos, disse comigo, agora ou nunca'.

Olhei para ela, ela olhava para mim; logo depois, ou
casualmente, ou porque receasse que eu lhe ia dizer alguma coisa e no quisesse
escutar-me, falou-me de no sei que anedota do dia. Abenoada anedota! ncora
dos anjos! Agarrei-me a ela, contente de escapar  minha prpria vontade. Que
era mesmo? L vai; no me recordo o que era; lembro-me que a contei com todas
as variantes, que a analisei, que a corrigi pacientemente, at s cinco horas
da tarde, que foi quando sa de l, aborrecido, irritado, desconsolado...

CAPTULO II

Cranz, citado por Tylor, achou entre os groenlandeses a
opinio de que h no homem duas pessoas iguais, que se separam s vezes, como
acontece durante o sono, em que uma dorme e a outra sai a caar e passear.
Thompson e outros, apontados em Spencer, afirmam ter encontrado a mesma opinio
entre vrios povos e raas diversas. O testemunho egpcio (antigo), segundo
Maspero,  mais complicado; criam os egpcios que h no homem, alm de vrias
almas espirituais, uma totalmente fsica, reproduo das feies e dos
contornos do corpo, um perfeito fac-smile.

No quero vir aos testemunhos da nossa lngua e tradies,
notarei apenas dois: o milagre de Santo Antnio, que, estando a pregar,
interrompeu o sermo, e, sem deixar o plpito, foi a outra cidade salvar o pai
da forca, e aqueles maviosos versos de Cames:

Entre mim mesmo e mim

No sei que se alevantou,

Que to meu imigo sou.

Que tais versos estejam aqui no sentido figurado, 
possvel; mas no h prova de no estarem no sentido natural, e que mim e
mim mesmo no fossem realmente duas pessoas iguais, tangveis, visveis,
uma encarando a outra.

Pela minha parte, alucinao ou realidade, aconteceu-me em
criana um caso desses. Tinha ido ao quintal de um vizinho tirar umas frutas;
meu pai ralhou comigo, e, de noite, na cama, dormindo ou acordado  creio antes
que acordado,  vi diante de mim a minha prpria figura, que me censurava
duramente. Durante alguns dias andei aterrado, e s muito tarde chegava a
conciliar o sono; tudo eram medos. Medos de criana,  verdade, impresses
vivas e passageiras. Dois meses depois, levado pelos mesmos rapazes, conscios
na primeira aventura, senti a alma picada das mesmas esporas, e fui outra vez
s mesmas frutas vizinhas.

Tudo isso acudia-me  memria, quando sa da casa de
Henriqueta, descompondo-me, com um grande desejo de quebrar a minha prpria
cara. Senti-me dois, um que argia, outro que se desculpava. Nomes que eu nem
admito que andem na cabea de outras pessoas a meu respeito, foram ento ditos
e ouvidos, sem maior indignao, na rua e ao jantar. De noite, para
distrair-me, fui ao teatro; mas nos intervalos o duelo era o mesmo, um pouco
menos furioso. No fim da noite, estava reconciliado comigo, mediante a
obrigao que tomei de no deixar Henriqueta ir para Petrpolis, sem
declarar-lhe tudo. Casar com ela ou voltar  provncia.

'Sim, disse a mim mesmo; ela h de pagar-me o que me
fez fazer ao Veiga'.

Veiga era um deputado que morava com outros trs na casa
de penso, e de todos os da legislatura foi o que se me mostrou particularmente
amigo. Estava na oposio, mas prometia que, to depressa casse o ministrio,
faria por mim alguma coisa. Um dia prestou-me generosamente um grande obsquio.
Sabendo que eu andava atrapalhado com certa dvida, mandou-a pagar por portas
travessas. Fui ter com ele, logo que descobri a origem do favor, agradeci-lho
com lgrimas nos olhos, ele meteu o caso  bulha e acabou dizendo que no me
afadigasse em arranjar-lhe o dinheiro; bastava pagar quando ele tivesse de
voltar  provncia, fechadas as cmaras, ou em maio que fosse.

Pouco depois, vi Henriqueta e fiquei logo namorado.
Encontramo-nos algumas vezes. Um dia recebi convite para um sarau, em casa de
terceira pessoa propcia aos meus desejos, e resolvida a fazer o que pudesse,
para ver-nos ligados. Chegou o dia do sarau; mas, de tarde, indo jantar, dei
com uma novidade inesperada: Veiga, que na vspera  noite tivera alguma dor de
cabea e calafrios, amanheceu com febre, que se fez violenta para a tarde. J
era muito, mas aqui vai o pior. Os trs deputados, amigos dele, tinham de ir a
uma reunio poltica, e haviam combinado que eu ficasse com o doente, e mais um
criado, at que eles voltassem, e no seria tarde.

 Voc fica, disseram-me; antes da meia-noite estamos de
volta.

Tentei balbuciar uma desculpa, mas nem a lngua obedeceu 
inteno, nem eles ouviriam nada; j me haviam dado as costas. Mandei-os ao
diabo, eles e os parlamentos; depois de jantar, fui vestir-me para estar
pronto, enfiei um chambre, em vez da casaca, e fui para o quarto do Veiga. Este
ardia em febre; mas, chegando eu  cama, viu ele a gravata branca e o colete, e
disse-me que no fizesse cerimnias, que no era preciso ficar.

 No, no vou.

 V, doutor; o Joo fica; eles voltam cedo.

 Voltam s onze horas.

 Onze que sejam. V, v.

Baloucei entre ir e ficar. O dever atava-me os ps, o amor
abria-me as asas. Olhei durante alguns instantes para o doente, que jazia na
cama, com as plpebras cadas, respirando a custo. Os outros deviam voltar 
meia-noite  eu disse onze horas, mas foi meia-noite que eles mesmos declararam
 e at l entregue a um criado...

 V, doutor.

 J tomou o remdio? perguntei.

 A segunda dose  s nove e meia.

Pus-lhe a mo na testa; era uma brasa. Tomei-lhe o pulso;
era um galope. Enquanto hesitava ainda, concertei-lhe os lenis; depois fui
arranjar algumas coisas no quarto, e afinal tornei ao doente, para dizer que iria,
mas estaria cedo de volta. Abriu apenas metade dos olhos, e respondeu com um
gesto; eu apertei-lhe a mo.

 No h de ser nada, amanh est bom, disse-lhe saindo.

Corri a vestir a casaca, e fui para a casa onde devia
achar a bela Henriqueta. No a achei ainda, chegou quinze minutos depois.

A noite que passei, foi das melhores daquele tempo.
Sensaes, borboletas fugitivas que l ides, pudesse eu recolher-vos todas, e
pregar-vos aqui neste papel para recreio das pessoa que me lem! Veriam todas
que no as houve nunca mais lindas, nem em tanta cpia, nem to vivas e
lpidas. Henriqueta contava mais de um pretendente, mas no sei se fazia com os
outros o que fazia comigo, que era mandar-me um olhar de quando em quando. Amigas dela diziam que a mxima da viva era que os olhares das mulheres, como as
barretadas dos homens, so atos de cortesia, insignificantes; mas atribu
sempre este dito a intriga. Valsou uma s vez, e foi comigo. Pedi-lhe uma
quadrilha, recusou-a, dizendo que preferia conversar. O que dissemos, no sei
bem; l se vo vinte e um anos; lembro-me s que falei menos que ela, que a
maior parte do tempo deixei-me estar encostado, a ver cair-lhe da boca uma
torrente de coisas divinas... Lembrei-me duas vezes do Veiga, mas, de
propsito, no consultei o relgio, com medo.

 Voc est completamente tonto, disse-me um amigo.

Creio que sorri, ou dei de ombros, fiz qualquer coisa, mas
no disse nada, porque era verdade que estava tonto e tontssimo. S dei por
mim, quando ouvi bater a portinhola do carro de Henriqueta. Os cavalos trotaram
logo; eu, que estava  porta, puxei o relgio para ver as horas, eram duas.
Tive um calafrio, ao pensar no doente. Corri a buscar a capa, e voei para casa,
aflito, receando algum desastre. Andando, no evitava que o perfil de
Henriqueta viesse interpor-se entre mim e ele, e uma idia corrigia outra.
Ento, sem o sentir, afrouxava o passo, e dava por mim ao p dela ou aos ps
dela.

Cheguei  casa, corri ao quarto do Veiga; achei-o mal. Um
dos trs deputados velava, enquanto os outros tinham ido tomar algum repouso.
Haviam regressado da reunio antes de uma hora, e acharam o enfermo delirante.
O criado adormecera. No sabiam quanto tempo ficara o doente abandonado; tinham
mandado chamar o mdico.

Ouvi calado e vexado. Fui despir-me para velar o resto da
noite. No quarto, a ss comigo, chamei-me ingrato e tolo; deixara um amigo
lutando com a doena, para correr atrs de uns belos olhos que podiam esperar.
Ca na poltrona; no me dividi fisicamente, como me parecera em criana; mas
moralmente desdobrei-me em dois, um que imprecava, outro que gemia. No fim de
alguns minutos, fui despir-me e passei ao quarto do enfermo, onde fiquei at de
manh.

Pois bem; no foi ainda isto que me deixou um vinco de
ressentimento contra Henriqueta; foi a repetio do caso. Quatro dias depois
tive de ir a um jantar, a que ela ia tambm. Jantar no  baile, disse comigo;
vou e volto cedo. Fui e voltei tarde, muito tarde. Um dos deputados disse-me,
quando sa, que talvez achasse o colega morto: era a opinio do mdico
assistente. Redargi vivamente que no: era o sentimento de outros mdicos
consultados.

Voltei tarde, repito. No foram os manjares, posto que
preciosos, nem os vinhos, dignos de Horcio; foi ela, to-s ela. No senti as
horas, no senti nada. Quando cheguei  casa era perto de meia-noite. Veiga no
morrera, estava salvo de perigo; mas entrei to envergonhado que simulei uma
doena, e meti-me na cama. Dormi tarde, e mal, muito mal.

CAPTULO III

Agora no devia acontecer-me o mesmo. V que, em criana,
corresse duas vezes s frutas do vizinho; mas a repetio do caso do Veiga era
intolervel, e a deste outro seria ridcula.

Tive idia de escrever uma carta, longa ou breve,
pedindo-lhe a mo. Cheguei a pr a pena no papel e a comear alguns rascunhos.
Vi que era fraqueza e determinei ir em pessoa; pode ser tambm que esta
resoluo fosse um sofisma, para escapar s lacunas da carta. Era de noite;
marquei o dia seguinte. Sa de casa e andei muito, pensando e imaginando,
voltei com as pernas modas e dormi como um ambicioso.

De manh, pensei ainda no caso, compus de cabea a
cerimnia do casamento, pomposa e rara, chegando ao ponto de transformar tudo o
que estava em volta de mim. Fiz do trivial e desbotado quarto de penso um rico
boudoir, com ela dentro, falando-me da eternidade.

 Plcido!

 Henriqueta!

De noite  que fui  casa dela. No digo que as horas
andaram vagarosssimas, nesse dia, porque  a regra delas quando as nossas
esperanas abotoam. Batalhei de cabea contra Henriqueta; e assim como por esse
tempo,  espera que me fizessem deputado, desempenhei mentalmente um grande
papel poltico, assim tambm subjuguei a dama, que me entregou toda a sua vida
e pessoa. Sobre o jantar, peguei casualmente nos Trs Mosqueteiros, li
cinco ou seis captulos que me fizeram bem, e me abarrotaram de idias
petulantes, como outras tantas pedras preciosas em torno deste medalho
central: as mulheres pertencem ao mais atrevido. Respirei afoito, e marchei.

Henriqueta ia sair, mas mandou-me entrar, por alguns
instantes. Vestida de preto, sem mantelete ou capa, com o simples busto liso e
redondo, e o toucado especial dela, que era uma combinao da moda com a sua
prpria inveno, no tenho dvida em dizer que me desvairou.

 Vou  casa de minhas primas, que chegaram de S. Paulo,
disse-me ela. Sente-se um pouco. No foi ontem ao teatro?

Disse-lhe que no, depois emendei que sim, porque era
verdade. Agora que a coisa l vai, penso que no sorriu, mas na ocasio
pareceu-me o contrrio, e fiquei vexado. Disse-me que no tinha ido ao teatro
por estar de enxaqueca, terrvel molstia que me explicou compondo as
pulseiras, e corrigindo a posio do relgio na cintura. Reclinada na poltrona,
com um incio de p  mostra, parecia pedir algum ajoelhado; foi a idia que
tive, e que varri da cabea, por grotesca. No; bastava-me o olhar e a palavra.
Nem sempre o olhar seria bastante, acanhava-se s vezes, outras no sabia onde
pousasse; mas a palavra romperia tudo.

Entretanto, Henriqueta ia falando e sorrindo. Umas vezes
parecia-me compartir a minha crise moral, e a expresso dos olhos era boa.
Outras via-lhe a ponta da orelha do desdm e do enfado. O corao batia-me;
tremiam-me os dedos. Evocava as minhas idias petulantes, e elas vinham todas,
mas no desciam ao corao, deixavam-se estar no crebro, paradas,
cochilando...

De repente calamo-nos, no sei se por trs, cinco ou dez
minutos; lembro-me s, que Henriqueta consultou o relgio; compreendi que era
tempo de sair, e pedi-lhe licena. Ela levantou-se logo e estendeu-me a mo.
Recebi-a, olhei para ela com a inteno de dizer alguma coisa; mas achei-lhe os
olhos to irados ou to aborrecidos, no sei bem, l vo muitos anos...

Sa. Chegando ao saguo, dei com o chapu um golpe no ar,
e chamei-me um nome feio, to feio que o no ponho aqui. A carruagem estava 
porta; fui colocar-me  distncia para v-la entrar. No esperei muito tempo.
Desceu, parou  porta um instante, entrou, e o carro seguiu. Fiquei sem saber
de mim, e pus-me a andar. Uma hora depois, ou pouco menos, encontrei um amigo,
colega do foro, que ia para casa; fomos andando, mas ao cabo de dez minutos:

 Voc est preocupado, disse ele. Que tem?

 Perdi uma causa.

 No foi pior que a minha. J lhe contei o inventrio do
Matos?

Contou-me o inventrio do Matos, sem poupar nada,
peties, avaliaes, embargos, rplicas, trplicas e a sentena final, uma
sentena absurda e inqua. Eu, enquanto ele falava, ia pensando na bela
Henriqueta. Tinha-a perdido pela segunda vez; e ento lembrei-me do caso do
Veiga, em que os meus planos falharam de igual modo, e o das frutas, em pequeno. Ao pensar nas frutas, pensei tambm no misterioso desdobramento de mim mesmo, e tive
uma alucinao.

Sim, senhor,  verdade; pareceu-me que o colega que ia
comigo era a minha mesma pessoa, que me punha as mos  cara, irritado, e me
repetia o improprio do saguo, que no escrevi nem escrevo. Parei assustado, e
vi que me enganara. E logo ouvi rir no ar, e levantei a cabea: eram as
estrelas, contempladoras remotas da vida, que se riam dos meus planos e
iluses, com tal fora, que cuido arrebentaram os colchetes, enquanto o meu
colega ia concluindo furioso o negcio do inventrio do Matos:

 ...um escndalo!
