Crtica, crtica variada no Dirio do Rio Janeiro, 1862

Compndio da Gramtica Portuguesa,
por Vergueiro e Pertence.   memria de Pedro V, por Castilhos, Antnio
e Jos  Memria acerca da 2 gloga de Virglio, por Castilho Jos 
Me, drama do sr. conselheiro Jos de Alencar.  Desgosto pela poltica.

Texto-Fonte:

Crtica Literria de Machado de Assis,

Rio
de Janeiro: W. M. Jackson, 1938.

Publicado
originalmente no Dirio do Rio de Janeiro, 22/02/1862.

Ser alguma vez tarde para falar de uma
obra til? Tenho que no, e se o pblico  do mesmo parecer, certamente me
desculpar, julgando, como eu, que ainda no  tarde para falar do Compndio
da Gramtica Portuguesa dos Srs. Pertence e Vergueiro.

Sou dos menos competentes para avaliar
pelo justo e pelo mido a importncia e superioridade de uma gramtica. Esta
franqueza no me tolhe de escrever as impresses recebidas por alto, e
habilita-me a no dar conta da pobreza e nudez de minha frase.

Sempre achei que uma gramtica  uma
coisa muito sria. Uma boa gramtica  um alto servio a uma lngua e a um
pas. Se essa lngua  a nossa, e o pas  este em que vivemos, o servio
cresce ainda e a empresa torna-se mais difcil. Quando se consegue o resultado
alcanado pelos Srs. Pertence e Vergueiro tem-se dado material para a estima e
a admirao dos concidados.

H na gramtica dos Srs. Pertence e
Vergueiro aquilo que  necessrio s obras desta natureza, destinadas a
estabelecer no esprito do aluno as regras e as bases, sobre as quais se tem de
assentar a sua cincia filolgica: o mtodo do plano e a limpidez e conciso
das definies.

Metdico no plano e claro na definio,
no sei que hajam outros requisitos a desejar no autor de uma gramtica, a no
ser o conhecimento profundo da lngua que fala, e esse, pela parte do Sr. Dr.
Pertence, a quem conheo,  dos mais raros e incontestados.

Na anlise sinttica, principalmente, os
autores do Compndio trataram com minuciosidade todas as questes,
expuseram todas as regras, esclareceram todas as dvidas, com uma preciso e
uma autoridade raras em tais livros.

Julgo que o mrito do Compndio
est pedindo a sua adoo imediata nas escolas; vulgariza preceitos de
transcendente importncia, e que, pelo tom do escrito, acham-se ao alcance das
inteligncias menos esclarecidas.

* * *

Aproveito a ocasio, e tocarei em
algumas obras ultimamente publicadas. Cai-me debaixo dos olhos o Monumento,
que,  memria de El-rei D. Pedro V, ergueram os Srs. Castilhos, Antnio e
Jos.

Abre esta brochura por uma pea potica
do Sr. Castilho Antnio. No h ningum que no conhea essa composio que
excitou pomposos e entusisticos elogios. Antes de conhecer esses versos ouvi
eu que nestes ltimos tempos era a melhor composio do autor da Noite do
Castelo. A leitura da poesia ps-me em divergncia com esta opinio.

Como obra de metrificao, acredito que
h razo para os que aplaudem com fogo a nova poesia do autor das Cartas de
Eco, e nem  isso de admirar da parte do poeta.  realmente um grande
artista da palavra, conhecedor profundo da lngua que fala e que honra, um
edificador que sabe mover os vocbulos e coloc-los e arred-los com arte, com
o que tem enriquecido a galeria literria da lngua portuguesa.

Na poesia de D. Pedro V esse mrito
sobressai e admira-se sinceramente muitas belezas de forma, agregados com arte,
bem que por vezes venham marear a obra lugares comuns desta ordem:

C tudo  fausto e slido;

Cada hora  de anos mil;

De idade a idade, medra-nos

Sempre mais verde abril.

No h na parte da metrificao muito
que dizer, mas falta  poesia do Sr. Castilho Antnio o alento potico, a
espontaneidade, a alma, a poesia, enfim. O pensamento em geral  pobre e
procurado, e na primeira parte da poesia, a das quadras esdrxulas, a custo
encontramos uma ou outra idia realmente bela como esta:

Limpa o suor da prpura

Ao fnebre lenol;

Vai receber a fria;

Descansa;  posto o sol.

Nem s o pensamento  pobre, como s
vezes pouco admissvel, sob o duplo ponto de vista potico e religioso. A
descrio do paraso feita pela alma do prncipe irmo parece mais um captulo
das promessas maomticas do que uma pgina crist.

Creio eu que a idia crist do paraso
celeste  alguma coisa mais espiritual e mstica do que a que se nos d nas
estrofes a que me refiro. No supe por certo um poeta cristo que o Criador de
todas as coisas nos acene com salas de ouro e prfiro, tetos azuis,
tripdios entre prados feiticeiros, colunas e selvas umbrferas e outros
deleites de significao toda terrena e material.

Se descrevendo os gozos futuros por este
modo quis o poeta excitar as imaginaes, adquiriu direito somente s adoraes
daqueles filhos do Coro a quem o profeta acenou com os mesmos deleites e os
mesmos repousos. Em nome da poesia e em nome da religio, o autor de Cimes
do Bardo devia lisonjear menos os instintos e as sensualidades humanas e
pr no seu verso alguma coisa de mais apuro e de mais elevado.

H ainda na primeira parte da poesia
certas imagens singulares e de menos apurado gosto potico.

Tal  por exemplo esta:

Onde, entre as frescas rvores

Da vida e da cincia,

Nos rulha a pomba mstica

Ternuras e inocncia.

Ou esta outra:

E foi, entre os hericos,

Teus dons fascinadores,

Como um argnteo lrio

Em vasos de mil flores.

A segunda parte da poesia  escrita em
verso alexandrino.

Aqui a forma cresceu de formosura e de
arte, e porventura o pensamento apareceu menos original.

O verso prestava-se e o poeta  nele
eminente e nico. O alexandrino  formosssimo, mas escabroso e difcil de
tornar-se harmonioso, talvez porque no est geralmente adotado e empregado
pelos poetas da lngua portuguesa.

O autor das Cartas de Eco vence
todas essas dificuldades dando-lhe admirvel elasticidade e harmonia.

Esta estrofe merece ser citada, entre
outras como exemplo de poesia:

Quem, entre to geral, to msera
orfandade,

Se atreve a mendigar, em nome da
saudade,

Um frio monumento, um bronze inerte e
vo!

Temem deslembre um pai? Que pedra iguala
a histria?

Um colosso caduco  smbolo da glria?

Se a pirmide assombra, os Faras quem
so?

Acompanham esta poesia algumas estrofes;
umas, a D. Fernando, outras, ao rei atual. As primeiras, duas apenas, esto bem
rimadas, mas trazem a mesma indigncia de pensamento que fiz notar na primeira
parte da poesia a D. Pedro V. As segundas, sobre serem bem metrificadas e
harmoniosas, respiram alguma poesia, e esto adequadamente escritas para
saudarem um reinado.

O que ali vai escrito so rpidas
impresses retidas para o papel sem ordem, nem pretenso a crtica. Se me
estendi na meno daquilo que chamo defeitos da poesia do Sr. Castilho Antnio,
mestre na literatura portuguesa,  porque podem induzir em erro os que forem
buscar lies nas suas obras;  comum aos discpulos tirarem aos mestres o mau
de envolta com o bom, como ouro que se extrai de envolta com terra.

A parte do livro que pertence ao Sr.
Castilho Jos  uma biografia do rei falecido. Louvando o ponto de vista
patritico e a firmeza do juzo do bigrafo, quisera eu que, em estilo mais
simples, menos amaneirado, nos fosse contada a vida do rei. Estou certo de que
seria mais apreciada. Entretanto deu-nos o Sr. Castilho Jos mais uma ocasio
de apreciar os conhecimentos profundos da lngua que possui.

* * *

Outro trabalho do Sr. Castilho Jos 
uma Memria publicada h dias, para provar que no havia em Virglio
hbitos pederastas. A Memria  escrita com erudio e proficincia; o
Sr. Castilho Jos  induzido a negar a crena geral por ser a 2 gloga do Mantuano
uma imitao de Tecrito, por nada ter de pessoal e por parecer uma alegoria,
personificando Cridon o gnio da poesia e Alexis a mocidade.

Diante desta questo confesso-me
incompetente; todavia h uma observao ligeira a fazer ao Sr. Castilho Jos. O
confronto entre Tecrito e Virglio no leva a concluir do modo por que o Sr.
Castilho Jos conclui. Tecrito trata do amor entre Polifemo e Galatia, e
Virglio deplora os desdns de Alexis por Cridon. Isto parece antes provar que
Tecrito estava limpo dos defeitos que a gloga virgiliana acusa.

O trabalho do Sr. Castilho Jos, no
ponto de vista moral e de investigao, tem um certo e real valor.

* * *

Acaba de publicar-se o drama do sr.
conselheiro Jos de Alencar intitulado Me, j representado no teatro
Ginsio.

Por este meio est facilitada a
apreciao, a frio e no gabinete, das incontestveis belezas dessa composio.
O autor das Asas de um anjo  um dos que melhor renem os requisitos
necessrios a um autor dramtico.

Ponho ponto final a estas ligeiras
apreciaes, desejando que outras obras vo aparecendo e distraindo a apatia
pblica.

* * *

Hoje  necessrio que alguma coisa assim
satisfaa e entretenha o esprito pblico, desgostoso e enjoado com as misrias
polticas de que nos do espetculo os homens que a aura da fortuna, ou o mau
gnio das naes, colocou na direo, patente ou clandestina, das coisas do
pas.

Causa tdio ver como se caluniam os
caracteres, como se deturpam as opinies, como se invertem as idias, a favor
de interesses transitrios e materiais, e da excluso de toda a opinio que no
comunga com a dominante. Para este resultado nem os mais altos escapam, e 
tecendo defesas gratuitas ao prncipe que se procura provar a m f alheia e os
prprios fervores.

Nem fazem rir como D. Quixote, porque o
namorado de Dulcinia, investindo para os moinhos de vento, nem armava 
recompensa, nem queria medir amor por lanadas. Tinha a boa f da sua mania, e
a sinceridade do seu ridculo. Estes no.


