ROMANCE, Casa Velha,1885

Carta  Redao da Imprensa Acadmica

Texto-fonte:

Obra Completa, Machado de Assis,

Rio de Janeiro: Nova Aguilar, V.III, 1994.

Publicado originalmente na Imprensa
  acadmica, Rio de Janeiro, 28/08/1864.

Corte,
  21 ago. 1864.

Meus
  bons amigos: -- Um cantinho em vosso jornal para responder duas palavras ao Sr.
  Slvio-Silvis, folhetinista do Correio Paulistano, a respeito da minha
  comdia o Caminho da Porta.

No
   uma questo da susceptibilidade literria,  uma questo de probidade.

Est
  longe de mim a inteno de estranhar a liberdade da crtica, e ainda menos a de
  atribuir  minha comdia um merecimento de tal ordem que se lhe no possam
  fazer duas observaes. Pelo contrrio eu no ligo ao Caminho da Porta outro valor mais que o de um trabalho rapidamente escrito, como um ensaio para
  entrar no teatro.

Sendo
  assim, no me proponho a provar que haja na minha comdia -- verdade, razo e
    sentimento, cumprindo-me apenas declarar que eu no tive em vista comover
  os espectadores, como no pretendeu faz-lo, salva a comparao, o autor da Escola
    das Mulheres.

Tampouco
  me ocuparei com a deplorvel confuso que o Sr. Slvio-Silvis faz entre a verdade e a verossimilhana; dizendo: 'Verdade no tem a pea que at 
    inverossmil.' -- Boileau, autor de uma arte potica que eu recomendo 
  ateno do Slvio-Silvis, escreveu esta regra: Le vrai peut quelquefois
    n'tre pas vraisemblable.

O
  que me obriga a tomar a pena  a insinuao do furto literrio, que me
  parece fazer o Sr. Slvio-Silvis, censura sria que no pode ser feita sem que
  se aduzam provas. Que a minha pea tenha uma fisionomia comum a muitas outras
  do mesmo gnero, e que, sob este ponto de vista, no possa pretender uma
  originalidade perfeita, isso acredito eu; mas que eu tenha copiado e assinado
  uma obra alheia, eis o que eu contesto e nego redondamente.

Se,
  por efeito de uma nova confuso, to deplorvel como a outra, o Sr.
  Slvio-Silvis chama furto  circunstncia a que aludi acima, fica o dito por
  no dito, sem que eu agradea a novidade. Quintino Bocaiva, com a sua frase
  culta e elevada, j me havia escrito: 'As tuas duas peas, modeladas ao
    gosto dos provrbios franceses, no revelam mais do que a maravilhosa
  aptido do teu esprito, a prpria riqueza do teu estilo.' E em outro
  lugar: 'O que te peo  que apresentes neste mesmo gnero algum trabalho
  mais srio, mais novo, mais original, mais completo."


  de crer que o Sr. Slvio-Silvis se explique cabalmente no prximo folhetim.

Se
  eu insisto nesta exigncia no  para me justificar perante os meus amigos,
  pessoais ou literrios, porque esses, com certeza, julgam-me incapaz de
  uma m ao literria. No  tambm para desarmar alguns inimigos que tenha
  aqui, apesar de muito obscuro, porque eu me importo mediocremente com o juzo
  desses senhores.

Insisto em considerao ao pblico em geral.

No
  terminarei sem deixar consignado todo o meu reconhecimento pelo agasalho que a
  minha pea obteve da parte dos distintos acadmicos e do pblico
  paulistano. Folgo de ver nos aplausos dos primeiros uma animao
  dos soldados da pena aos ensaios do recruta inexperiente.

Nesse
  conceito de aplausos lisonjeia-me ver figurar a Imprensa Acadmica e,
  com ela, um dos seus mais amenos e talentosos folhetinistas.

Reitero,
  meus bons amigos, os protestos da minha estima e admirao.

Machado de Assis.
