Poesia, Poesias dispersas, 1855-1939

Poesias dispersas

Textos-fonte:

Obra Completa, Machado de Assis, vol.
III,

Nova Aguilar, Rio de
Janeiro, 1994.

Toda poesia de Machado
de Assis.
Org. de Cludio Murilo Leal.

Rio de Janeiro: Editora
Record, 2008.

NDICE

A
PALMEIRA

ELA

TEU
CANTO

UM
ANJO

MINHA
MUSA

COGNAC!...

MINHA
ME

O SOF

VAI-TE

LVARES D'AZEVEDO

REFLEXO

A MORTE NO CALVRIO

UMA FLOR?  UMA
LGRIMA

CONDO

A
AUGUSTA

SONETO CIRCULAR

CARO

CORAO PERDIDO

FASCINAO

O CASAMENTO DO DIABO

HINO PATRITICO

A CLERA DO IMPRIO

DAQUI DESTE MBITO ESTREITO

A FRANCISCO PINHEIRO GUIMARES

 MEMRIA DO ATOR TASSO

NO LBUM DO SR. QUINTELA

VERSOS

SONETO

NAQUELE ETERNO AZUL, ONDE COEMA

DAI  OBRA DE MARTA UM POUCO DE MARIA

RELQUIA NTIMA

A DERRADEIRA
INJRIA

REFUS

ENTRA CANTANDO, ENTRA CANTANDO, APOLO!

A
GUIOMAR

PRLOGO DO INTERMEZZO

A
CAROLINA

SONETO

A
FRANCISCA


ILMA. SRA. D. P. J. A.

A SAUDADE

JLIA

MEU ANJO

UM SORRISO

PARDIA

A
SAUDADE

NO LBUM DO SR. F. G.
  BRAGA

A
UMA MENINA

O GNIO
ADORMECIDO

O PROFETA

O PO
DACAR

SONETO A
S. M. O IMPERADOR, O SENHOR D. PEDRO II

 MADAME
ARSNE CHARTON DEMEUR

O MEU
VIVER

DORMIR
NO CAMPO

CONSUMMATUM
EST!

SAUDADES

LGRIMAS

NO?

RESIGNAO

AMANH

A***

DEUS
EM TI

ESTA
NOITE

VEM!

ESPERANA

A
MISSO DO POETA

O
PROGRESSO

 ITLIA

A UM
POETA

A
PARTIDA

A
REDENO

S.
HELENA

NUNCA
MAIS

A
CH. F. FILHO DE UM PROSCRITO

OFLIA

A
ESTRELA DA TARDE

A UM
PROSCRITO

SONHOS

UM
NOME

TRAVESSA


D. GABRIELA DA CUNHA

MEUS VERSOS

 MME. DE LA
GRANGE

SOUVENIRS
DEXIL

A S. M. I.

AO
CARNAVAL DE 1860

NO
LBUM DA ARTISTA LUDONIVA MOUTINHO

GABRIELA
DA CUNHA

ESTNCIAS
NUPCIAIS

EM
HOMENAGEM  D. ISABEL E AO CONDE DEU

NO
CASAMENTO DA PRINCESA ISABEL

CALA-TE,
AMOR DE ME

TRISTEZA

O
PRIMEIRO BEIJO

A
F. X. NOVAIS

ONTEM,
HOJE, AMANH

26
DE OUTUBRO

AS NUFRAGAS

AO
DR. XAVIER DA SILVEIRA

13
DE MAIO

SONETO

RICARDO

VELHO
TEMA

POR
ORA SOU PEQUENINA

CSAR!
FULGE MAIS LUZ

NO
H PENSAMENTO RARO

VIVA
O DIA 11 DE JUNHO

VOULEZ-VOUS DU
FRANAIS?

A PALMEIRA [1]

RJ, 6 jan. 1855

O.D.C.

A FRANCISCO GONALVES
BRAGA

Como  linda e
verdejante

Esta palmeira gigante

Que se eleva sobre o
monte!

Como seus galhos
frondosos

Selevam to
majestosos

Quase a tocar no
horizonte!

 palmeira, eu te
sado,

 tronco valente e
mudo,

Da natureza expresso!

Aqui te venho ofertar

Triste canto, que
soltar

Vai meu triste
corao.

Sim, bem triste, que
pendida

Tenho a fronte
amortecida,

Do pesar acabrunhada!

Sofro os rigores da
sorte,

Das desgraas a mais
forte

Nesta vida amargurada!

Como tu amas a terra

Que tua raiz encerra,

Com profunda
discrio;

Tambm amei da donzela

Sua imagem meiga e
bela,

Que alentava o
corao.

Como ao brilho
purpurino

Do crepsclo matutino

Da manh o doce albor;

Tambm amei com
loucura

Essalma toda ternura

Dei-lhe todo o meu
amor!

Amei!... mas negra
traio

Perverteu o corao

Dessa imagem da
candura!

Sofri ento dor cruel,

Sorvi da desgraa o
fel,

Sorvi tragos
damargura!

........................................

Adeus, palmeira! ao
cantor

Guarda o segredo de
amor;

Sim, cala os segredos
meus!

No reveles o meu
canto,

Esconde em ti o meu
pranto

Adeus,  palmeira!...
adeus!

ELA [2]

Nunca vi,  no sei se
existe

Uma deidade to bela,

Que tenha uns olhos
brilhantes

Como so os olhos
dela!

F. G. BRAGA

Seus olhos que brilham
tanto,

Que prendem to doce
encanto,

Que prendem um casto
amor

Onde com rara beleza,

Se esmerou a natureza

Com meiguice e com
primor.

Suas faces purpurinas

De rubras cores
divinas

De mago brilho e
condo;

Meigas faces que
harmonia

Inspira em doce poesia

Ao meu terno corao!

Sua boca meiga e
breve,

Onde um sorriso de
leve

Com doura se desliza,

Ornando purprea cor,

Celestes lbios de
amor

Que com neve se
harmoniza.

Com sua boca mimosa

Solta voz harmoniosa

Que inspira ardente
paixo,

Dos lbios de Querubim

Eu quisera ouvir um 
sim 

Pra alvio do
corao!

Vem,  anjo de
candura,

Fazer a dita, a
ventura

De minhalma, sem
vigor;

Donzela, vem dar-lhe
alento,

Faz-lhe gozar teu
portento,

D-lhe um suspiro de
amor!

TEU CANTO [3]

29 jun. 1855

A UMA ITALIANA

 sempre nos teus
cantos sonorosos

Que eu bebo
inspirao.

DO AUTOR [Meu Anjo.]

Tu s to sublime

Qual rosa entre as
flores

De odores

Suaves;

Teu canto  sonoro

Que excede ao encanto

Do canto

Das aves.

Eu sinto nestalma,

Num meigo transporte,

Meu forte

Dulor;

Se soltas teu canto

Que o peito me abala,

Que fala

De amor.

Se soltas as vozes

Que podem  calma,

Minhalma

Volver;

Minhalma se enleva

Num gozo expansivo

De vivo

Prazer.

Donzela, esta vida

Se eu tanto pudera,

Quisera

Te dar;

Se um beijo eu pudesse

Ardente e fugace

Na face

Pousar.

UM ANJO [4]

RJ, out. 1855

 MEMRIA DE MINHA
IRM

Se deixou da vida o
porto

Teve outra vida nos
cus.

A. E. ZALUAR

Foste a rosa
desfolhada

Na urna da eternidade,

Pra sorrir mais
animada,

Mais bela, mais
perfumada

L na etrea
imensidade.

Rasgaste o manto da
vida,

E anjo subiste ao cu

Como a flor
enlanguecida

Que o vento p-la
cada

E pouco a pouco
morreu!

Tualma foi um perfume

Erguido ao slio
divino;

Levada ao celeste cume

Cos Anjos oraste ao
Nume

Nas harmonias dum
hino.

Alheia ao mundo
devasso,

Passaste a vida
sorrindo;

Derribou-te,  ave, um
brao,

Mas abrindo asas no
espao

Ao cu voaste, anjo
lindo.

Esse invlucro mundano

Trocaste por outro
vu;

Deste negro pego
insano

No sofreste o menor
dano

Que tualma era do
Cu.

Foste a rosa
desfolhada

Na urna da eternidade

Pra sorrir mais
animada

Mais bela, mais
perfumada

L na etrea
imensidade.

MINHA MUSA [5]

RJ, 22 fev. 1856

A Musa, que inspira
meus tmidos cantos,

 doce e risonha, se
amor lhe sorri;

 grave e saudosa, se
brotam-lhe os prantos.

Saudades carpindo, que
sinto por ti.

A Musa, que inspira-me
os versos nascidos

De mgoas que sinto no
peito a pungir,

Sufoca-me os tristes e
longos gemidos,

Que as dores que
oculto me fazem trair.

A Musa, que inspira-me
os cantos de prece,

Que nascem-me dalma,
que envio ao Senhor.

Desperta-me a crena,
que s vezes dormece

Ao ltimo arranco de
espranas de amor.

A Musa, que o ramo das
glrias enlaa,

Da terra gigante  meu
bero infantil,

De afetos um nome na
idia me traa,

Que o eco no peito
repete:  Brasil!

A Musa, que inspira
meus cantos  livre,

Detesta os preceitos
da vil opresso,

O ardor, a coragem do
heri l do Tibre,

Na lira engrandece,
dizendo:  Cato!

O aroma de esprana,
que nalma recende,

 ela que aspira, no
clix da flor;

 ela que o estro na
fronte me acende,

A Musa que inspira
meus versos de amor!

COGNAC!... [6]

Vem, meu Cognac, meu
licor damores!...

 longo o sono teu
dentro do frasco;

Do teu ardor a
inspirao brotando

O crebro
incendeia!...

Da vida a insipidez
gostoso adoas;

Mais val um trago teu
que mil grandezas;

Suave distrao  da
vida esmalte,

Quem h que
te no ame?

Tomado com o caf em
fresca tarde

Derramas tanto ardor
pelas entranhas,

Que o j provecto
renascer-lhe sente

Da mocidade
o fogo!

Cognac! 
inspirador de ledos sonhos,

Excitante licor  de
amor ardente!

Uma tua garrafa e o Dom
Quixote,


passatempo amvel!

Que poeta que sou com
teu auxlio!

Somente um trago teu
minspira um verso;

O copo cheio o mais
sonoro canto;

Todo o
frasco um poema!

MINHA ME [7]

(Imitao de Cowper)

Quanto eu, pobre de
mim! quanto eu quisera

Viver feliz com minha
me tambm!

C. A. DE S

Quem foi que o bero
me embalou da infncia

Entre as douras que
do empreo vm?

E nos beijos de clica
fragrncia

Velou meu puro sono?
Minha me!

Se devo ter no peito
uma lembrana

 dela que os meus
sonhos de criana

Dourou:  
minha me!

Quem foi que no entoar
canes mimosas

Cheia de um terno amor
 anjo do bem

Minha fronte infantil
 encheu de rosas

De mimosos sorrisos? 
Minha me!

Se dentro do meu peito
macilento

O fogo da saudade me
arde lento

 dela:
minha me.

Qual anjo que as mos
me uniu outrora

E as rezas me ensinou
que da alma vm?

E a imagem me mostrou
que o mundo adora,

E ensinou a ador-la?
 Minha me!

No devemos ns crer
num puro riso

Desse anjo gentil do
paraso

Que
chama-se uma me?

Por ela rezarei
eternamente

Que ela reza por mim
no cu tambm;

Nas santas rezas do
meu peito ardente

Repetirei um nome: 
minha me!

Se devem louros ter
meus cantos dalma

Oh! do porvir eu
trocaria a palma

 Para ter minha
me!

O SOF [8]

Oh! Como  suave os
olhos

Sentir de gozo cerrar,

Sobre um sof
reclinado

Lindos sonhos a
sonhar,

Sentindo de uns lbios
danjo

Um medroso murmurar!

Um sof! Mais belo
smbolo

Da preguia outro no
h...

Ai, que belas
entrevistas

No se do sobre um
sof,

E que de beijos
ardentes

Muita boca a no d!

Um sof! Estas
violetas

Murchas, secas como
esto

Sobre o seu sof
mimoso,

Cheirosas, vivas
ento,

Achei um dia perdidas,

Perdidas: por que
razo!

Talvez ardente
entrevista

Toda paixo, toda amor

Fizesse ali
esquec-las...

Quem no sabe? sem
vigor

Estas flores s
recordam

Um passado encantador!

Um sof! Ameno stio

Para colher um trofu,

Para cingir duas
frontes

De amor num mstico
vu,

E entre beijos
vaporosos

Da terra fazer um cu!

Um sof! Mais belo
smbolo

Da preguia outro no
h...

Ai, que belas
entrevistas

No se do sobre um
sof,

E que de beijos
ardentes

Muita boca a no d!

VAI-TE [9]

1 jan. 1858

Por que voltaste?
Esquecidos

Meus sonhos, e meus
amores

Frios, plidos
morreram

Em meu peito. Aquelas
flores

Da grinalda da ventura

To de lgrimas
regada,

Nesta fronte
apaixonada

Cingida por tua mo,

Secaram, mortas esto.

Pobre plida grinalda!

Faltou-lhe um orvalho
eterno

De teu belo corao.

Foi de curta durao

Teu amor: no
compreendeste

Quanto amor esta alma
tinha...

Vai, leviana
andorinha,

A outro clima, outro
cu:

Meu corao? J morreu

Para ti e teus amores,

E no pode amar-te 
vai!

O hino das minhas
dores

Dir-to- a brisa, 
noite,

Num terno, saudoso 
ai 

Vai-te  e possa a asa
do vento

Que pelas selvas
murmura,

Da grinalda da ventura

Que em mim outrora
cingiste,

Inda um perfume
levar-te,

Morta assim: como um
remorso

Do teu olvido... eu
amar-te?

No, no posso;
esquece, parte;

Eu no posso
amar-te... vai!

LVARES D'AZEVEDO [10]

AO SR. DR. M. A.
D'ALMEIDA

Vejo em fnebre
cipreste

Transformada a ovante
palma!

PORTO ALEGRE.

Morrer, de vida
transbordando ainda,

Como uma flor que
ardente calma abrasa!

guia sublime das
canes eternas:

Quem no teu vo
espedaou-te a asa?

Quem nessa fronte que
animava o gnio,

A rosa desfolhou da
vida tua?

Onde o teu vulto
gigantesco? Apenas

Resta uma ossada
solitria e nua!

E contudo essa vida
era abundante!

E as esperanas e
iluses to belas!

E no porvir te
preparava a ptria

Da glria as palmas e
gentis capelas!

Sim, um sol de fecunda
inteligncia

Sobre essa fronte
plida brilhava,

Que  face deste
sculo de indstria

Tantos raios ardentes
derramava!

E pde a morte
destruir-te a vida!

E dar  tumba a tua
fronte ardente!

Pobre moo! saudaste a
estrela dalva,

E o sol no viste a
refulgir no Oriente!

Morrer, de vida
transbordando ainda,

Como uma flor que
ardente calma abrasa!

guia sublime das
canes eternas:

Quem no teu vo
espedaou-te a asa?

Voltaste  terra s 
No morrem Byrons,

Nem finda o homem na
friez da campa!

Homem, tua alma aos
ps de Deus fulgura,

Teu nome, poeta, no
porvir se estampa!

No morreste! estalou
a fibra apenas

Que a alma  vida de
iluses prendia!

Acordaste de um negro
pesadelo,

E saudaste o sol do
eterno dia!

Mas c fica no altar
do pensamento

Teu nome como um dolo
pomposo,

Que a fama com o
turbulo dos tempos

Perfuma de um incenso
vaporoso!

E ao ramalhete das
braslias glrias,

Mais uma flor anglica
se enlaa,

Que a brisa ardente do
porvir passando

Trmula beija e a
murmurar abraa!

Byron da nossa terra,
dorme embora

Envolto no teu fnebre
sudrio,

Murmure embora o vento
dos sepulcros

Junto do teu sombrio
santurio.

Resta-te a croa santa
de poeta,

E a mirra ardente da
orao saudosa,

E pelas noites calmas
do silncio

Os sculos da lua
vaporosa!

Ela te chora, e ali
com ela a ptria,

Pobre rf de teus
cnticos divinos,

E das brisas na voz
misteriosa,

Da saudade e da dor
sagram-te os hinos!

Dorme junto de
Chatterton, de Byron,

Frontes sublimes, pra
sonhar criadas,

Almas puras de amor e
sentimento,

Harpas santas, por
anjos afinadas!

Dorme na tua fria
sepultura

Guarda essa fronte
vaporosa, ardente,

Tu, que apenas
saudaste a estrela-d'alva

E o sol no viste a
refulgir no Oriente!

REFLEXO [11]

Olha: vem sobre os
olhos

Tua imagem contemplar,

Como as madonas do cu

Vo refletir-se no mar

Pelas noites de vero

Ao transparente luar!

Olha e cr que a mesma
imagem

Com mais ardente
expresso

Como as madonas no mar

Pelas noites de vero,

Vo refletir-se bem
fundo,

Bem fundo  no
corao!

A MORTE NO CALVRIO [12]

Semana Santa, 1858

AO MEU AMIGO O PADRE
SILVEIRA SARMENTO

Consummatum
est!

I

Ei-lo, vai sobre o
alto Calvrio

Morrer piedoso e calmo
em uma cruz!

Povos! naquele fnebre
sudrio

Envolto vai um sol de
eterna luz!

Ali toda descansa a
humanidade;

 o seu salvador, o
seu Moiss!

Aquela cruz  o sol da
liberdade

Ante o qual so iguais
povos e reis!

Povos, olhai!  As
fachas morturias

So-lhe os louros, as
palmas, e os trofus!

Povos, olhai!  As
prpuras cesreas

Valem acaso em face do
Homem-Deus?

Vede! mana-lhe o
sangue das feridas

Como o preo da nossa
redeno.

Ide banhar os braos
parricidas

Nas guas desse
fnebre Jordo!

Ei-lo, vai sobre o
alto do Calvrio

Morrer piedoso e calmo
em uma cruz!

Povos! naquele fnebre
sudrio

Envolto vai um sol de
eterna luz!

II

Era o dia tremendo do
holocausto...

Deviam triunfar os
fariseus...

A cidade acordou toda
no fausto,

E  face das naes
matava um Deus!

Palpitante, em
frentico delrio

A turba l passou: vai
imolar!

Vai sagrar uma palma
de martrio,

E  a fronte do
Glgota o altar!

Em derredor a
humanidade atenta

Aguarda o sacrifcio
do Homem-Deus!

Era o ris no meio da
tormenta

O martrio do filho
dos Hebreus!

Eis o monte, o altar
do sacrifcio,

Onde vai
operar-se a redeno.

Sobe a turba entoando
um epincio

E caminha com ela o
novo Ado!

E vai como ia outrora s
sinagogas

As leis pregar do Sio
e do Tabor!

 que no seu sudrio
as alvas togas

Vo cortar os tribunos
do Senhor!

Planta-se a cruz. O
Cristo est pendente;

Cingem-lhe a fronte
espinhos bem mortais;

E cospe-lhe na face a
turba ardente,

E ressoam aplausos
triunfais!

Ressoam como em Roma a
populaa

Aplaudindo o esforado
gladiador!

 que so no delrio a
mesma raa,

A mesma gerao to
sem pudor!

Ressoam como um
cntico maldito

Pelas trevas do sculo
a vibrar!

Mas as douradas leis
de um novo rito

Vo ali no Calvrio
comear!

Sim,  a hora. A
humanidade espera

Entre as trevas da
morte e a eterna luz;

No  a redeno uma
quimera,

Ei-la simbolizada
nessa cruz!

 a hora. Esgotou-se a
amarga taa;

Tudo est consumado;
ele morreu,

E aos cnticos da ardente
populaa

Em luto a natureza se
envolveu!

Povos! realizou-se a
liberdade,

E toda consumou-se a
redeno!

Curvai-vos ante o sol
da Cristandade

E as plantas osculai
do novo Ado!

Ide, ao som das
sagradas melodias,

Orar junto do Cristo
como irmos,

Que os espinhos da
fronte do Messias

So as rosas da fronte
dos cristos!

UMA FLOR?  UMA
LGRIMA [13]

Out. 1858

 Por que
h de a musa que coroam rosas

Da rocha
inculta s rebentam cardos:

Lgrima
fria de pisados olhos

No cabe em cho de prolas.

 Por que h de a musa
que coroam rosas

Vir debruar-se no
ervaal inculto,

E pedir um perfume 
flor da noite

Que o vento
enregelara?

Minha musa  a virgem
das florestas

Sentada  sombra da
palmeira antiga;

Cantando, e s  por
uma noite amarga

Uma cano
de lgrimas...

A aura noturna
perpassou-lhe as tranas,

A mo do inverno
enregelou-lhe os seios,

Roou-lhe as asas na
carreira ardente

O anjo das
tempestades.

Por que h de a musa
que coroam rosas

Pedir-lhe um canto? O
alade  belo

Quando amestrada mo
lhe roa as cordas

Num canto
onipotente.

Pede-se acaso  ave
que rasteja

Rasgado vo? ao
espinhal perfumes?

Risos da madrugada ao
cu da noite

Sem luar
nem estrelas?

Pedem-se as rosas aos
jardins da vida;

Da rocha inculta s
rebentam cardos;

Lgrima fria de
pisados olhos

No cabe em
cho de prolas.

CONDO [14]

C'est que j'ai
recontr des regards dont la flamme

Semble avec
mes regards ou briller ou mourir.

E.
DESCHAMPS

Uns olhos
me enfeitiaram,

Uns
olhos... foram os teus.

Falaram
tanto de amores

Embebidos
sobre os meus!

Eram anjos
que dormiam

Dessas
plpebras  flor

Nas
convulses palpitantes

Dos alvos
sonhos de amor.

Foi 
noite... hora das fadas;

Bem lhes
sentira o condo;

Mas
refletiam to puras

Os sonhos
do corao!

Como ao sol
do meio-dia

Dorme a
onda  flor do mar,

Eu dormi, 
pobre insensato,

Ao fogo do
teu olhar...

Pobre,
doida mariposa,

Perdi-me...
 pecados meus!

Na chama
que me atraa,

No fogo dos
olhos teus.

Venci
protestos de outrora,

Moirei no
teu alcoro,

E vim
purgar nesses olhos

Pecados do
corao.

Pois bem
hajam os teus olhos,

Onde um tal
condo achei:

Doido
inseto em torno  chama,

Todo a me
queimarei.

A AUGUSTA [15]

1859

Em teu
caminho tropeaste  agora!

Cala esse
pranto, minha pobre flor.

Cada mesmo
 tropeando embora,

Conserva a
alma um ltimo pudor.

Deve ser grande esse
martrio lento...

J nos espinhos a
minha alma pus;

Sou como um Cireneu do
sofrimento;

Deixa-me ao menos
carregar-te a cruz.

Eu sei medir as
lgrimas vertidas

Na sombra e s sem uma
mo sequer!

Vs tu as minhas
plpebras doridas?

Tm chorado talvez por
ti, mulher!

 fraqueza chorar?
chorei contigo;

Que a mesma nos banhou
de luz

Como em mim um pesar
profundo e antigo

No falar dessa fronte
se traduz!

Sei como custa desfolhar
um riso

Em face s turbas, que
o senti por mim,

Ver o inferno e falar
do paraso,

Sentir os golpes e
abraar Caim!

Chorei, que prantos!
Prometeu atado

Ao rochedo da vida e
sem porvir!

Poeta neste sculo
infamado

Que mata as almas e
condena a rir.

Cansei, perdi aquela
f robusta

Que como a ti, nos
sonhos me sorriu;

Na identidade do
calvrio, Augusta,

Bem vs como o destino
nos mentiu!

Ergue-te pois! A
redeno agora

D-te mais vio, minha
pobre flor!

Se tropeaste no
caminho embora!

Na tua queda -te
bordo  o amor!

SONETO CIRCULAR [16]

16 abr. 1895

A bela dama
ruiva e descansada,

De olhos
longos, macios e perdidos,

C'um dos
dedos calados e compridos

Marca a
recente pgina fechada.

Cuidei que, assim
pensando, assim colada

Da fina tela aos flridos
tecidos,

Totalmente calados os
sentidos,

Nada diria, totalmente
nada.

Mas, eis da tela se
despega e anda,

E diz-me:  Horcio,
Heitor Cibro, Miranda,

C. Pinto, X. Silveira,
F. Arajo,

Mandam-me aqui para
viver contigo.

 bela dama, a ordens
tais no fujo.

Que bons amigos so!
Fica comigo.

CARO [17]

1859

Que queres
tu que eu te pea?

Um olhar
que no consola?

Podes
guardar essa esmola

Para quem
ta for pedir,

A um olhar
de volpia

Que ensina
discreto espelho

Queres que
eu curve o joelho,

E quebre
todo um porvir?

 audaz o pensamento.

No vs que um olhar 
pouco?

Eu fora cobarde e
louco

Se te aceitasse um
olhar!

A flor da plida face,

Esse raio luminoso,

 a esperana de um
gozo

Que bem se pode
evitar.

Este fogo que me
impele

Para a esfera dos
desejos

Cresce, vigora nos
beijos

De uma boca de mulher;

Tem asas como as das
guias;

Nem pousa sobre o
granito;

Aspira para o
infinito;

Pede tudo e tudo quer!

 ambio desmedida?

Prevejo tal
pensamento:

A inclinao de um
momento

No me d direito a
mais.

A chama ainda indecisa

Uma hora alimentaste,

E agora que recuaste

Quebras os laos
fatais.

Era tarde! As fibras
todas

J vo meio
consumidas;

Perdi na vida  mil
vidas

Que  preciso
resgatar.

Bem vs que a perda
foi grande.

Quero um preo
equivalente;

Guarda o teu olhar
ardente

Que no me paga um
olhar.

Alma de fogo encerrada

Em livre, em audaz
cabea

No pode crer na
promessa

Que os olhos, que os
olhos do!

Talvez levada de
orgulho

Com este amor
insensato

Quer a verdade do fato

Para d-la ao corao.

E sabes o que eu te
dera?

Nem tu calculas o
preo...

Olha bem se te mereo

Mais que um s olhar
dos teus:

Dera-te todo um futuro

Quebrado a teus ps,
quebrado,

Como um mundo
derrocado

Cado das mos de
Deus!

Era uma troca por
troca,

Ambos perdiam no
abrao

Mas estreitava-se o
espao

Que nos separa talvez.

Foras um sonho que eu
tive,

Uma esperana bem
pura;

Foras meu cu de
ventura

Em toda a sua nudez!

Que este fogo que me
impele

Para a esfera dos
desejos

Cresce, vigora nos
beijos

De uma boca de mulher;

Tem asas como as das
guias;

Nem pousa sobre o
granito;

Aspira para o
infinito,

Pede tudo e tudo quer!

CORAO PERDIDO [18]

Buscas
debalde o meigo passarinho

Que te fugiu;

Como quer
que isso foi, o coitadinho

No brando ninho

J no dormiu.

O coitado abafava na
gaiola,

Faltava-lhe
o ar;

Como foge um menino de
uma escola,

O mariola

Deitou-se a
andar.

Demais, o pobrezito
nem sustento

Podia ter;

Nesse triste e cruel
recolhimento

O simples
vento

No 
viver.

No te arrepeles. D
de mo ao pranto;

Isso que
tem?

Eu sei que ele fazia o
teu encanto;

Mas chorar
tanto

No te
convm.

Nem vs agora armar ao
bandoleiro

Um alapo;

Passarinho que sendo
prisioneiro

Fugiu
matreiro

No volta,
no!

FASCINAO [19]

Tes lvres,
sans parler, me disaient:  Que je t'aime!

Et ma bouche
muette ajoutait:  Je te crois!

Mme.
DESBORDES-VALMORE

A vez
primeira que te ouvi dos lbios

Uma singela
e doce confisso,

E que
travadas nossas mos, eu pude

Ouvir bater
teu casto corao,

Menos senti do que
senti na hora

Em que, humilde 
curvado ao teu poder,

Minha ventura e minha
desventura

Pude, senhora, nos
teus olhos ler.

Ento, como por
vnculo secreto,

Tanto no teu amor me
confundi,

Que um sono puro me
tomou da vida

E ao teu olhar, senhora,
adormeci.

 que os olhos, melhor
que os lbios, falam

Verbo sem som,  alma
que  de luz

 Ante a fraqueza da
palavra humana 

O que h de mais
divino o olhar traduz.

Por ti, nessa unio
ntima e santa,

Como a um toque de
graa do Senhor,

Ergui minh'alma que
dormiu nas trevas,

E me sagrei na luz do
teu amor.

Quando a tua voz
purssima  dos lbios,

De teus lbios j
trmulos correu,

Foi alcanar-me o
esprito encantado

Que abrindo as asas
demandara o cu.

De tanta embriaguez,
de tanto sonho

Que nos resta? Que
vida nos ficou?

Uma triste e vivssima
saudade...

Essa ao menos o tempo
a no levou.

Mas, se  certo que a
baa mo da morte

A outra vida melhor
nos levar,

Em Deus, minh'alma
adormeceu contigo,

Em Deus, contigo um
dia acordar.

O CASAMENTO DO DIABO [20]

(Imitao do alemo)

Sat teve
um dia a idia

De casar.
Que original!

Queria
mulher no feia,

Virgem
corpo, alma leal.

Toma um
conselho de amigo,

No te
cases, Belzebu;

Que a
mulher, com ser humana

 mais fina
do que tu.

Resolvido no projeto,

Para v-lo realizar,

Quis procurar objeto

Prprio do seu
paladar.

Toma um
conselho de amigo,

No te
cases, Belzebu;

Que a
mulher, com ser humana.

 mais fina
do que tu.

Cortou unhas, cortou
rabo,

Cortou as pontas, e
aps

Saiu o nosso diabo

Como o heri dos
heris.

Toma um
conselho de amigo,

No te
cases, Belzebu;

Que a
mulher, com ser humana

 mais fina
do que tu.

Casar era a sua dita;

Correu por terra e por
mar,

Encontrou mulher
bonita

E tratou de a
requestar.

Toma um
conselho de amigo,

No te
cases, Belzebu;

Que a
mulher, com ser humana

 mais fina
do que tu.

Ele quis, ela queria,

Puseram mo sobre mo,

E na melhor harmonia

Verificou-se a unio.

Toma um
conselho de amigo,

No te
cases, Belzebu;

Que a
mulher, com ser humana

 mais fina
do que tu.

Passou-se um ano, e ao
diabo,

No lhe cresceram por
fim,

Nem as unhas, nem o
rabo...

Mas as pontas, essas
sim.

Toma um
conselho de amigo,

No te
cases, Belzebu;

Que a
mulher, com ser humana

 mais fina
do que tu.

HINO PATRITICO [21]

Brasileiros!
haja um brado

Nesta terra
do Brasil:

Antes a
morte de honrado

Do que a
vida infame e vil!

O leopardo
aventureiro,

Garra curva, olhar
feroz,

Busca o solo
brasileiro,

Ruge e investe contra
ns.

Brasileiros! haja um
brado

Nesta terra do Brasil:

Antes a morte de
honrado

Do que a vida infame e
vil!

Quer estranho
despotismo

Lanar-nos duro
grilho;

Ser o sangue o
batismo

Da nossa jovem nao.

Brasileiros! haja um
brado

Nesta terra do Brasil:

Antes a morte de
honrado

Do que a vida infame e
vil!

Pela liberdade ufana,

Ufana pela honradez,

Esta terra americana,

Breto, no te beija
os ps.

Brasileiros! haja um
brado

Nesta terra do Brasil:

Antes a morte de
honrado

Do que a vida infame e
vil!

Nao livre,  nossa
glria

Rejeitar grilho
servil;

Parea a nossa memria

Salva a honra do
Brasil.

Brasileiros! haja um
brado

Nesta terra do Brasil:

Antes a morte de
honrado

Do que a vida infame e
vil!

Podes vir, nao
guerreira;

Nesta suprema aflio,

Cada peito  uma
trincheira,

Cada bravo um Cipio.

Brasileiros! haja um
brado

Nesta terra do Brasil:

Antes a morte de
honrado

Do que a vida infame e
vil!

A CLERA DO IMPRIO [22]

De p! 
Quando o inimigo o solo invade

Ergue-se o
povo inteiro; e a espada em punho

 como um
raio vingador dos livres!

__________

Que espetculo  este!
 Um grito apenas

Bastou para acordar do
sono o imprio!

Era o grito das
vtimas. No leito,

Em que a pusera Deus,
o vasto corpo

Ergue a imensa nao.
Fulmneos olhos

Lana em torno de si:
 lgubre aspecto

A terra patenteia; o
sangue puro,

O sangue de seus
filhos corre em ondas

Que dos rios gigantes
da floresta

Tingem as turvas,
assustadas guas.

Talam seus campos
legies de ingratos.

Como um cortejo
fnebre, a desonra

E a morte as vo
seguindo, e as vo guiando,

Ante a espada dos
brbaros, no vale

A coroa dos velhos; a
inocncia

Debalde aperta ao seio
as vestes brancas...

 preciso cair. Pudor,
velhice,

No nos conhecem eles.
Nos altares

Daquela
gente, imola-se a virtude!

__________

O imprio estremeceu.
A liberdade

Passou-lhe s mos o
gldio sacrossanto,

O gldio de Camilo. O
novo Breno

J pisa o cho da
ptria. Avante! avante!

Leva de um golpe
aquela turba infrene!

 preciso vencer!
Manda a justia,

Manda a honra lavar
com sangue as culpas

De um punhado de
escravos. Ai daquele

Que a face maculou da
terra livre!

Cada palmo do cho
vomita um homem!

E do Norte, e do Sul,
como esses rios

Que vo, sulcando a
terra, encher os mares,

 falange comum os
bravos correm!

__________

Ento (nobre
espetculo, s prprio

De almas livres!)
ento rompem-se os elos

De homens a homens.
Corao, famlia,

Abafam-se,
aniquilam-se: perdura

Uma idia, a da
ptria. As mes sorrindo

Armam os filhos,
beijam-nos; outrora

No faziam melhor as
mes de Esparta.

Deixa o tlamo o
esposo; a prpria esposa

 quem lhe cinge a
espada vingadora.

Tu, brioso mancebo, s
aras foges,

Onde himeneu te
espera; a noiva aguarda

Cingir mais tarde na
virgnea fronte

Rosas de esposa ou
crepe de viva.

__________

E vo todos, no
prfidos soldados

Como esses que a
traio lanou nos campos;

Vo como homens. A
flama que os alenta

 o ideal esplndido
da ptria.

No os move um senhor;
a veneranda

Imagem do dever  que
os domina.

Esta bandeira 
smbolo; no cobre,

Como a deles, um
tmulo de vivos.

Ho de vencer!
Atnito, confuso,

O covarde inimigo h
de abater-se;

E da opressa Assuno
transpondo os muros

Ter por prmio a
sorte dos vencidos.

__________

Basta isso? Ainda no.
Se o imprio  fogo,

Tambm  luz: abrasa,
mas aclara.

Onde levar a flama da
justia,

Deixa um raio de nova
liberdade.

No lhe basta escrever
uma vitria,

L, onde a tirania
oprime um povo;

Outra, to grande, lhe
desperta os brios;

Vena uma vez no
campo, outra nas almas;

Quebre as duras
algemas que roxeiam

Pulsos de escravos.
Faa-os homens.

__________

Treme,

Treme, opressor, da
clera do imprio!

Longo h que s tuas
mos a liberdade

Sufocada solua. A
escura noite

Cobre de h muito o
teu domnio estreito;

Tu mesmo abriste as
portas do Oriente;

Rompe a luz; foge ao
dia! O Deus dos justos

Os soluos ouviu dos
teus escravos,

E os olhos te cegou
para perder-te!

__________

O povo um dia cobrir
de flores,

A imagem do Brasil. A
liberdade

Unir como um elo
estes dous povos.

A mo, que a audcia
castigou de ingratos,

Apertar somente a mo
de amigos.

E a tnica farpada do
tirano,

Que inda os quebrados
nimos assusta,

Ser, aos olhos da
nao remida,

A severa lio de
extintos tempos!

DAQUI DESTE MBITO
ESTREITO [23]

Daqui,
deste mbito estreito,

Cheio de
risos e galas,

Daqui, onde
alegres falas

Soam na
alegre amplido,

Volvei os
olhos, volvei-os

A regies
mais sombrias,

Vereis
cruis agonias,

Terror da
humana razo.

Trmulos
braos alando,

Entre os da
morte e os da vida,

Solta a voz
esmorecida,

Sem po,
sem gua, sem luz,

Um povo de
irmos, um povo

Desta terra
brasileira,

Filhos da
mesma bandeira,

Remidos na
mesma cruz.

A terra
lhes foi avara,

A terra a
tantos fecunda;

Veio a
misria profunda,

A fome, o
verme voraz.

A fome?
Sabeis acaso

O que  a
fome, esse abutre

Que em
nossas carnes se nutre

E a fria
morte nos traz?

Ao cu, com
trmulos lbios,

Em seus
tormentos atrozes

Ergueram
splices vozes,

Gritos de
dor e aflio;

Depois as
mos estendendo,

Naquela
triste orfandade,

Vm
implorar caridade,

Mais que 
bolsa, ao corao.

O
corao... sois vs todos,

Vs que as
splicas ouvistes;

Vs que s
misrias to tristes

Lanais to
espesso vu.

Chovero
bnos divinas

Aos
vencedores da luta:

De cada
lgrima enxuta

Nasce uma
graa do cu.

A FRANCISCO PINHEIRO
GUIMARES [24]

Ouviste o
mrcio estrpito

E a mo
lanando  espada

Foste,
soldado indmito,

Vingar a
ptria amada,

Do
universal delrio

Aceso o
corao.

Foste, e na luta
frvida,

(Glria e terror das
almas)

De quais loureiros
vividos

Colheste eternas
palmas,

Diga-o ao mundo e 
histria

A boca da nao!

Custa sentidas
lgrimas

A glria; a terra bebe

Sangue de heris e
mrtires

Que a morte ali
recebe;

Da santa ptria o
jbilo

Custa a melhor das
mes.

Mas tu, audaz e
impvido,

No ardor de cem
porfias,

A mo dum ser
anglico,

Heri, guiou teus
dias;

E no amplo livro
inscreveu-te

Dos novos capites!

Se hoje coas roupas
cndidas

Voltou a paz  terra,

No, no te basta o
esplndido

Louro da extinta
guerra;

De outra gentil
vitria

A palma aqui ters.

Chamam-te as musas,
chama-te

A imensa voz do povo,

Que em seu aplauso
unnime

Te guarda um prmio
novo;

Vem lutador do
esprito,

Colhe os lauris da
paz.

 MEMRIA DO ATOR
TASSO [25]

Vs que
esta sala encheis, e a lgrima sentida

E o riso de
prazer conosco misturais,

E depois de
viver da nossa mesma vida

Ao lar
tranqilo e bom contentes regressais;

Que perdeis? Um noute;
algumas horas. Tudo,

Alma, vida, razo,
tudo vos damos ns:

Um perptuo lidar, um
continuado estudo,

Que um s prmio
conhece, um fim nico: vs.

E este cho, que
juncais de generosas flores,

 nossa alegre
estrada, e vamos sem sentir,

Sem jamais indagar as
encobertas dores

Que em seu seio nos
traz o sombrio porvir.

Alm, alm do mar que
separa dous mundos,

Um artista que foi
glria nossa e padro,

Quando  terra subiu
dos xtases profundos

Terna esposa deixou na
mgoa e na aflio.

Hoje, que vos convida
uma inteno piedosa,

Que escutais de
alm-mar uma splice voz,

Hoje, a mo estendeis
 desvalida esposa;

Obrigada por ele!
obrigada por ns!

NO LBUM DO SR.
QUINTELA [26]

Faz-se a
melhor harmonia

Com
elementos diversos;

Mesclam-se
espinhos s flores:

Posso aqui
pr os meus versos.

VERSOS [27]

Escritos no
lbum da Exma. Sra. D. Branca P. da C.

Pede
estrelas ao cu, ao campo flores;

Flores e
estrelas ao gentil regao

Viro da
terra ou cairo do espao,

Por te
cobrir de aromas e esplendores.

Versos... pede-os ao
vate peregrino

Que ao cu tomando
inspiraes das suas,

A tua mocidade e as
graas tuas

Souber nas notas
modular de um hino.

Mas que flores, que
versos ou que estrelas

Pedir-me vens? A musa
que me inspira

Mal poderia celebrar
na lira

Dotes to puros e
feies to belas.

Pois que me abris, no
entanto, a porta franca

Deste livro gentil,
casto e risonho,

Uma s flor, uma s
flor lhe ponho

E seja o nome anglico
de Branca.

SONETO [28]

Caro Rocha
Miranda e companhia,

Muzzio,
Melo, Cibro, Arnaldo e Andrade,

Enfim, a
toda a mais comunidade

Manda
saudades o Joaquim Maria.

Sou forado a no ir 
freguesia;

Tenho entre mos, com
pressa e brevidade,

Um trabalho de grande
seriedade

Que hei de acabar mais
dia menos dia.

Esta  a razo mais
clara e pura

Pelo qual, meus
amigos, vos remeto

Uma insinuao de
vagatura.

Mas, na segunda-feira
vos prometo

Que haveis de ter
(minha barriga o jura)

Mais uma canja e menos
um soneto.

NAQUELE ETERNO AZUL,
ONDE COEMA [29]

Naquele
eterno azul, onde Coema,

Onde
Lindia, sem temor dos anos,

Erguem os
olhos plcidos e ufanos,

Tambm os
ergue a lmpida Iracema.

Elas foram, nas guas
do poema,

Cantadas pela voz de
americanos,

Mostrar s gentes de outros
oceanos

Jias do nosso rtilo
diadema.

E, quando a magna voz
inda afinavas

Foges-nos, como se a
chamar sentiras

A voz da glria pura
que esperavas.

O cantor do Uruguai
e o dos Timbiras

Esperavam por ti, tu
lhe faltavas

Para o concerto das
eternas liras.

DAI  OBRA DE MARTA UM
POUCO DE MARIA [30]

Da  obra
de Marta um pouco de Maria,

Dai um
beijo de sol ao descuidado arbusto;

Vereis
neste florir o tronco erecto e adusto,

E mais
gosto achareis naquela e mais valia.

A doce me no perde o
seu papel augusto,

Nem o lar conjugal a
perfeita harmonia.

Vivero dous aonde um
at 'qui vivia,

E o trabalho haver
menos difcil custo.

Urge a vida encarar
sem a mole apatia,

 mulher! Urge pr no
gracioso busto,

Sob o tpido seio, um
corao robusto.

Nem erma escurido,
nem mal-aceso dia.

Basta um jorro de sol
ao descuidado arbusto,

Basta  obra de Marta
um pouco de Maria.

RELQUIA NTIMA [31]

Ilustrssimo,
caro e velho amigo,

Sabers
que, por um motivo urgente,

Na
quinta-feira, nove do corrente,

Preciso
muito de falar contigo.

E aproveitando o
portador te digo,

Que nessa ocasio
ters presente,

A esperada gravura de
patente

Em que o Dante
regressa do Inimigo.

Manda-me pois dizer
pelo bombeiro

Se s trs e meia te
achars postado

Junto  porta do
Garnier livreiro:

Seno, escolhe outro
lugar azado;

Mas d logo a resposta
ao mensageiro,

E continua a crer no
teu Machado.

A DERRADEIRA INJRIA [32]

E ainda, ninfas
minhas, no bastava...

CAMES, Lusadas,
VII, 81.

I

Vs um fretro posto
em solitria igreja?

Esse p que descansa,
e se esconde, e se some,

Traz de um grande
ministro o formidvel nome,

Que em vivas letras de
ouro e lgrimas flameja.

L fora uma invaso
esqulida braceja,

Como um mar de misria
e luto, que tem fome,

E novas praias busca e
novas praias come,

Enquanto a multido,
recuando, peleja.

O gauls que persegue,
o breto que defende,

Duas mos de um
destino implacvel e oculto,

Vo sangrando a nao
exausta que se rende;

Dentre os mortos da
histria um s nico vulto

No ressurge; um
Pacheco, um Castro no atende;

E a cobia recolhe os
despojos do insulto.

II

Ora, na solitria
igreja em que se h posto

O fretro, se algum
pudesse ouvir, ouvira

Uma voz cavernosa e
repassada de ira,

De tristeza
e desgosto.

Era uma voz
sem rosto,

Um eco sem rumor, uma
nota sem lira.

Como que o suspirar do
cadver disposto

A rejeitar o leito
eterno em que dormira.

E ningum, salvo tu, 
plido,  suave

Cristo, ningum,
exceto uns trs ou quatro santos,

Envolvidos e ss, nos
seus sombrios mantos,

Ningum ouvia em toda
aquela escura nave

Dessa voz to severa,
e to triste, e to grave,

Murmurados a medo, as
cleras e os prantos.

III

E dizia essa voz: 
Eis, Lusitnia, a espada

Que reluz, como o sol,
e como o raio, lana

Sobre a atnita Europa
a morte ensangentada.

Venceu tudo; ei-la a
que te fere e te alcana,

Que te rasga e te pe
na cabea prostrada

O terrvel sinal das
legies de Frana.

E, como se o furor,
e, como se a runa

No bastassem a dar-te
a pena grande e inteira,

Vem juntar-se outra
dor  tua dor primeira,

E o que a espada
comea a tristeza termina.

s o campo funesto e
rude em que se afina

Pugna estranha; no
tens a glria derradeira,

De devolver farpada e
vencida a bandeira,

E ser Xerxes embora,
ao p de Salamina.

IV

No entanto, ao longe,
ao longe uma comprida histria

De batalhas
e descobertas,

Um entrar de contnuo
as portas da memria

Escancaradamente
abertas,

Enchia esta nao,
que aprendera a vitria

Naquela
crespa idade antiga,

Quando, em vez do
repouso, era a lei da fadiga,

E a glria
coroava a glria.

E assim foi, palmo a
palmo, e reduto a reduto,

Que um punhado de
heris, que um embrio de povo

Levantara
este reino novo;

E livre,
independente, esse spero produto

Da imensa forja pde,
achegando-se s plagas,

Fitar ao
longe as longas vagas.

V

Era escasso o torro;
por compensar-lhe a mngua,

Assim foi que dobraste
aquele oculto cabo,

No sabido de Plnio,
ignorado de Estrabo,

E que Homero cantou em
uma nova lngua.

Assim foi que pudeste
haver frica adusta,

sia, e esse futuro e
desmedido imprio,

Que no fecundo cho do
recente hemisfrio

A semente brotou da
tua raa augusta.

Eis, Lusitnia, a
obra. Os sculos que a viram

Emergir, com o sol dos
mares, e a poliram,

Transmitem-lhe a
memria aos sculos futuros.

Hoje a terra de
heris sofre a planta inimiga...

Quem pudera mandar
aqueles peitos duros!

Quem soubera empregar
aquela fora antiga!

VI

E depois de um
silncio:  Um dia, um dia, um dia

Houve em que nesta
nobre e antiga monarquia,

Um homem,  paz lhe
seja e a quantos lhe consomem

A sagrada memria, 
houve um dia em que um homem

Posto ao lado do rei
e ao lado do perigo

Viu abater o cho; viu
as pedras candentes

Rurem; viu o mal das
cousas e das gentes,

E um povo inteiro nu
de po, de luz e abrigo.

Esse homem, ao fitar
uma cidade em ossos,

Terror, dissoluo,
crime, fome, penria,

No se deixou cair
coos ltimos destroos.

Ops a fora  fora,
ops a pena  injria,

Restituiu ao povo a
perdida hombridade,

E donde era uma runa
ergueu uma cidade.

VII

Esse homem eras tu, 
alma que repousas

Da cobia, da glria e
da ambio do mando,

Eras tu, que um
destino, e propcio, e nefando,

Ao fastgio elevou dos
homens e das cousas.

Eras tu que da sede
ingrata de ministro

Fizeste um slio ao p
do slio; tu, sinistro

Ao passado, tu novo
obreiro, spero e duro,

Que traavas no cho a
planta do futuro.

Tu querias fazer da
histria uma s massa

Nas tuas fortes mos,
tenazes como a vida,

A massa
obediente e nua.

A luminosa
efgie tua

Quiseste dar-lhe, como
 brnzea esttua erguida,

Que o sculo corteja,
inda assustado, e passa.

VIII

Contra
aquele edifcio velho

Da nobreza,  elevado
ao lado do edifcio

Da
monarquia e do evangelho, 

Tu puseste a reforma e
puseste o suplcio.

Querias
destruir o vcio

Que a teus olhos roa
essa fbrica enorme,

E comeaste
o duro ofcio

Contra o que era
caduco, e contra o que era informe.

No te fez recuar
nesse spero duelo

Nem dos anos a flor,
nem dos anos o gelo,

Nem dos olhos das mes
as lgrimas sagradas.

Nada; nem o negror
austero da batina,

Nem as dbeis feies
da graa feminina

Pela venerao e pelo
amor choradas.

IX

Ah! se por um
prodgio especial da sorte,

Pudesses emergir das
entranhas da morte,

Cheio daquela antiga e
fera gravidade,

Com que
salvaste uma cidade;

Quem sabe? No
houvera em to longa campanha

Ensangentado o cho
do luso a planta estranha,

Nem correra a nao
tal dor e tais perigos

s mos de
amigos e inimigos.

Tu serias o mesmo
asprrimo e impassvel

Que viu, sem desmaiar,
o conflito terrvel

Da natureza escura e
da escura alma humana;

Que levantando ao cu
a fronte soberana,

 Eis o homem!
disseste,  e a garra do destino

Indelvel te ps o seu
sinal divino.

X

E, soltado
esse lamento

Ao p do
grande moimento,

Calou-se a
voz, dolorida

De indignao.

Nenhum outro som de
vida

Naquela igreja
escondida...

Era uma pausa, um
momento

De solido.

E continuavam fora

A morte, dona e
senhora

Da
multido;

E devastava a batalha,

Como o temporal que
espalha

Folhas ao
cho.

XI

E essa voz era a tua,
 triste e solitrio

Esprito! eras tu,
forte outrora e vibrante,

Que pousavas agora, 
apenas cintilante, 

Sobre o fretro, como
a luz de um lampadrio.

Era tua essa voz do
asilo morturio,

Essa voz que esquecia
o dio triunfante

Contra o que havia
feito a tua mo possante,

E a inveja que te deu
o pontual salrio.

E contigo falava uma
nao inteira,

E gemia com ela a
histria, no a histria

Que bajula ou destri,
que morde ou santifica.

No; mas a histria
pura, austera, verdadeira,

Que de uma vida errada
a parte que lhe fica

De glria, no esconde
s ovaes da glria.

XII

E, tendo emudecido
essa garganta morta,

O silncio voltara
quela nave escura,

Quando subitamente
abre-se a velha porta,

E penetra na igreja
uma estranha figura.

Depois outra, e mais
outra, e mais trs, e mais quatro.

E todas, estendendo os
braos, vo abrindo

As trevas, costeando
os muros, e seguindo

Como a conspirao nas
tbuas de um teatro.

E param juntamente em
derredor do leito

ltimo em que descansa
esse nico despojo

De uma vida, que foi
uma longa batalha.

E enquanto um fere a
luz que as tnebras espalha,

Outro, com gesto firme
e firmssimo arrojo,

Toma nas cruas mos
aquele rei desfeito.

XIII

Ento... O homem que
viu arrancarem-lhe aos braos

Poder, glria, ambio,
tudo o que amado havia;

Esse que foi o sol de
um sculo, que um dia,

Um s dia bastou para
fazer pedaos;

Que, se aos ombros
atara uma prpura nova,

Viu, farrapo a
farrapo, arrancarem-lha aos ombros;

Que padecera em vida
os ltimos assombros,

Tinha ainda na morte
uma ltima prova.

Era a brutal rapina,
annima, noturna,

Era a mo casual, que
espedaava a urna

A troco de um galo, a
troco de uma espada;

Que, depois de
tomar-lhe esses sinais funestos

Da sombra de um poder,
pegou dos tristes restos,

Ossos s, e espalhou
pela nave sagrada.

XIV

Assim pois, nada falta
 glria deste mundo,

Nem a perseguio
repleta de dio e sanha,

Nem a frtil inveja, a
lvida campanha,

De tudo o que radia e
tudo que  profundo.

Nada falta ao poder,
quando o poder acaba;

Nada; nem a calnia, o
escrnio, a injria, a intriga,

E, por triste coroa 
merencria liga,

A ingratido que
esquece e a ingratido que baba.

Faltava a violao do
ltimo sono eterno,

No para saciar um
dio insacivel,

Insacivel como os
crculos do inferno.

E deram-ta; eis-te a,
 grande invulnervel,

Eis-te ossada sem
nome, esparsa e miservel,

Sobre um pouco de cho
do ninho teu paterno.

REFUS [33]

A Jaime de Sguier

Non, je ne paye pas,
car il est incomplet

Cet ouvrage. On y
voit, certes, la belle touche

Que ton lger pinceau
met  tout ce qu'il touche;

Et, pour un beau
sonnet, c'est un fort beau sonnet.

Ce sont-l mes
cheveux, c'est bient-l le reflet

De mes yeux noirs. Je
ris devant ma propre bouche.

Je reconnais cet air
tendre ainsi que farouche

Qui fait toute ma
force et tout mon doux secret.

Mais, cher peintre du
ciel, il manque  ton ouvrage

De ne pas tre dix,
tous galement doux,

Vibrant d'me, et
parfaits d'art profond, riche et sage.

Adieu, donc, le contrat!
Je le tiens pour dissous,

Car, pour de beaux
portraits, pleins de charme et de vie,

Pour un baiser, je
veux toute une galerie.

ENTRA CANTANDO, ENTRA
CANTANDO, APOLO! [34]

1891

Entra
cantando, entra cantando, Apolo!

Entra sem
cerimnia, a casa  tua;

Solta
versos ao sol, solta-os  lua,

Toca a lira
divina, alteia o colo.

No te embarace esta
cabea nua;

Se no possui as
primitivas heras,

Vibra-lhe ainda a
intensa vida sua,

E h outonos que valem
primaveras.

Aqui vers alegre a
casa e a gente,

Os adorados filhos, 
terno e brando

Consolo ao corao que
os ama e sente.

E ouvirs inda o eco
reboando

Do canto dele, que
ters presente.

Entra cantando, Apolo,
entra cantando.

A GUIOMAR [35]

1892

Ri,
Guiomar, anda, ri. Quando ressoa

Tua alegre
risada cristalina,

Ouo a alma
da moa e da menina,

Ambas na
mesma lpida pessoa.

E ento reparo, como o
tempo voa,

Como a rosa nascente e
pequenina

Cresceu, e a graa
fresca apura e afina...

Ri, Guiomar, anda, ri,
mimosa e boa.

A bela cor, o aroma
delicado,

Por muitos anos
crescero ainda,

Ao vivo olhar do noivo
teu amado.

Para ti, cara flor, a
vida  infinda,

O tempo amigo, longo e
repousado.

Ri, Guiomar, anda, ri,
discreta e linda.

PRLOGO DO INTERMEZZO
[36]

(H. Heine)

Um
cavalheiro havia, taciturno,

Que o rosto
magro e macilento tinha.

Vagava como
quem de algum noturno

Sonho
levado, trpido caminha.

To alheio,
to frio, to soturno,

Que a moa
em flor e a lpida florinha,

Quando
passar tropegamente o viam,

s
escondidas dele escarneciam.

A mido buscava a mais
sombria

Parte da casa, por
fugir  gente;

Daquele posto os
braos estendia

Tomado de desejo
impaciente.

Uma palavra s no
proferia.

Mas, pela meia-noite,
de repente,

Estranho canto e
msica escutava,

E logo algum que 
porta lhe tocava.

Furtivamente ento
entrava a amada

O vestido de espumas
arrastando,

To vivamente fresca e
to corada

Como a rosa que vem
desabrochando;

Brilha o vu; pela
esbelta e delicada

Figura as tranas
soltas vo brincando;

Os meigos olhos dela
os dele fitam,

E um ao outro de ardor
se precipitam.

Com a fora que amor
somente gera,

O peito a cinge, agora
afogueado;

O descorado as cores
recupera,

E o retrado acaba
namorado,

O sonhador desfaz-se
da quimera...

Ela o excita, com
gesto calculado;

Na cabea lhe lana
levemente

O adamantino vu alvo
e luzente.

Ei-lo se v em sala
cristalina

De aqutico palcio.
Com espanto

Olha, e de olhar a
fbrica divina

Quase os olhos lhe
cegam. Entretanto,

Junto ao mido seio a
bela ondina

O aperta tanto, tanto,
tanto, tanto...

Vo as bodas
seguir-se. As notas belas

Vm tirando das
ctaras donzelas.

As notas vm tirando,
e deleitosas

Cantam, e cada uma a
dana tece

Erguendo ao ar as
plantas graciosas.

Ele, que todo e todo
se embevece,

Deixa-se ir nessas
horas amorosas...

Mas o claro de sbito
fenece,

E o noivo torna 
plida tristura

Da antiga, solitria
alcova escura.

A CAROLINA [37]

1906

Querida, ao p do
leito derradeiro

Em que descansas dessa
longa vida,

Aqui venho e virei,
pobre querida,

Trazer-te o corao do
companheiro.

Pulsa-lhe aquele afeto
verdadeiro

Que, a despeito de
toda a humana lida,

Fez a nossa existncia
apetecida

E num recanto ps um
mundo inteiro.

Trago-te flores, 
restos arrancados

Da terra que nos viu
passar unidos

E ora mortos nos deixa
e separados.

Que eu, se tenho nos
olhos malferidos

Pensamentos de vida
formulados,

So pensamentos idos e
vividos.

SONETO [38]

[No lbum da Rainha D.
Amlia]

Senhora, se algum dia
aqui vierdes,

A estas terras novas e
alongadas,

Encontrareis as vozes
que perderdes

De outras gentes por
vs h muito amadas.

E as saudades que
ento c padecerdes,

Das terras vossas,
velhas e deixadas,

Nestas cidades, nestes
campos verdes,

Sero do mesmo nome
acalentadas.

Mas nem s isto. Um s
falar no basta.

A histria o deu, um
s falar dileto,

Da mesma compostura,
antiga e casta.

Achareis mais outro
falar discreto,

Sem palavras, que a
vossa glria arrasta,

A mesma admirao e o
mesmo afeto.

A FRANCISCA [39]

Nunca faltaram aos
poetas (quando

Poetas so de veia e
de arte pura),

Para cantar a doce
formosura,

Rima canora, verso
meigo e brando.

Mas eu triste poeta
miserando,

S tenho spero verso
e rima dura;

Em vo minh'alma
sfrega procura

Aqueles sons que outrora
achava em bando.

Assim, gentil
Francisca delicada,

No achando uma rima
em que te veja

Harmoniosamente bem
rimada,

Recorrerei  Santa
Madre Igreja

Que rime o nome de
Francisca amada

Com o nome de Heitor,
que amado seja.

 ILMA. SRA. D. P. J.
A
[40]

Quem pode em um momento descrever

Tantas virtudes de que sois dotada

Que fazem dos viventes ser amada

Que mesmo em vida faz de amor
morrer!

O gnio que vos faz enobrecer,

Virtude e graa de que sois
c'roada

Vos fazem do esposo ser amada

(Quanto  doce no mundo tal
viver!)

A natureza nessa obra primorosa,

Obra que dentre todas as mais
brilha,

Ostenta-se brilhante e majestosa!

Vs sois de vossa me a cara
filha,

Do esposo feliz, a grata esposa,

Todos os dotes tens,  Petronilha.

A SAUDADE [41]

Ao meu primo o Sr. Henrique Jos
Moreira

Meiga saudade!  Amargos
pensamentos

A mente assaltam de valor exausta,

Ao ver as roxas folhas delicadas

 Que singelas te adornam.

Mimosa flor do campo, eu te sado;

Quanto s bela sem seres
perfumada!

Que te inveja o jasmim, a rosa e o
lrio

 Com todo o seu perfume?

Repousa linda flor, num peito f
'rido,

A quem crava sem d a dor funesta,

O horrvel punhal, que fere e
rasga

 Um dbil corao.

Repousa, linda flor, vem, suaviza

A frgua que devora um peito ansioso,

Um peito que tem vida, mas que
vive

 Envolto na tristeza!...

Mas no... deixo-te a causando
inveja;

No partilhes a dor que me
consome,

Goza a ventura plcida e
tranqila,

 Mimosa flor do campo.

JLIA [42]

Teu rosto meigo e singelo

Tem do Cu terno bafejo.

Tu s a rosa do prado

Desabrochando ao albor

Abrindo o purpreo seio,

Abrindo os cofres de amor.

Tu s a formosa lua

Percorrendo o azul dos cus,

Retratando sobre a linfa.

Os seus alvacentos vus.

Tu s a aurora formosa

Quando dalm vem surgindo;

E que se ostenta garbosa

ureas flores espargindo.

Tu s perfumada brisa

Sobre o prado derramada

Que goza os doces sorrisos

Da formosa madrugada.

Tua candura e beleza

Tem de amor doce expresso

s um anjo, minha Jlia,

Donde nasce a inspirao.

Quando a terra despe as galas

E os mantos da noite veste,

Vejo brilhar tua imagem

L na abbada celeste.

Nela vejo as tuas graas,

Nela vejo um teu sorriso

Nela vejo um volver d'olhos

Nascido do paraso.

s  Jlia, meiga virgem

Que temente ora ao Senhor;

So teus olhos duas setas.

O teu todo  puro amor.

MEU ANJO [43]

Um anjo desejei ter a meu lado...

E o anjo que sonhei achei-o em
ti!...

C. A. DE S

s um anjo damor  um livro
douro,

 Onde leio o meu fado

s estrela brilhante do horizonte

 Do Bardo enamorado

Foste tu que me deste a doce lira

 Onde amores descanto

Foste tu que inspiraste ao pobre
vate

 Damor festivo canto;

 sempre nos teus cantos sonorosos

 Que eu bebo inspirao;

Risos, gostos, delcias e venturas

 Me d teu corao.

teu nome que trago na lembrana

 Quando estou solitrio,

Teu nome a orao que o peito reza

 D'amor um santurio!

E tu que s minha estrela, tu que
brilhas

 Com mgico esplendor,

Escuta os meigos cantos de
minhalma

 Meu anjo, meu amor.

Quando sozinho, na floresta amena

 Tristes sonhos modulava,

No em lira d'amor  na rude
frauta

 Que a vida me afagava,

Tive um sonho d'amor; sonhei que
um anjo

 Estava ao lado meu,

Que com ternos afagos, com mil
beijos

 Me transportava ao cu.

Esse anjo d'amor descido acaso

 De l do paraso,

Tinha nos lbios divinais,
purpreos

 Amoroso sorriso;

Era um sorriso que infundia n'alma

 O mais ardente amor;

Era o reflexo do formoso brilho

 Da fronte do Senhor.

 anjo sonhado, cara amiga,

 A quem consagro a lira,

s tu por quem minh'alma sempre
triste

 Amorosa suspira!

Quando contigo, caro bem, d'aurora

 O nascimento vejo

Em um bero florido, e de ventura

 Gozarmos terno ensejo;

Quando entre mantos d'azuladas
cores

 A meiga lua nasce

E num lago de prata refletindo

 Contempla a sua face;

Quando num campo verdejante e
ameno

 Dum aspecto risonho

Ao lado teu passeio; eu me recordo

 Do meu to belo sonho

E lembra-me esse dia venturoso

 Em que a vida prezei

Que vi teus meigos lbios me
sorrirem,

 Que logo te adorei!

Nesse dia sorriu a natureza

 Com mgico esplendor

Parecia augurar ditoso termo

 Ao nosso puro amor.

E te juro, anjo meu, ditosa amiga,

 Por tudo que h sagrado,

Que esse dia trarei junto ao teu
nome

 No meu peito gravado.

E tu que s minha estrela, tu que
brilhas

 Com mgico esplendor,

Escuta os meigos cantos de
minh'alma,

 Meu anjo, meu amor!

UM SORRISO [44]

Em seus lbios um sorriso

 a luz do paraso.

GARRET

No sabes, virgem mimosa,

Quanto sinto dentro d'alma

Quando sorris to formosa

Sorriso que traz-me a calma:

Brando sorriso d'amores

Que se desliza entre as flores

De teus lbios to formosos;

Doce sorriso que afaga

Do peito a profunda chaga

De tormentos dolorosos.

Quando o diviso amoroso

Por sobre as rosas vivaces

Torno-me louco, ansioso,

Desejo beijar-te as faces;

Corro a ti... porm tu coras

Logo sbito descoras

Arrependida talvez...

Na meiga face t'imprimo

Doce beijo, doce mimo

Da paixo que tu bem vs

Eu gosto, meiga donzela,

De ver-te sorrindo assim

Semelhas divina estrela

Que brilhas s para mim:

s como uma linda rosa

Desabrochando mimosa

Ao respiro da manh:

s como serena brisa

Que no vale se desliza,

Seu mais terno e doce af.

O brando favnio ameno;

Da fonte o gemer sentido,

Da lua o brilho sereno

Sobre um lago refletido

No tem mais doces encantos

Que, sobre os punceos mantos

Dos lbios teus um sorriso.

Sorriso que amor me fala

Como d'alva o encanto, a gala

Quando serena a diviso.

Sorri, sorri, que teu sorriso
brando

 Minhas penas acalma;

 como a doce esp'rana realizada

 Que as nsias desvanece!

E se queres em troca dum sorriso

 Uma prova de amor

Vem para perto de mim m' escuta ao
peito

 Na face um beijo toma...

PARDIA [45]

Se eu fora poeta de um estro
abrasado

Quisera teu lindo semblante
cantar;

Gemer eu quisera bem junto a teu
lado,

Se eu fora uma onda serena do mar;

Se eu fora uma rosa de prado
relvoso,

Quisera essa coma, meu anjo,
adornar;

Se eu fora um anjinho de rosto
formoso

Contigo quisera no espao voar;

Se eu fora um astro no cu
engastado

Meu brilho, quisera pra ti s
brilhar;

Se eu fora um favnio de aromas
pejado

Por sobre teu corpo me iria
espraiar;

Se eu fora das selvas umave
ligeira

Meus cantos quisera pra ti s
trinar;

Se eu fora um eco de nota fagueira

Fizera teu canto no cu ressoar;

Mas eu no sou astro, poeta, ou
anjinho,

Nem eco, favnio, nem onda do mar;

Nem rosa do prado, ou ave ligeira;

Sou triste que a vida consiste em
te amar.

A SAUDADE [46]

Saudade!  casta virgem,

Qu'inspiraste a Bernardim,

Nos meus dias de tristeza

Consolar tu vens a mim.

E G. BRAGA

 Saudade! dalma ausente, o
acerbo impulso,

Mgico, doce sentimento dalma

Mstico enleio que nos cerra doce

O esprito cansado!... Oh!
saudade,

Para que vens pousar-te envolta
sempre

Em tuas vestes roxeadas tristes,

Nas dbeis cordas de minhharpa
dbil?!...

Doce chama me ateias dentro
dalma.

Meiga esperana que me nutre em
sonhos

De cndida ventura!...  saudade,

D'alma esquecida o despertar
pungente;

Doce virgem do Olimpo rutilante,

Que co'a taa na destra  terra
baixas

E o agro, doce lquido entornando

Em corao aflito, meiga esparges

Indizvel encanto, que deleita,

Melanclicas horas num letargo

D'esprito cansado, dalma aflita,

Que plcida flutua extasiada,

Na etrea regio, morada excelsa

Do sidreo esplendor que a mente
inflama;

Tu que estreitas minhalma em doce
amplexo

Preside ao canto meu, ao pranto,
s dores.

Quando a noite vaporosa,

 Silenciosa,

Cinge a terra em manto denso;

Quando a meiga, a clara Hebe.

 Cor de neve

Branda corre o espao imenso.

Quando a brisa suspirando,

 Sussurrando,

Move as folhas do arvoredo,

Qual eco dum som tristonho

 Que num sonho

Revela ao Vate um segredo.

Quando, enfim, se envolve o mundo

 Num profundo

Silncio que ao Vate inspira,

Vens a meu lado sentar-te,

 Vens pousar-te.

Nas cordas de minha lira.

E me cinges num abrao

 Doce lao

Que se aperta mais, e mais;

E depois entre os carinhos,

 Teus espinhos

Em minh'alma repassais!

Entre a melancolia

 De poesia

Me dais santa inspirao

Da alma solto uma endeixa,

 Triste queixa,

Triste queixa, mas em vo.

Na morada estelfera vagueia

Minhalma em teus carinhos
absorta.

D'areo bero, sobre ameno encosto

Adormece de amor, junto a teu
lado,

E geme melanclica... e suspira,

T que desponte da ventura a
aurora!

NO LBUM DO SR. F. G.
BRAGA [47]

Pago ao gnio um tributo merecido

Que a gratido me inspira;

Fraco tributo, mas nascido d'alma.

MAG. SAUDADES

Qual descantou na lira sonorosa

O terno Bernardim com voz suave;

Qual em tom jovial cantou Elmano

Brandas queixas de amor, tristes
saudades

Que em seus cantares mitigou; oh!
Vate,

Assim da lira tu, ferindo as
cordas,

Cantas amores que em teu peito
nutres,

Choras saudades que tu'alma sente;

Ou ergues duradouro monumento

 cara ptria que distante choras.

Do Garrett divino  o Vate excelso

Renasce o brilho inspirador das
trovas,

Das mimosas canes que o mundo
espantam

Nesse canto imortal sagrado aos
manes

Do famoso Cames, cantor da Lsia

So carmes que te inspira o amor
da Ptria.

Nele relatas em divinos versos

O exmio Trovador, a inteira vida

J no campo de Marte; j no cume

Do Parnaso bradando aos povos
todos

Os feitos imortais da lusa gente!

Nessa epopia, monumento excelso

Que em memria do Vate  ptria
ergueste,

Ardente se desliza a etrea chama,

Que de Homero imortal aos
sucessores

Na mente ateia o cu com forte
sopro!

Euterpe, a branda Euterpe nos teus
lbios

Da taa douro, derramando o
nctar

Deu-te a doce com que outrora

Extasiou Virglio ao mundo
inteiro!

'Empunha a lira d'ouro, e canta altivo

Um Tasso em ti se veja  o estro
excelso

De Cames imortal, te assoma 
mente;

E de verde laurel cingida a fronte

Faz teu nome soar na voz da
fama!'

Foram estas frases com que Apolo

Poeta te fadou quando nasceste,

E em doce gesto te imprimiu na
fronte

Um astro de fulgor, que sempre
brilha!

Ah! que no possam estes pobres
versos,

Que nureas folhas de teu belo
livro

Trmulo de prazer coa destra
lano,

Provar-te o assombro, que ao ouvir
te sinto!

Embora!.., entre os arquejos de
minhalma

Do opresso corao entre os
suspiros

As brandas vibraes da pobre lira

Vo em tua alma repetir sinceros

Votos destalma que te prove o
assombro

Que sinto ao escutar-te as notas
d'harpa!

A UMA MENINA [48]

La esencia de las flores

Tu dulce aliento sea.

QUINTANA

Desabrochas ainda; tu s bela

 Como a flor do jardim;

s doce, s inocente, como  doce

 Divino Querubim.

Nas gotas da pureza inda se anima

 A tu'alma infantil;

No te nutre inda o peito da
malcia

 Mortfero reptil.

Quando sorris trasbordam de teus
lbios

 As gotas dinocncia;

No teu sorriso se traduz o encanto

 Da tua pura essncia.

s anjo, e so os anjos que
confortam

 Os tormentos da vida;

Vive, e no haja em teu semblante
a prova

 De lgrima vertida!

O GNIO ADORMECIDO [49]

Ao Ilmo. Sr. Antnio Gonalves
Teixeira e Sousa

Do Grego Vate expande-se a
harmonia

Em teus sonoros carmes! Na harpa
d'ouro

Do sacro Apollo, Trovador,
dedilhas

Doces cantos que o esprito
arrebata

 Ao recinto celeste!

Em citra de marfim, com fios
douro

Cantaste infante, para que mais
tarde

A fama ativa as tubas embocando

Com voz imensa proclamasse aos mundos

 Um gnio americano!

E tu dormes, Poeta?! Da palmeira

No verde tronco penduraste a lira.

Aps nela entoar linda epopia,

Que mau condo funesto  nossa
ptria

 Faz soporoso o Vate!

Vatel Vate!... Que morre
harmonioso!

Semelha um som ao respirar das
brisas

Nas doces cordas do alade d'ouro

Pendurado no ramo da palmeira,

 Que sombreia o regato!

Desperta,  Vate, e libertando o
estro

Desprende a voz, e os cnticos
divinos;

Deixa entornar-se em teus ungidos
lbios

Como a ribeira deslizando o corpo

 Cercado de boninas.

Sim,  Vate, o teu canto  to
sonoro

Como os sons da Serfica harmonia

Dos sonorosos cantos sublimados

Do doce Lamartine  o Bardo
excelso.

 Da Frana o belo Gnio!

Toma a lira de novo, e um canto
vibra,

E depois ouvirs a nossa terra

Orgulhosa dizer:  Grcia, emudece

Dos vates bero, abrilhantado
surge

 O Gnio adormecido!

O PROFETA [50]

(FRAGMENTO)

...ungido crente,

Alma de fogo, na mundana argila.

M. A. A. AZEVEDO

Do sacro templo, sobre as negras
runas

 l medita o profeta

Com fatdica voz, dizendo aos
povos

 Os decretos de um Deus;

Ao rpido luzir do raio imenso

 Traando as predies.

Dos soltos furaces, libertas asas

 Adejam sobre a terra:

Do sacro templo em denegridos
muros

 Horrssono gemendo

L fende o seio de pesadas nuvens

 O fulminoso raio

Sinistro brilho, que o terror
infunde.

 Que negro e horrvel
quadro!

Propnquo esboo da infernal
morada!...

..........................................................

E o profeta ergue a fronte, a
fronte altiva

Cheio de inspirao, de vida
cheio;

Revolvem-se na mente escandescida

Inspiradas idias que Deus cria

Nesse cofre que encerra arcanos
sacros;

Revolvem-se as idias, pensamentos

Que num lampejo abrangem as idades

 Rpidas aglomeradas

Nesse abismo que os sculos
encerra!

 Profeta, em que meditas,

esprito de Deus que te revela?

 Um novo cataclismo

Que a terra inunde e a humanidade
espante?

De guerras sanguinosas longa
srie?

A desgraa talvez dum povo
inteiro?

Enviado de Deus, conta-me os
sonhos

Que te revelam do futuro as sortes

Quando absorto em sacros
pensamentos

A fronte reclinando tu dormitas

Essas vises que  hora do
silncio

Quando reina o pavor, e as trevas
reinam

Os cus ensaiam quo porvir
revelam:

E quando  bela a noite, quando
brilha

 A prateada lua

Lmpada argntea, que alumia as
trevas

 Quando fulguram meigos

Formosos, belos astros, que
semelham

 Longa srie de luzes

Que a lousa aclaram do sepulcro
imenso:

 O que te inspira o cu?

......................................................

J sossega a tormenta;  refreados

jazem mudos os ventos; s a brisa

Plcida expele as condensadas
nuvens;

Envolta em negro vu l brilha
acaso

Medrosa estrela que sorri medrosa:

St muda a atmosfera! L se ergue

De sbito o profeta, (sacra gota

Na mente lhe verteu do Eterno a
destra),

Do Supremo Arquiteto o mando grava

No extenso muro do arruinado
templo!...

O PO D'ACAR [51]

Salve, altivo gigante, mais forte

Que do tempo o cruel bafejar,

Que avanado campeias nos mares,

Seus rugidos calado a escutar.

Quando Febo ao nascente aparece

Revestido de gala e de luz,

Com seus raios te inunda, te
beija,

Em tua fronte brilhante reluz.

Sempre quedo, com a fronte
inclinada,

Acoberto dum vu denegrido;

Tu pareces gigante que dorme

Sobre as guas do mar esquecido.

s um rei, sobranceiro ao oceano,

Parda nvoa te cobre essa fronte,

Quando as nuvens baixando em ti
pairam

Matizadas do sol no horizonte.

Fez-te o Eterno surgir dentre os
mares

Cuma frase somente, cum grito

Pos-te  fronte gentil majestade,

Negra fronte de duro granito.

Ruge o mar, a procela te aoita,

Feros ventos te aoitam rugindo;

O trovo l rebrama furioso,

E impassvel tu ficas sorrindo.

E da foice do tempo se solta

Sopro fero de breve everso,

Quer feroz te roubar para sempre;

Tu sorris, qual sorris ao trovo.

Salve, altivo gigante, mais forte

Que do tempo o cruel bafejar,

Que avanado campeias nos mares,

Seus rugidos calado a escutar.

SONETO A S. M. O
IMPERADOR, O SENHOR D. PEDRO II [52]

Nesse trono Senhor, que foi
erguido

Por um povo j livre, e sustentado

Por ti, que alimentando as leis, o
estado

Hs na Histria teu Nome
engrandecido!

Nesse trono, Senhor, onde
esculpido

Tem  destra do Eterno um nome
amado,

Vs nascer este dia abrilhantado

Sorrindo a ti, Monarca
esclarecido.

Eu te sado neste dia imenso!

Da Clemncia, Justia e s
Verdade,

Queimando s piras perfumoso
incenso.

Elevado aos umbrais da imensidade

Ters fama, respeito e amor
intenso.

Um Nome transmitindo  Eternidade!

Rio, 2 de dezembro de 1855.

Pelo seu reverente sdito

J. M. M. d'Assis.

 MADAME ARSNE CHARTON
DEMEUR [53]

Herona da cena, que entre as
flores

Que a senda esmaltam da carreira
darte

Em que orgulhosa pisas, ostentando

A fronte alm das sombras que
forcejam

Debalde por calcar teu nome e
glria,

Colhes coroas mil com que te
adornas

Benvola me escuta. Eu sou bem
fraco,

Mas poeta me creio, se o teu nome

Na lira acordo que meu peito
exalta.

Que val o templo, se lhe falta o
nume?

No nos fujas daqui, Charton
divina!

Deserto fica o majestoso alcar

Que Verdi exalta com flores de
glria!

Deserta a cena onde pisaste,
ornando

A fronte altiva de lauris, de
flores,

Em face a um povo que aplaudindo o
gnio

Com palmas estrondosas, te h
mostrado

Quanto estima o talento, quanto te
ama!

Deserto o nosso esprito de gozos,

Suaves sensaes que o ser enleva;

Da tua bela voz ermo de influxos,

Repercutindo apenas dentro d'alma

Os ecos do teu canto sonoroso,

A cada som pungindo uma saudade!

Oh sol que o cu das artes
iluminas,

 cedo o ocaso teu na nossa terra!

Um dia mais, um dia mais de
enlevos:

Fica, Charton  contigo a luz
gozamos;

Sem ti  sombria treva a cena
envolve!

Anjo de Melodias, quem soubera

Imitar de teu peito  harpa
celeste -

O meigo som, para louvar num hino,

'Teu canto que tu mesma hs j
louvado!

Quem me dera, Charton, sentir na
mente

De Alfredo de Musset o gnio em
chamas

De imenso ardor, para com voz
altiva

Levantar-te um padro, mais
duradouro

Que o mrmor ou que o bronze, que
lembrasse

Junto do nome teu meu nome
obscuro!

Mas no posso obter do austero
fado

Glria maior que admirar-te o
gnio

Num pobre canto, que o teu canto
inspira!

Musa gentil dos versos que ora
teo,

Quando longe de ns, l noutro
palco,

Traduzindo as de Verdi obras
sublimes,

Outros mortais que anelam ver teu
rosto

E ouvir teu canto cheio de
harmonias,

Com meiga e doce voz extasiares,

Recorda o canto meu,  recorda o
vate

Que mais que todos te admira o
canto,

Talento e garbo que ostentas na
cena!

............................................................

No mais minharpa!  Inda uma vez
te peo,

No nos fujas daqui, Charton divina!

Inda uma vez de teu talento o
brilho

Esparge sobre ns, que eu te
asseguro

No nos falece o santo entusiasmo

Com que j te acolhemos!

Grande eterno,

Refulge o nume no altar da glria.

Grande  Stoltz, mas Stoltzs h
muitas;

Charton s uma, que no mundo
impera!

O MEU VIVER [54]

Chama-se a vida a um martrio
certo

Em que a alma vive se morrer no
pode,

 crer que h vida p'ra o arbusto
seco,

Que as folhas todas para o cho
sacode.

Dizer que eu vivo... e minha me
perdi,

Minha alma geme e o corao de
amores,

 crer que um filho, sem a me...
sozinho,

Tambm existe, com pungentes
dores.

Dizer que vivo, se ausente existo

Da amante terna, to formosa e
pura,

E crer que triste desgraado preso

Vive tambm l na masmorra escura.

Quero despir-me desta vida m,

Quero ir viver com minha me nos
cus,

Quero ir cantar os meus amores
todos,

Quero depois em ti pensar, meu
Deus!

DORMIR NO CAMPO [55]

Ao terno suspirar do arroio
brando,

Quanto  belo o repouso em campo
ameno!

Em noite de vero, que a brisa
geme,

Em noite em que o luar brilha
sereno!

Acorda-se alta noite: no silncio

Envolta jaz a terra adormecida;

Verseja-se um minuto,  noite, 
lua,

E torna-se a dormir... Que bela
vida!

Se se ouve o piar dave noturna

Solta-se a ela mesma um doce
canto,

Lana-se extremo olhar da lua ao
brilho

Estorna-se a dormir sob seu manto.

No h vida melhor por certo; eu
juro

No a trocar por outra ainda que
bela;

No h nada no mundo mais sublime

Que um homem contemplar a sua
estrela.

 belo o despertar, abre-se os
olhos

Suavemente as plpebras se
erguendo

Dir-se-ia a serena e branda
aurora.

Que vai rubra madeixa
desprendendo.

Senta-se abrindo os olhos,
bocejando.

Lanando  banda a destra agarra a
lira,

Preludia-se um canto, um canto
dalma

E o terno corao terno suspira.

Erguendo-se sacode a vstia, as
calas,

Compe-se o vesturio com asseio,

E cuidadoso segurando a lira,

Vai-se dar pelo campo almo
passeio.

Procura-se depois uma serrana

E se tece uma endeixa aps um
beijo

(Que  de beijos que o vale se
sustenta)

Embora  face ardente assome o
pejo.

No h vida melhor, por certo, eu
juro

No a troco por outra, ainda que
bela;

No h nada no mundo mais sublime

Que amar-se alguma rstica
donzela!

CONSUMMATUM EST! [56]

Povos, curvai-vos

A redeno do mundo consumou-se.

JOO DE LEMOS

I

Na treva sombria de sacra
tristeza,

Gemendo se envolvem a terra e os
cus,

E a alma do crente num cntico
acesa,

Revolve na idia, suplcio de um
Deus.

Recorda a cidade que outrora folgando

Sorria descrente de um Deus 
paixo,

E hoje proscrita l dorme
escutando

Do Eterno a palavra que diz:
Maldio!

De Cristo os martrios, a dor to
intensa

De santa humildade, so provas
fiis,

E as gotas de sangue, as bases da
crena,

Da crena que fala nos povos, nos
reis!

Entremos no Templo, e um cntico
dalma

Em ondas de incenso mandemos aos
cus,

E ao mestre divino, de mrtir com
a palma,

Curvados oremos num cntico a
Deus!

II

Senhor! entre apupadas dos algozes

Foste levado ao cimo do Calvrio

 Para a morte sofrer!

De Deus ouviste as to sagradas
vozes,

Cheio de sangue envolto em um
sudrio

 Tu quiseste morrer!

Quiseste, porque assim se revogava

Da pena eterna a to fatal
sentena

 Que o pecado traou!

E o sangue que teu corpo derramava

Era alto preo e animava a crena,

 Que o pecado abismou!

E caminhaste ao Glgota, levando

A cruz onde por ns foste cravado:

 Cruenta imolao!

O sangue teu em jorros borbotando,

E teu corpo de aoites to
chagado,

 Sem d, sem compaixo!

Oh! Cristo! e tu sofreste tais
injrias!

Foste arrastado ao cimo do
Calvrio,

 Morto a plebe te quis!

No quiseste embargar o ardor das
frias;

Tu, cuja voz a Lcifer tartreo

 Curva a negra cerviz!

Perdoai-lhes, Senhor! disseste,
quando

Quase a expirar os olhos
levantaste

 Ao cu anuviado,

E j da morte glido arquejando,

Com fraca e triste voz
pronunciaste:

 'Tudo est
consumado!'

E o mundo remiu-se! De Deus 
morada,

Gozando outra vida, se eleva
Jesus!...

Cristos! penetremos a casa
sagrada,

E a Cristo adoremos em torno da
cruz!

SAUDADES [57]

Chora meu corao, minhalma geme

De saudades de ti, minha querida;

J no posso no mundo ter prazer,

J meu corao no tem mais vida.

Tenho de ti saudade, s lastimo

Ter cedo minha me perdido a vida;

Choro tanto por ela... por ti
sofro

Minha vida, mulher,  to sentida!

Tenho de ti saudades, da tua
imagem;

Qual o exilado s, em terra
estranha,

Eu cedo morrerei, pressinto
nalma;

No se pode viver com dor tamanha.

Parece que no cu bem negra nuvem

j marcou meu destino pelo mundo!

Tenho de ti saudades,  meu anjo.

No meu peito o pesar  to
profundo!

Se perdi minha me sendo to moo,

Se padeo de ti tanta saudade,

No posso existir no mundo triste;

 melhor eu morrer nesta idade!

LGRIMAS [58]

 memria de minha me

H uma dor que no se apaga
dalma,

Lgrima triste que pendente existe

 Da face do infeliz:

 gemido que mata e no se acalma,

Que torce o corao, e se
persiste,

 A existncia maldiz.

Essa dor eu senti quando vi morta

Minha terna me... perdo, meu
Deus.

 Se quero j morrer;

Esta vida de dor perder que
importa?

Quero com minha me morar nos
cus,

 Com os anjos viver.

Eu perdi minha me... era uma
santa,

Que tinha a minha vida neste
mundo,

 Minhalma e meu amor!

E foi o meu pesar, minha nsia
tanta,

Que a vida quis deixar num ai
profundo,

 Morrer tambm de dor.

S lgrimas de sangue eu sinto
agora

Afogaram-me os olhos, e o martrio

 Emurcheceu-me a vida;

Eu tenho pouca idade, mas embora,

Sente apagar-se da existncia o
crio

 Minhalma amortecida.

Maldigo minha vida, por seu filho

A minha pobre me chama nos cus

 Quando eu rezo por ela;

Choro vendo que s no mundo
trilho;

Quero com minha me viver, meu Deus,

 No cu, bem junto dela!

NO? [59]

Vi-te: em teu rosto voluptuoso e
belo

O anjo formoso dos amores vi!

Amor ardente num olhar, num elo

Destes teus olhos divinais senti!

Vi-te: e prendeu o teu esbelto
talhe

O mimo, a graa do teu corpo em
flor.

E esses teus lbios como a flor de
um baile

Que s auras murcham de festivo
amor.

Vi-te: e eras minha ao meu olhar
magntico

E te prendias a fugir de mim!

Fronte de lrios de um candor
anglico

Em um perfume me dars um  sim!

Um sim de envolta quele
olhar ardente

Luz de teus olhos, divinal fulgor.

Um sim de envolta quele
rir demente

Reflexo dalma a delirar de amor!

Um sim! E ao som do teu
falar suave

 minha voz extinguirei o som

Onde gorjeia uma garganta de ave;

Que vale ao homem da palavra o
dom?

ntima frase que s nasce dalma

Terei nos olhos pra dizer-t'o
ento

E em troca dela pra colher a
palma

Do teu amor, anjo terrestre...
no?

RESIGNAO [60]

Adeus!  o meu suspiro derradeiro!

 a ltima iluso que me embebia!

Apagou-se-me o sol das esperanas

E veio a noite sepulcral
sombria...

Adeus..., perdoa a um doido
apaixonado

Uma hora de iluso e de delrio:

Era fatalidade. Aps um sonho

Veio a croa da dor e do martrio!

Se ao hlito fatal da desventura

Emurcheceu a flor dos meus afetos,

Se no pousaste em minha fronte
ardente

Amorosa uma vez teus olhos pretos;

No te crimino, no; teu culto 
livre.

Viver nas iluses  minha sina:

No fui fadado pra banhar meus
lbios

Nos raios dessa fronte peregrina!

AMANH [61]

Amanh quando a lmpada da vida

Na minha fronte se apagar,
tremendo,

 Ao sopro do tufo,

Oh! derrama uma lgrima sincera

Sobre o meu peito macilento e
triste,

 E reza uma orao!

Ser uma saudade verdadeira,

Uma flor que me arome a sepultura,

 Um raio sobre o gelo...

Ouvirei a cano das tuas dores,

E levarei saudades bem sombrias

 Deste meu pesadelo.

Lembrarei alm-tmulo essas noites

Misteriosas festivais e belas

 Da estao dos amores!

Noites formosas, para amor
criadas;

Que coroavam nosso amor to puro

 De ventura e de flores!

Lembrarei nosso amor... E o teu
pranto

Ardente como a luz de um sol do
estio

 Ir banhar-me a campa

E as lgrimas leais que
derramares,

O astro beijar  que pelas noites

 No oceano se estampa!

Um olhar, um olhar desses teus
olhos!

Eu o peo, mulher! sobre o meu
tmulo

 Um olhar de afeio!

Assim o sol  o ardente rei do
espao

Deixa um raio cair nas folhas
secas

 Que matizam o cho!

Um olhar, uma lgrima, uma prece,

 quanto basta em nica lembrana.

 Teresa, ao teu cantor.

Chora, reza, e contempla-me o
sepulcro

E na outra vida de um viver mais
puro

 Ters o mesmo amor,

A*** [62]

Viens, je suis dans la nuit, mais
je puis voir le jour!

VICTOR HUGO

Oh! se eu pudesse respirar num
beijo

O teu hlito ardente e vaporoso.

E na febre do amor e do delrio

Sobre o teu seio estremecer de
gozo!

Oh! se eu pudesse nessa fronte
bela

A coroa depor dos meus amores,

E embevecer-me como em sonho areo

De teus olhos nos mgicos
fulgores.

Ai! respirara ento ainda uma
vida.

 Oh plida viso!

Nessa flor que os sentidos
embriaga

 E aroma o corao!

Vem; d-me o teu amor; careo dele

 como do sol a flor,

Reanima a cinza de meu peito
morto,

 Ai! d-me o teu amor!

DEUS EM TI [63]

 quando eu sinto embriagar-me o
peito

 Um mstico vapor,

E  luz fecunda desses olhos belos

Da minha alma ter vida e alento 
a flor;

 quando as tranas dessa fronte
loura

 Prendem o meu olhar,

E sinto o corao tremer ardente.

Como uma flor aos zfiros do mar;

 ao ouvir-te as msticas idias

 To cheias de paixo,

Nessa eloqncia lnguida e
profunda

 Que fala ao corao;

 ao sentir as tuas asas brancas,

  meu anjo de amor,

Que eu reconheo a mo do rei da
terra

 E creio no Senhor! 

ESTA NOITE [64]

Os teus beijos ardentes,

Teus afagos mais veementes,

Guarda, guarda-os, anjo meu;

Esta noite entre mil flores,

Um sonho todo de amores

Nos dar de amor um cu!

VEM! [65]

Oh! laisse-moi t'aimer pour que
j'aime la vie,

Pour ne point au bonheur dire un
dernier adieu!

ALEXANDRE DUMAS

Como ao luar da noite as flores
dormem,

Vem dormir sob a luz dos olhos
meus!

Ho de as brisas beijar-te as
tranas belas

E desmaiar de amor nos seios teus!

Como um crio fantstico de amores

Tanta luz sobre a praia a lua
entorna!

Oh! deixa aos raios do luar
saudoso

Ornar de flores essa fronte morna!

Deixa que como um doido, um
insensato

Eu me embeba em teus olhos
transparentes,

E embalado num sonho fervoroso.

Oua-te ao peito as pulsaes
ardentes!

 to doce! to belo estar
contigo!

Pobre andorinha errante dos
amores,

Achaste um corao! na primavera

No desmaiam as aves, nem as
flores.

Se a capela de noiva desfolhaste

Nas noites tuas, nos delrios teus,

Quimporta? ainda nas asas dos
amores

Podes voar ao cu, anjo de Deus!

Inda o teu corao ardente e puro

Como a fnix das cinzas pode
erguer-se

E ungir-se com os blsamos
celestes,

E no Jordo do amor inda
embeber-se!

Inda os mgicos sonhos de ventura

Podem embalsamar-te as primaveras

E num culto platnico e fervente

Querer-te um corao e amar
deveras!

Ergue-te pois! vem perfumar tua
alma

Com as rosas festivas dos amores,

E dourar minhas crenas fugitivas

Com a luz de teus olhos sedutores.

Vem!  to doce amar nas noites
belas!

Vem remir-te no amor, anjo do
Deus!

Ho de os meus beijos aquecer-te a
fronte,

E as brisas desmaiar nos seios
teus!

ESPERANA [66]

No lbum do Sr. F. G. Braga

Pobre romeiro da poente estrada,

Cantei passando pelo val da vida

 Ao sopro do aquilo

Ouvi-te um canto. Minha voz
cansada

Vem modular-te a saudao sentida,

 Como de irmo a irmo!

Aos sons acordes da tua harpa
ardente

Venho juntar uma cano saudosa

 Deste alade em flor...

A poesia  um dom onipotente;

No desmintamos a misso
gloriosa,

 Profetas do Senhor!

Beijarei essa tnica sagrada

Que sobre os ombros o Senhor te
dera

 Como um manto real;

Irei contigo do porvir na estrada,

Onde rebenta em flor a primavera

 Das pontas do espinhal.

Irmo de crena! eu irei contigo

Sonhar nas tendas que ao passar
entraro

 Extintas geraes;

Rezarei junto a ti no altar
antigo,

Onde muitos outrora ajoelharo

 Em salmos e oraes.

Quando o porvir em flgido
horizonte

Estende-se arraiado de venturas

 E convida a esperar,

Deve-se erguer de entusiasmo a
fronte,

Venha embora o luar das sepulturas

 A esperana gelar!

O sonho em que o esprito se
embala

Vem do cu como anglico segredo

  fronte do cantor;

Mas precoce o corao estala

 que Deus julgou bem ergu-lo
cedo

 Para um mundo melhor!

Sonhemos pois! Meu tmido alade

Da tua harpa unirei  nota ardente

 Em uma s cano

Este afeto fraterno  uma virtude,

Deixo-te aqui a saudao de um
crente

 Como de irmo a irmo.

A MISSO DO POETA [67]

No lbum do Sr. Joo Dantas de
Sousa

 Musa

Vs, meu poeta, em torno estas
colinas,

Como tronos gentis da primavera?

Abrem-se ali as plidas boninas,

E em volta dos cips se enrosca a
hera!

 o sol-posto.  A folha, o mar, e
o vento,

Tudo murmura de saudade um hino.

Vem sonhar neste morno isolamento.

E dormir no meu seio peregrino!

 Poeta

Vemos, sim!  Esta noite o luar
saudoso

H de tremer nestas folhagens
belas.

To s vegeto!  O alade ansioso

Vem enfeitar de anglicas capelas!

Pousa-me a fronte em tuas mos
celestes...

Mas  uma iluso... cruel mentira!

Hei de ao soar do vento nos
ciprestes

Erguer num canto as vibraes da
lira...

 Musa

Sofrer, quimporta?  Vem! Morrem
as dores

Da solido nos recnditos
mistrios!

Nascem  bordo do sepulcro as
flores,

E beija o sol o p dos cemitrios.

 Poeta

Eu sofro tanto!  Perenais
espinhos

Orlam-me a estrada.... A sepultura
 perto!

E nem o doce aroma dos carinhos...

Meu Deus! Nem uma flor neste deserto!

E quantos desta doida caravana

Estorceu no areal uma agonia,

Esperando debalde em noite insana

Verem realizar-se uma utopia!

E como crer ento? Tenho aqui
morta

Uma iluso de minha primavera...

O sonho  como um feto que se
aborta,

Um porvir que se ergueu numa
quimera!

A realidade  fria. Erga-se embora

A flor do corao a um cu
dourado,

Vem a turba maldita em negra hora,

E as flores mata de um porvir
sonhado!

 Musa

Por que descrer assim?   dura a
estrada,

Mas h no termo muito amor
celeste,

A glria, poeta,  uma flor
dourada,

Que s nasce da rama do cipreste.

 Poeta

De um cipreste!...  bem triste
esse conforto!

Quem sabe? uma esperana mal
cabida.

Essa luz que se vaza sobre o morto

Paga-lhe a dor que o sufocara em
vida?

 Musa

Mas  tua misso,... Do pesadelo

Hs de acordar radiante de
alegria!

Deus ps na lira do infortnio o
selo,

Mas h de dar-lhe muita glria, um
dia!

 foroso sofrer... Deus no futuro

Guarda-te a c'roa de uma glria
santa,

Vem sonhar, este cu  calmo e
puro!

Vem,  tua misso!... Ergue-te e
canta!

O PROGRESSO [68]

Hino da mocidade

Ao St E. Pelletan.

Eppur si muove

Ao som da tua voz a mocidade
acorda,

E olha ousada de face os piamos do
porvir!

Eia! rebenta a flor da longa
estrada,  borda,

E atravs do horizonte h uma
aurora a rir.

E sempre a mesma aurora a rir de
era em era.

E sempre a estrada augusta a
rebentar em flor!

Salve, frtil, gentil, rosada
primavera!

Eterno resvelar do melhor ao
melhor!

A mocidade ergueu-se. Um sculo
dourado

Veio ao bero gentil inocular-lhe
a f;

E na orla a luzir do horizonte
azulado

Mostrar-lhe como um sol a verdade
de p!

A verdade! est a fecunda,
onipotente,

Nossa estrela polar, e bandeira, e
trofu!

Sim! o mundo caminha a um plo
atraente,

Di-lo a planta do vai, di-lo a
estrela do cu!

Ao som da tua voz a mocidade
acorda,

E olha ousada de face os plainos
do porvir!

Eia! rebenta a flor da longa
estrada  borda.

E atravs do horizonte h uma
aurora a rir!

Que tal? que nos importa essa
idia sem fundo

Que estaciona e prende a
humanidade ao p?

Fala mais alto, irmos, este
avanar do mundo

E toda a natureza em um canto, num
s!

Fala mais alto, irmos, a ardente
humanidade!

Marchando a realizar uma misso moral;

pregando uma lei, uma eterna
verdade,

Do progresso subir a mgica
espiral.

Sim! romeira gentil aos sculos se
enlaa!

Na escala do progresso ela no se
detm!

Uma herana moral corre de raa a
raa,

Se ela desmaia aqui, vai triunfar
alm!

Ao som da tua voz a mocidade
acorda,

E olha ousada de face os plainos
do porvir!

Eia! rebenta a flor da longa
estrada  borda.

E atravs do horizonte h uma
aurora a rir!

Eia! num canto ardente erga-se
ousada fronte!

Doure esta caravana um lmpido
arrebol!

Creiam, embora a luz a nascer do
horizonte

Crepsculo sombrio e desmaiar do
sol!

Creiam-no. Um astro se ergue em
cu dourado e puro

E nos mostra com a luz terra de
promisso!

Cerramos sem temor, obreiros do
futuro!

A verdade palpita em nosso corao!

Soa em nossa alma ardente um grito
entusiasta

E s barreiras do tempo uma voz
diz:  Passai!

Morte ao lbio sem f que nos
murmura:  Basta!

Gloria a vs festival que nos
exclama:  Vai!

Ao som da tua voz a mocidade
acorda,

E olha ousada de face os plainos
do porvir!

Eia! rebenta a flor da longa
estrada  borda,

E atravs do horizonte h uma
aurora a rir!

 ITLIA [69]

Despe esses ferros de dormente
escrava,

Que o sol dos livres no horizonte
vem!

Velha cratera  o referver da lava

Atento e curvo todo um sculo tem.

Acorda! o sono da opresso devora!

Ptria de Roma  o Capitlio v!

Plida Itlia  ressuscita agora

O ardor nos peitos  na esperana
a f.

A velha Europa ao teu arfar
cansado

Vem debruar-se em derredor a;

E ao som valente do primeiro brado

Braos e espadas achars por ti.

Apenas bata essa esperada hora

O anjo dos livres se erguer de
p.

Plida Itlia  ressuscita agora

O ardor nos peitos  na esperana
a f.

O sculo  belo. A liberdade canta


Virentes rosas sobre os seios nus!

Feto sublime de uma idia santa

Vem no horizonte por um mar de
luz!

Morte ao opresso que a tremer
descora

E  luz nascente deste sol  no
cr!

Plida Itlia  ressuscita agora

O ardor nos peitos  na esperana
a f.

Ontem a Grcia, como um sol cado,

Toda nas guas afogar a luz;

Das meias-luas o pendo temido

No ilustre solo lhe esmagar a
cruz.

Um brado ergueu-a. Como estava
outrora,

Da Europa  face levantou-se em
p.

Plida Itlia  ressuscita agora

O ardor nos peitos  na esperana
a f.

Pgina bela da grandeza antiga,

Tens inda o selo de um real poder;

Os rijos copos dessa espada amiga

A mo do tempo no quebrou sequer.

A rubra prpura de reinar de
outrora

Hoje uma toga popular no ?

Plida Itlia  ressuscita agora

O ardor nos peitos  na esperana
a f.

A idia  fogo que ateado lavra.

E tudo abrasa nessa ardente ao.

Rompe, desprende essa fatal
palavra;

Outras cativas erguers do cho.

Olha a Polnia escravizada chora:

E o sol dos livres inda espera e
v.

Plida Itlia  ressuscita agora 

O ardor nos peitos  na esperana
a f.

Ao brao impuro de opressor
ingrato,

Bela cativa, no te curves, no!

Da liberdade o sentimento inato

E um incentivo na tremenda ao.

No, no consintas, tu liberta
outrora

Sobre teu colo levantar-se um p.

Plida Itlia  ressuscita agora

O ardor nos peitos  na esperana
a f.

Levanta as tendas. Uma onda brava 

Quebrar-te os ferros pelo mar i
vem!

Velha cratera  o referver da lava

Atento e curvo todo um sculo tem!

Acorda! O sono da opresso devora!

Ptria de Roma  o Capitlio v!

Plida Itlia  ressuscita agora

O ardor nos peitos  na esperana
a f.

A UM POETA [70]

O Sr. P. de Sales Guimares e
Cunha

Non  perduta

Ogni speranza ancor

METASTSIO

Poeta, beija a poeira

Destes speros caminhos

E cinge alegre os espinhos,

Heranas que o gnio tem.

O alade  dom funesto.

Quando uma fronte  fadada

Pela plpebra inspirada

Debruar-se ao pranto vem!

E o pobre gnio passando

Por noite tempestuosa

De uma espiral escabrosa

Sobe os speros degraus;

E o anjo dos pesadelos,

As negras asas abrindo.

Vai embal-lo sorrindo

Num bero de sonhos maus.

E todo um mundo criado

Nas ondas da fantasia

Um sopro de ventania

Desfaz por noite fatal!...

Os olhos sangram na sombra

Um pranto desesperado,

E o gnio morre abraado

Na cruz do seu ideal.

Irmo!  sangrenta a sina,

Mas os louros valem tanto...

Cada uma gota de pranto

E uma pstuma flor.

As brisas da primavera

Vm depois do inverno frio,

E  sempre por cu sombrio

Que nasce aurora melhor.

Fatalidade!  Quimporta?

Deus nos deu esse fadrio...

Mas no cimo do Calvrio

H muita palma a florir,

Toma o madeiro do Cristo,

Beija os espinhos da fronte,

E vers pelo horizonte

Erguer-se o sol do porvir.

A PARTIDA [71]

Entretanto o cu se levanta sereno

E pomposo corno para um dia de
festa.

LACRETELLE

Vs? No horizonte se debrua a
aurora

 Como um infante a rir;

As flores vo abrir-se: o luar se
apaga;

Comea a vida; douram-se os
outeiros...

 Ai! e tu vs partir!

Partir quando este cu fulgia aos
beijos

 D'ignoto querubim!

Manh do corao toldou-me o
ocaso!

Nuvem negra por cu de madrugada,

 Ou ea em seu festim!

E por que enviuvar das esperanas

 A rebentar em flor?

Por que rasgar uma por uma as
folhas

Da rosa da ventura embalsamada

 Por um luar de amor!

Tu eras de meus sonhos de poeta

 O beija-flor azul...

Eu te quisera, se te visse embora

Rotas as asas por noturno vento

 Nos lodos do paul...

Eu te quisera inda a azular as
plpebras

 A insnia dos festins.

Dera-te em cantos um dourado
busto;

Do meu amor no seio dormirias

 o sono dos querubins!

Eu era como o quebro ajoelhado

 Ante o sol a nascer...

Madona amorenada de meus cultos,

Ergui-te unia ara e no calor dos
joelhos

 No te dormi sequer!

E tu passaste adormentada e bela

 Num bero de cristal;

Meu cu se iluminou por um
momento,

Veio a realidade escura e fria,

 Foi-se, foi-se o ideal!

Passou como um fantasma essa
aventura

 Criada em tanto af.

E como o cactus que  noitinha
abrira

Asa de ventania perfumada,

 Morreu de antemanh!

Morreu sem sol a pobre flor
dourada

 Dos sonhos meus e teus!

Morno ideal de tanta insnia
ardente

Que uma noite dormira embalsamado

 No infinito de Deus.

Eterno vacilar da morte  vida,

 Sorte da criao!

Sempre o verme onde a seiva se
derrama.

Onde a vida palpita e ri mais
verde.

 Sempre a destruio!

 uma lei... Mas a esperana resta

 No feto do porvir...

Talvez bem cedo o dia se levante,

E a noite sacudindo o luar das
tranas

 Descanse e v dormir.

Mas, tarde ou cedo que esse dia se
erga

 E volte a rir assim,

Durma meu nome no teu seio de
fogo;

No desfolhes os lrios da
lembrana

 Ai! lembra-te de mim!

A REDENO [72]

Ao Sr. Dr. Francisco Otaviano

I

E Deus disse ao esprito incriado:

 Desce na asa do vento;

Por entranhas humanas  encarnado

 Dormirs um momento.

L te espera nos limbos
palpitantes

De dura escravido  a humanidade,

Prega a essas naes agonizantes

 O dogma da igualdade!

Leva a casta virtude foragida

 Entre virentes palmas;

E vai mostr-la  multido perdida

 Como o pudor das almas.

Vai, meu Cristo  a misso 
escabrosa;

S ters dessas turbas em carinhos

Uma cruz  uma vida dolorosa

 E uma c'roa de espinhos.

E descera o esprito incriado

 Sobre a asa do vento,

E em seio virgem de mulher 
fechado

 Foi dormir um momento.

II

Era o sonho dos profetas

Que se encarnara em Jesus;

Daquelas eras provetas

A cara e esperada luz.

Profeta, da liberdade,

Cireneu da humanidade.

Que vinha tomar-lhe a cruz!

A humanidade o esperava

Nos sonhos de redeno;

Ele vinha erguer a lava

De um velho morno vulco.

Misso de ventura e graa

Que fecundava uma raa

De que ele era novo Ado!

Era o ris da bonana

No meio dos temporais

A verbena da esperana

Entre desnimo e ais.

Um sol vigoroso e ufano

Rasgando ao gnero humano

Um horizonte de paz.



No teve Moiss augusto

Mais aurola de luz

Nem um brado mais robusto

A voz do poeta Ilus

Tu foste  Belm proveta

 Bero de um maior profeta

Sacrificado na cruz!

Batera a hora na ampulheta eterna,

E esse fato de um Deus que se
agitava

No seio da fecunda humanidade

Surgira  luz. A natureza toda

Estremeceu e se arraiou mais bela!

Mas linda a flor dos campos nessa
noite

O seio abrira.  No seu leito o
homem

Nessa noite sentiu mais puros
sonhos

Por sua mente revoar... E as almas

Que esta terra de abrolhos 
macular

Sentiro todas  um chuveiro de
ouro

Vazar nas trevas de enlodados
limbos!

E depois - no horizonte
azul-escuro

Clara estrela raiou  estranha aos
homens

Reis, a p!  Ide alm a um bero
humilde

Depor as c'roas...  um rei mais
sbio

Que nasceu na humildade e na
inocncia!

Viajor  que vingas a colina
alpestre

s frias viraes da meia-noite,

Pra!  Uma aurora sbito se
entorna

Por este cu  e aquela estrela
branca

Que vs correndo no horizonte
oposto

 a coluna de fogo do deserto

Que outrora o povo de Israel
guiara!

 o astro polar que a humanidade

H de levar  prometida terra,

Para que ela marche na impulso
dos sculos.

Foi assim que o profeta dos
profetas,

O circunciso, apresentou-se aos
homens!

Nem Roma em seus delrios de
triunfo

O nascimento lhe obstava... Aos
ombros

Trazia a toga das virtudes castas;

E o ideal da igualdade sobre a
fronte

Era a divina, grandiosa aurola

De que vinha cingir a humanidade!

Que deu a terra ao salvador dos
povos?

Uma cruz... uma vida dolorosa,

Uma c'roa de espinhos!

III

Dormes, Jerusalm? Morno ossurio

Deitado  sombra de fatais
lembranas

 Num leito secular,

No sentes que no altar do teu
calvrio

O grmen de verbenas e esperanas

 Comea a rebentar?

Essa lenda de pranto e de
amargura,

Esse drama da cruz e do calvrio

 Escrnio e a aflio:

Esses delrios de uma treva
escura,

Esse fel e vinagre e esse sudrio:

 Foi tudo a redeno!

A redeno... A turba delirante

Nem pressentiu essa misso divina

 Do filho do Senhor...

E selou num delrio agonizante

Aquela fronte casta e peregrina

 Com o sinete da dor!

Deu-lhe a palma e coroa de
realeza,

Sentou-se sobre um marco de
granito

 E a zombar o saudou!

E o Cristo, essa divina singeleza,

Nem um olhar lanara, nem um grito

 Arquejante soltou.

Ide, marchai sangrenta caravana!

Cireneu, vem agora e d teu brao

 Pra ajudar a cruz.

Cantai, cantai por essa orgia
humana!

A terra treme e se enegreja o
espao,

 E o sol desmaia a luz!

Essa cruz, esse poste de suplcio,

Em que o cordeiro plido imolaste

 Nas raivas infernais,

Se erguer como o sol do
sacrifcio;

Brotaro dos espinhos que
entranaste

 Perptuas festivais!

Dia mais belo vazar do oriente,

E a noite de vero mais vaporosa

 Nos vales dormir...

Nas asas de planeta onipotente

Uma luz mais suave e mais formosa

 Aos povos descer...

Sim!  fecundo o sangue do
calvrio!

Se o Cristo agonizou daquelas
dores

 Muita palma nasceu!

Daquela cruz e plido sudrio

Um den de perfume e de flores

 Teremos por trofu!

Assim fechou-se a redeno dos
povos!

Do drama do calvrio - a
humanidade

Uma croa viril teve em herana

Mais bela do que as cvicas coroas

 De Roma  a triunfante:

 A c'roa da igualdade!

Esperai! se essa palma de triunfo

Comea ainda a rebentar do
Glgota,

No esto longe os tempos  em que
a fronte

H de ovante cingi-la 
humanidade!

Assim o passo derradeiro e firme

A Cana da paz ser transposto;

Assim a cruz triunfar eterna,

Assim se fecha a redeno dos
povos!

S. HELENA [73]

Ao Sr. Remgio de Sena Pereira

Cairo Ajax e suas frotas!

HOMERO  Odissia

Sobre a escarpada rocha 
levantada

Na vaga  como um tmulo marinho,

 Sob eterno luar,

Csar  desce como guia
derrubada!

No seio agora desse estril ninho

  fora repousar!

Dorme, crnio viril, dorme um
momento!

Tens ali um sepulcro de granito

 Ea de Briareu!

Como cado sol  teu pensamento

Vague agora  no mar desse
infinito

 Em meio de gua o cu!

As eras de ventura l passaram

Como frotas no mar. Impetuoso

 Soprara o furaco!

As mornas tradies  que ficaram,

Que aquele mesmo gnio belicoso

 No voltar mais, no!

J no ressoam os clarins da
guerra!

E os bravos desse Homero das
batalhas

 Descansam a dormir!

Essa cruzada que assombrara a
terra

Sob as runas de plidas muralhas

 E a fora cair!

Caiu! Assim o quis o destino
infausto,

Que a estrela de seus largos
horizontes

 Nos limbos despenhou!

Caiu! mas em homrico holocausto!

Sol moribundo erguido em mar de
frontes

 Um dia descambou!

Dorme agora  na rocha levantada,

Csar, sobre esse tmulo marinho

  fora repousar!

s agora como guia derrubada!

Resta-te um derradeiro e estril
ninho

 E um eterno luar!

Foi esta, Bonaparte, a nnia
augusta

Com que saudou-te a humanidade a
queda!

Descada a realeza das batalhas

Tinha como um apoio derradeiro

Um alpestre rochedo. Em torno o
oceano

Era como que a firme  sentinela

De um oceano subjugado agora!

Folga, Albion! A espada onipotente

Desse rei dos combates e das
tendas

No vergaste, quebrou! A tua
glria

Era preciso que ao condor hercleo

Um vento bravo despenhasse as
asas!

Agora, Bonaparte, eis-te sentado

Sobre a escarpada rocha

Que ao corcel dos combates
sucedeu!

Essa fronte que o gnio das
conquistas

Afogou num abismo das batalhas

Tem agora por troa derradeira

Uma nuvem de plidas lembranas!

Tudo, tudo passou! os dias belos

 Os dias de Marengo

De Arcole, de Montmirail e de
Austerlitz,

L vo! passaram como as folhas
secas

Sacudidas do vento das florestas!

Passaram! resta o sudrio

Do pesado esquecimento!

Resta o plido ossrio

De todo um mundo portento.

As cruzadas peregrinas

Moderno Csar no vens?

Por palmas capitolinas

Capelas de goivos tens?

Como Lzaro, acordaste

A humanidade dormente;

Que um povo de reis, fecha

Sob a mo onipotente.

E tu, que no bero ungiste

A infante revoluo,

E toda a submergiste

Em um mais puro Jordo;

Que herdaste? um bronco rochedo

Onde a vaga geme a medo

Ouvindo  Napoleo!

NUNCA MAIS [74]

Quand je t'aimais, pour to
j'aurais donn ma vie

Mais c'est toi, de t'aimer, toi
qui m'tas l'envie.

ALFRED DE MUSSET

Nunca mais! O sol de outrora

Treva sbita apagou;

J o fogo no devora

Onde a geada passou.

Esse passado morreu,

Que eu julgara ento eterno,

E agora esqueci o inferno

Para lembrar-me do cu...

No! dessa alma prostituta

Nem mais quero uma afeio!

Caste  venci na luta,

Sem perder o corao.

Sangra os olhos no chorar,

Nova Agar  no teu deserto,

Que eu agora, audaz liberto,

Nem sei, nem te posso amar!

Caste! no te detesto;

No te cabe o dio a ti.

Seria o pulsar de um resto

Desse afeto que eu perdi.

Sobre esse altar que te dei

Noutras eras peregrinas,

Como em leito de runas

Novo Mrio  me assenti!

Ficou-me a alma viva

De muita iluso gentil;

Como exposta ao vento e  chuva

Flor que deu sobre de abril.

Mas a fria e curva flor

J no treme assim pendida;

Ergue-a mais ardente vida

Por madrugada melhor!

Tu, caminha  vai jornada

Da vaidade e perdio;

E batiza a alma danada

Em lutulento Jordo.

Um dia sem luz nem voz

Vergars no teu caminho

E vers, ave sem ninho,

Como punge espinho atroz.

A CH. F., FILHO DE UM
PROSCRITO [75]

II est beau. Dans son front o la
grce rayonne,

II porte tout un monde embaum,
pur et gai.

La nature y tale une frache
couronne;

C'est la molle beaut des blanches
fleurs de mai.

Au matin de son jour il ouvre sa
paupire,

O se berce en dormant son dlicat
esprit,

Aux baisers de l'amour, aux
regards de sa mre,

 tout ce qui lui parle et lui
chante et lui rit.

Un charmant avenir l'attend,
l-bas, peut-tre,

Au couchant de ce sicle o tout
parle et combat,

Qui sait? Dans le moment o
l'enfant vient de natre

L'oppression plit  l'ostracisme
s'en va...

Eh bien! fils de proscrit  est un
coeur plein de flammes

Qui te parle pench dans ton ciel
adorant:

Tu seras un crois dons le combat
des mes;

C'est moi qui le prdis  moi,
tte de vingt ans!

OFLIA [76]

A J...

Meu destino  um rio do deserto

 A murmurar-me aos ps;

Veia nascida em urna noite amarga,

As bordas so de areia, a onda 
larga

 E loucas as mars.

Tem as guas azuis,  mas so
profundas

 Naquele murmurar,

Correm aqui como a falar segredos

Sobre leito de lodo e de rochedos

 A um ignoto mar!

Plidas flores que uma vaga
incerta

 Ali suspensas traz

Vicejam aos borrifos, do meu
pranto.

Oh! essas flores que te prendem
tanto

 Deixa-as, Oflia, em paz!

No te curves  borda dessas guas

 De superfcie anil,

bria de amores,  do teu sonho
casto

No achars ali o mundo vasto

 Nem o rosado abril.

Deixa essas flores; uma onda as
leva

 Onde? Nem mesmo eu sei!

Deixa-as correr,  festes de meu
destino;

Passa cantando, meu amor, teu
hino,

 A que eu te abenoarei.

Atado  pedra que me leva, um dia

 A queda suspendi.

Vi-te  margem das guas debruada

A paixo dos meus sonhos,  to
sonhada

 Vi-a, encontrei-a em ti.

Maga estrela pendente do horizonte

 E curva sobre o mar

Vieste  noite conversar comigo;

Mas a aurora chegou  ao leito
antigo

 Vai,  mister voltar.

Deixa-me, no te curves sobre as
flores

 Deste leito de azul;

Molhastes os teus vestidos, foge
embora!

No te despenhes,  vem o mar
agora

 Encapelado ao sul.

Enxuga agora ao sol as tuas roupas

 E deixa-me seguir;

No sei qual a torrente que me
espera;

Vai, no prendas a tua primavera,

 Onde  fundo o porvir!

A ESTRELA DA TARDE [77]

A estrela da tarde sorri desmaiada

No azul embalada de um fogo vital:

Que luz vaporosa nos belos
palores!

Que facho de amores! que flor de
cristal!

Murmura nas praias a vaga
indolente

Um vu transparente se estende no
ar;

Os silfos se fecham no seio das
rosas

E as brisas saudosas murmuram: 
amar!

Estrela do ocaso,  a hora.
Bem-vinda!

Que aurora to linda, to doce que
tens!

A terra desmaia nos braos do
gozo,

E um doce repouso lhe entorna mil
bens!

Bem-vinda! aos amores que mgico
ensejo!

Desperta o cortejo dos astros do
cu.

Estrela das sombras, etreo
portento,

Nas asas do vento  desdobra o teu
vu.

Vem, que eu te sado dormente do
acaso;

Esplndido vaso de um novo fulgor,

s almas que o fogo da terra
queimara

Tu s como a ara de crenas e
amor.

Meu lbio secou-se no sol do
deserto,

Nem fonte a perto! cruenta
aflio!

Passei tateando nas sombras da
vida

Como ave cada nos lodos do cho!

A taa dourada do amor e ventura

Achei-a bem pura  mas no a bebi,

Do den da vida rocei pelas
portas:

As mos eram mortas; ningum veio
ali,

Passei; fui sozinho no longo da
estrada;

A noite pesada descia sem luz,

Segui tropeando num frio sudrio;

Agora um calvrio, mais tarde uma
cruz!

Estrela! cansado das lutas,
vencido,

Dos sonhos descrido, ressurjo,
aqui estou!

O manto da vida cai-me aos pedaos

Recose-me aos braos que o frio
engelou.

So crenas que eu peo de um gozo
celeste;

No tronco ao cipreste  rebentos
de flor;

Aos prantos que choro mais rir de
doura,

Mais po de ventura, mais sonhos
de amor!

Estrela!   a hora do gozo 
desperta!

Uma alma deserta palpita de amar,

Vem, loura do ocaso, falar-me em
segredo,

No fujas,  cedo; no caias no
mar.

A UM PROSCRITO [78]

 um canto de irmo. Crispam meus
lbios

Entusiasmado, convulses cruis!

Toma esta lira; consagrei-a aos
bravos;

No na mancharam saturnais de
escravos,

 As opresses dos reis.

Uma idia vital pulsa-lhe as
cordas;

Elas palpitam na ovao de heris!

Minha musa tem f, arde-lhe inata;

A mo que antes selar insensata

 No beijar depois.

M espera! essas nuvens de
tormenta

Vai rasgar o claro de um novo
sol!

A hora bateu s velhas monarquias;

Da nova gerao, dos novos dias,

 J se tinge o arrebol...

Os reis tiritaro entre os
sudrios

Quando essa aurora em novo cu
fulgir;

A idia pousar nos santurios;

E os povos se erguero sobre os
calvrios

 Aos cantos do porvir.

Eu te sado, esprito sem peias,

Que no gostaram cortesos
festins!

Proscrito errante que sustaste o
pranto,

E sentiste e velaste o fogo santo

 Que velaram Franklins.

Eu te sado, corao fervente,

No apostolado da misso do cu;

Que sentes no teu horto  atroz
misria!

Despedaar-te artria por artria

 O corvo de Prometeu!

Dez anos! Longe o lar de teus
afetos!

Dez anos de cruenta proscrio!

O horizonte da ptria vai fechado;

A teus ps que infortnio de
exilado

 Rebentam desse cho!

Longe! bem longe a opresso
lanou-te...

Misria, nem coragem de lutar!

Um dia despertaste enfim
proscrito;

Como o viajor da lenda ergueu-te
um grito:

  Caminhar!
caminhar!

Foste vencido... era foroso aos
tronos!

Mas caindo, caste vencedor,

Mais alto do que ento inda te
erguias;

Glria a ti nessas rudes agonias,

 Vergonha ao opressor!

Glria a ti, cujos lbios no
cuspiram

Da alma guardaste as roupas de
vestal!

Vergonha ao opressor, corvo
sedento,

Que rasga sem piedade de um
lamento

 A guia nacional!

Glria a ti, cujos lbios no
cuspiram

Da liberdade no lustral Jordo

A gua desse batismo -nos
sagrada;

Vergonha ao que na fronte batizada

 Selou de proscrio!

SONHOS [79]

Oh! si elle m'et aim!

A. DE VIGNY

Se ela soubesse por que tremo s
vezes

Como um junco nas bordas de um
regato;

E quele olhar de uma volpia
ardente

Fecho os meus pobres olhos de
insensato.

Se ela soubesse por que a mo
convulsa

Sinto ao pousar em um adeus a sua;

E por que um riso de amargura e
tdio

Pousa-me no calor da face nua;

Quem sabe se piedosa, no silncio,

Em orao,  noite, me alembrara;

E por mim em meu xtase querido

Uma furtiva lgrima soltara!

Quem sabe, se amorosa, pensativa,

Amadornada em lnguidos desejos,

Viria compulsar-me o livro d'alma

E minha fronte batizar de
beijos...

E saberia ento que de soluos

Os lbios me entreabrem de paixo!

Que de prantos resvalam de meus
olhos,

Com o orvalho de minha solido!

Veria que este fogo de meus versos

 a febre de amor de meus
suspiros,

Onde me vai a flor da mocidade

Como flor que enlanguece nos
retiros.

Mas... so sonhos, meu Deus! estes
tormentos

Iro comigo resvalar na cova;

E sero o crisol de meu esprito

Quando passar a uma existncia
nova.

Sonhos de insensatez! delrio
apenas!

Cresceu em alta rocha a flor
querida;

Verme rasteiro tateando os ermos

No beberei naquele seio  a vida!

Passarei como sombra ante os seus
olhos.

Frios, sem eco  soaro meus
cantos;

E aqueles olhos que eu amei,
calado

No me ho de as cinzas orvalhar
com prantos!

E nos silncios de uma noite
lmpida

Sobre a campa que me h de enfim
cobrir.

Da flor daqueles lbios  uma reza

Como um perfume no vir cair!

Devanear eterno! o amor de louco

Hei-de fech-lo na mudez do
peito...

Vem tu, apenas, lnguida saudade,

Noiva dos ermos  partilhar meu
leito!

UM NOME [80]

No lbum da Exma. Sra. D. Lusa
Amat

Dormi brio no seio do infinito

Ao fogo da iluso que me consome;

A lira tateei na treva... embalde!

Nem uma palma coroou meu nome!

Os meus cantos morrero no
deserto,

Quebrou-me as notas um noturno
vento,

E o nome que eu quisera erguer to
alto

No abismo h de cair do esquecimento.

Sou bem moo, e talvez uma
esperana

Pudesse ainda me despir do lodo;

E ao sol ardente de um porvir de
glrias

Engrandecer, purificar-me todo.

Talvez, mas esta sede era tamanha!

E agora o desespero entrou-me
n'alma;

A brisa de vero queimou-me
passando

A jovem rama da nascente palma!

E esse nome, esse nome que eu
quisera

Erguer como um trofu, tornou-se
em cruz;

No cabe aqui, senhora, em vosso
livro.

Pobre como  de glrias e de luz.

Mas se no tem as palmas que
esperava.

Filho da sombra, em jogo de
iluses.

Vossa bondade, a uno das almas
puras,

H de dar-lhe a palavra dos
perdes!

TRAVESSA [81]

Ai; por Deus, por vida minha

Como s travessa e louquinha!

Gosto de ti  gosto tanto

Dessa tua travessura

Que no me dera o meu encanto,

Que no dera o meu gostar,

Nem por estrelas do cu.

Nem por prolas ao mar!

Alma toda de quimeras

Que acordou no paraso

Vinda do leito de Deus;

E que rivais de teus olhos

S tens dois olhos  os teus!

Pareces mesmo criana

Que s vive e se alimenta

De luz, amor e esperana.

Ave sem medo  tormenta

Que salta e palpita e ri,

As travessas primaveras

Assentam to bem em ti!

Assentam sim, como as asas

Assentam no beija-flor,

Como o delrio dos beijos

Em uma noite de amor;

Como no vu que se agita

De beleza adormecida

A brisa mole e sentida!

Foi por ver-te assim  travessa

Que eu pus a minha esperana

No imaginar de criana

Dessa formosa cabea...

Foi por ver-te assim  Que os
sonhos

Eu sei como os tens eu sei.

Puros, lindos e risonhos.

Um corao novo e calmo

Onde a lei do amor   lei;

Foi por ver-te assim, que eu venho

Pr em ti as fantasias

De meus peregrinos dias.

Como a esperana no cu:

Em ti s, que s to louquinha,

Em ti s pr a minha vida!

A D. GABRIELA DA CUNHA [82]

Pra! Colhe essas asas um
instante;

Olha que senda decorrendo vens!

Pra!  o marco final do
caminhante,

E mais espaos a vencer no tens!

Lembra as vises e os sonhos do
passado...

Vo longe, longe  quando, artista
em flor.

Nem tinhas o caminho calculado,

Que mais tarde devias de transpor.

Contaste acaso em tua mente
outrora

Tantas coroas futuras e trofus?

Sonhaste uma vez erguer-te agora

Alto, to alto, pela mo de Deus?

No pudeste medir todo este
espao,

Nem pudeste pensar que um dia,
aqui

Viria o povo, em um festivo abrao

Sagrar-te os louros triunfais, a
TI.

Foi surpresa do gnio  e do
destino

Que a tua senda de futuro abriu,

E que uma folha de laurel divino

Em tua fronte plida cingiu.

Talvez de artista no teu largo
manto,

Como gotas de sangue em nveo
cho.

Noite de espinhos orvalhou com
pranto

E mareou de dor muita ovao.

Faz uma flor de cada espinho
acerbo,

Tira de cada treva um arrebol;

Para faz-la  abre os teus
lbios, VERBO!

Para tir-la  abre os seus raios,
SOL!

MEUS VERSOS [83]

Quando nas noites de luar de
outono

Pendem as flores que a manh
crestara

 E a chuva desbotou,

Que mo piedosa ergueu-as do
abandono...

E cuidadosa no seio as orvalhara?

 Que sorrindo as beijou?

Elas morrem ali tristes, sozinhas,

E se desfolham no correr do rio...

 Deus sabe onde elas vo!

Assim morrem ao sol as andorinhas,

Assim o inseto se desmaia ao frio,

 E assim meus versos so!

Pobres canes que eu entoara a
custo,

E modulei nas harpas dos amores

 Que ornara um querubim.

Foram as vibraes de um sonho
augusto;

Da minha fronte as suspiradas
flores

 No mas dera o jardim.

E contudo eu ainda as esperava,

Como  porta do Cu a me cuidosa

 Um filho que h de vir.

E o jardim no mas dera; eu mal
cuidava

Que vinha no embrio da flor
mimosa

 Um spide dormir.

Acordei! Esqueci-me dessas flores

E vou cantando sem sonhar venturas

 J sem iluso.

Deixo aqui minha lenda dos amores

Urna singela de esperanas puras,

 E muita aspirao.

A MME. DE LA GRANGE [84]

Quando em teus lbios a harmonia
corre,

Como os verbos das almas e do
amor,

Um mundo de douradas fantasias

Ao corao dormente se abre em
flor.

Solto dos elos da matria  o
esprito

Num cu que de harmonia se perfuma

Adormece nas harpas do teu peito

E as tuas notas bebe urna por uma.

Misso divina! Traduzir na terra

As linguagens do cu! Vibrar
cantando

Do sentimento as palpitantes
fibras!

E o pranto s almas rebentar
chorando!

Talhou-te larga a prpura do gnio

A mo severa e pura dos destinos,

Imprimiu-te na voz a harpa de um
sculo

E a alma te encarnou em sons
divinos!

Depois  na ara da pura melodia

Desceste em uma noite embalsamada;

Segue na rota da misso divina,

Canta, murmura, lnguida,
inspirada!

Abre os vos, parte agora!

Vai, cantora, ao teu destino:

Destas ltimas vitrias

Vs? As glrias aqui pus.

Cinge a croa e torna arminhos

Os espinhos que colheste;

Que os teus hinos so melhores;

Fazem flores de uma cruz!

SOUVENIRS D'EXIL [85]

(traduo de poema de CHARLES RIBEYROLLES)

Flor a abrir entre ns, surge
agora um infante;

Fronte loura a sorrir em nossa
proscrio,

Os numes vm cerc-lo em seu bero
galante,

E para ergu-lo ao cu todos lhe
abrem a mo.

Mas ele que ser? Calvinista ou
romano?

Ou turco, ou querubim de Lutero,
ou judeu?

E que santo do cu a este lrio
humano,

Ao costume fiel, dar o nome seu?

 o beijo das mes, entre ns... o
batismo,

Esse amoroso olhar que nos embala
ento!

Ns no temos por dogma a f do
barbarismo

E nem numes fatais de sangue e de
opresso.

Batizamo-lo em ti,  liberdade
santa,

Alma dos bravos desce  eis um
bero infantil.

O teu signo de luz, tua altivez
lhe implanta,

Os velhos bendiro a tua mo
viril!

Esprito de luz  eia, marchar 
avante!

Nossos ossos em p refloriro por
dom!

Mas conservai a f, e o futuro
radiante,

Lutar  um dever  lembra-te,
Charles Frond!

A S. M. I. [86]

Csar! Fulge mais luz nas
saudaes do povo,

H nos hinos plebeus  mais alma
nacional

Quando a mo do Senhor ergue, dum
germe novo,

A virtude e o saber em fronte
imperial.

Aqui, se o v curvado ao sol da
majestade,

No  que o ceguem mais os velhos
ouropis;

 que fulge a realeza em cu de
liberdade

E abraa a liberdade  a tradio
dos reis.

Tu, que voltas do mar aos cnticos
do Norte,

Tu que vens embalado aos hinos do
pas,

Podes e deves crer no pblico
transporte

Como dias de luz que o povo te
prediz;

A ti, que tens por norma a
histria do passado,

Como atravs do tempo  a
inspirao de Deus,

E que sabes de f que um Cucaso
elevado

Nem sempre  neste mundo o fim dos
Prometeus.

Bem-vindo! Diz-te o povo e a frase
poderosa

 como que fervente e trplice
ovao.

Ouve-a tu, que possuis um anjo por
esposa,

Por me a liberdade e um povo por
irmo!

AO CARNAVAL DE 1860 [87]

Morreste, seriedade!

Momo, o deus das zombarias,

Usurpou-te, por trs dias,

Teu esplndido basto!

De um exlio temporrio

Toma a longa e nova rota;

Agora reina a chacota

E o carnaval folgazo!

Diante das aras da rubra folia,

Cabea a mais sria no vale um
real;

Doidice, festana e alegria,

Tudo isto  fortuna que traz 
carnaval.

Homem srio e bem formado,

Neste dia  contrabando;

Respeitado e venerando

 coisa que no se diz;

A razo abrindo os lbios,

Onde tem bero o juzo,

Vestiu um chapu de guizo,

E ps um falso nariz!

Nem pai de famlia, nem velho
empregado,

Doutor, diplomata, caixeiro ou
patro,

Ningum,  loucura, no dia
aprazado,

No pode negar-te seu grande
quinho.

Tudo a loucura nivela,

Nem h luta de inimigos:

Esqueam-se dios antigos

De algum ferrenho eleitor;

H trguas por trs dias

No campo dos candidatos,

Que o feijo ferve nos pratos

E os guizos falem melhor.

Esquea-se tudo, so todos
convivas,

Os dios se apaguem no abrao
comum:

Que doce batalha! Que lutas
festivas!

Daqui deste campo no foge nem um!

Todas as belas amveis

Podem ter parte na festa:

Sacerdotisas e Vesta,

Acendei os coraes!

Pra sustentar a empresa

No tendes armas faceiras?

 no tirar as pulseiras

E conservar os bales.

Da das janelas olhando curvadas.

Sem dar um s passo na luta
venceis:

Ao fogo, que corre das vossas
sacadas

Aquiles se curvam e algemam-se
reis.

Os reis, conquanto pintados,

Sempre so reis por trs dias;

E sabem as galhardias

Das vossas armas leais.

Ns somos a Roma Inerte

Com a invaso peregrina

Que os hunos de crinolina

So mais que os outros fatais.

NO LBUM DA ARTISTA
LUDOVINA MOUTINHO [88]

Cedo comeas a buscar no espao,

Gentil romeira, a estrela do
porvir;

Deus que abenoa as lutas do
talento

H-de ao esforo teu o espao
abrir.

Para alcanar o astro peregrino

O teu talento um largo rumo tem:

De tua me os vos acompanha,

Que onde ela foi tu chegars
tambm.

GABRIELA DA CUNHA [89]

Enfim! Sobre esta cena, a tua e
nossa glria,

Onde a musa eloqente e severa da
histria

Toma-te a mo, e te abre 
fascinada vista

O campo do futuro,  grande e
nobre artista,

Vejo-te enfim! Ermo, calado e nu,

Esperava a madona e a madona eras
tu.

Merc do mar sereno e do lenho
veloz,

A mesma, a mesma sempre, eis-te
enfim entre ns!

Eras daqui. Que importa uma
ausncia? O teu nome

A ausncia no descora, o ouvido
no consome,

Da lembrana e da luz que ficaram
de ti,

Andasses longe, embora, ele vivia
aqui.

O que  o mar? Barreira intil. A
lembrana

Tem asas e a transpe. E depois a
esperana

De ver no mesmo cu a mesma
estrela dantes

Punha no nimo a paz. Aos louros
verdejantes

De que ornavas a fronte outros
inda juntaste.

Bem-vinda sejas tu, tu que por fim
voltaste

No brilho e no vigor dos teus dias
melhores

Luzente de mais luz, croada de
mais flores

E que vens, assentando outras
datas gloriosas,

Dar ao palco vivo a melhor das
esposas.

ESTNCIAS NUPCIAIS [90]

dedicadas a D. Isabel e

ao Conde dEu

I

Que riso este o ar encerra?

Que canto? Que trofu?

Que diz o cu  terra?

Que diz a terra ao cu?

II

Do seio das florestas

Que aroma sobe ao ar?

E que oblaes so estas

Que a terra envia ao mar?

III

A peregrina Alteza,

A rosa matinal,

O sonho de pureza

Da mente imperial.

IV

 noiva. A mo de esposa

Ao feliz noivo d;

Era de amor ditosa

Esta hora lhe abrir.

V

Almas de luz unidas

Na pura candidez

O amor,  de duas vidas

Uma s vida fez.

VI

E a filha predileta

Do paternal amor,

A doce, excelsa neta

Do excelso Fundador,

VII

Aumenta a nossa glria

No slio imperial,

E a flgida memria

Da honra nacional.

EM HOMENAGEM A D. ISABEL E AO CONDE DEU
[91]

Do seio da espessura,

 virgem do Brasil,

Ergue radiante e pura

A fronte juvenil.

Tece com as mos formosas

 noiva imperial

De lrios e de rosas

A croa nupcial.

Flor desta jovem terra,

Em seu profundo amor,

Como um penhor encerra

Cndida, excelsa flor.

Vivo, fulgente emblema

Das glrias do porvir,

Que o rgio diadema

Um dia hs de cingir;

Salve! Os destinos novos,

Novos, futuros bens,

Querida destes povos,

Em tuas mos os tens.

Num juramento unidas

Ante o sagrado altar,

As almas, como as vidas,

O cu veio aliar.

 vnculo precioso

Que o prende agora a si.

Esposa, eis teu esposo;

Alegra-te e sorri.

Abram-se  nova histria

As pginas leais,

Onde se escreve a glria

Da ptria e dos teus pais,

E a mo que no consome

Memrias to lous,

De dois fez um s nome:

Bragana e Orleans.

NO CASAMENTO DA
PRINCESA ISABEL [92]

Cubram embora as ltimas montanhas

 Nuvens de tempestade;

E vergue um dia os nimos do povo

 Dura calamidade;

Cobre de h muito o teu domnio
estreito;

Tu mesmo abriste as portas do
Oriente;

Rompe a luz; foge ao dia! O Deus
dos justos

Os soluos ouviu dos teus
escravos,

E os olhos te cegou para
perder-te!

O povo um dia cobrir de flores,

A imagem do Brasil. A liberdade

Unir como um elo estes dois
povos.

A mo, que a audcia castigou de
ingratos,

Apertar somente a mo de amigos.

E a tnica farpada do tirano,

Que inda os quebrados nimos
assusta,

Ser, aos olhos da nao remida,

A severa lio de extintos tempos!

CALA-TE, AMOR DE ME [93]

Cala-te, amor de me! Quando o
inimigo

Pisa da nossa terra o cho
sagrado.

Amor de ptria, vivido, elevado,

S tu na solido sers comigo!

O dever  maior do que o perigo;

Pede-te a ptria, cidado honrado;

Vai, meu filho, e nas lides do
soldado

Minha lembrana viver contigo!

 o stimo, o ltimo. Minhalma
repartida,

Vai toda a, convosco repartida,

E eu dou-a de olhos secos, fria e
calma.

Oh! no te assuste o horror da
mrcia lida;

Colhe no vasto campo a melhor
palma;

Ou morte honrada ou gloriosa vida.

TRISTEZA [94]

Ah! Pobre criana!

Triste ludbrio de funesta
estrela!

SHAKESPEARE  Otelo

s triste. Que mal te oprime?

Que sombrio pensamento,

Como nuvem procelosa,

Ponto negro no horizonte,

Vem pousar, mulher formosa,

Em tua formosa fronte?

s triste. E plida. As cores,

De vivas que eram outrora,

Como ptalas das flores

Que o tempo amareleceu,

Ora vejo-as apagadas...

E ao teu olhar peregrino

Fecham plpebras cansadas

 luz que tinhas do cu,

A ausncia de brilho e cores

E essa mrbida magreza,

Esse teu ar de abatida,

Com que, se perdes em vida,

Vens a ganhar em beleza,

Que so? Remorso de um crime

De certo no ? Responde,

Dize, que mgoa te oprime?

Teu silncio obstinado

Tudo me explica.., j sei..

Msero anjo infortunado,

Li tualma e adivinhei

Guardavas ao que primeiro

Tocasse a flor dos teus anos,

No esse amor passageiro,

Das almas vs, mas o amor

Profundo, intenso, exclusivo,

O amor que sonha e no dorme,

O amor sincero, o amor vivo,

Os transportes, a ternura,

De um corao palpitante,

Os desejos de ventura,

Ambiciosa fantasia,

As nsias dalma abundante,

Em suma  a felicidade:

Tal foi o sonho primeiro

Da tua primeira idade.

Em vez de uma alma irm

Que a tua alma compreendesse,

Que achaste? Boal figura,

Matria, mquina, prosa,

Toda cegueira e espessura,

Corpo sem alma e sem vida,

E a esperana radiosa

Da vida que procuravas,

A ternura que guardavas,

Em teus chorados quinze anos.

Tudo arrefeceu, criana,

Ante os frios desenganos.

Entre a presente agonia

E o tempo em que, solta, area,

Tua ardente fantasia

A vida mgica e etrea

Evocava e embelecia,

Que tempo vai! Longo espao

De solido, de tristeza,

De ternura e de cansao.

Uma quase eternidade

A contar na mente acesa:

Esperanas da incerteza,

Certezas da realidade!

Enfim,  morte completa

Da iluso que alimentavas,

Olhaste plida e inquieta

Para o futuro... e no viste

Nada do que procuravas

E nada do que pediste,

Olhaste ainda  e confusa

Viste o amor, a paz alheia,

Os que logravam sentir,

E tu, msera reclusa,

Da priso em que te achaste

Nem j te  dado fugir!

E agora, fria, abatida,

Secas as rosas do rosto,

Olhos j sem luz, nem vida,

Depois de tanta provana,

Tua mente em vo procura

A derradeira esperana:

O frio da sepultura...

O PRIMEIRO BEIJO [95]

(G. BLEST GANA)

Lembranas daquela idade

De inocncia e de candor,

No turbeis a soledade

Das minhas noites de dor;

 Passai, passai,

Lembranas do que l vai.

Minha prima era bonita...

Eu no sei por que razo

Ao record-la, palpita

Com violncia o corao.

Pois se ela era to bonita,

To gentil, to sedutora,

Que agora mesmo, inda agora,

Uma como que iluso

Dentro em meu peito se agita,

E at a fria razo

Me diz que era bem bonita.

Como eu, a prima contava

Quatorze anos, me parece;

Mas minha tia afirmava

Que eram s,  nem tal me esquece!

Treze os que a prima contava.

Fique-lhe  tia essa glria,

Que em minha vivaz memria

Jamais a prima envelhece,

E sempre est como estava,

Quando, segundo parece,

J seus quatorze anos contava.

Quantas horas, quantas horas

Passei ditoso ao seu lado!

Quantas passamos auroras

Ambos correndo no prado,

Ligeiros como essas horas!

Seria amor? No seria;

Nada sei; nada sabia;

Mas nesse extinto passado,

De conversas sedutoras,

Quando me achava a seu lado

Adormeciam-me as horas.

De como lhe eu dei um beijo

 curiosssima histria.

Desde esse ditoso ensejo

Inda conservo a memria

De como lhe eu dei um beijo.

Ss, ao bosque, um dia, qual

Aquele antigo casal

Cuja inocncia  notria,

Fomos por mtuo desejo,

A ali comeou a histria

De como lhe eu dei um beijo.

Crescia formosa flor

Perto de uma ribanceira;

Contemplando-a com amor,

Diz ela desta maneira;

 Quem me dera aquela flor!

De um salto  flor me atirei;

Faltou-me o cho; resvalei.

Grita, atira-se ligeira

Levada pelo terror,

Chega ao p da ribanceira...

E eu, eu no lhe trouxe a flor.

De ventura e de alegria

A coitadinha chorava;

Vida minha! repetia,

E em meus braos me apertava

Com infantil alegria.

De gelo e fogo me achei

Naquele transe. E no sei

Como aquilo se passava,

Mas um beijo nos unia,

E a coitadinha chorava

De ventura e de alegria.

Depois,.. revoltoso mar

 nossa pobre existncia!

Fui obrigado a deixar

Aquela flor de inocncia

Sozinha  beira do mar.

Ai! do mundo entre os enganos

Hei vivido muitos anos,

E apesar dessa experincia

Costumo ainda exclamar:

Ditada minha existncia,

Ficaste  beira do mar!

Lembranas daquela idade

De inocncia e de candor,

Alegrai a soledade

Das minhas noites de dor.

 Chegai, chegai,

Lembranas do que l vai.

A. F. X. DE NOVAIS [96]

J da terrena tnica despida,

Voaste, alma gentil,  eternidade;

 E, sacudindo  terra

As lembranas da vida, as mgoas
fundas,

Foste ao sol repousar da etrea
estncia.

Nem lgrimas, nem preces

O despojo mortal do sono acordam;

Nem, reboando na manso divina,

 A voz do homem perturba

O esprito imortal. Ah! se
pudessem

Lgrimas de homens reviver a
extinta

Murcha flor de teus dias:  se,
rompendo

O misterioso invlucro da morte,

De novo entrasses no festim da
vida,

Alma do cu, quem sabe se no
deras

A taa cheia em troco do sepulcro,

E agitando no espao as asas
brancas

Voltarias sorrindo  eternidade?

No te choramos pois; descansa ao
menos

No regao da morte: a austera
virgem

Ama os que mais sofreram; tu
compraste

Co a dor profunda o derradeiro
sono.

Choram-te as musas, sim! choram-te
as musas

Choram-te em vo,  que das
quebradas cordas

Da tua lira os sons no mais
despertam;

 Nem dos festivos lbios

Os versos brotaram que outrora o
povo

No entusiasmo frvido aplaudia.

 Apenas (e isso  tudo!)

 Fulge coa luz da glria

Teu nome. Os versos teus, garridas
flores

De imortal primavera, enquanto o
vento

Inteis folhas pela terra espalha,

Celeste aroma  eternidade mandam.

 Tu vivers. No morre

Aquele em cujo esprito escolhido

A mo de DEUS lanou a flama do
estro

Traz do bero o destino. Em vo,
fortuna,

Lhe comprimes a voz, a voz
prorrompe.

 Tal o rochedo intil

 Ousa deter as guas;

A corrente prossegue impetuosa.

O campo alaga e a terra me
fecunda.

ONTEM, HOJE, AMANH [97]

Ontem eu era criana

Que brincava nos delrios,

Entre murta, rosa e lrios,

No meio detreos crios,

Nos brincos que a gente alcana;

Que sonho pra mim, que vida

Nas nsias to bem trada!

Que noites de tanta lida,

Nos gozos em que no cansa!

Hoje sou qual triste bardo

Cismando na virgem bela,

Nos meigos sorrisos dela;

Que, porm, j se desvela

Do futuro vir mui tardo!

 Pranteio na pobre lira,

Qual nauta que j suspira

Nas nsias em que delira,

Nas chamas em queu s ardo!

Amanh serei no mundo

Perseguido em meu cansao,

Sem j ter amigo brao

Que me ajude a dar um passo

Neste pego sem ter fundo;

Nem sequer a minhamada

Se julgando mal fadada

No vir mui namorada

Me mostrar um rir jucundo!

26 DE OUTUBRO [98]

Ventos do mar, que h pouco
sussurrando

As vozes dele ouveis namorados,

Ventos de terra, agora
consternados,

Levai a nova do bito nefando.

Castigo foi  nossa ptria, quando

Dele esperava alentos renovados,

E sentia viver aos grandes brados

Daquele gnio raro e venerando.

Claro e vibrante esprito, caste,

No ao peso dos anos, mas ao peso

Do teu amor  nossa ptria amada.

E ela que fica desvairada e
triste,

Chora lembrando o verbo teu aceso,

Filho de Andrada, e portentoso
Andrada.

AS NUFRAGAS [99]

(Duas meninas cearenses que vinham
no vapor Bahia.)

Verdes mares bravios, verdes
mares

Do Cear  que a musa de Iracema

Cantou um dia, e que na hora
extrema

Certo entreviu nos ltimos
olhares,

 verdes mares, onde essas
crianas

Aprenderam brincando a andar ao
largo,

Rir do vosso estertor vlido e
amargo,

E as guas bravas converter em
mansas,

Cantai agora, murmurai contentes

De saber que ambas, dbeis e
valentes,

Viram a morte e no tremeram dela,

Antes, cortando as ondas insofridas,

Salvaram, mais que as suas
prprias vidas,

Outra que nunca pde ser mais
bela.

AO DR. XAVIER DA
SILVEIRA [100]

Amigo, ao ler os versos saborosos

Que me mandou por vinte e um de
junho,

Vi ainda uma vez o testemunho,

Dos seus bons sentimentos amistosos.

H para os coraes afetuosos

(Isto, que escrevo por meu prprio
punho,

No  fora de rima, leva o cunho

Dos conceitos reais e valiosos),

H para os coraes, como eu
dizia,

 Um perigo, a distncia:  tal
perigo

 Que as mais ardentes afeies
esfria.

Inda bem que esse mal, por mais
antigo

Que seja, no atinge, neste dia

Um verdadeiro corao de amigo.

13 DE MAIO [101]

Brasileiros, pesai a longa vida

Da nossa ptria, e a curta vida
nossa;

Se h dor que possa remorder, que
possa

Odiar uma campanha, ora vencida,

Longe essa dor e os dios seus
extremos;

Vede que aquele doloroso orvalho

De sangue nesta guerra no
vertemos...

Unio, brasileiros! E entoemos

 O hino do trabalho.

SONETO [102]

(Pela inaugurao do Asilo de
rfos de Campinas)

Recolhei, recolhei essas coitadas,

Tristes crianas, desbotadas
flores,

Que a morte despojou dos seus
cultores

E pendem j das hastes
maltratadas.

Trocai, trocai as fomes e os
horrores,

Os desprezos e as rspidas
noitadas

Pelos afagos dos peitos
protetores,

Ensinai-lhes a amar e a ser
amadas.

E quando a obra que encetais agora

Avultar, prosperar, subir ao cume,

Tornada em sol esta ridente
aurora,

Sentireis ao calor do grande lume

Tanta ventura, que, se fordes
tristes,

Jubilareis da obra que cumpristes.

RICARDO [103]

Vive tu, meu menino, os belos anos

Junto dos teus, na doce companhia

Do que h de melhor em coraes
humanos,

E faze deste dia eterno dia.

VELHO TEMA [104]

Esta ave trouxe de algum

 Algum recado

Talvez diga que a vem

 Um namorado.

Um namorado que tem

 Do peito ao lado

Um corao que o sustm

 De apaixonado.

Se no acudir algum

 Ao ansiado

, porventura, um gr bem...

 Por um recado

J vi morrer aqum e alm,

 Por um recado...

POR ORA SOU PEQUENINA [105]

Por ora sou pequenina

Mas, quando eu tambm crescer

H de vir uma menina

Dizer o que vou dizer.

Vou dizer, noivos amados,

Que  doce e consolador

Ver assim dois namorados

Coroando o seu amor.

Casar  lei preciosa;

Casai, amigos, casai.

Beija-flor com rosa

Mame casou com papai,

Por isso, a viva alegria

Que enche a todos ns

 ser grande dia

Muito maior para vs.

Eis a fica o meu recado

Adeus. Se for para bem

Que eu veja o casal casado

Crescendo, caso tambm.

NO H PENSAMENTO RARO [106]

No h pensamento raro

Que aqui lhe diga

Melhor que o seu nome caro,

Gentil amiga.

VIVA O DIA 11 DE JUNHO [107]



Viva o dia onze de junho,

Dia grande, dia rico,

Batalha do Riachuelo,

Dia dos anos do Tico.

VOULEZ-VOUS DU FRANAIS? [108]

Voulez-vous du franais, ou bien
de notre langue?

Uma e outra lhe dou, Francisca, e
no se zangue

Car pour dire dun beau visage et
son esprit,

Um nome basta  o seu  ce nom
tout seu! suffit!

[1] Marmota Fluminense, 16 jan.
1855. Das peas datadas pelo autor, esta  a de data mais remota. At melhor
aviso, estes versos devem ser considerados como primeiro trabalho literrio
produzido por Machado de Assis, embora a primazia de publicao caiba ao poema
Ela, que vai transcrito a seguir. (Jos Galante de Sousa)

[2] Marmota Fluminense, n. 539, 12 jan. 1855.

[3] Marmota Fluminense, n. 600, 15 jul. 1855.

[4] Marmota Fluminense, n. 702, 1 abr. 1856.

[5] Marmota Fluminense, n. 690, 4 mar. 1856.

[6] Marmota Fluminense, 12 abr. 1856.

[7] Marmota Fluminense, n. 767, 2 set. 1856.

[8] Marmota,
8 jan. 1858.

[9] Marmota,
26 jan. 1858.

[10] Marmota,
12 jan. 1858.

[11] Marmota,
23 mar. 1858.

[12] Marmota,
24 abr. 1858.

[13] Manuscrito
pertencente  Biblioteca Nacional.

[14] Correio
Mercantil, 28 mar. 1859.

[15] O Binculo, s.d. [n. 1, 23 set. 1862.]

[16] Gazeta de
Notcias, 18 abr. 1895.

[17] Correio
Mercantil, 9 jan. 1860.

[18] Publicado na Biblioteca Brasileira, I Lrica Nacional. RJ, 1862, pp. 53-54.

[19] O Futuro, 1 jan. 1863.

[20] Publicado
anonimamente na Semana Ilustrada, 29 mar. 1863.

[21] Publicado
anonimamente, por ocasio da questo anglo-brasileira. Identificado por J.
Galante de Sousa, foi includo em Poesia e Prosa.

[22] Dirio do Rio de Janeiro, 17
mai. 1865.

[23] Jornal do Comrcio, 26 fev. 1870. Segundo J. Galante de Sousa, 'A poesia
consta
de cinco oitavas. Foi recitada pela atriz Ismnia no Teatro So Luiz
a
23/2/1970'.

[24] A Reforma, 20 mai. 1870.

[25] Leitura
Popular, n. 1, set. 1871.

[26] O Binculo, n. 47, 22 fev. 1879.

[27] Manuscrito
pertencente ao Arquivo Nacional.

[28] A Estao, 15 jul. 1879.

[29] Gazeta de
Notcias, 23 dez. 1877, em homenagem a
Jos de Alencar.

[30] Publicado como Poliantia Comemorativa da Inaugurao das Aulas para o
Sexo Feminino do Imperial Liceu de Artes e Ofcios. Rio de Janeiro, 1881.

[31] A Estao, 15 jan. 1885.

[32] Publicado em O Marqus de Pombal, 2 parte, pp.
21-30. Lisboa, 1855.

[33] Gazeta de
Notcias, 1 set. 1890.

[34] Revista da
Academia Brasileira de Letras, dez. 1932.

[35] Publicado em Outras Relquias. RJ, H. Garnier,
1910.

[36] A Semana, 14 abr. 1894.

[37] Publicado em Relquias de Casa Velha, Rio de Janeiro: Garnier, 1906.

[38] A Ordem, jun. 1939.

[39] Publicado
dentro de um artigo de Artur Azevedo, em O Pas., 2-10-1908.

[40] Foi encontrado apenas o registro da data de divulgao do poema, 1854.

[41] Marmota Fluminense, 20 mar. 1855.

[42] Marmota Fluminense, 18 mai. 1855.

[43] Marmota Fluminense, 24 jul. 1855.

[44] Marmota Fluminense, 10 ago. 1855.

[45] Marmota Fluminense, 14 ago. 1855.

[46] Marmota Fluminense, 05 out. 1855.

[47] Marmota Fluminense, 09 out. 1855.

[48] Marmota Fluminense, 21 out. 1855.

[49] Marmota Fluminense, 28 out. 1855.

[50] Marmota Fluminense, 02 nov. 1855.

[51] Marmota Fluminense, 23 nov. 1855.

[52] Marmota Fluminense, 02 dez. 1855.

[53] Foi encontrado apenas o registro da data de
divulgao do poema, 1856.

[54] Foi encontrado apenas o registro da data de
divulgao do poema, 1856.

[55] Marmota Fluminense, 21 fev. 1856.

[56] Marmota Fluminense, 22 mar. 1856.

[57] Marmota Fluminense, 01 mai. 1855.

[58] Foi encontrado apenas o registro da data de
divulgao do poema, 1856.

[59] Marmota Fluminense, 15 set. 1857.

[60] Marmota Fluminense, 02 out. 1857.

[61] Marmota Fluminense, 22 out. 1857.

[62] Marmota Fluminense, 22 dez. 1857.

[63] Marmota Fluminense, 25 dez.. 1857.

[64] Marmota Fluminense, 16 fev. 1858.

[65] O Paraba, Petrpolis, 11 abr. 1858.

[66] Correio Mercantil, 25 out. 1858.

[67] Foi encontrado apenas o registro da data de
divulgao do poema, 1858.

[68] Correio Mercantil, 30 nov. 1858.

[69] Correio Mercantil, 10 fev. 1859.

[70] O
Paraba, Petrpolis, 17 fev. 1859.

[71] Correio
Mercantil, 14 fev. 1859.

[72] Correio Mercantil, 04 mai. 1859.

[73] O Paraba, Petrpolis, 22 mai.
1859.

[74] O Paraba, Petrpolis, 12 jun. 1859.

[75] Correio Mercantil, 21 jul. 1859.

[76] Correio
Mercantil, 21 out. 1859.

[77] O Espelho, 04 set. 1859.

[78] O Espelho, 18 set. 1859.

[79] O Espelho, 23 out. 1859.

[80] Foi encontrado apenas o registro da data de divulgao do poema, 1859.

[81] O Espelho, 18 dez. 1859.

[82] O Espelho, 25 dez. 1859.

[83] Foi encontrado apenas o registro da data de
divulgao do poema, 1859.

[84] Correio Mercantil, 16 nov. 1859.

[85] Foi encontrado apenas o registro da data de
divulgao do poema, 1859.

[86] Marmota Fluminense, 02 dez. 1855.

[87] Foi encontrado apenas o registro da data de
divulgao do poema, 1860.

[88] A Primavera, 17
mar. 1861.

[89] O Espelho, 25 dez. 1859.

[90] Foi encontrado apenas o registro da data de
divulgao do poema, 1864.

[91] Foi encontrado apenas o registro da data de
divulgao do poema, 1864.

[92] Foi encontrado apenas o registro da data de
divulgao do poema, 1865.

[93] Foi encontrado apenas o registro da data de
divulgao do poema, 1865.

[94] Jornal das Famlias, ago. 1866.

[95] Semana Ilustrada, 19 set. 1869.

[96] Semana Ilustrada, 29 ago. 1869.

[97] A Luz, 1872.

[98] Gazeta de Notcias, 24 out. 1886.

[99] Gazeta de Notcias, 17 abr. 1887.

[100] Foi encontrado apenas o registro da data de divulgao do poema,1887.

[101] Foi encontrado apenas o registro da data de divulgao do poema,1888.

[102] Foi encontrado apenas o registro da data de divulgao do poema,1890.

[103] Foi encontrado apenas o registro da data de divulgao do poema, 1893.

[104] Foi encontrado apenas o registro da data de divulgao do poema, 1911.

[105] Publicado no artigo Migalhas inditas, de Tristo de Athayde, em Autores
e e, em tigo 'e Campinas.Livros, 28
set. 1941.

[106] Ilustrao Brasileira, jun. 1939.

[107] Jornal do Comrcio,
jun. 1939.

[108] Jornal do Comrcio,
21 jun. 1939.
