TEATRO, Tu, s tu, puro amor, 1880

  Tu, s tu,
    puro amor

Textos-fonte:

http://www.biblio.com.br

Obra completa de Machado de Assis.

Rio de Janeiro: Nova Aguilar, vol
  II, 1994.

Publicado originalmente
  em Revista Brasileira
  , Rio de Janeiro, 1880.

Tu s, tu, puro amor, com fora
  crua,

Que os coraes humanos tanto
  obriga...

  Cames, Lusadas, 3, CXIX.

  O
  desfecho dos amores palacianos de Cames e de D. Catarina de Atade  o objeto
  da comdia, desfecho que deu lugar  subseqente aventura de frica, e mais
  tarde  partida para a ndia, donde o poeta devia regressar um dia com a
  imortalidade nas mos. No pretendi fazer um quadro da corte de D. Joo II, nem
  sei se o permitiam as propores mnimas do escrito e a urgncia da ocasio.
  Busquei sim haver-me de maneira que o poeta fosse contemporneo de seus amores,
  no lhe dando feies picas, e, por assim dizer, pstumas.

Na primeira impresso escrevi uma
  nota, que reproduzi na segunda, acrescentando-lhe alguma coisa explicativa.
  Como na cena primeira se trata da anedota que motivou o
    epigrama de Cames ao duque de Aveiro, disse eu ali que, posto se lhe
  no possa fixar data, usaria dela por me parecer um curioso rasgo de costumes.
  E aduzi: "Engana-se, creio eu, o Sr. Tefilo Braga, quando afirma que ela s
  podia ter ocorrido depois do regresso de Cames a Lisboa, alegando, para
  fundamentar essa opinio, que o ttulo de duque de Aveiro foi criado em 1557.
  Digo que se engana o distinto escritor, porque eu encontro o duque de Aveiro,
  cinco anos antes, 1552, indo receber, na qualidade de embaixador, a princesa d.
  Joana, noiva do prncipe d. Joo (Veja Mem. e Doc. Anexos aos Anis de d. Joo
  III, pgs. 440 e 441); e, se Cames s em 1553 partiu para a ndia, no 
  impossvel que o epigrama e o caso que lhe deu origem
  fossem anteriores."

Temos ambos razo, o Sr. Tefilo Braga e eu. Com efeito, o ducado de Aveiro s foi criado
  formalmente em 1557, mas o agraciado usava o ttulo desde muito antes, por
  merc de D. Joo III:  o que confirma a prpria carta rgia de 30 de agosto
  daquele ano, textualmente inserta na Hist. Geneal... de D.
  Antnio Caetano de Souza, que cita em abono da assero o testemunho de
  Andrade, na Crnica d'el-rei d, Joo III. Naquela
  mesma obra se l (liv. IV, cap. V) que em 1551, na transladao dos ossos d'el-rei D, Manuel estivera presente
  o duque de Aveiro. No  pois impossvel que a anedota
  ocorresse antes da primeira ausncia de Cames.

  Machado
  de Assis.

PERSONAGENS

CAMES

ANTNIO DE LIMA

CAMINHA

D. MANUEL DE PORTUGAL

D. CATARINA DE ATADE

D. FRANCISCA
  DE ARAGO

  Sala no pao

  CENA I

CAMINHA, D. MANUEL DE PORTUGAL

  (Caminha vem do
  fundo, da esquerda; vai a entrar pela porta da direita, quando lhe sai Manoel
  de Portugal, a rir).

CAMINHA -- Alegre vindes, senhor D. Manuel de Portugal. Disse-vos El-rei
  alguma coisa graciosa, de certo...

D. MANUEL -- No; no foi El-rei. Adivinhai o que seria, se
   que o no sabeis j.

CAMINHA -- Que foi?

D. MANUEL -- Sabeis o caso da
  galinha do duque de Aveiro?

CAMINHA -- No.

D. MANUEL -- No sabeis? -- Pois  isto: uns versos mui galantes do nosso Cames. (Caminha estremece e faz
  um gesto de m vontade.) Uns versos como ele os sabe fazer. ( parte.) Doe-lhe
  a noticia. (Alto.) Mas, deveras no sabeis do encontro de Cames com o
  duque de Aveiro?

CAMINHA -- No.

D. MANUEL -- Foi o prprio duque
  que mo contou agora mesmo, ao vir de estar com El-rei...

CAMINHA -- Que houve ento?

D. MANUEL -- Eu vo-lo digo;
  achavam-se ontem, na igreja do Amparo, o duque e o poeta...

CAMINHA, com enfado. -- O
  poeta! O poeta! No  mais que engenhar a uns poucos
  versos, para ser logo poeta! Desperdiais o vosso entusiasmo, senhor D. Manuel.
  Poeta  o nosso S, o meu grande S! Mas, esse arruador, esse brigo de horas
  mortas...

D. MANUEL -- Parece-vos ento...?

CAMINHA -- Que esse moo tem algum
  engenho, muito menos do que lhe diz a presuno dele e a cegueira dos amigos;
  algum engenho no lhe nego eu. Faz sonetos sofrveis. E canes... Digo-vos que
  li uma ou duas, no de todo mal alinhavadas. Pois ento? Com boa vontade, mais
  esforo, menos soberba, gastando as noites, no a folgar pelas locandas de Lisboa, mas a meditar os poetas italianos,
  digo-vos que pode vir a ser...

D. MANUEL -- Acabe.

CAMINHA -- Est acabado: um poeta
  sofrvel.

D. MANUEL -- Deveras? Lembra-me que
  j isso mesmo lhe negastes.

CAMINHA, sorrindo. -- No meu epigrama, no? E nego-lho ainda agora, se no fizer o
  que vos digo. Pareceu-vos gracioso o epigrama? Fi-lo por desenfado, no por dio... Dizei, que tal vos pareceu ele?

D. MANUEL -- Injusto, mas gracioso.

CAMINHA -- Sim? Tenho em mui boa
  conta o vosso parecer. Algum tempo supus que me desdenhveis. No era
  impossvel que assim fosse. Intrigas da corte do azo a muita injustia; mas
  principalmente acreditei que fossem artes desse rixoso... Juro-vos que ele me
  tem dio.

D.
  MANUEL -- O Cames?

CAMINHA -- Tem, tem...

D. MANUEL -- Por qu?

CAMINHA -- No sei, mas tem. Adeus.

D. MANUEL -- Ides-vos?

CAMINHA -- Vou a El-rei, e depois ao meu senhor infante. (Corteja-o e
  dirige-se para a porta da direita. D. Manuel dirige-se para o fundo.)

D. Manuel, andando.

  Eu j vi a taverneiro

vender vaca por carneiro...

  CAMINHA, volta-se.
  -- Recitais versos?... So vossos?... No me negueis o gosto de os ouvir.

D. MANUEL -- Meus no; so de
  Cames... (Repete, descendo a cena.)

  Eu j vi a taverneiro

Vender vaca por carneiro...

  CAMINHA, sarcstico. -- De
    Cames?... Galantes so. Nem Virglio os daria melhores. Ora, fazei o favor de
    repetir comigo:

  Eu j vi a taverneiro

Vender vaca por carneiro...

  -- E depois v,
  dizei-me o resto, que no quero perder iguaria de to fino sabor.

D. MANUEL -- O duque de Aveiro e o
  poeta encontraram-se ontem na igreja do Amparo. O duque  prometeu ao poeta
  mandar-lhe uma galinha de sua mesa, mas s lhe mandou um assado. Cames
  retorquiu-lhe com estes versos, que o prprio duque me mostrou agora, a rir:

Eu j vi a taverneiro,

Vender vaca por carneiro.

Mas no vi, por vida minha,

vender vaca por galinha,

seno ao duque de Aveiro.

-- Confessai, confessai senhor
  Caminha, vs que sois poeta, confessai que h a certo
  pico, e uma simpleza de dizer... No vale tanto de certo como os sonetos dele,
  alguns dos quais so sublimes, aquele por exemplo:

  De amor escrevo, de
  amor trato e vivo...

ou este

Tanto de meu estado me acho
  incerto...

  -- Sabeis a
  continuao?

CAMINHA -- At lhe sei o fim:

  Se me pergunta algum
  porque assim ando

respondo que no sei, porm suspeito

que s porque vos vi, minha senhora.

  -- (Fitando-lhe muito
  os olhos.) Esta
    senhora... Sabeis vs, de certo, quem  esta senhora do poeta, como eu o sei,
    como o sabem todos... Naturalmente amam-se ainda muito?

D. Manuel,  parte. -- Que
  querer ele?

CAMINHA -- Amam-se por fora.

D. MANUEL -- Cuido que no.

CAMINHA -- Que no?

D. MANUEL -- Acabou, como tudo acaba.

CAMINHA, sorrindo. -- Anda
  l; no sei se me dizeis tudo. Amigos sois, e no 
  impossvel que tambm vs... Onde est a nossa gentil senhora D. Francisca de
  Arago?

D. MANUEL -- Que tem?

CAMINHA -- Vede: um simples nome
  vos faz estremecer. Mas sossegai, que no sou vosso
  inimigo; mui ao contrrio, amo-vos, e a ela tambm... e respeito-a muito. Um para o outro nascestes. Mas, adeus, faz-se tarde, vou ter com El-rei. (Sai pela direita.)

  CENA II

DOM MANUEL DE
  PORTUGAL

  -- Este homem!... Este
  homem!... Como se os versos dele, duros e insossos... (Vai  porta por onde
    Caminha saiu e levanta o reposteiro.) L vai ele; vai cabisbaixo; rumina talvez
  alguma coisa. Que no sejam versos! (Ao fundo aparecem D. Antnio de Lima e
    D. Catarina de Atade.)

  CENA III

  D. MANUEL DE
  PORTUGAL, D. CATARINA DE ATADE, D. ANTNIO DE LIMA

D. ANTNIO DE LIMA -- Que
  espreitais a, senhor D. Manuel.

D. MANUEL -- Estava a ver o porte
  elegante do nosso Caminha. No vades supor que era alguma dama. (Levanta o
    reposteiro.) Olhai, l vai ele a desaparecer. Vai a El-rei.

D. ANTNIO -- Tambm eu. Tu, no,
  minha boa Catarina. A rainha espera-te. (D. Catarina faz uma reverncia e
    caminha para a porta da esquerda.) Vai, vai, minha gentil flor... (A D.
      Manuel.) Gentil, no a achais?

D. MANUEL -- Gentilssima.

D. ANTNIO -- Agradece, Catarina.

D. CATARINA -- Agradeo; mas o
  certo  que o senhor D. Manuel  rico de louvores...

D. MANUEL -- Eu podia dizer que a
  natureza  que foi conosco prdiga de graas; mas, no digo; seria repetir mal
  aquilo que s poetas podem dizer bem. (D. Antnio fecha o rosto.) Dizem
  que tambm sou poeta,  verdade; no sei; fao versos. Adeus, senhor D.
  Antnio... (Corteja-os e sai. D. Catarina vai a entrar,  esquerda. D.
    Antnio detm-na.)

  CENA IV

D. ANTNIO DE
  LIMA, D. CATARINA DE ATADE

D. ANTNIO -- Ouviste aquilo?

D. CATARINA, parando. -- Aquilo?

D. ANTNIO -- "Que s poetas podem
  dizer bem" foram as palavras dele. (D. Catarina aproxima-se.) Vs tu,
  filha? to divulgadas andam j essas coisas, que at
  se dizem nas barbas de teu pai!

D. CATARINA -- Senhor, um gracejo...

D. ANTNIO, enfadando-se. -- Um
  gracejo injurioso, que eu no consinto, que no quero,
  que me di... "Que s poetas podem dizer bem!" E que  poeta! Pergunta ao nosso
  Caminha o que  esse atrevido, o que vale a sua poesia... Mas, que seja outra e
  melhor, no a quero para mim, nem para ti. No te criei para entregar-te s
  mos do primeiro que passa, e lhe d na cabea haver-te.

D. CATARINA, procurando
  moder-lo. -- Meu pai...

D. ANTNIO -- Teu pai e teu senhor!

D. CATARINA -- Meu senhor e pai... juro-vos que... Juro-vos que vos quero e muito... Por quem sois, no vos irriteis contra mim!

D. ANTNIO -- Jura que me
  obedecers.

D. CATARINA -- No  essa a minha
  obrigao?

D. ANTNIO -- Obrigao , e a mais
  grave de todas. Olha-me bem, filha; eu amo-te como pai que sou. Agora, anda,
  vai.

  CENA V

D. ANTNIO DE LIMA, D. CATARINA DE
  ATADE, D. FRANCISCA DE ARAGO

D. ANTNIO -- Mas no, no vs sem
  falar  senhora D. Francisca de Arago, que a nos aparece, fresca como a rosa
  que desabotoou agora mesmo, ou, como dizia a farsa do nosso Gil Vicente, que eu
  ouvi h tantos anos, por tempo do nosso serenssimo senhor D. Manuel... Velho estou, minha formosa dama...

D. FRANCISCA -- E que dizia a farsa?

D. ANTNIO -- A farsa dizia:

 bonita como estrela,

Uma rosinha de Abril,

Uma frescura de maio,

To manhosa.

To sutil!

-- Vede que a farsa adivinhava j a
  nossa D. Francisca de Arago, uma frescura de maio,
  to manhosa, to sutil...

D. FRANCISCA -- Manhosa, eu?

D. ANTNIO -- E sutil. No vos
  esquea a rima, que  de lei. (Vai a sair pela porta da direita; aparece
    Cames.)

CENA VI

OS MESMOS,
  CAMES

D. CATARINA,  parte. -- Ele!

D. FRANCISCA, baixo a D.
  Catarina. -- Sossegai!

D. ANTNIO -- Vinde c, senhor
  poeta das galinhas. J me chegou aos ouvidos o vosso lindo epigrama. Lindo,
  sim; e estou que no vos custaria mais tempo a faz-lo do que eu a dizer-vos
  que me divertiu muito... E o duque? O duque, ainda no emendou a mo? H de
  emendar, que no  nenhum mesquinho.

CAMES, alegremente. -- Pois El-rei deseja o contrrio...

D. ANTNIO -- Ah! Sua Alteza falou-vos
  disso?... Contar-mo-eis em tempo. (A D. Catarina, com inteno). Minha filha e senhora, no ides ter com a rainha? Eu vou
  falar a El-rei. (D. Catarina corteja-os e
    dirige-se para a esquerda; D. Antnio sai pela direita.)

  CENA VII

OS MESMOS, menos D. ANTNIO DE LIMA

(D. Catarina quer sair, D.
  Francisca de Arago detm-na.)

D. FRANCISCA -- Ficai, ficai...

D. CATARINA -- Deixe-me ir!

CAMES -- Fugis de mim?

D. CATARINA -- Fujo... Assim o
  querem todos.

CAMES -- Todos quem?

D. FRANCISCA, indo a Cames. -- Sossegai.
  Tendes, na verdade, um gnio, uns espritos... Que h de ser? Corre a mais e
  mais a notcia dos vossos amores... e o senhor D.
  Antnio, que  pai, e pai severo...

CAMES, vivamente a D.
  Catarina. -- Ameaa-vos?

D. CATARINA -- No; d-me
  conselhos... bons conselhos, meu Lus. No vos quer
  mal, no quer... Vamos l; eu  que sou desatinada. Mas passou. Dizei-nos l
  esses versos de que falveis h pouco. Um epigrama,
  no ? H de ser to bonito como os outros... menos um.

CAMES -- Um?

D. CATARINA -- Sim, o que fizestes
  a D. Guiomar de Blasf.

CAMES, com desdm. -- Que
  monta? Bem frouxos versos.

D. FRANCISCA -- No tanto; mas eram
  feitos a D. Guiomar, e os piores versos deste mundo so os que se fazem a
  outras damas. (A D. Catarina.) Acertei? (A Cames.) Ora, andai,
  vou deixar-vos; dizei o caso do vosso epigrama, no a
  mim, que j o sei de cor, porm a ela que ainda no sabe nada... E que foi que
  vos disse El-rei?

CAMES -- El-rei viu-me, e dignou-se chamar-me; fitou-me um pouco a sua real vista, e disse com brandura: -- Tomara eu, senhor poeta, que todos os duques
  vos faltem com galinhas, por que assim nos alegrareis com versos to chistosos.

D. FRANCISCA -- Disse-vos isto?  um grande esprito El-rei!

D. CATARINA, a D. Francisca. -- No
  ? (A Cames.) E vs que lhe dissestes?

CAMES
  -- Eu? nada... ou quase nada. Era to inopinado louvor que me tomou a fala. E,
  contudo, se eu pudesse responder agora... agora que recobrei os espritos...
  dir-lhe-ia que h aqui (leva a mo  fronte) alguma coisa mais do que
  simples versos de desenfado... dir-lhe-ia que... (Fica absorto um instante,
    depois olha alternadamente para as duas damas, entre as quais se acha.) Um sonho...
  s vezes cuido conter c dentro mais do que a minha vida e o meu sculo...
  Sonhos... sonhos! A realidade  que vs sois as duas mais lindas damas da
  cristandade, e que o amor  a alma do universo!

D. FRANCISCA -- O amor e a espada,
  senhor brigo!

CAMES, alegremente. -- Por
  que me no dais logo as alcunhas que me ho de ter posto os poltres do Rocio?
  Vingam-se com isso, que  a desforra da poltroneria...
  No sabeis? Naturalmente no; vs gastais as horas nos lavores e recreios do
  pao; mora aqui a doce paz do esprito.

D. CATARINA, com inteno. -- Nem
  sempre.

D. FRANCISCA -- Isto  convosco; e
  eu, que posso ser indiscreta, no me detenho a ouvir mais nada. (D alguns
    passos para o fundo.)

D.
  CATARINA -- Vinde
    c...

D. FRANCISCA -- Vou-me... vou a consolar o nosso Caminha, que h de estar um pouco
  enfadado... Ouviu ele o que El-rei vos disse?

CAMES -- Ouviu; que tem?

D. FRANCISCA -- No ouviria de boa
  sombra.

CAMES -- Pode ser que no... dizem-me que no. (A D. Catarina.) Pareceis
  inquieta...

D. CATARINA, a D. Francisca. -- No,
  no vades; ficai um instante.

CAMES, a D. Francisca. -- Irei
  eu.

D. FRANCISCA -- No, senhor; irei
  eu s. (Sai  pelo fundo.)

  CENA VIII

CAMES, D.
  CATARINA DE ATADE

CAMES, com uma reverncia. -- Irei
  eu. Adeus, minha senhora D. Catarina de Atade! (D. Catarina d um passo
    para ele.) Mantenha-vos Deus na sua santa guarda.

D. CATARINA -- No... vinde c... (Cames detm-se.) Enfadei-vos? Vinde um
  pouco mais perto. (Cames aproxima-se.) Que vos fiz eu? Duvidais
  de mim?

CAMES -- Cuido que me quereis
  ausente.

D. CATARINA -- Lus! (Inquieta.) Vede esta sala, estas paredes... falarmos a ss...
  Duvidais de mim?

CAMES -- No duvido de vs; no
  duvido da vossa ternura: da vossa firmeza  que eu duvido.

D. CATARINA -- Receais que fraqueie
  algum dia?

CAMES -- Receio; chorareis muitas
  lgrimas, muitas e amargas... mas, cuido que
  fraqueareis.

D. CATARINA -- Lus! juro-vos...

CAMES -- Perdoai, se vos ofende
  esta palavra. Ela  sincera: subiu-me do corao  boca. No posso guardar a
  verdade; perder-me-ei algum dia por diz-la sem rebuo. Assim me fez a natureza; assim irei  sepultura.

D. CATARINA -- No, no fraquearei,
  juro-vos. Amo-vos muito, bem o sabeis. Posso chegar a afrontar tudo, at a
  clera de meu pai. Vede l, estamos a ss; se nos vira algum... (Cames d
    um passo para sair.) No, vinde c. Mas, se nos vira algum,
  defronte um do outro, no meio de uma sala deserta, que pensaria? No sei que
  pensaria; tinha medo h pouco, j no tenho medo... amor sim... O que eu tenho  amor, meu Lus.

CAMES -- Minha boa Catarina.

D. CATARINA -- No me chameis boa,
  que eu no sei se o sou... Nem boa, nem m.

CAMES -- Divina sois

  .

D. CATARINA -- No me deis nomes
  que so sacrilgios.

CAMES -- Que outro vos cabe?

D. CATARINA -- Nenhum.

CAMES -- Nenhum? -- Simplesmente a
  minha doce e formosa senhora D. Catarina de Atade, uma ninfa do pao, que se
  lembrou de amar um triste escudeiro, sem se lembrar que seu pai a guarda para
  algum solar opulento, algum grande cargo de camareira-mor. Tudo isso havereis,
  enquanto que o coitado de Cames ir morrer em frica ou sia...

D. CATARINA -- Teimoso sois! Sempre
  essas idias de frica...

CAMES -- Ou sia. Que tem isso?
  Digo-vos que, s vezes, a dormir, imagino l estar, longe dos galanteios da
  corte, armado em guerra, diante do gentio. Imaginai agora...

D. CATARINA -- No imagino nada;
  vs sois meu, to s meu, to-somente meu. Que me
  importa o gentio, ou o Turco, ou que quer que , que
  no sei, nem quero? Tinha que ver, se me deixveis, para ir s vossas
  fricas... E os meus sonetos? Quem mos havia de fazer, meu rico poeta?

CAMES -- No faltar quem vo-los
  faa, e da maior perfeio.

D. CATARINA -- Pode ser; mas eu
  quero-os ruins, como os vossos... como aquele da
  Circe, o meu retrato, dissestes vs.

  CAMES, recitando.

  Um mover de olhos,
  brando e piedoso.

Sem ver de que; um riso brando e
  honesto,

Quase forado um doce e humilde
  gesto

De qualquer
  alegria duvidoso...

  D. CATARINA -- No acabeis, que me obrigareis a fugir de vexada.

CAMES -- De vexada! Quando  que a
  rosa se vexou, por que o sol a beijou de longe?

D. CATARINA -- Bem respondido, meu
  claro sol.

CAMES -- Deixai-me repetir que sois divina. Natrcia minha, pode
  a sorte separar-nos, ou a morte de um ou de outro; mas o amor subsiste, longe
  ou perto, na morte ou na vida, no mais baixo estado, ou no cimo das grandezas
  humanas, no  assim? Deixai-me cr-lo, ao menos; deixai-me crer que h um
  vnculo secreto e forte, que nem os homens, nem a prpria natureza poderia j
  destruir. Deixai-me crer... No me ouvis?

D. CATARINA -- Ouo, ouo.

CAMES -- Crer que a ltima palavra
  de vossos lbios ser o meu nome. Ser? Tenha eu esta f, e no se me dar da
  adversidade; sentir-me-ei afortunado e grande. Grande, ouvis bem? Maior que
  todos os demais homens.

D. CATARINA -- Acabai!

CAMES -- Que mais?

D. CATARINA -- No sei; mas  to
  doce ouvir-vos! Acabai, acabai, meu poeta! Ou antes,
  no, no acabeis; falai sempre, deixai-me ficar perpetuamente a escutar-vos.

CAMES -- Ai de ns! A perpetuidade
   um simples instante, um instante em que nos deixam ss nesta sala! (D. Catarina afasta-se rapidamente.) Olhai; s a idia do
  perigo vos arredou de mim.

D. CATARINA -- Na verdade, se nos
  vissem... Se algum a, por esses reposteiros... Adeus...

CAMES -- Medrosa,
  eterna medrosa!

D. CATARINA -- Pode ser que sim;
  mas no est isso mesmo no meu retrato?

  Um encolhido ousar,
  uma brandura,

Um medo sem ter culpa; um ar
  sereno,

Um longo e obediente sofrimento...

CAMES -

Esta foi a celeste formosura

Da minha Circe, e o mgico veneno

Que pde transformar meu
  pensamento.

  D. CATARINA, indo
    a ele. -- Pois ento? A vossa Circe manda-vos que no duvideis dela, que lhe
  perdoeis os medos, to prprios do lugar e da condio; manda-vos crer e amar.
  Se ela s vezes foge,  porque a espreitam; se vos no responde,  porque
  outros ouvidos poderiam escut-la. Entendeis?  o que vos manda dizer a vossa
  Circe, meu poeta... e agora... (Estende-lhe a mo.) Adeus!

CAMES -- Ides-vos?

D. CATARINA -- A rainha espera-me. Audazes fomos, Lus. No desafiemos o pao... que esses reposteiros...

CAMES -- Deixa-me ir ver!

D. CATARINA, detendo-o. -- No,
  no. Separemo-nos.

CAMES -- Adeus! (D. Catarina
  dirige-se para a porta da esquerda; Cames olha para a porta da direita.)

D. CATARINA -- Andai, andai!

CAMES -- Um instante ainda!

D. CATARINA -- Imprudente! Por quem
  sois, ide-vos meu Lus!

CAMES -- A rainha espera-vos?

D.
  CATARINA -- Espera.

CAMES -- To raro  ver-vos!

D. CATARINA -- No afrontemos o
  cu... podem dar conosco...

CAMES -- Que venham! Tomara eu que nos vissem! Bradaria a todos o meu amor, e a
  que o faria respeitar!

D. CATARINA, aflita pegando-lhe
  na mo. -- Reparai, meu Lus, reparai onde estais,
  quem eu sou, o que so estas paredes... domai esse gnio
  arrebatado, peo-vo-lo eu. Ide-vos em boa paz, sim?

CAMES -- Viva a minha cora
  gentil, a minha tmida cora! Ora vos juro que me vou, e de corrida. Adeus!

D. CATARINA -- Adeus!

CAMES, com a mo dela
  presa.  -- Adeus

D. CATARINA -- Ide... deixai-me ir!

CAMES -- Hoje h luar; se virdes
  um embuado diante das vossas janelas, quedado a olhar para cima, desconfiai
  que sou eu; e ento, j no  o sol a beijar de
  longe uma rosa,  o goivo que pede calor a uma estrela.

D. CATARINA -- Cautela,
  no vos reconheam.

CAMES -- Cautela haverei; mas, que
  me reconheam, que tem isso? embargarei a palavra ao importuno.

D. CATARINA -- Sossegai. Adeus!

CAMES -- Adeus!

(D. Catarina dirige-se para a
  porta da esquerda, e pra diante dela,  espera que Cames saia. Cames
  corteja-a com um gesto gracioso, e dirige-se para o fundo. -- Levanta-se o
  reposteiro da porta da direita, e aparece Caminha. -- D. Catarina d um pequeno
  grito, e sai precipitadamente. -- Cames detm-se. Os dois homens olham-se por um instante.)

  CENA IX

CAMES, CAMINHA

CAMINHA, entrando. -- Discreteveis com algum, ao que parece...

CAMES --  verdade.

CAMINHA -- Ouvi de longe a vossa
  fala, e reconheci-a. Vi logo que era o nosso poeta, de quem tratava h pouco
  com alguns fidalgos. Sois o bem-amado, entre os
  ltimos de Coimbra. -- Com que, discreteveis... Com
  alguma dama?

CAMES -- Com uma dama.

CAMINHA -- Certamente formosa, que
  no as h de outra casta nestes reais paos. Sua Alteza cuido que continuar, e ainda em bem, algumas boas tradies de El-rei seu pai. Damas formosas, e, quanto possvel, letradas. So estes, dizem, os
  bons costumes italianos.  vs, senhor Cames, por que
  no ides  Itlia?

CAMES -- Irei  Itlia, mas
  passando por frica.

CAMINHA -- Ah! Ah! para l deixar primeiro um brao, uma perna, ou um olho...
  No, poupai os olhos, que so o feitio dessas damas da corte; poupai tambm a
  mo, com que nos haveis de escrever to lindos versos; isto
    vos digo que poupai...

CAMES -- Uma palavra, senhor Pero
  de Andrade. Uma s palavra, mas sincera.

CAMINHA -- Dizei.

CAMES -- Dissimulais algum outro
  pensamento. Revelai-mo... intimo-vos
  que mo reveleis.

CAMINHA -- Ide  Itlia, senhor Cames, ide  Itlia.

CAMES -- No resistireis muito
  tempo ao que vos mando.

CAMINHA -- Ou  frica, se o
  quereis... ou  Babilnia...  Babilnia melhor; levai
  a harpa do desterro, mas em vez de a pendurar de um
  salgueiro, como na Escritura, cantar-nos-eis a linda copla da galinha, ou comporeis umas outras voltas ao mote, que j vos serviu to bem:

Perdigo perdeu a pena,

No h mal que lhe no venha.

Ide  Babilnia, senhor Perdigo!

CAMES, pegando-lhe no pulso. -- Por vida minha, calai-vos!

CAMINHA -- Vede o lugar em que
  estais.

CAMES, solta-o.
  -- Vejo; vejo tambm quem sois; s no vejo o que odiais em mim.

CAMINHA -- Nada.

CAMES -- Nada?

CAMINHA
  -- Coisa nenhuma.

CAMES -- Mentis pela gorja, senhor camareiro.

CAMINHA -- Minto? Vede l; ia-me
  deixando arrebatar, ia conspurcando com alguma vilania esta sala de El-rei. Retra-me a tempo. Menti, dizeis vs? -- Pode ser
  que sim, porque eu creio que efetivamente vos odeio, mas s h um instante,
  depois que me pagastes com uma injria o aviso que vos dei.

CAMES -- Um aviso?

CAMINHA -- Nada menos. Queria eu
  dizer-vos que as paredes do pao nem so mudas, nem sempre so caladas.

CAMES -- No sero; mas eu as
  farei caladas.

CAMINHA -- Pode ser. Essa dama
  era...?

CAMES -- No reparei bem.

CAMINHA -- Fizestes mal; 
  prudncia reparar nas damas; prudncia e cortesia. Com que, ides  frica? L
  esto os nossos em Mazago, cometendo faanhas
  contra essa canalha de Mafamede; imitai-os. Vede, no
  deixeis l esse brao, com que nos haveis de calar as paredes os reposteiros. 
  conselho de amigo.

CAMES -- Por que sereis meu amigo?

CAMINHA -- No digo que o seja; o
  conselho  que o .

CAMES -- Credes, ento...?

CAMINHA -- Que poupareis uma grande
  dor e um maior escndalo.

CAMES -- Percebo-vos. Imaginais
  que amo alguma dama? Suponhamos que sim. Qual  o meu delito? Em que ordenao,
  em que rescrito, em que bula, em que escritura, divina ou humana, foi j dado como delito amarem-se duas criaturas?

CAMINHA -- Deixai a corte.

CAMES -- Digo-vos que no.

CAMINHA -- Oxal que no!

CAMES,  parte. -- Este
  homem... que h neste homem? Lealdade ou perfdia? (Alto.) Adeus, senhor Caminha. (Pra no meio da cena). Por que no tratamos
  de versos?... Fora muito melhor...

CAMINHA. -- Adeus, senhor Cames. (Cames
  sai.)

CENA X

CAMINHA, logo D. CATARINA DE ATADE

CAMINHA - Ide, ide, magro poeta de camarins... (Desce ao proscnio.) Era
  ela, de certo, era ela que a estava com ele, no meio do pao, esquecidos de El-rei e de todos... Oh temeridade do amor! Do amor? ele... ele... Mas seria ela
  deveras?... Que outra podia ser?

D. CATARINA, espreita e entra. -- Senhor... senhor...

CAMINHA -- Ela!

D. CATARINA -- Ouvi tudo... tudo o que lhe dissestes... e peo-vos que no nos faais mal. Sois amigo de meu pai, ele  vosso amigo; no
  lhe digais nada. Fui imprudente, fui, mas que quereis? (Vendo que Caminha
    no diz nada.) Ento? falai... poderei contar convosco?

CAMINHA -- Comigo? (D. Catarina
  inquieta, aflita, pega-lhe na mo; ele retira-lha com
  aspereza.) Contar comigo! para que, minha senhora
  D. Catarina? Amais um mancebo digno, por que vs o amais... muito,
  no?

D. CATARINA -- Muito.

CAMINHA -- Muito, dizeis... E reis
  vs que estveis aqui, com ele, nesta sala solitria, juntos um do outro, a
  falarem naturalmente do cu e da terra... ou s do
  cu, que  a terra dos namorados. Que dizeis?...

D. CATARINA, baixando os olhos.
  -- Senhor...

CAMINHA -- Galanteios, galanteios, de que
  se h de falar l fora... (Gesto de D. Catarina.) Ah! cuidais que estes amores nascem e morrem no pao? -- No; passam alm; descem  rua, so
  o mantimento dos ociosos e ainda dos que trabalham, porque, ao sero,
  principalmente nas noites de inverno, em que se h de ocupar a gente, depois de
  fazer as suas oraes? Com que, reis vs? Pois digo-vos que o no sabia; suspeitava, porque no podia talvez ser outra... E confessais
  que lhe quereis muito. Muito?

D. CATARINA -- Pode ser fraqueza;
  mas crime...onde est o crime?

CAMINHA -- O crime est em desonrar
  as cs de um nobre homem, arrastando-lhe o nome por vielas e praas; o crime
  est em escandalizar a corte, com essas ternuras, imprprias do alto cargo que
  exerceis, do vosso sexo e estado... esse  o crime. E
  parece-vos pequeno?

D. CATARINA -- Bem; desculpai-me,
  no direis nada...

CAMINHA -- No sei.

D. CATARINA -- Peo-vos... de joelhos at... (Faz um gesto para ajoelhar-se, ele
  impede-lho.)

CAMINHA -- Perdereis o tempo; eu
  sou amigo de vosso pai.

D. CATARINA -- Contar-lhe-eis tudo?

CAMINHA -- Talvez.

D. CATARINA -- Bem mo diziam
  sempre; sois inimigo de Cames.

CAMINHA -- E sou.

D. CATARINA -- Que vos fez ele?

CAMINHA -- Que me fez? (Pausa.) D.
  Catarina de Atade, quereis saber o que me fez o vosso Cames? No  s
  a sua soberba que me afronta; fosse s isso, e que me importava um frouxo
  cerzidor de palavras, sem arte nem conceito?

D. CATARINA -- Acabai.

CAMINHA -- Tambm no  porque ele
  vos ama, que eu o odeio; mas vs, senhora D. Catarina
  de Atade, vs o amais... eis o crime de Cames.
  Entendeis?

D. Catarina, depois de um
  instante de assombro. -- No quero entender.

CAMINHA -- Sim, que tambm eu vos
  quero, ouvis? -- E quero-vos muito... mais do que ele,
  e melhor do que ele; porque o meu amor tem o impulso do dio, nutre-se do
  silncio, o desdm o avigora, e no fao alarde nem escndalo;  um amor...

D. CATARINA -- Calai-vos! Pela
  Virgem, calai-vos!

CAMINHA -- Que me cale? Obedecerei. (Faz uma reverncia.) Mandais alguma outra coisa?

D. CATARINA -- No, ficai, ficai.
  Jurai-me que no direis nada...

CAMINHA -- Depois da confisso que
  vos fiz, esse pedido chega a ser mofa. Que no diga nada? Direi tudo, revelarei
  tudo a vosso pai. No sei se a ao  m ou boa; sei que vos amo, e que
  detesto esse rufio, a quem vadios deram foros de
  letrado.

D. CATARINA -- Senhor!  demais!

CAMINHA -- Defendei-o, no  assim?

D. CATARINA -- Odiai-o, se vos apraz;
  insulta-o,  que no  de cavaleiro...

CAMINHA -- Que tem? O amor
  desprezado sangra e fere.

D. CATARINA -- Deixai que lhe chame
  um amor vilo.

CAMINHA -- Sois vs agora que me
  injuriais. Adeus, senhora D. Catarina de Atade! (Dirige-se para o fundo.)

D. CATARINA, tomando-lhe o
  passo. -- No! Agora no vos peo... intimo-vos que
  vos caleis.

CAMINHA -- Que recompensa me dais?

D. CATARINA -- A vossa conscincia.

CAMINHA -- Deixai em paz os que
  dormem. Quereis que vos prometa alguma coisa? Uma s coisa prometo;
  no contar a vosso pai o que se passou. Mas, se por denncia ou desconfiana,
  for interrogado por ele, ento lhe direi tudo. E duas vezes farei bem: -- no
  faltarei  verdade, que  dever de cavaleiro; e depois... chorareis lgrimas de sangue; e eu prefiro ver-vos chorar a ver-vos sorrir. A vossa
  angstia ser a minha consolao. Onde falecerdes de pura saudade, ai me glorificarei eu. Chamai-me agora perverso, se o
  quereis; eu respondo que vos amo, e que no tenho outra virtude. (Vai a
    sair, encontra-se com D. Francisca de Arago; corteja-a e sai.)

CENA XI

D. CATARINA DE ATADE, D.
  FRANCISCA DE ARAGO

D. FRANCISCA -- Vai afrontado o
  nosso poeta. Que ter ele? (Reparando
  em D. Catarina.
    ) Que
  tendes vs? Que foi?

D. CATARINA -- Tudo sabe.

D. FRANCISCA -- Quem?

D. CATARINA -- Esse homem.
  Achou-nos nesta sala; eu tive medo; disse-lhe tudo.

D. FRANCISCA -- Imprudente!

D. CATARINA -- Duas vezes
  imprudente; deixei-me estar ao lado do meu Lus, a ouvir-lhe as palavras to
  nobres, to apaixonadas... e o tempo corria... e podiam espreitar-nos... Credes que o Caminha diga alguma
  coisa a meu pai?

D. FRANCISCA -- Talvez no.

D. CATARINA -- Quem sabe? Ele
  ama-me.

D. FRANCISCA -- O Caminha?

D. CATARINA -- Disse-mo agora. Que admira? Acha-me formosa, como os outros. Triste dom  esse.
  Sou formosa para no ser feliz, para ser amada s ocultas, odiada s
  escancaras, e, talvez... Se meu pai vier a saber... que far ele, amiga minha?

D. FRANCISCA -- O senhor D. Antnio
   to severo!

D. CATARINA -- Ir ter com El-rei, pedir-lhe- que o castigue, que o encarcere, no? E por minha causa... No; primeiro irei eu... (Dirige-se
  para a porta da direita.)

D. FRANCISCA -- Onde ides?

D. CATARINA -- Vou falar a El-rei... Ou, no... (Encaminha-se para a porta da
  esquerda.) Vou ter com a rainha; contar-lhe-ei tudo; ela me amparar.
  Credes que no?

D. FRANCISCA -- Creio que sim.

D. CATARINA -- Irei, ajoelhar-me-ei
  a seus ps. Ela  rainha, mas  tambm mulher... e ama-me. (Sai pela esquerda.)

  CENA XII

D. FRANCISCA
  DE ARAGO, D. ANTNIO DE LIMA, depois, D. MANUEL DE PORTUGAL

D. FRANCISCA, depois de um
  momento de reflexo. -- Talvez chegue cedo demais. (D um passo para a
    porta da esquerda.) No; melhor  que lhe fale... mas,
  se se aventa a notcia? Meu Deus,
    no sei... no sei... Ouo passos... Entra D.
  Antnio de Lima. Ah!

D. ANTNIO -- Que foi?

D. FRANCISCA -- Nada, nada... no sabia quem era. Sois vs... (Risonha.) Chegaram
  galees da sia; boas notcias, dizem...

D. ANTNIO -- Eu no ouvi dizer
  nada. (Querendo retirar-se.) Permitis?...

D. FRANCISCA -- Jesus! Que tendes?
  Que ar  esse? (Vendo entrar D. Manuel de Portugal.) Vinde c,
  senhor D. Manuel de Portugal, vinde saber o que tem este meu bom e velho amigo,
  que me no quer... (Segurando na mo de D. Antnio ). Ento, eu j no sou a vossa frescura de maio?

D. ANTNIO, sorrindo a custo. -- Sois, sois. Manhosamente sutil, ou sutilmente manhosa,  escolha; eu  que
  sou uma triste secura de dezembro, que me vou e vos deixo. Permitis, no? (Corteja-a
    e dirige-se para a porta.)

D. MANUEL, interpondo-se. -- Deixai
  que vos levante o reposteiro. (Levanta o reposteiro.) Ides ter com Sua
  Alteza, suponho?

D. ANTNIO -- Vou.

D. MANUEL -- Ides levar-lhe
  notcias da ndia?

D. ANTNIO -- Sabeis que no  o
  meu cargo...

D. MANUEL -- Sei, sei; mas dizem
  que... Senhor D. Antnio, acho-vos o rosto anuviado, alguma coisa vos penaliza
  ou turva. Sabeis que sou vosso amigo; perdoai se vos interrogo. Que foi? Que h?

D. ANTNIO, gravemente. -- Senhor
  D. Manuel, tendes vinte e sete anos, eu conto sessenta; deixai-me passar. (D.
    Manuel inclina-se, levantando o reposteiro. D. Antnio desaparece.)

CENA XIII

D. MANUEL DE PORTUGAL, D. FRANCISCA DE ARAGO

D. MANUEL -- Vai dizer tudo a El-rei.

D. FRANCISCA -- Credes?

D. MANUEL -- Cames contou-me o
  encontro que tivera com o Caminha aqui; eu ia falar ao senhor D. Antnio;
  achei-o agora mesmo, ao p de uma janela, com o dissimulado Caminha, que lhe dizia: 'No vos nego, senhor D. Antnio, que os achei naquela
  sala, a ss e que vossa filha fugiu desde que eu l entrei.'

D. FRANCISCA -- Ouvistes isso?

D.
  MANUEL -- D. Antnio
    ficou severo e triste. "Querem escndalo?..." foram as suas palavras. E no
      disse outras; apertou a mo ao Caminha, e seguiu para c... Penso que  foi
      pedir alguma coisa a El-rei. Talvez o desterro.

D. FRANCISCA -- O desterro?

D. MANUEL -- Talvez. Cames h de
  voltar agora aqui; disse-me que viria falar ao senhor D. Antnio. Para qu? Que
  outros lhe falem, sim; mas o meu Lus que no sabe conter-se... D. Catarina?

D. FRANCISCA -- Foi lanar-se aos
  ps da rainha, a pedir-lhe proteo.

D. MANUEL -- Outra imprudncia. Foi
  h muito?

D. FRANCISCA -- Pouco h.

D. MANUEL -- Ide ter com ela, se 
  tempo, dizei-lhe que no, que no convm falar nada. (D. Francisca vai a
    sair, e pra ) Recusais?

D. FRANCISCA -- Vou, vou. Pensava
  comigo uma coisa. (D. Manuel vai a ela.) Pensava que  preciso querer
  muito aqueles dois para nos esquecermos assim de ns.

D. MANUEL --  verdade. E no h
  mais nobre motivo da nossa mtua indiferena. Indiferena, no; no o , nem o
  podia ser nunca. No meio de toda essa angstia que nos cerca, poderia eu
  esquecer a minha doce Arago? Podereis vs
  esquecer-me. Ide agora, ns que somos felizes, temos o dever de consolar os
  desgraados. (D. Francisca sai pela esquerda.)

CENA XIV

D. MANUEL DE
  PORTUGAL, logo D. ANTNIO DE LIMA

  D. MANUEL -- Se perco
  o confidente dos meus amores, da minha mocidade, o meu companheiro de longas
  horas... No  impossvel. -- El-rei conceder o que
  lhe pedir D. Antnio. A culpa, -- fora  confess-lo, -- a culpa  dele, do meu
  Cames, do meu impetuoso poeta; um corao sem freio... (Abre-se o
    reposteiro, aparece D. Antnio.) D. Antnio!

D. ANTNIO, da porta, jubiloso.
  -- Interrogastes-me h pouco; agora hei tempo de vos responder.

D. MANUEL -- Talvez no seja
  preciso.

D. ANTNIO, adianta-se -- Adivinhais ento?

D. MANUEL -- Pode ser que sim.

D. ANTNIO -- Creio que adivinhais.

D. MANUEL -- Sua Alteza
  concedeu-vos o desterro de Cames.

D. ANTNIO -- Esse  o nome da
  pena: a realidade  que Sua Alteza restituiu a honra a um vassalo, e a paz a um
  ancio.

D. MANUEL -- Senhor D. Antnio...

D. ANTNIO -- Nem mais uma palavra,
  senhor D. Manuel de Portugal, nem mais uma palavra. -- Mancebo sois;  natural
  que vos ponhais do lado do amor; eu sou velho, e a velhice ama o respeito. At
   vista, senhor D. Manuel, e no turveis o meu contentamento. (D um passo
    para sair.)

D. MANUEL -- Se matais vossa filha?

D. ANTNIO -- No a matarei. Amores
  fceis de curar so esses que a brotam no meio de galanteios e versos. Versos
  curam tudo. S no curam a honra os versos; mas para a honra d Deus um rei
  austero, em pai inflexvel... At  vista, senhor D. Manuel. (Sai pela
    esquerda.)

  CENA XV

D. MANUEL DE PORTUGAL, logo CAMES

D. MANUEL -- Perdido... est tudo perdido.(Cames entra pelo fundo.) Meu
  pobre Lus! Se soubesses...

CAMES -- Que h?

D. MANUEL -- El-rei... El-rei atendeu s splicas do senhor D. Antnio. Est
  tudo perdido.

CAMES -- E que pena me cabe?

D. MANUEL -- Desterra-vos da corte.

CAMES -- Desterrado! Mas eu vou
  ter com Sua Alteza, eu direi...

D. MANUEL, aquietando-o. -- No
  direis nada; no tendes mais que cumprir a real ordem; deixai que os vossos
  amigos faam alguma coisa; talvez logrem abrandar o rigor da pena. Vs no
  fareis mais do que agrav-la.

CAMES -- Desterrado! E para onde?

D. MANUEL -- No sei. Desterrado da
  corte  o que  certo. Vede... no h mais demorar no
  pao. Saiamos.

CAMES -- A me vou eu, pois,
  caminho do desterro, e no sei se da misria! Venceu ento o Caminha? Talvez os
  versos dele fiquem assim melhores. Se nos vai dar uma nova Eneida, o
  Caminha? Pode ser, tudo pode ser... Desterrado da
  corte! C me ficam os melhores dias, e as mais fundas saudades. Crede, senhor D. Manuel, podeis crer que as mais fundas
  saudades c me ficam.

D. MANUEL -- Tornareis,
  tornareis...

CAMES -- E ela? J o saber ela?

D. MANUEL -- Cuido que o senhor D.
  Antnio foi dizer-lho
  em
    pessoa. Deus
  ! A vem eles.

  CENA XVI

OS MESMOS, D. ANTNIO DE LIMA, D.
  CATARINA DE ATADE

D. Antnio aparece  porta da esquerda, trazendo D. Catarina
  pela mo. -- D. Catarina vem profundamente abatida.

  D. CATARINA,  parte, vendo Cames. -- Ele! Dai-me fora, meu
  Deus! (D. Antnio corteja os dois, e segue na direo do fundo. Cames d um
    passo para falar-lhe, mas D. Manuel contm-no. D. Catarina, prestes a sair,
    volve a cabea para trs.)

  CENA XVII

D. MANUEL DE PORTUGAL, CAMES

  CAMES -- Ela a
  vai... talvez para sempre... Credes que para sempre?

D. MANUEL -- No. Saiamos!

CAMES -- Vamos l; deixemos estas
  salas que to funestas me foram. (Indo ao fundo e olhando para dentro.) Ela
  a vai, a minha estrela, a vai a resvalar no abismo, de onde no sei se a
  levantarei mais... Nem eu... (Voltando-se para D. Manuel.) Nem vs, meu
  amigo, nem vs que me quereis tanto, ningum.

D. MANUEL -- Desanimais
  depressa, Lus. Por que ningum?

CAMES -- No saberia dizer-vos;
  mas sinto-o aqui no corao. Essa clara luz, essa doce madrugada da minha vida,
  apagou-se agora mesmo, e de uma vez.

D. MANUEL -- Confiai em mim, nos
  meus amigos, nos vossos amigos. Irei ter com eles; induzi-los-ei a....

CAMES -- A qu? A mortificarem um
  camareiro-mor, a fim de servir um triste escudeiro que j estar a caminho de
  frica?

D. MANUEL -- Ides 
  frica?

CAMES -- Pode ser; sinto umas
  tonteiras africanas. Pois que me fecham a porta dos amores, abrirei eu mesmo as
  da guerra. Irei l pelejar, ou no sei se morrer... frica, disse eu? Pode ser
  que sia tambm, ou sia s; o que me der na imaginao.

D. MANUEL -- Saiamos.

CAMES -- E agora, adeus, infiis
  paredes; sede ao menos com passivas; guardai-ma, guardai-ma bem, a minha formosa D. Catarina! (A D.
    Manuel.) Credes que tenho vontade de chorar?

D. MANUEL -- Saiamos, Lus!

CAMES -- Eu no choro, no; no
  choro... no quero... (Forcejando por ser alegre.) Vedes? at rio! Vou-me para bem longe. Considerando bem, sia
   melhor; l rematou a audcia lusitana o seu edifcio, l
    irei escutar o rumor dos passos do nosso Vasco. E este sonho, esta
  quimera, esta coisa que me flameja c dentro, quem sabe se... Um grande sonho,
  senhor D. Manuel... Vede l, ao longe, na imensidade desses mares, nunca dantes
  navegados, uma figura rtila, que se debrua dos balces da aurora, coroada de
  palmas indianas?  a nossa glria,  a nossa glria que alonga os olhos, como a
  pedir o seu esposo ocidental. E nenhum lhe vai dar o sculo que a fecunde;
  nenhum filho desta terra, nenhum que empunhe a tuba da imortalidade, para
  diz-la aos quatro ventos do cu... Nenhum... (Vai amortecendo a voz.) Nenhum... (Pausa, fita D. Manuel, como se acordasse, e d de ombros.) Uma grande
  quimera, senhor D. Manuel. Vamos ao nosso desterro.

FIM
