Conto, Trs Tesouros Perdidos, 1858

Trs tesouros perdidos

Texto Fonte:

Pginas Recolhidas de Machado de Assis,

Rio de Janeiro: Edies W. M.
Jackson, 1938.

Publicado originalmente em A Marmota, 1858.

Uma tarde, eram quatro horas, o
Sr. X... voltava  sua casa para jantar. O apetite que levava no o fez reparar
em um cabriolet que estava parado  sua porta. Entrou, subiu a escada,
penetra na sala e... d com os olhos em um homem que passeava a largos passos
como agitado por uma interna aflio.

Cumprimentou-o polidamente; mas o
homem lanou-se sobre ele e com uma voz alterada, diz-lhe:

 Senhor, eu sou F..., marido da
senhora Dona E...

 Estimo muito conhec-lo,
responde o Sr. X...; mas no tenho a honra de conhecer a senhora Dona E...

 No a conhece! No a conhece! ...
quer juntar a zombaria  infmia?

 Senhor!...

E o Sr. X... deu um passo para
ele.

 Alto l!

O Sr. F... , tirando do bolso uma
pistola, continuou:

 Ou o senhor h de deixar esta
corte, ou vai morrer como um co!

 Mas, senhor, disse o Sr. X., a
quem a eloqncia do Sr. F... tinha produzido um certo efeito: que motivo tem o
senhor...

 Que motivo!  boa! Pois no  um
motivo andar o senhor fazendo a corte  minha mulher?

 A corte  sua mulher! no
compreendo!

 No compreende! oh! no me faa
perder a estribeira.

 Creio que se engana...

 Enganar-me!  boa! ... mas eu o
vi... sair duas vezes de minha casa...

 Sua casa!

 No Andara... por uma porta
secreta... Vamos! ou...

 Mas, senhor, h de ser outro, que
se parea comigo...

 No; no;  o senhor mesmo...
como escapar-me este ar de tolo que ressalta de toda a sua cara? Vamos, ou
deixar a cidade, ou morrer... Escolha!

Era um dilema. O Sr. X...
compreendeu que estava metido entre um cavalo e uma pistola. Pois toda a sua
paixo era ir a Minas, escolheu o cavalo.

Surgiu, porm, uma objeo.

 Mas, senhor, disse ele, os meus
recursos...

 Os seus recursos! Ah! tudo
previ... descanse... eu sou um marido previdente.

E tirando da algibeira da casaca
uma linda carteira de couro da Rssia, diz-lhe:

 Aqui tem dois contos de ris
para os gastos da viagem; vamos, parta! parta imediatamente. Para onde vai?

 Para Minas.

 Oh! a ptria do Tiradentes! Deus
o leve a salvamento... Perdo-lhe, mas no volte a esta corte... Boa viagem!

Dizendo isto, o Sr. F... desceu
precipitadamente a escada, e entrou no cabriolet, que desapareceu em uma
nuvem de poeira.

O Sr. X... ficou por alguns
instantes pensativo. No podia acreditar nos seus olhos e ouvidos; pensava
sonhar. Um engano trazia-lhe dois contos de ris, e a realizao de um dos seus
mais caros sonhos. Jantou tranqilamente, e da a uma hora partia para a terra
de Gonzaga, deixando em sua casa apenas um moleque encarregado de instruir,
pelo espao de oito dias, aos seus amigos sobre o seu destino.

No dia seguinte, pelas onze horas
da manh, voltava o Sr. F. para a sua chcara de Andara, pois tinha passado a
noite fora.

Entrou, penetrou na sala, e indo
deixar o chapu sobre uma mesa, viu ali o seguinte bilhete:

  Meu caro esposo! Parto no
paquete em companhia do teu amigo P... Vou para a Europa. Desculpa a m
companhia, pois melhor no podia ser.  Tua E....

Desesperado, fora de si, o Sr.
F... lana-se a um jornal que perto estava: o paquete tinha partido s 8 horas.

 Era P... que eu acreditava meu
amigo... Ah! maldio! Ao menos no percamos os dois contos! Tornou a meter-se
no cabriolet e dirigiu-se  casa do Sr. X..., subiu; apareceu o moleque.

 Teu senhor?

 Partiu para Minas.

O Sr. F... desmaiou.

Quando deu acordo de si estava
louco... louco varrido!

Hoje, quando algum o visita, diz
ele com um tom lastimoso:

 Perdi trs tesouros a um tempo:
uma mulher sem igual, um amigo a toda prova, e uma linda carteira cheia de
encantadoras notas... que bem podiam aquecer-me as algibeiras!...

Neste ltimo ponto, o doido tem
razo, e parece ser um doido com juzo.
