Crtica, Magalhes de Azeredo: Horas sagradas; Mrio de Alencar: Versos, 1902

Magalhes de Azeredo: Horas sagradas; Mrio de Alencar: Versos

Texto-Fonte:

Obra Completa de Machado de Assis,

Rio
de Janeiro: Nova Aguilar, vol. III, 1994.

Publicado
na Gazeta de Notcias, 07/12/1902.

Com o
ttulo Horas Sagradas, acaba de publicar Magalhes de Azeredo um livro
de versos, que no s no desmentem dos versos anteriores, mais ainda se pode
dizer que os vencem e mostram no talento do poeta um grau de perfeio
crescente. Folgamos de o noticiar, ao mesmo tempo que outro livro, de Mrio de
Alencar, seu amigo, seu irmo de esprito e de tendncia, de cultura e de
ideal. Chama-se este outro simplesmente Versos.

Quisramos
fazer de ambos um demorado estudo. No o podendo agora, lembramos s o que os
nossos leitores sabem, isto , que Magalhes de Azeredo, mais copioso e vasto,
tem um nome feito, enquanto que Mrio de Alencar, para honrar o de seu ilustre
pai, comea a escrever o seu no livro das letras brasileiras, no s pressas,
mas vagaroso, com a mo firme e pensativo, para no errar nem confundir.

Um ponto,
alm de outras afinidades, mostra o parentesco dos dois espritos. No  o amor
da glria, que o primeiro canta, confessa e define, por tantas faces e origens,
na ltima composio do livro, e o segundo no ousa dizer nem definir. Mas a
mesmo se unem. Porquanto, se Mrio de Alencar confessa: 'o autor  um
incontentado do que faz'  e, alis, j Voltaire dissera a mesma coisa de
si: 'Je ne suis jamais content de mes vers', Magalhes de
Azeredo nas vrias definies da glria, chega indiretamente a igual confisso,
quando pe na perfeio a glria mais augusta, e cita os annimos da Vnus de
Milo e da Imitao, at exclamar como Fausto:

E
exclamar como Fausto em xtase exclamara:

tomo
fugitivo, s belo, s belo, pra!

Isto, que
est no fim do livro de Magalhes de Azeredo, est tambm no princpio, quando
ele abre mo das Horas Sagradas. Confessa que as guardou por largo
tempo:

Por largo
tempo, neste ermo oculto

Guardei-vos.
Ide para o tumulto

Das
gentes. Quer-vos a sorte ali.

Colhereis
louros? Mas ah! que louros

Os vossos
gozos, que eu conheci?

E c
vieram as Horas Sagradas, ttulo que to bem assenta no livro. Elas so
sagradas pelo sentimento e pela inspirao, pelo amor, pela arte, pela
comemorao dos grandes mortos, pela nobreza do cidado, da virtude e da
histria. A religio tem aqui tambm o seu lugar, como no corao do poeta.
Tudo  puro. No 'Rosal de Amor', primeira parte do livro, no h
flores apanhadas na rua ou abafadas na sala. Todas respiram o ar livre e limpo,
e por vezes agreste. Um soneto, Ad Purissimam, mostra a castidade da
musa,  uma das musas, devemos dizer, porque aqui est, nas estrofes
'Mame', a outra das suas musas domsticas.  um basto rosal este a
que no faltar porventura alguma flor triste, mas to rara e to graciosa
ainda na tristeza, que mal nos d essa sensao. A msica dos versos faz
esquecer a melancolia do sentido. 'Matinal', 'Ao Sol',
'Crepuscular' do o tom da vida universal e do amor, a terra fresca e
o cu aberto.

Os
Bronzes Florentinos  uma bela coleo de grandes nomes de Florena, e do mundo,
pginas que (no importa a distncia nem o desconhecimento da cidade
para os que l no foram), produzem na alma do leitor c de longe uma vibrao
de arte nova e antiga a um tempo, ao lado do poeta, a acompanh-lo:

Atravs
do Gentil e do Sublime.

No
quisramos citar mais nada; seria preciso citar muito, transportar para fora do
livro estrofes que desejam l ficar, entre as que o poeta ligou na mesma e
linda medalha. Mas como deixar de repetir este fecho de bronze de Dante:

Quem,
depois de sofrer o dio profundo

Da
ptria, viu o inferno, e chorou tanto,

J no 
criatura deste mundo.

E muitos
outros deliciosos sonetos, fazendo passar ante os olhos Petrarca, Giotto,
Leonardo da Vinci, Miguel ngelo, Boccacio, Donatello, Frei Anglico, e tantos
cujos nomes l esto na igreja de Santa Cruz, onde o poeta entrou em dias caros
s musas brasileiras. Cada figura traz a sua expresso nativa e histrica; aqui
est Leo X, acabando na risada pontifcia; aqui Cellini, cinzelando o punhal
com que  capaz de ferir; aqui Savonarola, a morrer queimado e sem gemer por
esta razo de apstolo:

Ardia
mais que as chamas a tua alma!

No
poderia transcrever uns sem outros, mas o ltimo bronze dar conta dos
primeiros:  Galileu Galilei:

L na
Torre do Galo, esguia e muda,

Entre
rvores vetustas escondida,

No
entardecer da trabalhada vida

O potente
ancio medita e estuda.

J nos
olhos extinta  a luz aguda,

Que os
cus sondava em incessante lida:

Mas inda
a fronte curva e encanecida

Pensamentos
intrpidos escuda.

Sorrindo
agora das neqcias feras,

Que, por
amor do ideal sofrido tinha,

Ele a
sentena das vindouras eras

Invoca, e
os seus triunfos adivinha,

Ouvindo,
entre a harmonia das esferas

O
compasso da Terra, que caminha.

Nem s
Florena ocupa o nosso poeta, amigo de sua ptria. As 'Odes Cvicas'
dizem de ns ou da nossa lngua. Magalhes de Azeredo  o primeiro que no-lo
recorda, nos versos 'Ao Brasil', por ocasio do centenrio da descoberta.
O centenrio das ndias achou nele um cantor animado e alto. A ode 'A
Garrett exprime uma dessas adoraes que a figura nobre e elegante do grande
homem inspira a quem o leu e releu, por anos. Enfim, com o ttulo 'Alma
Errante' vem a ltima parte do livro. Aqui variam os assuntos, desde a ode
'As guias ', em que tudo  movimento e grandeza, at quadros e
pensamentos menores, outros tristes, uma saudade, um infortnio social, um
sonho, ou este delicioso soneto 'Sobre um Quadro Antigo';

Os
sculos em bruma lenta e escura

Te
ocultam, vaga imagem feminina:

E cada
ano, ao passar, tredo elimina

Mais um
resto de tua formosura.

Apenas,
no esbatido da pintura,

Algum tom
claro, alguma linha fina,

Revelando-te
a graa feminina,

Dizem que
foste,  frgil criatura...

Ah! como
s!  s mais bela do que outrora.

Seduz-me
esse ar distante, esse indeciso

Crepsculo
em que vives, me enamora.

O tempo
um gozo intensamente doce

Ps-te no
exangue, plido sorriso;

E o teu
humano olhar divinizou-se...

Em resumo
escasso, apenas indicaes de passagens, tal  o livro de Magalhes de Azeredo,
um dos primeiros escritores da nova gerao. A perfeio e a inspirao crescem
agora mais, repetimos. Ele, como os seus pares conjugam dois sculos, um que l
vai to cheio e to forte, outro que ora chega to nutrido de esperanas, por
mais que os problemas se agravem nele; mas, se no somos dos que crem no fim
do mal, no descremos da nobreza do esforo, e sobretudo das consolaes da
arte. Aqui est um esprito forte e hbil para no-las dar na nossa lngua.

Faa o
mesmo o seu amigo e irmo, Mrio de Alencar, cujo livro, pequeno e leve, contm
o que deixamos dito no princpio desta notcia.  outro que figurar entre os
da gerao que comeou no ltimo decnio. Particularmente, entre Mrio de
Alencar e Magalhes de Azeredo, alm das afinidades indicadas, h o encontro de
duas musas que os consolam e animam. O acerto da inspirao e a gemeidade da
tendncia levou-os a cantar a Grcia como se fazia nos tempos de Byron e de Hugo.
A sobriedade  tambm um dos talentos de Mrio de Alencar. Quando no h idia,
a sobriedade  apenas a falta de um recurso, e assim dois males juntos, porque
a abundncia e alguma vez o excesso suprem o resto. Mas no so idias que lhe
faltam; nem idias, nem sensaes, nem vises, como aquela 'Marinha',
que assim comea:

Sopra o
terral. A noite  calma. Faz luar

 Intercadente

 Soa
na praia molemente

 A
voz do mar.

As coisas
dormem; dorme a terra, e no ar sereno

 Nenhum
rudo

 Perturba
o encanto recolhido

 Do
luar pleno.

Ampla
mudez. A lua grande pelo cu

 Sem
nuvens vaga

 E
cobre o mar, vaga por vaga,

 De
um branco vu.

Longe, 
merc da branda aragem, vai passando

 Parda
falua.

 Nas
pandas velas bate a lua

 De
quando em quando...

Lede o
resto no livro, onde achareis outras pginas a que voltareis, e vos faro
esperar melhores, pedimos que em breve. Que ele sacuda de si esse
entorpecimento, salvo se  apenas respeito ao seu grande nome; mas ainda assim
o melhor respeito  a imitao. Tenha a confiana que deve em si mesmo. Sabe
cantar os sentimentos doces sem banalidade, e os grandes motivos no o deixam
frio nem resistente. Ainda ontem tivemos de ler o que Magalhes de Azeredo
disse de Mrio de Alencar, e dias antes dissera deste J. Verssimo, ns
assinamos as opinies de um e de outro.


