CRNICA, Bons dias,1888

Bons Dias!

Texto-fonte:

Obra Completa de Machado de Assis.

Rio de Janeiro: Nova Aguilar, Vol.
III, 1994.

Publicado originalmente na Gazeta
de Notcias, Rio de Janeiro, de 05/04/1888 a 29/08/1889.

1888

5 de abril

Bons dias!

Ho de
reconhecer que sou bem criado. Podia entrar aqui, chapu  banda, e ir logo
dizendo o que me parecesse; depois ia-me embora, para voltar na outra semana.
Mas, no senhor; chego  porta, e o meu primeiro cuidado  dar-lhe os bons
dias. Agora, se o leitor no me disser a mesma coisa, em resposta,  porque 
um grande malcriado, um grosseiro de borla e capelo; ficando, todavia,
entendido que h leitor e leitor, e que eu, explicando-me com to nobre
franqueza, no me refiro ao leitor, que est agora com este papel na mo, mas
ao seu vizinho. Ora bem!

Feito esse
cumprimento, que no  do estilo, mas  honesto, declaro que no apresento
programa. Depois de um recente discurso proferido no Beethoven, acho perigoso
que uma pessoa diga claramente o que  que vai fazer; o melhor  fazer calado.
Nisto pareo-me com o prncipe (sempre  bom parecer-se a gente com prncipes,
em alguma coisa, d certa dignidade, e faz lembrar um sujeito muito alto e
louro, parecidssimo com o Imperador, que h cerca de trinta anos ia a todas as
festas da Capela Imperial, pour tonner de bourgeois; os fiis levavam a
olhar para um e para outro, e a compar-los, admirados, e ele teso, grave,
movendo a cabea  maneira de Sua Majestade. So gostos) de Bismark. O prncipe
de Bismark tem feito tudo sem programa pblico; a nica orelha que o ouviu, foi
a do finado Imperador,  e talvez s a direita, com ordem de o no repetir 
esquerda. O Parlamento e o pas viram s o resto.

Deus fez
programa,  verdade ('E Deus disse: Faamos o homem  nossa imagem e
semelhana, para que presida', etc. Gnesis, I, 26); mas  preciso
ler esse programa com muita cautela. Rigorosamente, era um modo de persuadir ao
homem a alta linhagem de seu nariz. Sem aquele texto, nunca o homem atribuiria
ao Criador, nem a sua gaforinha, nem a sua fraude.  certo que a fraude, e, a
rigor, a gaforinha so obras do Diabo, segundo as melhores interpretaes; mas
no  menos certo que essa opinio  s dos homens bons; os maus crem-se
filhos do Cu  tudo por causa do versculo da Escritura.

Portanto,
bico calado. No mais  o que se est vendo; c virei uma vez por semana, com o
meu chapu na mo, e os bons dias na boca. Se lhes disser desde j, que
no tenho papas na lngua, no me tomem por homem despachado, que vem dizer coisas
amargas aos outros. No, senhor; no tenho papas na lngua, e  para vir a
t-las que escrevo. Se as tivesse, engolia-as e estava acabado. Mas aqui est o
que ; eu sou um pobre relojoeiro, que, cansado de ver que os relgios deste
mundo no marcam a mesma hora, descri do ofcio. A nica explicao dos
relgios era serem iguaizinhos, sem discrepncia; desde que discrepam, fica-se
sem saber nada, porque to certo pode ser o meu relgio, como o do meu
barbeiro.

Um exemplo.
O Partido Liberal, segundo li, estava encasacado e pronto para sair, com o
relgio na mo, porque a hora pingava. Faltava-lhe s o chapu, que seria o
chapu Dantas, ou o chapu Saraiva (ambos da chapelaria Aristocrata); era s
p-lo na cabea, e sair. Nisto passa o carro do pao com outra pessoa, e ele
descobre que ou o seu relgio est adiantado, ou o de Sua Alteza  que se
atrasara. Quem os por de acordo?

Foi por
essas e outras que descri do oficio; e, na alternativa de ir  fava ou ser
escritor, preferi o segundo alvitre;  mais fcil e vexa menos. Aqui me tero,
portanto, com certeza at  chegada do Bendeg, mas provavelmente at  escolha
do Sr. Gua, e talvez mais tarde. No digo mais nada para os no aborrecer, e
porque j me chamaram para o almoo.

Talvez o
que a fica, saia muito curtinho depois de impresso. Como eu no tenho hbito
de peridicos, no posso calcular entre a letra de mo e a letra de forma. Se
aqui estivesse o meu amigo Fulano (no ponho o nome, para que cada um tome para
si esta lembrana delicada), diria logo que ele s pode calcular com letras de
cmbio  trocadilho que fede como o Diabo. J falei trs vezes no Diabo em to
poucas linhas; e mais esta, quatro;  demais.

Boas
noites.

4 de maio

Bons dias!

...Desculpem,
se lhes no tiro o chapu; estou muito constipado. Vejam; mal posso respirar.
Passo as noites de boca aberta. Creio at, que estou abatido e magro. No?
Estou; olhem como fungo. E no  de autoridade, note-se; ex auctoritate qua
fungor, no, senhor; fungo sem a menor sombra de poder, fungo 
toa...

Entretanto,
se alguma vez precisei de estar de perfeita sade,  agora, por vrias razes.
Citarei duas:

A primeira
 a abertura das Cmaras. Realmente, deve ser solene. O discurso da princesa, o
anncio da lei de abolio, as outras reformas, se as h, tudo excita
curiosidade geral, e naturalmente pede uma sade de ferro. O meu plano era
simples; metia-me na casaca, e ia para o Senado arranjar um lugar, donde visse
a cerimnia, deputaes, recepo, discurso. Infelizmente, no posso; o mdico
no quer, diz-me que, por esses tempos midos,  arriscado sair de casa; fico.

A segunda
razo da sade que eu desejava ter agora, prende com a primeira. J o leitor
adivinhou o que . No se pode conversar nada, assim mais encobertamente, que
ele no perceba logo e no descubra.  isso mesmo;  a poltica do Cear. Era
outro plano meu; entrava pelo Senado, e ia ter com o senador cearense Castro
Carreira, e dizia-lhe mais ou menos isto:

 Saber V.
Exa. que eu no entendo patavina dos partidos do Cear...

 Com
efeito...

 Eles so
dois, mas quatro; ou, mais acertadamente, so quatro, mas dois.

 Dois em
quatro.

 Quatro em
dois.

 Dois,
quatro.

 Quatro,
dois.

 Quatro.

 Dois.

 Dois.

 Quatro.


Justamente.

 No ?


Clarssimo.

Dadas estas
explicaes, pediria eu ao Sr. Dr. Castro Carreira que me desse algumas
notcias mais individuais dos grupos Aquirs e Ibiapaba... S. Exa., com fastio:

 Notcias
individuais? Homem, eu no sei poltica individualista; eu s vejo os
princpios.

 Bem, os
princpios. Sabe que o grupo Aquirs, com um troo liberal, tomaram conta da
mesa; mas o grupo Ibiapaba acudiu com outro troo liberal, e puseram gua na
fervura. Quais so os princpios?

 Os
primeiros de todos devem ser os da boa educao, sem os quais no h boa
poltica. Dai-me boa educao, e eu vos darei boa poltica, diria o Baro
Louis. So os primeiros de todos os princpios.

 Os
segundos...

 Os
segundos so os comuns  ou que o devem ser, a todos os partidrios, quaisquer
que sejam as denominaes particulares; refiro-me ao bem da provncia.  o
terreno em que todos se podem conciliar.

 De
acordo; mas o que  que os separa?

 Os
princpios.

 Que
princpios?

 No h
outros; os princpios.

 Mas
Aquirs  um ttulo, no  um princpio; Ibiapaba tambm  um ttulo.

 H entre
o cu e a terra mais acumulaes do que sonha a vossa v filosofia...

 Pode ser,
mas isto ainda no me explica a razo desta mistura ou troca de grupos,
parecendo melhor que se fundissem de uma vez, com os antigos adversrios. No
lhe parece?

 O que me
parece,  que a princesa vem chegando.

Corramos 
janela; vamos que no; continuvamos o dilogo, a entrevista,  maneira
americana, para trazer os meus leitores informados das coisas e pessoas. O meu
interlocutor, vendo que no era a princesa, olhava para mim, esperando. Pouco
ou nenhum interesse no olhar; mas  ditado velho, que quem v cara no v
coraes. Certo fastio crescente. Princpio de desconfiana de que eu sou
mandado pelo diabo. Gesto vago de cruzes...

 H os
Rodrigues, os Paulas, os Aquirases, os Ibiapas; h os...

 Agora
creio que  a princesa. Estas trombetas...  ela mesma; adeus, sou da
deputao... Aparea aqui pelo Senado... No Senado, no h dvidas...

Mas eu
pegava-lhe na mo, e no vinha embora sem alguns esclarecimentos. Tudo perdido,
por causa de uma coriza! Coriza dos diabos, agora ou nunca, chegaramos a
entender aqueles grupos; e perde-se esta ocasio nica, por tua causa, infame
catarro, monco prfido!... Tuah! Vou meter-me na cama.

Boas
noites.

11 de maio

Bons dias!

Vejam os
leitores a diferena que h entre um homem de olho aberto, profundo, sagaz,
prprio para remexer o mais ntimo das conscincias (eu, em suma), e o resto da
populao.

Toda a
gente contempla a procisso na rua, as bandas e bandeiras, o alvoroo, o
tumulto, e aplaude ou censura, segundo  abolicionista ou outra coisa; mas
ningum d a razo desta coisa ou daquela coisa; ningum arrancou aos fatos uma
significao, e, depois, uma opinio. Creio que fiz um verso.

Eu, pela
minha parte, no tinha parecer. No era por indiferena;  que me custava a
achar uma opinio. Algum me disse que isto vinha de que certas pessoas tinham
duas e trs, e que naturalmente esta injusta acumulao trazia a misria de
muitos; pelo que, era preciso fazer uma grande revoluo econmica, etc.
Compreendi que era um socialista que me falava, e mandei-o  fava. Foi outro
verso, mas vi-me livre de um amolador. Quantas vezes me no acontece o
contrrio!

No foi o
ato das alforrias em massa dos ltimos dias, essas alforrias incondicionais,
que vm cair como estrelas no meio da discusso da lei da abolio. No
foi; porque esses atos so de pura vontade, sem a menor explicao. L que eu
gosto da liberdade,  certo; mas o princpio da propriedade no  menos
legtimo. Qual deles escolheria? Vivia assim, como uma peteca (salvo seja),
entre as duas opinies, at que a sagacidade e profundeza de esprito com que
Deus quis compensar a minha humildade, me indicou a opinio racional e os seus
fundamentos.

No 
novidade para ningum, que os escravos fugidos, em Campos, eram alugados. Em Ouro Preto fez-se a mesma coisa, mas por um modo mais particular. Estavam ali muitos escravos
fugidos. Escravos, isto , indivduos que, pela legislao em vigor, eram
obrigados a servir a uma pessoa; e fugidos, isto , que se haviam subtrado ao
poder do senhor, contra as disposies legais. Esses escravos fugidos no
tinham ocupao; l veio, porm, um dia em que acharam salrio, e parece que
bom salrio.

Quem os
contratou? Quem  que foi a Ouro Preto contratar com esses escravos fugidos aos
fazendeiros A, B, C? Foram os fazendeiros D, E, F. Estes  que saram a
contratar com aqueles escravos de outros colegas, e os levaram consigo para as
suas roas.

No quis
saber mais nada; desde que os interessados rompiam assim a solidariedade do
direito comum,  que a questo passava a ser de simples luta pela vida, e eu,
em todas as lutas, estou sempre do lado do vencedor. No digo que este
procedimento seja original, mas  lucrativo. Alguns no me compreenderam
(porque h muito burro neste mundo); algum chegou a dizer-me que aqueles
fazendeiros fizeram aquilo, no porque no vissem que trabalhavam contra a
prpria causa, mas para pregar uma pea ao Clapp. Imagina-se bem se arregalei
os olhos.

 Sim,
senhor. Saia que o Clapp tinha o plano feito de ir a Ouro Preto pegar os tais
escravos e restitu-los aos senhores, dando-lhes ainda uma pequena indenizao
do seu bolsinho, e pagando ele mesmo a sua passagem da estrada de ferro. Foi
por isso que...

 Mas ento
quem  que est aqui doido?

  o
senhor; o senhor  que perdeu o pouco juzo que tinha. Aposto que no v que
anda alguma coisa no ar.

 Vejo;
creio que  um papagaio.

 No,
senhor;  uma Repblica. Querem ver que tambm no acredita que esta mudana 
indispensvel?

 Homem,
eu, a respeito de governo, estou com Aristteles, no captulo dos chapus. O
melhor chapu  o que vai bem  cabea. Este, por ora, no vai mal.

 Vai
pessimamente. Est saindo dos eixos;  preciso que isto seja, seno com a
Monarquia, ao menos com a Repblica, aquilo que dizia o Rio-Post de 21
de junho do ano passado. Voc sabe alemo?

 No.

 No sabe
alemo?

E
dizendo-lhe eu outra vez que no sabia, ele imitando o mdico de Molire,
dispara-me na cara esta algaravia do diabo:

 Es drfte
leicht zu erweisen sein, dass Brasilien weniger eine konstitutionelle Monarchie
als eine absolute Oligarchie ist.

 Mas que
quer isto dizer?

 Que 
deste ltimo tronco que deve brotar a flor.

 Que flor?

 As

Boas
noites.

19 de maio

Bons dias!

Eu perteno
a uma famlia de profetas aprs coup, post factum, depois do gato morto,
ou como melhor nome tenha em holands. Por isso digo, e juro se necessrio for, que toda a histria desta Lei de 13 de Maio estava por mim prevista, tanto que
na segunda-feira, antes mesmo dos debates, tratei de alforriar um molecote que
tinha, pessoa de seus dezoito anos, mais ou menos. Alforri-lo era nada;
entendi que, perdido por mil, perdido por mil e quinhentos, e dei um jantar.

Neste
jantar, a que meus amigos deram o nome de banquete, em falta de outro melhor,
reuni umas cinco pessoas, conquanto as notcias dissessem trinta e trs (anos
de Cristo), no intuito de lhe dar um aspecto simblico.

No golpe do
meio (coup du milieu, mas eu prefiro falar a minha lngua),
levantei-me eu com a taa de champanha e declarei que acompanhando as idias
pregadas por Cristo, h dezoito sculos, restitua a liberdade ao meu escravo
Pancrcio; que entendia a que a nao inteira devia acompanhar as mesmas idias
e imitar o meu exemplo; finalmente, que a liberdade era um dom de Deus, que os
homens no podiam roubar sem pecado.

Pancrcio,
que estava  espreita, entrou na sala, como um furaco, e veio abraar-me os
ps. Um dos meus amigos (creio que  ainda meu sobrinho) pegou de outra taa, e
pediu  ilustre assemblia que correspondesse ao ato que acabava de publicar,
brindando ao primeiro dos cariocas. Ouvi cabisbaixo; fiz outro discurso
agradecendo, e entreguei a carta ao molecote. Todos os lenos comovidos
apanharam as lgrimas de admirao. Ca na cadeira e no vi mais nada. De
noite, recebi muitos cartes. Creio que esto pintando o meu retrato, e suponho
que a leo.

No dia
seguinte, chamei o Pancrcio e disse-lhe com rara franqueza:

 Tu s
livre, podes ir para onde quiseres. Aqui tens casa amiga, j conhecida e tens
mais um ordenado, um ordenado que...

 Oh! meu
senh! fico.

 ... Um
ordenado pequeno, mas que h de crescer. Tudo cresce neste mundo; tu cresceste
imensamente. Quando nasceste, eras um pirralho deste tamanho; hoje ests mais alto
que eu. Deixa ver; olha, s mais alto quatro dedos...

 Artura
no qu diz nada, no, senh...

 Pequeno
ordenado, repito, uns seis mil-ris; mas  de gro em gro que a galinha enche
o seu papo. Tu vales muito mais que uma galinha.


Justamente. Pois seis mil-ris. No fim de um ano, se andares bem, conta com
oito. Oito ou sete.

Pancrcio
aceitou tudo; aceitou at um peteleco que lhe dei no dia seguinte, por me no
escovar bem as botas; efeitos da liberdade. Mas eu expliquei-lhe que o
peteleco, sendo um impulso natural, no podia anular o direito civil adquirido
por um ttulo que lhe dei. Ele continuava livre, eu de mau humor; eram dois
estados naturais, quase divinos.

Tudo
compreendeu o meu bom Pancrcio; da para c, tenho-lhe despedido alguns pontaps,
um ou outro puxo de orelhas, e chamo-lhe besta quando lhe no chamo filho do
Diabo; coisas todas que ele recebe humildemente, e (Deus me perdoe!) creio que
at alegre.

O meu plano
est feito; quero ser deputado, e, na circular que mandarei aos meus eleitores,
direi que, antes, muito antes de abolio legal, j eu, em casa, na modstia da
famlia, libertava um escravo, ato que comoveu a toda a gente que dele teve
notcia; que esse escravo tendo aprendido a ler, escrever e contar, (simples
suposio)  ento professor de filosofia no Rio das Cobras; que os homens
puros, grandes e verdadeiramente polticos, no so os que obedecem  lei, mas
os que se antecipam a ela, dizendo ao escravo: s livre, antes que o
digam os poderes pblicos, sempre retardatrios, trpegos e incapazes de
restaurar a justia na terra, para satisfao do Cu.

Boas
noites.

1 de junho

Bons dias!

Agora fale
o senhor, que eu no tenho nada mais que lhe dizer. J o saudei, graas  boa
criao que Deus me deu, porque isto de criao, se a natureza no ajuda, 
escusado trabalho humano. Eu, em menino fui sempre um primor de educao.
Criou-me uma ama, escrava; e, apesar de escrava e ama, nunca lhe pus a boca no
seio para mamar.

 Mas,
Policarpo, tu tens direito a ser aleitado, e depois  obrigao da escrava
alugada.

Em vo
chorava, a Florinda corria, desabotoava o corpinho, punha o seio de fora, e eu,
por mais fome que tivesse, no lhe pegava sem pedir licena. Pedia por gesto;
parece que era um gesto de olhos...

Aos cinco
anos (era em 1831), como j sabia ler, davam-nos no colgio A Ptria,
pouco antes fundada pelo Sr. Carlos Bernardino de Moura, com as mesmas
doutrinas polticas que ainda hoje sustenta. A minha alma, que nunca se deu com
poltica, dormia que era um gosto; mas os olhos no, esses iam por ali fora,
risonhos, aprobatrios.

Agora
mesmo, lendo naquela folha que o governo  que deu o dinheiro com que os
jornais fizeram as festas abolicionistas, pensam que, se tivesse de
explicar-me, f-lo-ia como a comisso da imprensa? No; seria grosseiro. Nunca
se deve desmentir ningum. Eu diria que sim, que era verdade, que o governo
tinha pago tudo, as festas e uns aluguis atrasados da casa do Sousa Ferreira;
que para isso mesmo  que fora contratado o ltimo emprstimo em Londres; que o
Serzedelo,  custa do mesmo dinheiro, tinha reformado o pau moral; que as
botinas novas do Pederneiras no tinham outra origem; e que o nosso amigo e
chefe Jos Telha precisando de uma casaca para ir ao Coquelin,  que se meteu
naquelas manifestaes. O redator ouvia tudo satisfeito; e no dia seguinte
comeava assim o editorial: 'Conforme havamos previsto' (o resto
como em 1844).

Podia citar
casos honrosssimos, como prova de boa criao. Um deles nunca me h de
esquecer, e  fresquinho.

Estando h
dias a almoar com alguns amigos, percebi que alguma coisa os amargurava. No
gosto de caras tristes, como no gosto delas alegres;  um meio-termo entre o
Caju e o Recreio Dramtico  o que vai comigo. Seno quando, com um modo
delicado, perguntei o que  que tinham. Calaram-se; eu, como manda a boa
criao, calei-me tambm e falei de outra coisa. Foi o mesmo que se os
convidasse a pr tudo em pratos limpos. Tratando-se de um almoo, era condio
primordial.

Um dos convivas
confessou que no meio das festas abolicionistas no aparecia o seu nome, outro
que era o dele que no aparecia, outro que era o dele, e todos que os deles.
Aqui  que eu quisera ser um homem malcriado. O menos que diria a todos,  que
eles tanto trabalharam para a abolio dos escravos, como para a destruio de
Nnive, ou para a morte de Scrates... Eu, com uma sabedoria s comparvel 
deste filsofo, respondi que a Histria era um livro aberto, e a justia a
perptua vigilante. Um dos convivas, dado a frases, gostou da ltima, pediu
outra e um clice de Alicante. Respondi, servindo o vinho, que as reparaes
pstumas eram mais certas que a vida, e mais indestrutveis que a morte. Da
primeira vez fui vulgar, da segunda creio que obscuro; de ambas sublime e bem
criado.

Em
linguagem ch, todos eles queriam ir  Glria sem pagar o bonde; creio que fiz
um trocadilho. De mim, confesso que l iria, se pudesse, com a mesma economia;
mas, no havendo outro meio, pago o tostozinho, e paro  porta do Club Beethoven,
que anda agora em tais alturas, que j foi citado pela boca de eminente
cidado... Ho de concordar que este perodo vai um pouco embrulhado, mas no
devo desembrulh-lo; seria constipar a minha idia.

Podia citar
outros muitos casos de boa criao, realmente exemplares. Nunca dei piparotes
nas pessoas que no conheo, no limpo a mo  parede, no vou bugiar, que 
ofcio feio, e ando sempre com tal cautela, que no piso os calos aos vizinhos.
Tiro o chapu, como fiz agora ao leitor; e dei-lhe os bons dias do
costume. Creio que no se pode exigir mais. Agora, o leitor que diga alguma
coisa, se est para isso, ou no diga nada, e boas noites.

16 de junho

Bons dias!

Recebi um
requerimento, que me apresso em publicar com o despacho que lhe dei:

Aos ps de
V Exa. vai o abaixo assinado pedir a coisa mais justa do mundo.

Rogo me
preste ateno por alguns instantes; no quero tomar o precioso tempo de V
Exa..

No ignora
V. Exa. que, desde que nasci, nunca me furtei ao trabalho. Nem quero saber quem
me chama, se  pessoa idnea ou no; uma vez chamado, corro ao servio. Tambm
no indago do servio; pode ser poltico, literrio, filosfico, industrial,
comercial, rural, seja o que for, uma vez que  servio, l estou. Trato com
ministros e amanuenses, com bispos e sacristes sem a menor desigualdade.
Cheguei at (e digo isto para mostrar atestados de tal ou qual valor que
tenho), cheguei a fazer aposentar alguns colegas, que, antes de mim,
distribuam o trabalho entre si, distinguindo-se um, outro sobressaindo,
outro pondo em relevo alguma qualidade particular. No digo que houvesse
injustia na aposentadoria: estavam cansados, esta  a verdade. E para a gente
de minha classe a fadiga estrompa e at mata.

Ficando eu
com o servio de todos, naturalmente tinha muito a que acudir, e repito a V.
EXa. que nunca faltei ao dever. No tenho presuno de bonito, mas sou til,
ajusto-me s circunstncias e sei explicar as idias.

No 
trabalho, mas o excesso de trabalho que me tem cansado um pouco, e receio muito
que me acontea o que se deu com os outros. Isto de se fiar uma pessoa no
carinho alheio, na generalidade dos afetos,  erro grave. Quando menos espera,
l se vai tudo; chega alguma pessoa nova e (deixe V. Exa. l falar o Joo)
ambas as mos da experincia no valem um dedinho s da juventude.

Mas vamos
ao pedido. O que eu impetro da bondade de V. Exa. (se est na sua alada)  uma
licena por dois meses, ainda que seja sem ordenado; mas com ordenado seria
melhor, porque h despesas a que acudir, a fim de ir s guas de Caxambu. Seria
melhor, mas no fao questo disso; o que me importa  a licena, s por dois
meses; no fim deles ver que volto robusto e disposto para tudo e mais alguma
coisa.

Peo pouco,
apenas um pouco de descanso. Deus, feito o mundo, descansou no stimo dia. Pode
ser que no fosse por fadiga, mas para ver no era melhor converter a sua obra
ao caos; em todo o caso a Escritura fala de descanso, e  o que me serve. Se o
Supremo Criador no pode trabalhar, sem repousar um dia depois de seis, quanto
mais este criado de V. Exa.?

No faltar
quem conclua (mas no ser o grande esprito de V. Exa.) que, se eu algum
direito tenho a uma licena, maiores e infinitos tm outros colegas, cujo
trabalho  constante, ininterrupto e secular. H aqui um sofisma que se destri
facilmente. Nem eu sou da classe da maior parte de tais companheiros,
verdadeira plebe, para quem uma lei de Treze de Maio seria a morte da lavoura
(do pensamento); nem os da minha categoria tm a minha idade, e, de mais a
mais, revezam-se a mido, ao passo que eu suo e tressuo sem respirar.

Contando
receber merc, subscrevo-me, com elevada considerao, de V. Exa. admirador e
obrigado verbo Salientar.

O despacho
foi este:

Conquanto o
suplicante no junte documentos do que alega, , todavia, de notoriedade
pblica o seu zelo e prontido em bem-servir a todos. A licena, porm, s lhe
pode ser concedida por um ms, embora com ordenado, porque, trabalhando as
Cmaras Legislativas, mais que nunca  necessria a presena do suplicante,
cujo carter e atividade, legtima procedncia e brilhante futuro folgo em
reconhecer e fazer pblicos. Se tem trabalhado muito,  preciso dizer, por
outro lado, que o trabalho  a lei da vida e que sem ele o suplicante no teria
hoje a posio culminante que alcanou e na qual espero que se conservar
honrosamente por longos anos, como todos havemos mister. Lavre-se portaria,
dispensados os emolumentos.

Boas
noites.

26 de junho

Bons dias!

Eu, se
tivesse crdito na praa, pedia emprestados a casamento uns vinte contos de
ris, e ia comprar libertos. Comprar libertos no  expresso clara; por isso
continuo.

Conhece o
leitor um livro do clebre Ggol, romancista russo, intitulado Almas Mortas?
Suponhamos que no conhece, que  para eu poder expor a semente da minha idia.
L vai em duas palavras.

Chamam-se almas
os campnios que lavram as terras de um proprietrio, e pelos quais, conforme o
nmero, paga este uma taxa ao Estado. No intervalo do lanamento do imposto,
morrem alguns campnios e nascem outros. Quando h dficit, como o
proprietrio tem de pagar o nmero registrado, primeiro que se faa outro
recenseamento, chamam-se almas mortas os campnios que faltam.

Tchitchikof,
um espertalho da minha marca, ou talvez maior, lembra-se de comprar as almas
mortas de vrios proprietrios. Bom negcio para os proprietrios, que
vendiam defuntos ou simples nomes, por dez-ris de mel coado. Tchitchikof, logo
que arranjou umas mil almas mortas, registrou-as como vivas; pegou dos
ttulos do registro, e foi ter a um Monte de Socorro, que,  vista dos papis
legais, adiantou ao suposto proprietrio uns 200.000 rublos; Tchitchikof
meteu-os na mala e fugiu para onde a polcia russa o no pudesse alcanar.

Creio que
entenderam; vejam agora o meu plano, que  to fino como esse, e muito mais
honesto. Sabem que a honestidade  como a chita; h de todo o preo, desde meia
pataca.

Suponha o
leitor que possua duzentos escravos no dia 12 de maio, e que os perdeu com a
Lei de 13 de Maio. Chegava eu ao seu estabelecimento, e perguntava-lhe:

 Os seus
libertos ficaram todos?

 Metade
s; ficaram cem. Os outros cem dispersaram-se; consta-me que andam por Santo
Antnio de Pdua.

 Quer o
senhor vender-mos?

Espanto do
leitor; eu, explicando:


Vender-mos todos, tanto os que ficaram, como os que fugiram.

O leitor
assombrado:

 Mas,
senhor, que interesse pode ter o senhor...

 No lhe
importe isso. Vende-mos?

 Libertos
no se vendem.

 
verdade, mas a escritura de venda ter a data de 29 de abril; nesse caso, no
foi o senhor que perdeu os escravos, fui eu. Os preo marcados na escritura
sero os da tabela da lei de 1885; mas eu realmente no dou mais de dez
mil-ris por cada um.

Calcula o
leitor:

 Duzentas
cabeas a dez mil-ris so dois contos. Dois contos por sujeitos que no valem
nada, porque j esto livres,  um bom negcio.

Depois
refletindo:

 Mas,
perdo, o senhor leva-os consigo?

 No,
senhor: ficam trabalhando para o senhor; eu s levo escritura.

 Que
salrio pede por eles?

 Nenhum,
pela minha parte, ficam trabalhando de graa. O senhor pagar-lhes- o que j
paga.

Naturalmente,
o leitor,  fora de no entender, aceitava o negcio. Eu ia a outro, depois a outro,
depois a outro, at arranjar quinhentos libertos, que  at onde podiam ir os
cinco contos emprestados; recolhia-me  casa, e ficava esperando.

Esperando o
qu? Esperando a indenizao, com todos os diabos! Quinhentos libertos, a
trezentos mil-ris, termo mdio, eram cento e cinqenta contos; lucro certo:
cento e quarenta e cinco.

Porquanto,
isto de indenizao, dizem uns que pode ser que sim, outros que pode ser que
no:  por isso que eu pedia o dinheiro casamento. Dado que sim, paga e casava
(com a leitora, por exemplo); dado que no, ficava solteiro e no perdia nada,
porque o dinheiro era de outro. Confessem que era um bom negcio.

Eu at
desconfio que h j quem faa isto mesmo, com a diferena de ficar com os
libertos. Sabem que no tempo da escravido, os escravos eram anunciados com
muitos qualificativos honrosos, perfeito cozinheiros, timos copeiros, etc.
Era, com outra fazenda, o mesmo que fazem os vendedores, em geral: superiores
morins, lindas chitas, soberbos cretones. Se os cretones, as chitas e os
escravos se anunciassem, no poderiam fazer essa justia a si mesmos.

Ora, li
ontem um anncio em que se oferece a aluguel, no me lembra em que rua,  creio
que na do Senhor dos Passos,  uma insigne engomadeira. Se  falta de modstia,
eis a um dos tristes frutos da liberdade; mas se  algum sujeito que j se me
antecipou...

Larga
Tchitchikof de meia tigela! Ou ento vamos fazer o negcio a meias.

Boas
noites.

19 de junho

Bons dias!

No gosto
de ver censuras injustas. H dias, um eminente senador disse que a Cmara dos
Deputados era a Cmara de dois domingos, e disse a verdade, porque ali um
sbado e um domingo so a mesma coisa. No a censurou por isso, entretanto, mas
por adiar para o sbado os requerimentos, isto , mandar-lhes o lao de seda
com que eles se enforquem logo.

Sejamos
justos. A Cmara, no fazendo sesso aos sbados, obedece a um alto fim
poltico:  imitar a Cmara dos Comuns ingleses, que nesse dia tambm repousa.
Deste modo, aproxima-nos da Inglaterra, bero das liberdades parlamentares,
como dizia um mestre que tive e que me ensinou as poucas idias com que vou
acudindo as misrias da vida. Dele  que herdei a espada rutilante da
justia,  o timeos Danaos,  o devolvo-lhe intacta a injria,
e outros vintns mais ou menos magros.

Dir-me-o
que os comuns ingleses descansam no sbado, porque ficam estafados das sesses
de oito, nove e dez horas, que  o tempo que elas duram nos demais dias.

 verdade;
mas cumpre observar que os comuns comeam a trabalhar de tarde e vo pela noite
dentro, depois de terem gasto a primeira parte do dia nos seus prprios
negcios. Deste modo esto livres e prontos para ir at a madrugada, se preciso
for. Trabalham com a fresca, despreocupados, tranqilos. No acontece o mesmo
conosco. As nossas sesses parlamentares comeam ao meio-dia, hora de calor,
sem dar tempo a fazer alguma coisa particular; e depois o clima  diferente.
Nem j agora  possvel tornar aos sbados. O Sr. Baro de Cotegipe disse que
desde 1826 dormem projetos de lei nas pastas das comisses do Senado; com os
requerimentos da Cmara deve acontecer a mesma coisa, mas suponhamos que s
comeam em 1876...

Censuras
no faltam. J ouvi censurar um dos nossos costumes parlamentares, que
justamente mais me comovem; refiro-me ao de levantar a sesso, quando morre
algum dos membros da casa. A notcia  dada por um deputado ou senador, que faz
um discurso, pondo em relevo as qualidades do finado. s vezes o defunto no
prestou ao Estado o menor servio; no importa, essa  justamente a beleza do
sistema democrtico e de igualdade que deve reger, mais que todos os corpos
legislativos. Para o Parlamento, como para a morte, como para a Constituio,
todos so legisladores, todos merecem igual cortesia e piedade.

Os censuradores
alegam que este uso no existe em parte nenhuma, fora daqui. O argumento
Aquiles (como me diria o citado mestre)  que, tendo sido as Cmaras inventadas
para tratar dos negcios pblicos, a morte de um de seus membros deve pesar
menos, muito menos, que o dever social. Da o discurso em que o presidente deve
noticiar a morte, com palavras de saudade, e passar  ordem do dia.

Os
preconizadores de hbitos peregrinos chegam a citar o que agora mesmo se deu no
Parlamento de Inglaterra, quando chegou a notcia da morte do genro da rainha,
que no era membro da Cmara dos Lords, mas podia s-lo, se no fosse
Imperador da Alemanha. A notcia foi comunicada a ambas as Cmaras por um
ministro; respondeu-lhe o leader da oposio, e continuaram os
trabalhos, durando os da Cmara at s duas da madrugada.

Mas quem
no v que nem o exemplo nem o argumento servem ao nosso caso?

Quanto ao
exemplo, basta considerar que, posto que o Imperador fosse um digno e grande
homem, no era membro ele de nenhuma das casas. Fizeram-se mensagens  Rainha e
 Imperatriz.

Alm disso,
pode ser que, realmente, nesse dia houvesse negcios urgentes. Digo isto,
porque o discurso do ministro na Cmara dos Lords, respeitoso e grave,
ocupa apenas doze linhas no Times, e o da oposio onze. Na dos Comuns,
o do ministro tem nove linhas, o da oposio oito. Cabe ainda notar que
ningum mais falou. Finalmente, dali em diante proferiram-se na Cmara dos
Comuns, sobre diversos projetos, mais de cinqenta discursos.

Quanto ao
argumento, no h nada mais falho.  certo que as Cmaras foram criadas para
curar principalmente dos negcios pblicos; mas onde  que constituies
escritas revogaram leis do corao humano? Podem transtorn-las,  certo, como
na dura Inglaterra, na Frana inquieta, na Itlia ambiciosa; mas, tais so as
nossas condies. Demais, a venerao dos mortos cimenta a amizade dos vivos.

Ponhamo-nos
de acordo. Se a Cmara no faz sesso aos sbados, para acompanhar a dos
Comuns, aqui-del-rei. Se no acompanha a dos Comuns, e se vai embora, sempre
que morre algum membro, ter igual censura. Ponhamo-nos de acordo.

Boas
noites.

19 de julho

Bons dias!

Quem me no
fez bei de Tunes cometeu um desses erros imperdoveis, que bradam aos cus.

Suponhamos
por um instante que eu era bei de Tunes. Antes de mais nada, tinha prazer de
viver em Tunes, que  um dos mais desenfreados desejos. Depois, no entendia
nada do que me dissessem, nem os outros me entendiam, e para estabelecer
relaes cordiais, no h melhor caminho. O Sr. Von Stein fez-se amigo dos
ndios do Xingu, recitando versos de Goethe.

No
perderia o gosto c do Rio, porque levaria naturalmente assinaturas de jornais;
leria tudo, a questo da revista cvel n. 10.893, o imortal processo da
Bblia, os debates do Parlamento, os manifestos polticos, etc. Quando alguma
coisa me parecesse dita ou escrita em dialeto barbaresco, teria o meu colgio
de intrpretes, que me explicaria tudo.

No indo
mais longe, acabo de ler no discurso do Sr. Senador Leo Veloso uma frase, que,
se eu estivesse em Tunes, no lhe perderia o sentido. S. Exa. declarou que a
vitaliciedade do cargo no o segregou daqueles que o elegeram. Ora, os que o
elegeram vo morrendo e ho de ir morrer todos, como j devem ter morrido os
que elegeram o Sr. Visconde do Serro Frio. Como  que no h segregao? H e 
uma das vantagens da instituio. Se em 1871 os Srs. Silveira Martins e Baro
de Mau fossem vitalcios, no haveria o recurso aos eleitores, que ps o Sr.
Mau fora da Cmara. Quando o primeiro desafiasse o segundo a irem pleitear
ante os eleitores liberais o procedimento de ambos, responderia o Sr. Mau:

 Mas, meu
caro colega, os meus eleitores esto mortos. H dois dias vivia o Bandeira, de
Pelotas; pois morreu, aqui est o telegrama, que recebi agora mesmo da famlia.
Sabe que somos velhos conhecidos...

Entretanto,
aquela frase, que em portugus d este resultado, talvez possa ser explicada
pelo arbico; mas eu no sou bei de Tunes.

Outras
muitas coisas me explicar o colgio de intrpretes. No as digo todas; mas
aqui vai mais uma.

Os
espiritistas brasileiros acabam de dar um golpe de mestre. Apareceu por aqui um
mdium, Dr. Slade  o seu nome, com a fama de ser prodigioso. A Federao
Esprita Brasileira nomeou uma comisso para estudar os fenmenos de escritura
direta sobre ardsias e outros efeitos fsicos produzidos com o mdium. Pois,
senhores, no achou que o homem valesse a fama; declarou que os trabalhos
ficaram muito abaixo do que esse mesmo mdium conseguiu na Inglaterra, Frana,
Alemanha, Estados Unidos e Austrlia.  verdade que a prpria Federao explica
a diferena. Todos os que estudam os fenmenos espritas (diz ela) conhecem
que as mediunidades esto sujeitas a esses eclipses. E noutro lugar: Sabem
todos que os invisveis no esto servilmente  nossa disposio.

Ora tudo
isto, que parece algaravia, sendo lido por um esprita,  como a lngua de
Voltaire, pura, lmpida, ntida, e fcil. Os invisveis no esto servilmente
 nossa disposio! No falo do enriquecimento da lngua com a palavra
mediunidade, que  nova, sem ser esbelta.

Fosse eu
bei de Tunes, e o meu colgio me explicaria tudo isso e mais isto: Somente
lamentamos que nesses eclipses da sua faculdade, o medium, sem dvida
por sugestes malignas, busque simular os fenmenos que obtm nas condies
normais...

Ao que
parece, o medium no s foi (com perdo da palavra) apenas minimum,
mas at procurou embaar a Federao. No andou bem; e a Federao cumpriu o
seu dever desvendando as sugestes malignas. Nem parea que isto mesmo foi
sugesto de despeito; a Federao conclui francamente aquele perodo: ...fato
aqui plenamente verificado.

Valha-me
Nossa Senhora! Que poro de coisas obscuras, que eu nunca hei de entender! E
da, quem sabe? Schopenhauer chegou a crer nas mesas que giram; h quem
acredite no casamento da constituio americana com o sistema parlamentar. No
 muito acreditar nos motivos do eclipse do Dr. Slade, mesmo sem entend-los...
Ah! por que no me fazem bei de Tunes!

Boas
noites.

29 de julho

Bons dias!

Antes de
mais nada deixem-me dar um abrao no Lus Murat, que acaba de no ser eleito
deputado pelo 12 distrito do Rio de Janeiro. Eu j tinha escovado a casaca e o
estilo para o enterro do poeta e o competente necrolgio; ningum est livre de
uma vitria eleitoral. Escovei-os e esperei as notcias.

Vieram
elas, e no lhe digo nada: dei um salto de prazer. Cheguei  janela; vi que as
rosas,  umas grandes rosas encarnadas que Deus me deu,  vi que estavam alegres
e at danavam; a msica era um bater de asas de pssaros brancos e azuis, que
apareceram ali vindos no sei donde, nem como.

Sei que
eram grandes, que batiam as asas, que as rosas bailavam e que as demais plantas
pareciam exalar os melhores cheiros. Umas vozes surdas diziam rindo: Murat,
derrotado. Murat, derrotado.

E que
bonita derrota, Deus de misericrdia! Podia perder a eleio por vinte ou
trinta votos; seria ento um meio desastre, porque abria novas e fundadas
esperanas. Mas, no, senhor, a derrota foi completa; nem cinqenta votos. Por
outros termos,  um homem liberto; teve a sua Lei de 13 de Maio: Art. 1. Lus
Murat continuar a compor versos. Art. 2. Ficam revogadas as disposies em
contrrio.

No  que
seja mau ter um lugar na Cmara. Tomara eu l estar. No posso; no entram ali
relojoeiros. Poetas entram, com a condio de deixar a poesia. Votar ou poetar.
Vota-se em prosa, qualquer que seja, prosa simples, ruim prosa, boa prosa, bela
prosa, magnfica prosa, e at sem prosa nenhuma, como o Sr. Dias Carneiro, para
citar um nome. Os versos, quem os fez, distribui-os pelos parentes e amigos e
faz uma cruz s musas. Alencar (e era dos audazes) tinha um drama no prelo,
quando foi nomeado ministro. Comeou mandando suspender a publicao; depois
f-lo publicar sem nome de autor. E note-se que o drama era em prosa...

Suponhamos
que Lus Murat saa eleito, e que seu rival, o Augusto Teixeira,  que ficava
com os quarenta votos. Com certeza, os versos de Murat no passavam a ser
feitos pelo Teixeira; e era talvez, uma vantagem. Em todo caso, ficvamos sem
eles. Onde esto os do Dr. Afonso Celso? Jos Bonifcio, se os fazia,
enterrava-os na chcara... Podia citar outros, mas no quero que a Cmara
brigue comigo.

V l
abrao, e adeus. Agora  arrazoar de dia no escritrio de advogado, e versejar
de noite. No fazem mal as musas aos doutores, disse um poeta; podem faz-lo
aos deputados.

Antes de
mais nada, disse eu a princpio; mas francamente no vi se tinha mais alguma
coisa que dizer. Prefiro calar-me, no sem comunicar aos leitores uma notcia
de algum interesse.

Os leitores
pensam com razo que so apenas filhos de Deus, pessoas, indivduos, meus
irmos (nas prdicas), almas (nas estatsticas), membros (nas sociedades),
praas (no exrcito), e nada mais. Pois so ainda uma certa coisa,  uma coisa
nova, metafrica, original.

Ontem, indo
eu no meu bonde das tantas horas da tarde para (no digo o lugar), ao entrarmos
no Largo da Carioca, costeamos outro bonde, que ia enfiar pela Rua de Gonalves
Dias. O condutor do meu bonde falou ao do outro para dizer que na viagem que
fizera da estao do Largo do Machado at a cidade, trouxe um s passageiro.
Mas no contou assim, como a fica; contou por estas palavras: Que te dizia
eu? Fiz uma viagem  toa; apenas pude apanhar um carapicu...

A est o
que  o leitor: um carapicu este seu criado; carapicus os nossos amigos e
inimigos. Aposto que no sabia desta? Carapicu... Como metfora,  bonita; e
podia ser pior.

Boas
noites.

16 de setembro

Bons dias!

Venho de um
espetculo longo, em parte interessante, em parte aborrecido, organizado em
benefcio do incidente Manso.

Comeou por uma
comdia de Musset: Il faut quune port soit ouverte ou ferme. No
confundam com o drama de grande espetculo Fechamento das Portas,
representado h dias no Liceu com alguma aceitao. No: a pea de Musset  um
atozinho gracioso e lmpido. Trata-se de um conde, que vai visitar uma
marquesa, e no acaba de sair nem de ficar, at que a dama conclui por lhe dar
a mo de esposa. Clara aluso ao incidente Manso.

No dia
seguinte, tivemos um drama extenso e complicado, cujos atos contei enquanto me
restaram dedos; mas primeiro acabaram-se-me os dedos que os atos. Cuido que no
passariam de vinte, talvez dezenove. Boa composio, lances novos, cenas de
efeito, dilogos bem travados. Um dos papis, escrito em portugus e latim,
produziu enorme sensao pelo inesperado. Dizem que a inovao vai ser
empregada c fora, por alguns autores dramticos, cansados de escrever em uma
s lngua, e, s vezes, em meia lngua. Os monlogos, os dilogos, que eram
vivssimos, e os coros foram, se assim se pode dizer de obra humana,
irrepreensveis.

Essa pea,
comeada no segundo dia, durou at o terceiro, porque o espetculo, para em
tudo ser interessante, imitou esse uso das representaes japonesas, que no se
contentam com quatro ou cinco horas. No bastando o drama, deram-nos ainda uma
comdia de Shakespeare, As you like it,  ou, como diramos em
portugus, Como aprouver a Vossa Excelncia. Posto que inteiramente
desconhecida do pblico, pareceu agradar bastante. Dois outros espectadores
aplaudiram por engano umas cenas, em vez de outras; mas a culpa foi dos
amadores, que no pronunciaram bem o ingls.

Como
acontece sempre, algumas pessoas, para se mostrarem sabidas dos teatros
estrangeiros, disseram que era prefervel dar outra comdia do grande ingls: Muito
Barulho Para Nada. Mas esta opinio no encontrou adeptos.

Pela minha
parte, achei o defeito da extenso. Espetculos daqueles no devem ir alm de
duas ou trs horas. Verdade  que, sendo numerosos os amadores, todos quereriam
algum papel, e para isso no bastava esse ato de Musset. Bem; mas para isso
mesmo tenho eu o remdio, se me consultassem.

O remdio
era o fongrafo, com os aperfeioamentos ltimos que lhe deu o famoso Edison.
Fez-se agora a experincia em Londres, onde por meio do aparelho se ouviram
palavras, cantigas e risadas do prprio Edison, como se ele ali estivesse ao
p. Um dos jornais daquela cidade escreve que o fongrafo, tal qual est agora
aperfeioado,  instrumento de durao quase ilimitada. Pode conservar tudo.
Justamente o nosso caso.

Acabada a
representao, em pouco tempo, segundo convinha  urgncia e gravidade do
assunto e do momento, se ainda houvesse amadores que quisessem um papel
qualquer, grande ou pequeno, o diretor faria distribuir fongrafos, onde cada
um daquele depositaria as suas idias; podiam ajustar-se trs ou quatro para os
dilogos.

A
reproduo de todas as palavras ali recolhidas podia ser feita, no  vontade
do autor, mas vinte e cinco anos depois. Ficavam s as belezas do discurso;
desapareciam os inconvenientes.

E,
reparando bem, est aqui o remdio a um dos males que afligem o regmen
parlamentar: o abuso da palavra. No  fcil, mas  possvel. Basta fazer uma
escolha de oradores, um grupo para cada negcio, por ordem; os restantes
confiariam ao fongrafo os discursos que a gerao futura escutaria.

No ano de 1913,
por exemplo, abriam-se os fongrafos, com as formalidades necessrias, e os
nossos filhos ouviriam a prpria voz de algum orador atual discutir o oramento
da receita geral do Imprio: ...E, perguntei ao nobre ministro, sabe que
faleceu o tabelio de Ubatuba? Esse homem padecia de uma afeco cardaca, mas
ia vivendo; tinha mulher e quatro filhos,  o mais velho dos quais no passava
de sete anos. Note S. Exa. que o tabelio nem era filho da provncia; nasceu em
Cimbres, e de uma famlia respeitvel; um dos irmos foi capito do 7
regimento de cavalaria, e esteve em Itoror; a sua f de ofcio  das mais
honrosas que conheo; l-las- daqui a pouco; mas, como dizia, o tabelio de
Ubatuba ia vivendo, com a sua afeco cardaca e dois dedos de menos, circunstncia
esta que lhe tornava ainda mais penoso escrever, mas  qual se acomodava pela
necessidade. A perda de dois dedos originou-se de um fato domstico, com o qual
nada tem esta Cmara, posto que, ainda a se possa ver um exemplo, no direi
raro, mas precioso, das virtudes daquele homem. Chovia, uma das cunhadas do
tabelio... Mas eu pretiro chegar ao caso principal, a entrada do alferes
Tobias. Senhores, este alferes...

E deste
modo, discursos que hoje no se lem, chegariam  posteridade com a frescura da
prpria cor do orador. Os jornais do tempo os reproduziriam, os sociologistas
viriam l-los e analis-los, e assim os lingistas, os cronistas, e outros
estudiosos, com vantagem para todos, comeando talvez por ns,  ingratos!

Boas
noites.

28 de
outubro

Bons dias!

Viva a
galinha com a sua pevide. Vamos ns vivendo com a nossa polcia. No ser
superior, mas tambm no  inferior  polcia de Londres, que ainda no pde
descobrir o assassino e estripador de mulheres. E dizem que  a primeira do
universo. O assassino, para maior ludibrio da autoridade, mandou-lhe cartes
pelo correio.

Eu, desde
algum tempo, ando com vontade de propor que aposentemos a Inglaterra... Digo,
aposent-la nos nossos discursos e citaes. Neste particular, tivemos a
princpio a mania francesa e revolucionria; folheiem os Anais da Constituinte,
e vero. Mais tarde ficou a Frana constitucional e a Inglaterra: os nomes de
Pitt, Russel, Canning, Bolingbrook, mais ou menos intactos, caram da tribuna
parlamentar. E frases e mximas! At 1879, ouvi proclamar cento e dezenove
vezes este aforismo ingls: A Cmara dos Comuns pode tudo, menos fazer de um
homem uma mulher, ou vice-versa.

Justamente
o que a nossa Cmara faz, quando quer, dizia eu comigo.

Pois bem,
aposentemos agora a Inglaterra; adotemos a Itlia. Basta advertir que, h pouco
tempo, l estiveram (ou ainda esto) vinte e tantos deputados metidos em
enxovia, s por serem irlandeses. Nenhum dos nossos deputados  irlands; mas
se algum vier a s-lo, juro que ser mais bem tratado. E, comparando tanta
polcia para pegar deputados com to pouca para descobrir um estripador de
mulheres, folgazo e cientfico, a concluso no pode ser seno a do comeo: 
Viva a galinha com a sua pevide...

Aqui
interrompe-me o leitor:  J vejo que  nativista! E eu respondo que no sei
bem o que sou. O mesmo me disseram anteontem, falando-se do projeto do meu
ilustre amigo senador Taunay. Como eu dissesse que no aceitava o projeto,
integralmente, algum tentou persuadir-me que eu era nativista. Ao que
respondi:

 No sei
bem o que sou. Se nativista  algum bicho feio, pacincia; mas, se quer dizer
exclusivista, no  comigo.

No se pode
negar que o Sr. Senador Taunay tem o seu lugar marcado no movimento
imigracionista, e lugar iminente; trabalha, fala, escreve, dedica-se de
corao, fundou uma sociedade, e luta por algumas grandes reformas.

Entretanto,
a gente pode admir-lo e estim-lo, sem achar que este ltimo projeto seja
inteiramente bom. Uma coisa boa que l est,  a grande naturalizao. No sei
se ando certo, atribuindo quela palavra o direito do naturalizado a todos os
cargos pblicos. Pois, senhor, acho acertado. Com efeito, se o homem 
brasileiro e apto, por que no ser para tudo aquilo que podem ser outros
brasileiros aptos? Quem no concordar comigo (para s falar de mortos), que 
muito melhor ter como regente, por ser ministro do Imprio, um Guizot ou um
Palmerston, do que um ex-ministro (Deus lhe fale na alma!) que no tinha este
olho?

Mas o
projeto traz outras coisas que bolem comigo, e at uma que bole com o prprio
autor. Este faz propaganda contra os chins; mas, no havendo meio legal de
impedir que eles entrem no Imprio, aqui temos ns os chins, em vez de
instrumentos de trabalho, constitudos em milhares de cidados brasileiros, no
fim de dois anos, ou at de um. Exclu-los da lei  impossvel. A fica uma
conseqncia desagradvel para o meu ilustre amigo.

Outra
conseqncia. O digno Senador Taunay deseja a imigrao em larga escala.
Perfeitamente. Mas, se o imigrante souber que, ao cabo de dois anos, e em
certos casos ao fim de um, fica brasileiro  fora, h de refletir um pouco e
pode no vir. No momento de deixar a ptria, ningum pensa em troc-la por
outra; todos saem para arranjar a vida.

Em suma, 
e  o principal defeito que lhe acho,  este projeto afirma de um modo
estupendo a onipotncia do Estado. Escancarar as portas, sorrindo, para que o
estranho entre,  bom e necessrio; mas mand-lo pegar por dois sujeitos,
met-lo a fora dentro de casa, para almoar, no podendo ele recusar a fineza,
seno jurando que tem outro almoo  sua espera, no  coisa que se parea com
liberdade individual.

Bem sei que
ele tem aqui um modo de continuar estrangeiro:  correr, no fim do prazo, ao
seu consulado ou  Cmara Municipal, declarar que no quer ser brasileiro, e
receber um atestado disso. Mas, para que complicar a vida de milhares de
pessoas que trabalham, com semelhante formalidade? Alm do aborrecimento, h
vexame:  vexame para eles e para ns, se o nmero dos recusantes for
excessivo. Haver tambm um certo nmero de brasileiros por descuido, por se
terem esquecido de ir a tempo cumprir a obrigao legal. Esses no tero grande
amor  terra que os no viu nascer. L diz So Paulo, que no  circunciso a
que se faz exteriormente na carne, mas a que se faz no corao.

O Sr.
Taunay j declarou em brilhante discurso, que o projeto  absolutamente
original. Ainda que o no fosse, e que o princpio existisse em outra
legislao, era a mesma coisa. O Estado no nasceu no Brasil; nem  aqui que
ele adquiriu o gosto de regular a vida toda. A velha repblica de Esparta, como
o ilustre senador sabe, legislou at sobre o penteado das mulheres; e dizem que
em Rodes era vedado por lei trazer a barba feita. Se vamos agora dizer a
italianos e alemes, que, no fim de um ou dois anos, no so mais alemes nem
italianos, ou s podero s-lo com declarao escrita e passaporte no bolso, parece-me
isto muito pior que a legislao de Rodes.

Desagravar
a naturalizao, facilit-la e honr-la, e, mais que tudo, tornar atraente o
pas por meio de boa legislao, reformas largas liberdades efetivas, eis a
como eu comearia o meu discurso no Senado, se os eleitores do Imprio
acabassem de crer que os meus quarenta anos j l vo, e me inclussem em todas
as listas trplices. Era assim que eu comearia o discurso. Como acabaria, no
sei; talvez nos braos do meu ilustre amigo.

Boas
noites.

10 de
novembro

Bons dias!

H anos,
por ocasio do movimento Ester de Carvalho, aquela boa atriz que aqui morreu,
lembra-me haver lido nos jornais um pequenino artigo annimo. Nem se lhe podia
chamar artigo; era uma pergunta nua e seca. O numeroso partido da atriz estava
em ao; havia palmas, flores, versos, longas e brilhantes manifestaes
pblicas. E ento dizia a pergunta annima: Por que no aproveitaremos este
movimento Ester de Carvalho para ver se alcanamos o fechamento das portas?

A pergunta
tinha um ar esquisito,  primeira vista: mas, era a mais natural do mundo.
Entretanto no se fez nada por dois motivos, um fcil de entender, que era a
absoro do pensamento em um s assunto. A alma no se divide. A questo do
fechamento das portas era exclusiva, pedia as energias todas, inteiras,
constantes, lutando dia por dia.

A segunda
razo  que h anos e h sculos de revolues e transformaes. Para o caso de
que se trata no era preciso o sculo, mas o ano era indispensvel. Entre a
vinda de Jesus e a morte de Csar h pouco mais de quarenta anos: e a Revoluo
Francesa chegou  Bastilha depois de feita nos livros e iniciada nas
provncias, desde os albores do sculo XVIII.

Aqui o caso
era de um ano, mesmo que viu a extino da escravido. Todas as liberdades so
irms; parece que, quando uma d rebate, as outras acodem logo.

A temos
explicado o movimento atual, que, em boa hora, vai sendo praticado em paz e
harmonia. Note-se bem que o movimento outrora tinha um carter meio duvidoso;
pedia-se o fechamento das portas aos domingos. O domingo, s por si, sem mais
nada,  um dia protestante; e o movimento, limitando o descanso a esse dia,
como que parecia inclinar  Igreja inglesa. Da a frieza do clero catlico.
Agora, porm, a plataforma (se me  lcito dizer uma palavra que pouca gente
entende) abrange os domingos e dias santos. Deste modo no se pede s o dia do
Senhor, mas esse e os mais que o rito catlico estabelece em honra dos grandes
mrtires ou heris da f, e dos fastos da Igreja desde os primitivos tempos.

Seguramente,
h maior nmero de dias vagos, mas o trabalho dos outros compensar os
perdidos; por esse lado, no vejo perigo. Pode dar-se tambm que a definio
das frias se estenda um pouco mais, pelo tempo adiante. Por exemplo, o dia 2
de novembro  feriado ou no? Vimos este ano duas opinies opostas, a do Senado
e a da Cmara. O Senado declarou que era, e no deu ordem do dia; a Cmara
entendeu que no era, e deu ordem do dia. Foi o mesmo que se no desse, 
verdade, porque l no apareceu ningum; mas a opinio ficou assentada. O
Senado comemora os defuntos, a Cmara no. Talvez a Cmara no deseje lembrar o
prximo fim dos seus dias. O Senado, embalsamado pela vitaliciedade, pode
entrar sem susto nos cemitrios. No  a lei que o h de matar.

Pois bem,
ainda nesses casos o acordo  possvel entre caixeiros e patres; fechem-se as
portas ao meio-dia. Os patres e os rapazes iro de tarde aos cemitrios.

Noto, e por
honra de todos, que no tem havido distrbios nem violncias. H dias,  certo,
um grupo protestou contra uma casa do Largo de So Francisco de Paula, que
estava aberta; mas quem mandou fechar as portas da casa no foi o grupo, foi o
subdelegado. Tem havido muita prudncia e razo. O prprio ato do subdelegado,
olhando-se bem para ele foi bem feito. J l dissera Musset estas palavras: Il
faut qu'une porte soit ouverte ou ferme. No podendo estar
abertas as da loja de grinaldas, foi muito melhor fech-las.  assim que eu
gosto dos mdicos especulativos dizia um personagem de Antnio Jos.

No sei se
tenho mais alguma coisa que dizer. Creio que no. A questo chinesa est
absolutamente esgotada; to esgotada que, tendo eu anunciado por circular
manuscrita, que daria um prmio de conto de ris a quem me apresentasse um
argumento novo, quer a favor, quer contra os chins, recebi carta de um s
concorrente, dizendo-me que ainda havia um argumento cientfico, e era este:
'A criao animal decresce por este modo:  o homem, o chim, o
chimpanz...' Como vem,  apenas um calembour; e se no
houvesse calembour no Evangelho e em Cames, era certo que eu quebrava a
cara do autor; limitei-me a guardar o dinheiro no bolso.

Boas
noites.

18 de
novembro

Bons dias!

Agora
acabou-se! J se no pode contar um caso, meio trgico em casa de famlia, que
no digam logo vinte vozes:

 J sei,
outra Mme. Torpille!

 Perdo,
minha senhora, eu vi o que lhe estou contando. O homem no tinha ps nem
cabea...

 Mas tinha
uma cruz latina no peito.

 Isso no
sei, pode ser. A senhora sabe se trago tambm alguma cruz latina ao peito? Pois
saiba que sim... Olhe, a cruz latina tambm figurou agora na revoluo de
rapazes em Pernambuco; a diferena  que no era no peito que eles a levavam,
mas s costas. Por falar em latim, sabem que Ccero...

Aqui no
houve mais ret-las; todas voaram, umas para as janelas, outras para os pianos,
outras para dentro; fiquei s, peguei no chapu e vim ter com os meus leitores,
que so sempre os que pagam as favas.

E,
prosseguindo, digo que o velho Ccero escreveu uma coisa to certa, que at eu,
que no sei latim, s por v-la traduzida em sueco, entendi logo o que vinha a
ser, e  isto: Grata populo est tabella... Em portugus: 'O voto
secreto agrada ao povo, porque lhe d fora para dissimular o pensamento e
olhar com firmeza para os outros'.

Ora bem,
este voto secreto, que me  to grato, quer o nosso ilustre Senador Cndido de
Oliveira arranc-lo ao eleitor, no projeto eleitoral que apresentou ao Senado.
Note-se que foi justamente por ser secreto o voto, que eu, embora conservador,
votei em S. Exa. para a lista trplice. No gostei da chapa do meu partido, e
disse comigo:  No, senhor; voto no Cndido, no Afonso e no Alvim. Quando
mais tarde o Cruz Machado (Visconde do Serro Frio) me falou na eleio,
declarei-lhe que ainda uma vez levara s urnas a lista da nossa gente. Era
mentira; mas para isso mesmo  que vale o voto secreto.

S. Exa.
quer o voto pblico. H de ser escrito o nome do candidato em um livro com a
assinatura do eleitor (art. 3  1). Concordo que este modo d certa
hombridade e franqueza, virtudes indispensveis.  fora de dvida que, com o
voto pblico, o caixeiro vota no patro, o inquilino no dono da casa (salvo se
o adversrio lhe oferecer outra mais barata, o que  ainda uma virtude, a
economia), o fiel dos feitos vota no escrivo, os empregados bancrios votam no
gerente, e assim por diante. Tambm se pode votar nos adversrios. Mas, enfim,
nem todos so aptos para a virtude. H muita gente capaz de falar em particular
de um sujeito, e ir jantar publicamente com ele. So temperamentos.

Se as
nossas eleies fossem sempre impuras, v que viesse aquela disposio no
projeto; mas  raro que a ordem e a liberdade se no dem as mos diante das
urnas. Uma eleio entre ns pode ser aborrecida, graas ao sistema de chamadas
nominais, que obriga a gente a no arredar p da seo em que vota; mas so em
geral boas. E depois, se o voto secreto j fez algum bem neste nosso pequeno
mundo, por que aboli-lo?

Bem sei
tudo o que se pode de bem e de mal acerca do voto secreto. Em teoria,
realmente, o pblico  melhor. A questo  que no permite o trabalhinho
oculto, e, mais que tudo, obsta a que a gente vote contra um candidato, e v
jantar com ele  tarde, por ocasio da filarmnica e dos discursos.

Voto
pblico e muito pblico  foi o que aquela linda Duquesa de Cavendish alcanou,
estando a cabalar por um parente; parou dentro do carro  porta de um
aougueiro e pediu-lhe o voto. O aougueiro, que era do partido oposto,
disse-lhe brincando:

 Votarei,
se Vossa Senhoria me der um beijo.

E a
duquesa, como toda gente sabe, estendeu-lhe os lbios, e ele depositou ali um
beijinho, que j agora  melhor julgar que experimentar. Neste sentido, todos
somos aougueiros. Tais votos so mais que pblicos. Complete S. Exa. o seu
projeto, estabelecendo que as candidaturas s podero ser trabalhadas por
mulheres, amigas do candidato, devendo comear pelas mais bonitas, e est abolido
o voto secreto. O mais que pode acontecer,  a gente faltar a nove ou dez
pessoas, se a vaga for s uma; mas creia S. Exa. que no h beijo perdido.

Tinha outra
coisa que dizer acerca do projeto ou antes, que perguntar a S. Exa., mas o
tempo urge.

H uma
disposio, porm, que no posso deixar de agradecer desde j;  a abolio do
2 escrutnio, saindo deputado com os votos que tiver; maioria relativa, em suma. Tem um distrito 1.900 eleitores inscritos; comparecem apenas 104; eu obtenho 20 votos,
o meu adversrio 19, e os restantes espalham-se por diferentes nomes. Entro na
Cmara nos braos de vinte pessoas. H famlias mais numerosas, mas muito menos
teis.

Boas
noites.

27 de
dezembro

Bons dias!

Cuidava eu
que era o mais precavido dos meus contemporneos. A razo  que saio sempre de
casa com o Credo na boca, e disposio feita de no contrariar as
opinies dos outros. Quem talvez me vencia nisto era o Visconde de Abaet, de
quem se conta que, nos ltimos anos, quando algum lhe dizia que o achava
abatido:

 Estou,
tenho passado mal, respondia ele.

Mas se,
vinte passos adiante, encontrava outra pessoa que se alegrava com v-lo to
rijo e robusto, concordava tambm:

 Oh! agora
passo perfeitamente.

No se
opunha s opinies dos outros; e ganhava com isto duas vantagens. A primeira
era satisfazer a todos, a segunda era no perder tempo.

Pois,
senhores, nem o ilustre brasileiro, nem este criado do leitor, ramos os mais
precavidos dos homens. H dias, a gente que saa de uma conferncia
republicana, foi atacada por alguns indivduos; naturalmente houve tumulto,
pancadas, pedradas, ferimentos, recorrendo os atacados aos apitos, para chamar
a polcia, que acudiu prestes. Pouco antes, dois soldados brigaram com o cocheiro
ou condutor de um bonde, atracaram-se com ele, os passageiros intervieram, e,
no conseguindo nada, recorreram aos apitos, e a polcia acudiu.

Estes
apitos retinem-me ainda agora no crebro. Por Ulisses! pelo artificioso e
prudente Ulisses  Nunca imaginei que toda a gente andasse aparelhada desse
instrumento, na verdade til. Os casos acima apontados so diferentes, as
circunstncias diferentes, e diferentes os sentimentos das pessoas; no h uma
s analogia entre os dois tumultos, exceto esta: que cada cidado trazia um
apito no bolso.  o que eu no sabia. Afigura-se-me ver um pacato dono da casa,
prestes a sair, gritar para a mulher:


Florncia, esqueci-me da carteira, d c, est em cima da secretria.

Ou ento:


Florncia, v se h charutos na caixa, e atira-me alguns.

Ou ainda:

 D-me um
leno, Florncia!

Mas nunca
imaginei esta frase:


Florncia, depressa, d c o apito!

No h
neg-lo, o apito  de uso geral e comum. Uso louvvel, porque a polcia no h
de adivinhar os tumultos, e este modo de a chamar  excelente, em vez das
pernas, que podem levar o dono no ao corpo da guarda, mas a um escuro e
modesto corredor. Vou comprar um apito.

Creiam que
 por medo dele, que no escrevo aqui duas linhas em defesa de um defunto dos
ltimos dias, o carrasco de Minas Gerais, pobre-diabo, que ningum defendeu, e
que uma carta de Ouro Preto disse haver exercido o seu desprezvel ofcio
desde 1835 at 1858.

Fiquei
embatucado com o desprezvel ofcio do homem. Por que carga dgua h de
ser desprezvel um ofcio criado por lei? Foi a lei que decretou a pena
de morte; e, desde Caim at hoje, para matar algum  preciso algum que mate.
A bela sociedade estabeleceu a pena de morte para o assassino, em vez de uma
razovel compensao pecuniria aos parentes do morto, como queria Maom. Para
executar a pena no se h de ir buscar o escrivo, cujos dedos s se devem
tingir no sangue do tinteiro. Usamos empregar outro criminoso.

Disse ento
a bela sociedade ao carrasco de Minas, com aquela bonomia, que s possuem os
entes coletivos:  Voc fez j um bom ensaio matando sua mulher; agora assente
a mo em outras execues e acabar fazendo obra perfeita. No se importe com
mesa e cama; dou-lhe tudo isso, e roupa lavada:  um funcionrio do Estado.

Deus meu,
no digo que o ofcio seja dos mais honrosos;  muito inferior ao do meu
engraxador de botas, que por nenhum caso chega a matar as prprias pulgas; mas
se o carrasco sai a matar um homem,  porque o mandam. Se a comparao se no
prestasse a interpretaes sublimes, que esto longe da minha alma, eu diria
que ele (carrasco)  a ltima palavra do cdigo. No seguem isto, ao menos, ao
patife Janurio,  ou Fortunato, como outros dizem.

Em todo
caso, no apitem, porque eu ainda no comprei apito, e posso responder que tudo
isto  brincadeira, para passar os tempos duros do vero.

Boas
noites.

1889

13 de
janeiro

Bons dias!

Eu, se
fosse gatuno, recolhia-me  casa, abria mo de vcio to hediondo, e ia estudar
o hipnotismo. Uma vez amestrado, saa  rua com um ofcio honesto, e passava o
resto dos meus dias comendo tranqilamente sem remorsos nem cadeia.

Foi o que
fiz agora sem ser gatuno; gastei onze dias metido no estudo desta cincia nova.
Tivesse a menor inclinao para ratoneiro, e nunca mais iria s algibeiras dos
outros, aos quintais, s vitrines, nem ao famoso conto do vigrio. Faria
estudos prticos da cincia.

Dava, por
exemplo, com um homem gordo, suas longas, barba e queixo rapados, olhos
vivos, e lesto, dizia comigo:  Este  o Visconde de Figueiredo. Metia-o por
sugesto no primeiro corredor, ele mesmo fechava a porta, por sugesto, e eu
dizia-lhe, como Gassner, que empregava o latim nas suas aplicaes hipnticas:

 Veniat
agitatio brachiorum.

O visconde
agitava os braos. Eu em seguida bradava-lhe:

 D-me V.
Exa. as notas que tiver a no bolso, o relgio, os botes de ouro e qualquer
outra prenda de estimao.

S. Exa.
desfazia-se de tudo paulatinamente: eu ia recebendo devagar; guardando tudo,
dizia-lhe com persuaso e fora:

 Agora
mando que se esquea de tudo, que passe alguns minutos sem saber onde est, que
confunda esta rua com outra; e s daqui a uma hora v almoar no restaurant do
costume,  cabeceira da mesma mesa, com seus habituais amigos.

Depois, 
maneira do mesmo velho Gassner, fechava a experincia em latim:

 Redeat
ad se!

S. Exa.
tornava a si; mas j eu ia na rua, tranqilo, enquanto ele tinha de gastar
algum tempo, explicando-se, sem consegui-lo.

Seriam os
meus primeiros estudos prticos; mas imagine-se o que poderia sair de tais
estrias. Casas de penhores, ourives, joalherias. Subia ainda; ia aos tribunais
ganhar causas, ia s Cmaras Legislativas obter votos, ia ao governo, ia a toda
parte. De cada negcio (e nisto poria o maior apuro cientfico), compunha uma
longa e minuciosa memria, expondo as observaes feitas em cada paciente, a
maior ou menor docilidade, o tempo, os fenmenos de toda a espcie; e por minha
morte deixaria esses escritos ao Estado.

Por
exemplo, este caso das meninas envenenadas de Niteri  ...Estudaria aquilo com
amor; primeiro o menino que aviou a receita. Indagaria bem dele se era menino
ou boticrio. Ao saber que era s menino, mas que com cinco anos e a graa de
Deus, esperava chegar a boticrio, e, talvez, a mdico da roa, 
mostrar-lhe-ia que a fortuna protege sempre os nobres esforos do homem; e
assim tambm que, para salvar mil criaturas,  preciso ter matado cinqenta,
pelo menos. Em seguida, tendo lido que o vidro do remdio fora mandado esconder
por um facultativo, ach-lo-ia, antes da polcia, por meio hipntico; e este
era o meu negcio. Exposto o vidro, na Rua do Ouvidor, a dois tostes por
pessoa...  verdade que tudo poderia j estar esquecido, ou por causa do
assassinato do Catete, ou at por nada.

Tudo feito,
chegaria a morrer um dia, e muito provavelmente So Pedro, chaveiro do Cu, no
me abriria as portas por mais que lhe dissesse que os meus atos eram puras
experincias cientficas. Contar-lhe-ia as minhas virtudes; ele abanaria a cabea.
Pois a mesmo aplicaria o novo processo.

 Veniat
agitatio brachiorum!

So Pedro,
mestre dos mestres na lngua eclesistica, obedeceria prontamente  minha
intimao hipntica, e agitaria os braos. Mas como, ento, no via nada, eu
passaria para o lado de dentro; e logo que lhe bradasse de dentro:  Redeat
ad se, ele acordaria e me perdoaria em nome do Senhor, desde que
transpusera o limiar do Cu.

Esta  a
diferena dos dois mistrios pstumos: quem entra no Inferno perde as
esperanas, quem entra no Cu conserva-as integralmente. Servate ogni
speranza, o voi ch'entrate!

Boas
noites.

21 de
janeiro

Bons dias!

Vi, no me
lembra onde...

 meu
costume, quando no tenho que fazer em casa, ir por esse mundo de Cristo, se
assim se pode chamar  cidade de So Sebastio, matar o tempo. No conheo
melhor ofcio, mormente se a gente se mete por bairros excntricos; um homem,
uma tabuleta, qualquer coisa basta a entreter o esprito, e a gente volta para
casa 'lesta e aguda', como se dizia em no sei que comdia antiga.

Naturalmente,
cansadas as pernas, meto-me no primeiro bonde, que pode trazer-me  casa ou 
Rua do Ouvidor, que  onde todos moramos. Se o bonde  dos que tm de ir
por vias estreitas e atravancadas, torna-se um verdadeiro obsquio do Cu. De
quando em quando, pra diante de uma carroa que despeja ou recolhe fardos. O
cocheiro trava o carro, ata as rdeas, desce e acende um cigarro; o condutor
desce tambm e vai dar uma vista de olhos ao obstculo. Eu, e todos os
venerveis camelos da Arbia, vulgo passageiros, se estamos dizendo alguma
coisa, calamo-nos para ruminar e esperar.

Ningum
sabe o que sou quando rumino. Posso dizer, sem medo de errar, que rumino muito
melhor do que falo. A palestra  uma espcie de peneira, por onde a idia sai
com dificuldade, creio que mais fina, mas muito menos sincera. Ruminando, a
idia fica ntegra e livre. Sou mais profundo ruminando; e mais elevado tambm.

Ainda
anteontem, aproveitando uma meia hora de bonde parado, lembrou-me no
sei como o incndio do club dos Tenentes do Diabo. Ruminei os episdios
todos, entre eles os atos de generosidade da parte das sociedades congneres; e
fiquei triste de no estar naquela primeira juventude, em que a alma se mostra
capaz de sacrifcios e de bravura. Todas essas dedicaes do prova de uma
solidariedade rara, grata ao corao.

Dois
episdios, porm, me deram a medida do que valho, quando rumino. Toda a gente
os leu separadamente; o leitor e eu fomos os nicos que os comparamos.

Refiro-me,
primeiramente,  ao daqueles scios de outro club, que correram  casa
que ardia, e, acudindo-lhes  lembrana os estandartes, bradaram que era
preciso salv-los. 'Salvemos os estandartes!' e t-lo-iam feito, a
troco da vida de alguns, se no fossem impedidos a tempo. Era loucura, mas
loucura sublime. Os estandartes so para eles o smbolo da associao,
representam a honra comum, as glrias comuns, o esprito que os liga e
perpetua.

Esse foi o
primeiro episdio. Ao p dele temos o do empregado que dormia, na sala. Acordou
este, cercado de fumo, que o ia sufocando e matando. Ergueu-se, compreendeu
tudo, estava perdido, era preciso fugir. Pegou em si e no livro da escriturao
e correu pela escada abaixo.

Comparai
esses dois atos, a salvao dos estandartes e a salvao do livro, e tereis uma
imagem completa do homem. Vs mesmos que me ledes sois outros tantos exemplos
de concluso. Uns diro que o empregado, salvando o livro, salvou o slido; o
resto  obra de sirgueiro. Outros replicaro que a contabilidade pode ser
reconstituda, mas que o estandarte, smbolo da associao,  tambm a sua
alma; velho e chamuscado, valeria muito mais que o que possa sair agora, novo,
de uma loja. Compar-lo-o  bandeira de uma nao, que os soldados perdem no
combate, ou trazem esfarrapada e gloriosa.

E todos vs
tereis razo; sois as duas metades do homem, formais o homem todo...
Entretanto, isso que a fica dito est longe da sublimidade com que o ruminei.
Oh! se todos ficssemos calados! Que imensidade de belas e grandes idias! Que
saraus excelentes! Que sesses de Cmara! Que magnficas viagens de bonde!

Mas por
onde  que eu tinha principiado? Ah! uma coisa que vi, sem saber onde...

No me
lembra se foi andando de bonde; creio que no. Fosse onde fosse, no centro da
cidade ou fora dela. Vi,  porta de algumas casas, esqueletos de gente, postos
em atitudes joviais. Sabem que o meu nico defeito  ser piegas; venero os
esqueletos, j porque o so, j porque o no sou. No sei se me explico. Tiro o
chapu s caveiras; gosto da respeitosa liberdade com que Hamlet fala  do bobo
Yorick. Esqueletos de mostrador, fazendo gaifonas, sejam eles de verdade ou
no,  coisa que me aflige. H tanta coisa gaiata por esse mundo, que no vale
a pena ir ao outro arrancar de l os que dormem. No desconheo que esta minha
pieguice ia melhor em verso, com toada de recitativo ao piano: Mas  que eu no
fao versos; isto no  verso:

Venha o
esqueleto, mais tristonho e grave,

Bem como a
ave, que fugiu do alm...

Sim,
ponhamos o esqueleto nos mostradores, mas srio, to srio como se fosse o
prprio esqueleto do nosso av, por exemplo... Obrig-lo a uma polca, habanera,
lundu ou cracoviana... Cracoviana? Sim, leitora amiga,  uma dana muito
antiga, que o nosso amigo Joo, c de casa, executa maravilhosamente, no
intervalo dos seus trabalhos. Quando acaba, diz-nos sempre, parodiando um
trecho de Shakespeare: 'H entre a vossa e a minha idade, muitas mais
coisas do que sonha a vossa v filosofia.'

Boas noites.

13 de
fevereiro

Bons dias!

O diabo que
entenda os polticos! Toda a gente aqui me diz, que o meio de obter Cmaras
razoveis  acabar com as eleies por distritos, na quais,  fora de meia
dzia de votos, um paspalho ou perverso fica deputado. Dizem agora telegramas
franceses, que o governo e a maioria da Cmara dos Deputados, para evitar o
mesmo mal, vo adotar justamente a eleio por distritos. Entenderam? Eu estou
na mesma.

Felizmente,
dei com uma dessas criaturas que o Cu costumava enviar para esclarecer os
homens, a qual me disse que Pascal era um sonhador. No gosto de calembour, mas
no pude evitar este: 'H de me perdoar, o Pascoal  confeiteiro.' A
pessoa no fez caso; continuou dizendo que Pascal era um sonhador, porque o que
ele achava extravagante,  que  natural: verdade aqui, erro alm. Sabia
eu por que  que l adotaram o que para ns  ruim? Era para escapar ao
cesarismo. Sabia eu o que era cesarismo?

 No,
senhor.

 Cesarismo
vem de Csar.

 Farni? perguntei
eu, e confesso que sem o menor desejo de trocadilho.

 No.

 Zama?
Conheo um Csar Zama.

 Cala-se,
homem, ou ponha-se fora. No estou para aturar crebros fracos, nem pessoas
malcriadas, porque, se  grande impolidez interromper a gente para dizer uma
verdade, quanto mais uma asneira. Csar Zama! Csar Farni!

 J sei:
Csar Cantu...

 V para o
diabo, que o ature. Quando quiser saber as coisas oua calado, entendeu? Ora
essa! Cantu, Farni, Zama... J viu o cometa?

 H algum
cometa?

 H, sim,
senhor, v ver o cometa; aparece s 3 horas da manh, e de onde se v melhor 
do morro do Neco,  esquerda. Tem um grande rabo luminoso. V, meu amigo; quem
no entende das coisas, no se mete nelas. V ver o cometa.

Fiquei meio
jururu, porque o principal motivo que me levara a procurar a dita pessoa, no
era aquele, mas outro. Era saber se existia a Sociedade Protetora dos Animais.

Afinal,
prestes a ir ver o cometa, tornei atrs e fiz a pergunta. Respondeu-me que sim,
que a Sociedade Protetora dos Animais existia, mas que tinha eu com isso?
Expliquei-lhe que era para mim uma das sociedades mais simpticas. Logo que ela
se organizou, fiquei contente, dizendo comigo que, se Inglaterra e outros
pases possuam sovidades tais por que no a teramos ns? Prova de sentimentos
finos, justos, elevados; o homem estende a caridade aos brutos...

Parece que
ia falando bem, porque a pessoa no gostou, e interrompeu-me, bradando que
tinha pressa; mas eu ainda emiti vrias frases asseadas, e citei alguns trechos
literrios, para mostrar que tambm sabia cavalgar livros. Afinal, confiei-lhe
o motivo da pergunta; era para saber se, havendo na Cmara Municipal nada menos
de trs projetos ou planos para a extino dos ces, a Sociedade Protetora
tinha opinado sobre algum deles, ou sobre todos.

A pessoa
no sabia, nem quis meter a sua alma no Inferno asseverando fatos que ignorava.
Saberia eu o que se passava em Quebec? Respondi que no. Pois era a mesma
coisa. A sociedade e Quebec eram idnticas para os fins da minha curiosidade.
Podia ser que os trs projetos j a sociedade houvesse examinado quatro ou
mesmo nenhum; mas, como sab-lo?

Conversamos
ainda um pouco. Fiz-lhe notar que os burros, principalmente os das carroas e bondes,
declaram a quem os quer ouvir, que ningum os protege, a no ser o pau (nas
carroas) e as rdeas (nos bondes). Respondeu-me que o burro no era
propriamente um animal, mas a imagem quadrpede do homem. A prova  que, se encontramos
a amizade no co, o orgulho no cavalo, etc., s no burro achamos filosofia. No
pude conter-me e soltei uma risada. Antes soltasse um espirro! A pessoa veio
para mim, com os punhos fechados, e quase me mata. Quando voltei a mim,
perguntei humildemente:

 Bem; se a
Sociedade Protetora dos Animais no protege o co nem o burro, o que  que
protege?

 Ento no
h outros animais? A girafa no  animal? A girafa, o elefante, o hipoptamo, o
camelo, o crocodilo, a guia. O prprio cavalo de Tria, apesar de ser feito de
madeira, como levava gente na barriga, podemos consider-lo bicho. A Sociedade
no h de fazer tudo ao mesmo tempo. Por ora o hipoptamo, depois vir o co.

 Mas  que
o...

 Homem, v
ver o cometa; morro do Neco,  esquerda.

 s trs
horas?

 Da
madrugada; boas noites.

16 de
fevereiro

Bons dias!

Deus seja
louvado! Choveu... Mas no  pela chuva em si mesma que o leitor me v aqui
cantando e bailando;  por outra coisa. A chuva podia ter melhorado o estado
sanitrio da cidade, sem que me fizesse nenhum particular obsquio. Fez-me um;
 o que eu agradeo  Providncia Divina.

J se pode
entrar num bonde, numa loja ou numa casa, bradar contra o calor e suspirar pela
chuva, sem ouvir este badalo:

 A
folhinha de Ayer d chuva para 20 de fevereiro.

Pelo lado
moral, era isto um resto um resto das torturas judicirias de outro tempo. Pelo
lado esttico, era a mais amofinadora de todas as cegaregas deste mundo:

 Oh! no
pude dormir esta noite! Onde ir isto parar? Nem sinais de chuva, um cu azul,
limpo, feroz, eternamente feroz.

 A
folhinha de Ayer s d chuva l para 20 de fevereiro, acudia logo algum.

s vezes,
apesar de minha pacatez proverbial, tinha mpetos de bradar, como nos romances
de outro tempo: 'Mentes pela gorja, vilo!'

E  o que
mereciam todos os alvissareiros de Ayer; era agarr-los pelo pescoo,
derrub-los, joelho no peito e sufoc-los, at botarem c para fora  lngua e
a alma. Pedaos de asnos!

Nem ao
menos tiveram o mrito de acertar. Afligiam sem graa nem verdade.

Habent sua
fata libelli! As folhinhas de Ayer, como anncios meteorolgicos,
esto a expirar. S este golpe recente  de levar couro e cabelo. Agora podem
prever as maiores tempestades do mundo que no deixarei de sair a p com
sapatos rasos e meias de seda, se tanto for preciso para mostrar o meu
desprezo.

Ayer  um
dos velhos da minha infncia. Oh! bons tempos da salsaparrilha de Ayer e de
Sands, dois nomes imortais, que eu cuidei ver mortos no fim de uma dcada.

No seriam
amigos, provavelmente, pois que cada um deles apregoava os seus frascos, com
excluso dos frascos do outro. A matria-prima  que era a mesma.

Sim, meus
amigos, eu no sou to jovem como o apregoam alguns. Eu assisti a todo o ciclo
do Xarope do Bosque. Conheci-o no tempo em que comeou a curar; era um bonito
xarope significado nos anncios por meio de uma rvore e uma deusa  ou outra
coisa, no sei bem como era.

Curava
tudo:  proporo que os curados iam espalhando que as folhinhas de Ayer s
davam chuvas... Perdo, enganei-me; iam espalhando que estavam curados, a fama
do xarope ia crescendo e as suas obras eram o objeto das palestras nos nibus.
A fama cresceu, a celebridade acendeu todas as suas luminrias. Jurava-se pelo
Xarope do Bosque como um cristo jura por Nosso Senhor. Contavam-se maravilhas;
pessoas mortas voltavam  vida, com uma garrafa debaixo do brao, vazia.

Chegou ao
apogeu. Como todos os imprios e repblicas deste mundo principiou a decair;
era menos buscado, menos nomeado. O rei dos xaropes desceu ao ponto de ser o
lacaio dos xaropes e lacaio mal pago; as belas curas, suas nobres aliadas,
quando o viram no to baixo estado, foram levar os seus encantos a outros
prncipes. Ele ainda resistiu; reproduzia nos jornais a rvore e a moa, e
repetia todos os seus mritos, aqui e fora daqui; mas a queda ia continuando.
Pessoas que lhe deviam a vida, no sei por que singular ingratido, preferiam
agora o arsnico, os calomelanos e outras drogas de prstimo limitado. O xarope
foi caindo, caindo, caindo at morrer.

No falo
nisto sem lgrimas. Se por esse tempo, aproveitando a morte do Xarope do
Bosque, tivesse inventado um xarope de Cidade, estava agora com a bolsa
repleta. Teria palcio em Petrpolis, coches, alazes, um teatro, e o resto. A
anttese dos nomes era a primeira recomendao. Se o do Bosque j no cura,
diriam os fregueses, busquemos o da Cidade. E curaria, podem crer, tanto como o
outro, ou um pouco menos. H sempre fregueses... Ora, eu, que no alimentei
jamais grandes ambies, nem de que juntasse uns trs mil contos, dava o xarope
aos sobrinhos. Pode ser que j agora estivesse com outro (Deus lhe fale
nalma). Pacincia; Babilnia caiu; caiu Roma. Caiu Nnive, caiu Cartago.
Ningum mais repete esta abominvel scie:

 A
folhinha de Ayer s d chuva l para 20 de fevereiro.

Boas
noites.

27 de
fevereiro

Bons dias!

Ei-lo que
chega... Carnaval  porta!... Diabo! a vo palavras que do idia de um comeo
de recitativo ao piano; mas outras posteriores mostram claramente que estou
falando em prosa; e se prosa quer dizer falta de dinheiro (em
cartagins, est claro) ento  que falei como um Ccero.

Carnaval 
porta. J lhe ouo os guizos e tambores. A vm os carros das idias... Felizes
idias, que durante trs dias andais de carro! No resto do ano ides a p, ao
sol e  chuva, ou ficais no tinteiro, que  ainda o melhor dos abrigos. Mas l
chegam os trs dias, quero dizer os dois, porque o de meio no conta; l vm, e
agora  a vez de alugar a berlinda, sair e passear.

Nem isso,
ai de mim, amigas, nem esse gozo particular, nico cronolgico, marcado,
combinado e acertado, me  dado saborear este ano. No falo por causa da febre
amarela; essa vai baixando. As outras febres so apenas companheiras... No;
no  essa a causa.

Talvez no
saibam que eu tinha uma idia e um plano. A idia era uma cabea de Boulanger,
metade coroada de louros, metade forrada de lama. O plano era met-la em um
carro, e andar. E vede bem, vs que sois idias, vede se o plano desta idia
era mau. Os que esperam do general alguma coisa, deviam aplaudir; os que no
esperam nada, deviam patear; mas o provvel  que aplaudissem todos, unicamente
por este fato: porque era uma idia.

Mas a falta
de dinheiro (prosa, em lngua pnica) no me permite pr esta idia na
rua. Sem dinheiro, sem nimo de o pedir a algum, e, com certeza, sem nimo de
o pagar, estou reduzido ao papel de espectador. Vou para a turbamulta das ruas
e das janelas; perco-me no mar dos incgnitos.

J algum
me aconselhou que fosse vestido de tabelio. Redargi que tabelio no traz
idia; e depois, no h diferena sensvel entre o tabelio e o resto do
universo. Disseram-me que, tanto h diferena, que chega a hav-la entre um
tabelio e outro tabelio.

 No leu o
caso do tabelio que foi agora assassinado, no sei em que vila do interior?
Foi assassinado diante de cinqenta pessoas, de dia e na rua, sem perturbao
da ordem pblica. Veja se h de nunca acontecer coisa igual ao Cantanheda...

 Mas que 
que fez o tabelio assassinado?

  o que a
notcia no diz, nem importa saber. Fez ou no fez aquela escritura. Casou com
a sobrinha de um dissidente poltico. Chamou nariz de Csar  falta de nariz de
alguma influncia local.  a diferena dos tabelies da roa e da cidade. Voc
passa pela Rua do Rosrio, e contempla a gravidade de todos os notrios daqui.
Cada um  sua mesa, alguns de culos, as pessoas entrando, as cadeiras rolando,
as escrituras comeando... No falam de poltica; no sabem nunca da queda dos
Ministrios, seno  tarde, nos bondes; e ouvem os partidrios como os
outorgantes, sem paixo, nem por um, nem por outro. No  assim na roa.
Vista-se voc de tabelio da roa, com um tiro de garrucha varando-lhe as
costelas.

 Mas como
hei de significar o tiro?

 Isto
agora  que  idia; procure uma idia. H de haver uma idia qualquer que
significa um tiro. Leve  orelha uma pena, na mo uma escritura, para mostrar
que  tabelio; mas como  tabelio poltico, tem de exprimir a sua opinio
poltica.  outra idia. Procure duas idias, a da opinio e a do tiro.

Fiquei
alvoroado; o plano era melhor que o outro, mas esbarrava sempre na falta de
dinheiro para a berlinda, e agora no tempo, para arranjar as idias. Estava
nisto, quando o meu interlocutor me disse que ainda havia idia melhor.

 Melhor?

 Vai ver:
comemorar a tomada da Bastilha, antes de 14 de julho.

 Trivial.

 Vai ver
se  trivial. No se trata de reproduzir a Bastilha, o povo parisiense e o
resto, no senhor. Trata-se de copiar So Fidlis...

 Copiar
So Fidlis?

 O povo de
So Fidlis tomou agora a cadeia, destruiu-a, sem ficar porta, nem janela, nem
preso, e declarou que no recebe o subdelegado que para l mandaram. Compreende
bem, que esta reproduo de 1789, em ponto pequeno, c pelo bairro  uma boa
idia.

 Sim,
senhor,  idia... Mas ento tenho de escolher entre a morte pblica do
tabelio e a tomada da cadeia! Se eu empregasse as duas?

 Eram duas
idias.

 Com umas
brochadas de anarquia social, mental, moral, no sei mais qual?

 Isso
ento  que era um cacho de idias... Falta-lhe s a berlinda.

 Falta-me prosa,
que  como os soldados de Anbal chamavam ao dinheiro. Uba sac prosa
nanapacatu. Em portugus: 'Falta dinheiro aos heris de Cartago para
acabar com os romanos.' Ao que respondia Anbal: Tunga lol. Em
portugus: Boas noites.

7 de maro

Bons dias!

Pego na
pena com bastante medo. Estarei falando francs ou portugus? O Sr. Dr. Castro
Lopes, ilustre latinista brasileiro, comeou uma srie de neologismos, que lhe
parecem indispensveis para acabar com palavras e frases francesas. Ora, eu no
tenho outro desejo seno falar e escrever corretamente a minha lngua; e se
descubro que muita coisa que dizia at aqui, no tem foros de cidade, mando
este ofcio  fava, e passo a falar por gestos.

No estou
brincando. Nunca comi croquettes, por mais que me digam que so boas, s
por causa do nome francs. Tenho comido e comerei filet de boeuf, 
certo, mas com restrio mental de estar comendo lombo de vaca.
Nem tudo, porm, se presta a restries; no poderia fazer o mesmo com as bouches
de dames, por exemplo, porque bocados de senhoras d idia de
antropofagia, pelo equvoco da palavra. Tenho um chambre de seda, que ainda no
vesti, nem vestirei por mais que o uso haja reduzido a essa simples forma
popular a robe de chambre dos franceses.

Entretanto
h nomes que, vindo embora do francs, no tenho dvida em empregar, pela razo
de que o francs apenas serviu de veculo; so nomes de outras lnguas. E todo
o mal no  a origem estrangeira, mas francesa. O prprio Dr. Castro Lopes se
padecer de spleen, no h de ir pedir o nome disto ao general Luculo;
tem de sofr-lo em ingls. Mas  ingls.  assim que ele aprova xale,
por vir do persa; conquanto, digo eu, a alguns parece que o recebemos de
Espanha. Pode ser que esta mesma o recebesse de Frana, que, confessadamente, o
recebeu de Inglaterra, para onde foi das partes do Oriente. Schawl,
dizem os bretes; a Frana no ter feito mais que tec-lo, ado-lo e
export-lo. Deslindem o caso, e vamos aos neologismos.

Cache-nez,  coisa
que nunca mais andar comigo. No  por me gabar; mas confesso que h tempos a
esta parte entrei a desconfiar que este pedao de l no me ficava bem. Um dia
procurei ver se no acharia outra coisa, e andei de loja em loja. Um dos lojistas disse-me, no estilo prprio do ofcio:

 Igual,
igual no temos; mas no mesmo sentido, posso servi-lo.

E,
dizendo-lhe eu que sim, o homem foi dentro, e voltou com um livro portugus,
antigo, e ali mesmo me leu isto, sobre as mulheres persianas: O rosto, no
descobrem nunca fora de casa, trazendo-o coberto com um cendal ou guarda-cara...

 Este
guarda-cara  que lhe serve, disse ele. Cache-nez ou guarda-cara  a
mesma coisa; a diferena  que um  de seda, e o outro de l.  livro de
jesuta, e tem dois sculos de composio (1663). No  obra de francelho ou
tarelo, como dizia o Filinto Elsio.

Sorriu-me a
troca, e estive a realiz-la, quando me apareceu o focler romano,
proposto pelo Sr. Dr. Castro Lopes; e bastou ser romano, para abrir mo do
outro que era apenas nacional.

O mesmo se
deu com preconcio, outro neologismo. O Sr. Dr. Castro Lopes
comps este, porque a todos os homens de letras que falam a lngua portuguesa,
foi sempre manifesta a dificuldade de achar um termo equivalente  palavra
francesa reclame.

Confesso
que no me achei nunca em tal dificuldade, e mais sou relojoeiro. Quando
exercia o ofcio (que deixei por causa da vista fraca), compunha anncios
grandes e pomposos. No faltava quem me acusasse de fazer reclame para
vender os relgios. Ao que eu respondia sempre:

 Faa-me o
favor de falar portugus. Reclamo  o que eu emprego, e emprego muito
bem; porque  assim que se chama o instrumento com que o caador busca atrair
as aves; s vezes,  uma ave ensinada para trazer as outras ao lao. Se no
quer reclamo, use chamariz, que  a mesma coisa. E olhe que isto
no est em livros velhos de jesutas, anda j nos dicionrios.

Contentava-me
com aquilo; mas, desde que vi o recente preconcio, abri mo de
outro termo, que era o nosso, por este alatinado.

Nem sempre,
entretanto, fui severo com artes francesas. Pince-nez  coisa que usei
por largos anos, sem desdouro. Um dia, porm, queixando-me do enfraquecimento
da vista, algum me disse que talvez o mal viesse da fbrica. Mandei logo (h
uns seis meses) saber se havia em Portugal alguma luneta-pnsil das que
inventara Camilo Castelo Branco, h no sei quantos anos. Responderam-me que
no. Camilo fez uma dessas lunetas, mas a concorrncia francesa no consentiu
que a indstria nacional pegasse.

Fiquei com
o meu pince-nez, que, a falar verdade, no me fazia mal, salvo o
suposto de me ir comendo a vista, e um ou outro aperto que me dava no nariz.
Era francs, mas, no cuidando a indstria nacional de o substituir, no havia
eu de andar s apalpadelas. Vai seno quando, vejo anunciados os nasculos do
nosso distinto autor. L fui comprar um, j o cavalguei no nariz, e no me fica
mal. Daqui a pouco, ver-me-o andar pela rua, teso como um petit-maitre...
Perdo, petimetre, que  j da nossa lngua e do nosso povo.

Boas
noites.

19 de maro

Bons dias!

Faleceu em
Portugal o Sr. Jcome de Bruges Ornelas vila Paim da Cmara Ponce de Leo
Homem da Costa Noronha Borges de Sousa e Saavedra, 2 Conde da Praia da
Vitria, 2 Visconde de Bruges.

Quarta-feira,
na igreja do Carmo, diz-se uma missa por alma do ilustre finado, e quem a manda
dizer  um seu amigo  nada mais que amigo gratssimo  memria do finado.
Nenhum nome, nada, um amigo;  o que leio nos anncios.

Quem quer
sejas tu, homem raro, deixa-me apertar-te as mos de longe. E no te fao um
discurso, para no te molestar; mas  o que tu merecias, e mereces. Singular
annimo, tu perdes um amigo daquele tamanho, e no lhe aproveitas a memria
para cavalg-lo. No fazes daqueles ttulos e nomes a tua prpria condecorao.
No chocalhas o finado  tua porta, como um reclamo, para atrair e dizer depois
 gente reunida:  Eu, Fulano de Tal, mando dizer uma missa por alma de n eu
grande amigo Jcome de Bruges Ornelas vila Paim da Cmara Ponce de Leo Homem
da Costa Noronha Borges de Sousa e Saavedra, 2 Conde da Praia da Vitria, 2
Visconde de Bruges.

Mas em que
beco vives tu, varo modesto? Onde te metes? Com quem falas? Qual  o teu meio?
Com muito menos grandeza, no escapava nem escapa um morto daqueles s
celebraes pstumas. Ah! (dizia-me um fino reprter, quando faleceu o Baro de
Cotegipe) se eu fosse a tomar nota dos mais ntimos amigos do baro, concluiria
que ele nunca os teve de outra qualidade. E  assim, nobre annimo; um morto
ilustre  um naco de glria que no se perde;  alm disso uma ocasio, e s
vezes nica, de superar os contemporneos.

Podia ir
quarta-feira  missa, com o fim nico de perguntar quem a manda dizer; o
sacristo mostrava-te de longe, e eu via-te, conhecia-te; mas no vou, no
quero. Prefiro crer que  tudo uma iluso, uma fantasmagoria, que no existes,
que s uma hiptese. Dado que no, ainda assim no quero conhecer-te; a vista
da pessoa seria a maior das amarguras. Deixa-me a idealidade; posso imaginar-te
a meu gosto, um asceta, um ingnuo, um desenganado, um filsofo.

No sei se
tens pecados. Se os tens, por mortais que sejam, cr que esta s ao te ser
contada no Cu, por todos eles, e ainda ficas com um saldo. L estarei antes de
ti, provavelmente, e direi tudo a So Pedro, e ele te abrir largas as portas
da glria eterna. Caso no esteja, fala-lhe desta maneira:

 Pequei,
meu amado Santo, e pequei muito, reincidi no pecado, como todas as criaturas
que l esto embaixo, porque as tentaes so grandes e freqentes, e a vida
parece mais curta para o bem que para o mal. Aqui estou arrependido...

 Foste
absolvido?

 No, no
cheguei a confessar-me, por ter morrido de um acesso pernicioso
fulminante, que o Baro do Lavradio diz no saber o que .

 Bem,
praticaste algum grande ato de virtude?

 No me
lembra...

 V bem, o
momento  decisivo. A modstia  bela, mas no deve ir ao ponto de ocultar a
verdade, quando se trata de salvar a alma. Ests entre duas eternidades. Deste
algumas esmolas?

 Saber
Vossa Santidade que sim.

 Que mais?

 Mais
nada.

 Foste
grato aos amigos?

 Fui, a um
principalmente, meu amigo e grande amigo. Mandei-lhe dizer uma missa, no Rio de
Janeiro, onde ento me achava, quando ele morreu no Funchal.


Chamava-se na terra...

 Jcome de
Bruges Ornelas vila Paim da Cmara Ponce de Leo Homem da Costa Noronha Borges
de Sousa e Saavedra, 2 Conde da Praia da Vitria, 2 Visconde de Bruges.

Aqui o
prncipe dos apstolos sorrir para si, e dir provavelmente:

 J sei;
convidaste os outros com teu nome por inteiro.

 No, no
fiz isso.

So Pedro
incrdulo:


Como...?... No...?... S as iniciais...

 Nem as
iniciais; disse s que era um amigo grato ao finado.

 Entra,
entra... Como te chamas tu?

 Deixe-me
Vossa Santidade guardar ainda uma vez o incgnito.

Boas
noites.

22 de maro

Bons dias!

Antes do
ltimo neologismo do Sr. Castro Lopes tinha eu suspeita, nunca revelada, de que
o fim secreto do nosso eminente latinista, era pr-lhe a falar volapuk. No
vai nisto o menor desrespeito  memria de Ccero nem de Horcio, menos ainda
ao seu competente intrprete neste pas. A suspeita vinha da obstinao com que
o digno professor ia bater  porta latina, antes de saber se tnhamos em nossa
prpria casa a colher ou o garfo necessrio s refeies. Essa teima podia
explicar-se de dois modos:  ou desdm (no merecido) da lngua portuguesa, ou
ento o fim secreto a que me referi, e que muito bem se pode defender.

Com efeito,
no dia em que eu, pondo os meus nosculos, comprar um focler e
um lucivelo, para fazer preconcio na Concio, se no
falar volapuk,  que estou falando cartagins. E contudo  puro latim.
Era assim at aqui; confesso, porm, que o ltimo neologismo  digo mal,  por
ocasio do ltimo galicismo, perdi a suspeita do fim secreto. Dessa vez o autor
veio  nossa prata de casa; no lhe tenho pedido outra coisa.

No h
neologismo propriamente, j porque a palavra desempeno existia na
lngua, bastando apenas aplic-la, j porque no sentido de -plomb l a
ps no seu dicionrio o nosso velho patrcio Morais. Contudo, foi bom servio
lembr-la. s vezes, uma senhora, no sai bem vestida de casa por esquecimento
de certa manta de rendas, que estava para um canto. Acha-se a manta, pe-se, a
pessoa nada pediu emprestado e sai catita.

Contudo,
surge uma dvida. Ho de ter notado que eu sou o homem mais cheio de dvidas
que h no mundo. A minha dvida  se, tendo j em casa o desempeno, para
substituir o -plomb, no ser difcil arrancar este galicismo do uso, 
quando menos do Parlamento,  onde ele  empregado em frases como estas: 
'Mas o -plomb do nobre ministro...'  No  com esse -plomb
insolente de S. Exa.,  com princpios que se governam as naes...

Para acudir
ao mal,  dificuldade de extrair pela raiz esse dente francs, no poderiam
usar a mesma palavra, com a forma portuguesa? Se -plomb indica a
posio tesa e desempenada da pessoa, dizendo ns aprumo, no teremos
dado a nossa fisionomia ao galicismo, para incorpor-lo no idioma, j no digo
para sempre, mas temporariamente? Deste modo facilitava-se mais a cura, embora
fosse mais longa. Desmamava-se o galicismo.

Note-se que
no estou inventando nada. Rebelo da Silva, homem de boas letras, escreveu esse
vocbulo aprumo, e dizem que tambm anda em dicionrios. L diz o Rebelo: 'Respondendo... com o aprumo do homem seguro de ter
cumprido etc. etc.' V l, desmamemos o galicismo, e demos-lhe depois um
bom bife de desempeno.  verdade que podemos vir a ficar com as
duas palavras, para a mesma idia, coisa s comparvel a ter duas calas,
quando uma s veste perfeitamente um homem.

Mas
confiemos no futuro; a Gazeta, que tem intenes de chegar ao segundo
centenrio da Revoluo Francesa, aceitar o esforo generoso de algum que
bote o intruso para fora a pontaps. Desconfio que ele j anda em livros de
outros autores; mas no afirmo nada, a no ser que, h muitos anos, quando me
encontrava com um saudoso amigo e bom filsofo, dizia-me sempre:

 Ento,
donde vem com esse aprumo?

Tempos!
Tempos! O sculo expira; comeo a ouvir a alvorada do outro.

Ecco ridente
in cielo

Gi spunta la
bella aurora...

Boas noites.

30 de maro

Bons dias!

Quantas
questes graves se debatem neste momento! S a das farinhas de Pernambuco e da
moeda bastam para escrever duas boas sries de artigos. Mas h tambm a das
galinhas de Santos,  aparentemente mnima, mas realmente ponderosa, desde que
a consideremos do lado dos princpios. As galinhas cresceram de preo com a
epidemia, chegando a cinco e creio que sete mil-ris. Sem isso no h dieta.

De relance,
faz lembrar o caso daquele sujeito contado pelo nosso Joo (veja Almanaque
do Velhinho, ano 5, 1843) que, dando com um casebre a arder, e uma velha
sentada e chorando, perguntou a esta:

 Boa
velha, esta casinha  sua?

 Senhor,
sim,  o triste buraco em que morava; no tenho mais nada, perdi tudo.

 Bem;
deixa-me acender ali o meu cigarro?

E o homem
acendeu o cigarro na calamidade particular. Mas os dois casos so diferentes;
no de Santos rege a lei econmica, e contra esta no h quebrar a cabea.
Diremos, por faccia, que  acender dois ou trs charutos na calamidade
pblica; mas em alguma parte se ho de acender os charutos. Ningum obsta a que
se vendam as galinhas por preo baixo, ou at por nada, mas ento  caridade,
bonomia, desapego, misericrdia,  coisas alheias aos princpios e s leis que
so implacveis.

No
examinei bem o negcio das farinhas pernambucanas, mas no tenho medo que os
princpios sejam sacrificados.

Quanto aos
das libras esterlinas, no tendo nenhuma no bolso, no me julgo com direito de
opinar. Contudo, meteu-se em cabea que no nos ficava mal possuir uma moeda
nossa, em vez de dar curso obrigatrio  libra esterlina. Um velho amigo,
sabedor destas matrias, acha este modo de ver absurdo; eu, apesar de tudo,
teimo na idia, por mais que me mostrem que daqui a pouco ou muito l se pode
ir embora o ouro, nacional ou no.

Mas,
principalmente, o que vejo nisto  um pouco de esttica. Tem a Inglaterra a sua
libra, a Frana o seu franco, os Estados Unidos o seu dlar, por que no teramos
ns nossa moeda batizada? Em vez de design-la por um nmero, e por um nmero
ideal  vinte mil-ris  Por que lhe no poremos um nome  cruzeiro
 por exemplo? Cruzeiro no  pior que outros, e tem a vantagem de ser nome e
de ser nosso. Imagino at o desenho da moeda; e de um lado a efgie imperial,
do outro a constelao... Um cruzeiro, cinco cruzeiros, vinte cruzeiros. Os
nossos maiores tinham os dobres, os pataces, os cruzados, etc., tudo isto era
moeda tangvel; mas vinte mil-ris... Que so vinte mil-ris? Enfim, isto j me
vai cheirando a neologismo. Outro ofcio.

Prefiro
expandir a minha dor, a minha compaixo... Oh! mas compaixo grande, profunda,
dessas que nos tornam melhores, que nos levantam deste mundo baixo e cruel, que
nos fazem compartir das dores alheias. J'ai mal dans ta poitrine,
escreveu um dia a boa Sevign  filha adoentada, e fez muito bem, porque me
ensinou assim um modo fino e pio de falar ao mais lastimvel escrivo dos
nossos tempos, ao escrivo Mesquita. Mesquita j'ai mal dans ta poitrine.

No te
conheo, Mesquita; no sei se s magro, ou gordo, alto ou baixo; mas para
lastimar um desgraado no  preciso conhecer as suas propores fsicas. Sei
que s escrivo; sei que leste o processo Bblia, composto de mil e tantas folhas,
em voz alta, perante o tribunal de jurados, durante horas e horas. Foi o que me
disseram os jornais; leste e sobreviveste. Tambm eu sobrevivi a uma leitura,
mas esta era feita por outro, numa sociedade literria, h muitos anos; um dos
oradores, em vez de versos, como se esperava, sacou do bolso um relatrio, e
agora o ouvirs. Tenho ainda diante dos olhos as caras com que andvamos
todos nas outras salas, espiando pelas portas, a ver se o homem ainda lia; e
ele lia. O papel crescia-lhe nas mos. No era relatrio, era solitria; quando
apareceu a cabea, houve um Te Deum landamus nas nossas pobres almas.

O mesmo foi
contigo, Mesquita; cr que ningum te ouviu. Os poucos que comearam a
ouvir-te, ao cabo de uma hora mandaram-te ao diabo, e pensaram nos seus
negcios. Mil e tantas folhas! Duvido que o processo Parnell seja to grosso
como o do testamento da Bblia. A prpria Bblia (ambos os testamentos) no 
to grande, embora seja grande. No haver meio de reduzir essa velha praxe a
uma coisa til e cmoda? Aviso aos legisladores.

Boas
noites.

20 de abril

Bons dias!

A principal
vantagem dos estudos de lngua,  que com eles no perdemos a pele, nem a
pacincia, nem, finalmente, as iluses, como acontece aos que se empenham na
poltica, essa fatal Dalila (deixem-me ser banal), a cujos ps Sanso perdeu o
cabelo, e Andr Roswein a vida.

 Andr, tu
ainda hs de fazer com que eu acabe os dias num convento, diz Carnioli ao
infeliz Roswein.

Nunca
repetirei isto ao ilustre latinista, que ultimamente emprega os seus lazeres em
expelir barbarismos e compor novas locues. Lngua, tanto no  Dalila, que 
o contrrio; no sei se me explico. Podemos errar; mas, ainda errando, a gente
aprende.

Agora
mesmo, ao sair da cama, enfiei um chambre. Cuidei estar composto, sem
escndalo. No ignorava (tanto que j o disse aqui mesmo) que aquele vestido,
antes de passar a fronteira, era robe de chambre; ficou s chambre.
Mas como vinha de trs, os velhos que conheci no usavam outra coisa, e o
prprio Nicolau Tolentino, posto que mestre-escola, j o enfiou nos seus
versos, pensei que no era caso de o desbatizar. Nunca mandei embora uma calea
s por vir de calche; o mais que fao,  no dar gorjeta ao
automedonte, vulgo cocheiro.

Imaginem
agora o meu assombro, ao ler o artigo em que o nosso ilustre professor mostra,
a todas as luzes, que chambre  vocbulo condenvel, por ser francs.
Antes de acabar o artigo, atirei para longe a fatal estrangeirice, e meti-me
num palet velho, sem advertir que era da mesma fbrica. A ignorncia 
a me de todos os vcios.

Continuei a
ler, e vi que o autor permite o uso da coisa, mas com outro nome, o nome  rocl,
'segundo diziam (acrescenta) os nossos maiores'.

Com efeito,
se os nossos maiores chamavam de rocl ao chambre, melhor  empregar o
termo de casa, em vez de ir pedi-lo aos vizinhos. O contrrio  desmazelo.
Chamei ento o meu criado  que  velho e minhoto  e disse-lhe que daqui em
diante, quando lhe pedisse o rocl, devia trazer-me o chambre. O
criado ps as mos s ilhargas, e entrou a rir como um perdido. Perguntei-lhe
por que se ria, e repeti-lhe a minha ordem.

 Mas o
patro h de me perdoar se lhe digo que no entendo. Ento o chambre agora
 rocl?

 Sim, que
tem?

  que l
na terra rocl  outra coisa;  um capote curto, estreito e de mangas.
Parece-me tanto com chambre, como eu me pareo com o patro, e mais no
sou feio...

 No; 
impossvel.

 Mas se
lhe digo que  assim mesmo;  um capote. Eu at servi a um homem, l em Lisboa
(Deus lhe fale nalma!) que usava as duas coisas,  o chambre em casa,
de manh; e,  noite, quando saa a namorar, ia com o seu rocl s
costas, manguinhas enfiadas.

 Incio,
bradei levantando-me, juras-me, pelas cinzas de teu pai, que isso  verdade?

 Juro,
sim, senhor. O patro at ofende com isso ao seu velho criado. Pois ento 
preciso que jure? Ouviu nunca de mim alguma mentira... Tudo por causa de um rocl
e de um chambre...  coisa certa que a ignorncia da lngua e o amor
da novidade do certo sabor a vocbulos inventados ou descabidos. Mas como
faz-los, sem citar o depoimento do meu velho minhoto, que no tem autoridade?
Estava nisso, quando dei um grito, assim:

 Ah!

Dei o
grito. Tinha achado o segredo da substituio do nome. Com efeito, rocl
vem do francs roquelaure, designao de um capote. Portugal recebeu de
Frana o capote e o nome, e ficou com ambos, mas foi modificando o nome. Tal
qual aconteceu com robe de chambre. A mudana proposta agora no artigo a
que me refiro, ficaria sem sentido, se no fosse inteno do autor, suponho eu,
curar a dentada do co com o plo do mesmo co. Similia similibus curantur.

Boas
noites.

7 de junho

Bons dias!

No gosto
que me chamem profeta de fatos consumados; pelo que, apresso-me em publicar o
que vai suceder, enquanto o Conselho de Estado se acha reunido no pao da
cidade.

Verdade
seja, que o meu mrito  escasso e duvidoso; devo o principal dos prognsticos
ao esprito de Nostradamus, enviado pelo meu amigo Jos Baslio Moreira Lapa,
cambista, proprietrio, pai de um dos melhores filhos deste mundo, vtima do
Monte Pio e de um reumatismo peridico.

Lapa est
naquele perodo do espiritismo em que o homem, j inclinado ao obscuro, dispe
de razo ainda clara e penetrante, e pode entreter conversaes com os
espritos. H, entretanto, uma lacuna nessa primeira fase:  que os espritos
acodem menos prontamente, e a prova  que desejando eu consultar Vasconcelos,
Vergueiro ou o Padre Feij, como pessoas de casa, no foi possvel ao meu amigo
Lapa faz-las chegar  fala; s consegui Nostradamus. No  pouco; h mestres
que no o alcanariam nunca.

A segunda
fase do espiritismo  muito melhor. Depois de quatro ou cinco anos (prazo da
primeira), comea a pura demncia. No  vagarosa nem sbita, um meio-termo,
com este caracterstico: o esprita,  medida que a demncia vai crescendo,
atira-se-lhe mais rpido. O ltimo salto nas trevas dura minuto e meio a dois
minutos. H casos excepcionais de cinco e dez minutos, mas s em climas frios e
muito frios, ou ento nas estaes invernosas. Nos climas quentes e durante o
vero, o mais que se ter visto,  cair em trs minutos.

No se
entenda, porm, que esta queda  aprecivel por qualquer pessoa; s o pode ser
por alienistas e de grande observao. Com efeito, para o vulgo no h
diferena; desde o princpio da alienao mental (isto , comeado o segundo
prazo do espiritismo, que  depois de quatro ou cinco anos, como ficou dito), o
esprita est perdido a olhos vistos; os atos e palavras indicam o desequilbrio
mental; no h iluso a tal respeito. Conversa-se com eles; raros compreendem
logo em princpio o sol e a lua; mostram-se todos afetuosos leais e atentos.
Mas o transtorno cerebral  claro. Toda a gente v que fala a doentes.

Entretanto,
(mistrio dos mistrios!)  justamente assim e principalmente depois do ltimo
salto nas trevas, que os espritos vagabundos ou penantes acodem ao menor
aceno, no menos que os de pessoas clebres, batizadas ou no.

Tem-se
calculado que, dos espritos evocados durante um ano, 28 por cento o foram por
espritas ainda meio sos (primeira fase); 72 por cento pertencem aos
mentecaptos. Alguns estatsticos chegam a conceder aos ltimos 79 por cento;
mas parece excessivo.

No importa
ao nosso caso a porcentagem exata; basta saber que, para a melhor evocao e
mais fcil troca de idias,  prefervel o manaco ao so, e o doido varrido ao
manaco. Nem parea isto maravilha; maravilha ser, mas de legtima estirpe.
Montaigne, muito apreciado por um dos nossos primeiros senadores e por este seu
criado, dizia com aquela agudeza que Deus lhe deu: C'est un grand ouvrier de
miracles que l'esprit humain! Os milagres do espiritismo so tais; a rigor,
 o esprito humano que faz o seu ofcio.

Eu chegaria
a propor, se tivesse autoridade cientfica, um meio de desenvolver esta planta
essencialmente espiritual. Estabeleceria por lei os casamentos espritas, isto
, em que ambos os cnjuges fossem examinados e reconhecidos como inteiramente
entrados na segunda fase. Os filhos desses casais trariam do bero o dom
especial, em virtude da transmisso. Quando algum, escapando pela malhas dessa
lei natural (todos as tm) chegasse a simples mediocridade, pacincia; os
restantes, confinando na idiotia e no cretinismo (com perdo de quem me ouve),
preparariam as bases de um excelente sculo futuro.

Venhamos ao
nosso Lapa. Evocado Nostradamus, vi claramente o que ele referiu ao evocador.
Em primeiro lugar, a maioria do Conselho de Estado  contrria  dissoluo da
Cmara dos Deputados, que alguns dizem incorretamente (explicou ele)
'dissoluo das Cmaras'. Sair o gabinete de 10 de maro. 
convidado o Sr. Correia, depois o Sr. Visconde do Cruzeiro, depois novamente o
Sr. Correia, e o Sr. Visconde de Vieira da Silva. Este, apesar de enfermo,
tentar organizar um gabinete que concilie as duas partes do Partido
Conservador; no o conseguir; ser chamado o Sr. Saraiva, que no aceita; sobe
o Sr. Visconde de Ouro Preto e esto os liberais de cima.

Boas
noites.

13 de
agosto

Bons dias!

Dizia-me
ontem um homem gordo... para que ocult-lo?... Lulu Snior:

 Voc no
pode deixar de ser candidato  Cmara temporria. Um homem dos seus
merecimentos no deve ficar  toa, passeando o triste fraque da modstia pelas
vielas da obscuridade. Eu, se fosse magro, como voc,  o que fazia; mas as
minhas formas atlticas pedem evidentemente o Senado; l irei acabar estes meus
dias alegres. Passei o cabo dos quarenta; vou a Melinde buscar piloto que me
guie pelo oceano ndico, at chegar  terra desejada...

J se viam
chegados junto  terra,

Que
desejada j de tantos fora.

 Bem,
respondi eu, mas  preciso um programa;  preciso dizer alguma coisa aos
eleitores; pelo menos de onde venho e para onde vou. Ora, eu no tenho idias,
nem polticas nem outras.

 Est
zombando!

 No,
senhor; juro por esta luz que me alumia. Na distribuio geral das idias...
Talvez voc no saiba como  que se distribuem as idias, antes da gente vir a
este mundo. Deus mete alguns milhes delas num grande vaso de jaspe,
correspondente s levas de almas que tm de descer. Chegam as almas; ele atira
as idias aos punhados; as mais ativas apanham maior nmero, as moleironas
ficam com um pouco mais de uma dzia, que se gasta logo, em pouco tempo; foi o
que me sucedeu.

 Mas
trata-se justamente de suprimi-las; no as ter  meio caminho andado. Tem lido
as circulares eleitorais?

 Uma ou
outra.

 A est
porque voc anda baldo ao naipe; no l nada, ou quase nada; os jornais
passam-lhe pelas mos  toa, e quer ter idias. H opinies que eu ouo s
vezes, e fico meio desconfiado; corro s folhas da semana anterior, e l dou
com elas inteirinhas. Pois as circulares, se nem todas so originais, so
geralmente escritas com facilidade, algumas com vigor, com brilho e... Umas
falam de ficar parado, outras de andar um bom pedao, outras de correr, outras
de andar para trs...


Justamente. Que hei de escolher entre tantos alvitres?

 Um s.

 Mas qual?

 De tantos
homens que falaram aos eleitores, um s teve para mim a intuio poltica;
'Conhecido dos meus amigos (escreveu o Sr. Dr. Nobre, presidente da Cmara
Municipal), julgo-me dispensado de definir a minha individualidade
poltica.' Tem voc amigos?

 Alguns.

 Tem
muitos. Bota para fora essa morrinha da modstia. Voc no ter idias, mas
amigos no lhe faltam. Eu tenho ouvido coisas a seu respeito, que at me
admira,  verdade. J vi baterem-se dois sujeitos por sua causa. Vinham num
bonde ao p de mim. Um disse que o encontrara nesse dia de fraque cor de rap,
o outro que tambm o vira, mas que o fraque tirava mais a cor de vinho. O
primeiro teimou, o segundo no cedeu, at que um deles chamou ao outro pedao
d'asno; o outro retorque-lhe, no lhe digo nada, engalfinharam-se e
esmurraram-se  grande. Eu nunca me benzi com um sacrifcio destes. Vamos,
amigos no lhe faltam.

 Pois sim;
e depois?

 Depois 
o que escreveu o candidato. Conhecido dos seus amigos, que necessidade tem voc
de definir-se?  o mesmo que dar um ch ou um baile, e distribuir  entrada o
seu retrato em fotografia. No se explique; aparea. Diga que deseja ser
deputado, e que conta com os seus amigos.

 S isso?

 
palerma, eles conhecem-te, mas  preciso visit-los. A maior parte dos amigos
no votam sem visita. A questo  esta? O eleitor tem trs fases; est na
segunda, em que a cdula  considerada um chapu que ele no tira sem o outro
tirar primeiro o seu chapu de verdade. Se houver intimidade, ainda podes dizer
brincando: ' Cunha, tira o chapu.' Mas o teu h de estar na mo.

 Bem, se 
s isso, estou eleito.

 Isso, e
amigos.

 E amigos,
justo.

 No te
definas, eles conhecem-te; procura-os. Quando o filhinho de algum vier , sala,
pega nele, assenta-o na perna; se o menino meter o dedo no nariz, acha-lhe
graa. E pergunta ao pai como vai a senhora; afirma que tens estado para l ir,
mas as bronquites so tantas em casa... Elogia-lhe as bambinelas. No ofereas charuto, que pode parecer corrupo; mas aceita-lhe o que ele te der. Se for
quebra-queixo, pergunta-lhe interessado onde  que os compra.

 J se v,
em cada casa a mesma cantilena. Uma s msica, embora com palavras diversas. O
eleitor pode ser um ruim poeta...


Justamente; leva-lhe decorado o ltimo soneto, um primor.


Compreendi tudo. Definio  que nada, visto que so meus amigos. Compreendi
tudo. Posso oferecer a minha gratido?

 Podes;
toda a questo  ir ao encontro do sentimento do eleitor, isto , que ele te
faz um favor votando; no escolhe um representante dos seus interesses. Anda,
vai-te embora e volta-me deputado.

Boas
noites.

22 de
agosto

Bons dias!

Quem nunca
invejou, no sabe o que  padecer. Eu sou uma lstima. No posso ver uma
roupinha melhor em outra pessoa, que no sinta o dente da inveja morder-me as
entranhas.  uma comoo to ruim, to triste, to profunda, que d vontade de
matar. No h remdio para esta doena. Eu procuro distrair-me nas ocasies;
como no posso falar, entro a contar os pingos de chuva, se chove, ou os
basbaques que andam pela rua, se faz sol; mas no passo de algumas dezenas. O
pensamento no me deixa ir avante. A roupinha melhor faz-me foscas, a cara do
dono faz-me caretas...

Foi o que
me aconteceu, depois da ltima vez que estive aqui. H dias, pegando numa folha
da manh, li uma lista de candidaturas para deputados por Minas, com seus
comentos e prognsticos. Chego a um dos distritos, no me lembra qual, nem o
nome da pessoa, e que hei de ler? Que o candidato era apresentado pelos trs
partidos, liberal, conservador e republicano.

A primeira
coisa que senti, foi uma vertigem. Depois, vi amarelo. Depois, no vi mais
nada. As entranhas doam-me, como se um faco as rasgasse, a boca tinha um
sabor de fel, e nunca mais pude encarar as linhas da notcia. Rasguei afinal a
folha, e perdi os dois vintns; mas eu estava pronto a perder dois milhes,
contando que aquilo fosse comigo.

Upa! que
caso nico. Todos os partidos armados uns contra os outros no resto do Imprio,
naquele ponto uniam-se e depositavam sobre a cabea de um homem os seus
princpios. No faltar quem ache tremenda a responsabilidade do eleito, 
porque a eleio, em tais circunstncias,  certa; c para mim  exatamente o
contrrio. Dem-me dessas responsabilidades, e vero se me saio delas sem
demora, logo na discusso do voto de graas.

 Trazido a
esta Cmara (diria eu) nos paveses de gregos e troianos, e no s dos gregos
que amam o colrico Aquiles, filho de Peleu, como dos que esto com Agamenon,
chefe dos chefes, posso exultar mais que nenhum outro, porque nenhum outro ,
como eu, a unidade nacional. Vs representais os vrios membros do corpo; eu
sou o corpo inteiro, completo. Disforme, no; no monstro de Horcio, por qu?
Vou diz-lo.

E diria
ento que ser conservador era ser essencialmente liberal, e que no uso da
liberdade, no seu desenvolvimento, nas suas mais amplas reformas, estava a
melhor conservao. Vede uma floresta! (exclamaria, levantando os braos). Que
potente liberdade! e que ordem segura! A natureza, liberal e prdiga na
produo,  conservadora por excelncia na harmonia em que aquela vertigem de
troncos, folhas e cips, em que aquela passarada estrdula, se unem para formar
a floresta. Que exemplo s sociedades! Que lio aos partidos!

O mais
difcil parece que era a unio dos princpios monrquicos e dos princpios
republicanos; puro engano. Eu diria: 1, que jamais consentiria que nenhuma das
duas formas de governo se sacrificasse por mim; eu  que era por ambas; 2, que
considerava to necessria uma como outra, no dependendo tudo seno dos
termos; assim podamos ter na monarquia a repblica coroada, enquanto que a
repblica podia ser a liberdade no trono, etc., etc.

Nem todos
concordariam comigo; creio at que ningum, ou concordariam todos, mas cada um
com uma parte. Sim, o acordo pleno das opinies s uma vez se deu abaixo do
sol, h muitos anos, e foi na assemblia provincial do Rio de Janeiro. Orava um
deputado, cujo nome absolutamente me esqueceu, como o de dois, um liberal,
outro conservador, que virgulavam o discurso com apartes,  os mesmos apartes.
A questo era simples.

O orador,
que era novo, expunha as suas idias polticas. Dizia que opinava por isso ou
por aquilo. Um dos apartistas acudia:  liberal. Redargia o outro: 
conservador. Tinha o orador mais este e aquele propsito.  conservador, dizia
o segundo;  liberal, teimava o primeiro. Em tais condies, prosseguia o
novato,  meu intuito seguir este caminho. Redargia o liberal:  liberal; e o
conservador:  conservador. Durou este divertimento trs quartos de colunas do Jornal
do Comrcio. Eu guardei um exemplar da folha para acudir s minhas
melancolias, mas perdi-o numa das mudanas de casa.

Oh! no
mudeis de casa! Mudai de roupa, mudai de fortuna, de amigos, de opinio, de
criados, mudai de tudo, mas no mudeis de casa!

Boas
noites.

29 de
agosto

Bons dias!

Ho de
fazer-me esta justia, ainda os meus mais ferrenhos inimigos:  que no sou
curandeiro, eu no tenho parente curandeiro, no conheo curandeiro, e nunca vi
cara, fotografia ou relquia, sequer, de curandeiro. Quando adoeo no  de
espinhela cada,  coisa que podia aconselhar-me a curandeira;  sempre de
molstias latinas ou gregas. Estou na regra; pago impostos, sou jurado, no me
podem argir a menor quebra de dever pblico.

Sou
obrigado a dizer tudo isso, como uma profisso de f, porque acabo de ler o
relatrio mdico acerca das drogas achadas em casa do curandeiro Tobias. Saiu
hoje;  um bom documento. Falo tambm porque outras muitas coisas me estimulam
a falar, como dizia o curandeiro-mor, Mal das Vinhas, chamado, que j l est
no outro mundo. Falo ainda, porque nunca vi tanto curandeiro apanhado,  o que
prova que a indstria  lucrativa.

Pelo relatrio
se v que Tobias  um tanto Monsieur Jourdain, que falava em prosa sem o saber;
Tobias curava em lnguas clssicas. Aplicava, por exemplo, solanum argentum,
certa erva, que no vem com outro nome; possua umas cinqenta gramas de aristolochia
appendiculata, que dava aos clientes;  a raiz de mil-homens. Tinha, porm,
umas bugigangas curiosas, espores de galo, ps de galinha secos, medalhas,
plvora e at um chicote feito de rabo de raia, que eu li rabo de saia, coisa
que me espantou, porque estava, estou e morrerei na crena de que rabo de saia
 simples metfora. Vi depois o que era rabo de raia. Chicote para qu?

Tudo isto,
e ainda mais, foi apanhado ao Tobias, no que fizeram muito bem, e oxal se
apanhem as bugigangas e drogas aos demais curandeiros, e se punam estes, como
manda a lei.

A minha
questo  outra, e tem duas faces.

A primeira
face  toda de venerao; punamos o curandeiro, mas no esqueamos que a
curandeira foi a clula da medicina. Os primeiros doentes que houve no mundo,
ou morreram ou ficaram bons. Interveio depois o curandeiro, com algumas
observaes rudimentrias, aplicou ervas, que  o que havia  mo, e ajudou a
sarar ou a morrer o doente. Da vieram andando, at que apareceu o mdico.
Darwin explica por modo anlogo a presena do homem na terra. Eu tenho um
sobrinho, estudante de medicina, a quem digo sempre que o curandeiro  pai de
Hipcrates, e, sendo o meu sobrinho filho de Hipcrates, o curandeiro  av do
meu sobrinho; e descubro agora que vem a ser meu tio,  fato que eu neguei a
princpio. Tambm no borro o que l est. Vamos  segunda face.

A segunda 
que o espiritismo no  menos curanderia que a outra, e  mais grave, porque se
o curandeiro deixa os seus clientes estropiados e disppticos, o esprita
deixa-os simplesmente doidos. O espiritismo  uma fbrica de idiotas e
alienados, que no pode subsistir. No h muitos dias deram notcia as nossas
folhas de um brasileiro que, fora daqui, em Lisboa, foi recolhido em
Rilhafoles, levado pela mo do espiritismo.

Mas no 
preciso que dem entrada solene nos hospcios. O simples fato de engolir
aqueles rabos de raia, ps de galinha, raiz de mil-homens e outras drogas vira
o juzo, embora a pessoa continue a andar na rua, a cumprimentar os conhecidos,
a pagar as contas, e at a no pag-las, que  meio de parecer ajuizado.
Substancialmente  homem perdido. Quando eles me vm contar uns ditos de Samuel
e de Jesus Cristo, sublinhados de filosofia de armarinho, para dar na perfeio
sucessiva das almas, segundo estas mesmas relatam a quem as quer ouvir, palavra
que me d vontade de chamar a polcia e um carro.

Os
espritas que me lerem ho de rir-se de mim, porque  balda certa de todo
manaco lastimar a ignorncia dos outros. Eu, legislador, mandava fechar todas
as igrejas dessa religio, pegava dos religionrios e fazia-os purgar
espiritualmente de todas as suas doutrinas; depois, dava-lhes uma aposentadoria
razovel.

Boas
noites.

FIM
