MISCELNEA, Gonalves Dias, 1906

Gonalves Dias

Texto-Fonte:

Obra Completa de Machado de Assis,

Rio de Janeiro: Nova
Aguilar, vol. II, 1994.

Publicado originalmente
em Relquias de Casa Velha, Editora Garnier, Rio de Janeiro, 1906.

Discurso lido no Passeio
Pblico, ao

inaugurar-se o busto de
Gonalves Dias.

Sr. Prefeito do
Distrito Federal,

A comisso que tomou a
si erguer este monumento, incumbiu-me, como presidente da Academia Brasileira,
de o entregar a V. Ex., como representante da cidade. O encargo  no somente
honroso, mas particularmente agradvel  Academia e a mim.

Se eu houvesse de dizer
tudo o que este busto exprime para ns, faria um discurso, e  justamente o que
os autores da homenagem no devem querer neste momento. Conta Renan que, uma
hora antes dos funerais de George Sand, quando alguns cogitavam no que convinha
proferir  beira da sepultura, ouviu-se no parque da defunta cantar um
rouxinol. Ah! eis o verdadeiro discurso! disseram eles consigo. O mesmo seria
aqui, se cantasse um sabi. A ave do nosso grande poeta seria o melhor discurso
da ocasio. Ela repetiria  alma de todos aquela cano do exlio que ensinou
aos ouvidos da antiga me-ptria uma lio nova da lngua de Cames. No
importa! A cano est em todos ns, com os outros cantos que ele veio
espalhando pela vida e pelo mundo, e o som dos golpes de Itajub, a piedade de
I-Juca-Pirama, os suspiros de Coema, tudo o que os mais velhos ouviram na
mocidade, depois os mais jovens, e daqui em diante ouviro outros e outros,
enquanto a lngua que falamos for a lngua dos nossos destinos.

Dizem que os cariocas
somos pouco dados aos jardins pblicos. Talvez este busto emende o costume;
mas, supondo que no, nem por isso perdero os que s vierem contemplar aquela
fronte que meditou pginas to magnficas. A solido e o silncio so asas
robustas para os surtos do esprito. Quem vier a este canto do jardim, entre o
mar e a rua, achar o que se encontra nas capelas solitrias, uma voz interior,
e dir pelo rosrio da memria as preces em verso que ele comps e ensinou aos
seus compatrcios.

E desde j ficam as
duas obras juntas. Uma responder pela outra. Nem V. Ex., nem os seus
sucessores consentiro que se destrua este abrigo de folhas verdes, ou se
arranque daqui esse monumento de arte. Se algum propuser arrasar um e mudar
outro, para trazer utilidade ao terreno, por meio de uma avenida, ou coisa
equivalente, o Prefeito recusar a concesso, dizendo que este jardim,
conservado por diversos regmens, est agora consagrado pela poesia, que  um
regmen s, universal, comum e perptuo. Tambm pode declarar que a venerao
dos seus grandes homens  uma virtude das cidades. E isto faro os Prefeitos de
todos os partidos, sem agravo do seu prprio, porque o poeta que ora celebramos,
fiel  vocao, no teve outro partido que o de cantar maravilhosamente.

Demais, se o caso for
de utilidade, V. Ex. e os seus sucessores acharo aqui o mais til remdio s
agruras administrativas. Este busto consolar do trabalho acerbo e ingrato; ele
dir que h tambm uma prefeitura do esprito, cujo exerccio no pede mais que
o mudo bronze e a capacidade de ser ouvido no seu eterno silncio. E repetir a
todos o nome de V. Ex., que o recebeu e o dos outros que porventura vierem
contempl-lo. Tambm aqui vinha, h muitos anos, desenfadar-se da vspera, sem
outro encargo nem magistratura, que os seus livros, o autor de Iracema.
Se j estivesse aqui este busto, ele se consolaria da vida com a memria, e do
tempo com a perenidade. Mas ento s existiam as rvores. Bernardelli, que
tinha de fundir o bronze de ambos, no povoara ainda as nossas praas com
outras obras de artista ilustre. Olavo Bilac, que promoveu a subscrio de
senhoras a que se deve esta obra, no afinara ainda pela lira de Gonalves Dias
a sua lira deliciosa.

Aqui fica entregue o
monumento a V. Ex., Sr. Prefeito, aqui onde ele deve estar, como outro exemplo
da nossa unidade, ligando a ptria inteira no mesmo ponto em que a histria,
melhor que leis, ps a cabea da nao perto daquele gigante de pedras que o
grande poeta cantou em versos msculos.
