Conto, Questo de Vaidade, 1864

Questo de vaidade

Texto Fonte:

Histrias Romnticas, Machado de Assis,

Rio de Janeiro: Edies
W. M. Jackson, 1938.

Publicado originalmente
em Jornal
das Famlias, novembro de 1864.

NDICE

CAPTULO PRIMEIRO

CAPTULO II - EDUARDO
AO SEU AMIGO PEDRO ELOY

CAPTULO III

CAPTULO IV

CAPTULO V

CAPTULO VI

CAPTULO VII

CAPTULO VIII

CAPTULO IX

CONCLUSO

CAPTULO PRIMEIRO

Suponha o leitor que somos conhecidos
velhos. Estamos ambos entre as quatro paredes de uma sala; o leitor sentado em
uma cadeira com as pernas sobre a mesa,  moda americana, eu a fio comprido em
uma rede do Par, que se baloua voluptuosamente,  moda brasileira, ambos
enchendo o ar de leves e caprichosas fumaas,  moda de toda gente.

Imagine mais que  noite. A janela
aberta deixa entrar as brisas aromticas do jardim, por entre cujos arbustos se
descobre a lua surgindo em um lmpido horizonte.

Sobre a mesa ferve em aparelho prprio
uma pouca de gua para fazer uma tintura de ch. No sei se o leitor adora como
eu a deliciosa folha da ndia. Se no, pode mandar vir caf e fazer com a mesma
gua a bebida de sua predileo.

No se obriga, nem se constrange
ningum nestas prticas imaginadas. Se estivssemos na vida real, eu comearia
por querer at privar-me do ch, e por sua parte o leitor dispensava o caf,
para ser do meu agrado. Felizmente no  assim.

Ora, como  noite, e como no
hajam cuidados para ns, temos ambos percorrido toda a plancie do passado,
apanhando a folha do arbusto que secou ou a runa do edifcio que abateu.

Do passado vamos ao presente, e as
nossas mais ntimas confidncias se trocam com aquela abundncia de corao
prpria dos moos, dos namorados e dos poetas.

Finalmente, nem o futuro nos
escapa. Com o mgico pincel da imaginao traamos e colorimos os quadros mais
grandiosos, aos quais damos as cores de nossas esperanas e da nossa confiana.

Suponha o leitor que temos feito
tudo isto e que nos apercebemos de que, ao terminar a nossa viagem pelo tempo,
 j meia-noite. Seriam horas de dormir se tivssemos sono, mas cada qual de
ns, avivado o esprito pela conversao, mais e mais deseja estar acordado.

Ento, o leitor, que  perspicaz e
apto para sofrer uma narrativa de princpio a fim, descobre que eu tambm me
entrego aos contos e novelas, e pede que lhe forje alguma coisa do gnero.

E eu para ir mais ao encontro dos
desejos do leitor imaginoso, no lhe forjo nada, alinhavo alguns episdios de
uma histria que sei, histria verdadeira, cheia de interesse e de vida. E para
melhor convencer o meu leitor vou tirar de uma gaveta algumas cartas em papel
amarelado, e antes de comear a narrativa, leio-as, para orient-lo no que lhe
contar.

O leitor arranja as suas pernas,
muda de charuto, e tira da algibeira um leno para o caso de ser preciso
derramar algumas lgrimas. E, feito isto, ouve as minhas cartas e a minha
narrativa.

Suponha o leitor tudo isto e tome
as pginas que vai ler como uma conversa  noite, sem pretenso nem desejo de
publicidade.

CAPTULO II

EDUARDO AO SEU AMIGO PEDRO ELOY

Meu amigo,

Acendo duas velas para
escrever-te.  como se eu confiasse diante de um altar as minhas penas e as
minhas felicidades. Tens sido para mim o santo milagroso por excelncia; nada
desejo que por influxo teu no seja cumprido. E mais ainda: nas minhas
atribulaes  a tua palavra que me sustenta, como a voz da verdade e da
justia. No te admires, pois, da precauo que tomei de iluminar este papel
como o faria  pedra de um altar.

Ora, ainda assim no  tanto ao
santo, como ao filsofo, que eu me dirijo desta vez. Talvez amanh te v pedir
consolaes, mas agora o que desejo  a soluo de um fenmeno moral.

Sabes do meu amor por Maria
Luiza, a interessante viuvinha que eu encontrei h dois meses e a quem parece
que inspirei algum amor. Pouco falta para que este amor seja coroado de um
feliz sucesso, substituindo eu o finado marido, que, seja dito neste papel,
parece que era suficientemente prosaico.

Quando te comuniquei esta paixo
mandaste-me bons conselhos de prudncia que eu li com a maior venerao. Dizias
que me no fosse enganar e tomar por amor aquilo que no passava de capricho.
Acrescentavas que a tua dvida nascia dos termos de minha carta.

Pesei as tuas palavras e
gravei-as na memria. O resultado foi que estavas em puro engano. Eu amava
deveras Maria Luiza.

Mas vamos ao fenmeno. Antes de
entrar em outros pormenores, insisto em dizer que amava e amo a viva. J te
disse qual a fora deste amor e o que me havia inspirado. No quero fazer
repeties inteis, mas insisto nesta observao.

Ouve agora o que me acaba de
acontecer h oito dias.

Tinha eu ido passar uma noite em S. Domingos em casa de dois amigos. No dia seguinte, seriam cinco horas, acordei
sobressaltado com os preparativos que se faziam em casa para ir aos banhos de
mar. Os meus hspedes ficaram pesarosos de me terem acordado to cedo; mas eu,
que j de longa data tenho a minha aurora s onze horas da manh, no fiquei
descontente de poder fazer exceo  regra.

Vesti-me, como eles, e fui com
eles  praia das Flechas, lugar usual dos banhos.

Diversas barracas se levantavam
na praia, contra a qual se quebrava o mar agitado.

Algumas moas j andavam  flor
das guas, enfronhadas nas suas camisolas do costume. Outras iam saindo, de
quando em quando, do interior das barracas e tomando o caminho do mar.

Um ou outro grito, soltado no
meio do susto produzido por uma vaga mais alta ou mais violenta, unia-se ao
sussurro do mar.

Os maridos, pais e irmos, que
no tomavam banho, ou conversavam, ou liam, ou olhavam o ar, enquanto as graas
humanas brincavam com o elemento a que Shakespeare as comparou.

Armou-se a nossa barraca e
prepararam-se os meus companheiros para o banho. Eu de mim, confesso, preferia
ver as damas banharem-se e rir do susto pueril que elas tivessem. Demais,
apesar de estarmos no vero, fazia nesse dia um tal frio que me arredava da
gua cinqenta lguas.

Os meus companheiros
apresentavam-me o exemplo das damas que to destemidamente afrontavam o tempo e
o mar. Mas eu, depois de citar Shakespeare no que tocava  identidade das mulheres
e do mar, citei-me a mim prprio, acrescentando que a maioria das senhoras que
se banhavam o faziam por moda ou por bom tom.

Enfim, consegui no ir  gua.
Enquanto os outros se banhavam fui sentar-me em uma pedra que ali estava perto.
Estive contemplando as banhistas alguns minutos. Mas, como sempre acontece, os
meus olhos, depois de correr todo o grupo voltavam aos primeiros, e assim via
eu duas ou trs vezes as mesmas caras, graciosas ou assustadias, arrecearem-se
ou brincarem com a gua revolta.

Ora, uma dessas figuras, a
terceira vez que passou sob o meu olhar, deteve-o alguns minutos. Estvamos a
certa distncia que me no permitia distinguir-lhe as feies, mas havia na
temeridade, na graa, no recato com que ela se banhava, uma tal diferena das
outras, que eu no pude deixar de examin-la com mais interesse.

No podendo distinguir-lhe, como
disse, as feies, esperei que ela estivesse em terra para procurar admir-la
ou correr-me de uma iluso.

Nisto estava, quando a moa, que
parecia nada temer e arredava-se da praia mais do que era conveniente, foi
engolida por uma vaga. S flutuavam  flor dgua os longos cabelos negros.

Houve um grito, um s, mas de
todos quantos se achavam na praia e presenciavam o fato.

Alguns dos banhistas dirigiam-se
para o lugar do desastre. Mas estavam um pouco longe. Eu vi que a demora era
fatal. Correndo pela praia, atirei fora o palet e lancei-me  gua.

No te conto todas as peripcias
desta cena. Na praia, a famlia da pobre moa ajoelhara-se involuntariamente e
todos pareciam depender de mim.

Ao cabo de algum tempo e de
alguns esforos salvei a moa.

Avalia como fui recebido pela
famlia. Afagavam-na com abraos e beijos.

Voltando a si do desmaio que
tivera, a moa foi conduzida para casa dentro de um carro.

O que motivara a catstrofe no
foi a violncia com que a onda se arremessara, foi ter a pobre moa desmaiado.
Uma vez desmaiada, caiu e no soube mais de si.

O pai da moa obrigou-me a ir 
casa dele. No tive remdio. Avisei os meus companheiros e parti.

Trataram-me muito bem. Pediram-me
que voltasse l algumas vezes. A moa no tirou as minhas mos de entre as suas
nem os seus olhos dos meus, dizendo-me que a mim devia a vida e que eu era o
seu salvador.

Voltei l algumas vezes.
Trataram-me sempre muito bem. Mas que pensas tu que me aconteceu? Aquela franca
alegria, aquela gratido to claramente manifestada pela moa, tudo isso fez-me
apaixonado!

Mas o fenmeno? perguntas tu. O
fenmeno  que, se amo a esta, no esqueci a viva. Amo a viva como antes: o
fenmeno  que amo as duas do mesmo modo, com o mesmo ardor. Explica-me isto.

Estou de tal modo, que no posso
pensar em uma s, hei de pensar em ambas; sei o que sofro, encolerizo-me comigo
mesmo.

Que ser isto? Escreve-me
depressa, d-me a luz e o blsamo de que necessita o teu amigo.

Eduardo T.B.

A resposta desta carta, escrita
dois dias depois,  assim concebida:

PEDRO ELOY AO SEU AMIGO EDUARDO

Meu amigo,

Recebi a tua carta, e desde o dia
em que a li at hoje no tenho feito mais do que pensar no teu fenmeno.

No  que eu esteja convencido,
como tu, de que  verdadeiramente um fenmeno. Pelo contrrio, vejo que o que
sentes  uma coisa muito natural.

Insistes em dizer que amas a
viva. Eu insisto em dizer que no a amas. E a prova est nesta dualidade de
amor, falsa e impossvel, verdadeiro erro de um esprito enfermo e de um
corao indiscreto.

Queres tu saber o que existe na
verdade? Existe um simples desejo, uma aspirao toda sensual, comum nos
rapazes da tua idade e de tua educao, mas imprpria de quem quer que
compreenda a elevao e castidade dos sentimentos.

Pensas que cortas toda a
dificuldade pronunciando a palavra fenmeno? Repara, meu Eduardo, onde vai dar
a ampliao deste sofisma. Deste modo, todos os vcios se legitimam, todos os
desvios se aceitam.

 engraada a histria do banho e
do desmaio no mar. Afigura-se-te que depois deste episdio romanesco s se pode
sentir amor, e concluis que ests apaixonado. E como uma insacivel volpia
rene em teu pensamento as duas mulheres em questo, concluis que ests
apaixonado por ambas.

Ora, srio. Admites em toda a sua
pureza moral a reunio de dois amores? Pois o amor, isto , a mais completa
fuso de duas almas, pode ter por objeto dois objetos?

Reflete, entra em ti mesmo,
envergonha-te do erro em que ests. V bem que no amas nem a viva, nem a
donzela. Amas a uma s criatura, s tu mesmo.  o amor dos sentimentos que se
pode dividir, que se divide, que se prostitui, que se desvaira.

Se queres uma explicao a a
tens; se queres um conselho, no perturbes a constncia dessas duas mulheres, a
menos que no queiras a todo o transe ser ator principal em um drama perigoso.
 Adeus. Desculpa a franqueza;  a minha. C fico para explicar-te quantos
fenmenos te apaream e varrer-te da cabea quantas idias ms o vento da
maldade a depuser. Adeus.

CAPTULO III

Eduardo leu esta carta com avidez,
e releu-a para compreend-la melhor, visto ser a primeira leitura demasiado
rpida.

Quinze minutos gastou nesta
operao, e outros quinze em meditar as palavras do amigo Pedro Eloy. No fim de
meia hora, fechou a carta e guardou-a na gaveta da secretria. No estava
convencido, estava abalado.

 Ora, por fim de contas, pensava
ele, Pedro Eloy no  um papa; pode enganar-se.  talvez certo que se engane.
Sou eu uma criana ou um ignorante? No sinto eu o contrrio do que ele me
escreve?

Fazendo estas reflexes e outras
no mesmo sentido, Eduardo vestiu-se e saiu.

Esquecia-me dizer que Eduardo
residia no Rio de Janeiro e Pedro Eloy em Petrpolis.

Eduardo era um dos moos mais
elegantes da sociedade fluminense. Era ao mesmo tempo um rou de
primeira fora. Faltava-lhe o calo, o sapato raso e os mil enfeites do tempo
de Lus XV. Durante os primeiros anos das suas correrias amatrias foi sempre
remisso aos sentimentos de ordem elevada. Era vaidoso como um tolo e tolo como
um vaidoso. Acreditava todas as mulheres mortas por ele, e algumas tiveram a
desgraa de o confirmarem nessa idia.

Um dia, levantou-se da cama com a
crena original de estar apaixonado. Tinha conversado na vspera com a viva
Maria Luiza, e no dia seguinte, como tivesse sonhado com ela, julgou-se
influenciado pelo deus do amor.

Feita a descoberta, correu a todos
os amigos para dar-lhes conta da novidade. Receberam-na a gargalhadas. Foi esse
o aguilho maior para o esprito do nosso namorado. Declarou-se
irremissivelmente apaixonado e jurou por Jpiter, como faria Alcibades, que se
havia de casar com Maria Luiza.

Depois de muitos dias de uma corte
continuada e crescente, conseguiu Eduardo fazer-se amado. Mas fez-se deveras.
Maria Luiza entregou-se toda quele amor que a procurava na viuvez e achou da
parte de sua velha me o beneplcito necessrio.

Estavam as coisas neste p quando
se deu o episdio dos banhos de S. Domingos. J havia dois dias que Eduardo no
via Maria Luiza, e nos dez dias que se seguiram ao referido episdio apenas l
foi uma vez.

Saindo  rua, lembrou-se Eduardo
de que devia visitar a viva, no se dispensando de visitar a donzela. A
primeira residia na Corte, devia ter a preferncia. Eduardo encaminhou-se para
a Rua do Lavradio, onde morava Maria Lusa.

No Rocio, encontrou dois amigos.

 Por onde andas tu? perguntou um
deles.

 Eu sei!

 Ora, este simulado Antony no
nos anda a fazer crer que se apaixonou pela tal viva? acrescentou o outro
amigo.  supor que comemos araras. Aquilo naturalmente  alguma destas unies
morganticas que costumas contrair. Adeus, s feliz!

 Zombem! zombem! exclamou
Eduardo. O que fariam se soubessem de outras coisas! H um fenmeno.

 H dois, acudiu o primeiro que falara;
 a pacincia de cada um de ns em ouvir-te essas patranhas. Vai, vai!

Eduardo despediu-se dos amigos e
foi caminho. Estava contente de si. Produzia o efeito que desejava. Era em no
ser acreditado que estava a originalidade. No  que ele estivesse
absolutamente fingindo.  fora de dizer que amava, convenceu-se disso. Mas, a
convico no era o amor.

Maria Luiza estava em casa com sua
me. Estavam ambas na sala. Maria Luiza tocava e cantava ao piano. Ao subir os
degraus do primeiro lano da escada, chegaram aos ouvidos de Eduardo as
palavras daquela ria deliciosa da Favorita:  mio Fernando...

A vaidade do rapaz era mais forte
que o amor. Subindo as escadas dizia ele mentalmente:  Aquele mio Fernando
quer dizer mio Eduardo.

No quis bater palmas. A porta
estava entreaberta. Adiantou a cabea e deu com os olhos na viva e na velha. A
primeira no podia v-lo.  velha, que logo o viu, fez Eduardo um sinal para
que se calasse. Quando Maria Luiza terminou a ria, Eduardo bateu palmas e deu
um bravo. Ela voltou-se e correu a receb-lo.

Maria Luiza era realmente digna de
um grande amor, mas da parte de outro homem que no fosse Eduardo. Amava-se
nela tudo, at o amor que se lhe entornava dos olhos como blsamo de um vaso
demasiado cheio. Adivinhava-se que o primeiro marido no conhecera nunca o
tesouro que possura e tomara aquela mulher pela razo que fez Abrao tomar a
escrava Agar.

Era de estatura mediana. O rosto,
antes cheio que magro, tinha a expresso dessas almas enrgicas e violentas que
no transigem nem se sujeitam seno com a condio de se lhes dar em troca a
felicidade e o bem. Os olhos eram castanhos como os cabelos. Tinha o nariz
ligeiramente aquilino. A boca era das mais corretas e graciosas. Quanto ao
resto do corpo, adivinhavam-se, atravs de um vestido de seda cor de prola, as
formas mais perfeitas que jamais sonhara Praxteles.

Se Eduardo no estivesse to
atento a ver o efeito que produzia, poderia enxergar, quando Maria Luiza se
levantou do piano, o mais delicado p depois do da Cendrilon, meio escondido em
um sapatinho raso de cetim.

Concebe-se que Maria Luiza, tal
como a esbocei, inspirasse a Eduardo, no o amor, em que s ele acreditava, mas
os desejos de que falava Pedro Eloy. Para os espritos medocres  fcil confundir
uma e outra coisa. Diante de Maria Luiza, Eduardo perguntava a si mesmo se no
era realmente amor o que sentia pela viva. J sabemos qual era a resposta que
ele mesmo dava a esta ntima interrogao.

A me de Maria Luiza era desses
tipos de velhice respeitvel e afvel a um tempo, com quem, sem perder a devida
venerao, pode-se usar da mais franca familiaridade.

A recepo de Eduardo foi a melhor
possvel. A velha cumprimentou-o como se fora seu filho. Maria Luiza, com uma
alegria a que se misturava certa dose de censura, disse-lhe:

 Graas a Deus! Estivemos
ansiosas por v-lo. Mame dizia que j se havia esquecido de ns; mas eu, no
querendo acreditar isso, acreditei a verdade: melhores distraes que a nossa
companhia o detiveram de certo.

 No h tal, disse Eduardo
aceitando a cadeira que a me de Maria Luiza lhe oferecia, e sentando-se
defronte desta. Estive meio adoentado. Quis sair, apesar de tudo, mas o mdico
proibiu-me expressamente.

Uma mentira desta natureza e neste
sentido, mesmo que se conhea,  ouvida com agrado. A humanidade  feita deste
modo. Dispensa a verdade, uma vez que lhe preguem uma mentira lisonjeira.

Em honra de Maria Luiza, devo
dizer que ela aceitou as palavras de Eduardo como se foram textos evanglicos.

Eduardo, tendo feito passar a
inveno da molstia, indagou da sade e do bem estar das duas senhoras. A
conversa demorou-se meia hora sobre assuntos indiferentes ao nosso. Finalmente,
como viessem chamar a me de Maria Luiza, esta pde ficar uns quinze minutos a
ss com Eduardo.

Houve um instante de silncio. Da
parte de Maria Luiza era natural enleio. Da parte de Eduardo, no era natural,
mas era enleio; provinha da paixo que ele acreditava em si.

A bela viva rompeu o silncio:

 Sabe que lamentei a sua falta?

 Chorou?

 No acredita, mas chorei.

 Devo crer tamanha felicidade?

 Por que no?

 No posso. Quando me lembro, em
meus sonhos de ambio, que a Providncia podia dar-me a mais invejvel das
felicidades, ocorre-me sempre que era preciso merec-la; e eu no mereo, desta
a que aludo, nem a dcima parte.

Trocou-se entre ambos um olhar.
Maria Luiza levantou-se. Eduardo seguiu-a com os olhos. Ela foi a uma jarra e
tirou duas pequenas rosas brancas.

 Quer uma? perguntou a Eduardo,
encaminhando-se para ele.

Eduardo estendeu a mo para
aceitar a flor. Tocaram-se os dedos, e nesse contacto Maria Luiza estremeceu.
Eduardo segurou a mo da viva e levou-a  boca. Maria Luiza, abandonando a mo
a Eduardo, inclinou a cabea e deixou-se possuir da felicidade que aquele
beijo, dado to ardentemente, lhe fazia entrar no corao.

Depois, passado o primeiro enlevo,
a viva retirou a mo, foi para o piano, e comeou a cantar com mais viva
expresso a ria da Favorita.

Eduardo levantou-se e foi
encostar-se ao piano.

Tinham ambos os olhos confundidos,
e nesse enlevo cantou Maria Luiza e Eduardo ouviu.

s ltimas notas, entrou na sala a
dona da casa.

  uma singular predileo a tua
por esta ria, minha filha.

  realmente deliciosa, disse
Eduardo.

 De poucas coisas gosto tanto
como disto, acrescentou Maria Luiza.

Eduardo, depois de algumas
palavras mais, declarou que ia sair.

- J! disse a viva.

  verdade, tenho uma visita para
fazer.

 No janta conosco?

 Desculpe, no posso.

 Ao menos, vir tomar ch, no?

 Venho.

 Com certeza?

 Com certeza.

 Olhe, no falte, acrescentou a
velha, olhando com certa inteligncia para a filha.

 No falto.

Eduardo apertou a mo  velha e a
Maria Luiza. Esta tinha os olhos rasos de lgrimas de felicidade, de saudade,
de amor, de tudo. Eduardo olhou para ela a ltima vez e disse, procurando a
expresso mais terna de sua voz:

 At logo!

 At logo! respondeu a moa.

Eduardo saiu.

Maria Luiza foi  janela v-lo
ainda. Depois, voltando para dentro, deitou-se aos braos de sua me.

 Amas-lo, no, minha filha?

 Oh! muito! muito!

 Pois eu creio que ele tambm te
ama. Juro-te que ho de ser felizes. Ele  s. Tu podias ter obstculo em mim,
mas eu s desejo a tua felicidade.

CAPTULO IV

Deixando a casa de Maria Luiza,
Eduardo tomou um tlburi e mandou tocar para a ponte das barcas de S. Domingos.

Dentro de dez minutos estava l.

Apeou, pagou o tlburi e entrou na
estao. Ali esperou a primeira barca que devia partir e que era a das duas e
meia horas. Entre os passageiros que esperavam houve um que mereceu desde logo
a ateno e os cumprimentos de Eduardo.

Era um homem de quarenta e cinco
anos, baixo, meio gordo, fisionomia insinuante, destas que, mesmo srias,
trazem impresso inconstante sorriso.

Eduardo dirigiu-se para ele e
cumprimentou-o afetuosamente, dizendo:

 O Sr. Almeida d-me um grande
prazer. No contava desde j o prazer de cumpriment-lo.

 Por qu? perguntou o indivduo,
dando a Eduardo lugar ao p de si.

 Porque s daqui a trs quartos
de hora contava estar em sua casa.

 Ah! tanto melhor! tanto melhor!

 Toda a famlia est boa?

 Tudo vai indo, obrigado. H
quantos dias no vai l?

 Creio que h dois.

 Ainda ontem Sara falou em seu
nome. Ontem no, creio que foi hoje de manh.

 Deveras? perguntou Eduardo sem
dissimular a alegria que lhe dava esta notcia.

Neste momento chegava a barca, os
dois tomaram passagem, e da a trs quartos de hora estavam  porta da chcara
de Almeida.

Sara, a filha deste, o objeto do
segundo amor de Eduardo, veio receb-los  porta. Mais atrs vieram o filho e o
irmo de Almeida. Eduardo foi recebido por todos com verdadeiro regozijo.

Em duas palavras apresento a
famlia de Almeida ao leitor.

Almeida, na poca em que se passam
estes acontecimentos, vivia do que ganhara durante uma vida laboriosa de longos
anos. No vivia com parcimnia, mas tambm no era prdigo. Tinha a cincia da
economia domstica, mediante a qual sabia despender utilmente, sem faltas nem
sobras.

Era vivo. No fim de oito anos de
casado, morrera-lhe a mulher, deixando dois filhos, um rapaz e uma menina.

A menina era mais velha que o rapaz;
contava este seis e aquela sete anos quando morreu a mulher de Almeida.

Almeida completou por si a
educao to zelosamente comeada por sua mulher. Sara cresceu sob os melhores
auspcios. Aumentou em beleza e conservou at  idade de dezessete anos a
inocncia e a graa da infncia. Era um bom corao em toda a pureza da
palavra. Nenhuma nuvem negra perturbara o cu sempre claro do seu esprito.

Quanto  beleza fsica, imagine o
leitor o que podia fazer contraste com a beleza da viva Maria Luiza. Esta,
como disse j, acusava em suas feies uma alma dada  violncia das paixes,
uma rara energia moral. Sara no era assim! Parecia uma criatura de outro
mundo, cada por engano no mundo dos Eduardos. Era um alfenim, uma delicadeza
que no parecia natural. Delgada e um tanto alta, olhos negros, cabelos
alourados, porte senhoril sem altivez, elegante sem artifcio, graciosa sem
afetao: tal era Sara.

Se a compararmos  viva, teremos,
conforme a respectiva presena, a disposio do gnio de cada uma. Maria Luiza
amava como as italianas: era ardente, apaixonada, violenta. Sara amava como as
alems: era meiga, resignada, sentimental.

Estas duas mulheres diversas na
ndole, no gnio, talvez no corao, ligavam-se em um ponto: no amor por
Eduardo, em quem viam, cada uma pelo prisma do seu esprito, o ideal sonhado em
suas doces aspiraes.

Disse acima que, aps Sara, tinham
ido receber Eduardo um irmo e um filho de Almeida. No tm estas duas figuras
mxima importncia na nossa histria, mas devo design-las como partes
integrantes da famlia de uma das heronas.

O tio de Sara tinha por nome
Silvrio. Era um aposentado da atividade. Em moo, e at certa idade madura, fora
incansvel trabalhador. Agora descansava  sombra da fortuna e da amizade
fraterna do pai de Sara.

Tinha sido solicitador de causas,
e deste emprego, exercido por longos anos, trouxera at  velhice um esprito
chicaneiro e discutidor. Era, alm disso, uma inteligncia acanhadssima,
frvola, tola, rasteira. Dava-se  apreciao de quantas anedotas e dictrios
ouvia ou lia. Fazia a autpsia das necessidades escritas em jornais com o mesmo
esprito com que outrora redigia um embargo ou uma assinao de dez dias.

Era aturado, estimado mesmo, em
virtude de sua velhice, de seu grau de parentesco e de algumas virtudes que
tinha.

Um esprito daquela natureza no
podia fugir s sedues do jogo do xadrez, do qual dizia, creio eu a divina
Stal, que para jogo era demasiado srio, e para negcio demasiado frvolo.
Cito de memria.

Era, com efeito, um grande jogador
de xadrez o tio Silvrio. Por desgraa, Eduardo no o era menos, de modo que
mal se anunciou a visita deste, correu Silvrio para a porta com os braos
abertos.

O filho de Almeida era um rapaz de
dezesseis anos. Estudava direito em S. Paulo. Durante os acontecimentos que estou narrando estava ele em frias no Rio de
Janeiro.

A famlia Almeida recebeu Eduardo,
como disse, com o mais cordial acolhimento.

Parecia um filho que chegava de
longa viagem.

E para aquela gente, que
estremecia tanto a formosa Sara, no era um filho aquele que a salvara da
morte?

Enquanto Eduardo e Almeida
descansavam do pequeno caminho que tinham feito, tratou-se dos preparativos do
jantar. Sara ia e vinha com uma graa encantadora. Dizia duas palavras a
Eduardo, uma ao tio Silvrio, duas a seu pai, sempre com aquele recato e
modstia que tanto agradam quando so verdadeiros e tanto enjoam quando so
artificiais.

Na sala, sobre a mesa, estava um
livro aberto. Eduardo procurou ler o que era; levantou-se e foi saciar a
curiosidade. Era Paulo e Virgnia. Um leno marcado com a firma de Sara,
atirado sobre as folhas abertas, para marcar a pgina, indicava quem estivera
lendo a obra-prima de Saint-Pierre.

Eduardo pegou no livro e no leno
e foi sentar-se junto de uma janela. Sua vaidade impava de contente. Tinha
diante de si um corao virgem, completamente virgem; um corao que ainda
podia ler Paulo e Virgnia. Amar, conquistar, possuir esta menina, era
surpreender a flor no boto; era ensinar o catecismo do amor, soletrar o credo
do corao, a uma ignorante, a uma pura, a uma ingnua. Que mais podia
ambicionar o caprichoso namorado?

Se alguma das pessoas da famlia
tivesse olhar mais perspicaz poderia de certo descobrir no olhar e no sorriso
com que Eduardo folheou o volume toda a satisfao de sua alma egosta.

Pedro Eloy, esse com certeza
adivinharia tudo e diria tudo quanto pensasse. De longe, Eduardo podia desdenhar
os conselhos prudentes do amigo, a quem chamava filsofo e santo milagroso;
mas, de perto, no seria assim. Pedro Eloy tinha, de fato, certo ascendente
sobre Eduardo, ao qual seria de maior proveito se lhes fosse possvel conviver.

Depois de alguma espera, Sara
mandou anunciar que o jantar se achava na mesa, e foi ela mesma buscar Eduardo,
o pai e o tio.

 Que est lendo a? perguntou ela
a Eduardo, entrando na sala.

 Ah! perdo! respondeu este. Foi
uma ousadia de que me arrependo; mas este livro aberto por suas mos, lido por
seus olhos, devia ter adquirido uma virtude nova e eu quis aspirar-lha antes
que outro o fizesse. Perdoa-me?

Almeida sorriu-se ouvindo estas
palavras de Eduardo; Sara tomou-lhe o livro docemente, tocando com os seus
dedos nos dele, e lanando-lhe um olhar da mais franca e pura satisfao;
Silvrio contentou-se em tomar uma pitada dizendo:

 E contudo este moo joga bem o
xadrez!

A palavra xadrez fez
estremecer Eduardo. Era o sinal de um perigo iminente. Todavia, como fino
cavalheiro que era, ofereceu o brao a Sara, e seguiu acompanhado de todos para
a mesa do jantar.

At aquela hora um s minuto no
pudera falar a ss com Sara. Durante o jantar era impossvel. O jantar foi
demorado, mais que de costume. Aproximou-se a noite. Finalmente levantaram-se
todos e foram dar um passeio pelo jardim.

A, graas  circunstncia de dar
o brao a Sara, pde Eduardo falar-lhe mais livremente, apressando ou demorando
o passo, conforme as necessidades.

 Soube que tem pensado em mim,
disse Eduardo a Sara, caminhando ao longo de uma cerca de roseiras.  verdade?

 No sei, respondeu a moa.

 Vejo que  uma confirmao.

 Quem foi o indiscreto?

 Foi seu pai, mas  verdade?

  sim; creio que no faz mal.

 Mal? Oh! nenhum! Fez a minha
felicidade.

 S em pensar?

 Pensar  interessar-se,
interessar-se ... sabe o que ?

 No sei, respondeu Sara corando.

Eduardo queria que a confisso
viesse da moa. Esta, para disfarar a sua perturbao, voltou-se e falou ao
pai acerca de algumas necessidades do jardim.

Da a cinco minutos a conversao
entre Eduardo e Sara continuou.

 Sara...

A moa estremeceu ouvindo este
modo de falar.

Depois, erguendo os olhos para
Eduardo, pareceu dizer-lhe naturalmente: continue!

 Sara, continuou Eduardo, no
posso, no quero, no devo ocultar-lhe por mais tempo o sentimento que a sua
beleza me inspirou. Amo-a, Sara. Amo-a muito, muito. Desde que eu tive a
ventura de salv-la das ondas, senti que tinha achado o objeto dos meus sonhos.
O ideal da minha imaginao. Para ser completamente feliz, basta que o seu
corao responda aos sentimentos do meu; basta, para dizer-me desgraado, a sua
recusa ou a sua indiferena. Diga, Sara, ama-me tambm?

A moa estava embriagada ouvindo
esta linguagem. Houve um silncio em que ela se deleitava com a msica das
palavras de Eduardo.

Este repetiu a pergunta.

 Sim, respondeu a moa, sim!

As duas mos se procuraram.
Pararam um instante; tinham os olhos embebidos. Assim se passou algum tempo,
at que Silvrio os foi chamar.

 Ento, que  isso?  o jogo do
srio?

Os dois voltaram  vida.

Caindo a noite, voltaram todos
para a casa. Eduardo ia despedir-se, quando lhe surgiu, armado de um tabuleiro
de xadrez, o tio Silvrio. No havia meio de recusar, no j porque o exigisse
a delicadeza, mas ainda porque Silvrio era dos tais que, em pedindo qualquer
coisa, punha a gente num suplcio.

Eduardo viu-se obrigado a aceitar
a partida de xadrez.

Para a filha de Almeida era isto
uma grande felicidade. A conversa do jardim decidira-lhe o corao. O que podia
haver de incerto naquela natureza fraca, indecisa, naquele esprito simples e
ingnuo, desaparecia diante dos sentimentos que as palavras de Eduardo
despertaram. At ento, a moa sentia alguma coisa que a arrastava para aquele
homem, mas nem o dizia, nem mesmo interrogava a si prpria a razo do novo
estado.

Agora, tinha-se-lhe clareado o
horizonte. Era amor, que sentia, e amor daqueles que s as almas elevadas so
capazes de sentir. O admirvel instinto de mulher dera-lhe o resto do que no
pudera interpretar das palavras de Eduardo.

Quando Eduardo declarou aceitar a
partida de xadrez a moa sentiu que o corao lhe palpitava com mais fora. Ela
prpria foi dispor o necessrio para o jogo, no sem levantar muitas vezes os
olhos para Eduardo, cujo olhar, pregado nela, exercia uma como fascinao.

Adivinha-se o resto. Entre a
paixo do jogo, dominante em Silvrio, e os olhares instantes de Sara, viu
Eduardo correr as horas sem arredar p. O jogo deu-se por terminado 
meia-noite. Apenas tinham jogado duas partidas, em que Silvrio ganhou sempre. Isto, porque ele no estava apaixonado, e Eduardo, se no o
estava, acreditava estar, o que no deixa de produzir algum efeito, como a
molstia imaginria fazia rgon conservar-se na cama.

Silvrio apertou afetuosamente a
mo de Eduardo, prometendo-lhe ficar pronto para dar-lhe a desforra.

 despedida, Sara, em quem j
dominava mais o amor que a ingenuidade infantil, colheu no jardim uma flor das
roseiras loucas, ao p das quais tivera a conversa com Eduardo, e ofereceu-a.

Eduardo aceitou, sorrindo a um
remoque paternal do velho Almeida, que ainda no calculava o estado do corao
de sua filha.

Mas como fosse saindo sem nada
dizer, Sara f-lo parar, e disse-lhe em voz alta, visto no poder ser de outro
modo:

 Eu cuidava que me devia
retribuir a ddiva com outra... com essa flor que traz a no peito.

Eduardo olhou a casa do palet,
viu a rosa que lhe fora dada por Maria Luiza. Tirou a flor e deu-lha.

Depois saiu.

Na rua ocorreu-lhe a lembrana que
tinha prometido ir tomar ch com Maria Luiza. Lembrara-se dela algumas vezes em
casa de Almeida, mas a promessa do ch varrera-se-lhe inteiramente da memria.

CAPTULO V

Nas cenas que at aqui tenho
esboado, tentei mostrar a leviandade e a vaidade de um homem que fazia jogo
com as paixes e os sentimentos ingnuos de duas criaturas. No h
inverossimilhana nos fatos, todos concordaro, mas tambm no h
inverossimilhana nos sentimentos de Eduardo, atendendo-se a que era um
esprito para o qual nada havia fora do culto da prpria personalidade.

Acreditando-se sinceramente
apaixonado e no podendo distinguir a natureza do amor e a natureza dos
desejos, Eduardo servia de algum modo aquele culto, armava  incredulidade; mas
o assombro da novidade, os comentrios, a f que comearia a entrar nos
espritos e que se robusteceria quando ele pudesse passar do estado de solteiro
para o de casado, tudo isto eram os aguilhes com o que o seu amor-prprio se
sentia brioso e compelido a prosseguir na conquista.

Sara veio complicar as coisas no
que dizia respeito ao casamento de Eduardo; e por esse lado afastou-o do alvo a
que pretendia chegar; mas se o afastou, no foi seno para dar lugar a nova e
maior extravagncia, essa do amor por duas mulheres, a donzela e a viva, na
mesma intensidade e no mesmo grau.

Perguntar o leitor como  que um
homem de to bom senso como Pedro Eloy parecia to amigo de Eduardo. A resposta
est contida nas duas cartas que eu j li. Pedro Eloy, com um olhar de
filsofo, via que no era impossvel trazer Eduardo ao bom caminho. Os defeitos
morais podem levar a conseqncias grandes, mas com a austeridade da lio e da
prtica so suscetveis de desaparecer e tornar-se melhor o esprito em que
eles existem. Pedro Eloy tentava isto de longa data; e, como vemos, era um
santo e um filsofo. Tinha conseguido tudo quanto desejara? A este respeito o
procedimento de Eduardo desmente a submisso afetada da carta. Que alguma coisa
tivesse feito, acredita-se; mas no fez tudo, nem muito. Vejamos agora como
continuaram os dois episdios amorosos que Eduardo entretinha com tanto
cuidado.

Em casa de Maria Luiza, no dia
seguinte, foi Eduardo mal recebido. A viva mostrava uma frieza e uma
indiferena que no eram mais do que os vus com que se cobriam o despeito
contido e a dor sufocada.

A promessa no cumprida ligava-se
a outras faltas de Eduardo, e para um corao amante, sobretudo para um corao
como o de Maria Luiza, no eram essas faltas facilmente desculpveis.

Maria Luiza sentia naquilo um
desdm, um sintoma de resfriamento do amor, e pressentia no sei que ms novas
para o futuro.

Eduardo explicou-se como pde.
Alegou a doena de um amigo, acrescentando que pouco lhe importaria perder o
amigo por amor dela, mas que, instado por dois outros em tom imperativo, tivera
de ceder-lhes.

Maria Luiza acreditou ou fingiu
acreditar na desculpa. De um ou outro modo,  certo que ainda derramou algumas
lgrimas. No sei que haja algum que possa resistir s lgrimas de uma mulher.
Falo das lgrimas sinceras.  o que h mais poderoso para desarmar a clera ou
comover o egosmo.  como que um protesto de fraqueza; e resistir-lhes no  de
alma nobre, nem de conscincia elevada.

As lgrimas tiveram efeito, mas um
efeito excepcional; faltavam a Eduardo as qualidades delicadas para apreciar o
valor de uma lgrima sincera. Era o amor-prprio que se comprazia em ver chorar
aqueles olhos e comover-se aquela alma. Seguiram-se protestos descarados,
velhos respeitos, sem sentimento nem valor.

Dizia Maria Luiza, enxugando os
olhos:

 Vejo que me no ama; vejo que me
no compreende. Ah! se me compreendesse e amasse...

A isto respondeu Eduardo:

 O qu?... No a amo? Eu?! No
diga isso! mais que a vida... etc.

O leitor conhece o resto.

Enfim, a tempestade serenou.
Despontou um sorriso nos lbios de Maria Luiza, como um sinal de aliana.
Eduardo mostrou-se satisfeito com o desenlace e disse:

 V? A dor de a ver em lgrimas
retinha as minhas prprias. A alegria  mais expansiva; agora, que a vejo
alegre e me perdoa, sou eu quem chora!

Este rasgo tinha suas
dificuldades; a maior era que chorar sem lgrimas no convencia, e Eduardo
tinha os olhos secos como os do leitor, que ainda no teve, nesta histria,
motivo de chorar. Por isso tirou da algibeira um leno e levou aos olhos,
conservando-se algum tempo nessa posio.

Foi despertado por um pequeno
grito de exclamao de Maria Luiza. Tirou, ou antes, foi-lhe tirado o leno da
mo. Maria Luiza, depois de olhar para o leno, fitou os olhos em Eduardo, e
perguntou-lhe:

 Quem  esta Sara?

Eduardo estremeceu, olhou para o
leno, depois para Maria Luiza, depois para o teto.

  uma prima.

 Nunca me falou nela, disse Maria
Luiza.

 Isso que prova?  de uma prima.
Fui ontem visit-la e trouxe este leno. Est com cimes?

 No, respondeu a viva.

E entregou-lhe o leno.

Como o leitor adivinha, era o
leno de Sara, que marcava a pgina de Paulo e Virgnia.

Houve um silncio entre ambos.

Maria Luiza refletia:   bem
possvel que o leno seja da prima; por que no? Realmente, sou exigente
demais. Ele no parece mentir. Por que havia de mentir?

Depois levantou-se e disse
sorrindo a Eduardo:

 Vou tocar piano!

Eduardo levantou-se e foi
sentar-se ao p do piano. Ela comeou a preludiar e depois a cantar aquela
cano francesa to conhecida e que parecia adequada  situao.

Jai peur de croire en
toi.

Pourtant, malgr moi-mme,

Ah! je le sens, je taime,

Toi, toi,

Toi, le seul bien pour
moi!

Jai peur, car dans mon
coeur

Mon amre souffrance,

Toujours dans ton absence,

Vient fltrir mon bonheur!

Etc. etc.

Deixo ao leitor calcular quanta
paixo a bela viva empregou na execuo do canto. O prprio Eduardo pareceu um
tanto convencido.

Enfim, o dia passou-se sem maior
novidade no cu de amor de Maria Luiza. Dissipadas as primeiras dvidas, Maria
Luiza sentia-se feliz como dantes. Eduardo estava contente de si.

CAPTULO VI

Trs meses decorreram depois dos
fatos que acabo de contar. Durante esse tempo houve a reproduo das mesmas
visitas, alternadamente a Maria Luiza e a Sara.

Nem uma nem outra suspeitou nunca
a felicidade de Eduardo. O episdio do leno foi esquecido pela viva, em cujo
corao o amor crescia tanto como no de Sara, sem que entretanto o esprito de
Eduardo se apercebesse de que uma tal bigamia moral podia levar a srias
conseqncias.

Duas vezes, no espao dos trs
meses, Maria Luiza, em conversa com Eduardo, procurou encetar o assunto do
casamento. O silncio de Eduardo parecia-lhe timidez e a coitadinha cuidava
adiantar alguma coisa iniciando uma conversao a esse respeito.

Enganara-se.

Eduardo, mal pressentia que o
esprito de Maria Luiza se voltava para a igreja, mudava de assunto com to
rara habilidade que a prpria moa no percebia a trama.

Das apreenses s incertezas, das
incertezas ao desnimo, Maria Luiza no podia atinar, nem com a natureza do
amor de Eduardo, nem com os fins de sua paixo.

Quanto a Sara, sentia-se feliz e
nada ousava indagar nem saber. Aquele amor eram as primcias do seu corao.
Julgava-se uma Virgnia e pensava ter encontrado o seu Paulo! A pobre menina
no tinha nem o tato nem o contato do mundo; o tato para conhecer o esprito de
Eduardo, o contato para saber da opinio que faziam dele. Vivia isolada, no
meio de sua famlia, julgando o resto do mundo pela vida que levava e pelos
afagos sinceros que recebia.

No fim do tempo de que acima
falei, em uma quinta-feira, preparava-se Eduardo para um baile que dava o
conselheiro C... No sei por que motivo ou por que pretexto, Sara devia ir, e
Eduardo, cuja fome de amor por Maria Luiza j era conhecida, queria, coram
populo, mostrar a nova paixo ou, antes, a paixo concorrente da menina
Sara.

Preparava-se, disse eu, mas no
era bem isso, visto que eram apenas dez horas da manh. Preparava-se para
saborear as delcias que a admirao e a inveja lhe haviam de fornecer.

 No h dvida, pensava ele, sou
amado por aquelas duas mulheres. Ambas me querem; adoram-me ambas. Mas por que
motivo, eu, a quem tantas fortunas coube em sorte, estarei to orgulhoso com o
amor destas mulheres?  que as amo? No h dvida, amo-as; estremeo-as do
mesmo modo. Diga l o filsofo o que quiser, este duplo amor no  impossvel;
tanto no , que existe. Oh! se existe...

Eduardo fazia estas reflexes
contemplando os novelos de fumaa de um charuto havana. Tinha almoado bem e
fazia o quilo com aquele descanso dos homens
que no tm cuidado no que h de ser a refeio seguinte. Estava em uma
completa embriaguez dos sentidos.

Naquelas e em outras reflexes
estava, quando o criado lhe trouxe uma carta que o correio acabava de entregar.

Abriu-a e leu-a rapidamente. Era
de Pedro Eloy. Dizia o filsofo de Petrpolis:

Meu caro Eduardo,

Resolvi mandar-te novas minhas,
j que no me mandas as tuas. Esperei o que podia esperar. De duas uma: ou
esqueceste o velho amigo, ou continuas embriagado nessa fatal paixo dos
sentidos, dupla, segundo dizes e eu acredito.

Em qualquer caso, interessa-me
escrever-te.

Ah! Quem me dera ter-te agora no
meu chalet, preso, atado, amordaado, vendado, inofensivo, para descanso
da humanidade e para a felicidade do meu corao!

Estou certo que os meus
conselhos, o meu exemplo e at o meu olhar bastariam para dar-te aquela regra
de conduta, prpria dos homens que aspiram e tm o direito de aspirar.

Mas, enfim, deixemos lamrias e
falemos, conciso e preciso, do que importa saber.

Vou apostar que as tuas duas
paixes esto extintas, como j esto extintas as fogueiras que arderam no
ltimo So Joo. H de ser assim.  de natureza desses assomos sensuais irem
to sbito como aparecem.

Se no  assim, deixa que te
considere o mais infeliz dos homens. Dirs que no  assim que te parece. Com
efeito, aos espritos jovens, mais ou menos gastos, o futuro  nada, o presente
 tudo. No lhes falem do que pode ser conseqncia dos atos de hoje. O que
desejam  a satisfao dos prazeres, a realizao dos caprichos, sem cuidar no
desenlace das coisas, nem na lgica forada do crime.

Escrevi a palavra crime, e no
foi por engano.  preciso dizer-te a verdade nua e crua. Ocult-la,  ser de
algum modo cmplice nos teus atos, e eu no quero para mim semelhante papel.

Dizes que amas a essas duas
mulheres. Acreditem ou no acreditem,  certo que lhes fazes compreender a tua
paixo. Supe que elas te acreditem, e, por tuas maneiras e graas, consegues
convenc-las, e mais, fazeres-te amado.

O que resulta daqui? Resulta no
uma iludida, mas duas; porque, no amando nenhuma, e tendo a tua paixo mui
estreito limite, ambas se acham despojadas das iluses do futuro e da f que as
alimentava.

Que acontecer? Qual ser a
conseqncia desse desencanto? Sabes tu a profundeza das duas almas, a quem
iludes? Sabes de que sero capazes? Pressentes o fogo em que vais queimando as
mos?

Falo-te uma linguagem em vez de
outra; mas  a nica que podes ouvir agora. A que eu devera falar era a
linguagem do dever; em vez de indicar-te as conseqncias dos teus atos, eu
devera dizer simplesmente que os teus atos eram criminosos diante da moral eterna.
Mas far-me-ia ouvir?

Se, em vez dos magnficos cabelos
pretos que me adornam a cabea, e dos olhos vivssimos com que neste momento
olho para este papel, eu tivesse honradas cs e olhos moribundos, sei o que
dirias ao ler esta carta. Sou moo, como tu; sou apto, como tu, para as
paixes; mas h uma diferena: eu as domino, porque as paixes no so
invencveis, e s uma moral interesseira e egosta pode d-las como tais.
Tenho, portanto, alm do meu conselho, o meu exemplo.

Olha, por que no vens passar uns
dias comigo? Eu te prometo que comearei a cura do modo mais suave.

Se no vieres, sou eu que vou,
mas conforme a tua resposta. E repara bem: comigo  intil o disfarce. Falta-te
o talento de iludir a homens experimentados. Se mentires, eu c sei como te hei
de ler.

Em qualquer caso, escreve-me:
terei ao menos o prazer de ver letras de um amigo.

Ah! se compreendesses bem o valor
desta palavra!

Adeus. S prudente. O Esprito
Santo te ilumine.

Pedro Eloy.

O tom decisivo, a linguagem nua
desta carta no convenceram Eduardo. No direi que o no abalassem. Custou-lhe
engolir algumas expresses duras de Pedro Eloy. Mas o que era aquilo seno o
que ele prprio pedira?

Eduardo pensou na resposta. Devia
negar ou dizer a verdade? A preveno de Pedro Eloy quanto  veracidade dos
fatos indicara claramente que era intil a mentira. No havia seno isto: ou
dizer a verdade ou no escrever. Eduardo refletiu alguns minutos; resolveu
escrever dizendo a verdade, porm mais tarde.

Deitou a carta na secretria, e ia
sair quando lhe foi anunciada a visita de Silvrio.

Mandou entrar e da a pouco o
valente jogador de xadrez aparecia  porta, com ar risonho e gesto afetuoso.

Era a primeira vez que Silvrio
visitava Eduardo. Por isso, levou longos minutos a examinar e admirar a casa e
a moblia, no se escondendo para dizer o que achava de mais gosto ou de mais
delicado.

 Isto  propriamente uma casa de
solteiro, dizia ele; mas, ainda casando, no sei que haja muita mudana a fazer.
Basta substituir estes quadros...

 Que quadros? perguntou Eduardo.

 Estes, respondeu Silvrio
apontando para umas gravuras que pendiam na parede, representando cpias de
vrias esttuas clebres.

 No me dir por que, Sr.
Silvrio? perguntou Eduardo, atirando-se a uma cadeira de junco.

 No so prprias, respondeu
modestamente o antigo solicitador.

 Mas sabe o que representam esses
quadros?

 Pois no estou vendo?

Eduardo contentou-se em sorrir.

 Substitudos os quadros, creio
que no h mais nada, continuou Silvrio. Ah!... sim, ainda h.  retirar esta
caixa de fumo, estes cachimbos, estes charutos, enfim tudo quanto diz respeito
ao vcio de fumar.

 Isto , se eu casar devo
renunciar s obras-primas da arte e s obras-primas da indstria.

 Eu lhe digo. Sara no gosta de
fumo...

 Sara! disse Eduardo,
levantando-se da cadeira.

 Ah! l pronunciei o nome... No
precisa vexar-se, magano; j sabemos das suas artes... Fez-se amado!... Oh! e
muito! Pois  assim! Ela no gosta de fumo, no gosta nada, mesmo nada, nada!

Eduardo estava espantado com as
palavras de Silvrio. No atinava ainda com o fim daquilo. Viria sond-lo?
Viria repreend-lo? Na dvida, sentou-se vagarosamente na mesma cadeira e
esperou que o ex-solicitador continuasse.

Silvrio puxou outra cadeira e
sentou-se defronte de Eduardo.

 Pois, meu caro Eduardo,  como
lhe digo. Esto sabidas as suas travessuras. Sei que se amam com fervor e creio
que s um receio pueril e inexplicvel tem retardado, de sua parte, um pedido
que s pode ser aceito com o maior alvoroo.

Eduardo, ouvindo estas palavras,
calculou o pior; calculou que Silvrio era comissrio do pai de Sara. Em tal
caso, cumpria-lhe responder de modo que nada sacrificasse. Ia falar, mas
Silvrio continuou:

 No cuide, disse ele, que venho
aqui por inspirao de terceiro. Venho por minha prpria resoluo. Mal soube
do fato, corri a procur-lo.

 E como soube? perguntou Eduardo.

 Muito simplesmente, por boca de
Sara.

 Ah! ela contou...

 Contou tudo a mim e ao pai. Oh!
 um anjo aquela menina. Se visse a simplicidade com que ela referiu os
episdios do namoro, a franqueza com que se exprimiu no que tocava  paixo de
que estava dominada, finalmente a sinceridade com que acreditava no seu amor!
Era de fazer verter lgrimas... Oh!  um anjo... Ora diga-me; ter uma sobrinha
assim no  uma ventura? E ter, alm disso, um sobrinho como o senhor, no 
uma bem-aventurana? Que belos dias no passaremos! Ela reclinada em seu ombro,
e ns dois, em face um do outro, lutando palmo a palmo, peo a peo, uma
daquelas partidas que de um simples paisano se faz um general consumado!

Eduardo sorriu-se a estas palavras
de Silvrio. Depois, procurando dar  sua voz alguma comoo, respondeu:

  verdade que eu amo sua
sobrinha. Era impossvel v-la sem am-la. Contudo, foi-me difcil declarar-lhe
a minha paixo. Poderia parecer a exigncia de uma paga de um servio que eu
fiz como faria a outra qualquer pessoa.

 Oh!... interrompeu Silvrio.

Eduardo continuou:

 Amo-a, sim, e toda a minha
ventura seria poder cham-la minha mulher.

 Mas isso  o que h de mais
fcil.

 Sei. Se at agora no tenho dado
um passo para isto,  porque espero que se ultimem certos negcios...

 Mas que negcios?

 Certos negcios... No est
longe, posso afianar-lhe, e nem eu deixaria passar uma hora, apenas, sem
munir-me do competente consentimento dela, e do pai. Creio que j tenho o seu.

 Tem o de todos, disse Silvrio
em voz de Estentor.

 Muito bem! Vejo que a minha
felicidade  completa!

 Pois, senhor, no sei que
negcios sejam esses, mas creio que se no dependesse disso a deciso, j h
muito estaria a menina pedida e concludo o casamento.

 Ah! com certeza!

 No sabe que mulher leva...

 Sei.

  um serafim em alma e corpo.

Aqui comeou uma ode  beleza e 
candura de Sara, perfeitamente dividida em estrofes, antstrofes e epodos. Meia
hora depois, Silvrio saia de casa de Eduardo, depois de abra-lo e instar com
ele para que no deixasse passar a ocasio de uma fortuna.

E mal saa o ex-solicitador,
entrava um moleque de Maria Luiza com uma cartinha para Eduardo. Dizia a
cartinha:

Eduardo,  vou ao baile do
conselheiro C... Disseste-me que estavas convidado. No faltes...

Tua Maria Luiza

Eduardo ficou alguns momentos sem
pensar coisa alguma. Depois, relendo o bilhete, pde refletir sobre o caso. As
duas mulheres iam achar-se em presena. Poderiam no saber nada uma da outra, mas era possvel que um nada lhes derramasse a luz no esprito. Como evit-lo?

Eduardo pensou em no ir ao baile;
mas, alm do resultado que isso trazia, ocorreu-lhe que sua presena era at
necessria, visto ser j conhecido o seu amor por Maria Luiza e por Sara.

No comparecer ao baile era fazer
supor que a afeio por aquelas duas mulheres, descendo  condio dos afetos
comuns, tinha acabado como acabam os afetos comuns.

E depois, se alguma coisa pudesse
acontecer, no era melhor que ele l estivesse para desfazer uma impresso m
ou desmentir uma suspeita?

Tais razes e outras mais
decidiram Eduardo a afrontar as conseqncias de um encontro entre as duas
mulheres debaixo do mesmo teto.

Em conseqncia, preparou-se para
ir ao baile.

s nove horas da noite entrava ele
nos sales do conselheiro C..., meio receoso, meio tranqilo, em todo caso
orgulhoso com a circunstncia especial de achar-se diante das duas mulheres que
se tinham apaixonado por ele.

Depois de fazer os cumprimentos
devidos aos donos da casa, indagou Eduardo se as duas tinham j chegado ao
baile. Disseram-lhe que no. Com efeito, correu toda a casa sem encontrar
vestgios de nenhuma pessoa das duas famlias.

Em uma das viagens que fazia em
busca de Sara e Maria Luiza, Eduardo encontrou os dois amigos que tinham
aparecido no Rocio, no dia em que, acompanhado por mim e pelo leitor, fizera
uma visita  viva da Rua do Lavradio.

 Oh! tu por aqui! disse um deles.
 a primeira vez que apareces depois de tamanha ausncia... Bem-vindo sejas!...
Mas aposto que a viva est por c?

 No, respondeu secamente
Eduardo.

 No? Ento  que h de vir.
Muito bem... Esto mesmo uma corda e uma caamba.

 Disseram-me no outro dia, disse
o segundo moo, brincando com a corrente do relgio,  que tinhas uma segunda
namorada. No quis crer...

 Por que no quiseste crer?
perguntou Eduardo.

 Ora, porque de duas uma: ou no
amas deveras, e ento no ters duas, ters cem; ou amas deveras, e ento amar
a duas  absurdo.

 Absurdo! disse Eduardo.

 Pois no!

 No achas? perguntou o primeiro.

 No acho.  coisa muito
possvel.

 Aposto que amas realmente as
duas e deveras?

 Deixemos o terreno dos fatos.
Teoricamente, posso provar...

 Teoricamente, prova-se muita
coisa...

 Por exemplo...

 Por exemplo, prova-se que ests
corrigido, que mudaste de sistema de vida, enfim que s quase um santo; ora,
no h maior falsidade...

 Por qu? perguntou Eduardo meio
srio.

 Porque essa aparncia de vida
modesta e honesta desculpa a dureza do corao. s o mesmo. Ests mudando o
ponto de vista e os meios de ao.

Eduardo sorriu-se e perguntou,
pondo a mo no ombro de ambos:

 Dar-se- caso que vocs tambm
se tornassem filsofos?

 Filsofos como Epicuro. Somos o
que ramos dantes; somente, somos e dizemos que o somos. Tu s e dizes que no
s. Eis toda a diferena.

 Deveras? disse Eduardo.

  certo. Anda tomar um copo de
Xerez. Dizem que o conselheiro oferece desse vinho delicioso aos seus
convidados conhecedores. Olha que  Xerez;  o vinho de Francisco I, o
conhecedor de mulheres como tu, lembras-te? Souvent femme varie...

 Salta gaiato! disse alegremente
Eduardo apartando-se dos dois amigos.

 Anda c, disse um deles. Olha!

Apontando com a mo para a
escadaria que ficava prxima, chamou a ateno de Eduardo para duas senhoras
que entravam. Eram Maria Luiza e a me.

 Ah! disse Eduardo.

E voltando-se para os amigos:

 Adeus, at logo!

Os dois rapazes afastaram-se
rindo. Eduardo foi ao encontro das duas senhoras.

Maria Luiza estava radiante. Tinha
na verdade um porte de grandeza natural, e quando os seus olhos se voltaram em
roda dos que a cercavam parecia uma castel antiga contemplando os cavaleiros
preparados para as justas. Trazia um vestido de seda cor de violeta com enfeites
da mesma cor. Os cabelos, penteados  Stuart, moda ento muito em voga, faziam
realar um fio de prolas, cujo fecho de brilhantes em forma de estrela
ficava-lhe no meio da cabea. Trazia na mo um ramalhete de violetas. Quando
Maria Luiza entrou no salo, onde as mais belas toilettes chamavam a
ateno dos olhos masculinos e seus apndices,  as lunetas,  houve uma
espcie de rumor admirativo.

Todas as belezas foram um momento
esquecidas por aquela que entrava vestida com tanta simplicidade e to bom gosto.
Maria Luiza, com aquele instinto admirvel das mulheres, reparou no efeito que
produzia e no deixou de gozar amplamente o prazer que lhe dava a geral
admirao.

Os que a no conheciam indagavam
do seu nome e os que a conheciam respondiam aos interpelantes, repetindo-se s
vezes o nome de Eduardo como o senhor e possuidor daquele corao vivo.

Eduardo, orgulhoso e radiante,
olhava para todos do alto de seus olhos e da sua felicidade, com certo arzinho
de quem mofava dos outros por serem menos venturosos ou menos lestos.

Enfim, a vida do baile comeou.
Anunciou-se uma valsa. Eduardo e Maria Luiza tomaram lugar entre os valsistas.
Dentro de poucos minutos, pares retiravam-se para dar lugar  valsa doida,
entusiasta do moo e da viva.

Conversava eu um dia com um dos
meus amigos poetas, que a morte levou, um talento que todos admiravam, um
corao que muitos conheceram.

 No sei, dizia-me Casimiro de
Abreu, como se pode inventar a valsa, a melhor de todas as danas, para
dan-la em um salo diante de cem olhos. A valsa  realmente a mais graciosa,
a mais natural, a mais bela das danas, mas nenhum olho humano deve
presenci-la. Ento, os dois valsantes, que se amam, que vivem um pelo outro,
podem embriagar-se na valsa, viver, no a vida do mundo, mas a vida dos anjos,
a vida dos sonhos, a vida do cu!

 Casimiro, objetava eu, para dois
coraes que se amam, a multido no  isolamento? E quando um par se atira 
sala, aos primeiros compassos de uma valsa, no lhes desaparece tudo, no ficam
eles ss, ermos, confundidos?

Casimiro adorava a valsa. Todos
conhecem a bela poesia das Primaveras que traz este ttulo.

A minha objeo, no caso de
Eduardo e Maria Luiza, tinha meia aplicao ao fato: a viva corria nos braos
de Eduardo, e no meio dos cem olhos que os acompanhavam, como se estivesse em
um deserto. Esqueceu-lhe tudo por Eduardo. Mas este no. Lembrou-se, e muito,
que estava entre gente; calculava, adivinhava, redigia consigo mesmo os ditos,
as observaes, os olhares invejosos de toda aquela multido.

Foi exatamente no fim da valsa que
chegou a famlia de Almeida. Os rumores que sucederam  valsa de Eduardo e
Maria Luiza foram dobrados com a presena de Sara.

Com efeito, se Maria Luiza tinha
direito a excitar a admirao geral, no menos tinha a filha de Almeida.

Vestia de um modo simples e
elegante. Um vestido de seda cinzento-prola ocultava-lhe o corpo flexvel e
delgado. Os cabelos, penteados em ondas, no tinham outro enfeite mais que uma
rosa branca, presa do lado esquerdo. No seio, que ondulava pelo cansao e pela
comoo, fulgurava uma simples cruzinha de ouro, enfeite que Sara usava em
todas as solenidades, por ter-lhe sido dado por sua me.

Graas  vida retirada da famlia
de Sara, ningum ou muito pouca gente a conhecia. A dona da casa encarregou-se
das necessrias apresentaes.

Foram as duas proclamadas as
rainhas do baile. Os cavalheiros dividiram-se em partidos, uns preferiam Maria
Luiza, em quem viam a expresso mais completa da mulher; outros davam a palma a
Sara, cuja beleza virginal e anglica inspirava idias puramente do cu. Para
uns, Maria Luiza era a esttua descida do pedestal; para outros, Sara era um
anjo foragido da habitao divina.

No meio de to divididas opinies,
Eduardo era o nico que as admitia ambas, e por ambas se bateria se necessrio
fosse. Eduardo foi procurar Almeida, de cuja demora indagou com o maior
interesse, ouvindo alis as razes dadas por aquele com a maior indiferena.
Eduardo pde falar a Sara, f-lo com todo o interesse de um amante saudoso. A
moa parecia triste. Vinha imaginando encontrar Eduardo aflito com a sua
ausncia e achou-o no turbilho de uma valsa, to alegre ou mais que os outros.
Mas este ressentimento no corao da moa era passageiro. Nem ela procurava
indagar mais nada. Sabia ela acaso que Eduardo pudesse valsar com outra com a
mesma efuso com que valsaria com ela? A pobre menina notava o fato, mas no
tirava dele nenhum corolrio. E depois, as maneiras de Eduardo convenciam
tanto! No fim de dez minutos de conversao, Sara esquecera tudo, e estava
feliz. Como Maria Luiza, na valsa, deixou-se ir na embriaguez da conversao e
s se lembrou de que estava diante do homem que era escolhido pelo seu corao.
Tinha uma singeleza adorvel que Eduardo no sabia admirar, nem como amante,
nem como poeta.

No ocuparei o esprito do leitor
com a narrao do que se passou durante a noite do baile, e corro j ao melhor
episdio, ao que importa saber em nossa histria. Bem depressa se espalhou que
as duas raparigas amavam Eduardo e que este parecia am-las do mesmo modo. Aos
que o interrogavam Eduardo respondia com o ar de homem que nega aquilo de que
deseja convencer a todos.

Chegou a passear com ambas, uma em
cada brao, conversando simbolicamente com ambas sem que elas se apercebessem
de nada. Enfim, seria uma hora da noite, j o baile chegara ao ponto
culminante, em que as cerimnias, sem desaparecerem de todo, do lugar a uma
respeitosa intimidade.

Sara e Maria Luiza, ou por
simpatia, ou por fora da fatalidade, davam-se j como duas amigas. O
conselheiro convidou Sara para cantar alguma coisa. Sara estava cansada e pediu
um quarto de hora. Durante este tempo retirou-se para o gabinete que servia de toilette
das senhoras. Maria Luiza acompanhou-a.

 Precisava bem de um momento de
descanso, disse Maria Luiza. Como est fatigada, meu Deus!

 A falta de hbito, respondeu
Sara. Vivo sempre metida dentro de casa...

 Pois faz mal... As flores
fizeram-se para o ar livre.

Sara sorriu.

 Diga-me. Isto  entre moas,
pode dizer-se. De quantos rapazes tem visto hoje, nenhum lhe faz palpitar o
corao?

A moa olhou para Maria Luiza e
respondeu:

 Oh! sim! Um!

 Ainda bem!

 Por que se alegrou tanto?

 Por nada...

 Oh!

 Porque, se j comea a amar,
deve compreender-me... Tambm eu amo e muito!...

 Amar  to bom, no ? disse
Sara, com uma adorvel singeleza.

 Oh! se ! suspirou Maria Luiza.

Calaram-se ambas. No fim de alguns
minutos de contemplao recproca, as duas deitavam-se nos braos uma da outra.

  o mais belo, mais gentil de
quantos homens esto hoje nesta sala... Oh! eu excetuo o outro...

Dizendo estas palavras Maria Luiza
deu um beijo em Sara.

Sara respondeu.

 No sei se este  o mais belo e
o mais gentil, sei que o amo. Se o no amasse, devia estim-lo, porque me
salvou a vida vai para quatro meses...

 Ah! temos romance?

 No  romance,  realidade.

 E casam-se?

 No sei, mas no penso nisso. Eu
s fao o que ele quiser. Meu amor  um amor que no manda, nem eu creio que
haja outros.

Maria Luiza estava pensativa.

Sara continuou:

 Estar na sala?

 Quem? O meu?

 Sim.

 Est, creio eu.

E Maria Luiza foi  porta. Abriu
uma fresta entre as cortinas e procurou Eduardo com os olhos.

 L est ele... Olhe!

 Onde est? perguntou Sara.

 Ali encostado ao piano, do lado
de l, brinca com a luneta. V?

Sara, com os olhos colados 
fresta, acompanhava a indicao de Maria Luiza.

Repentinamente deram as duas um
grito.

Sara tinha reconhecido Eduardo;
Maria Luiza viu na mo de Sara um leno igual, com igual firma, ao que
surpreendera na mo de Eduardo. As duas mulheres olharam-se, mudas, alguns
segundos. Sara levou a mo ao peito. Parecia que se lhe quebrava o corao.
Maria Luiza, com o leno nos olhos, foi cair sobre o sof, dizendo:

 Oh! que fatalidade!

Sara, depois de alguns segundos,
foi procurar uma cadeira e sentou-se. No pde conter-se; as lgrimas
rebentaram-lhe dos olhos. Houve um grande silncio entre ambas. Fora batiam
palmas ao pianista que acabava de entusiasmar o auditrio tocando um coro de D.
Juan, de Mozart.

Maria Luiza foi a primeira que se
levantou e falou a Sara.

 Faz bem em chorar, disse ela.
Era inocente, acreditou no amor dele. Sei quanto sofre pelo que eu mesma sofro.
Foi uma fatalidade. Ambas pnhamos nele a nossa esperana com a nossa alma, ele
enganava as coitadas de ns!

Sara no respondeu. Estava plida
como a morte. Maria Luiza pensou que fosse desmaiar. Foi buscar gua-de-colnia
e prestou-lhe os mais fraternais cuidados.

 Obrigada, no  nada, passou,
disse Sara.

Depois, enxugou os olhos e
levantou-se.

Na sala, procurava-se a filha de
Almeida para cantar. A dona da casa dirigiu-se ao gabinete.

 A vem gente, disse Maria Luiza,
vm procur-la para cantar. Deve ir. Devemos sair juntas, para que nada
desconfiem.

Abriram-se as cortinas e viu-se
sarem as duas moas, plidas como duas esttuas, com os olhos vermelhos. Sara
mal podia ter-se em p. Obrigada a cumprir a promessa, Sara cantou. Mas que
canto! No eram notas, eram palavras dalma que saam da menina desiludida e
infeliz.

Quando acabou, corriam-lhe as
lgrimas.

Ao p dela, Maria Luiza a
acompanhava no sentimento e nas lgrimas silenciosas.

As duas infelizes saram da sala
no meio de aplausos comovidos.

CAPTULO VII

Passaram-se quinze dias depois das
cenas que acabo de contar.

No dia seguinte ao do baile,
Eduardo foi visitar Maria Luiza; encontrou-a na sala com a me. Eduardo, como
sempre, entrou com o sorriso nos lbios. Maria Luiza estava magra e tinha os
olhos pisados. Ia perguntar o motivo daquele abatimento, quando a viva,
dizendo-se incomodada, pediu licena e retirou-se.

Eduardo esteve meia hora na sala
conversando com a me de Maria Luiza, que lhe respondia por monosslabos.
Finalmente, despediu-se e saiu.

Estava humilhado.

 Que aconteceria? perguntava ele.
Ontem saram do baile sem me falarem. Hoje tratam-me deste modo. Que haver?

De reflexo em reflexo, de
recordao em recordao, Eduardo pde atinar com o motivo do desdm que
recebera em casa de Maria Luiza.

Lembrou-se de ter visto a viva e
a donzela sarem do toilette, lvidas e abatidas. Lembrou-se das
lgrimas derramadas durante o canto no piano. Descobriu tudo.

 Que diabo! pensava ele. Como hei
de desenlaar esta meada? Convenc-las  impossvel; o melhor  iludir a
questo. Mas como? Irei a Sara... Mas terei l a mesma recepo? Oh!  demais!
No! isso no! Maria Luiza no pode recusar uma carta minha.  isto.
Escrevo-lhe. No papel posso dizer mais facilmente aquilo que convier; tenho a
faculdade de rabiscar, alterar, adoar, enfeitar, como me parecer, as
palavras...

Eduardo entrou em casa disposto a
escrever trs cartas. Uma  me da viva, endereando-lhe outra para a filha,
de cujo amor ela estava ciente. A terceira carta era a Pedro Eloy, contando-lhe
a ocorrncia e pedindo-lhe um conselho. Ao mesmo tempo respondia  carta
anterior.

O contedo das duas primeiras era
uma srie de frases ocas, habilmente grupadas, em que Eduardo protestava o mais respeitoso amor por Maria Luiza; quanto ao episdio do baile e
ao amor de Sara, foi o mais sucinto que pde, dando uma desastrada explicao
ao sentimento alegado pela filha de Almeida.

Era, dizia ele, um servio que
prestava a uma menina, cujo corao inexperiente se deixara apaixonar por ele.
No queria desengan-la; entretinha, por sua aquiescncia, um amor sem alcance.

Mandou as cartas, mas nenhuma
resposta obteve nesse dia nem nos dias seguintes. Desesperou. Passava muitas
vezes em frente da casa de Maria Luiza; mas no via ningum; as janelas
estavam, as mais das vezes, cerradas.

Quanto a Sara, Eduardo com o
receio de sofrer a mesma recepo, no foi l, esperando uma visita do pai ou
do tio Silvrio. Embalde esperou. Era demasiado o desdm para que um corao
vaidoso como o de Eduardo se resignasse. Doa-lhe o desdm, ardiam-lhe desejos
de vingana. A vaidade, que at ali se empavesara com o amor das duas mulheres,
doa-se, agora, ressentia-se, pedia desforra. Ora, a vaidade quando domina o
corao do homem (e na maioria dos homens acontece assim) no deixa atender a
nenhum sentimento mais, a nenhuma razo de justia.

Era, assim, atado a esta fogueira
interior, como Eurico atado ao prprio cadver, que Eduardo passava os dias e
as horas, sem ver nem procurar ningum.

Quanto  carta escrita a Pedro
Eloy, resume-se em pouco. Ei-la:

Meu amigo,

Turba-se o horizonte. Aconteceu o
que previas e eu no previa. As duas sabem hoje do meu amor por ambas.
Zangaram-se! Era bom se fosse s isso. Creio que adoeceram. Tamanho desencanto
no as podia conservar no estado normal.

E isto tudo por um diabo, como
eu. Diabo, sim; no digo brincando; mas um diabo compassivo que ainda as estima
e deplora.

Que queres? Sou feito assim.
Tenho um corao evanglico; e no posso ver sofrer, e sobretudo sofrer por
minha causa.

Foi o caso. No sei que
fatalidade as levou ambas ao baile do conselheiro C... A, deram-se,
comunicaram uma  outra os seus sentimentos e naturalmente foram alm do que
deviam ir, descobrindo a coroa. A coroa sou eu. E demitiram-se os meus
ministros...

Falemos srio; penalizam-me estas
ocorrncias.

So duas mulheres dignas do
respeito e do amor que eu lhes votava. Tenho a culpa de que as adorasse do
mesmo modo e no mesmo grau? Se h culpa nisto,  da natureza.

O que  certo  que no me querem
receber e curvam-se a uma dor que me lisonjeia, mas que me entristece.

Que devo fazer? Como reconciliar
estes dois sentimentos e o meu orgulho, porque enfim eu no quero esquecer, no
meio de tais fatalidades, que recebi do bero um dever de zelar a minha prpria
dignidade.

Aconselha-me e acredita-me.

Teu Eduardo.

Esta carta, como as outras, no
teve resposta.

Vejamos agora o que se passou nas
duas mulheres a quem Eduardo bafejara com o hlito da desgraa.

Maria Luiza chorou muito durante o
resto da noite do baile.

E quando a manh rompeu, Maria
Luiza estava  janela, chorando ainda em silncio. Sentia-se duas vezes viva; legal e moralmente. Os sonhos do futuro, as esperanas
de sua felicidade sem igual, fora tudo um castelo de cartas que desabou ao
sopro de uma criana.

Era dia claro. Maria Luiza julgou
dever curtir a sua dor e mostrou-se alegre.

No queria magoar a me. Banhou os
olhos o mais que pde e deixou o quarto. Sua me a esperava para almoar.
Vendo-a triste, perguntou-lhe se estava doente. Respondeu que se sentia
fatigada. A me no insistiu. Durante o almoo, a boa velha, para alegrar a
filha, e distra-la dos incmodos que dizia ter, falou-lhe de Eduardo, das
comoes que ambos deviam ter tido na noite anterior, dos projetos do futuro.

O assunto no era prprio para
alegrar Maria Luiza. Respondendo por monosslabos, e interrompendo a conversa
com assuntos diferentes, Maria Luiza procurava desviar o esprito de sua me.
Enfim, algumas vezes no podia deixar de enxugar furtivamente uma lgrima. A
velha reparou e perguntou-lhe por que chorava.

 Por nada, respondeu a viva.

 No  possvel.

 Por nada, afirmo-lhe.

 No  possvel. Ah! no ests
cansada, ests triste; tens alguma coisa que te faz sofrer. Dize o que ... No
sou tua me?

 Minha me!

E Maria Luiza escondeu o rosto no
seio da velha.

 Vamos l! disse esta. O que ?

 Ah! tenho vergonha...

 Vergonha de qu?

 Eduardo no me ama!

 Ah!

 No me ama, porque ama a outra.

 Quem?

 Sara, aquela que cantou ontem,
ao p de mim, e que a todos comoveu. Ambas nos confessamos.

Maria Luiza repetiu tudo quanto
acontecera no baile. A pobre me estava comovida, triste, desesperada, ouvindo
a narrao que Maria Luiza lhe fazia entre lgrimas de desespero e de dor.

Mas, que podia fazer a me da
pobre moa? Uma s coisa: dar-lhe uma consolao maternal e auxili-la em
esquecer o ingrato. Quando veio a carta de Eduardo achou ela que devia responder,
sobretudo porque nos termos da carta parecia estar provada a inocncia de
Eduardo. Maria Luiza foi inflexvel; disse que no se devia dar resposta
alguma. Ah!  que naquele corao, ao lado de um grande amor e de um grande
desespero, havia um grande orgulho!

Quanto a Sara, eis o que passara.
No temos necessidade de ir at  casa de Almeida; o tio Silvrio nos instruir
de tudo.

Um dia, de tarde, justamente
quinze dias depois do baile, Eduardo estava  janela de sua casa quando viu
passar o tio de Sara.

Chamou-o e f-lo subir, apesar dos
protestos de ir apressado.

 Ora tinha que ver! disse Eduardo
indo receber Silvrio. No v que o deixava passar sem dar dois dedos de
conversa!...

 Mas  que tenho pressa.

 Qual pressa! Sente-se um pouco. Em
descansando, ganha novas foras, e ei-lo que a vai mais lesto ao seu destino.

 Vou para casa, disse Silvrio
aceitando a cadeira que Eduardo lhe oferecia, e fazendo uma careta  parte como
homem contrariado.

 Toda a famlia est boa?

 Est.

  o que se quer. Vai ento tudo
bem?...

 Tudo, no  exato...

 Pois h algum doente?

 H.

 Quem ?

 Minha sobrinha...

 Deveras?

  verdade.

 Que doena?

 Eu sei! Adoeceu no dia seguinte ao
do baile; veio um mdico e a primeira coisa que fez foi obrig-la a
conservar-se de cama.

 Depois?

 Depois, examinou-a e deu no sei
que nome  molstia, mas afirmou que no era aquela a principal.

 Ento h outra?

 H.

 Qual ?

 Diz o mdico que  uma doena
moral. L levaram tempo imenso a consult-lo. Ela nada disse, isto , no sei;
no sei; no sei; s sei que aquilo  a nossa desgraa, porque, se ela nos
morre,  como se nos fosse a vida, a alegria da casa... Adeus, Sr. Eduardo, no
posso demorar.

Eduardo ouvira estas palavras com
certa comoo. Quando Silvrio se levantou e se preparava para sair, Eduardo
balbuciou algumas palavras. Era um anjo que o inspirava; ia talvez sanar tudo
com uma promessa.

Em um instante viu ele que se
constitua o remdio supremo para a enfermidade moral de Sara. Mas, enfim, o
ente gredin, que, como diz A. Karr, todo o homem tem em si, desfez a
obra do ente honesto, Eduardo estendeu a mo a Silvrio e pediu que o
recomendasse  famlia.

Silvrio desceu cabisbaixo e
triste as escadas da casa de Eduardo. Quando se viu s, Eduardo refletiu na
situao em que se achava. Das duas mulheres que ele requestara to seriamente
e cujas esperanas honestas alimentara com tanta perseverana, uma tinha morta
a alma, a outra tinha morta a alma e o corpo. Em seu corao, travou-se uma
grande luta, entre o remorso e a vaidade. O dever dizia-lhe que reparasse o
maior mal, se no podia reparar todos os males, mas um sentimento de
amor-prprio, vo, cruel, imoral, retinha-lhe os sentimentos bons e os impulsos
generosos.

Nesta luta esteve toda a noite.
Quis dormir, no pde; mal fechava os olhos surgia-lhe o espectro de Sara
pedindo contas do corao que iludira e da vida que estrangulara.

Enfim, sobre a madrugada pde
conciliar o sono. Eram nove horas, quando se levantou. Quem olhasse para ele,
da a meia hora, reconheceria que o sentimento do dever triunfara, ao menos
momentaneamente.

Eduardo vestiu-se e saiu. Tomou um
tlburi e dirigiu-se para a ponte das barcas.

Destinava-se a S. Domingos. Ia
decidido a falar  moa, mesmo  custa do seu amor-prprio.

A demora do vapor o contrariou.
Tardava-lhe ver-se junto do leito da moribunda para dizer-lhe:

 Vive!

Ora, a moribunda estava realmente
moribunda.

Mas quem a visse no suporia que a
morte se avizinhava tanto dela. Tinha o rosto e os olhos serenos. Sorria mesmo
ao pai, ao irmo e ao tio, mas com o sorriso de quem entrev as glrias eternas
e j as compara s glrias perecveis desta vida.

O cortinado branco do leito
parecia que amparava da luz um ente que chegava ao mundo e no um ente que se
ia dele, desgostoso e desiludido.

Em uma pequena mesa ao p da cama
havia um copo dgua, uma cruz de ouro, a do baile, e uma rosa branca seca.
Esta rosa era a que Eduardo dera a Sara em troca de outra  porta do jardim.
Sara, de tempos em tempos, voltava os olhos para a flor, ficava muda e entrava
a contempl-la. Nessas ocasies, o pai da doente procurava distra-la com algum
outro objeto, temendo que na contemplao da flor se lhe avivassem as
lembranas do amor que a matava.

Foi em uma dessas ocasies, que
Almeida se lembrou de uma notcia e disse a Sara:

 Minha filha, vais ter uma
visita.

 Quem ?

 Adivinha...

 No sei, disse Sara sorrindo.

 D. Maria Luiza.

Este nome fez estremecer Sara. O
pai dava-lhe maior sofrimento procurando tirar-lhe outro menor. Com efeito, a
flor lembrava a Sara o tempo feliz dos seus amores; o nome de Maria Luiza
lembrava-lhe a traio de Eduardo. Reconhecendo o que fizera, Almeida procurou
diminuir o efeito.

 Vers como ela soube
resignar-se... Espero que o exemplo te sirva, e que das suas palavras colhas
uma lio e um conforto, e finalmente que vivas... Ouviste? que vivas!

Sara sorriu-se.

Houve um silncio.

Depois, passando a mo pela
cabea, pediu gua.

Deram-lha.

 Ests melhor, no, Sara?
perguntou Almeida. Olha,  preciso,  preciso; fazes anos amanh. Quero que
presidas  mesa... sim?

 Estou melhor, estou, meu pai.
Mas, diga-me, como sabe da visita de Maria Luiza?

 Passei ontem l e subi. No
sabia ainda que estavas doente. Quando lho disse, ficou muito pesarosa. Depois,
disse-me que viria c fazer-te uma visita.

O resto do dia passou-se sem
novidade. Sara no saa daquela serenidade, mas realmente no era para a vida,
era para a morte que caminhava.

Enfim, no dia seguinte, isto , no
dia em que Eduardo resolvera ir salvar a moa, aparecem,  porta de Almeida,
Maria Luiza com sua me.

Sara recebeu a sua rival, ou antes
a sua co-mrtir, como se fora uma irm querida, por quem se espera para morrer.
Maria Luiza chorou muito; e, por uma inverso dolorosa dos papis, era Sara
quem consolava a viva.

 Mas  por ti que eu choro, meu anjo!
dizia Maria Luiza.

 Por mim?

 Sim, por ti, que no tens
coragem, que te quebraste ao primeiro embate da vida...

 No digas isso... Eu estou
boa... Nada tenho... Sofri,  certo; mas passou... Olha, fao hoje anos... Hs
de jantar comigo... Vou levantar-me logo... Vers... Vers... Senta-te...

Maria Luiza olhou com olhos rasos
de lgrimas para a pobre moa.

 Ainda bem, minha filha, disse
Almeida procurando sorrir, ainda bem que te mostras assim. Isso  que eu quero.
No te importes com os males da vida; todos sofrem; mas faze como fazem muitos:
fica sobranceira a tudo.

 Dezessete anos! murmurava a
viva...  a aurora da vida...

As duas conversaram largamente. A
me de Maria Luiza e o pai de Sara deixaram o quarto; as duas podiam folgadamente
falar do que as tornara infelizes. Era assim mais fcil a Maria Luiza inspirar
a Sara os sentimentos de coragem e sobranceria a que ela prpria devera no ter
sucumbido. Chegou mesmo a aventurar uma idia de vingana com satisfao do
corao ofendido.

Mas aqueles dois coraes, que
concordavam em um ponto, no se entendiam naquele.

Sara no era feita para resistir a
uma comoo como a que a prostrara. Ouvia sorrindo Maria Luiza, mas abanava a
cabea a tudo. E quando a viva, para decidi-la mais, lembrava-lhe que poderia
sucumbir deveras, Sara respondia que estava perfeitamente boa e no podia
inspirar cuidados a ningum. Esta resistncia aos que a chamavam  vida comovia
ainda mais. S havia um meio, talvez, de salvar Sara: era a presena e o amor
de Eduardo.

Esta idia passou rpida pelo
esprito de Maria Luiza. A nobre mulher no discutiu consigo nem o ato, nem as
conseqncias, nem o seu corao. Adotou o pensamento como se fora inspirao
do cu.

Maria Luiza amava realmente
Eduardo. Desiludida, sofreu muito, e s deveu ao orgulho e  energia do seu
corao no ter, como Sara, sucumbido ao desespero. Mas os grandes sentimentos
do seu corao no eram s o do amor e o do cime. O ato que ia praticar era de
uma alma nobre, educada no culto do dever e do sacrifcio. Naquele instante,
ela via diante de si uma pobre menina que sofria, e morria por aquele mesmo que
a fizera sofrer. Compreendia bem a medida desse sofrimento. A viva procurou
sondar o esprito da enferma:

 Ora, dize-me, se visses Eduardo,
o que farias?

 Se o visse?  impossvel.

 Impossvel, por qu?

  impossvel.

 Ora, no digas isso. Mas se o
visses, se ele viesse agora, hoje, e te dissesse: Vive?

 No vem e no diz...

 Por qu?

 Por que no me ama.

 Quem sabe?

 Oh! Nem me ama, nem te ama.

 S por isso?

 E tambm porque ns o amamos.

 Eu no.

 No?

 No.

A moa abanou a cabea murmurando:

  intil.

Maria Luiza procurou meio de escrever
a Eduardo; e conseguiu traar  pressa, em um quarto de papel, as seguintes
palavras:

Quer o perdo que me pede? Sara
est s portas da morte; venha, diga-lhe que a ama, pea-a e case daqui a um
ms. Est perdoado.

Maria Luiza.

O portador que levou este bilhete
encontrou Eduardo na ponte das barcas da corte.

Eduardo, ao ler o bilhete da
viva, sentiu-se humilhado. Enganara duas mulheres; uma morria de pesar, outra
pedia-lhe que a salvasse, sacrificando-se; entre aquelas nobres almas, a alma
de Eduardo sentia-se abatida. No se deteve mais; tomou a barca, que partiu
dali a cinco minutos.

Logo depois de partir o portador
do bilhete, entrou o mdico na casa da doente. Achou-a muito pior, e disse-o
francamente  famlia.

Que fazer? Tudo o que foi preciso,
fez-se. Maria Luiza, ajoelhada diante de um oratrio, pedia a Deus duas coisas:
que prolongasse a vida de Sara por algumas horas e apressasse a chegada de
Eduardo.

Foi intil. Sobreveio uma crise 
enferma, e aps a crise o mdico desesperou.

Entretanto, Sara, com o sorriso
nos lbios e o olhar sereno, dizia alguma palavra em voz j muito fraca, mas
com a segurana de quem est certa de ir para uma morada melhor.

Maria Luiza pedia-lhe que vivesse;
dizia-lhe que Eduardo no tardaria; o pai a um canto no tinha foras para ver,
para pedir, nem chorar; estava atnito.

 No, dizia ela, ele no vem. E
que venha, sei que no me ama, e sem me amar no o quero.

O mdico fez vir o sacerdote.

Quando este chegou, Sara, com os olhos
fitos, como que vendo j abrir-se-lhe o cu, pediu a Maria Luiza que lhe desse
a rosa seca que estava sobre a mesa.

Maria Luiza deu-lha.

 Desejo esta flor, porque me
lembra o amor que eu supunha ter achado;  o homem de ontem que eu choro!  por
ele que morro; o de hoje no  seno a sepultura do de outrora, que morreu.

Houve um silncio.

Almeida chegou-se  filha, a fim
de prepar-la para a confisso.

Sara estremeceu.

Depois, voltando-se para Almeida,
disse:

 Meu pai, abenoe-me. E tu
tambm, minha irm.

Depois, estava no cu.

CAPTULO VIII

Meia hora depois entrava Eduardo 
porta de Almeida. Viu tudo fechado; correu-lhe um calafrio por todo o corpo. Ser
tarde? perguntava ele. Vacilou; entraria ou no? Se entrasse e achasse tudo
perdido? Enfim, fazendo um esforo, Eduardo passou o porto que se achava
perto. Atravessou a alameda das roseiras, onde pela primeira vez falara de amor
 pobre Sara. O remorso comeou ento a aguilho-lo. Aquele silncio, aquele ar
fnebre, que a casa e o jardim respiravam, incutiam-lhe certo terror. Chegou 
porta e bateu.

Veio abri-la o pai de Sara.

 Sara? perguntou ele.

 Sara morreu!

O moo tornou-se lvido. Sentiu
uma vertigem; os olhos se lhe escureceram, ia cair. Segurou-se a uma cadeira.

O pai de Sara olhava fixo para
Eduardo. Este no podia suportar-lhe o olhar, e baixava os olhos. Naquele
momento, o pai de Sara era o remorso vivo.

Depois de um pequeno silncio,
Almeida falou:

 Era intil t-la salvado do mar
h quatro meses, para mat-la agora. Se tal devia ser o desenlace destas
coisas, melhor fora que a minha pobre filha tivesse sucumbido  primeira vez;
iria assim para o outro mundo sem conhecer as misrias deste...

 Oh! basta! interrompeu Eduardo.
Sei quanto sou culpado, no aumente a minha angstia com as suas exprobraes,
alis justas.

O velho sorriu-se tristemente,
como quem ouvia duvidoso as palavras do outro.

Depois:

 Vem dar-me os psames, no ?
continuou ele; muito obrigado. E foi sentar se no sof, derramando silenciosas
lgrimas.

Eduardo esteve alguns momentos
contemplando aquela dor muda e respeitvel. Depois, dirigiu os olhos para a
porta do quarto morturio. Ouviu que partiam de dentro soluos abafados.
Dirigiu-se para a porta.

Maria Luiza, ajoelhada aos ps da
cama, contemplava, chorando, o cadver de Sara. A morta parecia sorrir ainda:
dissera-se que sonhava um sonho cor-de-rosa.

Eduardo sentiu rebentarem-lhe dos
olhos as lgrimas. Ajoelhou-se silenciosamente ao p da porta e olhou para
Maria Luiza.

No lhe viu o rosto, mas
conheceu-a.

Durou muitos minutos esta cena
muda. Finalmente, Eduardo levantou-se e dirigiu-se para o leito da finada. A,
com os olhos rasos de lgrimas, disse para o cadver:

 Perdoa-me! Adeus!

E saiu da casa, louco,
desesperado.

CAPTULO IX

Eduardo andou muitas horas sem
saber de si. Acompanhava-o o espectro de Sara. Ouvia-lhe as palavras; parecia
v-la morrer esperando embalde por ele.

De um triste jogo, em que a sua
vaidade entrara por muito, resultaram to funestas conseqncias. Sua dor era
sincera; seu terror verdadeiro. At ali, de seus caprichos dom-juanescos s
resultaram, quando muito, desgostos passageiros que o tempo ou outras
circunstncias atenuavam e faziam desaparecer. Mas no dia em que se deitara a
amar deveras, ou antes, no dia em que desejou amar, as vtimas do seu capricho
sucumbiram. Via-se autor de uma morte; e os espritos da ordem de Eduardo podem
cometer todas as aes covardes, mas no resistem a um espetculo destes. Fazer
perder-se uma donzela ou separar um casal,  uma faanha mais ou menos
celebrada, mais ou menos aceita; mas impelir para a sepultura um ente a quem se
enganou, eis o que faz estremecer os audazes. Eduardo, preso de remorso,
apreciava toda a extenso do abismo em que cara.

Os sentimentos vivos da dor e do
remorso, as idias tumulturias e cruis, encheram por longo tempo o esprito e
o corao de Eduardo. Ora parecia-lhe dever fugir  vida e ir alcanar a
donzela no caminho da eternidade, para pedir-lhe perdo. Ora julgava que devia
ficar neste mundo, para purgar em longo sofrimento o crime que cometera.

Nesta incerteza, neste suplcio
moral, andou at que se achou diante do mar. Sentou-se pensativo em uma pedra.
Era quase noite. Muita gente que o viu sup-lo doido.

Estava ali, havia j alguns longos
minutos, quando um homem parou e procurou descobrir-lhe as feies. Eduardo
tinha o rosto fechado nas mos. Depois de alguns instantes o homem exclamou:

 Eduardo!

 Que ? disse o moo,
estremecendo.

Voltou e reconheceu o
interlocutor:

 Pedro Eloy!

Eduardo caiu-lhe nos braos.

Depois de alguns momentos, Pedro
Eloy perguntou:

 Que h?

 Sara morreu!

 A donzela?

 Sim!

 Desgraado!  obra tua!

 Ah! no aumentes a minha dor e o
meu terror, bem sei o que fiz; vejo a enormidade do meu crime.

E o moo derramava sinceras
lgrimas.

Pedro Eloy continuou:

 Se tivesses atendido aos meus
conselhos, tinhas poupado este desgosto e este remorso. Bem te dizia eu que no
iriam a bons resultados as tuas paixes simuladas. No quiseste crer, ou antes
a tua vaidade recusou-se a crer. Enfim, v se eu tinha razo!

Houve um silncio entre ambos.

 Est acabado tudo; agora s
resta uma coisa;  seres o carrasco de ti mesmo, como aquele pai do teatro
latino. Eia! se alguma coisa pode agora levantar-te aos olhos do mundo e aos
teus  a volta aos deveres morais. Sirva-te a morte de Sara, tua vtima, como
ponto de partida para a tua regenerao.

E dizendo isto, Pedro Eloy
arrastou Eduardo.

Pedro Eloy, recebendo em
Petrpolis a carta de Eduardo, receou pelos resultados dos acontecimentos
narrados nesta carta. Logo que pde ps-se a caminho para ver se ainda podia
fazer alguma coisa. Chegando  cidade foi procurar Eduardo; disseram lhe que
partira para S. Domingos.

Como saberia ele a casa de Sara?
Ningum podia dizer-lhe em casa de Eduardo. Apesar de tudo, tomou o caminho da
barca de S. Domingos e dirigiu-se para l. Foi quando encontrou Eduardo.

No stimo dia ao da morte de Sara,
Pedro Eloy conseguiu levar Eduardo para Petrpolis. Eduardo no quis deixar de
ir orar pela vtima, a um canto da igreja, na missa do stimo dia. Todos viram
o moo ajoelhado, com o resto coberto; foi o primeiro que entrou e o ltimo que
saiu.

CAPTULO X

A obra de Pedro Eloy teve feliz
resultado. Eduardo converteu-se ao dever, depois de um longo suplcio.

Maria Luiza, cuja alma tambm
morrera, refugiou-se no mais completo isolamento.

Quanto  famlia de Sara, nunca
mais teve um momento das alegrias puras que a presena da querida menina lhe
dava.

Eduardo, inteiramente outro do
homem que fora antes, pde desligar-se da companhia do amigo Pedro Eloy sem
perigo para si.

De oito em oito dias fazia uma
peregrinao ao cemitrio de Maru, onde repousavam os restos daquela que o
amara at  morte.

Imps-se esta visita, no s como
dever, mas at para ter sempre  memria a tragdia domstica em que fora
protagonista.

De quando em quando, os dois
amigos visitavam-se, mas comunicavam-se sempre por cartas, em que um mostrava
toda a sua satisfao em ter convertido um homem e o outro a maior saudade do
bem que pudera ter e a esperana de que a sua converso teria em paga na
eternidade a vista eterna da alma bem-aventurada de Sara.

CONCLUSO

Depois de contar esta histria, o
leitor e eu tomamos a nossa ltima gota de ch ou caf, e deitamos ao ar a
nossa ltima fumaa do charuto.

Vem rompendo a aurora e esta vista
desfaz as idias, porventura melanclicas, que a minha narrativa tenha feito
nascer.
