Conto, A Herana, 1878

A Herana

Texto-fonte:

http://www2.uol.com.br/machadodeassis

Publicado originalmente em Jornal das Famlias, abril,
1878.

Venncia tinha
dois sobrinhos, Emlio e Marcos; o primeiro de vinte e oito, o segundo de
trinta e quatro anos. Marcos era o seu mordomo, esposo, pai, filho, mdico e
capelo. Ele cuidava-lhe da casa e das contas, aturava os seus reumatismos e
arrufos, ralhava-lhe s vezes, brandamente, obedecia-lhe sem murmrio,
cuidava-lhe da sade e dava-lhe bons conselhos. Era um rapaz tranqilo, medido,
geralmente silencioso, pacato, avesso a mulheres, indiferente a teatros, a
saraus. No se irritava nunca, no teimava, parecia no ter opinies nem simpatias.
O nico sentimento manifesto era a dedicao a D. Venncia.

Emlio era em
muitos pontos o contraste de Marcos, seu irmo. Primeiramente, era um dndi,
turbulento, frvolo, sedento de diverses, vivendo na rua e na casa dos outros,
dans le monde. Tinha cleras, que duravam o tempo das opinies; minutos
apenas. Era alegre, falador, expansivo, como um namorado de primeira mo.
Gastava s mos largas. Vivia duas horas por dia em casa do alfaiate, uma hora
em casa do cabeleireiro, o resto do tempo na Rua do Ouvidor; salvo o tempo em
que dormia em casa, que no era a mesma casa de D. Venncia, e o pouco em que
ia visitar a tia. Exteriormente era um elegante; interiormente era um bom
rapaz, mas um verdadeiro bom rapaz.

No tinham pai
nem me; Marcos era advogado; Emlio formara-se em medicina. Por um alto sentimento de humanidade, Emlio no exercia a profisso; o obiturio
conservava o termo mdio usual. Mas, tendo um e outro herdado alguma coisa dos
pais, Emlio mordia razoavelmente a parte da herana, que alis o irmo
administrava com muito zelo. Moravam juntos, mas tinham a casa dividida de
maneira que no podiam tolher a liberdade um do outro. s vezes passavam-se
trs ou quatro dias sem se verem; e  justo dizer que as saudades primeiro
feriam Emlio do que ao irmo. Ao menos era ele quem, depois de larga ausncia,
se assim podemos chamar-lhe, entrava mais cedo para casa a esperar que Marcos
viesse da casa de D. Venncia.

 Por que no
foste  casa de titia? perguntava Marcos, logo que ele dizia estar a esper-lo
durante muito tempo.

Emlio erguia os
ombros, como rejeitando a idia desse sacrifcio voluntrio. Depois,
conversavam, riam um pouco; Emlio referia anedotas, fumava dois charutos, e s
se levantava quando o outro confessava estar a cair de sono. Emlio, que no
dormia antes das trs ou quatro, nunca tinha sono; lanava mo de um romance
francs e ia devor-lo na cama at a hora habitual. Mas esse frvolo tinha
ocasies de seriedade; numa doena do irmo, velou-lhe longos dias  cabeceira,
com uma dedicao verdadeiramente materna. Marcos sabia que ele o amava.

No amava,
entretanto, a tia; se fosse mau, podia detest-la; mas se no a detestava,
confessava intimamente que ela o aborrecia. Marcos, quando o irmo repetia
isso, tratava de o reduzir a melhores sentimentos; e com to boas razes que
Emlio, no se atrevendo a contest-lo e no querendo sair de sua opinio,
recolhia-se a um eloqente silncio.

Ora, D. Venncia
encontrava essa repulsa, talvez pelo excesso mesmo de seu afeto. Emlio era o
predileto de seus sobrinhos; ela adorava-o. A melhor hora do dia era a que ele
lhe destinava a ela. Na ausncia falava de Emlio a propsito de qualquer
coisa. Geralmente o rapaz ia  casa da tia, entre as duas e trs horas; raras
vezes  noite. Que alegria quando ele entrava! que afagos! que interminveis
carinhos!

 Vem c,
ingrato, senta-te aqui ao p da velha. Como passaste de ontem?

 Bem, respondia
Emlio sorrindo contrafeito.

 Bem, arremedava
a tia; diz aquilo como se no fosse verdade. E quem sabe mesmo? Tiveste alguma
coisa?

 Nada, no tive
nada.

 Pensei.

D. Venncia
tranqilizava-se; depois vinha um rosrio de perguntas e outro de anedotas. No
meio de umas e outras, se via algum gesto de incmodo no sobrinho,
interrompia-se para perguntar se estava incomodado, se queria tomar alguma
coisa. Mandava fechar as janelas donde supunha que vinha ar; fazia-o trocar de
cadeira, se lhe parecia que a que ele ocupava era menos cmoda. Esse excesso de
cautelas e cuidados fatigavam o moo. Ele obedecia passivamente, falava pouco,
ou o menos que lhe era possvel. Quando resolvia sair, tornava-se perfidamente
mais alegre e carinhoso, aucarava um cumprimento, punha-lhe mesmo alguma coisa
do corao, e despedia-se. D. Venncia, que ficava com essa impresso ltima,
confirmava-se nos seus sentimentos a respeito de Emlio, a quem proclamava o
primeiro sobrinho deste mundo. Pela sua parte, Emlio descia as escadas mais
aliviado; e no corao, l no mais fundo do corao, uma voz secreta sussurrava
estas palavras cruis:

 Quer-me muito
bem, mas  muito amoladora.

A presena de
Marcos era uma troca de papis. A acariciada era ela. D. Venncia tinha seus
momentos de enfado e de zanga, gostava de ralhar, de bater no prximo. Sua alma
era uma fonte de duas bicas, vertia mel por uma e vinagre pela outra. Sabia que
o melhor meio de aturar menos, era no imit-la. Calava-se, sorria, aprovava
tudo, com uma docilidade exemplar. Outras vezes, conforme o assunto e a
ocasio, reforava os sentimentos pessimistas da tia, e ralhava, no com igual
veemncia, porque ele estava incapaz de a fingir, mas na conformidade das
idias dela. Presente a tudo, no esquecia, no meio de um discurso de D.
Venncia, de lhe acomodar melhor o banquinho dos ps. Sabia-lhe os hbitos, e
ordenava as coisas de maneira que lhe no faltasse nada. Ele era a Providncia
de D. Venncia e o seu pra-raios. De ms em ms prestava-lhe contas; e nessas
ocasies s uma alma forte podia resistir ao suplcio. Cada aluguel trazia um
discurso; cada obra nova ou conserto produzia objurgatria. Ao cabo, D.
Venncia no ficava com a menor idia das contas, to ocupada estava em
desabafar o seu reumatismo; e Marcos, se quisesse afrouxar um pouco a
conscincia, podia dar s contas certa elasticidade. No o fazia; era incapaz
de o fazer.

Quem dissesse que
na dedicao de Marcos entrava um pouco de interesse, podia dormir com a
conscincia tranqila, pois no caluniava ningum. Havia afeto, mas no havia
s isso. D. Venncia possua bons prdios, e tinha s trs parentes.

O terceiro
parente era uma sobrinha, que morava com ela, moa de vinte anos, graciosa,
doida por msica e confeitos. D. Venncia tambm a estimava muito, quase tanto
como a Emlio. Meditava at cas-la antes de morrer; e s tinha dificuldade em
achar um noivo digno da noiva.

Um dia, no meio
de uma conversa com Emlio, aconteceu-lhe dizer:

 Quando te
casares, adeus tia Venncia!

Esta palavra foi
um raio de luz.

 Casar! pensou
ela, mas por que no com a Eugnia?

Nessa noite no
cuidou mentalmente de outra coisa. Marcos nunca a vira to taciturna; chegou a
supor que ela estivesse zangada com ele. D. Venncia no disse, durante essa
noite, mais de quarenta palavras. Olhava para Eugnia, lembrava-se de Emlio, e
dizia consigo:

 Mas como  que
no lembrei disso h mais tempo? Nasceram um para o outro. So bonitos, bons,
jovens.  S se ela tiver algum namoro; mas quem seria?

No dia seguinte
sondou a moa; Eugnia, que no pensava em ningum, disse francamente que
trazia o corao como lho haviam dado. D. Venncia exultou; riu-se muito;
jantou mais do que de costume. Restava sondar Emlio no dia seguinte.

Emlio respondeu
a mesma coisa.

 Deveras!
exclamou a tia.

 Pois ento!

 No gostas de
nenhuma moa? no tens nada em vista?

 Nada.

 Tanto melhor!
tanto melhor!

Emlio saiu
aturdido e um pouco vexado. A pergunta, a insistncia, a alegria, tudo aquilo
tinha um ar pouco tranqilizador para ele.

 Querer casar
comigo?

No perdeu muito
tempo em conjecturas. D. Venncia, que, com os seus sessenta anos, receava
qualquer surpresa da morte, apressara-se a falar diretamente  sobrinha. Era
difcil; mas D. Venncia passava por ter um gnio original, que  a coisa mais
vantajosa que pode acontecer  gente, quando quer passar por cima de certas
consideraes. Perguntou diretamente a Eugnia se estimaria casar com Emlio;
Eugnia, que nunca pensara em tal, respondeu que lhe era indiferente.

 Indiferente s?
perguntou D. Venncia.

 Posso casar.

 Sem vontade,
sem gosto, s por obedecer?...

 Oh! no!

 Velhaca!
Confessa que gostas dele.

Eugnia no se
lembrara disso; mas respondeu com um sorriso e baixou os olhos, gesto que podia
dizer muita coisa e nada. D. Venncia interpretou-o como uma afirmativa, talvez
porque ela preferia a afirmativa. Quanto a Eugnia, ficou abalada com a
proposta da tia, mas no lhe durou muito o abalo; foi tocar msica. De tarde
pensou outra vez na conversa que tivera, comeou a lembrar-se de Emlio, foi
ver o retrato dele que havia no lbum. Realmente, entrou a parecer-lhe que
gostava do moo. A tia, que o dizia,  porque o percebera. Que admira? Um rapaz
bonito, elegante, distinto. Era isso; devia am-lo; devia casar com ele.

Emlio foi menos
fcil de contentar-se. Quando a tia lhe deu a entender que havia uma pessoa que
o amava, teve um sobressalto; quando lhe disse que era uma moa, teve outro.
Cus! um romance! A imaginao de Emlio construiu logo vinte captulos, cada
qual mais cheio de luas e miostis. Enfim, soube que se tratava de Eugnia. A
noiva no era de desprezar; mas tinha o defeito de ser um santo de casa.

 E escusas de
fazer essa cara, disse D. Venncia; eu j percebi que gostas dela.

 Eu?

 No; hei de ser
eu.

 Mas, titia...

 Deixa-te de
partes! J percebi. No me zango; pelo contrrio, aprovo e at desejo.

Emlio quis
recusar de uma s vez; mas era difcil; tomou a resoluo de contemporizar. D.
Venncia, a muito custo, concedeu-lhe oito dias.

 Oito dias!
exclamou o sobrinho.

 Em menos tempo
fez Deus o mundo, redargiu D. Venncia sentenciosamente.

Emlio sentiu que
a coisa era um pouco dura de roer assim feita s pressas. Comunicou suas
impresses ao irmo. Marcos aprovou a tia.

 Tambm tu?

 Tambm. A
Eugnia  bonita, gosta de ti; titia faz gosto. Que mais queres?

 Mas  que nunca
pensei em semelhante coisa.

 Pois pensa
agora. Em oito dias pensars nela e talvez acabes por gostar... Acabas com
certeza.

 Que maada!

 No acho.

  porque no 
contigo.

 Se fosse era a
mesma coisa.

 Casavas?

 No fim de oito
dias.

 Admiro-te.
Custa-me a crer que um homem se case, assim como faz uma viagem a Vassouras.

 O casamento 
uma viagem a Vassouras; no custa mais nem menos.

Marcos disse
ainda outras coisas mais, no sentido de animar o irmo. Ele aprovava o
casamento, no s porque Eugnia merecia, como porque era muito melhor que tudo
ficasse em casa.

No interrompeu
Emlio as suas visitas cotidianas; mas os dias passavam-se e ele no se sentia
mais disposto ao casamento. No stimo dia, despediu-se da tia e da prima, com
uma cara lgubre.

 Qual! dizia
Eugnia; ele no casa comigo.

No oitavo dia, D.
Venncia recebeu uma carta de Emlio, pedindo-lhe muitos perdes, fazendo-lhe
carcias sem fim, mas acabando por uma negativa franca.

D. Venncia ficou
desconsolada; tinha feito nascer esperanas no corao da sobrinha, e no as
podia realizar de nenhuma maneira. Chegou a ter um movimento de clera contra o
rapaz, mas arrependeu-se dele at morrer. Um sobrinho to amvel! que recusava
com to bons modos! Era pena que no aceitasse, mas se ele no amava, podia ela
obrig-lo ao casamento?

Suas reflexes
foram essas, tanto  sobrinha, que alis no chorou, posto ficasse um pouco
triste, como ao sobrinho Marcos, que s tarde soubera da recusa do irmo.

 Aquilo  uma
cabea de vento! disse ele.

D. Venncia
defendeu-o, como confessou que se acostumara  idia de deixar Eugnia casada e
bem casada. Enfim no se pode forar os coraes. Isso mesmo repetiu ela quando
Emlio a foi ver da a dias, um tanto envergonhado da recusa. Emlio, que
esperava ach-la no mais agudo de seus reumatismos, achou-a risonha como de
costume.

Mas a recusa de
Emlio no foi aceita to filosoficamente pelo irmo. Marcos no achara a
recusa, nem bonita nem prudente. Era um erro e uma tolice. Eugnia era uma
noiva digna at de um sacrifcio. Sim; tinha qualidades notveis. Marcos
atentou nelas. Viu que efetivamente a moa no valia o modo por que o irmo a
tratara. A resignao com que aceitava a recusa era na verdade digna de
respeito. Marcos simpatizou com esse proceder. No menos lhe doeu a dor da tia,
que no alcanava realizar o desejo de deixar Eugnia entregue a um bom marido.

 Que bom marido
no podia ser ele?

Marcos seguiu
esta idia com alma, com afinco, com desejo de acertar. Sua solicitude
dividiu-se entre Eugnia e D. Venncia  o que era servir a D. Venncia. Um dia
entestou com o assunto...

 Titia, disse
ele, oferecendo-lhe torradinhas, eu desejava pedir-lhe um conselho.

 Tu? Pois tu
pedes conselhos, Marcos?

 s vezes,
redargiu ele sorrindo.

 Que ?

 Se a prima
Eugnia me aceitasse por marido, a senhora aprovava o casamento?

D. Venncia olhou
para Eugnia espantada, Eugnia, no menos espantada do que ela, olhou para o
primo. Este olhava para ambas.

 Aprovava?
repetiu ele.

 Que dizes?
disse a tia voltando-se para a moa.

 Farei o que
titia quiser, respondeu Eugnia olhando para o cho.

 O que eu
quiser, no, tornou D. Venncia; mas confesso que aprovo, se for do teu gosto.

 ? perguntou
Marcos.

 No sei,
murmurou a moa.

A tia cortou a
dificuldade dizendo que ela podia responder da a quatro, seis ou oito dias.

 Quinze ou
trinta, acudiu Marcos; um ou mais meses. Meu desejo  que fosse logo, mas no
desejo surpreender seu corao; prefiro que escolha com tranqilidade.  assim
que nossa boa tia deseja tambm...

D. Venncia
aprovou as palavras de Marcos, e deu  sobrinha dois meses. Eugnia no disse
sim nem no; mas no fim daquela semana declarou  tia que estava pronta a
receber o primo por esposo.

 J! exclamou a
tia, referindo-se  curteza do prazo da resposta.

 J! respondeu
Eugnia, referindo-se  data do casamento.

E D. Venncia,
que o percebeu pelo tom, riu-se muito e deu a notcia ao sobrinho. O casamento
efetuou-se da a um ms. As testemunhas foram D. Venncia, Emlio e um amigo da
casa. O irmo do noivo parecia satisfeito com o resultado.

 Ao menos, dizia
ele consigo, ficamos todos satisfeitos.

Marcos ficou
morando em casa, de modo que nem retirava a companhia de Eugnia nem a sua. D.
Venncia tinha assim uma vantagem mais.

 Agora o que 
preciso  casar o Emlio, dizia ela.

 Por qu? perguntava
Emlio.

 Porque 
preciso. Meteu-se-me isso na cabea.

Emlio no ficou
mais amigo da casa depois do casamento. Continuava a l ir o menos que podia.
Com os anos, D. Venncia ia ficando de uma ternura mais difcil de suportar,
pensava ele. Para compensar a ausncia de Emlio, tinha ela o zelo e a
companhia de Eugnia e Marcos. Este era ainda o seu mestre e guia.

Um dia adoeceu
deveras a sra. D. Venncia; esteve um ms de cama, durante o qual os dois
sobrinhos casados no lhe saram da cabeceira. Emlio ia v-la, mas s fez
quarto na ltima noite, quando ela ficara delirante. Antes disso ia v-la, e
saa de l muito contra a vontade dela.

 Onde est o
Emlio? perguntava de quando em quando.

 J vem,
diziam-lhe os outros.

O remdio que
Emlio lhe dava era bebido sem hesitao. Sorria at.

 Pobre Emlio!
vais perder tua tia.

 No diga isso.
Ainda vamos danar uma valsa.

 No outro mundo,
pode ser.

A molstia
agravou-se; os mdicos desenganaram a famlia. Mas antes do delrio, sua ltima
palavra foi ainda uma lembrana a Emlio; e quem a ouviu foi Marcos que
cabeceava de sono. Se quase no dormia!

Emlio no estava
presente quando ela expirou. Morreu, enfim, sem nada dizer de suas disposies
testamentrias. No era preciso; todos sabiam que ela tinha o testamento em
poder de um velho amigo de seu marido.

D. Venncia
nomeou Emlio seu herdeiro universal. Aos outros sobrinhos deixou um razovel
legado. Marcos contava com uma diviso, em partes iguais, pelos trs. Enganara-se,
e filosofou muito sobre o caso. Que havia feito o irmo para merecer tamanha
distino? Nada; deixara-se amar apenas. D. Venncia era a imagem da fortuna.
