Conto, Questes de maridos, 1883

Questes de maridos

Texto-fonte:

Obra Completa, Machado de Assis, vol. II,

Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.

Publicado originalmente em A Estao, em 15/07/1883.

 O subjetivo... o subjetivo...
Tudo atravs do subjetivo,  costumava dizer o velho professor Morais Pancada.

Era um sestro. Outro sestro era
sacar de uma gaveta dois maos de cartas para demonstrar a proposio. Cada
mao pertencia a uma de duas sobrinhas, j falecidas. A destinatria das cartas
era a tia delas, mulher do professor, senhora de sessenta e tantos anos, e
asmtica. Esta circunstncia da asma  perfeitamente ociosa para o nosso caso;
mas isto mesmo lhes mostrar que o caso  verdico.

Lusa e Marcelina eram os nomes
das sobrinhas. O pai delas, irmo do professor, morrera pouco depois da me,
que as deixou crianas; de maneira que a tia  quem as criou, educou e casou. A
primeira casou com dezoito anos, e a segunda com dezenove, mas casaram no mesmo
dia. Uma e outra eram bonitas, ambas pobres.

 Coisa extraordinria! disse o
professor  mulher um dia.

 Que ?

 Recebi duas cartas, uma do
Candinho, outra do Soares, pedindo... pedindo o qu?

 Diga.

 Pedindo a Lusa...

 Os dois?

 E a Marcelina.

 Ah!

Este ah! traduzido
literalmente, queria dizer:  j desconfiava isso mesmo. O
extraordinrio para o velho professor era que o pedido de ambos fosse feito na
mesma ocasio. Mostrou ele as cartas  mulher, que as leu, e aprovou a escolha.
Candinho pedia a Lusa, Soares a Marcelina. Eram ambos moos, e pareciam gostar
muito delas.

As sobrinhas, quando o tio lhes
comunicou o pedido, j estavam com os olhos baixos; no simularam espanto,
porque elas mesmas  que tinham dado autorizao aos namorados. No  preciso
dizer que ambas declararam aceitar os noivos; nem que o professor,  noite,
escovou toda a sua retrica para responder conveniente aos dois candidatos.

Outra coisa que no digo,  mas 
por no saber absolutamente,   o que se passou entre as duas irms, uma vez
recolhidas naquela noite. Por alguns leves cochichos, pode crer-se que ambas se
davam por bem-aventuradas, propunham planos de vida, falavam deles, e, s vezes
no diziam nada, deixando-se estar com as mos presas e os olhos no cho.  que
realmente gostavam dos noivos, e eles delas, e o casamento vinha coroar as suas
ambies.

Casaram-se. O professor visitou-as
no fim de oito dias, e achou-as felizes. Felizes, ou mais ou menos se passaram
os primeiros meses. Um dia, o professor teve de ir viver em Nova Friburgo, e as sobrinhas ficaram na corte, onde os maridos eram empregados. No fim de
algumas semanas de estada em Nova Friburgo, eis a carta que a mulher do
professor recebeu de Lusa:

Titia,

Estimo que a senhora tenha passado
bem, em companhia do titio, e que dos incmodos v melhor. Ns vamos bem.
Candinho agora anda com muito trabalho, e no pode deixar a corte nem um dia.
Logo que ele esteja mais desembaraado iremos v-los.

Eu continuo feliz; Candinho  um
anjo, um anjo do cu. Fomos domingo ao teatro da Fnix, e ri-me muito com a
pea. Muito engraada! Quando descerem, se a pea ainda estiver em cena, ho de
v-la tambm.

At breve, escreva-me, lembranas
a titio, minhas e do Candinho.

Lusa.

Marcelina no escreveu logo, mas
dez ou doze dias depois. A carta dizia assim:

Titia,

No lhe escrevi h mais tempo, por
andar com atrapalhaes de casa; e aproveito esta abertazinha para lhe pedir
que me mande notcias suas, e de titio. Eu no sei se poderei ir l; se puder,
creia que irei correndo. No repare nas poucas linhas, estou muito aborrecida.
At breve.

Marcelina.

 Vejam, comentava o professor;
vejam a diferena das duas cartas. A de Marcelina com esta expresso:  estou
muito aborrecida; e nenhuma palavra do Soares. Minha mulher no reparou na
diferena, mas eu notei-a, e disse-lha, ela entendeu aludir a isso na resposta,
e perguntou-lhe como  que uma moa, casada de meses, podia ter aborrecimentos.
A resposta foi esta:

Titia,

Recebi a sua carta, e estimo que
no tenha alterao na sade nem o titio. Ns vamos bem e por aqui no h
novidade.

Pergunta-me por que  que uma
moa, casada de fresco, pode ter aborrecimentos? Quem lhe disse que eu tinha
aborrecimentos? Escrevi que estava aborrecida,  verdade; mas ento a gente no
pode um momento ou outro deixar de estar alegre?

 verdade que esses momentos meus
so compridos, muito compridos. Agora mesmo, se lhe dissesse o que se passa em
mim, ficaria admirada. Mas enfim Deus  grande...

Marcelina.

 Naturalmente, a minha velha
ficou desconfiada. Havia alguma coisa, algum mistrio, maus-tratos, cimes,
qualquer coisa. Escreveu-lhe pedindo que dissesse tudo, em particular, que a
carta dela no seria mostrada a ningum. Marcelina animada pela promessa,
escreveu o seguinte:

Titia,

Gastei todo o dia a pensar na sua
carta, sem saber se obedecesse ou no; mas, enfim, resolvi obedecer, no s
porque a senhora  boa e gosta de mim, como porque preciso de desabafar.

 verdade, titia, padeo muito,
muito; no imagina. Meu marido  um friarro, no me ama, parece at que lhe
causo aborrecimento.

Nos primeiros oito dias ainda as
coisas foram bem: era a novidade do casamento. Mas logo depois comecei a sentir
que ele no correspondia ao meu sonho de marido. No era um homem terno,
dedicado, firme, vivendo de mim e para mim. Ao contrrio, parece outro,
inteiramente outro, caprichoso, intolerante, gelado, pirracento, e no ficarei
admirada se me disserem que ele ama a outra. Tudo  possvel, por minha
desgraa...

 isto que queria ouvir? Pois a
tem. Digo-lhe em segredo; no conte a ningum, e creia na sua desgraada
sobrinha do corao.

Marcelina.

 Ao mesmo tempo que esta carta
chegava s mos da minha velha, continuou o professor, recebia ela esta outra
de Lusa:

Titia,

H muitos dias que ando com
vontade de escrever-lhe; mas ora uma coisa, ora outra, e no tenho podido. Hoje
h de ser sem falta, embora a carta saia pequena.

J lhe disse que continuo a ter
uma vida muito feliz? No imagina; muito feliz. Candinho at me chama doida
quando v a minha alegria; mas eu respondo que ele pode dizer o que quiser, e
continuo a ser feliz, contanto que ele o seja tambm, e pode crer que ambos o
somos. Ah! titia! em boa hora nos casamos! E Deus pague a titia e ao titio que
aprovaram tudo. Quando descem? Eu, pelo vero, quero ver se vou l visit-los.
Escreva-me.

Lusa.

E o professor, empunhando as
cartas lidas, continuou a coment-las, dizendo que a mulher no deixou de
advertir na diferena dos destinos. Casadas ao mesmo tempo, por escolha
prpria, no acharam a mesma estrela, e ao passo que uma estava to feliz, a
outra parecia to desgraada.

 Consultou-me se devia indagar
mais alguma coisa de Marcelina, e at se conviria descer por causa dela;
respondi-lhe que no, que esperssemos; podiam ser arrufos de pequena monta.
Passaram-se trs semanas sem cartas. Um dia a minha velha recebeu duas, uma de
Lusa, outra de Marcelina; correu primeiro  de Marcelina.

Titia,

Ouvi dizer que tinham passado mal
estes ltimos dias. Ser verdade? Se for verdade ou no, mande-me dizer. Ns
vamos bem, ou como Deus  servido. No repare na tinta apagada;  de minhas
lgrimas.

Marcelina.

A outra carta era longa; mas eis
aqui o trecho final. Depois de contar um espetculo no Teatro Lrico, Lusa
dizia assim:

... Em suma, titia, foi uma noite
cheia, principalmente por estar ao lado do meu querido Candinho, que  cada vez
mais anglico. No imagina, no imagina. Diga-me: o titio foi assim tambm
quando era moo? Agora, depois de velho, sei que  do mesmo gnero. Adeus, e
at breve, para irmos ao teatro juntas.

Lusa.

 As cartas continuaram a subir,
sem alterao de nota, que era a mesma para ambas. Uma feliz, outra desgraada.
Ns afinal j estvamos acostumados com a situao. De certo tempo em diante,
houve mesmo de parte de Marcelina uma ou outra diminuio de queixas; no que
ela se desse por feliz ou satisfeita com a sorte; mas resignava-se, s vezes, e
no insistia muito. As crises amiudavam-se, e as queixas tornavam ao que eram.

O professor leu ainda muitas
cartas das duas irms. Todas confirmavam as primeiras; as duas ltimas eram,
principalmente, caractersticas. Sendo longas, no  possvel transcrev-las;
mas vai o trecho principal. O de Lusa era este:

... O meu Candinho continua a
fazer-me feliz, muito feliz. Nunca houve marido igual na terra, titio; no
houve, nem haver; digo isto porque  a verdade pura.

O de Marcelina era este:

... Pacincia; o que me consola 
que meu filho ou filha, se viver, ser a minha consolao: nada mais...

 E ento? perguntaram as pessoas
que escutavam o professor.

 Ento, qu?... O subjetivo... O
subjetivo...

 Explique-se.

 Est explicado, ou adivinhado,
pelo menos. Comparados os dois maridos, o melhor, o mais terno, o mais fiel,
era justamente o de Marcelina; o de Lusa era apenas um bandoleiro agradvel,
s vezes seco. Mas, um e outro, ao passarem pelo esprito das mulheres, mudavam
de todo. Lusa, pouco exigente, achava o Candinho um arcanjo; Marcelina,
corao insacivel, no achava no marido a soma de ternura adequada  sua
natureza... O subjetivo... o subjetivo...
