ROMANCE, Iai Garcia,1878

Iai Garcia

Texto-fonte:
Obra Completa, de Machado de Assis, vol. I,
Rio
  de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.

Publicado
  originalmente em folhetins, a partir de 01/01/1878, em O Cruzeiro.

CAPTULO PRIMEIRO

Lus Garcia transpunha
  a soleira da porta, para sair, quando apareceu um criado e lhe entregou esta
  carta:

"5 de outubro de 1866.
Sr. Lus Garcia --
  Peo-lhe o favor de vir falar-me hoje, de uma a duas horas da tarde. Preciso de
  seus conselhos, e talvez de seus obsquios. -- VALRIA."

-- Diga que irei. A
  senhora est c no morro?

-- No, senhor, est na
  Rua dos Invlidos.

Lus Garcia era
  funcionrio pblico. Desde 1860 elegera no lugar menos povoado de Santa Teresa
  uma habitao modesta, onde se meteu a si e a sua viuvez. No era frade, mas
  queria como eles a solido e o sossego. A solido no era absoluta, nem o
  sossego ininterrompido; mas eram sempre maiores e mais certos que c embaixo.
  Os frades que, na puercia da cidade, se tinham alojado nas outras colinas,
  desciam muita vez, -- ou quando o exigia o sacro Ministrio, ou quando o governo
  precisava da espada cannica, -- e as ocasies no eram raras; mas geralmente em
  derredor de suas casas no ia soar a voz da labutao civil. Lus Garcia podia
  dizer a mesma coisa; e, porque nenhuma vocao apostlica o incitava a abrir a
  outros a porta de seu refgio, podia dizer-se que fundara um convento em que
  ele era quase toda a comunidade, desde prior at novio.

No momento em que
  comea esta narrativa, tinha Lus Garcia quarenta e um anos. Era alto e magro,
  um comeo de calva, barba rapada, ar circunspecto. Suas maneiras eram frias,
  modestas e corteses; a fisionomia um pouco triste. Um observador atento podia
  adivinhar por trs daquela impassibilidade aparente ou contrada as runas de
  um corao desenganado. Assim era; a experincia, que foi precoce, produzira em
  Lus Garcia um estado de apatia e cepticismo, com seus laivos de desdm. O
  desdm no se revelava por nenhuma expresso exterior; era a ruga sardnica do
  corao. Por fora, havia s a mscara imvel, o gesto lento e as atitudes
  tranqilas. Alguns poderiam tem-lo, outros detest-lo, sem que merecesse
  execrao nem temor. Era inofensivo por temperamento e por clculo. Como um
  clebre eclesistico, tinha para si que uma ona de paz vale mais que uma libra
  de vitria. Poucos lhe queriam deveras, e esses empregavam mal a afeio, que
  ele no retribua com afeio igual, salvo duas excees. Nem por isso era
  menos amigo de obsequiar. Lus Garcia amava a espcie e aborrecia o indivduo.
  Quem recorria a seu prstimo, era raro que no obtivesse favor. Obsequiava sem
  zelo, mas com eficcia, e tinha a particularidade de esquecer o benefcio,
  antes que o beneficiado o esquecesse.

A vida de Lus Garcia
  era como a pessoa dele, -- taciturna e retrada. No fazia nem recebia visitas.
  A casa era de poucos amigos; havia l dentro a melancolia da solido. Um s
  lugar podia chamar-se alegre; eram as poucas braas de quintal que Lus Garcia
  percorria e regava todas as manhs. Erguia-se com o sol, tomava do regador,
  dava de beber s flores e  hortalia; depois, recolhia-se e ia trabalhar antes
  do almoo, que era s oito horas. Almoado, descia a passo lento at 
  repartio, onde, se tinha algum tempo, folheava rapidamente as gazetas do dia.
  Trabalhava silenciosamente, com a fria serenidade do mtodo. Fechado o
  expediente, voltava logo para casa, detendo-se raras vezes em caminho. Ao
  chegar a casa, j o preto Raimundo lhe havia preparado a mesa, -- uma mesa de
  quatro a cinco palmos, -- sobre a qual punha o jantar, parco em nmero, medocre
  na espcie, mas farto e saboroso para um estmago sem aspiraes nem saudades.
  Ia dali ver as plantas e reler algum tomo truncado, at que a noite caa.
  Ento, sentava-se a trabalhar at s nove horas, que era a hora do ch.

No somente o teor da
  vida tinha essa uniformidade, mas tambm a casa participava dela. Cada mvel,
  cada objeto, -- ainda os nfimos, -- parecia haver-se petrificado. A cortina, que
  usualmente era corrida a certa hora, como que se enfadava se lhe no deixavam
  passar o ar e a luz,  hora costumada; abriam-se as mesmas janelas e nunca
  outras. A regularidade era o estatuto comum. E se o homem amoldara as coisas a
  seu jeito, no admira que amoldasse tambm o homem. Raimundo parecia feito
  expressamente para servir Lus Garcia. Era um preto de cinqenta anos, estatura
  mediana, forte, apesar de seus largos dias, um tipo de africano, submisso e
  dedicado. Era escravo e livre. Quando Lus Garcia o herdou de seu pai, -- no
  avultou mais o esplio, -- deu-lhe logo carta de liberdade. Raimundo, nove anos
  mais velho que o senhor, carregara-o ao colo e amava-o como se fora seu filho.
  Vendo-se livre, pareceu-lhe que era um modo de o expelir de casa, e sentiu um
  impulso atrevido e generoso. Fez um gesto para rasgar a carta de alforria, mas
  arrependeu-se a tempo. Lus Garcia viu s a generosidade, no o atrevimento;
  palpou o afeto do escravo, sentiu-lhe o corao todo. Entre um e outro houve um
  pacto que para sempre os uniu.

-- s livre, disse Lus
  Garcia; vivers comigo at quando quiseres.

Raimundo foi dali em
  diante um como esprito externo de seu senhor; pensava por este e refletia-lhe
  o pensamento interior, em todas as suas aes, no menos silenciosas que
  pontuais. Lus Garcia no dava ordem nenhuma; tinha tudo  hora e no lugar
  competente. Raimundo, posto fosse o nico servidor da casa, sobrava-lhe tempo,
   tarde, para conversar com o antigo senhor, no jardinete, enquanto a noite
  vinha caindo. Ali falavam de seu pequeno mundo, das raras ocorrncias
  domsticas, do tempo que devia fazer no dia seguinte, de uma ou outra
  circunstncia exterior. Quando a noite caa de todo e a cidade abria os seus
  olhos de gs, recolhiam-se eles a casa, a passo lento,  ilharga um do outro.

-- Raimundo hoje vai
  tocar, no ? dizia s vezes o preto.

-- Quando quiseres, meu
  velho.

Raimundo acendia as
  velas, ia buscar a marimba, caminhava para o jardim, onde se sentava a tocar e
  a cantarolar baixinho umas vozes de frica, memrias desmaiadas da tribo em que
  nascera. O canto do preto no era de saudade; nenhuma de suas cantilenas vinha
  afinada na clave pesarosa. Alegres eram, guerreiras, entusiastas; por fim
  calava-se. O pensamento, em vez de volver ao bero africano, galgava a janela
  da sala em que Lus Garcia trabalhava e pousava sobre ele como um feitio
  protetor. Quaisquer que fossem as diferenas civis e naturais entre os dois, as
  relaes domsticas os tinham feito amigos.

Entretanto, das duas
  afeies de Lus Garcia, Raimundo era apenas a segunda; a primeira era uma
  filha.

Se o jardim era a parte
  mais alegre da casa, o domingo era o dia mais festivo da semana. No sbado, 
  tarde, acabado o jantar, descia Raimundo at  Rua dos Arcos, a buscar a sinh
  moa, que estava sendo educada em um colgio. Lus Garcia esperava por eles,
  sentado  porta ou encostado  janela, quando no era escondido em algum
  recanto da casa para fazer rir a pequena. Se a menina o no via  janela ou 
  porta, percebia que se escondera e corria a casa, onde no era difcil dar com ele,
  porque os recantos eram poucos. Ento caam nos braos um do outro. Lus Garcia
  pegava dela e sentava-a nos joelhos. Depois, beijava-a, tirava-lhe o
  chapelinho, que cobria os cabelos acastanhados e lhe tapava parte da testa
  rosada e fina; beijava-a outra vez, mas ento nos cabelos e nos olhos, -- os
  olhos, que eram claros e filtravam uma luz insinuante e curiosa.

Contava onze anos e
  chamava-se Lina. O nome domstico era Iai. No colgio, como as outras meninas
  lhe chamassem assim, e houvesse mais de uma com igual nome, acrescentavam-lhe o
  apelido de famlia. Esta era Iai Garcia. Era alta, delgada, travessa; possua
  os movimentos sbitos e incoerentes da andorinha. A boca desabrochava
  facilmente em riso, -- um riso que ainda no toldavam as dissimulaes da vida,
  nem ensurdeciam as ironias de outra idade. Longos e muitos eram os beijos
  trocados com o pai. Lus Garcia punha-a no cho, tornava a subi-la aos joelhos,
  at que consentia finalmente em separar-se dela por alguns instantes. Iai ia
  ter com o preto.

-- Raimundo, o que  que
  voc me guardou?

-- Guardei uma coisa,
  respondia ele sorrindo. Iai no  capaz de adivinhar o que .

--  uma fruta.

-- No .

-- Um passarinho?

-- No adivinhou.

-- Um doce?

-- Que doce ?

-- No sei; d c o
  doce.

Raimundo negaceava
  ainda um pouco; mas afinal entregava a lembrana guardada. Era s vezes um
  confeito, outras uma fruta, um inseto esquisito, um molho de flores. Iai
  festejava a lembrana do escravo, dando saltos de alegria e de agradecimento.
  Raimundo olhava para ela, bebendo a felicidade que se lhe entornava dos olhos,
  como um jorro de gua pura. Quando o presente era uma fruta ou um doce, a
  menina trincava-o logo, a olhar e a rir para o preto, a gesticular e a
  interromper-se de quando em quando:

-- Muito bom! Raimundo 
  amigo de Iai... Viva Raimundo!

E seguia dali a mudar
  de roupa, e a visitar o resto da casa e o jardim. No jardim achava o pai j
  sentado no banco do costume, com uma das pernas sobre a outra, e as mos
  cruzadas sobre o joelho. Ia ter com ele, sentava-se, erguia-se, colhia uma
  flor, corria atrs dos insetos. De noite, no havia trabalho para Lus Garcia;
   noite, como o dia seguinte, era toda consagrada  criana. Iai referia ao
  pai as anedotas do colgio, as puerilidades que no valem mais nem menos que
  outras da idade madura, as intriguinhas de nada, as pirraas de coisa nenhuma.
  Lus Garcia escutava-a com igual ateno  que prestaria a uma grande narrativa
  histrica. Seu magro rosto austero perdia a frieza e a indiferena; inclinado
  sobre a mesa, com os braos estendidos, as mos da filha nas suas,
  considerava-se o mais venturoso dos homens. A narrativa da pequena era como
  costumam ser as da idade infantil: desigual e truncada, mas cheia de um
  colorido seu. Ele ouvia-a sem interromper; corrigia, sim, algum erro de
  prosdia ou alguma reflexo menos justa; fora disso, ouvia somente.

Pouco depois da
  madrugada todos trs estavam de p. O sol de Santa Teresa era o mesmo da Rua
  dos Arcos; Iai, porm, achava-lhe alguma coisa mais ou melhor, quando o via
  entrar pela alcova dentro, atravs das persianas. Ia  janela que dava para uma
  parte do jardim. Via o pai bebendo a xcara de caf, que aos domingos precedia
  o almoo. s vezes ia ter com ele; outras vezes ele caminhava para a janela, e,
  com o peitoril de permeio, trocavam os sculos da saudao. Durante o dia, Iai
  derramava pela casa todas as sobras de vida, que tinha em si. O rosto de Lus
  Garcia acendia-se de um reflexo de juventude, que lhe dissipava as sombras
  acumuladas pelo tempo. Raimundo vivia da alegria dos dois. Era domingo para
  todos trs, e tanto o senhor como o antigo escravo no ficavam menos colegiais
  que a menina.

-- Raimundo, dizia esta,
  voc gosta de santo de comer?

Raimundo empertigava o
  corpo, abria um riso, e dando aos quadris e ao tronco o movimento de suas
  danas africanas, respondia cantarolando:

-- Bonito santo! santo
  gostoso!

-- E santo de trabalhar?

Raimundo, que j esperava
  o reverso, estacava subitamente, punha a cabea entre as mos, e afastava-se
  murmurando com terror:

-- Eh... eh... no fala
  nesse santo, Iai! no fala nesse santo!

-- E santo de comer?

-- Bonito santo! santo
  gostoso!

E o preto repetia o
  primeiro jogo, depois o segundo, at que Iai, aborrecida, passava a outra
  coisa.

No havia s recreio.
  Uma parte mnima do dia, -- pouco mais de uma hora, -- era consagrada ao exame do
  que Iai aprendera no colgio, durante os dias anteriores. Lus Garcia interrogava-a,
  fazia-a ler, contar e desenhar alguma coisa. A docilidade da menina encantava a
  alma do pai. Nenhum receio, nenhuma hesitao; respondia, lia ou desenhava,
  conforme lhe era mandado ou pedido.

-- Papai quer ouvir
  tocar piano? disse ela um dia; olhe,  assim.

E com os dedos na borda
  da mesa, executava um trecho musical, sobre teclas ausentes. Lus Garcia
  sorriu, mas um vu lhe empanou os olhos. Iai no tinha piano! Era preciso
  dar-lhe um, ainda com sacrifcio. Se ela aprendia no colgio, no era para
  tocar mais tarde em casa? Este pensamento enraizou-se-lhe no crebro e turbou o
  resto do dia. No dia seguinte, Lus Garcia encheu-se de valor, pegou da
  caderneta da Caixa Econmica e foi retirar o dinheiro preciso para comprar um piano.
  Eram da filha as poucas economias que ajuntava; o piano era para ela
  igualmente; no lhe diminua a herana.

Quando no seguinte
  sbado, Iai viu o piano, que o pai lhe foi mostrar, sua alegria foi intensa,
  mas curta. O pai abrira-o, ela acordou as notas adormecidas no vasto mvel, com
  suas mozinhas ainda incertas e dbeis. A um dos lados do instrumento, com os
  olhos nela, Lus Garcia pagava-se do sacrifcio, contemplando a satisfao da
  filha. Curta foi ela. Entre duas notas, Iai parou, olhou para o pai, para o
  piano, para os outros mveis; depois descaiu-lhe o rosto, disse que tinha uma
  vertigem. Lus Garcia ficou assustado, pegou dela, chamou Raimundo; a criana
  afirmou que estava melhor, e finalmente que a vertigem passara de todo. Lus
  Garcia respirou; os olhos de Iai no ficaram mais alegres, nem ela foi to
  travessa como costumava ser.

A causa da mudana,
  desconhecida para Lus Garcia, era a penetrao que madrugava no esprito da
  menina. Lembrara-se ela, repentinamente, das palavras que proferira e do gesto
  que fizera, no domingo anterior; por elas explicou a existncia do piano;
  comparou-o, to novo e lustroso, com os outros mveis da casa, modestos,
  usados, encardida a palhinha das cadeiras, rodo do tempo e dos ps um velho
  tapete, contemporneo do sof. Dessa comparao extraiu a idia do sacrifcio
  que o pai devia ter feito para condescender com ela; idia que a ps triste,
  ainda que no por muito tempo, como sucede s tristezas pueris. A penetrao
  madrugava, mas a dor moral fazia tambm irrupo naquela alma at agora isenta
  da jurisdio da fortuna.

Passou! Bem depressa os
  sons do piano vieram casar-se ao gorjeio de Iai e ao riso do escravo e do
  senhor. Era mais uma festa aos domingos. Iai confiou um dia ao pai a idia que
  tinha de ser mestre de piano. Lus Garcia sorria a esses planos da meninice,
  to frgeis e fugidios como suas impresses. Tambm ele os tivera aos dez anos.
  Que lhe ficara dessas primeiras ambies? Um resduo e nada mais. Mas assim
  como as aspiraes daquele tempo o fizeram feliz, era justo no dissuadir a
  filha de uma ambio, alis inocente e modesta. Oxal no viesse a ter outras
  de mais alto vo! Demais, que lhe poderia ele desejar, seno aquilo que a
  tornasse independente e lhe desse os meios de viver sem favor? Iai tinha por
  si a beleza e a instruo; podia no ser bastante para lhe dar casamento e
  famlia. Uma profisso honesta aparava os golpes possveis da adversidade. No
  se podia dizer que Iai tivesse talento musical: que importa? Para ensinar a gramtica
  da arte, era suficiente conhec-la.

Resta dizer que havia
  ainda uma terceira afeio de Iai; era Maria das Dores, a ama que a havia
  criado, uma pobre catarinense, para quem s havia duas devoes capazes de
  levar uma alma ao Cu: Nossa Senhora e a filha de Lus Garcia. Ia ela de quando
  em quando  casa deste, nos dias em que era certo encontrar l a menina, e ia
  de So Cristovo, onde morava. No descansou enquanto no alugou um casebre em
  Santa Teresa, para ficar mais perto da filha de criao. Um irmo, antigo
  furriel, que fizera a campanha contra Rosas, era seu companheiro de trabalho.

Tal era a vida uniforme
  e plcida de Lus Garcia. Nenhuma ambio, cobia ou peleja vinha toldar-lhe a
  serenidade da alma. A ltima dor sria que tivera foi a morte da esposa,
  ocorrida em 1859, meses antes de ir-se ele esconder em Santa Teresa. O tempo,
  esse qumico invisvel, que dissolve, compe, extrai e transforma todas as
  substncias morais, acabou por matar no corao do vivo, no a lembrana da
  mulher, mas a dor de a haver perdido. Importa dizer que as lgrimas derramadas
  nessa ocasio honraram a esposa morta, por serem conquista sua. Lus Garcia no
  casara por amor nem interesse; casara porque era amado. Foi um movimento
  generoso. A mulher no era de sua mesma ndole; seus espritos vinham de pontos
  diferentes do horizonte. Mas a dedicao e o amor da esposa abriram nele a
  fonte da estima. Quando ela morreu, viu Lus Garcia que perdera um corao
  desinteressado e puro; consolou-o a esperana de que a filha havia herdado uma
  parcela dele.

Assim vivia esse homem
  ctico, austero e bom, alheio s coisas estranhas, quando a carta de 5 de
  outubro de 1866 veio cham-lo ao drama que este livro pretende narrar.

CAPTULO II

A hora aprazada era
  incmoda para Lus Garcia, cujos hbitos de trabalho mal sofriam interrupo.
  No obstante, foi  Rua dos Invlidos.

Valria Gomes era viva
  de um desembargador honorrio, falecido cerca de dois anos antes, a quem o pai
  de Lus Garcia devera alguns obsquios e a quem este prestara outros. No havia
  entre ela e Lus Garcia relaes assduas ou estreitas; mas a viva e seu
  finado marido sempre o tiveram em boa conta e o tratavam com muito carinho.
  Defundo o desembargador, Valria recorrera duas ou trs vezes aos servios de
  Lus Garcia; contudo, era a primeira vez que o fazia com tamanha solenidade.

Valria recebeu-o
  afetuosamente, estendendo-lhe a mo, ainda fresca, apesar dos anos, que subiam
  de quarenta e oito. Era alta e robusta. A cabea, forte e levantada, parecia
  protestar pela altivez da atitude contra a moleza e tristura dos olhos. Estes
  eram negros, a sobrancelha basta, o cabelo abundante, listrado de alguns fios
  de prata. Posto no andasse alegre nos ltimos tempos, estava naquele dia
  singularmente preocupada. Logo que entraram na sala, deixou-se cair numa
  poltrona; caiu e ficou silenciosa alguns instantes. Lus Garcia sentou-se
  tranqilamente na cadeira que ela lhe designou.

-- Sr. Lus Garcia,
  disse a viva; esta guerra do Paraguai  longa e ningum sabe quando acabar.
  Vieram notcias hoje?

-- No me consta.

-- As de ontem no me
  animaram nada, continuou a viva depois de um instante. No creio na paz que o
  Lpez veio propor. Tenho medo que isto acabe mal.

-- Pode ser, mas no
  dependende de ns...

-- Por que no? Eu creio
  que  chegado o momento de fazerem todas as mes um grande esforo e darem
  exemplos de valor, que no sero perdidos. Pela minha parte trabalho com o meu
  Jorge para que v alistar-se como voluntrio; podemos arranjar-lhe um posto de
  alferes ou tenente; voltar major ou coronel. Ele, entretanto, resiste at
  hoje; no  falta de coragem nem de patriotismo; sei que tem sentimentos
  generosos. Contudo, resiste...

-- Que razo d ele?

-- Diz que no quer
  separar-se de mim.

-- A razo  boa.

-- Sim, porque tambm a
  mim custaria a separao. Mas no se trata do que eu ou ele podemos sentir:
  trata-se de coisa mais grave, -- da ptria, que est acima de ns.

Valria proferiu estas
  palavras com certa animao, que a Lus Garcia pareceu mais simulada que
  sincera. No acreditou no motivo pblico. O interesse que a viva mostrava
  agora em relao  sorte da campanha era totalmente novo para ele. Excludo o
  motivo pblico, algum haveria que ela no quisera ou no podia revelar.
  Justificaria ele semelhante resoluo? No se atreveu a formular a suspeita e a
  dvida; limitou-se a dissuadi-la, dizendo que um homem de mais ou de menos no
  pesaria nada na balana do destino, e desde que ao filho repugnava a separao
  era mais prudente no insistir. Valria redargia a todas essas reflexes com
  algumas idias gerais acerca da necessidade de dar fortes exemplos s mes.
  Quando foi preciso variar de resposta, declarou que entrava no projeto um pouco
  de interesse pessoal.

-- Jorge est formado,
  disse ela, mas no tem queda para a profisso de advogado nem para a de juiz.
  Goza por enquanto a vida; mas os dias passam, e a ociosidade faz-se natureza
  com o tempo. Eu quisera dar-lhe um nome ilustre. Se for para a guerra, poder
  voltar coronel, tomar gosto s armas, segui-las e honrar assim o nome de seu
  pai.

-- Bem; mas vejamos
  outra considerao. Se ele morrer?

Valria empalideceu e
  esteve alguns minutos calada, enquanto Lus Garcia olhava para ela, a ver se
  lhe adivinhava o trabalho interior da reflexo, esquecendo que a idia de um
  desastre possvel devia ter-lhe acudido, desde muito, e se no recuara diante
  dela,  porque a resoluo era inabalvel.

-- Pensei na morte,
  disse Valria da a pouco; e, na verdade, antes a obscuridade de meu filho que
  um desastre... mas repeli essa idia. A considerao superior de que lhe falei
  deve vencer qualquer outra.

Em seguida, como para
  impedir que ele insistisse nas reflexes apresentadas antes, disse-lhe
  claramente que, diante da recusa de Jorge, contava com o influxo de seus
  conselhos.

-- O senhor  nosso
  amigo, explicou ela; seu pai tambm foi nosso amigo. Sabe que um e outro sempre
  nos mereceram muita considerao. Em todo caso, no quisera recorrer a outra
  pessoa.

Lus Garcia no
  respondeu logo; no tinha nimo de aceitar a incumbncia e no queria
  abertamente recusar; procurava um meio de esquivar-se  resposta. Valria
  insistiu por modo que era impossvel calar mais tempo.

-- O que me pede  muito
  grave, disse ele; se o Dr. Jorge der algum peso a meus conselhos e seguir para
  a guerra, assumo uma poro de responsabilidade, que no s me h de gravar a
  conscincia, como influir para alterar nossas relaes e diminuir talvez a
  amizade benvola que sempre achei nesta casa. O obsquio que hoje exige de mim,
  quem sabe se mo no lanar em rosto um dia como ato de leviandade?

-- Nunca.

-- Nesse dia, observou
  Lus Garcia sorrindo levemente, h de ser to sincera como hoje.

-- Oh! o senhor est com
  idias negras! Eu no creio na morte; creio s na vida e na glria. A guerra
  comeou h pouco e h j tanto heri! Meu filho ser um deles.

--No creio em
  pressentimentos.

-- Recusa?

-- No me atrevo a
  aceitar.

Valria ficou abatida
  com a resposta. Aps alguns minutos de silncio, ergueu-se e foi buscar o leno
  que deixara sobre um mvel, ao entrar na sala. Enxugou o rosto, e ficou a olhar
  para o cho, com um dos braos cados, em atitude meditativa. Lus Garcia
  comeou a refletir no modo de a dissuadir eficazmente. Seu cepticismo no o
  fazia duro aos males alheios, e Valria parecia padecer naquele instante,
  qualquer que fosse a sinceridade de suas declaraes. Ele quisera achar um meio
  de conciliar os desejos da viva com a sua prpria neutralidade, -- o que era
  puramente difcil.

-- Seu filho no 
  criana, disse ele; est com vinte e quatro anos; pode decidir por si, e
  naturalmente no me dir outra coisa... Demais,  duvidoso que se deixe levar
  por minhas sugestes, depois de resistir aos desejos de sua me.

-- Ele respeita-o muito.

Respeitar no era o
  verbo pertinente; atender fora mais cabido, porque exprimia a verdadeira
  natureza das relaes entre um e outro. Mas a viva lanava mo de todos os
  recursos para obter de Lus Garcia que a ajudasse em persuadir o filho. Como
  ele lhe dissesse ainda uma vez que no podia aceitar a incumbncia, viu-a
  morder o lbio e fazer um gesto de despeito. Lus Garcia adotou ento um
  meio-termo:

-- Prometo-lhe uma
  coisa, disse ele; irei sond-lo, discutir com ele os prs e os contras do seu
  projeto, e se o achar mais inclinado. . .

Valria abanou a
  cabea.

-- No faa isso; desde
  j lhe digo que ser tempo perdido. Jorge h de repetir as mesmas razes que me
  deu, e o senhor as aceitar naturalmente. Se alguma coisa lhe mereo, se no
  morreu em seu corao a amizade que o ligou  nossa famlia, peo-lhe que me
  ajude francamente neste empenho, com a autoridade de sua pessoa. Entre nisto,
  como eu mesma, disposto a venc-lo e convenc-lo. Faz me este obsquio?

Lus Garcia refletiu um
  instante.

-- Fao, disse ele
  frouxamente.

Valria mostrou-se
  reanimada com a resposta; disse-lhe que fosse l jantar naquele mesmo dia ou no
  outro. Ele recusou duas vezes; mas no pde resistir s instncias da viva, e
  prometeu ir no dia seguinte. A promessa era um meio, no s de pr termo 
  insistncia da viva, mas tambm de encaminhar-se a saber qual era a mola
  secreta da ao daquela senhora. A honra nacional era certamente o colorido
  nobre e augusto de algum pensamento reservado e menos coletivo. Lus Garcia
  abriu velas  reflexo e conjeturou muito. Afinal no duvidava do empenho
  patritico de Valria, mas perguntava a si mesmo se ela quereria colher da ao
  que ia praticar alguma vantagem especialmente sua.

-- O corao humano  a
  regio do inesperado, dizia consigo o ctico subindo as escadas da repartio.

Na repartio soube da
  chegada de tristes notcias do Paraguai. Os aliados tinham atacado Curupaiti e
  recuado com grandes perdas: o inimigo parecia mais forte do que nunca.
  Supunha-se at que as propostas de paz no tinham sido mais do que um engodo
  para fortalecer a defesa. Assim, a sorte das armas vinha reforar os argumentos
  de Valria. Lus Garcia adivinhou tudo o que ela lhe diria no dia seguinte.

No dia seguinte foi ele
  jantar  Rua dos Invlidos. Achou a viva menos consternada do que deveria
  estar,  vista das notcias da vspera, se porventura os sucessos da guerra a
  preocupassem tanto como dizia. Pareceu-lhe at mais serena. Ela ia e vinha com
  um ar satisfeito e resoluto. Tinha um sorriso para cada coisa que ouvia, um
  carinho, uma familiaridade, uma inteno de agradar e seduzir, que Lus Garcia
  estudava com os olhos agudos da suspeita.

Jorge, pelo contrrio,
  mostrava-se retrado e mudo. Lus Garcia,  mesa do jantar, examinava-lhe a
  furto a expresso dos olhos tristes e a ruga desenhada entre as sobrancelhas,
  gesto que indicava nele o despeito e a irritao. Na verdade, era duro enviar
  para a guerra um dos mais belos ornamentos da paz. Naqueles olhos no morava
  habitualmente a tristeza; eles eram, de costume, brandos e pacficos. Um bigode
  negro e basto, obra comum da natureza e do cabeleireiro, cobria-lhe o lbio e
  dava ao rosto a expresso viril que este no tinha. A estatura esbelta e nobre
  era a nica feio que absolutamente podia ser militar. Elegante, ocupava Jorge
  um dos primeiros lugares entre os dndis da Rua do Ouvidor; ali podia
  ter nascido, ali poderia talvez morrer.

Valria acertava quando
  dizia no achar no filho nenhum amor  profisso de advogado. Jorge sabia muita
  coisa do que aprendera; tinha inteligncia pronta, rpida compreenso e memria
  vivssima. No era profundo; abrangia mais do que penetrava. Sobretudo, era uma
  inteligncia terica; para ele, o praxista representava o brbaro. Possuindo
  muitos bens, que lhe davam para viver  farta, empregava uma partcula do tempo
  em advogar o menos que podia -- apenas o bastante para ter o nome no portal do
  escritrio e no Almanaque de Laemmert. Nenhuma experincia contrastava
  nele os mpetos da juventude e os arroubos da imaginao. A imaginao era o
  seu lado fraco, porque no a tinha criadora e lmpida, mas vaga, tumultuosa e
  estril. Era generoso e bom, mas padecia um pouco de fatuidade, que lhe
  diminua a bondade nativa. Havia ali a massa de um homem futuro,  espera que
  os anos, cuja ao  lenta, oportuna e inevitvel, lhe dessem fixidez ao
  carter e virilidade  razo.

No foi alegre nem
  animado o jantar. Falaram a princpio de coisas indiferentes; depois Valria
  fez recair a conversao nas ltimas notcias do Paraguai. Lus Garcia declarou
  que lhe no pareciam to ms, como diziam as gazetas, sem contudo negar que se
  tratava de um srio revs.

--  guerra para seis
  meses, concluiu ele.

-- S?

Esta pergunta foi a
  primeira palavra de Jorge, que at ento no fizera mais do que ouvir e comer.
  Valria tomou a outra ponta do dilogo, e confirmou a opinio de Lus Garcia.
  Mas o filho continuou a no intervir. Acabado o jantar, Valria ergueu-se; Lus
  Garcia fez o mesmo; a viva, pousando-lhe a mo no ombro, disse em tom familiar
  e intencional:

-- Sem cerimnia; eu
  volto j.

Uma vez ss os dois
  homens, Lus Garcia achou de bom aviso ir de ponto em branco ao assunto que ali
  os reunira.

-- No tem vontade de ir
  tambm ao Paraguai? perguntou ele logo que Valria desapareceu no corredor.

-- Nenhuma. Contudo,
  acabarei por a.

-- Sim?

-- Mame no deseja
  outra coisa, e o senhor mesmo sei que  dessa opinio.

Uma resposta negativa
  roou os lbios de Lus Garcia; a tempo a reprimiu, confirmando com o silncio
  a pia fraude de Valria. Tinha nas mos o meio de inutilizar o efeito do
  equvoco; era mostrar-se indiferente. Jorge distraia-se em equilibrar um palito
  na borda de um clix; o interlocutor, depois de olhar para ele, rompeu enfim a
  larga pausa:

-- Mas por que motivo
  cede hoje, depois de recusar tanto tempo?

Jorge ergueu os olhos,
  fez-lhe um sinal e foram para o terrao.

-- O senhor  amigo
  velho de nossa casa, disse ele; posso confiar-lhe tudo. Mame quer mandar-me
  para a guerra, porque no pode impedir os movimentos do meu corao.

-- Algum namoro,
  concluiu friamente Lus Garcia.

-- Uma paixo.

-- Est certo do que
  diz?

-- Estou.

-- No creio, tornou
  Lus Garcia depois de um instante.

-- Por que no? Ela
  conta com a distncia e o tempo, para matar um amor que supe no haver criado
  razes profundas.

Lus Garcia dera alguns
  passos, acompanhado pelo filho de Valria; parou um instante, depois
  continuaram ambos a passear de um para outro lado. O primeiro refletia na
  explicao, que lhe pareceu verossmil, se o amor do rapaz era indigno de seu
  nome. Essa pergunta no se animou a faz-la; mas procurou uma vereda tortuosa
  para ir dar com ela.

-- Uma viagem  Europa,
  observou Lus Garcia depois de curto silncio, produziria o mesmo resultado,
  sem outro risco mais que...

-- Recusei a viagem, foi
  ento que ela pensou na guerra.

-- Mas se ela quisesse
  ir  Europa, o senhor recusaria acompanh-la?

-- No; mas mame
  detesta o mar; no viajaria nunca.  possvel que, se eu resistisse at 
  ltima, em relao  guerra, ela vencesse a repugnncia ao mar e iramos os
  dois...

-- E por que no
  resistiu?

-- Primeiramente, porque
  estava cansado de recusar. H ms e meio que dura esta luta entre ns. Hoje, 
  vista das notcias do Sul, falou-me com tal instncia que cedi de uma vez. A
  segunda razo foi um sentimento mau -- mas justificvel. Escolho a guerra,
  afinal de que se alguma coisa me acontecer, ela sinta o remorso de me haver perdido.

Lus Garcia parou e
  encarou silenciosamente o mancebo.

-- Sei o que quer dizer
  esse olhar, continuou este; acha-me feroz, e eu sou apenas natural. O
  sentimento mau teve s um minuto de durao. Passou. Ficou-me uma sombra de
  remorso. No acuso mame; sei as lgrimas que lhe vai custar a separao...

-- Ainda  tempo de
  recuar.

-- O que est feito,
  est feito, disse Jorge erguendo os ombros.

-- Sabe que mais? Acho
  mau gosto dar a este negcio um desenlace pico. Que tem que fazer nisto a
  guerra do Paraguai? Vou sugerir-lhe um meio de arranjar as coisas. Ceda metade
  somente; v  Europa sozinho, volte no fim de dois ou trs anos...

Jorge sorriu
  desdenhosamente.

-- Seu conselho mostra a
  diferena de nossas idades, disse ele. Se eu fosse para a Europa, que
  sacrifcio faria  pessoa a quem amo? Pelo contrrio, a sacrificada era ela. Eu
  ia divertir-me, passear, ver coisas novas, talvez achar novos amores. Indo 
  guerra,  diferente; sacrifico o repouso e arrisco a vida;  alguma coisa.
  Separados, embora, no me negar sua estima...

-- Sua estima? disse
  Lus Garcia admirado.

No continuou; mas
  Jorge compreendeu, por aquela s palavra, a que classe de mulheres ele supunha
  pertencer a eleita de seu corao. Fez um gesto; no se animou a dizer nada.
  Arrependeu-se talvez de haver dito tanto. Sem ousar recomendar-lhe silncio,
  comeou a insinu-lo delicadamente; ttica escusada, porque Lus Garcia no era
  homem de revelar o que se lhe confiava; e perigosa, porque fazia crescer as
  propores do mistrio. Lus Garcia sorriu interiormente ao sentir a arte
  cautelosa de Jorge; e quando ela lhe pareceu enfadonha:

-- Descanse, disse ele;
  no receie que eu v publicar seus amores. Repito-lhe o conselho: no se atire
  de cabea para baixo numa aventura sem fundo. Ir para a guerra  muito nobre,
  mas h de ser levado de outros sentimentos. Um desacordo por motivo de namoro,
  no  o Porto Alegre nem o Polidoro,  um padre que lhe deve pr termo.

Jorge sorriu com ar
  afvel, e despediu-se de Lus Garcia; foi dali vestir-se para ir ao teatro.
  Lus Garcia estava mais do que nunca resoluto a deixar que os acontecimentos
  tivessem livre curso, sem nenhuma interveno sua. Logo que Jorge saiu,
  disps-se a fazer o mesmo, despedindo-se de Valria. Esta acompanhou-o at 
  porta da sala.

-- No me diz nada?
  perguntou ela quando o viu prestes a transpor a porta.

-- Que lhe hei de dizer?

-- Falou a meu filho?

-- Falei.

-- Achou-o disposto?

-- No digo que no.

-- Mas de m vontade?

-- No digo que sim.

Valria sorriu com uma
  ponta de despeito.

-- Vejo que este assunto
  o aborrece.

Lus Garcia disse que
  no. Valria encostou-se ao portal.

-- Ningum! exclamou
  ela. No tenho ningum a meu lado. S; ficarei s.

-- Sejamos francos,
  disse Lus Garcia; seu filho cede, mas cede violentado, e no vejo que se possa
  fazer dele um heri. Que motivo to forte a obriga a exigir desse moo um
  sacrifcio superior a suas posses?

Valria no respondeu.

-- Sei o motivo, disse
  ele da a um instante.

-- Sabe?

-- Suspeito; e se me
  permite ser franco, direi que o acho singular, pelo menos no h propores
  entre a causa e o efeito. Seu filho ama. Trata-se de uma mulher de certa
  espcie? So correrias da mocidade, e as dele no so tais que faam escndalo,
  creio eu. Trata-se de alguma moa, cuja aliana lhe no parea aceitvel? Nada
  lhe direi a tal respeito; mas reflita primeiro antes de o mandar ao Paraguai.

Valria prendeu a mo
  direita de Lus Garcia entre as suas; refletiu longo tempo; depois disse com
  voz sumida:

-- Suponha... que se
  trata... de uma senhora casada?

Lus Garcia curvou a
  cabea com um gesto de assentimento. Como seus olhos baixassem ao cho no pde
  ver no rosto da viva uma ligeira cor que avermelhou e desapareceu. Se lha
  visse, se a fitasse imperiosamente, talvez a viva baixasse os olhos
  envergonhada de haver mentido. Lus Garcia no viu nada. Calou-se, aprovou a
  viva e prometeu auxili-la.

Era noite quando Lus
  Garcia saiu da casa de Valria. Ia aborrecido de tudo, da me e do filho, -- de suas
  relaes naquela casa, das circunstncias em que se via posto. Galgando a
  ladeira a p, detendo-se de quando em quando a olhar para baixo, ia como
  apreensivo do futuro, supersticioso, tomado de temores intermitentes e
  inexplicveis. No tardou a aparecer-lhe a luz da casa, e, da a pouco, a ouvir
  a cantilena solitria do escravo e as notas rudimentais da marimba. Eram as
  vozes da paz; ele apertou o passo e refugiou-se na solido.

CAPTULO III

Lus Garcia pouco
  trabalho teve no nimo de Jorge. A resoluo deste, uma vez declarada, no
  recuou mais. No desconhecia o moo que a empresa a que metia ombros era crespa
  de dificuldades. A guerra, sobretudo depois do desastre de Curupaiti, prometia
  durar muito; no havia desnimo, e o governo era auxiliado eficazmente pela
  populao. Jorge obteve uma patente de capito de voluntrios.

Vinte dias depois da
  conversa no terrao da Rua dos Invlidos, apresentou-se Jorge em Santa Teresa,
  fardado e pronto, de tal modo porm que era ainda difcil separar o casquilho
  do militar. A mesma tesoura que lhe cortava os fraques, talhara a farda de
  capito. Trazia  cintura uma banda vermelha, cujas pontas caam graciosamente
  ao lado. Calava um botim reluzente, sobre o qual assentava a cala de fino pano.
  Inclinado levemente  direita, o bon no lhe desconcertava o cabelo, penteado
  ao estilo de todos os dias; o bigode tinha as mesmas guias longas, agudas e
  lustrosas.

Lus Garcia no pde
  furtar-se a um sentimento de pena, ao v-lo entrar fardado e prestes a seguir
  para o Sul. Pareceu-lhe descobrir por trs dele o perfil da morte, com o eterno
  sorriso sem lbios. Mas esse sentimento de comiserao passou; lembrou-lhe logo
  a ltima palavra da viva, e no pde deixar de conden-lo. Viu at, com certa repulsa,
  esse corao de vinte e quatro anos, que ia arriscar a vida prpria, e talvez a
  de sua me, para no rejeitar um sentimento mau.

-- Estou a seu gosto?
  perguntou Jorge com um ar de benvola ironia.

-- H de estar melhor no
  fim da guerra, Sr. general, respondeu o outro.

-- General? Pode ser.

Dizendo isto, Jorge
  entrou a falar de suas esperanas e futuros. A imaginao comeava a dissipar a
  melancolia. Ele via j naquilo uma aventura romanesca e misteriosa; sentia-se
  uma ressurreio de cavaleiro medievo, saindo a combater por amor de sua dama,
  castel opulenta e formosa que o esperaria na varanda gtica, com a alma nos
  olhos e os olhos na ponte levadia. A idia da morte ou da mutilao no vinha
  agitar-lhe ao rosto suas asas plidas e sangrentas. O que ele tinha diante de
  si eram os campos infinitos da esperana. Contudo, o momento era grave, e
  dificilmente podia o esprito esquivar-se  reflexo intermitente. Alm disso,
  Jorge subira a Santa Teresa com a resoluo de contar tudo a Lus Garcia, a fim
  de deixar um confidente austero e nico de seus amores; mas a palavra no se
  atrevia a sair do corao. Ou a idade do outro ou a ndole de suas relaes
  tolhia essa confidncia ntima; ainda mais do que uma e outra razo, havia
  naquele momento o gesto singularmente preocupado e duro de Lus Garcia. Jorge
  deu de mo ao projeto.

-- D-me o abrao de
  despedida, disse ele; embarco amanh.

-- J amanh?

-- Vim despedir-me do
  senhor.

Lus Garcia
  considerou-o silenciosamente durante dois ou trs minutos; depois apertou-lhe
  as mos.

-- V, disse; trabalhe
  pela terra; no se poupe a trabalhos, nem se exponha sem utilidade; em todo o
  caso, obedea  disciplina, e no se esquea um s dia de sua me.

Jorge saiu e desceu a
  passo largo e trmulo na direo da Rua de D. Lusa. A meio caminho parou, como
  se quisesse tomar outra direo; ergueu os ombros e prosseguiu. Ia mergulhado
  em si mesmo, e s deu acordo ao parar diante de uma casa daquela rua.

Antes de l entrar,
  vejamos quem eram os moradores.

O defunto marido de
  Valria, no tempo em que advogava, tinha um escrevente, que, mais ainda do que
  escrevente, era seu homem de confiana. Chamava-se o Sr. Antunes. Foram
  servios de certa ordem que os ligaram mais intimamente. A fortuna troca s
  vezes os clculos da natureza; uma e outra iam de acordo na pessoa daquele
  homem, nado e criado para as funes subalternas. Familiar com todas as formas
  da adulao, o Sr. Antunes ia do elogio hiperblico at o silncio oportuno.
  Tornou-se dentro de pouco, no s um escrevente laborioso e pontual, mas
  tambm, e sobretudo, um fac-totum do desembargador, seu brao direito,
  desde os recados eleitorais at s compras domsticas, vasta escala em que
  entrava o papel de confidente das entrepresas amorosas. Assim que, nunca lhe
  fez mngua a proteo do desembargador. Viu crescer-lhe o ordenado,
  multiplicarem-se-lhe as gratificaes; foi admitido a comer algumas vezes em
  casa, nos dias comuns, quando no havia visitas de cerimnia. Nas ocasies mais
  solenes era ele o primeiro que se esquivava. Ao cabo de trs anos de
  convivncia tinha consolidado a situao.

Justamente nesse tempo
  sucedeu morrer-lhe a mulher, de quem lhe ficou uma filha de dez anos, menina
  interessante, que algumas vezes visitara a casa do desembargador. Este fez o
  enterro da me e pagou o luto da filha e do pai. O Sr. Antunes, que no era de
  extremas filosofias, tinha a convico de que debaixo do sol, nem tudo so
  vaidades, como quer o Eclesiastes, nem tudo perfeies, como opina o Doutor Pangloss;
  entendia que h larga ponderao de males e bens, e que a arte de viver
  consiste em tirar o maior bem do maior mal. Morta a mulher, alcanou do
  desembargador um enxoval completo para fazer entrar a filha num colgio, visto
  que at ento nada aprendera, e j agora no podia deix-la sozinha em casa. O
  desembargador dera o enxoval; algumas vezes pagou o ensino; as visitas
  amiudaram-se; a criana, que era bonita e boa, entrou manso e manso no corao
  de Valria que a recebeu em casa, no dia em que a pequena concluiu os estudos.

Estela -- era o seu
  nome, -- tinha ento dezesseis anos. Pouco antes falecera o desembargador. O Sr.
  Antunes recebeu dois golpes em vez de um: o de o ver morrer, e o de no o ver
  testar. As aneurismas tm dessas perfdias inopinveis. A fim de emendar a mo
   fortuna, o pai de Estela concentrou na viva a ateno que at ento
  repartira entre ela e o marido, fato que alis decorria da prpria obrigao
  moral em que se achava para com a famlia do desembargador. Estela devia a essa
  famlia educao e carinho; podia talvez ir a dever-lhe um dote, um marido e
  considerao. Quem sabe? Talvez o corao de Jorge vinculasse as duas famlias.
  Esta ambio afagava-a o Sr. Antunes no mais profundo de sua alma.

Jorge estava prestes a
  concluir os estudos em So Paulo; ia na metade do quarto ano. Vindo  Capital
  durante as frias, achou-se diante de uma situao inesperada; a me esboara
  um projeto de casamento para ele. A noiva escolhida era ainda parenta remota de
  Jorge. Chamava-se Eullia. Tinha dezenove anos na certido de batismo e trinta
  no crebro. Era uma moa sem iluses nem vaidades, talvez sem paixes, dotada
  de juzo reto e corao simples, e sobre tudo isso uma beleza sem mcula e uma
  elegncia sem espavento. -- Uma prola! dizia Valria quando insinuou ao filho a
  convenincia de casar com Eullia. A prola, entretanto, no parecia ansiosa de
  ornar a fronte de ningum. Quando Valria fez as primeiras sondagens no corao
  da jovem parenta, achou ali uma gua tranqila, sem curso nem recurso de mars.
  Tratou de saber se alguma brisa lhe roara a asa, e descobriu que no; ento
  chamou em seu auxlio o siroco e o pampeiro. No foi difcil a Eullia perceber
  os desejos da viva, nem resistiu quando chegou a entend-la. A razo disse-lhe
  que o casamento era aceitvel; esperou. Valria ficou satisfeita com o
  resultado, e deu-se pressa em sondar as disposies de Jorge, quando ele voltou
  no fim do ano.

Graas  sua arte de
  assediar as vontades alheias, Valria alcanou do filho uma resposta
  condicional. Era j alguma coisa. O motivo da insistncia da viva era
  complexo; eram as qualidades da parenta, a afeio grande que lhe votava, o
  receio de morrer subitamente e a confiana que tinha em si mesma para conhecer
  e eleger caracteres. Durante o ltimo ano da Faculdade, Jorge pensou algumas
  vezes no casamento como se pensa num projeto remoto; mas,  proporo que o
  tempo corria, o corao ia-se-lhe tornando retrado e medroso. Uma vez formado,
  deu de mo  idia; no teve a franqueza de o declarar  me, e Valria esperou
  confiadamente que o corao do filho dissesse noutra lngua aquilo que ela j
  lhe havia dito na sua.

Para conhecer
  exatamente o motivo da repulsa de Jorge em relao a uma moa, cujas qualidades
  deviam tentar qualquer outro, convm no esquecer que essas qualidades eram
  justamente as mais avessas  ndole do filho de Valria. No bastava ser
  elegante e bonita, discreta e mansa; era preciso alguma coisa mais, que
  exatamente correspondesse  imaginao dele; faltava-lhe um gro de romanesco.

A isto acrescia um
  sentimento novo, que se apossou dele, ao cabo de trs semanas depois da chegada
  ao Rio de Janeiro. A vista quotidiana de Estela produziu em Jorge uma impresso
  forte. Posto vivessem na mesma casa, era difcil acharem-se nunca a ss, porque
  a filha do escrevente passava todo o tempo ao p da viva; circunstncia que
  no teve a virtude de mudar o curso aos acontecimentos. No podendo passar de
  palavras gerais e estranhas ao que lhe quisera confiar, Jorge falava-lhe com os
  olhos, -- linguagem que a moa no entendia, ou fingia no entender. A
  imperturbvel seriedade de Estela foi um aguilho mais, no menos cruel que a
  gentileza de suas formas, e certo ar de resoluo que lhe transparecia do rosto
  quieto e plido.

Plida era, mas sem
  nenhum tom de melancolia asctica. Tinha os olhos grandes, escuros, com uma
  expresso de virilidade moral, que dava  beleza de Estela o principal
  caracterstico. Uma por uma, as feies da moa eram graciosas e delicadas, mas
  a impresso que deixava o todo estava longe da meiguice natural do sexo.
  Usualmente, trazia roupas pretas, cor que preferia a todas as outras. Nu de
  enfeites, o vestido punha-lhe em relevo o talhe esbelto, elevado e flexvel.
  Nem usava nunca traz-lo de outro modo, sem embargo de algum dixe ou renda com
  que a viva a presenteava de quando em quando; rejeitava de si toda a sorte de
  ornatos; nem folhos, nem brincos, nem anis. Ao primeiro aspecto dissera-se um
  Digenes feminino, cuja capa, atravs das roturas, deixava entrever a vaidade
  da beleza que quer afirmar-se tal qual , sem nenhum outro artifcio. Mas,
  conhecido o carter da moa, eram dois os motivos -- um sentimento natural de
  simplicidade, e, mais ainda, a considerao de que os meios do pai no davam
  para custosos atavios, e assim no lhe convinha afeioar-se ao luxo.

-- Por que no pe os
  brincos que mame lhe deu a semana passada? perguntou Jorge a Estela, um dia,
  em que havia gente de fora a jantar.

-- Os presentes mais
  queridos guardam-se, respondeu ela olhando para a viva.

Valria apertou-lhe a
  ponta do queixo entre o polegar e o indicador: -- Poeta! exclamou sorrindo. Voc
  no precisa de brincos para ser bonita, mas v p-los, que lhe ficam bem.

Foi a primeira e ltima
  vez que Estela os ps. A inteno era patente demais para no ser
  notada, e Jorge no esqueceu nem a resposta da moa nem o constrangimento com
  que obedeceu. No podia supor-lhe ingratido, porque via a afeio com que
  Estela tratava a me. Em relao a ele no parecia haver afeio igual, mas
  havia certamente respeito e considerao, rara vez familiaridade, e ainda
  assim, uma familiaridade enluvada, um ar de visita de pouco tempo.

Jorge comeou a achar
  mais agradvel a casa do que a rua; e as noites, quando no havia pessoas de
  fora, passava-as  volta de uma mesa, lendo ou jogando com as duas, ou vendo-as
  trabalhar, enquanto contava anedotas da academia, lia as correspondncias do
  Paraguai e de Buenos Aires, ou simplesmente alguma pgina de romance. Nessa
  vida, meio patriarcal, as horas corriam depressa, to depressa, que ele no as
  sentia. Ao cabo de cinco a seis semanas, fez-se ele seu prprio confessor,
  examinou a conscincia, descobriu l dentro alguma coisa que no era a fantasia
  sensual do primeiro instante, e, longe de absolver-se, condenou-se  crua
  penitncia de absteno. Voltou aos antigos hbitos e deixou os seres
  domsticos. Mas a aplicao do remdio, por mais sincera que fosse, j no
  podia muito contra a ao do mal. Estela freqentava-lhe tenazmente a memria;
  e na rua, no teatro, nas assemblias a que ia, o perfil severo da moa vinha
  meter-se entre ele e a realidade. Se pudesse deixar de a ver, a convalescena
  no era ainda difcil; mas como fugir  lembrana de uma mulher cuja figura lhe
  aparecia durante algumas horas de cada dia? Demais, a sonmbula que ele tinha
  no crebro vinha auxiliar a fatalidade das circunstncias. No fim de um ms, a
  ndole do sentimento havia mudado: era mais pura; mas o sentimento no parecia
  disposto a esvair-se: era mais violento.

Como o Sr. Antunes
  levasse a filha, uma noite, a visitar pessoa de sua amizade, Jorge aproveitou a
  circunstncia para insinuar a Valria a convenincia de restituir Estela a seu
  pai.

-- Por qu? perguntou a
  viva.

-- Sempre  um tropeo,
  uma pessoa estranha metida entre ns, -- replicou Jorge. No lhe nego que tem
  boas qualidades; mas...  uma pessoa estranha.

-- Que importa, se me
  dou bem com ela? Conheo-a desde pequena;  uma companhia melhor do que
  qualquer outra. Mas por que te lembras disso agora?

-- Estive pensando na
  responsabilidade que pesa sobre ns. Se fosse nossa parenta, v, no se podia
  dispensar a obrigao; mas no sendo, creio que era melhor libertarmo-nos.

-- Descansa; quando for
  tempo, caso-a. O que no admito  algum marido de pouco mais ou menos. H de
  ser pessoa que a merea. No sabes o que vale aquela menina. No  s boa, tem
  certa elevao de sentimentos; nunca me desatendeu e nunca me adulou.

Jorge confirmou com a
  cabea e no disse mais nada. O que acabava de fazer no passava de uma
  tentativa sincera, mas frouxa, para arredar Estela da casa; era o imposto pago
   conscincia. Quite com ela, entregou-se aos acontecimentos, confessando a si
  mesmo que o perigo no era to grave, nem o remdio to urgente; finalmente,
  que ele era homem.

No meio de semelhante
  situao, que sentia ou que pensava Estela? Estela amava-o. No instante em que
  descobriu esse sentimento em si mesma, pareceu-lhe que o futuro se lhe rasgava
  largo e luminoso; mas foi s nesse instante. To depressa descobriu o
  sentimento, como tratou de o estrangular ou dissimular, -- tranc-lo ao menos no
  mais escuso do corao, como se fora uma vergonha ou um pecado.

-- Nunca! jurou ela a si
  mesma.

Estela era o vivo
  contraste do pai, tinha a alma acima do destino. Era orgulhosa, to orgulhosa
  que chegava a fazer da inferioridade uma aurola; mas o orgulho no lhe
  derivava de inveja impotente ou de estril ambio; era uma fora, no um
  vcio, -- era o seu broquel de diamante, -- o que a preservava do mal, como o do
  anjo de Tasso defendia as cidades castas e santas. Foi esse sentimento que lhe
  fechou os ouvidos s sugestes do outro. Simples agregada ou protegida, no se
  julgava com direito a sonhar outra posio superior e independente; e dado que
  fosse possvel obt-la,  lcito afirmar que recusara, porque a seus olhos
  seria um favor, e a sua taa de gratido estava cheia. Valria, que tambm era
  orgulhosa, descobrira-lhe essa qualidade, e no lhe ficou querendo mal; ao
  contrrio, veio a apreci-la melhor.

Pois o orgulho de
  Estela no lhe fez somente calar o corao, infundiu-lhe a confiana moral
  necessria para viver tranqila no centro mesmo do perigo. Jorge no percebera
  nunca os sentimentos que inspirara; e, por outro lado, nunca viu a
  possibilidade de os inspirar um dia. Estela s lhe manifestava o frio respeito
  e a fria dignidade.

Um dia, vagando uma
  casa de Valria no caminho da Tijuca, determinou-se a viva a ir examin-la,
  antes de a alugar outra vez. Foi acompanhada do filho e de Estela. Saram cedo,
  e a viagem foi alegre para a moa, que pela primeira vez ia aquele arrabalde.
  Quando a carruagem parou, supunha Estela que mal tivera tempo de sair da Rua
  dos Invlidos.

A casa precisava de
  alguns reparos; um mestre-de-obras, que j ali estava, acompanhou a famlia de
  sala em sala e de alcova em alcova. S ele e Valria falavam; Estela no tinha
  voto consultivo e Jorge parecia indiferente. Que lhe importava a ele o reboco
  de uma parede ou o conserto de um soalho? Ele gracejava, ria ou sussurrava ao
  ouvido de Estela um epigrama a respeito do mestre-de-obras, cuja prosdia era
  execrvel. Estela, que sorria com ele, cerrava entretanto o gesto aos
  epigramas.

De sala em sala,
  chegaram a uma pequena varanda, onde uma circunstncia nova os deteve algum
  tempo. Numa das extremidades da varanda havia um pombal velho, onde eles foram
  achar, esquecido ou abandonado, um casal de pombos. As duas aves, aps vinte e
  quatro horas de solido, pareciam saudar as pessoas que ali apareciam
  repentinamente.

-- Coitadinhos! disse
  Estela logo que entrou na varanda.

Valria prestou um
  minuto de ateno, talvez meio, e seguiu a ver a casa. Estela ficara a olhar
  para os dois pombos, e no a viu sair.

-- Quer lev-los? disse
  a voz de Jorge.

A moa voltou-se e
  respondeu que no.

-- Contudo, continuou
  ela, era bom d-los a algum para no morrerem  fome. So to bonitos!

-- Mas por que no os h
  de levar a senhora mesma?

-- Vou pedir ao mestre
  que os tire dali, disse ela dando um passo para dentro.

-- No  preciso: eu vou
  tir-los.

Estela recusou, mas o
  bacharel resolvera e ia satisfazer ele prprio o desejo da moa. O pombal no
  ficava ao alcance da mo; era preciso trepar ao parapeito da varanda, crescer
  na ponta dos ps e estender o brao. Ainda assim, precisaria contar com a boa
  vontade dos pombos. Jorge trepou ao parapeito. Se perdesse o equilbrio poderia
  cair ao cho da chcara; para evit-lo, Jorge lanou a mo esquerda a um ferro
  que havia na coluna do canto, e que o amparou; depois esticou o corpo e
  alcanou com a mo o pombal. Um dos pombos ficou logo seguro; o outro, a
  princpio arisco, foi colhido depois de algum esforo. Estela recebeu-os; Jorge
  saltou ao cho.

-- A Sra. D. Valria, se
  visse isto, havia de ralhar, disse Estela.

-- Grande faanha!
  respondeu Jorge sacudindo com o leno as mos e a aba do fraque.

-- Podia cair.

-- Mas no ca; foi um
  risco que passou. So bonitinhos, no so? continuou ele apontando para os
  pombos que Estela tinha entre as mos.

A moa respondeu com um
  gesto e deu alguns passos, a fim de ir ter com a viva. Jorge deteve-a,
  metendo-se entre ela e a porta.

-- No se v embora,
  disse ele.

-- Que ? perguntou
  Estela erguendo tranqilamente os grandes olhos lmpidos.

-- Disfarada!

Estela baixou
  silenciosamente a cabea e buscou dar outra volta para entrar na sala ao p;
  Jorge, porm, interceptou-lhe de novo o caminho.

-- Deixe-me passar,
  disse ela sem clera nem splica.

Jorge recuara at a
  porta, nica das trs que estava aberta. Era arriscado o que fazia; mas, alm
  de que Valria e o mestre estavam no pavimento superior, -- ele ouvia-lhes os
  passos, -- perdera naquela ocasio toda a lucidez de esprito. Era deserto o
  lugar, e naturalmente seria longo o tempo de que poderia dispor para lhe dizer
  tudo. Mas os lbios ficaram cerrados alguns instantes, enquanto os olhos diziam
  a eloqncia da paixo mal contida e prestes a irromper.

No insistiu Estela,
  mas ficou diante dele, quieta e sem arrogncia, como esperando ser obedecida.
  Jorge quisera-a suplicante ou desvairada; a tranqilidade feria-lhe o
  amor-prprio, fazendo-lhe ver que o perigo era nenhum, e revelando, em todo
  caso, a mais dura indiferena. Quem era ela para o afrontar assim? Era a segunda
  vez que formulava essa pergunta; tinha-a feito nas primeiras auroras da paixo.
  Desta vez a resposta foi deplorvel. Cravando os olhos em Estela, disse com voz
  trmula, mas imperiosa:

-- No h de sair daqui,
  sem me dizer se gosta de mim. Vamos; responda! No sabe o que lhe pode custar
  esse silncio?

No obtendo resposta,
  continuou depois de alguma pausa:

--  animosa! Saiba que
  posso vir a odi-la e que talvez j a odeio; saiba tambm que posso tirar
  vingana de seus desprezos, e chegarei a ser cruel, se for necessrio.

Estela suspirou apenas,
  e foi encostar-se ao parapeito, a olhar para a chcara. Era sua inteno no
  irrit-lo, com a resposta seca e m que lhe ditava o corao, e esperar que
  Valria descesse. Entretanto, na posio em que ficara tinha as costas voltadas
  para Jorge, circunstcia que no era intencional, mas que pareceu a este um
  simples meio de lhe significar o seu desdm. A irritao de Jorge foi grande.
  Aps uns dois ou trs minutos de silcio, Jorge caminhou na direo do parapeito,
  onde estava Estela, com a cabea inclinada, a beijar a cabea dos pombos, que
  tinha encostados ao seio. Deteve-se, sem que a moa mudasse de posio.
  Contemplou-a ainda um instante, e se Estela olhasse para ele veria que a
  expresso dos olhos era de respeitosa ternura e nada mais.

Esse instante, porm,
  voou depressa, e com ele a considerao. Inclinando-se para a moa, Jorge falou
  de um modo que nem a educao nem a ndole, mas s o despeito explicava:

-- Por que h de gastar,
  com esses animais, uns beijos que podem ter melhor emprego?

Estela estremeceu toda
  e ergueu para o moo uns olhos que fuzilavam de indignao. J no estava
  plida, mas lvida. Estupefata, no sabia que dissesse ou fizesse, e
  infelizmente no sabia tambm que a pergunta de Jorge, por mais ofensiva que
  lhe parecesse, no era ainda a mxima injria. No era; Jorge tinha uma nuvem
  diante de si, atravs da qual no podia ver nem o seu decoro pessoal nem a
  dignidade da mulher amada; via s a mulher indiferente. Lanou-lhe as mos 
  cabea, puxou-a at si e antes que ela pudesse fugir ou gritar, encheu-lhe a
  boca de beijos.

Soltos com o movimento,
  os pombos esvoaaram sobre a cabea de ambos, e foram pousar outra vez na
  casinha de pau, onde nenhuma fatalidade moral os condenava quele amor sem
  esperana, quela clera sem dignidade.

Estela sufocara um
  gemido e cobrira o rosto com as mos. Ouviam-se as vozes de Valria e do
  mestre, que se aproximavem; Jorge teve um instante de incerteza e hesitao;
  mas a reao operara-se, e, alm disso, urgia apagar os vestgios daquela cena,
  de maneira que os no visse a viva.

-- A vem mame, -- disse
  ele baixinho a Estela; no tive culpa no que fiz, porque gosto muito da
  senhora.

Estela voltou-se para
  fora e enxugou o rosto; da a pouco entraram Valria e o mestre. Este saiu logo
  depois, tendo ajustado as obras que era indispensvel fazer na casa. Valria
  irritada com a vista dos estragos que encontrou, criticava o desleixo dos
  inquilinos. S depois dos primeiros instantes reparou que nenhum dos dois lhe
  respondia nada. Jorge parecia acanhado e Estela triste. Posto houvesse enxugado
  as lgrimas, Estela tinha o rosto desfeito e murchos os belos olhos. Jorge no
  ousava olhar para a me nem para Estela; olhava para a ponta dos botins, onde
  ficara um pouco da calia do parapeito; tinha as mos nas costas e estava
  arrimado a um portal. Valria reparou na atitude dos dois; mas como possua a
  qualidade de dissimular as impresses, no alterou nem o gesto nem a voz. Os
  olhos  que nunca mais os deixaram.

Da a nada meteram-se
  no carro. Era tarde. A viagem foi quase inteiramente silenciosa; pelo menos, s
  Valria disse algumas palavras. Chegando  Rua dos Invlidos, a viva suspeitava
  que alguma coisa havia entre os dois e grave. Todo aquele dia meditou nos meios
  de conhecer a natureza e os pormenores da situao, e nada achou melhor do que
  interrogar diretamente um deles. Jorge sara de casa logo depois e no voltou
  para jantar; Estela no sorriu em todo esse dia e quase no falou.

No foi preciso
  interrog-la. Logo na seguinte manh, acabando de levantar-se, entrou-lhe
  Estela na alcova, e pediu alguns minutos de ateno. Exps-lhe a necessidade de
  voltar para casa; estava moa, devia ir prestar ao pai os servios que ele
  precisaria de algum e tinha o direito de exigir da filha. No era ingratido,
  acrescentava; levaria dali saudades eternas; voltaria muitas vezes; seria
  sempre obediente e grata. Cedia somente  necessidade de acompanhar o pai. Este
  pedido confirmava a suspeita de Valria, mas s esclarecia metade da situao.
  A retirada de Estela era um meio de fugir a Jorge ou de lhe falar mais
  livremente? Valria tratou de perscrutar o corao da moa, dizendo-lhe que a
  razo dada era insuficiente e que alguma causa oculta a movia; depois,
  recordou-lhe a amizade que lhe tinha e a confiana a que Estela no devia
  faltar.

-- Vamos l, disse ela;
  confessa tudo.

Estela afirmou que nada
  mais havia; mas, insistindo a viva, respondeu curvando a cabea, -- o que
  importava meia confisso. Valria lutou ainda muito tempo; empregou a brandura
  e a intimao, mas a moa no cedeu mais nada.

-- Bem, disse a viva;
  faa-se a tua vontade.

Foi assim que Estela,
  ao cabo de algum tempo de residncia na casa de Valria, regressou  casa do
  pai, na Rua de D. Lusa. O Sr. Antunes ficou desorientado com a notcia; disse
  que vivia perfeitamente s; achou pouco decoroso e menos justo o procedimento
  de Estela, em relao  viva do desembargador; gastou largos conceitos, que
  lhe no aproveitaram, porque Estela no recuou da resoluo, nem a viva tentou
  dissuadi-la.

A separao no valia
  nada ou valia coisa pior; fez recrudescer o amor de Jorge, por isso mesmo que
  entre um e outro rasgava espao  imaginao. Duas foras reagiram no corao
  do rapaz; o obstculo, que tornava mais intenso o amor, e o remorso que o fazia
  mais respeitoso. Nenhum ressentimento lhe ficara da resoluo de Estela;
  sentia-se culpado, e mais ainda, sentia-se vtima da fuga da moa. Nem tudo
  isso seria efeito somente da paixo; cabia uma parte de influncia  severidade
  do carter de Estela, que acabou por incutir no esprito de Jorge idia
  diferente da que ele a seu respeito fazia. Valria descobriu a pouco e pouco a
  ineficcia do remdio que aceitara; estava certa da paixo do filho, e via que,
  longe de expirar, entrava pela vida adiante, menos estouvada talvez, mas no
  menos sincera e profunda; soube que Jorge freqentava a casa da Rua de D.
  Lusa; estremeceu pelo futuro e cogitou no modo de estrangular as esperanas em
  flor.

-- Ou ela j o ama ou
  pode vir a am-lo, dizia consigo.

Valria encarava os
  dois desenlaces possveis da situao, se a moa lhe amasse o filho; ou seria a
  queda de Estela, que a viva estimava muito, ou o consrcio dos dois, soluo
  que lhe repugnava aos sentimentos, idias e projetos. Jamais consentiria em
  semelhante aliana. Urgia pronto remdio.

Voltou energicamente ao
  projeto de casar o filho com Eullia, e o intimou a obedecer-lhe. Jorge comeou
  resistindo e acabou dissimulando; mas o artifcio no iludiu a me. Valria
  chamou logo em seu auxlio a jovem parenta. Eullia, que tivera tempo de
  refletir, francamente lhe disse que no estava disposta a ser sua nora, porque
  Jorge no a amaria nunca; e, conquanto no visse no casamento uma pgina de
  romance, entendia que a antipatia ou total indiferena era o mais frouxo dos
  vnculos conjugais.

Desamparada desse lado,
  a viva cogitou ento a viagem  Europa; e, quando ele lha recusou, recorreu 
  guerra do Paraguai. No sem custo lanou mo desse meio, violento para ambos;
  mas, uma vez adotado, luziu-lhe mais a vantagem do que lhe negrejou o perigo.
  Assim foi que de um incidente, comparativamente mnimo, resultara aquele
  desfecho grave, e de um caso domstico saa uma ao patritica.

CAPTULO IV

Era noite fechada,
  quando Jorge chegou  casa de Estela. O Sr. Antunes estava  porta e talvez
  contava com a visita; recebeu-o com alvoroo e tristeza.

Quatro meses haviam
  decorrido depois da cena da Tijuca, e durante esse tempo Jorge fora muitas
  vezes  casa da Rua de D. Lusa. No lhe fugira Estela nem o maltratara; usou a
  mesma serenidade e frieza de outro tempo, falando-lhe pouco,  certo, mas com
  tamanha iseno, que parecia no ter havido entre eles o menor dissentimento.

Pela sua parte, Jorge
  forcejava por apagar a lembrana daquele episdio, havendo-se com o respeito e
  considerao que lhe pareciam bastantes para resgatar a estima perdida. s
  vezes ficavam a ss na sala, porque o Sr. Antunes inventava algum motivo que o
  obrigasse a eclipses parciais, com o fim nico, dizia ele consigo, -- de ajudar
  a natureza. Mas sobretudo nessas ocasies, alis propcias, no transpunha
  Jorge a linha que a si mesmo traara, no lhe sussurrava uma nica palavra
  amorosa, no lhe deitava um s olhar que a pudesse fazer corar ou reagir.
  Qualquer aluso  cena da Tijuca, ainda de submisso, seria prejudicial  causa
  de Jorge; ele evitava esse erro trivial, nada dizendo que prxima ou
  remotamente pudesse lembr-la  moa. Falavam pouco e de coisas indiferentes,
  como pessoas de nenhuma intimidade.

Foi s quando perdeu de
  todo a esperana de a vencer pelos meios ordinrios, que ele aceitou a proposta
  de se alistar no exrcito. No dia em que lhes deu a notcia, a impresso no pai
  e na filha foi profunda, mas diversa, porque o pai ficou totalmente consternado
  e morto, ao passo que a filha sentiu a alma respirar livremente, e se uma voz
  secreta e medrosa lhe disse: no o deixes ir; outra mais dominadora e forte lhe
  bradou que a partida era a liberdade e a paz. A viagem, a distncia, o tempo, a
  natureza das ocupaes militares deviam arrancar ao moo um sentimento que
  Estela temia fosse origem de dissenses domsticas, e que em todo o caso a
  abatia a seus prprios olhos.

--  ento amanh?
  perguntou o Sr. Antunes fazendo entrar o jovem capito.

-- Amanh.

-- Estela recebeu-o como
  das outras vezes, sem embargo do pai, que parecia apostado em lhe tornar
  amargos esses ltimos instantes. A tristeza do Sr. Antunes era mortal. Ele
  pertencia  falange daqueles espritos que, atravs dos anos e ainda nos
  regelos do inverno, conservam as calcinhas da primeira idade, e para quem a
  vida tem sempre o aspecto dos castelos de cartas que construram na infncia.
  Uma vez penetrado da idia de casar a filha com o bacharel, viveu dela, como se
  a vira praticada. O incidente da guerra no lhe desvendou a realidade da
  situao, mas pareceu-lhe que adiava o seu desejo, e bastava a constern-lo.
  Agora que via fardado o filho de Valria, prestes a embarcar no dia seguinte,
  creu deveras na separao. Aps meia hora de conversa, o Sr. Antunes retirou-se
  alguns minutos da sala; ia ver charutos.

--Tome um dos meus,
  disse Jorge.

-- Nada; os seus so
  muito fortes.

Nunca os charutos de
  Jorge padeceram semelhante acusao da parte do Sr. Antunes, que fumava
  regularmente os do filho como havia fumado os do pai. Estela ficou humilhada
  com a resposta e a ao. Jorge que estava de p, junto a uma mesa, viu sair o
  pai de Estela, e ficou a olhar para o cho. A moa cravou os olhos no trabalho
  que estava fazendo.

Jorge ergueu enfim os
  olhos e pousou-os na moa, cuja beleza lhe pareceu naquela noite ainda mais
  lmpida e espiritual, justamente porque ele comeava a v-la atravs do nimbo
  da saudade. Ela atendia ao trabalho com uma quietao laboriosa. As mos, que
  podiam emparelhar com as mais puras, moviam as agulhas sem aparente comoo nem
  tremor. Ao mancebo j no humilhava esse aspecto indiferente e digno; podia
  medir, em si mesmo, a diferena das situaes, o caminho vencido, desde as
  primeiras idias a respeito de Estela. Mas os minutos corriam e o silncio
  acanhava-o cada vez mais; enfim, resolveu romp-lo, e romp-lo de modo que
  tirasse daquele minuto ou a salvao ou o naufrgio da vida que ia empreender.
  Deu dois passos para Estela.

-- Talvez no nos
  vejamos mais, disse ele.

-- Por qu? disse Estela
  sem levantar os olhos.

-- Posso ficar enterrado
  no Paraguai.

-- Sua me no gostaria
  de ouvir isso.

Seguiram-se ainda dois
  minutos. Jorge ps toda a alma nestas palavras, ditas em voz baixa e triste:

-- Embarco amanh para o
  Sul. No  o patriotismo que me leva,  o amor que lhe tenho, amor grande e
  sincero, que ningum poder arrancar-me do corao. Se morrer, a senhora ser o
  meu ltimo pensamento; se viver, no quero outra glria que no seja a de me
  sentir amado. Uma e outra coisa dependem s da senhora. Diga-me; devo morrer ou
  viver?

Estela tinha erguido a
  cabea; quando ele acabou, achava-se de p. Fitou-o alguns instantes com uma
  expresso muda e fria. A vaidade da mulher podia contentar-se daquela solene
  reparao, e perdoar; mas o orgulho de Estela venceu, e no deu lugar a nenhum
  outro sentimento de justia ou de humanidade. Um jeito irnico torceu-lhe o
  lbio, donde saiu esta palavra m e desdenhosa:

-- O senhor  um tonto.

Quando o pai voltou 
  sala, instantes depois, Jorge estava com uma das mos no encosto de uma
  cadeira, plido como um defunto. Estela fora at  porta da alcova da sala,
  resolvida a fechar-se por dentro.

O Sr. Antunes no tinha
  observao; mas, ao ver o rosto dos dois, no era muito difcil adivinhar que
  alguma coisa se passara entre eles. Adivinhou-o; contudo, no atinara bem o que
  seria, se uma cena de dolorosa despedida, se outra coisa menos propcia a seus
  clculos. Foi ao jovem capito e pediu-lhe que se sentasse; mas Jorge declarou
  que ia sair e despediu-se. Sem encarar Estela, estendeu-lhe a mo, que ela
  apertou com o ar mais tranqilo do mundo. O pai espreitava uma lgrima furtiva,
  um gesto disfarado, qualquer coisa que falasse em favor de suas esperanas.
  Nada; Estela no baixou o rosto nem escondeu os olhos. Jorge, sim; no
  obstante o esforo que fazia, tremia-lhe a mo ao apertar a do escrevente.

O Sr. Antunes
  acompanhou-o at a porta. Ali, antes de a abrir, quis abraar o moo oficial.

-- D-me essa triste
  honra, disse ele; creia que estes braos so de amigo.

Jorge deixou-se ir, sem
  entusiasmo; mas quando sentiu o corpo do pai de Estela, pareceu-lhe que
  abraava uma parte da moa, e apertou-o fortemente ao peito. Esta manifestao
  lisonjeou extremamente o outro; chegou a comov-lo.

-- Conte comigo,
  murmurou ele; fico para ajud-lo.

Jorge ouviu-o,
  apertou-lhe maquinalmente as mos, recebeu um abrao ltimo e atirou-se  rua.

Intolervel  a dor que
  no deixa sequer o direito de argir a fortuna. O mais duro dos sacrifcios  o
  que no tem as consolaes da conscincia. Essa dor padecia-a Jorge; esse
  sacrifcio ia consum-lo.

No foi dali para casa;
  no ousaria encarar sua me. Durante a primeira hora que se seguiu  sada da
  casa de Estela, no pde reger os pensamentos; eles cruzavam-lhe o crebro sem
  ordem nem deduo. O corao batia-lhe rijo na arca do peito; de quando em
  quando o corpo era tomado de calefrios. Ia despeitado, humilhado, com um dente
  de remorso no corao. Quisera de um s gesto eliminar a cena daquela noite,
  quando menos apag-la da lembrana. As palavras de Estela retiniam-lhe ao
  ouvido como um silvo de vento colrico; ele trazia no esprito a figura
  desdenhosa da moa, o gesto sem ternura, os olhos sem misericrdia. Ao mesmo
  tempo, lembrava-lhe a cena da Tijuca, e alguma coisa lhe dizia que essa noite
  era a desforra daquela manh. Ora sentia-se odioso, ora ridculo.

-- Tua me  quem tem razo,
  bradava uma voz interior; ias descer a uma aliana indigna de ti; e se no
  soubeste respeitar nem a tua pessoa nem o nome de teus pais, justo  que pagues
  o erro indo correr a sorte da guerra. A vida no  uma gloga virgiliana,  uma
  conveno natural, que se no aceita com restries, nem se infringe sem
  penalidade. H duas naturezas, e a natureza social  to legtima e to
  impediosa como a outra. No se contrariam, completam-se; so as duas metades do
  homem, e tu ias ceder  primeira, desrespeitando as leis necessrias da
  segunda.

-- Quem tem razo s tu,
  dizia-lhe outra voz contrria, porque essa mulher vale mais que seu destino, e
  a lei do corao  anterior e superior s outras leis. No ias descer; ias
  faz-la subir; ias emendar o equvoco da fortuna; escuta a voz de Deus e deixa
  aos homens o que vem dos homens.

Jorge caminhava assim,
  levado de sensaes contrrias, at que ouviu bater meia-noite e caminhou para
  casa, cansado e opresso. Valria esperava-o sem haver dormido. Essa dedicao
  silenciosa, oculta, vulgar nas mes, natural naquela vspera de uma separao
  acerba e longa, foi como um blsamo ao corao dolorido do rapaz. Foi tambm um
  remorso. Pungiu-lhe a conscincia ao ver que esperdiara algumas horas longe da
  criatura, a quem verdadeiramente ia deixar saudades, nica pessoa que pediria a
  Deus por ele. Valria adivinhara onde estaria o filho, e tremia de medo 
  proporo que as horas passavam, receosa de que, amando-o Estela, um e outro
  houvessem subtrado a sua ventura ao jugo das leis sociais, indo refugiar-se em
  algum ignorado recanto. Pensou isso, e fraqueou, e arrependeu-se, duvidando de
  si e da retido de seus atos. No duvidava da natureza do mal; mas no excedia
  a ele o remdio escolhido? Supondo que esse pensamento era a sua primeira
  punio, reagiu fortemente, coligindo as energias abatidas e dispersas e voltou
  a ser a mulher que era, com todas as suas fortes qualidades naturais ou
  contradas. Demais, a que viria o arrependimento, se era tarde?

O filho entrou com as
  feies recompostas, mas tristes. Valria recebeu-o sem nenhuma expresso de
  censura ou mgoa. Nada lhe disse; ele pouco falou e despediram-se sem expanso,
  aquela ltima noite que ia o moo dormir sob o teto de seus pais.

A noite foi para ele
  aflita e melanclica. Quase inteira gastou-a em investigar a vida que ia
  acabar, em dar busca aos papis, queimar as cartas dos amigos, repartir algumas
  prendas, e finalmente em escrever disposies testamentrias e cartas a pessoas
  ntimas. Perto das quatro horas deitou-se; s sete estava de p. Valria
  havia-se-lhe antecipado. Algumas pessoas foram despedir-se dele e acompanhar a
  me no solene momento da despedida. Entre essas figurava o pai de Estela, cuja
  tristeza, que era sincera, trazia uma mscara ainda mais triste.

Veio enfim o momento da
  despedida. Valria dominara-se at onde pode; mas o ltimo instante concentrava
  tantas dores, que era impossvel resistir-lhe. A organizao moral da viva era
  forte, mas a resistncia fora prolongada, e a vontade gastou-se nesse esforo
  de todos os dias. Quando soou o instante definitivo da separao rebentaram dos
  olhos as lgrimas, no tumultuosas, cortadas de vozes e gemidos, mas dessas
  outras que retalham silenciosamente as faces, resto de uma dignidade que cede a
  custo  lei da natureza. Ela estendeu os braos, ainda formosos, sobre os
  ombros do filho; nessa postura contemplou-o algum tempo; depois beijou-o e
  apertou-o estreitamente ao corao.

-- Vai, meu filho, disse
  com voz firme. Eu fico rogando a Deus por ti; Deus  bom e te restituir a meus
  braos. Serve a tua ptria, e lembra-te de tua me!

Foram as ltimas
  palavras. Jorge no as ouviu; tinha o esprito prostrado e surdo. Chorou
  tambm, menos silenciosamente que Valria, mas as mesmas lgrimas aflitas.

-- Adeus, querida mame!
  disse ele arrancando-se enfim de seus braos.

Saiu; Valria no o viu
  sair; dera costas a todos e foi lastimar na alcova seu voluntrio infortnio.

Pouco tempo depois,
  perdendo de vista a cidade natal, sentiu Jorge que dobrara a primeira lauda de
  seu destino, e ia encetar outra, escrita com sangue. O espetculo do mar
  abateu-o ainda mais: alargava-se-lhe a solido at o infinito. Os poucos dias
  da viagem desfiou-os nessa atonia moral que sucede s catstrofes. Enfim,
  aportou a Montevidu, -- seguindo dali ao Paraguai.

A segunda viagem, as
  gentes estranhas, as novas coisas, o movimento do teatro da guerra, produziram
  nele saudvel transformao. O esprito elstico e mbil sacudiu as sombras de
  pesar que o enoiteciam, e, uma vez voltado o rosto para o lado do perigo,
  comeou de enxergar, no a morte obscura ou ainda gloriosa, mas o triunfo e o
  laureado regresso. Bebido o primeiro hausto da campanha, Jorge sentiu-se homem.
  A hora das frivolidades acabara; a que comeava era a do sacrifcio austero e
  diuturno. Ia encarar trabalhos no sabidos, expor-se a perigos inopopinveis;
  mas ia resoluto e firme, com a fronte serena e clara e o lume da confiana
  aceso no corao.

CAPTULO V

As primeiras cartas de
  Jorge foram todas  me. Eram longas e derramadas, entusisticas, descuidosas e
  at pueris. Descontada a escassa poro de realidade que podia haver nelas,
  ficava um clculo, que o corao de Valria compreendeu; era adoar-lhe a
  ausncia e dissipar-lhe as apreenses.

Cedo se familiarizou
  Jorge com a vida militar. O exrcito, acampado em Tuiuti, no iniciava
  operaes novas; tratava-se de reunir os elementos necessrios para prosseguir
  a campanha de modo seguro e decisivo. No havendo nenhuma ao grande, em que
  pudesse provar as foras e amestrar-se, Jorge buscava as ocasies de algum
  perigo, as comisses arriscadas, cujo xito dependesse de espirito atrevido,
  sagacidade e pacincia. Esse desejo captou-lhe a simpatia dos chefes imediatos.

O coronel que o
  comandava atentou nele; sentiu-lhe a alma juvenil atravs do olhar brando e
  repousado. Ao mesmo tempo observou que, no meio dos gozos fceis e mltiplos do
  acampamento, convertido pela inao em povoado de recreio, Jorge conservava um
  retraimento monacal, um casto horror de tudo o que pudesse diverti-lo de curar
  das armas, ou somente de pensar nelas. O coronel era homem de seu ofcio;
  amava a guerra pela guerra; morreu talvez de nostalgia no regao da paz. Era
  bravo e rspido. O que lhe destoou a princpio na pessoa de Jorge, foi o alinho
  e um resto de seus ademanes de sala. Jorge, entretanto, sem perder desde logo o
  jeito da vida civil, foi criando com o tempo a crosta de campanha. O desejo de
  trabalhar, de arriscar-se, de temperar a alma ao fogo do perigo, trocou os
  sentimentos do coronel, que entreviu nele um bom companheiro de armas, e ao fim
  de pouco tempo procurou distingui-lo.

Posto que Jorge falasse
  do coronel nas cartas que escrevia  me, no o dava como amigo seu, nem tinha
  amigos no acampamento, ou se os tinha no os considerava tais. Ouvia
  confidncias de muitos, animava as esperanas de uns, consolava as penas de
  outros, nunca abria porm a porta do corao  curiosidade transeunte. Devia
  ser entretanto interessante uma pgina somente da vida daquele militar, jovem,
  bonito, abastado, que no ia ao teatro nem aos saraus do acampamento, que ria
  poucas vezes e mal, que s falava da guerra, quando falava de alguma coisa.

Um dia, um major do
  Cear foi ach-lo sentado em um resto de carreta intil, lanado em stio escuso,
  ora a olhar para o horizonte, ora a traar com a ponta da espada uma estrela no cho.

-- Capito, disse o
  major, parece que voc est vendo estrelas ao meio-dia?

Jorge sorriu do
  gracejo, mas no deixou de continuar, nos demais dias, a traar estrelas no
  cho ou a procur-las nas campinas do Cu. Os oficiais, arrastados pela
  simpatia, no lhe ficavam presos pela convivncia; Jorge era, no s taciturno,
  mas desigual, ora dcil, ora rspido, muitas vezes distrado e absorto. Era
  distrado, sobretudo, quando recebia cartas do Rio de Janeiro, entre as quais
  rara vez acontecia que no viesse alguma do Sr. Antunes. O pai de Estela regava
  com a gua salobra de seu estilo a esperana que no perdera. As suas cartas
  eram epitalmios disfarados. Falava muito de si, e muito mais da filha, cuja
  alma, dizia ele, andava singularmente triste e acabrunhada. Jorge resistia ao
  desejo de falar tambm de Estela; mais de uma vez o nome da moa lhe caa dos
  bicos da pena; ele o riscava logo, assim como riscava qualquer frase que
  pudesse parecer alusiva aos seus sentimentos; as que escrevia ao pai da moa
  eram secas, sem especial interesse, polidas e frias.

Um dia, porm, antes de
  meado o ano de 1867, no pde resistir  necessidade de segredar o amor a
  algum ou proclam-lo aos quatro ventos do cu. Ningum havia ao p dele que
  merecesse a confidncia; Jorge alargou os olhos e lembrou-se de Lus Garcia,
  nica pessoa estranha a quem confiara metade do segredo que havia levado para a
  guerra. Os coraes discretos so raros; a maioria no  de gavies brancos
  que, ainda feridos, voam calados, como diz a trova; a maioria  das pegas, que
  contam tudo ou quase tudo.

J nesse tempo o
  corao de Jorge padecera grande transformao. O amor, sem minguar de
  intensidade, mudara de natureza, convertendo-se em uma espcie de adorao
  mstica, sentimento profundo e forte, que parecia respirar atmosfera mais alta
  que a do resto da criao. Ele mesmo o disse na carta a Lus Garcia, sem lhe
  denunciar o nome da pessoa, nem nenhuma circunstncia que pudesse p-lo na
  pista da realidade; exigiu-lhe absoluto silncio e contou-lhe o que sentia:

"No importa saber quem
  , disse ele; -- o essencial  saber que amo a mais nobre criatura do mundo, e o
  triste  que no somente no sou amado, mas at estou certo de que sou
  aborrecido.

Minha me iludiu-se
  quando sups que meu amor achara eco em outro corao. Talvez desistisse de me
  mandar ao Paraguai, se soubesse que esta paixo solitria era o meu prprio
  castigo. Era; j o no . A paixo veio comigo apesar do que lhe ouvi na
  vspera de embarcar; e se no cresceu,  porque no podia crescer. Mas
  transformou-se. De criana tonta, que era, fez-se homem de juzo. Uma crise,
  algumas lguas de permeio, poucos meses de intervalo, foram bastantes a operar
  o milagre.

No sei se a verei
  mais, porque uma bala pode por termo a meus dias, quando eu menos o esperar. Se
  a vir, ignoro os sentimentos com que ela me receber. Mas de um ou de outro
  modo, este amor morrer comigo, e o seu nome ser a ltima palavra que h de
  sair de meus lbios.

Meu amor no sabe j o
  que seja impacincia ou cime ou exclusivismo:  uma f religiosa, que pode
  viver inteira em muitos coraes. Talvez o senhor no me compreenda. Os homens
  graves ficam surdos a estas sutilezas do corao. Os frvolos no as entendem.
  Eu mesmo no sei explicar o que sinto, mas sinto alguma coisa nova, uma saudade
  sem esperana, mas tambm sem desespero:  o que me basta."

Jorge releu o escrito,
  e ora o achava claro demais, ora obscuro. Hesitou ainda algum tempo; enfim,
  dobrou a carta, fechou-a e remeteu-a para o Rio de Janeiro.

Quando a resposta lhe
  chegou s mos, preparava-se o exrcito para deixar Tuiuti. Jorge estava todo
  entregue aos cuidados da guerra, a sonhar batalhas, a acutilar mentalmente os
  soldados de Lpez. A resposta de Lus Garcia dizia pouco ou nada do objeto da
  carta de Jorge; compunha-se quase toda de conselhos e reflexes, dadas em
  linguagem sbria e medida, reflexes e conselhos relativos quase exclusivamente
  aos deveres de homem e de soldado.

Jorge esperava aquilo
  mesmo; conhecia, ainda que pouco, o gnio seco e glido de Lus Garcia.
  Contudo, ficou momentaneamente desapontado e triste. Seria certo que nenhum
  corao simpatizava com seus secretos infortnios ou suas venturas solitrias?
  Ao cabo de largos meses de separao, nem Estela pensaria nele, nem ele achava
  pessoa com quem partisse o po das saudades, ltimo alimento de um amor sem
  cnjuge. A conscincia da solido moral abateu-o um instante; esvaiu-se-lhe
  toda a fora acumulada durante aqueles meses, e a alma caiu de bruos.

Poucos dias depois
  operou-se a marcha de Tuiuti e Tuiu-Cu, a que se seguiu uma srie de aes e
  movimentos, em que houve muita pgina de Plutarco. S ento pde Jorge encarar
  o verdadeiro rosto  guerra, a cujo princpio no assistira; figurou em mais de
  uma jornada herica, correu perigos, mostrou-se valoroso e paciente. O coronel
  adorava-o; sentia-se tomado de admirao diante daquele mancebo, que combatia
  durante a batalha e calava depois da vitria, que comunicava o ardor aos
  soldados, no recuava de nenhuma empresa, ainda a mais arriscada, e a quem uma
  estrela parecia proteger com suas asas de luz.

Notou ele uma vez, em
  um dos combates mortferos de dezembro de 1868, ano e meio depois da carta de
  Lus Garcia, que a temeridade do mancebo parecia ir alm dos limites do
  costume, e que em vez de um homem que combatia, era ele um homem que queria
  morrer. A fortuna salvou-o. Findo o combate, recolhidos os feridos, repousados
  os corpos, o coronel foi ter com ele na barraca, e achou-o tristemente quieto,
  com os olhos inchados e parados. O coronel no reparou nisso; entrou a
  felicit-lo pelo comportamento que tivera, ainda que um pouco excessivo. Jorge
  tinha-se respeitosamente erguido e olhava para o coronel sem dizer palavra.
  Este encarou-o e viu lhe sinais de abatimento.

-- Que diabo tem voc,
  capito?

-- Nada, respondeu o
  moo.

-- Recebeu ontem cartas
  do Rio de Janeiro?

-- Uma: de minha me.

-- Est boa?

-- De perfeita sade.

-- Nesse caso...

O coronel parou e
  refletiu; depois continuou:

-- J sei o que .

-- O que ! exclamou
  Jorge procurando sorrir.

-- H de fazer-se,
  continuou o coronel; a coisa est a caminho, h de fazer-se, no lhe digo mais
  nada.

E bateu-lhe no ombro,
  com um gesto que tanto podia dizer: "sossegue, capito", como: "parabns,
  senhor major". Jorge entendeu esse trocadilho gesticular, e apertou as mos do
  coronel, agradecendo-lhe, no o posto que lhe anunciava, mas a afeio que lhe
  tinha. O coronel encarou-o paternalmente alguns minutos.

-- Subir! No sonham com
  outra coisa, rosnava ele consigo.

E saiu.

Jorge ficou s, acendeu
  um cigarro, que no pde fumar at o fim. Depois sentou-se, desabotoou a farda,
  tirou uma carta, abriu-a e releu algumas linhas do fim. A carta era de Lus
  Garcia. Dava-lhe notcias de sua me, que, por motivos de doena, fora tomar
  guas a Minas, e rematava com estas palavras assombrosas:

"... Resta-me
  dizer-lhe, se em alguma coisa lhe pode interessar minha vida, que sbado
  passado contra segundas npcias. Minha mulher  a filha do Sr. Antunes. Sua
  me serviu-nos de madrinha."

Com os olhos fitos
  nessas poucas linhas, Jorge parecia alheio a tudo mais. O papel, recebido na
  vspera, estava amarrotado, como se lhe passara pelas mos durante um ano.
  Olhava, relia e no podia entender; quando chegava a entender, no podia
  acreditar. O casamento de Estela era a seu ver um absurdo; mas, aps os
  intervalos de dvida, a realidade apossava-se dele. A razo mostrava-lhe que
  semelhante notcia devia ser certa. No fim de dois dias, tinha ele compreendido
  algumacoisa do silncio de sua me: o motivo era, sem dvida, o mesmo que a
  impelira a mand-lo ao Paraguai. Nunca lhe falara de Estela, nem do casamento
  de Lus Garcia, silncio calculado para de todo extinguir em seu corao os
  derradeiros murmrios de um amor sem eco.

Jorge sentiu ento um
  fenmeno prprio de tais crises, -- um movimento de dio a todo o gnero humano,
  desde sua me at o seu inimigo. Tornou-se descorts, violento, deliberadamente
  mau: efeito transitrio, ao qual sucedeu um abatimento profundo. Ferido da a
  dias em Lomas Valentinas, retirou-se por alguns meses do exrcito, cujas
  operaes s continuaram depois de meado o ano seguinte. Jorge teve parte nas
  jornadas de Piribebu e Campo Grande, no j na qualidade de capito, mas na de
  major, cuja patente lhe foi concedida depois de Lomas Valentinas. No fim do ano
  estava tenente-coronel, comandava um batalho e recebia os abraos de seu
  antigo comandante, contente de o ver sagrado heri.

Um acontecimento
  inesperado e desastroso veio ainda golpe-lo cruelmente, logo depois de maro
  de 1870, quando, acabada a guerra, estava ele em Assuno. Valria falecera.
  Lus Garcia lhe deu essa triste notcia, que ele antes adivinhou do que leu,
  porque as ltimas cartas j lhe faziam pressentir o lgubre desenlace. Jorge
  adorava a me.

Se s a contragosto
  viera para a guerra, no  menos certo que esta o cobrira de louros, e que ele
  os quisera depositar no regao de Valria. O destino decidiu por outro modo,
  como se quisesse contrastar cada um de seus favores fazendo-lhe sangrar o
  corao.

No fim de outubro
  volveu ao Rio de Janeiro. Tinham passado quatro anos justos. Penetrando a barra
  e descortinando a cidade natal, Jorge comparava os tempos, as angstias e as
  esperanas da partida com a glria e o abatimento do regresso. No se sentia
  feliz nem infeliz, mas nesse estado mdio, que  a condio vulgar da vida
  humana. Comparava-se ao mar daquela manh, nem borrascoso nem quieto, mas
  levemente empolado e crespo, to prestes a adormecer de todo, como a crescer e
  arremessar-se  praia. Que aragem sonolenta ou que tufo destruidor, viria
  roar por ele a asa invisvel? Jorge no o perscrutou. Trazia os olhos no
  passado e no presente; deixou ao tempo os casos do futuro.

CAPTULO VI

Antes de irmos direito
  ao centro da ao, vejamos por que evoluo do destino se operou o casamento de
  Estela.

Poucos poderiam supor,
  nos fins de 1866, que a campanha se protrairia ainda cerca de quatro anos. O
  clculo do General Mitre, relativo aos trs meses de Buenos Aires a Assuno,
  tinha j cado,  certo, no abismo das iluses histricas. Proclamaes so
  loterias; a fortuna as faz sublimes ou vs. A do general argentino, que era j
  uma afirmao errada, exprimiu contudo, no seu tempo, a convico dos trs
  povos. Do primeiro embate com o inimigo, viu-se que a campanha seria rija e
  longa; a iluso desfez-se; ficou a realidade, que nem por isso encaramos com
  rosto aflito. No obstante, era difcil presumir, em outubro de 1866, que a
  guerra chegasse at maro de 1870. Supunha-se que um esforo ingente bastaria a
  reparar Curupaiti, a derrubar Humait, a vencer o ditador, no nos trs meses
  do General Mitre, mas em muito menos tempo do que viria a ser na realidade.

Isto posto, no admira
  que Valria receasse a cada instante a terminao da guerra e a pronta volta do
  filho. Se tal coisa acontecesse, ela teria dado um golpe intil, e o fogo podia
  renascer das cinzas mal apagadas. Valria preferia as solues radicais. Uma
  vez arredado o filho, viu a necessidade de aniquilar as ltimas esperanas, e o
  mais seguro meio era casar Estela. Assim procedendo, satisfaria tambm a
  afeio que tinha  moa, afeio que nunca lhe diminura. Sabia que entre
  Estela e o pai havia contrastes morais de difcil conciliao. Cada um deles
  falava lngua diferente, no podiam entender-se nunca, sobretudo (dizia ela
  consigo) na escolha de um consorte.

Dois meses depois do
  embarque de Jorge, Valria mandou chamar o Sr. Antunes a Santa Teresa, onde
  tinha uma casa de vero. O recado foi escrito, circunstncia que lhe deu certa
  solenidade. Nunca at ento a viva lhe escrevera. O Sr. Antunes leu e releu o
  bilhete, mostrou-o duas ou trs vezes  filha, esteve tentado de mostr-lo ao
  vizinho fronteiro. Enquanto se vestia, p-lo sobre a mesa, lanando-lhe a furto
  os olhos, pesando-lhe de cor as expresses corteses, espremendo-as,
  dissecando-as. Vestido, guardou-o cuidadosamente na algibeira. Na rua,
  separou-se de um importuno dizendo enfaticamente aonde ia. Quanto ao motivo do
  recado, no atinava qual fosse, nem teve muito tempo para isso. Cogitou,
  entretanto, e sups que se tratava de algum obsquio que ela lhe ia encomendar.

Era obsquio, e no lho
  pedia a viva; prestava-o, e no demorou muito em diz-lo. Ao cabo de dez
  palavras, pediu-lhe licena para dotar Estela.

-- No quisera faz-lo,
  sem o seu consentimento, concluiu ela; por isso o mandei chamar.

Do mais nfimo a que um
  homem haja baixado, a natureza pode faz-lo grave, ainda que por um s minuto.
  Esse minuto teve-o o pai de Estela. Imvel e sem fala a princpio; depois,
  ainda sem fala, mas no j imvel, o Sr. Antunes revelou em seu rosto, alis
  vulgar, uma comoo digna. A dignidade, porm, expirou com o silncio. Quando
  ele abriu a boca para agradecer a prova de afeio que a viva lhe dava 
  filha, a alma readquiriu o trejeito habitual. Valria cortou-lhe o discurso com
  uma arte to superior, que o pai de Estela antes sentiu do que compreendeu. A
  viva tinha a verdadeira generosidade, que consiste menos em prestar o obsquio
  do que em dissimul-lo; disse-lhe que, dotando Estela, cumpria um desejo do
  desembargador, e, sem esperar pelo necrolgio que o Sr. Antunes provavelmente
  ia recitar, fez um longo e afetuoso inventrio das qualidades da moa.

--  muito boa filha,
  concluiu a viva; tem qualidades dignas de todo o apreo, e, alm do mais, sou
  amiga dela.

-- Isso, minha senhora,
   a maior fortuna que lhe podia caber. Quanto a ser boa filha, no  por
  vaidade que o digo, mas creio que a senhora tem razo. Saiu  me, que era uma
  santa alma.

-- Estela no o  menos.
   bonita! Enfim pode vir amar algum, no lhe parece?

-- Pode, pode, assentiu
  o Sr. Antunes. Que eu, verdadeiramente, no sei se ela j no amar.  to
  calada! Ultimamente parece andar triste. . .

-- Triste?

--Distrada... assim,
  como pessoa que no tem o pensamento sossegado. No sei se aquilo  paixo, ou
  doena. Doena no creio que seja, porque ela  forte e tem boa aparncia.
  Coitadinha! Mas sempre alegre... isto , alegre no... quero dizer, no anda
  sempre triste... ou por outra...

Valria sorriu
  mentalmente daquela confuso que o Sr. Antunes fazia, e que atribuiu ao
  alvoroo que naturalmente a notcia do dote lhe causara; interrompeu-o dizendo
  que fosse l com a filha.

Estela ouviu da a meia
  hora a notcia da generosidade da viva, que o pai se apressou a ir dar-lhe, e,
  contra a expectao deste, ouviu-a calada e severa. No achando a exploso de
  alegria que esperava, o Sr. Antunes abanou desanimado a cabea.

-- No te entendo,
  filha! replicou ele. Hs de dizer o que  que queres ser neste mundo. No s
  rica, nem menos que rica; no tens a menor esperana no futuro. Eu no te posso
  deixar nada, porque nada tenho. H uma senhora que te estima, que te faz um
  benefcio, e tu recebes isto como se fosse uma injria.

A observao do pai
  chamou a filha  realidade da situao.

-- Papai sabe que no
  sou de muito riso, disse ela; pode ficar certo de que me alegrou muito a
  notcia que me deu.

No alegrou nada. Nunca
  lhe pesara tanto a fatalidade da posio. Depois do episdio da Tijuca,
  parecia-lhe aquele favor uma espcie de perdas e danos que a me de Jorge
  liberalmente lhe pagava, uma gua virtuosa que lhe lavaria os lbios dos beijos
  que ela forcejava por extinguir, como lady Macbeth a sua mancha de sangue. Out,
    damned spot! Este era o seu conceito; esta era tambm a sua mgoa. A
  altivez com que procedera desde aquela manh de algum modo lhe levantara o
  orgulho, que o ato inconsiderado de Jorge havia por um instante humilhado. Mas
  a ao da viva, por mais espontnea que fosse, tinha aos olhos da moa a
  conseqncia de fazer decorrer o benefcio da mesma origem da afronta. Estela no
  distinguia entre os bens da me e do filho. Era tudo a mesma bolsa; e dali 
  que lhe vinha o dote.

Com essa idia
  opressiva entrou ela em casa da viva, cuja recepo lhe desabafou o esprito
  do mais espesso de suas preocupaes. Valeria beijou-a, com um gesto mais
  maternal que protetor. Nem lhe deixou concluir a frase de agradecimento;
  cortou-a com uma carcia; depois falou-lhe da beleza, das ocupaes, de cem
  coisas alheias a objeto que as reunia, dissimulao generosa, que Estela
  compreendeu, porque tambm possua o segredo dessas delicadezas morais.

Quinze ou vinte dias
  depois, Valria interrogou diretamente Estela, e a resposta que obteve foi
  contrria a suas esperanas.

-- No amo ningum,
  disse a moa; e provavelmente no amarei nunca.

--Por qu? replicou
  vivamente a viva.

Estela sorriu.

-- Podia dizer-lhe,
  respondeu ela, que no tenho corao...

-- Seria mentir. Mas
  vais talvez dizer que um bom marido no e coisa fcil de achar.

-- Isso.

-- Tens razo at certo
  ponto. De todas as aves raras a mais rara  um bom marido; mas o que  raro no
   impossvel. Meteu-se-me em cabea que hei de descobrir uma jia. Se eu a
  encontrar, que fars tu?

-- Aceito, disse a moa
  depois de um instante.

-- Assim, no; no quero
  que a aceites sem vontade; hs de aceit-la com amor... porque eu no creio que
  no tenhas corao;  faceirice de moa bonita. Deixa ver, -- continuou a viva
  colocando-lhe a mo no peito; -- tens, oh! tens um corao que parece querer
  despedaar-te o peito. Estela, tu ests doente!

-- Que idia! exclamou a
  moa rindo. Se eu vendo sade! No estou doente, estou comovida. Tratemos do
  noivo. No me pea que o ame apaixonadamente, porque eu no nasci para isso.
  Minha natureza  fria. Mas um pouco de estima, certo interesse...

-- Justo: a semente do
  amor. O tempo se encarregar de fazer a rvore.

Durante trs meses no
  falaram do assunto. No fim desse tempo, tendo Valria descido de Santa Teresa,
  Estela foi passar algumas semanas na Rua dos Invlidos. -- Ainda nada? perguntou
   viva logo que a viu. -- Coisa nenhuma, foi a resposta. Dada a situao de uma
  e outra, no era fcil a Valria encontrar-lhe o noivo desejado a menos de o
  designar a prpria noiva, e essa era a mais improvvel de todas as hipteses.

Entretanto, a
  convivncia fez renascer entre ambas alguns dos hbitos antigos. Valria tornou
  a sentir necessidade de a ter consigo, de a conversar, de depositar nela suas
  idias e enxaquecas. Estela oferecia todas as vantagens de uma velha amiga, com
  a circunstncia de ser moa, e ainda mais, a de ser bonita, qualidade simptica
   viva, que fora uma das belas mulheres de seu tempo. Nada lhes impedia
  restaurar inteiramente a situao anterior, a no ser a memria do passado
  recente. Era isso que ainda estabelecia entre ambas tal ou qual cautela, tal ou
  qual separao, que o Sr. Antunes chegava a suspeitar s vezes, sem poder
  compreender nunca. No falavam de Jorge, nem da guerra, nem de coisa que
  pudesse reviver a lembrana do passado.

Comeado o vero de
  1867, Valria transportou-se a Santa Teresa, onde Estela foi algumas vezes.
  Numa dessas vezes encontrou ali a filha de Lus Garcia, que caminhava para os
  treze anos, e conclua os estudos de colgio. Houve um instante de hesitao
  entre as duas; Iai, que era ainda a mesma criatura travessa e lpida,
  sentiu-se acanhada diante da gravidade de Estela, mas esse instante foi curto e
  a afeio imediata. Acabado o vero, a viva resolveu no descer  Rua dos
  Invlidos; e, com o pretexto ou o motivo de que em Santa Teresa ficava mais s,
  alcanou que Estela fosse l estar algum tempo. Estela subiu em maro.

J ento Iai entrara
  na intimidade da casa, menos ainda pelo que podia haver -- e havia, -- simptico
  e atraente em sua pessoa, do que pelo esforo prprio. A sagacidade da menina
  era a sua qualidade mestre: assim viu depressa o que era menos agradvel, para
  evit-lo, e o que o era mais, para cumpri-lo. Essa qualidade ensinava-lhe a
  sintaxe da vida, quando outras ainda no passam do abecedrio, onde morrem
  muita vez. Obtida a chave do carter de Valria, Iai abriu a porta sem grande
  esforo.

Ia l quase todos os
  domingos, s tardes, e algumas vezes de manh, com tal ou qual repugnncia do
  pai, para quem os domingos eram os dias de ouro, e s o eram com a condio do
  exclusivismo. Lus Garcia cedeu, no por causa da viva, mas para satisfazer a
  filha, que parecia ter prazer em freqentar a casa. --  ainda criana, pensou
  ele; convm dar-lhe festas. Quando Iai jantava em casa de Valria, Lus
  Garcia, ou tambm jantava, ou ia busc-la  noite, e trazia-a depois de uma
  hora de conversa. A presena de Estela tornou ainda mais aprazveis  mocinha
  aquelas visitas, e, dentro de pouco tempo, era a afeio de Estela que mais lhe
  ocupava o corao.

A lei dos contrastes
  tinha ligado essas duas criaturas, porque to petulante e juvenil era a filha
  de Lus Garcia, como refletida e plcida a filha do Sr. Antunes. Uma ia para o
  futuro, enquanto a outra vinha j do passado; e se Estela tinha necessidade de
  temperar a sua atmosfera moral com um raio da adolescncia da outra, Iai
  sentia instintivamente que havia em Estela alguma coisa que sarar ou consolar.

Um dia, Iai foi
  encontrar Estela ao p de uma mesa, com um lbum de retratos aberto diante de
  si. A moa estava to embebida, que s deu pela presena de Iai, quando esta
  parou do outro lado da mesa e inclinou os olhos para o lbum. Estela teve um
  pequeno sobressalto, mas dominou-se logo.

-- Seu pai tem uma
  fisionomia de bom corao, disse ela.

-- No  verdade?
  retorquiu a menina com entusiasmo

Efetivamente, uma das
  pginas do lbum continha o retrato de Lus Garcia; mas na outra pgina estava
  o retrato de Jorge, um dos trs ou quatro que a viva possua na coleo. Iai,
  que adorava o pai, achou que a observao de Estela era a mais natural do
  mundo, e no olhou sequer para a outra fotografia. Estela fechou depressa o
  lbum com a mo trmula, e mal pde sorrir  insistncia com que Iai voltou
  quele assunto. Tinha o seio ofegante e o olhar vago, remoto, esvado nas
  campanhas do Sul. O corao batia-lhe violentamente. Mas essa comoo no durou
  mais de trs a quatro minutos.

-- A senhora podia
  casar-se com papai, disse a menina depois de olhar algum tempo para a outra.

Estela teve novo
  sobressalto, mas dessa vez era s espanto. Como Iai a abraasse pela cintura,
  ela inclinou o rosto sobre o rosto da menina, e perguntou sorrindo:

-- Tinhas muita vontade
  de ser minha enteada?

-- Tinha.

Estela abanou a cabea,
  com um gesto, no de negativa, mas de incredulidade. J conhecia alguma coisa
  do carter de Lus Garcia; rigorosamente era um esposo aceitvel. Via nele um
  homem de afeies plcidas, medocres, mas sinceras. Via-o respeitoso sem
  abatimento, polido sem afetao, falando pouco, mas com alguma idia, em todo o
  caso com muita oportunidade, vivendo enfim para si e para a filha. De tudo o
  que observara conclua que a sobriedade era a lei moral desse homem, e que 
  taa da vida no pedia mais do que alguns goles, poucos. Que importa? A vida
  conjugal  to-somente uma crnica; basta-lhe fidelidade e algum estilo.
  Conquanto houvesse algumas semelhanas entre ambos, havia tambm diferenas,
  mas Estela podia fiar do tempo, que ajusta os contrastes. E, no obstante, se o
  marido era aceitvel, no lhe parecia que fosse possvel. A gravidade exterior
  como que o rodeava de uma atmosfera impenetrvel.

Iai no insistiu; mas
  dois ou trs domingos depois, estando todos na chcara, interrompeu a conversa
  geral para perguntar a Estela se deveras lhe tinha afeio.

-- J disse que sim,
  acudiu Estela.

-- Mas gosta muito de
  mim?

-- Muito, repetiu Estela
  prolongando a primeira slaba.

-- Por que no vem morar
  comigo?

Riram-se os outros;
  Estela beijou-a na testa. Ficando ss, a viva e Estela jogaram uma partida de
  cartas, mas jogaram sem ateno; depois tomaram ch, mas sem apetite;
  finalmente dormiram, mas sem sono. Talvez a mesma idia as preocupava. No dia
  seguinte, Estela perguntou sorrindo  viva:

-- Se eu lhe disser que
  j achei um projeto de marido?

-- Quem?

-- O Lus Garcia.

Valria apertou-lhe as
  mos.

-- Excelente homem,
  disse ela; marido digno e capaz. Conheo-o h muitos anos; nunca desmereceu da
  nossa estima. E... amam-se?

-- Isso agora  mais
  complicado, replicou Estela; no posso dizer que o amo; contudo, desejaria ser
  sua mulher. Talvez ele no deseje ser meu marido, mas  por isso mesmo que a
  consulto e lhe peo que me diga, uma vez que aprova a escolha, se posso esperar
  reciprocidade e se devo...

-- No deves dizer nada;
  incumbo-me de tudo.

Valria no ocultou o contentamento.
  No lhe tinha ocorrido nunca a idia de os casar; Iai f-la nascer, Estela
  abriu-a em flor; s faltava o fruto, e era justamente a parte difcil, porque a
  ndole de Lus Garcia afigurava-se-lhe inteiramente avessa ao desejo de
  contrair segundas npcias. Mas Valria no desanimou. No se pode dizer que ele
  seja o ideal de todas as noivas, pensava ela; no tem a expanso nem o verdor
  da primeira idade; mas deve ser um excelente marido. Lus Garcia tinha agora
  melhor posio. Obtivera uma promoo de emprego, e mediante isso, e alguns
  trabalhos extraordinrios que lhe eram confiados, pde ficar inteiramente a
  coberto das intempries da vida. Estabelecera o futuro da filha e restaurara as
  alfaias da casa, no por si, mas com a inteno de ser mais agradvel a Iai.

Estela, entretanto,
  impunha uma condio.

-- No desejo parecer
  que me ofereo, disse ela; seria desairoso para um e para outro, e no seria a
  realidade.

-- Que te ofereces, no;
  mas quem me pode impedir de ter adivinhado que o amas? disse a viva
  maliciosamente.

-- Ou que o aprecio,
  emendou Estela. Para um bom casamento no  preciso mais.

Lus Garcia no ficou
  pouco admirado quando Valria da a dias lhe perguntou se no tinha vontade de
  passar a segundas npcias. Sorriu e ergueu os ombros; mas, insistindo a viva,
  respondeu que a idia de casar era j serdia para ele.

-- No diga isso, tornou
  Valria. Iai est quase moa, vai deixar o colgio. O senhor vive s, e, tendo
  de dar companhia  sua filha,  melhor que lhe de uma madrasta.

Lus Garcia abanou
  resolutamente a cabea.

-- No tenho vocao
  para o casamento, disse ele depois de uma pausa; minha verdadeira vocao  o
  celibato.

-- Foi por isso que
  enviuvou?

-- Casei-me uma vez, 
  verdade, mas no foi por amor; alm de que, era rapaz.

-- Quando teimo em
  alguma coisa,  difcil que no vena, disse a viva depois de alguns
  instantes. H duas pessoas de quem gosto muito, ela e o senhor, ambas dignas
  uma da outra; e eu entendi que as devia casar, e hei de cas-las. Por que est
  a sorrir com esse ar incrdulo?

Como Lus Garcia no
  respondesse e continuasse a sorrir, Valria ergueu-se e foi at a varanda,
  donde se olhava para a chcara; depois voltou-se para dentro.

-- Ande ver sua noiva,
  disse ela.

Lus Garcia foi at 
  varanda; a viva apontou-lhe para o grupo de Estela e Iai.

Na chcara havia um
  canteiro circular, plantado de grama, no centro do qual jorrava a gua de um
  repuxo. A bacia deste era orlada de plantas, cujas folhas largas, rajadas umas
  de escarlate, outras de branco, interrompiam a monotonia da relva. Dessas
  folhas colhera Estela algumas, entretecera os talos formando uma capela, a
  pedido de Iai. Quando Lus Garcia chegou  janela, a moa conclua o difcil
  trabalho. Uma vez pronto, Iai que olhava para ela, infantilmente ansiosa,
  inclinou a cabea, e Estela cingiu-a com a grinalda rstica; depois recuou
  alguns passos, aproximou-se outra vez, concertou-a melhor. As folhas caam-lhe
  sobre os ombros irregularmente, ou erguiam-se sobre a cabea, e o todo daria
  idia de uma niade casquilha. Estela mirou-a alguns instantes; inclinou-se
  para ela e beijou-a repetidas vezes. Iai quis pagar-lhe o trabalho e a carcia
  devolvendo-lhe a grinalda, e colocando-lha ela mesma na cabea. Estela recusou,
  mas como a menina insistisse, batendo impacientemente o p, cedeu ao desejo
  infantil. Inclinou-se; lai, que trepara a um banco, cingiu-lhe a cabea, como
  a outra lhe fizera, e, satisfeito o seu capricho, saltou do banco ao cho.

Nesse momento, como
  Valria falava a Lus Garcia, no viram estes dois que a menina, saltando
  precipitadamente e mal, cara na areia; s deram pelo desastre ouvindo um
  pequeno grito angustioso de Estela. A moa correra  menina para a fazer
  levantar.

A queda fora pequena; Iai
  procurava sorrir, mas um seixo que havia no cho, e sobre o qual cara o rosto,
  fizera-lhe uma leve escoriao na face.

-- No foi nada, dizia
  ela.

-- Nada! Voc
  feriu-se... Ora, isto! Papai que h de dizer... Anda c.

Estela levou a menina
  pela mo at o repuxo, molhou o leno na gua; lavou-lhe o sangue da face,
  inclinada sobre ela, que sorria voluntariamente. Nesse momento, Lus Garcia,
  que havia descido logo, chegou ao grupo das duas.

-- No foi nada, papai,
  disse Iai lendo no rosto do pai o motivo que o trouxera; fui pular do banco e
  ca. Foi bem feito;  para eu no ser travessa.

Lus Garcia estendera a
  mo direita sobre a cabea da filha e examinava-lhe a escoriao, que era pouco
  mais de nada. Tranqilizou-se e repreendeu-a levemente. Estela, que
  interrompera a operao, concluiu-a dizendo que o caso era de pouca monta, mas
  podia ter sido mais grave. Lus Garcia agradeceu-lhe o cuidado e o obsquio.

-- Demais, a culpada fui
  eu, disse Estela, e sem desculpa, porque no sou criana. Vamos? continuou ela
  pegando na mo da menina.

-- Ento? perguntou a
  viva a Lus Garcia logo que este voltou a ter com ela.

-- No falemos nisso, ou
  faa-me um milagre, disse ele secamente.

No obstante a comoo
  que lhe ficou do procedimento afetuoso de Estela, em relao a Iai, Lus
  Garcia riu no dia seguinte, ao lembrar-lhe a proposta de casamento. Quando l
  voltou, no ouviu falar mais em semelhante assunto, nem Estela lhe deu a
  entender a menor pretenso. Pareceu-lhe que Valria consultara apenas o seu
  desejo particular.

Tratando a moa de
  perto, Lus Garcia havia j observado duas coisas: primeiro, o resguardo com
  que ela procedia; sem ostentar a intimidade de Valria, nem cair nos ademanes
  da servilidade; depois um ar de tristeza, que era a sua feio habitual.
  Concluiu que Estela devia padecer ou ter padecido alguma vez. Apreciou,
  alm disso, algumas de suas qualidades morais. Sup-las verdadeiras, mas
  sup-las tambm caducas, como as graas do rosto ou como a flor do campo; com a
  diferena, dizia ele, -- que h um prazo fatal para que as graas percam o
  primitivo frescor, e a flor expire o seu ltimo cheiro, -- ao passo que a
  natureza social tem a decrepitude precoce, e um princpio de corrupo, que
  destri em breve termo todas as florescncias do primeiro sol.

Estela no desistira da
  idia e cogitava um meio de chegar  execuo, no obstante a confiana da
  viva, que lhe dizia: -- Descansa; a rede est lanada. Era justamente essa
  idia de rede, que repugnava ao esprito direto e simples de Estela.
  Entretanto, cada dia que passava vinha confirmar a eleio da moa.

O resto foi obra de
  Iai, obra dividida em duas partes, uma voluntria, outra inconsciente.
  Voluntria, porque tambm a menina, no silncio laborioso de seu crebro,
  construra o projeto de os unir, e o dissera mais de uma vez a um e a outro.
  Inconsciente, porque o amor que a ligava a Estela, foi a mais poderosa fora
  que modificou o pai. Era uma afeio intensa a dessas duas criaturas; ao passo
  que Iai dava a Estela uma poro de ternura de filha, Estela achava no amor da
  menina uma antecipao dos prazeres da maternidade. Lus Garcia testemunhou
  esse movimento recproco e, por assim dizer, fatal. Se Iai devesse ter
  madrasta, onde a acharia mais completa? Discreta, moderada, superior a seus
  anos, Estela tinha as condies necessrias para esse delicado papel. A
  primeira insinuao da viva foi a causa primordial; mas o tempo, a
  convivncia, a afeio das duas, a necessidade de dar segunda me  menina, e
  antes legtima que mercenria, finalmente, a certeza de que a Estela no
  repugnava a soluo, tais foram os primeiros elementos da deciso de Lus
  Garcia.

Faltava s o milagre, e
  o milagre veio. Iai adoeceu um dia em casa de Valria, e a doena, posto que
  no grave nem longa, deu ocasio a que Estela manifestasse de modo inequvoco
  toda a ternura de seu corao. Lus Garcia foi testemunha da dedicao
  silenciosa e contnua com que Estela tratou da doente. Esse ltimo espetculo
  desarmou-o de todo. Entre eles, o casamento no era a mesma coisa que costuma
  ser para outros; nada tinha das alegrias inefveis ou das iluses juvenis. Era
  um ato simples e grave. E foi o que Estela lhe disse a ele, no dia em que
  trocaram reciprocamente as primeiras promessas.

-- Creio que nenhuma
  paixo nos cega, e se nos casamos  por nos julgarmos friamente dignos um do
  outro.

-- Uma paixo de sua
  parte, em relao  minha pessoa, seria inverossmil, confessou Lus Garcia;
  no lha atribuo. Pelo que me toca, era igualmente inverossmil um sentimento
  dessa natureza, no porque a senhora o no pudesse inspirar, mas porque eu j o
  no poderia ter.

-- Tanto melhor,
  concluiu Estela; estamos na mesma situao e vamos comear uma viagem com os
  olhos abertos e o corao tranqilo. Parece que em geral os casamentos comeam
  pelo amor e acabam pela estima; ns comeamos pela estima;  muito mais seguro.

O casamento foi
  aprovado pelo Sr. Antunes, com a mesma alma com que um ru sancionaria a prpria
  execuo. No somente se lhe iam embora esperanas muito menos modestas, como
  lhe repugnava o carter do genro. No cedeu sem hesitao e luta; hesitao
  perante a viva, luta em relao  filha; mas cedeu, porque ele nascera para
  no resistir. Hbil, no entanto, em espremer algum lucro dos males inevitveis,
  uma vez perdida a confiana na eficcia da recusa, aceitou o acordo, no
  somente com aparncia cordial, mas ainda entusiasta.

-- O dote faz-lhe
  foscas, gemia ele filosoficamente.

A viva serviu de
  madrinha a Estela. Sua alegria era sincera, e tanto ou quanto desinteressada.
  Quase se no lembrava j do perigo que, dois anos antes, lhe atordoara o
  esprito. As cartas de Jorge eram to livres de qualquer opresso, to
  exclusivamente militares! Alm disso, a conscincia ficava satisfeita de um
  desenlace que de certo modo compensava a perda, se alguma perda havia causado a
  Estela. Finalmente, a satisfao com que a viu aceitar casamento, alis
  sugerido por ela prpria, e a felicidade de que foi testemunha durante os
  primeiros tempos, deram-lhe a convico de que a moa estava j inteiramente
  isenta, em relao ao filho. No obstante a paixo deste, tinha f que o tempo
  fizera a sua obra.

CAPTULO VII

Trs meses depois da
  chegada ao Rio de Janeiro, tinha Jorge liquidado todos os negcios de famlia.
  Os haveres herdados podiam dispens-lo de advogar ou de seguir qualquer outra
  profisso, uma vez que no fosse ambicioso e regesse com critrio o uso de suas
  rendas. Tinha as qualidades precisas para isso, umas naturais, outras obtidas
  com o tempo. Os quatro anos de guerra, de mos dadas com os sucessos
  imediatamente anteriores, fizeram-lhe perder certas preocupaes que eram, em
  1866, as nicas de seu esprito. A vida  rdea solta, o desperdcio elegante,
  todas as sedues juvenis eram inteiramente passadas.

O espetculo da guerra,
  que no raro engendra o orgulho, produziu em Jorge uma ao contrria, porque
  ele viu, ao lado da justa glria de seu pas, o irremedivel conflito das
  coisas humanas. Pela primeira vez meditou; admirou-se de achar em si uma fonte
  de idias e sensaes, que nunca lhe deram os receios de outro tempo. Contudo,
  no se pode dizer que viera filsofo. Era um homem, apenas, cuja conscincia
  reta e cndida sobrevivera s preocupaes da primeira quadra, cujo esprito,
  temperado pela vida intensa de uma longa campanha, comea de penetrar um pouco
  abaixo da superfcie das coisas.

Querendo adotar um
  plano de vida nova, renegou a princpio todos os hbitos anteriores, disposto a
  dar  sociedade to-somente a estrita polidez. Teve primeiro idia de ir
  estabelecer-se em algum recanto silencioso e escuso no interior; mas desistiu
  logo, cedendo  necessidade de ficar mais  mo de uma viagem transatlntica,
  idia a que alis nunca deu princpio de execuo.

Os primeiros trs meses
  passaram depressa; foram empregados em liquidar o inventrio. Poucos legados
  deixara a viva. Um deles interessa-nos, porque recaiu em favor de Iai Garcia.
  A viva beneficiava assim, diretamente, o marido de Estela. Jorge aprovou
  cordialmente o ato de sua me. No aprovou menos o dote de Estela, mas o
  sentimento do vexame que experimentou, logo que dele teve notcia, honrava a
  delicadeza de seu corao.

Lus Garcia dera-se
  pressa em visitar o filho de Valria. A entrevista desses dois homens, que o
  curso dos sucessos colocara em to delicada situao, foi cordial, mas no
  expansiva. Jorge no achou Lus Garcia mais velho; era o mesmo. No o achou
  tambm menos reservado que antes. A conversa, em comeo no foi alm dos fatos
  gerais; falaram da guerra e das vitrias. Jorge referiu alguns episdios, que o
  outro ouviu com interesse; e, como parecesse olvidar seus prprios feitos:

-- Vejo que  modesto,
  observou Lus Garcia; felizmente lemos as folhas e as partes oficiais.

-- Fiz o que pude,
  respondeu Jorge; era preciso vencer ou ser vencido. Que  feito de tanta gente
  que ainda no vi? continuou ele para desviar o assunto.

-- Cada qual segue o seu
  destino. Meu sogro creio que j o visitou. . .

-- J.

-- A propsito, deixe-me
  agradecer os benefcios que devo a sua me...

Jorge quis
  interromp-lo com o gesto.

-- Perdo;  meu dever,
  continuou Lus Garcia gravemente. A Sra. D. Valria quis mostrar ainda  ltima
  hora a simpatia que sempre lhe mereci. Duas vezes o fez, alm de outras.
  Primeiramente, resolveu-me a casar outra vez, coisa que estava longe de meus
  clculos. Foi ela a primeira autora dessa transformao de minha vida, e em boa
  hora o foi, porque no me podia fazer maior obsquio. Requintou o obsquio, ocultando
  at a ltima hora a prova de ternura que desde alguns meses antes dera a minha
  mulher; tinha-a dotado, como deve saber...

Jorge fez um gesto
  afirmativo.

-- Achou que no era
  bastante e deixou a minha filha um legado, que ser o seu dote... Gostava muito
  dela. No podendo agradec-lo  benfeitora, permita que o agradea ao...

-- Desta vez h de
  obedecer-me, interrompeu Jorge com brandura; falemos de outra coisa.

-- Sim; falemos de minha
  mulher. Saiba que rematou dignamente a obra de sua me; e mais uma vez me fez
  compreender o benefcio do casamento. Logo depois de casado, props-me aceitar,
  em favor de minha filha, a parte com que a Sra. D. Valria lhe manifestara sua
  afeio. Gostei de a ouvir, porque era sinal de desinteresse, mas recusei, e recusei
  sem eficcia. Cedi, enfim; e no podia ser de outro modo. Folgo de lhe dizer
  essas coisas porque so raras...

Jorge fechou o rosto ao
  ouvir essas palavras de Lus Garcia. Adivinhara a causa do desinteresse de
  Estela. -- Eterno orgulho! pensou ele. Depois refletiu no caso e perguntou a si
  mesmo se a moa teria confiado ao marido alguma coisa do que se passara entre
  eles. Era difcil perceb-lo, mas no era acertado sup-lo. Nenhuma mulher o
  faria nunca. Estela menos que nenhuma outra. Interrogou o rosto de Lus Garcia;
  achou-o plcido e imvel. Aps alguns segundos de silncio, estendeu-lhe a mo.

-- Permite-me ento que
  o felicite? disse ele.

-- De corao, acudiu
  Lus Garcia. E depois de erguer-se: -- Se eu tivesse o sestro de dar conselhos,
  dir-lhe-ia que se casasse.

-- Pode ser.

-- No lhe pergunto pela
  outra paixo; creio que a esqueceu de todo.

-- De todo.

Lus Garcia apertou-lhe
  cordialmente a mo e saiu, depois de lhe oferecer a casa. Jorge ficou alguns
  instantes pensativo. A notcia do dote de Estela causara-lhe certo vexame; a
  notcia da doao feita pela moa em favor da enteada, produzia-lhe agora um
  sentimento mesclado de admirao e despeito. Ele sentia arder no mais fundo do
  corao da moa um resduo de dio, e em seu prprio corao no podia deixar
  de aprovar o ato.

Sendo foroso pagar a
  visita a Lus Garcia, Jorge demorou o cumprimento desse dever enquanto lhe foi
  possvel faz-lo sem reparo. Um dia, enfim, sabendo por intermdio do Sr.
  Antunes que a famlia no estava em casa, foi a Santa Teresa e deixou l um
  bilhete de visita.

A vida de Jorge foi
  ento dividida entre o estudo e a sociedade,  qual cabia somente uma parte
  mnima. Estudava muito e projetava ainda mais. Delineou vrias obras durante
  algumas semanas. A primeira foi uma histria da guerra, que deixou por mo,
  desde que encarou de frente o monte de documentos que teria de compulsar, e as
  numerosas datas que seria obrigado a coligir. Veio depois um opsculo sobre
  questes jurdicas e logo duas biografias de generais. To depressa escrevia o
  ttulo da obra como a punha de lado. O esprito sfrego colhia s as primcias
  da idia, que alis entrevia apenas. Uma vez, uma s vez, lembrou-se de
  escrever um romance, que era nada menos que o seu prprio; ao cabo de algumas
  pginas, reconheceu que a execuo no correspondia ao pensamento, e que no
  saa das efuses lricas e das propores da anedota.

Quando mais disposto se
  achava a compor essa autobiografia, ocorreu vagar a casa da Tijuca, a mesma
  aonde fora uma vez com sua me e Estela, ponto de partida dos sucessos que lhe
  transformaram a existncia. Quis v-la novamente; talvez ali achasse uma fonte
  de inspirao. Foi; achou-a quase no mesmo estado. Entrou curioso e tranqilo.
  Pouco a pouco sentiu que o passado comeava a reviver; a ressurreio foi
  completa, quando penetrou na varanda, em que da primeira vez achara o casal de
  pombos, solitrio e esquecido. J l no estavam as pobres aves! Tinham voado
  ou morrido, como as esperanas dele, e to discretamente que a ningum
  revelaram o desastrado episdio. Mas as paredes eram as mesmas; eram os mesmos
  o parapeito e o ladrilho do cho. Jorge encostou-se ao parapeito, onde estivera
  Estela, com os pombos ao colo, diante dele, naquela fatal manh. O que sentia
  nesse outro tempo, posto frisasse o amor, tinha ainda um pouco de estouvamento
  juvenil. Contudo a vista das paredes nuas e frias da varanda abria-lhe na alma
  a fonte das sensaes austeras, e ele tornou a ver os olhos frvidos e o rosto
  plido da moa; pareceu at escutar-lhe o som da voz. Viu tambm a sua prpria
  violncia; e, como em meio de tantas vicissitudes, trazia ainda a conscincia
  ntegra, a recordao f-lo estremecer e abater. Jorge fincou os braos no
  parapeito e fechou a cabea nas mos.

-- Ol, senhor
  dorminhoco! so horas de almoar.

Jorge ergueu vivamente
  a cabea e olhou para a chcara, donde lhe pareceu que sara a voz. Na chcara,
  a vinte passos de distncia, estava um homem, que sorria para ele, com as mos
  nas costas, seguras a uma grossa bengala. Jorge sentiu um calafrio, como se lhe
  descobrissem o segredo do passado. S depois de desfeita a primeira sensao,
  respondeu sorrindo:

-- No durmo; estou
  pensando nos aluguis.

-- Muda-se para aqui?

-- No.

-- A casa  sua?

-- . Suba c.

O homem galgou os seis
  degraus da escada de tijolo e entrou na varanda, onde Jorge assumira
  exclusivamente o papel de proprietrio, olhando atentamente para as paredes do
  edifcio.

-- Que faz por aqui, Sr.
  Procpio Dias, s dez horas da manh? disse Jorge logo que o outro apareceu.

-- Passei a noite na
  Tijuca; soube que esta casa vagara, vim v-la; no sabia que era sua. Est um
  pouco estragada.

-- Muito.

-- Muito?

-- Parece.

Procpio Dias abanou a
  cabea com um gesto de lstima.

-- No  assim que deve
  respondeu um proprietrio, disse ele. Meu interesse  ach-la arruinada; o seu
   dizer que apenas precisa de algum conserto. A realidade  que a casa est
  entre a minha e a sua opinio. Olha, se est disposto a concordar sempre com os
  inquilinos,  melhor vender as casas todas que possui. -- Ou fica perdido. . .
  Com que ento esta casa  sua? A aparncia no  feia; h alguma coisa que pode
  ser consertada e ficar ento excelente. No  casa moderna; mas  slida. Eu
  j a vi quase toda; desci  chcara, e estava a examin-la, quando o senhor
  apareceu na varanda.

-- Quer ficar com ela?

--Ingnuo! respondeu
  Procpio Dias batendo-lhe alegremente no ombro. Se eu confesso que ela no est
  muito estragada  porque no a quero para mim.  grande demais; e depois, fica
  muito longe da cidade. Se fosse mais para baixo...

-- Mas no caso de que
  haja por a algum namoro? ponderou Jorge sorrindo.

-- Falemos de outra
  coisa, acudiu o outro faiscando-lhe os olhos.

Os olhos de Procpio
  Dias eram cor de chumbo, com uma expresso refletida e sonsa. Tinha cinqenta
  anos esse homem, uns cinqenta anos ainda verdes e prsperos. Era mediano de
  carnes e de estatura, e no horrivelmente feio; a poro de fealdade que lhe coubera,
  ele a disfarava, quando podia, por meio de qualidades que adquirira com o
  tempo e o trato social. Fazia s vezes um movimento que lhe descrevia na testa
  cinco rugas horizontais. Era uma das suas maneiras de rir. Alm dessa
  particularidade, havia o feitio do nariz, que representava um tringulo de
  lados iguais, ou quase: nariz a um tempo sarcstico e inquisidor. No obstante
  a expresso dos olhos, Procpio Dias tinha a particularidade de parecer
  simplrio, sempre que lhe convinha; nessas ocasies  que ria com a testa. No
  usava barba; ele prprio a fazia com o maior esmero. Via-se que era homem
  abastado. As roupas, graves no corte e nas cores, eram da melhor fazenda e do
  mais perfeito acabado. Naquela manh trazia uma longa sobrecasaca abotoada at metade
  do peito, deixando ver meio palmo de camisa, infinitamente bordada. Entre o
  ltimo boto da sobrecasaca e o nico colarinho, fulgia um brilhante vasto,
  ostensivo, escandaloso. Um dos dedos da mo esquerda ornava-se com uma soberba
  granada. A bengala tinha o casto de ouro lavrado, com as iniciais dele por
  cima, -- de forma gtica.

Jorge conheceu Procpio
  Dias no Paraguai, onde este fora negociar e triplicar os capitais, o que lhe
  permitiu colocar-se acima das viravoltas da fortuna. Travaram relaes, no
  ntimas, mas freqentes e agradveis, e at certo ponto teis a Procpio Dias,
  que obteve de Jorge mais de uma recomendao. No obstante a freqncia das
  relaes, estavam longe da amizade estreita; e isso, no por esforo de
  Procpio Dias, cujas maneiras fceis assediaram por muito tempo a inexperincia
  de Jorge. O motivo de Procpio Dias cessou com a guerra, desde que com a guerra
  cessara tambm o interesse mercantil. Jorge no tinha motivo contra ele; quando
  o conhecera estava no perodo melanclico.

-- Ainda no respondeu 
  minha suspeita, disse Jorge dando o brao a Procpio Dias.

-- O namoro?

-- Sim.

-- Nem sombras disso,
  meu caro! Ou antes... creio que vou entrar para um convento...  a minha ltima
  ambio.

Procpio Dias tinha
  dois credos. Era um deles o lucro. Mediante alguns anos de trabalho assduo e
  finuras encobertas, viu engrossarem-lhe os cabedais. Em 1864, por um instituto
  verdadeiramente miraculoso, farejou a crise e o descalabro dos bancos, e
  retirou a tempo os fundos que tinha em um deles. Sobrevindo a guerra, atirou-se
  a toda a sorte de meios que pudessem tresdobrar-lhe as rendas, coisa que
  efetivamente alcanou no fim de 1869.

A no ser o segundo
  credo,  provvel que Procpio Dias s liquidasse com a morte. Tendo chegado a
  uma posio slida, aos cinqenta anos, achou-se diante de outra riqueza, no
  inferior quela que era o tempo. Ora, o segundo credo era o gozo. Para ele, a
  vida fsica era todo o destino da espcie humana. Nunca fora srdido; desde as
  primeiras fases da vida, reservou para si a poro de gozo compatvel com os
  meios da ocasio. Sua filosofia tinha dois pais: Luculo e Salomo, -- no o
  Luculo general, nem o Salomo piedoso, mas s a parte sensual desses dois
  homens, porque o eterno feminino no o dominava menos que o eterno estmago.
  Entre os colegas de negcio foi sempre tido como um feliz vencedor de coraes
  fracos. E, ao invs de outros, no punha nisso a menor vaidade ou glorola;
  preferia a cautela e a obscuridade, no em ateno ao pudor pblico, mas porque
  era mais cmodo. Nenhuma diva mundana teria jamais a audcia de cortej-lo na
  rua ou sorrir-lhe simplesmente; perdia o tempo e o sacerdote. Gozava para si,
  que  a perfeio sensual.

No conhecia Jorge nem
  a vida nem o carter do outro. Procpio Dias tinha o pior mrito que pode caber
  a um homem sem moral: era insinuante, afvel, conversado; tinha certa viveza e
  graa. Era bom parceiro de rapazes e senhoras. Para os primeiros, quando eles o
  pediam, tinha a anedota crespa e o estilo vil; se lhes repugnava isso, usava de
  atavios diferentes. Com senhoras era o mais paciente dos homens, o mais
  servial, o mais bulioso, -- uma jia.

-- Ningum o v, -- dizia
  ele da a duas horas,  mesa do almoo de Jorge, na casa da Rua dos Invlidos.
  No conheo os seus amigos de outro tempo, mas devo crer que todos lhe censuram
  essa vida de bicho-do-mato. -- Nos teatros... nunca vai aos teatros?

-- Quase nunca.

-- Vamos hoje?

-- Corruptor! disse
  Jorge sorrindo.

De noite foram ao
  teatro. Procpio Dias estava de veia; a palestra, a cena, o prprio tempo, tudo
  conspirou para dissipar as sombras de melancolia que a manh acumulara na
  fronte de Jorge. -- No se deixe apodrecer na obscuridade, que  a mais fria das
  sepulturas, dizia Procpio Dias,  mesa de um hotel, onde fora cear. Jorge no
  comeu nada. Malgrado o prazer que achava em estar com ele, no quis aceitar-lhe
  o obsquio da ceia, apesar de lhe ter feito o do almoo. Procpio Dias percebeu
  isso mesmo, mas no se molestou; abaixou a cabea, deixou passar essa onda de
  desconfiana e surgiu fora, a rir. Saram dali uma hora depois. A evocao da
  Tijuca tinha-se esvado.

Jorge deixou-se
  persuadir dos conselhos do outro. Abriu mo do ltimo livro planeado,
  contentando-se com t-lo vivido. Demais o tempo ia minando a antiga sensao, e
  a vida social tornava a prend-lo em suas malhas.

Entre as pessoas que
  tornou a ver, figurava a mesma Eullia, com quem a me quisera cas-lo, alguns
  anos antes. Eullia no ficara solteira; estava na lua-de-mel, uma lua-de-mel
  que durava mais de um ano. O casamento fora a vara mosaica, mediante a qual se
  lhe abrira no corao uma fontezinha de ternura. Encontraram-se num baile.
  Nenhum deles sentiu acanhamento; como nunca chegaram a tratar dos projetos de
  Valria, puderam falar com a mesma iseno de 1866. A diferena  que Eullia,
  que era feliz, exagerava a felicidade para melhor mostr-la a Jorge e
  convenc-lo de que antes ganhara do que perdera com a recusa dele.

-- V l  Rua de
  Olinda, disse a moa; quero mostrar-lhe meu filho.

Jorge foi. Eullia
  mostrou-lhe o filho, criana que valia por duas to gorda e vigorosa era. Jorge
  chegou a pegar nele, mas no sabia haver-se com as rendas, os babados, as
  fitas. Eullia que possua toda a destreza materna, tomou-lho das mos. -- O
  senhor no entende disto, disse ela. E depois de concertar a touca da criana,
  beijou-a muitas vezes, riu-se para ela, fez-lhe um monlogo, tudo com uma graa
  e poesia, que Jorge estava longe de lhe supor cinco anos antes. Ele contemplava
  essa jovem me, elegante e natural, e sentia-se tomado de inveja e cobia.

-- A felicidade  isto
  mesmo, pensou ele.

Voltou l algumas
  vezes, fez-se ntimo da casa. Comeou a receber tambm. Viu entre os
  freqentadores de sua casa o pai de Estela, que achou nele a benevolncia do
  desembargador. O Sr. Antunes era conviva certo ao almoo dos domingos; dava-lhe
  notcias do genro e da filha. Ele pranteava ainda a quimera esvada, e achava
  no sei que dolorido prazer em falar de Estela ao genro de suas ambies. Demais,
  era um como desforo do outro, a respeito de quem aventurou mais de uma queixa.
  Jorge, porm, ouvia-o sem lhe responder nada.

No meado do ano de
  1871, fez Jorge uma excurso a Minas Gerais, com o fim de ajoelhar-se 
  sepultura de sua me, cujos ossos transportaria oportunamente para um dos
  cemitrios do Rio de Janeiro. A excurso durou seis semanas. Jorge visitou
  alguns parentes, e regressou nos princpios de agosto.

Um incidente
  transtornou-lhe os planos.

CAPTULO VIII

Chegando ao Rio, Jorge
  teve notcia de que Lus Garcia estava a enfermo. No contava com o incidente,
  que o ps em grande perplexidade. No queria visit-lo, e mal poderia deixar de
  o fazer. Lus Garcia fora prezado de seus pais; ele prprio lhe tinha estima e
  considerao: motivos bastantes a aconselhar o desempenho de um dever de
  cortesia. Mas, por outro lado, ir a Santa Teresa era arriscar-se  suspeita de
  Estela. Jorge vacilou durante dois longos dias. Certo, ele sentiu algum
  alvoroo, com a idia de a ver; idia que, se buscou rejeitar do esprito, l
  ficou latente e dissimulada. Mas a razo que confessava a si prprio era a da
  convenincia.

Venceu a hesitao e
  foi a Santa Teresa, na tarde do terceiro dia. A casa no era j a mesma; tinha
  dimenses um pouco maiores que a outra. Era nova, ladeada de verdura, com as
  telhas ainda da primeira cor. Havia duas entradas, uma para a sala, ficando a
  porta entre quatro janelas, outra para o jardim, e era uma porta de grade de
  ferro, aberta no centro de um pequeno muro, por cima do qual vinha debruar-se
  a verdura de uma trepadeira. A achou Raimundo, mais velho do que o deixara,
  mas no menos forte. Raimundo conheceu-o, apesar de queimado do sol. Abriu-lhe
  a porta; acompanhou-o alegremente ao fundo do jardim.

-- Meu senhor vai ficar
  muito contente, dizia ele fazendo-o entrar.

-- Est melhor?

-- Est, sim, senhor.
  Olhe, est ali.

Raimundo apontou para
  um grupo de pequenas rvores, atravs de cuja ramagem se descobriam vestidos de
  mulher. Jorge sentiu coar-lhe pelas veias uma onda de frio. Mas passou
  depressa; e deu o primeiro passo to firme, como diante das legies de Lpez.

-- Quem , Raimundo?
  cantou uma voz desconhecida, no meio das rvores.

Jorge viu aparecer uma
  moa, que representava ter dezoito anos e no contava mais de dezesseis;
  reconheceu a filha de Lus Garcia. Ela no o reconheceu logo; os trabalhos da
  guerra tinham-no mudado. Demais, nas poucas vezes que o vira no lhe havia
  prestado muita ateno. Jorge foi conduzido at a cadeira onde se achava
  estirado Lus Garcia, entre duas outras, uma com um trabalho de agulha em cima,
  outra com um livro aberto. Lus Garcia recebeu-o com satisfao e cordialidade;
  Jorge explicou a demora da visita pelo fato de estar ausente. A explicao era
  uma cortesia nova; Lus Garcia agradeceu-lha.

-- Estive muito
  prostrado, disse ele; no sei mesmo se cheguei s portas da morte. Agora estou
  quase bom.

Jorge sentara-se a um
  lado do convalescente, enquanto Iai, do outro lado, brincava com os cabelos do
  pai ou lhe apertava uma das mos. Lus Garcia contou as peripcias da doena e
  exaltou a dedicao da famlia; Jorge falou pouco, j por evitar trair a
  comoo que sentia ao penetrar naquela casa, j por no prolongar a visita e
  pod-la terminar no primeiro intervalo de silncio. No fim de quinze minutos
  levantou-se.

-- Espere um pouco,
  disse o convalescente. Iai, vai chamar tua madrasta.

Iai levantou-se para
  obedecer  ordem do pai, mas no momento em que ia pousar nos joelhos deste o
  livro que tinha no regao ouviu-se um passo na areia e logo depois esta sbita
  palavra:

-- Pronto!

Era Estela. O
  sobressalto de Jorge, por mais imperceptvel que fosse, no escapou a Iai, e
  f-la sorrir  socapa; atribuiu-o ao susto. Estela apareceu; mas, porque j
  sabia da presena de Jorge, pde encar-lo sem nenhuma aparente comoo. Houve
  certa hesitao entre um e outro, mas foi curta. A moa inclinou-se levemente e
  estendeu-lhe a mo. Jorge apertou-lha.

-- Ainda no tinha tido
  a satisfao de a ver depois de minha volta do Paraguai, disse ele.

--  verdade, respondeu
  a moa; vivemos muito retirados.

Estela chegou-se ao
  marido, afastando-se Jorge para deix-la passar. -- Pronto, repetiu ela.
  Trazia-lhe um copo de gelia. Enquanto Lus Garcia tomava a refeio de
  convalescente, Estela ficou de p, ao lado dele; depois sentou-se e dirigiu a
  palavra ao filho de Valria. Naturalmente falou-lhe da campanha. Ele respondeu
  sem afetao e com tranqilidade.

J tive ocasio de lhe
  dizer que foi um dos heris, interveio Lus Garcia olhando para a mulher; mas o
  Dr. Jorge teima em escurecer os seus prprios servios. Iai no  a mesma
  coisa.

-- Sim? perguntou Jorge.

--  verdade; durante
  toda a campanha matou pelo menos metade do exrcito paraguaio.

Iai lanou ao pai um
  olhar de graciosa censura.

-- No precisa corar,
  disse Jorge; era uma maneira de ser patriota; mas creia que havia menos perigo
  em matar o inimigo c de longe.

-- O senhor matou algum?
  perguntou Iai no fim de um instante.

-- Provavelmente. Na
  guerra  preciso matar ou morrer. No me importava morrer; mas h ocasies em
  que o mais indiferente  um heri. Eu fiz o que pude.

Como a tarde comeasse
  a escurecer, Estela disse ao marido que era tempo de recolher-se a casa.
  Ergueu-se para lhe dar o brao; Jorge porm apressou-se a substitu-la. Estela
  foi adiante, e quando Jorge entrou na sala com o convalescente, ela preparava a
  cadeira em que este devia sentar-se, uma larga e extensa cadeira de vime. Lus
  Garcia esperou alguns instantes, enquanto a mulher colocava as almofadas,
  resvalando serenamente de um lado para outro.

Durante essa curta
  espera, Jorge olhava para a moa, e era a primeira vez que o fazia mais
  detidamente. Pouca era a diferena entre a Estela de 1867 e a de 1871. Tinha o
  mesmo rosto plido e os mesmos olhos severos. As feies no haviam mudado; o
  busto conservava a graa antiga; estava s um pouco mais cheio, diferena que
  no destoava da estatura, que era alta. Esta era a pessoa fsica. Moralmente
  devia ser a mesma; mas que contraste na situao! Assim, -- a mulher que o
  levara a servir por quatro anos uma campanha rdua e porfiosa, e cuja imagem
  no esquecera no centro do perigo, essa mulher estava ali diante dele, ao p de
  outro, feliz, serena, dedicada, como uma esposa bblica. A comparao doeu-lhe;
  mas o corao comeava a repetir-lhe juvenilmente as mesmas horas que j havia
  batido. Para refre-lo, Jorge despediu-se dez minutos depois.

-- J! exclamou Lus
  Garcia. Foi visita de mdico. Agradeo-lhe, entretanto, a ateno. Esta casa 
  sua; sabe que todos ns o estimamos.

Jorge seguiu para casa,
  contente e arrependido da visita que acabava de fazer. Gastou as primeiras
  horas da noite a folhear dez ou doze tomos, lendo a troncos duas ou trs
  pginas de cada um; quando os olhos estavam mais atentos na pgina aberta, o
  esprito saa p ante p e deitava a correr pela infinita campanha dos sonhos
  vagos. Voltava de quando em quando; e os olhos, que haviam chegado
  mecanicamente ao fim da pgina, tornavam ao princpio, a reatar o fio da
  ateno. Como se a culpa fosse do livro, trocava-o por outro, e ia da filosofia
   histria, da crtica  poesia, saltando de uma lngua a outra, de um sculo a
  outro sculo, sem outra lei mais que o acaso.

O claro da seguinte
  manh dissipou uma parte dos cuidados da noite. O primeiro alvoroo tinha
  passado. Jorge disse a si mesmo que bastava ser homem, esquecer o incidente da
  vspera, e arredar para sempre a possibilidade de outros. No repetiria a
  visita a Lus Garcia; e provavelmente no os veria nunca mais. Na Rua do
  Ouvidor encontrou Procpio Dias, que lhe disse  queima-roupa:

-- Entrei meia hora
  depois do senhor sair.

-- Onde?

-- Em Santa Teresa. Se
  se demora meia hora mais, encontrava-o e poderamos ter descido juntos. Conhece
  h muito tempo o Lus Garcia?

-- Desde muito moo.

-- Tambm eu; mas no o
  via h dez anos. Est o mesmo homem; est melhor, porque casou com uma mulher
  bonita. Que gente  aquela?

-- A mulher foi educada
  por minha me.

-- V-se que sim. Oh!
  falamos muito do senhor.

-- Sim? perguntou
  vivamente Jorge.

Procpio Dias olhou
  fixamente um instante, depois riu com a testa.

-- Muito, repetiu ele;
  eu e o Lus Garcia travamos um duelo de louvores, e se no h nisto vaidade
  creio que o venci; naturalmente porque sou mais expansivo do que ele. Na
  verdade, ele  seco, mas o pouco que disse, disse-o com sinceridade. Parece
  estimar-se muito aquela famlia.

Procpio Dias tornou a
  falar-lhe de Santa Teresa, na noite do dia seguinte, em uma casa onde jantaram
  juntos. Falou-lhe primeiramente em particular, depois diante de outros. A dona
  da casa, que era uma Diana caadora de boatos e novidades, farejou algum
  mistrio entre as rugas da testa de Procpio Dias, e dobrando as pontas do arco
  disparou sutilmente uma flecha que ningum viu, mas foi enterrar-se no corao
  de Jorge. Este fez boa cara ao tiro, mas l dentro sangrou um pouco de
  irritao e medo. Sentia no fundo da conscincia o calor de um sentimento
  honesto, e contudo a opinio tendia a apoderar-se dele e a devassar-lhe as
  cinzas do passado; cinzas frias ou mornas,  o que ele no podia ainda discernir.
  Confiado em si mesmo, Jorge tremia diante da opinio, -- a opinio do epigrama e
  da anedota, que comeava a sacudir o seu riso escarninho e cru.

Inquieto e aborrecido,
  saiu dali pouco depois de jantar. O gracejo da dona da casa continuava a
  zumbir-lhe ao ouvido, ao mesmo tempo que a figura de Estela lhe surgia aos
  olhos, com o seu aspecto do costume. J entrado na Rua dos Invlidos, Jorge
  desandou o caminho e foi direito a um teatro, com o fim de aturdir-se e
  esquecer mais depressa. Eram nove horas e meia; assistiu a um resto de drama,
  que lhe pareceu jovial, e a uma comdia inteira, que lhe pareceu lgubre. No
  obstante, arejou o esprito dos cuidados da noite, e caminhou para casa mais
  leve e desassombrado. Era uma hora quando chegou; o criado entregou-lhe uma
  carta.

-- A pessoa que trouxe
  esta carta disse que era urgente.

Jorge recebeu-a, sem
  conhecer a letra do sobrescrito. Era letra de mulher. Abriu-a sem pressa, mas
  no sem curiosidade. No era longa; dizia simplesmente isto: "Ilmo. Sr. Doutor.
  Papai est muito mal; pede-lhe o favor de vir a nossa casa. -- Lina Garcia."

-- A que horas veio esta
  carta? perguntou ele ao criado

-- s sete.

Jorge fez um gesto de
  enfado e mandou buscar um tlburi. Da a uma hora parava  porta de Lus
  Garcia. Era tudo silncio. Jorge deteve-se alguns instantes, incerto sobre o
  que convinha fazer. O perigo, se perigo houve, podia ter passado, e toda a
  famlia estaria em repouso. Espreitou pela porta do jardim, e viu uma claridade
  frouxa, atravs de uma veneziana. Logo depois ouviu passos na areia. Era o Sr.
  Antunes que sentira parar o tlburi.

-- Meu genro est mal,
  disse o pai de Estela; teve esta manh uma recada e perto das oito horas cuidamos
  perd-lo.

Jorge entrou.

Lus Garcia estava
  prostrado; a febre ardia-lhe sinistramente nos olhos. De um lado e de outro do
  leito, viam-se a mulher e a filha, aparentemente quietas, mas gastando toda a
  fora moral em suster a angstia que ameaava fazer-se em lgrimas.

-- Que tem? perguntou
  Jorge aproximando-se do enfermo.

-- Uma febrinha
  importuna, respondeu este.

A um sinal, Estela e
  Iai retiraram-se da alcova, onde s ficou Jorge.

Mandando chamar o moo,
  Lus Garcia punha em execuo um pensamento que lhe brotara no calor da febre.
  Ouviu do mdico algumas palavras que lhe fizeram supor a probabilidade da
  morte; e, no tendo amigos nem parentes, e no querendo confiar a mulher e a
  filha ao sogro, lanou mo da pessoa que lhe pareceu ter a sisudez bastante e a
  influncia necessria para as dirigir e proteger.

-- Seu pai foi amigo de
  meu pai, disse ele; eu fui amigo de sua famlia; devo-lhe obsquios
  apreciveis. Se eu morrer, minha mulher e minha filha ficam amparadas da
  fortuna, porque o dote de uma servir para ambas, que se estimam muito; mas
  ficam sem mim.  verdade que meu sogro, mas... mas meu sogro tem outras
  ocupaes, est velho, pode faltar-lhes de repente. Quisera pedir-lhe que as
  protegesse e guiasse; que fosse um como tutor moral das duas. No  que lhes
  falte juzo; mas duas senhoras sozinhas precisam de conselhos... e eu...
  desculpe-me se sou indiscreto. Promete?

Jorge prometeu tudo,
  com o fim de o tranqilizar, porque Lus Garcia parecia excessivamente aflito
  com a idia daquela eterna separao. O pedido afigurou-se-lhe singular;
  atribuiu-o  exaltao febril do doente. Soube depois que a vida de Lus Garcia
  dependia da primeira crise que fizesse a enfermidade, segundo havia declarado o
  mdico.

Eram quase quatro horas
  quando Jorge de l saiu. Voltou s nove e achou o mdico. A crise era esperada
  na tarde desse dia, e s ento se poderia dizer se a vida do enfermo estava
  perdida ou salva. Foi o que o mdico lhe repetiu,  porta do jardim, aonde
  Jorge o foi acompanhar.

-- No obstante,
  concluiu o mdico, ele tem outra doena que o deve matar dentro de alguns
  meses, um ano ou ano e meio.

-- Corao?

-- Justamente.

Esta notcia
  impressionou o moo.

-- No ser iluso da
  medicina? perguntou ele.

O mdico abanou a
  cabea, e saiu. Jorge encaminhou-se para casa, mas teria dado apenas trs
  passos, quando viu Estela que vinha ao seu encontro. A moa parou diante dele.

-- Que lhe disse o
  mdico? perguntou.

-- Tem esperanas; logo
  de tarde poder afianar mais alguma coisa.

-- S isso?

-- S.

-- No o desenganou?

-- No.

Estela refletiu um
  instante.

-- D-me sua palavra,
  disse ela.

Jorge estendeu-lhe a
  mo, sobre a qual Estela deixou cair a sua, no menos fria que plida.

-- Sou amigo de seu marido,
  disse Jorge depois de alguns instantes; creia que ele pode contar com toda a
  minha dedicao.

Estela pareceu acordar
  do momentneo torpor; atentou no moo, retirou a mo e respondeu com um simples
  gesto de assentimento. A alma subjugada tornara  natural atitude. Jorge viu-a
  entrar em casa e ficou s alguns minutos, a recordar a revelao do mdico, e a
  sentir que, ao p da tristeza que o pungia, havia alguma coisa semelhante a um
  sentimento egosta e cruel.

Entre a esperana e
  receio gotejaram algumas horas longas, at que a crise veio e passou, sem levar
  consigo a vida ameaada. Na manh seguinte a alegria foi tamanha em redor do
  enfermo, que ele viu claramente o perigo e a salvao. Nem a filha nem a mulher
  pareciam alquebradas do trabalho e da viglia; estavam frescas, risonhas,
  geis, partindo entre si o po da alegria, como haviam partido irmmente o po
  da angstia.

Durante a molstia e a
  convalescena, Jorge visitou-os uma vez por dia; e fora  dizer que, se por um
  instante houve em seu corao um impulso egosta, tal impulso no se lhe
  repetiu depois; serviu ao doente com desinteresse e lealdade. A famlia deste
  mostrou-se agradecida. Lus Garcia recordou ao moo o pedido que lhe fizera na
  noite em que o mandara chamar, e recordou-lho, no s para lhe agradecer a
  aquiescncia como para explic-lo. Mas a explicao era difcil, porque ele
  cedera principalmente  averso que lhe inspirava o sogro, em quem no tinha a
  mnima confiana; no obstante as meias palavras de que usou, Jorge entendeu
  tudo.

A freqncia trouxe a
  necessidade. Levado pelas circunstncias, Jorge acostumou-se s visitas, e
  amiudou-as. No ms de setembro, a pretexto de calor, que ainda no fazia,
  transferiu a residncia para a casa que tinha em Santa Teresa, e que no ficava
  a longa distncia da de Lus Garcia. No havia que reparar no caso; sua me
  tinha o costume de passar ali trs a quatro meses no ano. Demais, nas ltimas
  semanas ele comeara a fazer-se menos visto e menos freqentado. Podia
  facilmente passar a outra vida mais reclusa.

Entretanto, como essa
  mudana antecipada para Santa Teresa podia no ter em si mesma toda a
  explicao razovel, Jorge buscou enganar-se a si prprio reunindo os elementos
  e lanando ao papel as primeiras linhas de um trabalho, que jamais devia
  acabar, mas que, em todo caso, legitimava a necessidade de repouso. Nos
  intervalos deste  que visitava a casa de Lus Garcia, uma ou duas vezes por
  semana. Aos domingos, tinha sempre a jantar o Sr. Antunes, com quem jogava uma
  partida de bilhar. Tentou ensinar-lhe o xadrez, mas desanimou ao fim de cinco
  lies.

-- Ah! Mas nem todos tm
  o seu talento! exclamou triunfalmente o pai de Estela.

Lus Garcia jogava o
  xadrez. Era o recreio usual entre ele e Jorge; outras vezes saam a passeio at
  curta distncia. Lus Garcia aceitava de boa sombra essas distraes, que no
  eram turbulentas nem cansativas, mas brandas e pausadas, como ele. Demais nem
  sempre eram distraes sem fruto. Jorge apreciava agora melhor as conversaes
  que no eram puros nadas, e os dois trocavam idias e observaes. Lus Garcia
  era homem de escassa cultura, sobretudo irregular; mas tinha os dons naturais e
  a longa solido dera-lhe o hbito de refletir. Tambm ele ia  casa de Jorge,
  cujos livros lia de emprstimo. Era tarde; j no estava moo; faltava-lhe
  tempo e sobrava-lhe fome; atirou-se sfrego, sem grande mtodo nem escrupulosa
  eleio; tinha vontade de colher a flor ao menos de cada coisa. E porque era
  leitor de boa casta, dos que casam a reflexo  impresso, quando acabava a
  leitura, recompunha o livro incrustava-o por assim dizer, no crebro; embora
  sem rigoroso mtodo, essa leitura retificou-lhe algumas idias e lhe completou
  outras, que s tinha por intuio.

A necessidade
  intelectual de Lus Garcia contribuiu assim para tornar mais ntima a
  convivncia, nica exceo na vida reclusa que ele continuava a ter, ainda
  depois de casado. Jorge pela sua parte no desmentia at ali o bom conceito que
  o outro formava de suas qualidades; e a famlia viu lentamente estabelecer-se a
  intimidade e a estima entre os dois homens. Uma noite, saindo Jorge da casa de
  Lus Garcia, este e a mulher ficaram no jardim algum tempo. Lus Garcia disse
  algumas palavras a respeito do filho de Valria.

-- Pode ser que eu me
  engane, concluiu o ctico; mas persuado-me que  um bom rapaz.

Estela no respondeu
  nada; cravou os olhos numa nuvem negra, que manchava a brancura do luar. Mas
  Iai que chegara alguns momentos antes, ergueu os ombros com um movimento
  nervoso.

-- Pode ser, disse ela;
  mas eu acho-o insuportvel.

CAPTULO IX

A nova ordem de coisas
  perturbou profundamente o nimo de Estela. O procedimento de Jorge, por ocasio
  da molstia do marido, no lhe pareceu esconder nenhuma inteno particular;
  mas durante a convalescena, e sobretudo depois dela, afigurou-se-lhe que a
  idia do moo era insinuar-se na famlia. Para qu? Estela supunha que o amor
  de Jorge, ao fim de to longo perodo, estaria acabado de todo, como produto da
  primeira estao. No lhe negou um pouco de gratido, quando viu os obsquios
  que prestara ao marido enfermo, com tanta solicitude, discrio e dignidade.
  Agora, porm, ao ver a freqncia e a convivncia, sups alguma coisa mais do
  que a simples afeio tradicional. Que encanto podia oferecer a casa de uma
  famlia retirada e obscura a um homem criado em mais aparente plana social? Seu
  meio era outro; tendncias de esprito ou ambies de futuro o deviam levar a
  outra esfera. Esta considerao lhe pareceu decisiva. Concluiu que a paixo,
  vencida ou comprimida, soltava outra vez o brado da revolta; e se assim era,
  Jorge devia estar pior que em 1866, porque ento os sentimentos rompiam com
  violncia e sinceridade, ao passo que agora o seu principal aspecto era a
  dissimulao. O amor, se amor havia, trazia j os olhos abertos e dispunha da
  razo; de estouvado, tornava-se cauteloso e sutil.

-- Que idia faz ele de
  mim? perguntou Estela a si mesma.

Quando esta palavra lhe
  soou no esprito, Estela sentiu-se diminuda e humilhada aos olhos de Jorge.
  Cumpria pr termo a uma vida de reticncias e dubiedade. Estela cogitou no meio
  de fazer cessar a intimidade dos dois homens; quando menos, a freqncia de
  Jorge naquela casa. Pensou em pedi-lo diretamente a Jorge; mas rejeitou desde
  logo a idia, alis incompatvel com sua ndole; depois, pensou em dizer tudo
  ao marido.

Uma noite, na primeira
  semana de novembro, Estela assentou definitivamente revelar ao marido a nica
  pgina de seu passado. Estava sozinha, no jardim, e vira desmaiar o crepsculo
  da tarde -- uma tarde cinzenta e amortecida. De quando em quando o esprito
  volvia ao passado, e toda ela estremecia com uma sensao estranha, misteriosa
  e insuportvel. A noite caiu de todo, e a alma de Estela mergulharia tambm na
  vaga e prfida escurido do futuro, se a rude voz do escravo no a viesse
  acordar.

-- Nhanh est apanhando
  sereno, disse Raimundo.

Estela ergueu-se e foi
  dali ao gabinete do marido. Lus Garcia trabalhava,  claridade de um lampio,
  que toda convergia para ele e os papis que tinha diante de si, graas ao
  efeito de um abat-jour. O resto do aposento ficava na meia obscuridade.

-- Que ? perguntou Lus
  Garcia sem levantar a cabea.

Estela parou do outro
  lado da secretria; Lus Garcia ergueu ento a cabea e olhou para ela, sem lhe
  poder ver o transtorno das feies.

-- Que ? repetiu.

Vendo-o entregue ao
  trabalho, por amor dela e da filha, Estela hesitou; pareceu-lhe crueldade
  dar-lhe em troca da proteo e do afeto, um desengano e uma aflio. Hesitou um
  instante, e passou da hesitao  renncia. Conteve-se e saiu. Escolheu o
  silncio.

Mas o silncio s por
  si no melhorava nada; tarde ou cedo, o marido viria a ler em seu rosto o
  constrangimento, em relao a Jorge, constrangimento inexplicvel, que ele
  podia interpretar contra ela. Foi ento que a serpente lhe ensinou a
  dissimulao. A necessidade deu-lhe a intuio maquiavlica; isto , a ocasio
  no consentia um rosto franco, sinceramente hostil, mas um ar ameno, uma
  cordialidade de superfcie, friamente corts, mas corts. Desse modo,
  salvava-se a paz domstica, e era o essencial. Ao mesmo tempo mostraria a
  destimidez de seu corao, capaz de afrontar todo o artifcio do outro.

Com o tempo, verificou
  Estela que o procedimento de Jorge, se alguma inteno escondia, no a deixava
  sequer suspeitar; no lhe parecia j dissimulao, mas absteno. Ele prprio a
  evitava; fugia s conversas longas, sobretudo s conversas solitrias. Era respeitoso
  e frio.

Com efeito, Jorge no
  havia cedido a nenhum plano preconcebido; ia  feio do tempo; metia-se por um
  atalho, sem saber se iria dar  estrada reta ou a um abismo. Nenhuma
  preocupao lhe ensombrava a fronte risonha e plcida. Dir-se-ia que, aps
  longa e trabalhosa jornada, vingara o cume das delcias humanas.

A verdade  que o amor
  de Jorge tinha como que despido a qualidade de sentimento para constituir-se
  idia fixa. Nascido de uma primeira exploso de juventude, curtiu alguns anos
  de ausncia. A ausncia disciplinou os primeiros ardores, quebrou os mpetos,
  afrouxou o alento; o amor atou aos ombros as asas de um misticismo quieto. No
  parou nessa evoluo. Do corao em que pousava tomou impulso e alou-se ao
  crebro, onde assumiu a fixidez das resolues definitivas. No era j uma
  paixo, mas uma convico, isto , outra coisa. Pensava muitas vezes na
  conseqncia de herdar em breve prazo a esposa de Lus Garcia, resoluo que
  lhe parecia necessria; era o que ele dizia a si mesmo. E esse casamento tinha
  dois resultados: era uma reparao e uma desforra; reparao do mal que ele
  fizera, desforra do tratamento que ela lhe deu. Ambos tinham que reprochar um
  ao outro. O casamento absolvia-os. Talvez na balana comum no fossem iguais as
  dvidas, mas Jorge tinha certo fundo de eqidade, e entendia que, se padecera
  muito e longo, no excedeu o padecimento  injria que, a seus olhos, fora
  grave.

Os ralhos da
  conscincia eram agora menos freqentes e menos rspidos:  o efeito natural
  dessa ordem de situaes violentas. Os mais rgidos podem chegar assim s
  complacncias inexplicveis, e o que  hoje nobre repugnncia,  amanh
  hesitao pueril. Jorge no ficou estranho a essa lei do costume. De si para si
  julgava-se inocente, porque era impassvel, esquecendo a letra do declogo que
  no defende somente a ao, mas a prpria inteno.

Duas circunstncias
  perturbaram, entretanto, o esprito de Jorge, antes do fim daquele ano.

A primeira foi a
  assiduidade de Procpio Dias, que lhe pareceu pouco explicvel. Procpio Dias
  era recebido com agasalho mais cordial do que ele. Em relao a Jorge, o
  procedimento de Estela era cauteloso e apenas afvel; o de Iai era de algum
  modo medroso ou hostil; uma e outra pareciam alegrar-se quando Procpio Dias
  assomava  porta. Era uma expresso diferente. Este acompanhava-as s vezes nos
  passeios, ou conversava-as largo tempo, fazendo-as rir com uma espontaneidade,
  que no tinham a falar com Jorge. Obedecia aos desejos da madrasta e aos
  caprichos da enteada, quaisquer que fossem, com tamanha tolerncia e bom humor,
  que fazia despeitar o outro, sem o saber. Jorge atentou nos ditos e aes do
  intruso, e com o tempo veio a tranqilizar-se.

--  um celibatrio
  necessitado da companhia de mulheres, disse consigo.

Procpio Dias no
  parecia outra coisa; a atmosfera feminina era para ele uma necessidade; o
  ruge-ruge das saias a melhor msica a seus ouvidos. Graas  idade, Iai era
  mais familiar do que Estela; s vezes chegava a "judiar" com ele, excesso que o
  pai ou a madrasta reprimia, e reprimia sem necessidade. Procpio Dias no
  manifestava nem sentia o menor despeito; achava-lhe graa e chegava a fazer
  coro com ela.

A segunda circunstncia
  que projetou alguma sombra no esprito de Jorge, foi justamente a hostilidade
  de Iai Garcia.

-- Que diabo fiz eu a
  esta menina? perguntava Jorge a si mesmo.

Durante a molstia e a
  convalescena do pai, Iai tratara Jorge com muita gratido e cordialidade.
  Algum tempo depois, comeou a diminuir essa aparncia, at que cessou de todo e
  se converteu noutra coisa, que visivelmente era repugnncia, com uma pontazinha
  de hostilidade. Lus Garcia viu logo a diferena, tanto mais fcil de notar
  quanto que Estela, se no era j to expansiva como nos primeiros dias, tratava
  ainda assim o filho de Valria com uma afabilidade, que salvava as aparncias;
  a nica exceo era a filha. No deixou de a advertir; ponderou-lhe que Jorge
  era filho de uma pessoa a quem eles deviam estima, e de quem ela mesma houvera
  uma recordao pstuma; que essa circunstncia devia atenuar a antipatia, se
  Jorge lhe era antiptico. Iai ouvia e calava-se; emendava-se num dia, para
  reincidir toda a semana.

-- s uma estranhona,
  disse uma vez o pai depois de lhe repetir a advertncia.

Podia ser estranhice. A
  vida que Iai tivera durante largo tempo dera-lhe o amor exclusivo da solido e
  da famlia. Mas no caso presente parecia ser alguma coisa mais do que isso. O
  rosto com que recebia Jorge no era o mesmo com que via outras pessoas.
  Jorge s vezes chegava quando ela estava ao piano; Iai interrompia-se
  habilmente, fazia gotejar dos dedos umas trs ou quatro notas soltas e
  divergentes e erguia-se. Se ele ia conversar com ela e a madrasta, Iai tomava
  a parte mnima do dilogo e esquivava-se cautelosamente. No sorria nunca se
  ele dizia uma coisa graciosa ou fazia cumprimento; no animava nunca a adoo
  de qualquer projeto que viesse dele; no lia os romances que ele lhe
  emprestava. Se era convidada a dizer o que pensava de um ou outro desses
  livros, fazia descair os cantos da boca com um gesto de indiferena. No falava
  nunca de Jorge; parecia-lhe o menos que podia. Este procedimento constante, no
  afrontoso, porque ela o disfarava, impressionou o esprito do moo, que no
  lhe pde descobrir a causa verdadeira, ou pelo menos verossmil.

A verdadeira causa era
  nada menos que um sentimento de cime filial. Iai adorava o pai sobre todas as
  coisas; era o principal mandamento de seu catecismo. Instigara o casamento, com
  o fim de lhe tornar a vida menos solitria, e porque amava Estela. O casamento
  trouxe para casa uma companheira e uma afeio; no lhe diminuiu nada do seu
  quinho de filha.

Iai viu, entretanto, a
  mudana que houve nos hbitos do pai, pouco depois de convalescido, e sobretudo
  desde os fins de setembro. Esse homem seco para todos, expansivo somente na
  famlia, abrira uma exceo em favor de Jorge; sem mostrar maneiras ruidosas,
  alis incompatveis com ele, era menos reservado, de mais fcil e continuado
  acesso. No foi porm esse primeiro reparo que produziu em Iai a notada
  mudana; foi outro. Lus Garcia deu a Jorge algumas demonstraes de confiana
  pessoal, e no dia em que a filha viu a primeira, recordou-se da carta que escrevera
  ao moo na noite em que a molstia do pai se agravara, e da confidncia dos
  dois, cujo assunto nunca lhe chegara aos ouvidos. Neste instante sentiu
  borbulhar no corao uma primeira gota de fel. Imaginou que Jorge viera
  roubar-lhe alguma coisa. No cogitou se haveria assunto que dois homens
  devessem tratar exclusivamente entre si; sups-se despojada de uma parte da
  confiana do pai, e porque amava o pai sobre todas as coisas, seu amor tinha os
  cimes, as cleras, os arrebatamentos do outro amor, e comnseqentemente os
  mesmos dios e lstimas.

Conhecia o pai toda a
  intensidade da afeio filial da moa, e no era menor a do seu amor; mas ele
  dizia consigo filosoficamente, e no sem pesar, que a natureza se encarregaria
  de lhe ensinar outro sentimento menos grave, mas no menos intenso e imperioso.
  Quando ele assim refletia, contemplava a filha com um olhar j mido das
  primeiras saudades.

Iai estava ento em
  toda a limpidez de uma aurora sem nuvens. Era leve, gil, sbita, -- com um
  pouco de destimidez; s vezes spera, mas dotada de um esprito ondulante,
  esguio e no incapaz de reflexo e tenacidade. Nisto podia ficar o retrato da
  menina, se no conviesse falar tambm dos olhos, que, se eram lmpidos como os
  de Eva antes do pecado, se eram de rola, como os da Sulamites, tinham como os
  desta alguma coisa escondida dentro, que no era decerto a mesma coisa. Quando
  ela olhava de certo modo, ameaava ou penetrava os refolhos da conscincia
  alheia. Mas eram raras essas ocasies. A expresso usual era outra, meiga ou
  indiferente, e mais de infncia que de juventude. Talvez a boca fosse um pouco
  grande; mas os lbios eram finos e enrgicos. Em resumo, as feies dos onze
  anos estavam ali desenvolvidas e mais acentuadas.

Uma tarde, Lus Garcia
  recebeu ordem de ir imediatamente  casa do ministro. Saiu, deixando a mulher e
  a filha, ansiosas pelo resultado. Jorge apareceu pouco depois. A demora de Lus
  Garcia foi longa, e Jorge ter-se-ia retirado, se no fora a chegada do Sr.
  Antunes, que deu um sopro de vida  conversa que expirava. Nove horas, dez
  horas, onze horas bateram sem que Lus Garcia voltasse. Iai estava impaciente;
  receava alguma doena sbita do pai, um desastre qualquer. Eram onze horas e um
  quarto quando este entrou ofegante, porque viera depressa, tendo encontrado
  Raimundo, que ouvindo as nsias da moa, sara a encontr-lo e a dizer-lhas.

Iai atirou-se-lhe aos
  braos.

-- Medrosa! disse Lus
  Garcia abrangendo-lhe a cabea com as mos.

Sentou-se um instante
  para repousar; com a mo esquerda comprimia o corao. Logo depois ergueu-se,
  chamou Jorge e foi at uma das janelas. Conversaram em voz baixa dez minutos.
  Disse-lhe que talvez fosse obrigado a sair no fim daquela semana; tratava-se de
  uma necessidade de servio; salvo uma hiptese, a viagem era inevitvel.

Iai no tirava os
  olhos de um e de outro; despediu-se de Jorge dando-lhe as pontas dos dedos. Foi
  no dia seguinte que Estela lhe disse que talvez fossem obrigadas a sair por
  algum tempo. Ouvindo a notcia, Iai compreendeu a confidncia da vspera, e
  ficou consternada. Ela era a ltima que a recebia, e o primeiro fora um
  estranho, um intruso, -- esteve quase a dizer um inimigo. Nenhuma palavra do
  pai; nenhuma comunicao direta.

-- A ltima!

Esse ressentimento
  exagerado era o prprio efeito da organizao da moa, e, outrossim, de sua
  educao quase solitria. Para afast-la de Jorge no foi preciso mais; o
  despeito apoderou-se imediatamente dela. Se at ali pouco lhe havia falado,
  esse pouco diminuiu ainda com o tempo; fez-se quase nada.

E essas duas foras,
  uma de impulso, outra de repulso, tendiam a esbarrar-se, no caminho de seus
  destinos.

CAPTULO X

Ora, quatro ou cinco
  dias depois, Lus Garcia que, na previso de viagem, comeara a arranjar alguns
  papis esparsos e antigos, disps-se a concluir esse trabalho, no obstante
  haver sido dispensada a comisso. Era dia de ano-bom, -- uma bela manh, fresca,
  lmpida, azul. Tinham ido  missa na capela do convento; almoaram em famlia,
  com a presena do Sr. Antunes, que inaugurara uma sobrecasaca, e trazia nessa
  manh um aspecto, no somente venerador, mas at venervel.

Iai acordara
  extremamente alegre e buliosa. O Sr. Antunes levara-lhe um ramalhete de
  cravos, dizendo que era para que ela recebesse outros ramalhetes durante o ano,
  e a menina, depois de o receber e agradecer com uma mesura, foi p-lo num vaso,
  sobre o parapeito da janela da alcova. O Sr. Antunes despediu-se dela, meia
  hora depois de almoado.

-- J vai?

-- Vou jogar uma partida
  de bilhar com o Jorge, disse familiarmente o pai de Estela. Viremos cedo.

-- Ele vem jantar?

-- Quero ver se o trago!

-- Mas... papai no est
  prevenido, objetou Iai.

-- Est; foi ele prprio
  que me autorizou a traz-lo. Verdade  que fui eu que o pedi. Devemos muito
  quele moo, e ao defunto pai e  me, a Sra. D. Valria, que Deus tenha. At
  logo.

Iai ficou s, e um
  instante pensativa; mas, logo depois ergueu os ombros, pegou de um trabalho de
  agulha, inventado para matar o tempo, e caminhou para o gabinete do pai, onde o
  foi achar com Estela.

-- Virgem Nossa Senhora!
  disse a moa parando  porta.

Ao p da secretria
  estava uma vasta cesta, transbordando de papis; sobre a secretria papis;
  papis na mo de Lus Garcia; outros na mo de Estela; alguns esparsos no cho.
  Era uma liquidao de seis anos. Lus Garcia tinha o costume de guardar tudo,
  cartas, exemplares de jornais em que havia alguma coisa de interesse,
  apontamentos, simples cpias. De longe em longe inventariava e liquidava o
  passado. Havia j alguns anos que no fazia a costumada operao. Comeara
  quando supunha ter de deixar o Rio; agora tratava de concluir. Estela tinha
  entrado pouco antes da enteada; sentara-se em uma cadeira rasa, e entretinha-se
  a receber ou apanhar algum pedao de jornal velho, e a ler algum trecho em que
  os olhos acertavam de cair.

-- Que ? disse Lus
  Garcia logo que a filha soltara a exclamao.

--Papai vai ficar
  afogado em papel, disse a moa.

Lus Garcia no
  respondeu; voltara os olhos para uma carta que tinha na mo, e que sem dvida
  lhe trazia alguma recordao amarga, porque ele sorria tristemente. Leu-a toda;
  releu alguns trechos; depois fez um gesto de desdm, rasgou-a e deitou os
  pedaos  cesta.

Iai foi sentar-se do
  outro lado, a poucos passos do pai.

Na secretria, ao p
  deste, havia um mao de coisas que serviam, um mao pequeno; a grande maioria
  era a dos destroos inteis. No  isso mesmo a imagem do passado? Lus Garcia
  desdobrava s vezes um jornal, avaramente guardado havia anos; duas cruzes ou
  alguns traos indicavam o trecho que nesse tempo lhe chamara a ateno. Relia-o
  agora; buscava o motivo da reserva e sorria. A impresso que comunicara algum
  interesse ao escrito desaparecera de todo; o escrito era um esqueleto. Tambm
  as cartas eram assim. Raras escapavam  destruio; as mais delas eram
  dilaceradas, umas em dois pedaos, -- as nfimas, -- outras em trinta, as que
  podiam ter alguma gravidade. Estela, que o ajudava, pegou casualmente em uma
  carta, cuja letra do sobrescrito lhe no pareceu estranha.

-- Eu conheo esta
  letra, disse ela.

-- Deixa ver.

Estela deu-lhe a carta.

--  do Dr. Jorge, disse
  o marido.

Abriu-a, e depois de
  ler algumas linhas, sorriu. Leu-a depois at o fim. Quando acabou, dobrou-a e
  ficou a olhar para a mulher; tornou a desdobr-la maquinalmente.

-- Vou restitu-la,
  disse ele depois de curta pausa; talvez se envergonhe de haver escrito estas
  coisas...

E dirigiu os olhos 
  carta, com uma insistncia de aguar o mais embotado apetite. Depois, volveu a
  cabea um pouco para trs, onde ficava a filha,  distncia, de olhos baixos;
  abafou a voz e disse a Estela:

-- Nunca soubeste do
  verdadeiro motivo que o levou  guerra?

Estela ficou ainda mais
  plida do que era: o sangue todo refluiu-lhe ao corao, donde lhe no saiu uma
  s palavra; foi com um gesto negativo que ela respondeu. E se no podia
  empalidecer mais, podia corar e corou de vergonha. Lus Garcia no viu nem a
  primeira, nem a segunda impresso de suas palavras. Enrolava e desenrolava com os
  dedos um dos cantos da carta. Naturalmente relembrava os sucessos daqueles
  cinco anos, as confidncias da mo e do filho.

-- Quem diria que depois
  de tamanho sacrifcio... O que so rapazes! O que so paixes! Ele gostava de
  uma moa; no sei quem era, mas suponho... A me fez quanto pde para dom-lo;
  quando desesperou, lembrou-se de o mandar para o Sul; ele aceitou. Fui
  confidente de um e de outro. Tempos depois de embarcar... espera... a data h
  de estar aqui... 67... Ainda em 67 durava a tal paixo; afinal pareceu que s
  esperava o fim da guerra para acabar tambm. Morreu-lhe a paixo e ele engorda.
  Nunca suspeitaste nada?

-- No, murmurou Estela.

Lus Garcia deu a carta
   mulher, que a recebeu trmula e fria.

-- L, que 
  interessante, disse ele.

Estela olhou para o
  papel e para o marido, vacilante, sem saber o que faria e o que pensasse.

-- L;  curioso, disse
  este, que voltara aos demais papis, abrindo uns, separando outros, tranqilo e
  indiferente.

Estela, sem levantar a
  cabea, olhou ainda de esguelha para ele, como a procurar-lhe na fronte a
  inteno escondida, se porventura havia alguma, e esse gesto era to travado de
  receio e hesitao, era sobretudo to dissimulado, que ela prpria o sentiu e
  arrependeu-se. Cravou depois os olhos no papel, sem ler, sem fitar nenhuma
  linha, uma palavra nica. No via as letras; via, ao longe, dois pombos que
  voavam e a candura de seus lbios embaciada por uns lbios de homem; nada mais.
  A mo tremia; ela firmou-a sobre a borda da secretria; mas o tremor, ainda que
  pouco perceptvel, no cessou.

-- Leste? perguntou Lus
  Garcia dobrando um jornal que acabava de passar pelos olhos.

Estela fez um gesto
  para que esperasse um instante. No reparava que havia decorrido tempo
  suficiente para haver lido a carta duas vezes. Fez um esforo; voltou a pgina;
  duas ou trs frases lhe feriram os olhos: "Meu amor no sabe o que seja
  impacincia ou cime ou exclusivismo;  uma f religiosa que pode viver inteira
  em muitos coraes." -- "O essencial  saber que amo a mais nobre criatura do
  mundo." -- "A paixo veio comigo, e se no cresceu  porque no podia crescer;
  mas transformou-se. De criana que era, fez-se homem de juzo." Chegou ao fim
  da carta ou pareceu ter chegado; dobrou-a, e no se atreveu a dizer nada;
  depois tornou a abri-la.

-- Que poesia, hein?
  disse Lus Garcia sorrindo.

E o sorriso era to
  natural, to despreocupado, to honesto, que Estela ficou tranqila. Tinha em
  grande conta a dignidade e a sinceridade do marido; no podia supor-lhe tanta
  hipocrisia nem tamanha indiferena. Sorriu tambm, mas um sorriso de
  aquiescncia, sem convico nem espontaneidade. Lus Garcia inclinou-se para
  ela; falou-lhe com a mesma voz abafada de pouco antes, referiu-lhe o amor que
  Valria tinha ao filho e a estratgia usada para o fim de o arredar do Rio de
  Janeiro.

-- Naquele tempo, disse
  ele, no sei se cheguei a arrepender-me de a ter apoiado; hoje no. O filho
  ficou so e salvo de seus amores, com um posto e honras de sobra.

--  verdade, murmurou
  Estela, que o escutara com a ateno dispersa e impaciente.

Logo depois ergueu-se e
  foi  janela. Ali sacudiu a cabea com um gesto enrgico. Talvez lutavam nela
  foras contrrias; ou era o seu passado que emergia da sombra do tempo, com
  todas as cores vivas ou escuras, com as delcias ocultas e nunca reveladas, e
  ao mesmo tempo com as amarguras e resistncias. Era isso; era o corao que
  mordia impaciente o freio da necessidade e do orgulho, e vinha pedir ainda uma
  vez o seu quinho de vida, e pedia-o em nome daquela carta, expresso remota de
  um amor desenganado e impossvel. Estela sufocava esses mpetos, mas eles
  vinham. Aps alguns minutos, deixou a janela, tornou  cadeira onde estava.
  Lus Garcia lia ento um retalho de jornal. No chegou a levantar os olhos.

Defronte, Iai tinha os
  olhos cravados na madrasta. Ouvira a princpio o nome de Jorge e no lhe
  prestara muita ateno; mas uma ou duas palavras soltas do pai haviam-lhe
  despertado a curiosidade. Iai ergueu a cabea, inclinou-a depois, ouviu a
  confidncia do pai, no obstante ser feita em voz baixa, e enfim no retirou
  mais os olhos de Estela. Viu-a receber a carta, com a mo trmula; viu-a
  empalidecer ainda mais; viu-lhe a confuso e o enleio. Por que o enleio e a
  confuso? Um amor extinto de Jorge, uma paixo que o levara  guerra, que tinha
  ela, que tinham eles trs com isso?

Iai olhou a princpio
  com curiosidade, depois com espanto, at que os olhos luziram de sagacidade e
  penetrao. O estilete que eles escondiam desdobrou a ponta aguda e fina, e
  estendeu-a at ir ao fundo da conscincia de Estela. Era um olhar intenso,
  aquilino, profundo, que palpava o corao da outra, ouvia o sangue correr-lhe
  nas veias e penetrava no crebro salteado de pensamentos vagos, turvos, sem
  ligao. Iai adivinhou o passado de Estela; mas adivinhou demais. Galgou a
  realidade at cair no possvel. Sups um vnculo anterior ao casamento, roto
  contra a vontade de ambos, talvez persistente, malgrado aos tempos e s coisas.
  Tudo isso viu uma simples inocncia de dezessete anos. Seu pensamento
  cristalino e virginal, nunca embaciado pela experincia, ignorava at as
  primeiras cismas de donzela. No tinha idia do mal; no conhecia as
  vicissitudes do corao. Jardim fechado, como a esposa do Cntico, viu
  subitamente rasgar-se-lhe uma porta, e esses dez minutos foram a sua puberdade
  moral. A criana acabara; principiava a mulher.

A impresso foi to
  profunda, que apesar da fora de resistncia que havia em sua organizao, Iai
  no pde ter-se ali mais tempo. Saiu e refugiou-se na alcova. Certo, aquele
  amor intruso, se o havia, era para afligir e prostrar um corao de filha,
  amassado de ternura, para o qual a forma superior e exclusiva do sentimento era
  a paixo que a prendia a seu pai, como um vnculo indestrutvel. Depois vinha o
  afeto que votava  madrasta, sua me eletiva, afeto no menos sincero e real, e
  que j agora podia diminuir, quem sabe at se morrer todo?

Sentada na beira da
  cama, com os ps juntos, as mos fechadas entre os joelhos, os olhos cravados
  no espelho que lhe ficava defronte, Iai trabalhava mentalmente na sua
  descoberta. Confrontava o que acabava de ver com os fatos anteriores, de todos
  os dias, isto , a frieza, a indiferena, a estrita polidez dos dois, e mal
  podia combinar uma e outra coisa; mas ao mesmo tempo advertia que nem sempre
  estava presente quando Jorge ali ia, ou fugia-lhe muita vez, e podia ser que a
  indiferena no passasse de uma mscara. Demais, a comoo da madrasta era
  significativa. Estendeu o esprito pelo tempo atrs, at o dia da primeira
  visita de Jorge, e lembrou-se que ele estremecera ouvindo a voz de Estela,
  circunstncia que lhe pareceu ento indiferente. Agora via que no.

Uma hora inteira gastou
  nesse cogitar solitrio, a ss com a suspeita e o remorso. Tambm remorso, porque
  de quando em quando aterrada com a vista do caminho andado, a alma recuava e
  estremecia; tinha horror de si mesma. Mas a figura plida da madrasta surgia ao
  p dela, com a expresso que lhe vira pouco antes, e a conscincia fazia as
  pazes com a malcia.

Vede a conseqncia.
  Estela no era culpada; um incidente do passado  que projetava tamanha sombra
  na vida presente; mas bastou o espetculo da comoo para turbar o esprito da
  enteada e lanar l dentro os primeiros germens da cincia do mal. Que seria se
  fosse culpada? Talvez o mais lastimoso efeito dos desvios domsticos  essa
  corrupo dos coraes ingnuos, impassveis testemunhas do que ignoram um dia,
  do que suspeitam, percebem e sabem na seguinte manh: primeira violao da
  virgindade.

Iai agitava-se na
  alcova, de um para outro lado, desejosa e receosa ao mesmo tempo de ir ter com
  Estela. Duas vezes chegou  porta e recuou. Uma das vezes, voltando para
  dentro, deu com os olhos no retrato do pai que pendia junto  cabeceira, -- uma
  simples fotografia. Tirou-o dali, contemplou-o longamente a fronte austera e
  pura. Qu! Haveria na Terra quem o amasse uma vez e no sentisse que o amor lhe
  dominaria a vida inteira? To afetuoso! to bom! vivendo exclusivamente para os
  seus, sem nada invejar ao resto dos homens. Isto lhe dizia o corao, enquanto
  ela ia beijando o retrato com respeito, com amor, afinal com delrio. Grossas
  lgrimas e quentes lhe romperam dos olhos; Iai deixou-as cair: sorveu-as com
  seus prprios beijos. Quando essa primeira exploso acabou, acabou para no se
  repetir mais. Enxutos os olhos Iai pde friamente refletir, e a reflexo
  dominou a angstia.

O que se passou naquele
  crebro ainda verde, mas j robusto, foi uma resoluo sem plano. Deslindar o
  vnculo esprio era o essencial e urgente, no cogitou no modo. Sua inocncia,
  assim como lhe dissimulava toda extenso possvel do mal, assim tambm lhe
  encobria as asperezas e os bices da execuo. Era o corao que lhe designava
  esse papel de anjo guardador. Natureza simples e intacta, ia direito ao fim sem
  o temor que d a experincia e a contemplao da vida. Quem sabe? No conhecia
  a hipocrisia, mas acabava de suspeit-la; comeava talvez a aprend-la.

Tinha-se demorado muito
  e era preciso sair do quarto; mas, como houvesse chorado, podiam ler-lhe os
  vestgios da dor. Iai foi ao lavatrio, deitou gua na bacia e comeou a
  banhar os olhos e o rosto. O rumor da gua impediu-lhe ouvir que algum abria a
  porta. Estela apareceu repentinamente.

-- Que faz voc aqui h
  tanto tempo? disse a madrasta, parando  porta.

Iai no se atreveu a
  olhar de rosto para ela; mastigou uma resposta esquiva e continuou o que estava
  fazendo.

-- Que tens? perguntou
  Estela pegando-lhe dos braos e fazendo-a voltar para si. Voc chorou?...
  Chorou, sim; tem os olhos vermelhos. Que foi? Iai fala; que ?

-- No  nada, acudiu a
  outra procurando sorrir.

-- No minta, Iai.

A enteada olhou de
  relance para o espelho; viu que era intil mentir.

-- Foi uma tolice, disse
  ela.

-- Alguma travessura?

-- Antes fosse!

Iai pegou do retrato
  que pusera na borda do mrmore do lavatrio, e olhou alguns instantes para ele.
  Estela quis concheg-la a si, mas a enteada fugiu-lhe com o corpo.

--Trata-se... de teu
  pai? perguntou a madrasta.

Iai fitou-a e
  respondeu:

-- Sim, mamezinha;
  estava a sacudir a poeira do retrato de papai, e comecei a pensar... foi uma
  loucura... se ele... morresse?

Estela repreendeu-a com
  uma interjeio; Iai quis continuar, mas a outra interrompeu-a impetuosamente:

-- Cala-te, disse; no
  penses em tolices. D c o retrato.

-- No  verdade que ele
   o melhor dos homens? perguntou Iai, enquanto Estela pendurava o retrato.

A nica resposta da
  madrasta foi caminhar para ela e dizer-lhe que nunca mais pensasse em
  semelhante coisa.

-- No sou senhora dos
  meus pensamentos, respondeu a moa, erguendo os ombros.

Aps alguns segundos de
  silncio, Estela percebeu que alguma coisa preocupava a enteada e disse-lho.
  Iai respondeu negativamente. Mas Estela insistiu:

-- No tens o teu ar do
  costume, e esses olhos andam vagamente de um lado para outro. Talvez... quem
  sabe...

-- No  isso que a
  senhora pensa, interrompeu Iai secamente.

Depois sentou-se, a
  olhar para o jardim, a morder o lbio, que lhe tremia, e a comprimir os seios
  com a mo. Estela ficou um instante calada; enfim sacudiu benevolamente a
  cabea e aproximou-se da menina.

-- Tu no tens confiana
  em mim, Iai, disse ela pousando-lhe a mo no ombro. Se tivesses, dizias-me em
  que  que pensas, porque  decerto em alguma coisa. No  difcil deixar de
  pensar no Procpio Dias; acho at que  a coisa mais fcil; mas no ser algum
  pensamento da mesma natureza? Anda; s franca; sou apenas tua madrasta, e pouco
  mais velha que tu; posso ouvir tuas confidncias e aconselhar-te. Onde achars
  melhor amiga do que eu?

Iai tinha aplacado a
  primeira sensao; afivelou de todo a mscara da tranqilidade, enquanto no a
  substitua por outra. Ergueu-se e disse com afoiteza:

-- Pois bem, vou
  confiar-lhe uma coisa... no... suponha...  melhor supor... tenho vergonha de
  dizer a verdade. Suponha que tive um amor de colgio...

-- Tu? Aos treze anos!

-- Aos doze e meio.

-- Bonito! No foi
  comear tarde. Esse amor naturalmente expirou nos braos da ltima boneca.

-- Suponha que no,
  disse Iai em tom srio. Ora, se eu tiver de casar com o Procpio Dias...

-- Quem te fala em casar
  com ele?

-- Por ora  um gracejo;
  mas, se ele teimar,  possvel que nem a senhora nem papai o desamparem, e
  ainda mais possvel que eu me deixe vencer para contentar a todos. Mas  este o
  ponto de minha confidncia;  uma idia que me persegue h dias. Devo eu casar
  com um homem amando a outro? posso faz-lo? devo faz-lo!

Estela estremeceu
  levemente, sob o olhar impassvel e puro da enteada, e no respondeu logo. Iai
  parecia folgar com esse enleio de um minuto; mas ao mesmo tempo o corao lhe
  sangrava, porque o enleio era a confirmao de suas recentes suposies. A
  madrasta no tinha a penetrao da enteada; alm disso, como supor nela o
  conhecimento de um fato remoto e no divulgado? Estela nem cogitou nisso.
  Escoou-se o minuto, e ela respondeu com tranqilidade:

-- No deves casar, se o
  amor pode ser satisfeito sem obstculo. No caso contrrio, o casamento  uma
  simples escolha da razo: sacrifica-te.

Iai, que tinha uma das
  mos da madrasta entre as suas, largou-a subtamente. Estela riu, e bateu-lhe na
  testa com a ponta do dedo.

-- Esta cabecinha! disse
  ela. H aqui dentro muita coisa que  preciso capinar...

No primeiro instante,
  Iai empalideceu. Ao ltimo gesto de Estela, respondeu com um sorriso forado e
  sem cor. Logo que esta saiu, deixou-se cair na cadeira e fechou o rosto nas mos.
  Quando dali saiu, meia hora depois, no trazia nenhum sinal de lgrimas, ou
  sequer de tristeza. No vinha alegre, decerto; serena, sim, daquela serenidade
  com que o caador do serto se dispe a encarar a ona.

Jorge foi jantar, e
  sobre a tarde apareceu Procpio Dias. Durante o jantar e a noite, Iai fez
  impresso na famlia e nos estranhos, pela singular alterao de seus modos.
  Estava um pouco plida, mas a viva luz dos olhos parecia comunicar ao rosto uma
  poro do colorido ausente. Mostrou-se expansiva, e no galhofeira. Suas frases
  eram longas, deduzidas, iam at o fim do pensamento, sem as interrupes e
  saltos do costume. De costume, parecia que a moa pensava aos fragmentos,
  porque era quase impossvel ter com ela uma conversa inteiria e ordenada com a
  sua variedade prpria. Naquele dia era o contrrio. Como que a alma despira a
  roupa de bailarina, para enfiar um roupo caseiro, simples, apertado, subido
  at o pescoo. Era melhor assim? era pior? Nem uma nem outra coisa; era uma
  aparncia nova.

Mais do que ningum,
  Jorge estimou essa alterao, porque em relao a ele a moa tambm havia
  mudado alguma coisa. Iai sentira nesse dia mais repugnncia do que nunca ao
  ver o filho de Valria, e chegou a recuar instintivamente a mo. Cedeu, porm, e
  o sorriso com que corrigiu a recusa foi o primeiro que Jorge recebeu
  diretamente dela. Nesse dia a moa respondeu-lhe sem custo, e talvez lhe
  dirigiu a palavra alguma vez; o que tudo viu Lus Garcia e atribuiu a efeito de
  suas admoestaes.

Nem Lus Garcia nem
  Jorge poderiam supor que sobre a cabea da madrasta e da enteada a carta de
  1867 agitava as suas letras de fogo. Essa carta importuna, poupada da
  destruio imediata, era a centelha subitamente lanada no amor adormecido de
  uma e no dio nascente de outra; Jorge estava longe de o ler no rosto afvel de
  Iai, e no olhar fugidio de Estela.

Pouco depois das dez
  horas dispersou-se a reunio. O Sr. Antunes aposentou-se por essa noite em casa
  do genro. Jorge e Procpio Dias saram juntos.

-- Vai para a cidade a
  esta hora? perguntou Jorge.

-- Repare que ainda me
  no ofereceu cama, disse rindo o outro.

-- Mas ofereo-lhe
  agora.

-- Aceito. Precisava
  justamente falar-lhe: negcio grave.

-- No  decerto algum
  fornecimento?

-- Nem s de po vive o
  homem, acudiu Procpio Dias.

-- Que negcio ?

-- Uma explicao.

-- Sobre...

-- H de ser l em casa;
  a noite  escura e os quintais so traioeiros.

CAPTULO XI

Entrados em casa,
  Procpio Dias no se apressou a dar ou pedir a explicao. Ceou primeiro,
  porque confessou haver adquirido esse costume, e Jorge no se demorou em
  obsequi-lo. A ceia improvisada, composta de viandas frias e dois ou trs
  clices de vinho puro, deixou-o em paz com a natureza. Satisfeita esta, era a
  hora da explicao.

No veio ela com
  facilidade. Indolentemente reclinado numa otomana, Procpio Dias fumava com
  volpia e falava com precauo, usando a voz pausada e avara de um homem para
  quem o digerir  meditar. Se alguma idia lhe avoaava l dentro, era difcil
  perceb-lo atravs do olhar exausto e mrbido. Entretanto, a curiosidade de
  Jorge no lhe permitiu mais longa dilao e Procpio Dias foi compelido a
  satisfaz-la, quando o moo, parando diante dele, francamente lho pediu.

-- Parecia-me mais fcil
  do que , disse ele, sobretudo porque apesar de nos conhecermos h algum tempo,
  no estou certo da opinio que o senhor forma de mim. Boa?

-- Boa.

-- D-me sua mo.
  Promete-me ser franco?

-- Prometo.

-- Qual das duas o leva
   casa de Lus Garcia?

Sobressaltado, Jorge
  retirou vivamente a mo.

-- Bem v, tornou
  Procpio Dias;  uma delas.

Passada a primeira
  impresso, Jorge sentou-se tranqilamente, menos contudo do que afetava estar.

-- Na verdade, a sua
  pergunta  das mais esquisitas que eu esperava ouvir. Ignora as relaes de
  amizade que me prendem quela casa, relaes que herdei de minha famlia, e que
  eu apenas continuo? Qual das duas! No h ali duas; h uma, uma somente, uma...
  e...

-- No  essa? no 
  Iai?

Jorge fez um gesto
  negativo.

-- Acredite que me
  restitui a tranqilidade ao corao, disse Procpio Dias sentando-se de todo.
  No  meu rival? no tem nenhuma idia?... nenhuma idia vaga?...  isso o que
  preciso saber...  s isso, e  tudo.

-- O senhor gosta de
  Iai?

Procpio Dias fez
  primeiro um gesto afirmativo; depois balbuciou a confisso plena de seus
  sentimentos, mas com um ar do envergonhado, meio sincero e meio fingido, e to
  a ponto e natural, que era difcil saber onde acabava a sinceridade e onde
  comeava a simulao. Animou-se a pouco e pouco, e no lhe escondeu nada.
  Confessou que a filha de Lus Garcia lhe transtornara de todo o esprito e que
  ele estava resoluto aos maiores sacrifcios para obter-lhe a mo.

-- s vezes supunha que
  o senhor andava nas minhas fronteiras, concluiu ele, idia que me afligia,
  porque o senhor tem sobre mim vantagens incontestveis. A suspeita
  desvanecia-se e eu tranqilizava-me. Hoje, porm, confesso-lhe que a suspeita
  reapareceu e entrou a devorar-me o corao; e ainda assim, tinha intervalos,
  porque ora me parecia que o seu objeto era Iai, ora que era a outra...

-- Perdo, interrompeu
  Jorge; eu j lhe disse o que devia, e no posso consentir que voltemos ao mesmo
  ponto. Uma de suas suspeitas  injuriosa para mim.

-- Tem razo; eu devia
  t-lo pensado, assentiu Procpio Dias. Mas que quer? Nada se deve imputar aos
  dementes e aos namorados. Perdoa-me? Em todo caso, pode crer que a minha ndole
  no  to tolerante com o vcio que me fizesse desejar haver dado em balda
  certa. No sou rigoroso; sei que as paixes governam os homens, e que a fora
  de as reger no  vulgar. Por isso mesmo  que se estima a virtude. No dia em
  que a natureza se fizer comunista e distribuir igualmente as boas qualidades
  morais, a virtude deixa de ser uma riqueza; fica sendo coisa nenhuma.

-- Deixe-me falar-lhe
  com franqueza, disse Jorge, rindo; eu desconfio que o senhor  ainda menos
  rigoroso do que diz. Parece-me que se a sua suspeita, em relao  outra,
  tivesse fundamento, o senhor no me ouviria com indignao.

-- Talvez estimasse.

Jorge no disse nada;
  olhou somente para o interlocutor, com um ar de estupefao, a que o outro
  sorriu benevolamente. Fez-se uma curta pausa. Procpio Dias rompeu enfim o
  silncio:

-- Talvez estimasse, sem
  deixar de indignar-me depois; isto , a indignao no momento seria abafada
  pelo interesse. Atenda-me, doutor; sejamos justos com a natureza humana.
  Virtudes inteirias so invenes de poetas. No me fazia bom cabelo que o
  senhor gostasse da outra, e menos ainda que ela lhe correspondesse, porque, em
  suma, ambicionando entrar na famlia, no desejaria que a famlia tivesse a
  menor mcula. Esta  a realidade. Mas, eu amo, doutor; e por mais ridcula que
  parea esta confisso, por mais grosseira que seja a minha casca, a verdade 
  que amo a enteada apaixonadamente;  o meu pensamento de todos os dias. Ora,
  dado que o senhor amasse a outra, qual era o primeiro movimento do meu corao?
  Lig-los ao meu interesse. Desde que entre os dois houvesse um segredo, e que
  esse segredo fosse descoberto ou suspeitado por mim, o senhor e ela eram os
  meus melhores aliados, e a resistncia daquela menina, e a vontade do pai, tudo
  cedia em meu favor.

Procpio Dias proferiu
  estas palavras com simplicidade e convico. Seus olhos plmbeos pareciam duas
  portas abertas sobre a conscincia. A expresso do rosto era a de um cinismo
  cndido. Jorge contemplou-o alguns instantes sem dizer palavra, ao parecer
  subjugado pelo raciocnio. Ouvira-o pasmado e satisfeito. Tanta franqueza no
  mostrava que Procpio Dias j no suspeitava nada? Jorge sorriu e replicou:

-- O que o senhor acaba
  de dizer no ser animador, mas persuado-me que  a realidade pura. Admira-me
  somente que tenha tanta penetrao e superioridade para ver e confessar os
  vcios da natureza humana...

-- Sou prtico, tornou o
  outro sorrindo. Raras vezes me irrito, conquanto lastime sempre o que 
  fraqueza ou perverso. Assim, por exemplo, eu no lhe ficaria querendo mal se o
  senhor me houvesse iludido agora acerca de seus sentimentos, porque o seu
  interesse e o seu dever  neg-los.

-- Perdo; j lhe dei
  minha palavra...

-- No deu, nem eu lha
  pedi, nem pediria, porque a palavra de honra no obriga a conscincia, quando 
  dada para salvar uma questo de honra. O senhor poderia d-la sem sinceridade
  nem remorso. J no  a mesma coisa se me jurasse, porque o juramento,
  invocando o testemunho de um ente superior, esse obriga a conscincia que no
  est pervertida.

-- No exige de mim que
  jure, espero eu? disse Jorge.

-- H ainda uma raiz de
  dvida, em meu corao, replicou Procpio Dias sorrindo.

-- Pois juro-lhe...

Procpio Dias
  levantou-se de sbito.

-- No precisa mais,
  exclamou ele apertando-lhe as mos. Agora creio; creio de todo. No  meu
  rival, nem corrompe a famlia a que pretendo unir-me. Se soubesse o prazer que
  me deu com a sua ltima palavra! Obrigado! Agora creio. Ria-se de mim, ria-se;
  eu creio que esta expanso pode ter um lado grotesco, -- h de ter decerto. O
  que lhe afiano  que se minha felicidade no  completa depende somente da
  fortuna, no dos homens...

Sentou-se depois destas
  palavras, proferidas quase sem respirar. Jorge acompanhou-o nessa expanso de
  felicidade. Pareciam satisfeitos um do outro. Procpio Dias confessou que era a
  primeira pessoa a quem falava de seus sentimentos, e no se vexava de dizer
  que, ao cabo de alguns meses, nada podia saber do corao da moa. s vezes
  supunha ser aceito; outras, e eram as mais numerosas, tinha a persuaso
  contrria.

-- O senhor naturalmente
  conhece-a e sabe que obra de contradio  aquela mocinha, disse ele. H
  ocasies em que sua familiaridade comigo chega quase  seduo. Talvez exagero;
  mas que hei de pensar de uma moa que me pede instantemente que v l, em certo
  dia, com um modo grave e cheio de promessas? digo-lhe sim; vou, recebe-me com
  um epigrama, ri-se de mim, abusa da complacncia e no sei se do amor, porque,
  conquanto no lhe haja dito nada, acho natural que ela o tenha descoberto nos
  meus olhos. Se fico despeitado e resolvido a no voltar l, ela torna-se mansa,
  como uma pomba, carinhosa, macia, e o meu despeito evapora-se, e eu continuo a
  minha viagem interminvel.

-- Nunca lhe deu a
  entender nada, ao menos por aluso?

-- Nunca; receio que no
  me deixasse acabar.

-- No creia; eu suponho
  que ela gosta do senhor.

-- Sabe disso?

-- No, mas  o que
  concluo do que me contou. As mulheres tm s vezes caprichos; e demais h
  naquela uns restos de criana, que a faz ainda mais caprichosa. Meu raciocnio
   este: se ela percebeu, e no o repele absolutamente,  porque o senhor ainda
  pode ter esperanas...

Procpio Dias no pde
  exprimir a alegria que estas palavras de Jorge lhe entornaram na alma; seus
  olhos brilharam de uma luz estranha, depois fecharam-se, enquanto a cabea
  pendeu para trs, de um jeito lnguido. Durante essa pausa de alguns minutos,
  Jorge pde analisar as feies de Procpio Dias, pouco prprias a fascinar uns
  olhos de dezesseis anos, e achou natural que Iai no se sentisse tomada de
  cego entusiasmo. Contudo, no era impossvel corresponder-lhe de algum modo, se
  a razo tomasse as rdeas ao corao. Jorge supunha at que houvesse em Iai
  uma semente de simpatia, que bastava fazer germinar.

Entrando no quarto que
  lhe fora destinado, Procpio Dias estava longe de ter sono; a excitao
  trazia-o esperto. Entrou, abriu a janela e olhou ao largo. O aroma vivo das
  plantas da chcara ainda mais lhe apurou o sistema. No era homem de contemplar
  estrelas nem de fazer filosofias acerca da solido noturna e do sono das
  coisas; limitou-se a pensar no que acabava de ouvir.

-- Gosta da Estela,
  murmurou ele; antes de jurar podia ser duvidoso; depois do juramento 
  positivo, se ela no gosta dele faz mal;  um rapaz de espavento.

Depois abriu as asas ao
  pensamento e foi direito a Iai, galgando o espao e derrubando paredes: foi e
  contemplou o seu sono de virgem, que ele supunha ser quieto e puro, mas que a
  essa mesma hora era turbado e j complicado das idias do mal. Procpio Dias
  deixou-se ir sabor da paixo, que era viva e sincera, uma conspirao surda e
  misteriosa de todas as foras sensuais.

A figura terna e
  virginal de Iai aparecera-lhe um dia, subitamente, como uma viso no sonhada.
  Se ele a visse em algum salo aristocrtico pensaria nela numa noite, talvez
  uma semana, at esquec-la ou substitu-la. Mas o que o prendeu a Iai Garcia
  foi justamente a mediocridade do nascimento. Possu-la era fazer-lhe um favor.
  Quantas outras lhe no levaram os olhos de stiro, ao descer de uma carruagem,
  ou ao resvalar indolentemente o seu talhe na contradana de bom-tom? Ele via-as
  passar ou estar, com os ombros nus ou cingidos da caxemira elegante, risonhas
  umas, outras srias, todas altivas e compassadas, e sentia que os anos, feies
  e maneiras o distanciavam delas; no era difcil apag-las da memria.

Iai teria antes de
  agradecer a escolha; era a sua convico, e foi o que mais o ligou  filha de
  Lus Garcia.

Quando a moa
  refletisse que acharia no marido a satisfao de todas as veleidades do luxo, o
  gozo das coisas superfinas, elegantes e raras, devia ceder por fora e
  preferi-lo a quem lhe desse apenas corao, trabalho e necessidades. Uma vez
  brotada a idia, cresceu e tomou-lhe o crebro todo. Iai era ento a figura
  presente a seus olhos, ora divina e casta, ora ardente e lbrica, -- lbrica,
  porque ele em sua imaginao conspurcava-a, antes mesmo de a possuir.

No dia seguinte acordaram
  tarde e almoaram juntos, sem tornar no assunto da vspera. No fim do almoo,
  Procpio Dias referiu-se a ele, dizendo que fora excessivo na noite anterior, e
  pedindo a Jorge que o no levasse a mal; porquanto era tudo filho de um
  sentimento que no peca por moderado na suspeita, nem eqitativo na apreciao.

-- No podia
  atribuir-lhe outro motivo, redargiu Jorge sorrindo.

-- No ficou mal comigo?

-- Mal? A prova  que se
  dependesse de mim cas-lo, casava-o amanh mesmo.

Procpio Dias
  agradeceu-lhe a simpatia e o obsquio, e saiu. Jorge foi dali vestir-se para ir
  passar alguns minutos no escritrio. Enquanto se vestia, pensava na situao do
  ex-fornecedor do exrcito. No eram amigos, mas o caso de Procpio Dias
  interessava-o; era simptico a seus olhos. No indagou se essa simpatia brotava
  do medo; persuadia-se ingenuamente do contrrio. Um marido apaixonado e
  opulento! Duas vantagens que uma moa nas condies de Iai, devia aceitar com
  ambas as mos. Talvez Procpio Dias no fosse mal aceito ao corao da moa;
  somente, havia nesta uns vestgios de criana, que o tempo devia apagar.

-- Naquela idade um
  pretendente  uma espcie de boneca, dizia Jorge atando a gravata; o que e
  preciso, a todo transe,  fazer da boneca um esposo.

Chegando ao escritrio,
  ao meio-dia, Jorge encontrou o Sr. Antunes consternado. Tinha dormido at onze
  horas, chegara tarde  casa em que trabalhava, o patro convidara-o a fazer as
  contas. Era uma pequena casa de comrcio, onde o Sr. Antunes, que entendia de
  escriturao mercantil, trabalhava desde algum tempo, graas ao obsquio de
  Jorge.

-- Mas j foi despedido?
  perguntou este.

-- Devo fazer as minhas
  contas e retirar-me no fim do ms.

Jorge escreveu duas
  linhas ao patro do Sr. Antunes. De tarde, foi este a Santa Teresa. Jorge ia
  sentar-se  mesa do jantar; o Sr. Antunes j tinha jantado, mas acompanhou-o.

-- Venha, venha, disse o
  moo; preciso ralhar-lhe.

Vexado e tmido, o Sr.
  Antunes sentou-se defronte de Jorge, que no lhe disse nada durante os
  primeiros minutos. Jorge falou enfim, repreendendo-o amigavelmente; disse-lhe
  que as exigncias do comerciante no eram exageradas, e em todo caso no havia
  meio de opor-se a elas, salvo se quisesse deixar a casa.

-- Isso mesmo, disse o
  pai de Estela.

-- No faa isso; no se
  ganha nada em andar de emprego em emprego. Demais, francamente, no vejo que
  entrar antes das dez horas seja coisa difcil. Seu genro faz isso h muitos
  anos.

-- Meu genro!... meu
  genro!... disse o Sr. Antunes sacudindo a cabea com um gesto de enfado.

Jorge fingiu no
  atender ao gesto e ao tom do pai de Estela, e tratou de o converter 
  pontualidade, obra que comeava a ser difcil, porque o Sr. Antunes entrava j
  nas conseqncias lgicas e naturais de uma longa dependncia; preferia o favor
  ao trabalho, e os anos contribuam para esse amor da inrcia e do benefcio
  gratuito. A maior ambio que o animou, se a fortuna a houvera realizado,
  dar-lhe-ia todos os meios de envelhecer tranqilo. Agora tinha encanecido, e o
  corpo, embora lesto, comeava a suspirar pela inao.

Jorge deixou o assunto
  para no vexar o antigo protegido do pai, e acabou o jantar alegremente. No fim
  recebeu um bilhetinho de Procpio Dias.

"No imagina, dizia
  este, que dia tenho passado, depois da nossa conversa de ontem. teimo em dizer
  qye fui excessivo, e ainda uma vez lhe peo me releve a falta. Poderia o senhor
  castigar um doido? O amor no tem imputao. Queime este bilhete; em todo caso
  no o revele a ningum, sobretudo  pessoa de que se trata."

Jorge sorriu e releu o
  bilhete; depois fechou-o na secretria e escreveu esta simples resposta:

"Ainda uma vez, no h
  que perdoar. O senhor foi apenas desconfiado, como todos os ciumentos; mas,
  como no inventou o cime, no lhe fao carga disso."

Entregue a resposta,
  Jorge olhou para o Sr. Antunes, que fumava discretamente um charuto do
  bacharel.

-- Ouvi dizer hoje uma
  coisa, disse Jorge com ar indiferente; ouvi dizer que Iai vai casar.

-- Casar? Repetiu o Sr.
  Antunes com um sobressalto. E depois de um instante: --  possvel; naquela casa
  o ltimo que sabe das coisas sou eu.

-- Talvez no passe de
  balela. Nem me disseram com quem. Provavelmente h algum namorado ou aparncia
  disso, e ento os noveleiros vo logo ao fim. Mas haver deveras algum
  pretendente ou namoro?...

-- Que eu saiba, nada,
  asseverou o Sr. Antunes. E at, deixe-me dizer-lhe o que penso, duvido que ela
  cuide por ora de semelhante coisa. Aquela menina no tem cabea.

-- Oh! exclamou Jorge
  rindo.

-- No tem, digo-lhe eu.
  Est ali, est no hospcio. No se pode dizer que seja travessura, porque no
  est em idade disso;  pancada. Se soubesse as coisas que ela faz s vezes!

-- No me parece; quando
  a vejo,  sempre com um modo comedido, e muitas vezes srio...

-- L isso,  porque ela
  no gosta do senhor.

-- No gosta de mim?
  perguntou Jorge admirado.

-- No digo que
  absolutamente no goste, obtemperou o pai de Estela; no lhe tem muita
  simpatia,  o que .

-- Como sabe voc disso?

-- Ouvi uma vez o pai
  repreend-la, porque de propsito voltara as costas ao senhor; e ento ela
  levantou os ombros, assim com um ar de pouco caso. O pai tornou a dizer que
  aquilo no era bonito, mas perdeu o tempo; Iai pregou os olhos nas unhas, com
  a testa franzida, e eu sa porque j no podia aturar nem um nem outro.

Jorge ficou alguns
  instantes pensativo. Era certo que Iai o tratara sempre com muito resguardo e
  frieza; mas, suposto que isso no significasse simpatia, e at lhe sentisse
  alguma hostilidade, estava longe de atribuir-lhe declarada averso. Do gesto a
  que o Sr. Antunes aludira, no se lembrava absolutamente, mas era possvel.
  Demais, pensou ele, o Sr. Antunes no o inventaria na ocasio; no era
  caluniador; faltava-lhe essa ferocidade. Mas, por que motivo no gostaria dele
  a filha de Lus Garcia? Era a segunda vez que Jorge fazia essa pergunta, sem
  lhe achar resposta plausvel. Em seguida, recordou-se da noite anterior, e
  observou ao pai de Estela que Iai o tratara na vspera com alguma
  cordialidade.

-- Milagre de ano-bom!
  explicou o Sr. Antunes. Tambm lhe digo que no perde nada se ela no gostar do
  senhor;  uma fortuna. Porque ela, quando gosta de uma pessoa,  de fazer-lhe
  perder a pacincia.

-- Mas parece ter bom
  corao, e creio que gosta muito do pai.

-- Tambm Estela gosta
  de mim.

Jorge fechou neste
  ponto a conversao. Seu pensamento voltou  revelao inopinada do Sr.
  Antunes. Por mais indiferente que Iai lhe fosse, Jorge sentia-se molestado com
  a certeza de que a moa no gostava dele. Por que seria? Simples antipatia ou
  outra coisa?

A preocupao
  desvaneceu-se na tarde do dia seguinte, quando Jorge apareceu em casa de Lus
  Garcia. Foi a prpria Iai quem veio abrir-lhe a porta do jardim dizendo,
  alegremente: -- Entre, Sr. doutor, que j se fazia esperado. Jorge no pde
  esconder o assombro que lhe produzira aquela recepo; nem o assombro nem a
  alegria. Entrou e estendeu-lhe a mo.

-- No posso, tornou a
  moa, mostrando a sua, fechada; s se adivinhar o que est aqui dentro.

-- No  uma estrela.

-- No, senhor;  um
  cavalo.

No fundo do jardim
  estava Lus Garcia, com o tabuleiro do xadrez: acabava de dar uma lio 
  filha, que lha pedira desde antes do jantar. Iai levou at l o filho de
  Valria. Pela primeira vez sentou-se ao p dos dois para v-los jogar; fincou
  os cotovelos na mesa e encostou o queixo nas mos; queria aprender, dizia ela,
  em trs semanas.

-- Trs semanas! repetiu
  o pai a sorrir e a olhar para Jorge.

Das qualidades
  necessrias ao xadrez, Iai possua as duas essenciais: vista pronta e
  pacincia beneditina; qualidades preciosas na vida, que tambm  um xadrez, com
  seus problemas e partidas, umas ganhas, outras perdidas, outras nulas.

CAPTULO XII

Quinze dias depois,
  Procpio Dias apareceu em casa de Jorge com luto no vesturio e no rosto. De
  Buenos Aires chegara-lhe na vspera,  tarde, a notcia da morte de um irmo,
  seu ltimo parente, notcia que o obrigava a embarcar no dia seguinte e
  demorar-se no Rio da Prata cinco a seis semanas. No se pode dizer que ele
  estivesse triste; estava srio, -- srio e preocupado. A viagem a Buenos Aires
  no tinha por fim o cadver do irmo, mas a herana, que posto no fosse
  grande, valia alguma coisa.

Procpio Dias ofereceu
  seus servios ao filho de Valria, que de sua parte prometeu-lhe algumas cartas
  de apresentao, se precisasse. Procpio Dias aceitou uma. Jorge levou-lha no
  dia seguinte. Ele recebeu-a com demonstraes de agradecido e quase terno. E
  depois de um momento de silncio:

-- J agora entrego-lhe
  pessoalmente esta carta, que devia ser levada amanh por um portador.

Jorge quis abrir: --
  No, acudiu o outro; prometa-me que s a abrir amanh.

-- Por que no hoje de
  noite?

-- Podia ser hoje de
  noite; mas  bom que entre a impresso da despedida e a leitura desse papel
  decorra o espao da noite e o sono. Talvez seu juzo seja diferente.

Jorge prometeu.
  Procpio Dias partiu. No dia seguinte abriu a carta e leu estas poucas
  palavras: "Seja o meu anjo da guarda durante a minha ausncia".

-- Por que no? disse
  ele consigo.

De tarde, saiu a
  cavalo, costeando o aqueduto, segundo costumava, e ia pensando seriamente na
  convenincia de casar os dois. Naquelas duas semanas tivera tempo de apreciar
  um pouco as qualidades da moa, que lhe pareceram boas, conquanto lhe achasse
  tambm alguma coisa original, misteriosa, ou romanesca, muito acima da
  compreenso ou do sentimento de Procpio Dias. Jorge no se iludia acerca da
  paixo do pretendente; supunha-a sincera, mas no lhe atribua a virgindade das
  primeiras ou das segundas comoes: era uma paixo da ltima hora, um ocaso
  ardente e abraseado entre o dia que l ia, e a noite que no tardava a sombrear
  tudo. Ainda assim a aliana lhe parecia conveniente. Iai possua decerto a
  fora necessria para dominar desde logo o marido; e o tito encadeado teria ao
  p de si, em vez de um abutre a picar-lhe o fgado, uma formosa rola destinada
  a prolongar-lhe as iluses da juventude.

Se eram boas as
  impresses que Iai lhe deixava nos ltimos dias, no eram ainda assim isentas
  de algum enfado, alis passageiro. Uma ou duas vezes, Iai lhe pareceu
  singularmente spera, e sem motivo nem durao. Esses assomos, porm, eram logo
  compensados por uma afabilidade, que parecia mais viva, mais ruidosa, talvez um
  pouco importuna. Ocasio houve em que Estela disse  enteada, com um sorriso de
  repreenso: -- No amofines o Sr. Doutor Jorge. No compreendeu Jorge por que motivo
  essa palavra simples, dita em tom brando, deu ao rosto de Iai uma expresso
  indignada; lembrava-se porm que a expresso foi passageira, e que ela passou
  do singular amuo  habitual alegria: -- Bem v, replicou Estela, bem v que 
  uma criana.

Jorge ia assim a
  refletir, e j de volta, quando ouviu uma voz que dizia o seu nome. Era Iai
  que descia da casa da velha ama. Jorge parou o cavalo.

-- Em que vai pensando?
  disse ela.

-- Na senhora, respondeu
  o moo afoitamente, depois de verificar que ningum os podia ouvir.

Iai caminhou at 
  rua, acompanhada de um homem velho, o irmo de Maria das Dores.

-- Que anda fazendo
  aqui? continuou Jorge inclinando o busto sobre o pescoo do cavalo.

-- Vim visitar a Maria
  das Dores. Coitada! est to abatida!

-- Bem; eu logo lhe
  direi o que ; v ver a doente.

-- J a vi; volto agora
  para casa. O Sr. Joo vai acompanhar-me.

Jorge apeou-se.

-- Deixa-me acompanh-la
  tambm? perguntou.

-- Deixo; mas  s por
  ser curiosa. Quero saber o que ia pensando a meu respeito. Vamos, Sr. Joo?

Jorge enfiou a rdea no
  brao e colocou-se ao lado dela; Iai tomou-lhe afoitamente o outro brao.

-- V, conte-me tudo.

-- O Procpio Dias
  embarcou hoje.

Iai, que ia havia dado
  os primeiros passos, estacou.

-- Para onde? disse.

-- Para o Rio da Prata;
  morreu-lhe um irmo em Buenos Aires.

--Mas sem se despedir de
  ns!

-- Naturalmente,
  custava-lhe faz-lo, e quis poupar-se  dor da separao. Esteve porm comigo,
  e prometeu-me que a demora seria curta. Vi-o muito aflito com a viagem, to
  aflito que no sei se lhe diga que era... era, decerto, era maior a dor da
  viagem do que a da morte do irmo. Talvez lhe faa injria nisto, mas parecia.

-- Por qu? perguntou a
  moa erguendo os olhos para ele.

-- No sei se lhe deva
  dizer por que, acudiu Jorge. E da, no se tratando de nenhuma coisa do outro
  mundo...  verdade que as moas bonitas, como a senhora, costumam ser cruis...
  No sei... H situaes um pouco...

-- Ridculas, concluiu
  Iai.

-- Como ridculas?

-- Por exemplo, a sua.

Jorge enfiou um pouco;
  mas a um homem de sociedade, Iai no parecia de fora a fazer perder o
  equilbrio. Sorriu levemente e retorquiu sem azedume:

-- No  ridculo ser
  afetuoso; eu cuidava responder  linguagem de seu corao.

-- Supunha que a
  ausncia de Procpio Dias me deixava saudades...

-- Supunha.

-- Que tem o senhor com
  isso?

A resposta de Jorge foi
  um simples gesto negativo. Contudo, no pde zangar-se, porque sentia tremer o
  brao da moa, e olhando de esguelha para ela via-a plida e com os olhos no
  cho. Se a palidez e o tremor eram de clera, no chegou a sab-lo; mas
  provavelmente no era outra coisa, porque ao cabo de trs a quatro minutos,
  Iai ergueu os olhos e estendeu-lhe a mo, dizendo:

-- Faamos as pazes.

-- Nunca estivemos em
  guerra, acho eu.

-- Talvez em vspera de
  guerra.

-- No por culpa
  minha...

-- Nem minha, acudiu a
  moa. E erguendo o chapelinho de sol para o cu: -- Talvez por culpa daquele,
  disse ela suspirando.

Aps o suspiro, veio
  uma risadinha seca e forada, mas longa ainda assim com o som de um golpe de
  cristal. Tinham andado poucos minutos e esses poucos eram j de sobra para
  espertar a curiosidade de Jorge, e para lhe dar direito a pedir uma explicao.
  Jorge pediu-lha em termos afetuosos, perguntando por que razo era o Cu
  culpado em uma guerra que devia romper entre ambos, e sobretudo qual seria o
  pretexto dessa guerra. Iai refletiu um instante, e comeou a falar com os
  olhos baixos.

-- O motivo  o senhor
  mesmo, disse ela.

-- Eu?

-- O senhor, que  meu
  inimigo, que me detesta. No me dir que mal lhe fiz eu? continuou ela erguendo
  subitamente os olhos. Escusa fazer esse gesto de espanto; sei que o senhor me
  detesta, e por mais que pergunte a mim mesma -- no sei, no me recordo... Diga,
  fale com franqueza.

-- Tanto melhor!
  exclamou Jorge. Vejo que havia entre ns um equvoco e  chegada a ocasio de o
  desfazer. Quer que lhe fale com franqueza? O inimigo no sou eu,  a senhora; 
  a senhora, ou antes, era ou parecia ser. Agora compreendo; retribua-me a
  averso que supunha haver em mim. Tanto melhor! Faamos as pazes de uma vez.

Iai apertou a mo que
  ele lhe ofereceu e chegaram alegremente a casa. Jorge quis retirar-se logo, mas
  a moa ordenou a Raimundo que conduzisse o cavalo, e Jorge foi compelido a
  entrar por alguns minutos. Lus Garcia no estava em casa. Estava o Sr.
  Antunes. Iai mal deu tempo aos primeiros cumprimentos. -- Ande jogar comigo,
  disse ela.

-- Em boa paz?

-- Em boa paz.

Iai preparou o xadrez,
  no gabinete contguo  sala; Jorge sentou-se pacientemente diante da
  adversria, retificou a posio de duas peas, excluiu as que lhe dava de
  partido e adiantou o primeiro peo.

-- V, disse;  a sua
  vez.

Iai no obedeceu ao
  convite. Olhava para ele, com ar inquieto.

-- D-me sua palavra de
  honra de que me no negar o que lhe vou perguntar? disse ela ao cabo de alguns
  instantes de silncio.

Jorge hesitou um pouco.

-- Conforme.

-- Exijo.

-- Que me pedir ela que
  lhe no possa afirmar? pensou Jorge. Em voz alta respondeu:

-- Dou.

-- Foi ele quem lhe
  encomendou...

-- O sermo? interrompeu
  Jorge sorrindo. Serei franco; foi ele mesmo.

Iai baixou os olhos ao
  tabuleiro, cavalgou a torre com o bispo, como distrada, e em voz ainda mais
  baixa do que lhe falara, perguntou:

-- O senhor  homem de
  segredo?

-- Sou, redargiu
  afoitamente Jorge.

-- Pois bem, continuou
  Iai, eu gosto dele, gosto muito, mas no desejo que ele saiba.

-- Deveras? no est
  gracejando?

-- No estou.

Jorge estendeu-lhe a
  mo: -- Magnfico, disse ele alegre; no  preciso mais. Uma vez que se amam,
  viro naturalmente a...

No pde acabar, porque
  a moa, erguendo-se de sbito, afastou-se da mesa, com um arremesso, e
  dirigiu-se  janela, que dava para o jardim. Jorge ficou espantado. No
  entendia o que estava vendo. Inclinou-se sobre o tabuleiro e comeou a mover as
  peas, sozinho, sem plano, maquinalmente. Assim jogando, ouvia o som do taco
  de Iai que feria o ladrilho do cho, com um movimento precipitado e nervoso.
  Durou isto cinco minutos. Iai voltou-se para dentro, saiu da janela, e
  aproximou-se da mesa. Jorge ergueu ento a cabea para ela e sorriu.

-- No me dir que lhe
  fiz eu, para ficar to zangada comigo? perguntou com benevolncia.

-- Nada; eu  que fui
  estouvada e no sei se mais alguma coisa.

Jorge protestou que
  no. -- Foi rspida somente, disse ele; e se o foi sem querer, no foi sem
  motivo. No me dir que motivo  esse? Parece-me que no a tratei mal...

-- No.

-- Nesse caso, o motivo
  est na senhora mesma; e se eu no tivesse medo de que se zangasse outra vez
  comigo, atrevia-me a pedir-lhe que me dissesse tudo -- ou pelo menos alguma
  coisa.

-- Para qu? Vamos
  jogar.

-- Est escurecendo.

-- Mando vir luzes.

Vieram luzes; comearam
  a jogar. Entre eles o xadrez no podia oferecer interesse, mas dado que
  pudesse, no seria naquela ocasio. Um e outro estavam distrados e
  preocupados. A primeira partida foi concluda, em pouco tempo, quase sem
  clculo.

-- Outra? perguntou
  Iai.

-- Vamos.

-- Antes de comear,
  disse ela colocando as peas, e sem olhar para Jorge, quero dizer que tem um
  meio seguro de nunca brigar comigo.

-- Qual ?

--  ser meu confidente.

-- Senhor de seus
  segredos?

-- Todos.

-- O meio  fcil; s eu
  ganho na troca.

-- Nisso dou prova de
  grande corao.

J no era a menina
  rspida de alguns instantes; dissera as ltimas palavras com muita graa e
  placidez. Ao mesmo tempo, continuava a arranjar metodicamente as peas. Acabou
  e reclinou-se no dorso da cadeira.

-- No me declarou ainda
  se aceitava, disse ela.

Jorge hesitou um
  instante. Era gracejo ou proposta sria? A um gracejo responde-se com outro, a
  uma proposta responde-se com seriedade. Jorge hesitava em tomar sobre os ombros
  uma parte de responsabilidade dos sentimentos da moa. Quais seriam eles? Que
  projetos despertariam naquele crebro provavelmente indomvel? No podiam ser
  outros seno os de casamento com Procpio Dias, visto que ela confessava
  am-lo. Esta reflexo f-lo declarar afoitamente que aceitava a confidncia.

-- Sabe o que aceita?
  perguntou Iai.

-- Farejo.

--Toque! disse ela
  estendendo-lhe a mo.

Jorge deu-lhe a sua.

-- No se trata em todo
  caso de nenhum assassinato? perguntou rindo.

-- No.

A segunda partida foi
  mais animada, mas s por parte de Iai. A moa ria s vezes, mas a maior parte
  do tempo fazia convergir toda a sua ateno para o jogo. Quando falava, era
  moderada e dcil. Essa alternativa e contraste de maneiras interessava naquele momento
  o esprito de Jorge. Que espcie de mulher fosse, imperiosa como uma matrona,
  travessa como uma criana, incoerente e enigmtica, era coisa que ele no podia
  em to pouco tempo descobrir; mas o enigma aguava-lhe a ateno. Enquanto ela
  tinha os olhos no tabuleiro, Jorge buscava ler-lhe a alma na fronte lisa e
  cndida; mas no via a alma, via s uns fiapos castanhos do cabelo, que lhe
  caam sobre a testa e esvoaavam levemente ao sopro da aragem que entrava pela
  janela, e lhe davam um ar de puercia. A boca fina e pensativa corrigia aquela
  expresso da cabea; era a primeira vez que ele lhe descobria um forte indcio
  de energia e tenacidade.

Quando era a vez de
  Jorge, Iai afastava o busto, reclinava-se no espaldar da cadeira e ficava a
  olhar para ele, como ele havia olhado para ela. Mas nesse olhar no cintilava
  curiosidade; era uma luz velada e baa, como alheia ao mundo exterior.
  Encontravam-se assim os olhos de um e de outro, e a partida continuava, at
  chegar ao fim sem novo incidente.

Prestes a acabar,
  Estela entrou no gabinete, sem os interromper. Sentou-se caladamente a um canto
  da janela. O jogo cessou no momento em que entrou Lus Garcia.

-- Perdi duas partidas,
  papai, disse a moa; mas por um triz no ganhei a segunda.

Jorge quis sair logo
  depois; foi obrigado a demorar-se, porque Iai lembrou-se de ir tocar piano.
  Era a primeira vez que Jorge conseguia ouvi-la. A moa escolheu uma pgina de
  Meyerbeer; Jorge confessara uma vez que era esse o autor de sua predileo.

No dia seguinte a
  impresso deste era um tanto complexa e perplexa. Aquela mistura de franqueza e
  reticncia, de agresso e meiguice, dava  filha de Lus Garcia uma fisionomia
  prpria, fazia dela uma personalidade; mas a fisionomia era ainda confusa e a personalidade
  vaga. Jorge sentia-se empuxado e retido, ao mesmo tempo, por dois sentimentos
  contrrios; tinha curiosidade e repugnncia de penetrar o carter da moa, e
  conhecer e distinguir os elementos que o compunham. O que lhe parecia claro e
  definitivo era que as primeiras palavras de Iai, to duras e to secas, no
  passavam de uma expresso de despeito, por supor da parte dele a averso que
  no existia; e se as palavras em si o magoavam, a explicao lisonjeava-lhe o
  amor prprio. O resto era inexplicvel. Jorge resolveu, entretanto, no lhe
  falar mais de Procpio Dias, apesar da confisso alis contrastada ou diminuda
  pelo gesto que se lhe seguiu.

Iai pareceu perder a
  disposio agressiva;  fora de afabilidade apagou inteiramente os vestgios
  da antiga rispidez. A alma no se lhe tornou mais transparente, nem o carter
  menos complexo; mas a esquisita urbanidade dos modos fazia suportveis os
  saltos mortais do esprito, e aumentava o interesse do que havia nela obscuro
  ou irregular; finalmente, era um corretivo  tenacidade com que a moa
  confiscava literalmente o filho de Valria. Jorge estimou, sobre todas, esta
  circunstncia, porque lhe tornou mais fcil a freqncia da casa. Ele pertencia
  ao pai ou  filha -- muitas vezes aos dois. Iai atirou-se ao xadrez com um
  ardor incompreensvel, e dizendo-lhe Jorge que era preciso ler alguns tratados,
  ela pediu-lhe um, e porque ele s os tivesse em ingls, Iai pediu-lhe que lhe
  ensinasse ingls.

-- Mas eu sou um mestre
  muito rspido, observou ele.

-- A discpula  muito
  pior.

Estela assistia algumas
  vezes s lies do idioma e do jogo; -- duas coisas que lhe pareciam
  incompatveis com o esprito da enteada. Verdade  que Iai mudara tanto
  naquelas ltimas semanas! No lhe supusera nunca to longa pacincia, nem to
  repousada ateno. Iai gastava uma a duas horas por dia a decorar os verbos e
  os substantivos da nova lngua, e essa paixo recente tinha o condo singular
  de irritar a madrasta. Jorge, pelo contrrio, sentia em si os jbilos do
  pedagogo. O professor  o pai intelectual do discpulo; Jorge contemplava
  paternalmente aquela inteligncia fina, paciente e tenaz servida por dois olhos
  de pomba e duas mos de arcanjo.

No meado de fevereiro
  tornaram a falar de Procpio Dias, a propsito de uma carta que Lus Garcia
  recebera.

-- Veja l, disse a
  moa; ele escreveu a papai e nem uma palavra especial para mim. "Lembranas a
  D. Estela e a Iai." Nada mais. Ele escreveu-lhe?

-- At agora, no.

-- No h nada como a
  ausncia para fazer esquecer tudo -- isto , esquecer os que ficam. Talvez j
  no pense em casar comigo. Foi um capricho que passou, como todos os caprichos;
  foi como a chuva de ontem, que deu apenas alguns salpicos de nada. E contudo
  parecia que vinha abaixo o Cu. No ? a paixo dele no  como a trovoada?
  ameaou no Rio de Janeiro e foi cair em Buenos Aires. Aposto de vem de l
  casado. Ver que no  outra coisa. Que me diz a isso? Vamos; diga alguma
  coisa.

-- No posso, redargiu
  Jorge. A senhora deu-me o cargo de confidente e no de conselheiro; limito-me a
  ouvi-la. Verdade  que o tal cargo at agora parece simples sinecura.

-- Que  sinecura?

Jorge sorriu e
  definiu-lhe a palavra.

-- No  sinecura,
  acudiu Iai; pelo contrrio,  um cargo muito espinhoso.

-- No creio. A
  confidncia nica at hoje no me pareceu sincera. A senhora no ama o Procpio
  Dias.

Iai franziu a testa.

-- Por que me diz isso?

-- Porque, se o amasse,
  falaria de outro modo, e, sobretudo no falaria tanto. O amor, nessa idade,
  vive de reticncias, no de frases e menos ainda de frases to compostas.

-- Cale-se! Interrompeu
  ela batendo-lhe com a gramtica na ponta dos dedos. E depois de uma pausa: -- Se
  ele lhe escrever, mostra-me a carta?

Como Jorge lhe dissesse
  que sim, Iai fez um movimento para rasgar o volume em dois pedaos. Jorge
  perguntou-lhe o que tinha. -- Nervoso! respondeu a moa, sacudindo os ombros com
  um calafrio. Depois, como a amparar-se, lanou-lhe a mo a um dos pulsos. Jorge
  sentiu a presso de uns dedos de ferro; e parece que outros dedos invisveis
  tambm comprimiam as faces da moa, vermelhas como se vertessem sangue.

CAPTULO XIII

Jorge achou em casa,
  nessa mesma noite, uma carta de Buenos Aires. Procpio Dias narrava-lhe a
  viagem e os primeiros passos, e dizia ter toda a esperana de se demorar pouco
  tempo. Tudo isso era a tera parte da carta. As duas outras teras partes eram
  saudades, protestos, expresses de sentimento, e um nome no fim, um nome nico,
  e que era a chave do escrito. Jorge leu atentamente essas confidncias, e na
  mesma noite esboou uma resposta. No era fcil combinar a discrio que
  quisera conservar em suas relaes com Procpio Dias e a necessidade de lhe
  mandar algumas esperanas. Embora com esforo, redigiu a resposta conveniente,
  contando-lhe as boas impresses que tinha; s as boas, no lhe disse as
  duvidosas; sobretudo no desceu a nenhuma realidade, a nenhum nome prprio;
  nada mais que uma extensa srie de locues igualmente animadoras e vagas.

No dia seguinte no foi
   casa de Lus Garcia; choveu torrencialmente. Mas no outro dia foi, logo
  depois do jantar. Achou reunida a famlia.

-- Good evening my
  dear mestre! bradou Iai logo que o viu entrar na sala.

-- Faltava mais uma
  lngua a esta tagarela, disse Lus Garcia rindo; daqui a pouco tempo ningum a
  poder aturar.

Jorge no esperava,
  decerto, encontrar na moa a mesma expresso que lhe deixara na antevspera,
  quando de um gesto nervoso lhe comprimira o pulso. Tinham passado quarenta e
  oito horas, e para que ela se restabelecesse bastariam apenas quarenta e oito
  minutos. Contava com a mudana; no obstante procurou l-la nos olhos, e
  achou-os to alegres como o tom em que ela o saudara. A lio isolou-os, e foi
  tambm o pretexto mais favorvel para lhe mostrar a carta de Procpio Dias.
  Iai viu-a selada e compreendeu tudo; arrebatou-a s mos de Jorge.

-- Ah! disse este, seu
  gesto vale um discurso.

-- Posso ler?

-- Pode.

Iai desdobrou a carta
  e leu-a para si. Enquanto lia, Jorge fitava-a. No lhe via nenhuma confuso,
  alvoroo ou alegria; os olhos seguiam lentamente de uma linha a outra, e a mo
  firme voltava a pgina. No fim, quando leu o prprio nome, teve um movimento de
  tdio, e inconscientemente amarrotou o papel; mas emendou-se logo, alisou a
  carta com a mo e restituiu-a silenciosamente. Durante alguns segundos
  ocupou-se em traar com um lpis alguns crculos na margem da folha aberta da
  gramtica; ergueu enfim os olhos e perguntou sem rir:

-- Acredita no que diz
  essa carta?

-- Acredito; tudo o que
  est a escrito, j o ouvi de viva voz, e com a mesma sinceridade e calor. Quem
  sabe? pode ser que seja o primeiro amor desse homem.

--O primeiro... o
  primeiro... repetiu ela entre dentes.

-- Talvez o primeiro,
  insistiu Jorge; e para uma moa, acho que deve ter algum encanto ser amada por
  um homem considerado superior s paixes. A vida de Procpio Dias teve sempre
  outra ordem de interesses...

-- Conhece-o h muitos
  anos?

-- H muitos, no;
  conheo-o desde o Paraguai.

-- Acha que eu fazia bem
  em me casar com ele?

-- Bem ou mal, conforme
  o amor que lhe tiver. Esse  o ponto necessrio, e em meu conceito, o ponto
  duvidoso. Receio que a senhora o no ame deveras; j tive ocasio de o dizer.

-- Preciso de alguns
  esclarecimentos. O senhor amou decerto alguma vez...

-- Nunca.

-- Nunca? Nunca teve um
  amor, um s que fosse? No creio. Um coronel! Nada; no creio; s se me
  jurasse; era capaz de jurar?

-- Juro.

-- Em nome de sua me?
  concluiu ela fitando-lhe uns olhos cuja expresso imperativa contrastava com o
  tom submisso da palavra.

Jorge hesitou um
  instante. Tinha cepticismo bastante para proferir uma frmula vaga de
  juramento; mas recuou diante da frmula positiva. Hesitou e ladeou a pergunta.

-- Esse nome resume
  justamente o meu nico amor, disse ele; amei a minha me.

Iai sorriu com ar de
  dvida; depois olhou para ele comovida. -- Eu amo meu pai, redargiu ela; nossos
  coraes podem entender-se.

A esta palavra no
  havia que replicar; pareceu-lhe a condenao do pretendente. Apertou a mo que
  a moa lhe estendeu, e sentiu-a fria. Aps uma curta pausa, abanou a cabea,
  murmurando:

-- Assim pois, nenhuma
  sombra de esperana...

-- Faa o que entender,
  disse a moa no fim de outra pausa. Em todo o caso desejo ler a resposta que
  lhe der.

Jorge abriu a carteira
  e tirou de l o rascunho da carta que pretendia mandar a Procpio Dias.

-- A resposta, disse
  ele, j est escrita. No querendo mat-lo, pus aqui algumas gotas de
  esperana; no ousaria, contudo mandar o remdio, sem ouvi-la.

Iai recebeu o papel
  dobrado, olhou um instante para ele, outro para Jorge. -- Leia, disse este. Iai
  no obedeceu: pegou do lpis, e sobre a folha do papel dobrado comeou a lanar
  os traos de um desenho. Posto que a luz batesse em cheio no papel, Jorge no
  pde ver desde logo o que era; mas esperava, em frente da moa, que ela
  rematasse o capricho. Nessa ocasio, Estela foi ter com eles.

-- J acabou a lio?
  perguntou.

-- Agora  uma lio de
  desenho, ao que parece, disse Jorge.

Estela ps a mo no
  ombro da enteada. --  o Procpio Dias! disse ela olhando para o desenho. Era,
  mas o desenho frisava com a caricatura; a fealdade de Procpio Dias excedia as
  propores verdadeiras, o nariz era enormemente triangular, as rugas da testa
  grossas e infinitas: um monstro cmico. Estela sorriu da travessura, mas
  repreendeu-a.

-- Deixe ver, disse
  Jorge quando ela acabou.

-- Para que? retorquiu
  Iai com indiferena.

E levando o papel 
  chama, queimou-o. Jorge interrogou-a com os olhos; ela encarou-o sem se
  perturbar. Depois folheou a gramtica lentamente.

-- Continuemos a lio,
  disse ela. I love. V; onde estvamos? Aqui, era aqui.

Estela assistiu  lio
  toda, com a pacincia da curiosidade. No olhava nunca para o mestre, dividia a
  ateno entre a discpula e o livro. A lio foi longa, mais longa do que era
  necessrio, porque o prprio mestre no acompanhava pontualmente o texto e a leitura.
  Iai tinha diante de si dois juzes, cada um dos quais buscava decifrar-lhe na
  fronte a inscrio que l lhe teria posto o seu destino. Percebia-o, e no se
  enfadava. Ia de um tempo a outro, e do indicativo ao imperativo, voltando ao
  comeo logo que chegava ao fim, fitando os dois inquisidores com um olhar em
  que pareciam dormir todas as ignorncias da Terra.

A tranqilidade era
  aparente. Nessa noite, recolhida aos aposentos, a moa deu largas a dois
  sentimentos opostos. Entrou ali prostrada. -- Que estou eu fazendo? disse ela
  apertando a cabea entre os punhos. Abriu a veneziana da janela e interrogou o
  Cu. O Cu no lhe respondeu nada; esse imenso taciturno tem olhos para ver,
  mas no tem ouvidos para ouvir. A noite era clara e serena; os milhes de
  estrelas que cintilavam pareciam rir dos milhes de angstias da Terra. Duas
  delas despegaram-se e mergulharam na escurido, como os figos verdes do
  Apocalipse. Iai teve a superstio de crer que tambm ela mergulharia ali
  dentro e cedo. Ento, fechou os olhos ao grande mudo, e alou o pensamento ao
  grande misericordioso, ao Cu que se no v, mas de que h uma parcela ou um
  raio no corao dos smplices. Esse ouviu-a e confortou-a; ali achou ela apoio
  e fortaleza. Uma voz parecia dizer-lhe: -- Prossegue a tua obra; sacrifica-te;
  salva a paz domstica. Restaurada a alma, ergueu-se do primeiro abatimento.
  Quando abriu de novo os olhos, no foi para interrogar, mas para afirmar, --
  para dizer  noite que naquele corpo franzino e tenro havia uma alma capaz de encravar
  a roda do destino.

Tarde conciliou o sono.
  J dia claro, sonhou que ia calcando a beira de um abismo, e que uma figura de
  mulher lhe lanava as mos  cinta e a levantava ao ar como uma pluma. Plida,
  com o olhar desvairado, a boca irnica, essa mulher sorria, de um sorriso
  triunfante e mau; murmurava algumas frases truncadas que ela no entendia. Iai
  bradou-lhe em alta voz: -- Dize-me que no amas e eu te amarei como te amava!
  Mas a mulher sacudindo a cabea com um gesto trgico, e colando-lhe os lbios
  nos lbios, soprou ali um beijo convulso e frio como a morte. Iai sentiu-se
  desfalecer e rolou ao abismo. Acordou agitada e deu com a madrasta, a
  contempl-la, ao p da cama. No primeiro instante, fechou os olhos e recuou at
  a parede, mas logo depois voltou a si.

-- Tive um pesadelo
  horrvel, disse ela respirando largamente; rolei no fundo de um abismo,
  empurrada por duas mos de ferro. Ainda estou fria. Veja as minhas mos. Tenho
  o peito oprimido. Felizmente passou. Est aqui h muito tempo? Eu agitei-me
  muito?

-- Falaste em voz bem
  alta.

-- Que foi?

--"Dize-me que no amas
  e eu te amarei como te amava." No sei que estas palavras se possam dizer no
  fundo de um abismo. Tu confundes os sonhos...

-- Talvez; no me lembra
  outra coisa. S me lembro do abismo, que felizmente no passou da minha
  imaginao.  muito tarde, no ?

-- Nove horas.

-- Nove horas!

Estela foi  janela, e,
  abrindo a veneziana, mostrou-lhe o sol. Depois encostou-se ali a olhar para
  fora. Entrara alguns minutos antes, admirada do prolongado sono da enteada, e
  ia pousar-lhe a mo no ombro, quando ouviu aquela palavra balbuciada no meio de
  grande agitao; palavra misteriosa e vaga, mas que se lhe embebeu no corao
  como um espinho. De sua parte, Iai no estava menos inquieta. Receava que
  houvesse dito alguma coisa mais, -- um nome ou uma circunstncia precisa; -- em
  todo caso, era bastante o que ouvira a madrasta, para imaginar que o sonho lhe
  escancarara as portas da conscincia. Uma e outra espreitavam-se desconfiadas e
  medrosas. A madrasta deixou a janela e foi sentar-se na beira da cama. Ambas
  sorriam com esforo e nenhuma conseguia falar primeiro. Correram assim trs
  longos minutos de acanhamento e observao recproca. Estela foi a primeira que
  rompeu o silncio.

-- O teu pesadelo foi um
  castigo, disse ela; foi o castigo da caricatura que ontem fizeste. Aquilo no 
  bonito. Todos sabem que o Procpio Dias  bem recebido em nossa casa. Que se h
  de pensar de ns, quando virem que se tratam assim as pessoas ausentes?

Iai refletiu um
  instante.

-- Era preciso, disse
  ela; era uma maneira de desenganar de uma vez as pretenses desse senhor.

-- Mas quem te falou
  nelas?

-- O Dr. Jorge, que
  parece proteg-lo. No  possvel que haja ningum mais feliz do que aquele
  homem. Bastou gostar de mim, para que todos se empenhem em aprov-lo e
  aconselhar-me que no devo tomar outro marido. Parece-lhe que eu...

-- A que propsito te
  falou nisso o Dr. Jorge?

-- A propsito de coisa
  nenhuma; falou porque  amigo dele. No lhe disse eu uma vez que um dia, se
  todos teimarem, serei obrigada a casar com Procpio Dias? Receio muito que
  assim acontea.

-- No, disse Estela
  vivamente; no h de acontecer assim, primeiramente porque eu no o consentirei
  nunca; depois, porque tu amas a outro...

-- Eu?

-- O teu amor de
  colgio, aos doze anos e meio...

-- Ah! disse Iai. E
  depois de alguns instantes continuou, com um gesto de grande vergonha: -- Fiz
  mal em lhe dizer aquilo; peo-lhe que no repita a ningum.

Estela no ouviu as
  ltimas palavras. Erguera-se outra vez para dissimular a comoo, que parecia
  crescer. Entretanto, Iai enfiou um roupo e enterrou o p na chinelinha
  matinal. Quando, cinco minutos depois, encontrou os olhos de Estela, achou-os
  sombrios, como os da figura do pesadelo, e insensivelmente buscou ver se teria
  um abismo ao p de si.

-- Iai, disse Estela em
  tom seco, tu amas, tu confessas que amas a algum; quero que me digas o nome
  desse homem, ouves? Exijo sab-lo para avaliar o que te convm. Sabes que tenho
  autoridade de me.

Iai sentiu ferver-lhe
  o sangue nas veias.

-- Minha me morreu,
  redargiu com igual sequido; estou pronta a obedecer a meu pai.

Estela apenas disfarou
  a sensao interior; aps alguns instantes de silncio, saiu.

Longe da enteada, a
  madrasta deu inteira expanso aos sentimentos que a combaliam. Fechou-se no
  gabinete do marido; depois evocou o passado, como uma fora contra o presente,
  porque era o presente que ameaava trag-la. Um instante abalada pela leitura
  da carta de 1867, buscou recobrar a antiga quietao, mas a interferncia de
  Iai perturbou essa obra de sinceridade. O procedimento da enteada, a sbita
  converso s atenes de Jorge, toda aquela intimidade visvel e recente,
  acordara no corao de Estela um sentimento, que nem aos orgulhosos poupa.
  Cime ou no, revolvera a cinza morna e achou l dentro uma brasa. Suspeitou a
  rivalidade da outra, e no foi preciso mais para que o grito de rebelio fizesse
  estremecer aquela alma solitria e virgem. O pensamento perdeu a habitual
  placidez. O corao comeou de bater com a celeridade e a violncia das grandes
  febres.

Eram as energias
  latentes de um amor comprimido, mas intenso, como uma cratera que acaso fechasse
  uma abbada de gelo; pior que tudo, tinha a fatalidade de um longo
  constrangimento, a luta de duas foras igualmente pujantes, indomveis e cegas.
  O orgulho vencera uma vez; agora era o amor, que, durante os anos de jugo e
  compresso, criara msculos e saa a combater de novo. A vitria seria uma
  catstrofe, porque Estela no dispunha da arte de combinar a paixo espria com
  a tranqilidade domstica; teria as lutas e as primeiras dissimulaes; uma vez
  subjugada, iria direito ao mal.

Ora, no meio desse
  duelo, j doloroso, embora ainda curto, ouviu Estela a ltima palavra da
  enteada, comentrio da que lhe escapara na agitao do pesadelo. Saiu dali
  aterrada, tateando as sombras, e desviando os olhos quando algum claro de
  realidade se lhe acendia ao longe. No podia crer na rivalidade consciente e
  declarada de Iai; era inverossmil, seria a sua prpria vergonha e condenao.
  Mas as palavras retiniam-lhe ao ouvido, e o gesto frio e duro da enteada
  parecia clarear o que havia obscuro nelas.

No podia durar muitas
  horas a situao em que a fatalidade das circunstncias em que a fatalidade das
  circunstncias havia posto as duas mulheres. Iai era a mais dctil, e,
  outrossim, a mais interessada. Logo que Estela a deixou s, caiu em si e
  compreendeu que, alm de ferir cruelmente a mulher que lhe servia de me,
  levantara uma ponta do vu em que trazia envolto o pensamento; ao demais, a
  injria produzira a reao do amor, -- do amor que lhe tinha e no perdera de
  todo, apesar dos acontecimentos ltimos. Na seguinte manh foi ter com a
  madrasta.

-- Confesso que fui
  excessiva e desobediente, disse ela; no o devia ser, mas a senhora falou com
  um modo to seco! to duro! Pareceu-me que duvidava de mim; fosse o que fosse,
  no era o seu modo do costume. Sempre a respeitei como minha me; no nego, no
  poderia negar nunca os seus direitos, assim como no desconheo a sua amizade;
  mas a senhora mesma tem um bocadinho de culpa; sempre me tratou antes como irm
  do que como filha. Da veio alguma confiana, alguma liberdade, e foi por isso
  que ontem cheguei a esquecer quem ramos, para a tratar como no devia. Foi
  isto somente; foi um excesso, uma leviandade, nada mais. Consulte o seu prprio
  corao e ele lhe responder que no foi mais do que isso. V; pergunte-lhe, ele
  me conhece.

Estela escutou-a
  silenciosamente, sem vergar a altivez da fronte, mas tambm sem nenhuma
  expresso de despeito ou desafio. Luzia-lhe nos olhos alguma coisa que
  espreitava a alma da outra por baixo das plpebras descidas. Iai falara de um jacto,
  mas no de um s tom; simplicidade, timidez, faceirice, -- havia de tudo na
  maneira por que se exprimiu durante aqueles poucos segundos. A explicao era a
  um tempo sincera e hbil, mas de tal modo se confundiam os dois caracteres, que
  a prpria habilidade no tinha conscincia de si: era antes um instinto do que
  um clculo.

-- Que me pedes tu?
  disse Estela no fim de alguns instantes. Que te perdoe? Que esquea a tua
  imprudncia? Uma coisa  mais fcil do que a outra. Ests absolvida; faze agora
  com que eu esquea.

-- Por que no? eu
  consegui fazer com que me amasse, quando a senhora no sabia ainda se eu era m
  ou boa.

-- Era fcil. Tua me
  era tua me; mas no te amou mais do que eu. Se alguma vez o reconheceste, no
  foi ontem; ontem cedeste a um mau preconceito contra as madrastas, e levantaste
  entre mim e ti um espectro, que se pudesse falar seria para te condenar tambm.
  No me queixo; nunca me queixei de coisa nenhuma: quando estimo algum, perdo;
  quando no estimo, esqueo. Perdoar e esquecer  raro, mas no  impossvel;
  est nas tuas mos.

Subjugada pelo tom com
  que a madrasta falara, simples, severo e levemente repassado de tristeza, Iai
  cedeu a um nobre impulso de submisso. Pegou-lhe nas mos e beijou-as. A
  madrasta sentiu nelas uma lgrima. No recusou esse testemunho do corao, e
  t-la-ia apertado ao seio se lho permitisse a inflexibilidade do esprito.
  Limitou-se a contempl-la com os olhos amorveis de outro tempo.

Quando se separaram da
  a alguns minutos, alguma coisa dizia  conscincia de ambas que no vinham de
  fundar a paz, mas simples trguas. Essa persuaso cresceu nos demais dias,
  porque uma e outra sentiam-se mutuamente observadas. Como houvesse entre elas
  um acordo tcito para no turbar a paz domstica, Lus Garcia no percebeu essa
  situao nova; Jorge ainda menos do que ele. Iai no alterou os hbitos dos
  ltimos dias, conquanto usasse mais alguma cautela; as relaes dos dois eram,
  alis, to freqentes e familiares como dantes. Uma vez, como a ausncia de
  Jorge se houvesse prolongado alm do costume, Iai mostrou-se-lhe um pouco
  retrada; e, perguntando-lhe ele o que tinha, respondeu afoitamente que a
  ausncia a magoara muito.

-- Quatro dias apenas,
  observou ele.

No primeiro domingo de
  maro, Jorge foi ali s onze horas da manh, e s achou Lus Garcia e Estela.
  Iai tinha ido  casa de Maria das Dores. Quando a moa voltou, Jorge e Estela
  estavam no jardim, ao p da porta da sala; entre ambos havia uma cadeira vaga,
  -- a de Lus Garcia, que fora dentro alguns minutos antes. Nenhum dos dois
  falava nessa ocasio; Estela estalava as unhas, Jorge batia na testa com o
  casto da bengala. Era constrangimento? Era dissimulao? Iai no soube
  decidir; mas o aspecto dos dois deixou-a sem pinga de sangue.

No dia seguinte voltou
   casa de Maria das Dores; sabia do passeio usual de Jorge; queria v-lo,
  falar-lhe. A doente no contava com a visita to prxima da outra. Iai esteve
  com ela apenas alguns minutos, e saiu fora, a pretexto de que fazia calor e
  queria ver a tarde. A tarde era bela; o cu tinha todos os tons, desde o
  escarlate at o opala; ao nascente, algumas nuvens, raras e finas, manchavam de
  branco o fundo azul.

A casa ficava numa
  pequena elevao; Iai sentou-se numa pedra lisa, que servia de banco, e dali
  circulou um olhar pelo horizonte; depois desceu os olhos  cidade e ao mar, e
  esse espetculo, to sado deles, levou-a aos tempos, no muito remotos, em que
  entre ela e o pai nenhum corao viera interpor-se. No meio das reflexes, viu
  parar um homem, ao longe; era Jorge; vinha a p, em atitude de quem medita.
  Passaria ele sem a ver? Ergueu-se; viu-o aproximar-se, parar de novo e olhar na
  direo da casa. Cortejou-o de longe e fez-lhe sinal para que subisse. Jorge
  obedeceu sem dificuldade.

Maria das Dores, doente
  de uma paralisia, ficou estupefata quando viu entrar um desconhecido pela mo
  de Iai, interrogou a moa com os olhos, e Iai, depois de um instante de
  acanhado silncio, respondeu com desgarre:

--  meu noivo, que vem
  v-la. Quero que o conhea e no diga nada a ningum, ouviu?

Dizendo isto,
  aproximou-o mais da paraltica. A boa velha contemplou-o alguns instantes,
  disse-lhe algumas palavras de conselho, pediu-lhe que fizesse feliz a sua filha
  de criao, e no obteve dele uma palavra ou um gesto de assentimento. Sup-lo
  comovido; mas ele estava simplesmente atnito.

Saindo fora da casa,
  assentaram-se  porta, na mesma pedra, assaz larga e extensa para dois.

-- Foi preciso dizer-lhe
  aquilo, explicou Iai, porque eu desejo conversar com o senhor, e os noivos
  conversam mais  vontade. De mais, ela no  s paraltica; tem a vista fraca;
  amanh posso substitu-lo, sem que ela d pela mudana. Agora falemos de ns e
  daquela carta... E antes da carta, diga-me, sabia que eu estava aqui?

-- No; mas no vim at
  estes lados sem esperana de a encontrar. J que fala na carta, deixe-me
  dar-lhe uma explicao; se a no dei at hoje,  porque no quisera voltar a um
  assunto, aborrecido para a senhora e para mim.

-- Para o senhor?

-- Para mim.

Iai apertou-lhe a mo
  com fora.

-- V, disse; tambm
  tenho de lhe dizer alguma coisa grave; mas ouamos primeiro a sua explicao.

-- Oh! custa pouco,
  acudiu Jorge. Escrevi o esboo da carta por me parecer que podia ser-lhe
  agradvel. Lembra-se que uma vez me havia falado naquele sentido? Duvidei mais
  tarde, e disse-lho. Contudo havia tanta incerteza e contradio entre suas
  palavras e aes, que no era difcil supor alguma coisa; h paixes que
  comeam assim caprichosamente. A carta era um meio de dizer ao pretendente que
  seus suspiros podiam no ser inteis. Era isso; s isso. Confesso que adotei o
  papel mais passivo, desinteressado, e no sei at se... creio que a senhora j
  o qualificou de ridculo. A forma podia no ser grave, mas a inteno era
  afetuosa, e se merecia um riso, tambm merecia um aperto de mo. Esboada a
  carta, no a mandaria sem mostr-la; foi o que fiz; mas sua reprovao foi to
  eloqente, que me fez cair em mim e reconhecer que a carta era demais.

-- Era de menos.

-- Queria ento que
  fosse eu prprio a Buenos Aires? perguntou Jorge sorrindo.

-- Queria, se ao chegar
  lhe dissesse: -- Pense em outra coisa; Iai no o ama.

-- Desta vez  srio e
  definitivo?

-- Que admira? replicou
  a moa com gravidade. No lhe parece a coisa mais natural do mundo que uma moa
  no ame o Procpio Dias? No sei o que so os outros homens; poucos tenho
  visto; nossa vida  to retirada! Mas, enfim, no me parece que o Procpio Dias
  seja homem de se ficar morrendo por ele. E, contudo ele morre por mim. Meu
  corao perdoa-lhe;  o mais que pode fazer. Aceit-lo seria impossvel. J
  reparou nos olhos dele? Tm s vezes uma expresso esquisita, que no vejo nos
  olhos de papai nem nos seus. No gosto dele; no poderia gostar nunca.

Desta vez foi Jorge que
  lhe apertou a mo.

-- Tem razo, disse ele;
  se o no ama deveras est tudo acabado. No lhe digo que ele fosse um noivo
  perfeito; no podia ser; mas aceitvel era. Hoje percebo que entre a senhora e
  ele h alguns contrastes; mas o que  que no concilia o tempo? Esquea o que
  lhe disse a tal respeito; e assentemos no falar mais de semelhante assunto.
  Provavelmente no escreverei nada;  duro dizer a um homem que todas as suas
  esperanas so vs.

-- A paz do meu esprito
  no valer esse sacrifcio?

-- Vale mais; posso
  faz-lo.

Iai refletiu.

-- No, no  preciso;
  no lhe diga nada; ele h de entender tudo.

Como fizessem uma pausa
  longa, viram duas ou trs pessoas, que passavam embaixo, olharem para cima com
  certo ar curioso e indiscreto. Jorge ergueu-se.

-- Estamos dando na
  vista, disse ele; ho de supor que somos dois namorados.

-- Sente-se, disse Iai
  em tom intimativo. E continuou: -- Que perde o senhor com isso? Diro que no
  tem mau gosto em amar uma moa bonita.

-- Se dissessem que
  ramos dois namorados, erravam decerto, porque eu sei... eu suspeito que a
  senhora ama a outro. Uso dos meus direitos de confidente, exigindo que me diga
  a verdade.

-- Toda, respondeu Iai,
  e era esse o ponto grave de que lhe queria falar. Ainda uma vez, o senhor
  estima-me? tem-me amizade sincera?

-- Pois duvida?

-- Eu duvido de tudo e
  de todos; at de mim. Mas enfim, preciso de algum que me oua, a quem eu conte
  o que penso e o que sinto, e at o que receio, porque tambm receio, e h horas
  em que tremo sem saber de qu.  verdade, h ocasies em que me parece que uma
  grande infelicidade vai cair sobre mim, e da a nada penso justamente o
  contrrio; penso que vou receber a maior felicidade do mundo, e fico alegre
  como um passarinho. Coisas de criana, no ?

-- No, coisas de moa.
   certo que ama? a quem?

Iai olhou para ele
  algum tempo, satisfeita da impacincia que parecia ler-lhe na fronte.

-- Respondo que sim e
  que no, disse ela. Se me pergunta a quem amo, digo-lhe que no sei, no amo
  ningum; mas sinto alguma coisa misteriosa e esquisita, e no sei...
  desconfio... no sei que seja. Por que  que as mesmas coisas, que me eram
  indiferentes, agora me parecem interessantes, e at chego a supor que me falam?
  Ainda h pouco, antes de o ver, estava a olhar embebida para o cu, quase sem
  pensar, mas ainda assim curiosa ou ansiosa; olhava para o cu e para o mar; o
  corao apertou-se-me; depois alargou-se-me como se quisesse devorar tudo. H
  dias em que me levanto alegre e viva como uma criana; papai diz que so os
  meus dias azuis. H outros em que tenho vontade de quebrar tudo, e no digo
  mais de duas palavras em cada hora; so os meus dias negros. Ouo s vezes uma
  voz que me fala; penso que  algum e reconheo que a voz  a da minha prpria
  imaginao. Tudo ser imaginao, creio; mas  to novo e to bom! Em todo
  caso, parece-me extraordinrio, e se no  loucura...  verdade, s vezes penso
  que vou ficar doida, e nessas ocasies tenho medo. Ser isso?

-- No, acudiu Jorge,
  no  loucura,  sabedoria,  a grande sabedoria da natureza. Isso que sente
  no ser amor; mas  a necessidade de amar;  o rebate que lhe d o corao.
  Algum vir um dia, e a voz annima que a senhora costuma ouvir, lhe falar
  ento pela boa do homem que o corao lhe apontar.

Iai escutava-o como
  encantada, mas sem olhar para ele. Quando Jorge acabou, fez-se entre ambos uma
  longa pausa. A moa tinha os olhos no horizonte onde as cores da tarde
  desmaiavam rapidamente. Jorge contemplava-a tomado de interesse e at de
  inveja; compreendia os primeiros sobressaltos desse corao em flor, e dizia a
  si mesmo que h sensaes que o tempo leva para no restituir mais.

Iai acordou de suas
  reflexes.

-- Francamente, disse
  ela; o senhor no se ri de mim?

-- Rir? A senhora no me
  conhece. No h que rir de sentimentos sinceros; e seria pagar muito mal a
  confiana de que me d prova. No me julgue um esprito vulgar...

-- Papai faz-lhe muitos
  elogios.

-- H de saber, ou fica
  sabendo que minha natureza simpatiza com o que est acima do comum. A senhora
  vale muito; posso dizer que h dois meses eu ainda a no conhecia...

-- No tente a minha
  vaidade, interrompeu Iai; prefiro que me d um bom conselho.

-- Dou-lhe um, disse
  Jorge depois de curta pausa; resista um pouco a essas sensaes, cujo excesso
  pode perturbar-lhe a existncia. No  s o corao que lhe fala,  tambm a
  imaginao, e a imaginao, se  boa amiga, tem seus dias de infidelidade. D
  um pouco de poesia  vida, mas no caia no romanesco; o romanesco  prfido.
  Eu, que lhe falo, lastimo no ter j essa ordem de sentimentos em flor, e
  contudo no sei se ganharia com eles.

-- Qu! No seria capaz
  de amar?

-- Meu corao no
  envelheceu ainda.

-- Entendo; amaria hoje
  de outro modo...

-- De outro modo, e to
  sinceramente como dantes; um amor de olhos abertos.

-- Penso que o amor
  verdadeiro, ou ao menos o melhor,  o que no v nada em volta de si, e caminha
  direito, resoluto e feliz aonde o leva o corao. Para que servem os olhos
  abertos?

-- A senhora quer saber
  muita coisa, disse Jorge sorrindo. No basta que o corao lhe diga: ame a
  este;  preciso que os olhos aprovem a escolha do corao. Admira-se? Oua-me
  at o fim; eu desejo preserv-la de alguma escolha m. Eleja um marido digno,
  um esprito que a entenda, que a admire, um homem que a possa honrar; no se
  deixe levar dos primeiros olhos que paream responder aos seus...

Iai abaixou a cabea.

-- No acharei nenhuns,
  disse ela; eu creio que este amor morrer comigo...

Como essa idia
  parecesse entristec-la, Jorge sentiu-se tomado de compaixo, ao ver que
  persistia naquela aurora pura uma sombra de superstio romanesca. Pegou-lhe na
  mo, viu-a estremecer, recusar-lha e cruzar os braos.

-- Tem medo de mim?
  disse ele ao cabo e um instante.

-- Tenho.

Jorge calou-se. Com a
  bengala entrou a reproduzir no cho umas reminiscncias de geometria. Sentia-se
  atalhado, curioso, e tanto desejava como lhe custava sair dali. No chegava a
  entend-la claramente; a verdade, quando ia a toc-la, parecia inverossmil.
  Entretanto, Iai no rompia o silncio; tinha a fronte pendida e meditava.
  Talvez meditava na palavra que acabava de proferir, fruto da situao violenta
  em que ela prpria ou os acontecimentos a haviam colocado. Era a rebelio do
  pudor. De quando em quando, sacudia a fronte como a expelir uma idia enfadonha
  ou cruel. Numa dessas vezes, Jorge disse com brandura:

-- Para que neg-lo? a
  senhora padece; no sei se com razo ou sem ela, mas parece padecer muito?

-- Oh! muito!

E dessa vez a palavra
  era to angustiosa, to sincera, to vinda do corao, que ele cedeu antes a um
  impulso de generosidade do que  convenincia de no ser repelido segunda vez.
  Pegou-lhe nas mos e pediu-lhe que fosse at o fim da confiana, dizendo-lhe a
  causa de seus males. Talvez ele pudesse remov-los.

Iai inclinou o rosto
  sobre as mos de Jorge. Este sentiu nelas algumas lgrimas, vertidas sem
  soluos. No passava ningum; mas ele nem teve tempo de refletir na
  possibilidade de um estranho. Inclinou-se tambm e perguntou-lhe afetuosamente
  o que tinha. Iai ergueu a cabea, e enxugou os olhos, mas no respondeu nada.

-- A senhora no tem confiana
  em mim, disse Jorge.

-- H coisas que se no
  fazem, outras que se no dizem; algumas ficaro entre mim e Deus, retorquiu ela
  como se fizesse uma reflexo para si. Depois fitou-o e pediu-lhe a promessa de
  que no diria nada do que acabava de ver e ouvir.

-- Essa promessa no se
  faz; est feita por si. Quanto ao seu segredo, no quero violent-lo, mas tenho
  esperana de que a senhora mesma o h de dizer um dia; eu saberei obter-lhe
  esse resto de confiana que ainda me nega.

-- J! exclamou a moa
  vendo Jorge levantar-se.

--Repare que a noite vem
  caindo; no posso ficar nem mais um minuto. Um confidente tem limites. Olhe;
  no peo muita coisa, mas desejo alguma coisa mais. Confidente  pouco; mestre
  ainda menos. D-me outro ttulo ou cargo; deixe-me ser seu... seu qu? seu...
  seu irmo. Sim?

-- No! disse ela
  energicamente.

Jorge empalideceu, como
  se acabasse de ver o fundo da alma da moa. A negativa era alguma coisa mais do
  que um capricho. No retorquiu; estendeu-lhe a mo.

-- At quando? disse
  ela.

-- At amanh.

Trs minutos depois,
  Jorge estava na rua. A noite descia rpidamente. Ele no olhou para trs; se
  olhasse veria a figura de Iai envolta j na meia sombra do crepsculo. Veria
  mais; v-la-ia refletir um pouco e espalmar a mo no ar, como uma ameaa, na
  direo em que ele ia.

Iai entrou na casa da
  doente.

-- Seu noivo? disse
  esta.

-- J foi.

-- Quando  o casamento?

-- O dia no sei. E
  depois de uma pausa: -- Mas que se h de fazer  certo. Ou eu no sou quem sou.

CAPTULO XIV

Guiando para casa,
  Jorge ia agitado e inquieto; recapitulava a conversao que acabava de ter com
  a filha de Lus Garcia. O acaso propusera-lhe um enigma; o tempo dava-lhe a
  decifrao. Seria a decifrao? O esprito do moo recuava, no dava crdito 
  realidade, pelo menos  realidade aparente; mas esta impunha-se-lhe de quando
  em quando, e Jorge recompunha todas as circunstncias daquelas ltimas semanas
  e ainda dos meses anteriores. Que era a esquivana, a rispidez, a hostilidade
  de Iai, seno a mscara de um sentimento contrrio, a vingana de um corao
  atordoado pelo suposto desdm de outro? Esta reflexo vinha to de molde com os
  fatos dos ltimos tempos, que era difcil achar mais ajustada explicao. Logo
  depois, considerava que seria absurdo atribuir  moa uma ligeireza e um
  desgarre inconciliveis com a prudncia que reconhecia nela, a despeito dos
  assomos de travessura intermitente.

-- Impossvel! disse ele
  sacudindo o ombro.

Mas esse impossvel
  tornava a descer s regies da probabilidade, at galgar os limites da certeza.
  A observao lhe mostrava que Iai tinha a audcia no sangue, e a razo lhe
  dizia que um amor sem freio possui todas as imprudncias e vertigens; que umas
  naturezas so esticas, outras rebeldes; finalmente, que h situaes morais
  incomportveis, e que a uma candura de dezessete anos  lcito no distinguir
  entre o sentimento que fala e a convenincia que restringe. Esta era a
  interpretao benvola; depois vinha a interpretao pessimista. Podia ser que
  todos aqueles atrevimentos encobrissem um clculo, -- o clculo da ambio, que
  intentasse trocar a beleza pelo benefcio de uma posio ostensiva e superior.
  Quando essa suspeita lhe brotou no esprito, Jorge no sentiu diminuir a
  admirao nem a estima; porquanto, a ambio, se ambio havia, parecia ser de
  boa raa. Mas era impossvel combinar o clculo com as lgrimas daquela tarde,
  e ele as sentira quentes, silenciosas, e no podia crer que uma vida quase
  adolescente possusse j a arte da hipocrisia.

No h vida to fsica
  ou to alheia ao sentimento da personalidade, que em tal situao no
  padecesse, ao menos, trinta minutos de insnia. A insnia de Jorge durou mais
  algum tempo. De envolta com as conjeturas havia um pouco de satisfao pessoal.
  A certeza ou a probabilidade de que, sem nenhuma ao prpria, iniciara nos
  mistrios do amor uma alma ainda nova e ingnua, dava ao corao dele alguma
  coisa da volpia do egosmo; sensao que, alis, diminuiu quando lhe ocorreu
  que talvez esse amor obscuro lhe houvesse j custado lgrimas e desesperos. Ele
  tinha razo quando dizia no ser esprito vulgar. Afrouxara-se-lhe o ardor dos
  primeiros tempos, a imaginao tinha o vo mais curto; mas a generosidade
  juvenil ficara intacta, e com ela a faculdade de ressentir as dores alheias.

-- Pobre menina! dizia
  consigo.

No dia seguinte, Jorge
  examinou detidamente se lhe convinha tornar  casa de Lus Garcia, ao menos com
  a assiduidade do costume. A situao moral de Iai tendia a agravar-se com a
  presena contnua dele; em tais casos, a ausncia era um ato de critrio e at
  de misericrdia. Misericrdia foi o que ele disse consigo, e sorriu logo
  depois, com um sorriso de modstia envergonhada. A verdade  que Jorge ansiava
  por l voltar; tinha curiosidade de contemplar a sua obra, agora que a
  descobria ou presumia hav-la descoberto; se no  que a noite lhe trouxera uma
  sombra de dvida, e ele queria verificar definitivamente a realidade.

De noite foi. Lus
  Garcia estava um pouco ansiado e abatido. -- Venha, doutor! disse ele quando viu
  entrar o filho de Valria; este corao  o meu importuno. A mulher procurava
  anim-lo; a filha tinha o terror nos olhos. Jorge auxiliou a famlia no
  trabalho de o confortar; trs quartos de hora depois a molstia cedia, e
  tornava ao trabalho surdo da destruio. Lus Garcia era outro, logo que
  passava uma dessas crises; tornava-se grrulo e risonho, com o fim de reanimar
  ele prprio a famlia, e comunicar-lhe a esperana que lhe comeava a faltar.
  Jorge no se deixou contaminar da iluso; recordou a sentena do mdico e
  sentiu a prxima extino daquele homem. Iai no conhecia a sentena do
  mdico; mas o espetculo da aflio do pai tinha-a prostrado muito. Aparentemente
  no se lembrava da entrevista da vspera; podia at supor-se que, de quando em
  quando, no se lembrava da presena de Jorge.

Jorge achou-a, nos
  subseqentes dias, tal qual era nos outros, menos travessa, porm, e muito mais
  senhora. Ao cabo de uma semana, trazia todos os elementos de convico: --
  Ama-me! pensava ele ao sair dali uma noite. A convico, por mais que a
  suspeita o houvesse prevenido, atordoou o esprito de Jorge, que nessa mesma
  noite resolveu no voltar l; resoluo varonil, que durou quarenta e oito
  horas.

Alguns dias, trs
  semanas, decorreram assim na mais aprazvel familiaridade. Jorge, se no
  obtivera o ttulo, exercia realmente as funes de irmo mais velho; era um
  guia, um conselheiro, uma autoridade. Escutava-a com interesse; recebia a
  confidncia dos sentimentos da moa, e as ambies de um corao cuja sede
  parecia contentar-se da gua que pudesse conter a prpria mo, no primeiro
  arroio do caminho. Ao mesmo tempo, buscava temperar-lhe o romanesco com uma
  forte dose de realidade.

Durante esse tempo,
  nenhuma frase igual s daquela tarde veio sacudir o esprito de Jorge; nenhuma
  lgrima lhe caiu nas mos. Mas, se a palavra no vinha, a voz era insinuante e
  comovida, s vezes; se os olhos no choravam, luziam ou quebravam-se de um modo
  pouco comum. Jorge fingia no compreender; mais do que isso, forcejou por se
  persuadir a si prprio que no compreendia: resultado til, que lhe dava a
  vantagem de saborear em silncio o gozo de se saber amado, sem perder o de
  contemplar uma natureza original, moralmente exuberante e forte, que, alm de
  tudo, tinha para ele a fascinao do mistrio.

No fim daquelas trs
  semanas encontraram-se em casa da paraltica. No houve acordo, mas nada foi
  casual. -- Vou amanh  casa de Maria das Dores, disse Iai uma noite, prestes a
  despedir-se dele. E no outro dia de tarde, Jorge, que havia rareado os passeios
  daqueles ltimos tempos, acertou de caminhar para ali, e com to boa fortuna,
  que achou a moa sentada no mesmo banco de pedra em que lhe falara da primeira
  vez.

Outra vez, quando Iai
  ali voltou, j encontrou Jorge, ao p da enferma. Maria das Dores estava ainda
  mais contente com a honra da visita do que com a esmola que ele
  dissimuladamente lhe levara envolvida em um leno de ramagens. Jorge animava-a,
  dizia-lhe que ainda iriam  Penha naquele ano. Iai parou  porta, espantada e
  contente.

-- Venha, disse a
  enferma, ande ver como seu noivo est caoando com a velha.

-- Agradeo-lhe, disse
  Iai; creia que ela merece todas as consolaes.

Na noite desse dia,
  quando Jorge entrou em casa, um pouco inebriado da entrevista, achou uma carta
  de Procpio Dias, que o encheu de contentamento. Procpio Dias tinha
  necessidade de se demorar ainda uns dois meses. Dois meses! Era a eternidade.
  Jorge sentiu-se confortado com a notcia de to longa ausncia. Que importava a
  presena, se ela o no amava? Essa reflexo no a fez Jorge, mas a filha de
  Lus Garcia, quando ele lhe deu a notcia da carta:

-- Que tenho eu que ele
  esteja ausente ou presente? Ele ou um estranho  a mesma coisa.

A eternidade foi um
  minuto; os dois meses voaram como um tufo. Um dia, no ltimo desses dois
  meses, Iai disse ao filho de Valria que achara enfim um marido.

-- Um marido? repetiu
  Jorge empalidecendo.

-- Parece que um marido.
  No me aprova?

-- Se ainda o no
  conheo.

-- No sei se  um
  marido, continuou Iai depois de um instante; mas achei o homem a quem amo.

--  a mesma coisa.

-- Ou quase.

Houve entre ambos uma
  longa pausa, durante a qual Iai tinha os olhos fitos no moo, enquanto este
  no tinha os seus em parte nenhuma; vagavam de um ponto a outro. Iai repetiu
  que achara um marido.

--  a segunda vez que
  me diz isso, redargiu Jorge com a voz trmula e irritada; se o achou, tanto
  melhor; casar com ele.

-- No me disse uma vez
  que no me deixasse ir com os primeiros olhos que parecessem responder aos
  meus? No me disse que era conveniente escolher um homem...

-- O que eu disse foram
  palavras sem sentido, tornou Jorge; no se do conselhos ao corao que ama. O
  casamento vem talhado do Cu, segundo diz o povo; outros diro que vem do
  acaso; ou  o destino de cada um, ou  uma loteria. A senhora no me pede
  certamente que lhe diga o nmero em que h de sair a sorte grande? Compre o
  bilhete e deixe correr a roda. Alguns dias de pacincia e nada mais...

A excitao de Jorge
  era extraordinria, mas no foi longa. Alguns instantes de silncio bastaram a
  aplac-la ou diminu-la; pelo menos o gesto no traiu a agitao interior. Plido,
  sim, estava plido; mas a voz, se no era firme, perdera a aspereza do primeiro
  instante.

-- Refleti depois da
  nossa conversa, disse ele, e no desejo tomar nenhuma responsabilidade em um
  ato de que depende a felicidade de sua vida.

-- Ento, no me estima,
   o que , disse Iai em voz queixosa.

Jorge respondeu com um
  olhar, e a resposta que ele quisera fosse um simples protesto, transgrediu esse
  limite: foi um protesto, uma queixa e acaso uma interrogao. Iai abaixou os
  olhos; uma onda de sangue lhe avermelhou a face; Jorge viu-a ofegante e
  acanhada durante alguns segundos. No indagou o motivo; ergueu-se para sair.
  Iai reteve-o pela aba do fraque.

-- Nega-me ento todo o
  auxlio? disse ela. Depois de alguns meses de uma vida em que me acostumei a
  ouvir seus conselhos, o senhor recusa-me este. Que lhe fiz eu?

-- Nada.

Jorge saiu. -- Que tenho
  eu que ela ame, que se case ou no se case? Sou eu seu pai? seu tutor? Quando
  assim falava, sentia dentro de si uma resposta; a conscincia desvendava-lhe a
  realidade. Sim, tu amas, dizia-lhe ela, tu no fazes outra coisa h dois meses;
  deixaste-te envolver nos fios invisveis; no sentiste que essa intimidade de
  todos os dias era a gota d'gua que te cavava o corao. Ah! tu querias saciar
  a curiosidade e sair dali sem deixar alguma outra coisa? No se brinca com um
  inimigo; e ela o era, e continuar a s-lo, porque tu ests definitivamente
  atado.

A esta voz importuna e
  verdadeira, Jorge erguia os ombros. Tentou refugiar-se no sono. O sono
  rejeitou-o de si. Ento fumou, desceu  chcara, fatigou o corpo para melhor
  adormecer o esprito; mas a lua que batia no repuxo mostrava-lhe, ora um
  casebre de Santa Teresa, ora uma varanda da Tijuca, como se fossem o verso e o
  anverso da medalha de seu corao, toda a histria da vida que ele vivera at
  ali. A diferena entre uma e outra dessas duas fases  que presentemente o
  desengano no o levaria  guerra, nem lhe daria os desesperos do primeiro dia.
  No; Jorge levantou-se na manh seguinte um pouco atordoado, mas no
  inteiramente abatido. Sentia alguma opresso moral, um desejo de saber quem era
  o adversrio preferido. Merec-la-ia? Que a merecesse, embora; ele tinha um
  direito anterior e superior; desde que a amava, exclua todos os outros.

 fora de pensar naquilo,
  chegou a entrever a realidade; perguntou a si mesmo se a declarao da moa no
  seria antes um estratagema. Podia ser; tinha-a visto corar, inclinar o colo,
  ficar por algum tempo acanhada e comovida. Essa conjetura desabafou-lhe um
  pouco o esprito, e, por isso que era a conjetura da esperana, no tardou em
  transferir-se a evidncia. Relembrou todas as aes de Iai, suas palavras, as
  circunstncias e os termos de reconciliao, as lgrimas sem motivo, a
  pacincia, o interesse, o gosto de o conversar; finalmente, esse qu misterioso
  que divulga a uma alma a preferncia de outra. Quando pouco a pouco lhe
  penetrou no corao essa idia, Jorge reconheceu que havia sido precipitado.
  Queria escrever-lhe e recuou; queria l voltar, mas resolveu o contrrio.

-- Se  um estratagema,
  pensou ele, ela ter nisto o seu castigo; se verdadeiramente ama a outro, que
  vou l fazer agora?

Pensou isto; pensou
  mais; s no pensou em Estela.

Iai no se pde
  conter. Ao cabo de sete dias de ausncia determinou ir ao lugar onde mais de
  uma vez encontrara o filho de Valria.

-- Vai chover, disse
  Lus Garcia; guarda a visita para amanh.

Iai teimou na
  resoluo. --  uma nuvem que passa, disse ela; em saindo a lua ver como o
  tempo fica limpo.

Estava inquieta,
  preocupada, tinha estremecimentos nervosos; no atendeu  segunda observao do
  pai. O pai dizia-lhe que no havia necessidade de desobedecer para realizar um
  capricho. Como repetisse a expresso, Iai ficou plida e no ousou responder;
  mas Estela, que assistia calada aos conselhos de um e  resitncia de outro,
  disse sorrindo  enteada:

-- V; seu pai deixa-a
  ir.

Iai ia agradecer a
  interveno; mas, quando os olhos das duas mulheres se encontraram,detiveram-se
  por um instante longo. Poucos minutos depois chegava a moa  casa de Maria das
  Dores. Despediu Raimundo; a porta estava aberta; entrou. Da sala, onde se
  deteve, ouviu noutra sala interior a voz de Jorge.

-- No se esquea; h de
  entregar-lhe isto, quando ela vier; no mande l  casa;  um livro.

Iai entrou.

-- No contava comigo?
  disse ela.

-- No; por isso
  deixava-lhe este livro, respondeu Jorge tirando o embrulho  doente e
  entregando-o  moa;  um romance, creio que lhe falei nele uma vez.

Iai tomou-lhe o livro,
  abriu-o, folheou-o com sofreguido, como certa de achar uma pgina marcada.
  Estava marcada uma pgina, e a marca era um bilhete. Abriu-o; dizia assim: "A
  senhora deu-me uma vez um ttulo que eu esperei viesse a ser verdadeiro. Diga
  se me enganei, se o Cu lhe destinou outro noivo, ou se meu corao pode ter
  ainda uma esperana. No lhe custar muito; no custa muito uma simples
  palavra."

Enquanto ela lia
  rapidamente estas linhas, e tornava-as a ler, Jorge afastou-se at  sala da
  frente. A carta era das que no permitem a presena do autor; precisam do
  prestgio da ausncia; so, para assim dizer, expresses truncadas que a
  imaginao perfaz e amplia. Jorge ia a sair, quando ouviu o rumor dos passos de
  Iai; deteve-se a esperar a resposta. A moa parou diante dele, e entre ambos
  houve um momento de silncio e hesitao.

-- Cego! disse enfim
  Iai estendendo-lhe as mos com um ar de simplicidade e confiana.

Jorge recebeu-as nas
  suas, e a linguagem que a alma no quis confiar do lbio do homem, eles a
  disseram com os olhos, durante alguns minutos largos. Jorge perguntou
  finalmente: --  certo? ama-me? -- Iai cingiu-lhe o pescoo com os braos e
  inclinou a cabea com um gesto de submisso. Jorge inclinou-se tambm, e nos
  cabelos, -- nos fios de cabelo, que lhe pendiam na testa, pousou o mais puro e
  fugitivo dos beijos. Ao contato daquele lbio, Iai enrubesceu e estremeceu
  toda; mas no fugiu, no retirou os braos; deixou-se ficar subjugada e feliz.

Homero conta que Vnus,
  descendo ao campo da batalha entre gregos e troianos, saiu dali ferida e
  ensangentada. Iai teve a sorte da diva homrica; interpondo-se entre Jorge e
  Estela trouxe dali ferido o corao. Naquele espao de alguns meses, obra de
  pacincia e luta, de violncia e simulao, para a qual fizera convergir todas
  as foras morais, no suspeitou que, vencendo ao outro, podia vencer-se a si
  mesma. Queria ser uma barreira entre o passado e o presente, sem cogitar na
  dificuldade do plano, nem nas conseqncias possveis dele. Sobretudo, no
  pensou na moralidade da ao. Que podia ela saber disto? A suspeita ia at
  admitir a persistncia do amor no corao da madrasta, mas no lhe atribua
  mais do que uma aspirao ou saudade silenciosa; no sabia mais. Para combater
  esse inimigo inerte,  que ps em campo a poro de astcia que a natureza lhe
  dera, as graas do rosto e a rara penetrao de esprito.

Iai transps a soleira
  e saiu; precisava de ar, de espao, de luz; a alma cobiava um imenso banho de
  azul e ouro, e a tarde esperava-a trajada de suas prpuras mais belas. Jorge
  acompanhou-a; a comoo dele era sincera e forte, mas menos intensa, menos
  desvairada que a de Iai, cujos olhos pareciam dizer a tudo o que a rodeava,
  desde o sol poente at ao ltimo grelo de capim: -- olhai, vede as bodas do meu
  corao; este  o meu amado.

Perto da noite,
  Raimundo veio busc-la; Jorge acompanhou-a. Iai lembrou-se de traar com um
  grampo, no musgo que reveste o aqueduto, o nome de Jorge e a data; instando com
  ele, Jorge escreveu tambm o nome dela. Raimundo sorria entre dentes. Em
  caminho falaram do presente e do futuro; , num intervalo, tocaram levemente no
  passado.

-- Sabe que eu tinha um desgostozinho?
  disse Iai. Jorge interrogou-a com os olhos. --  verdade, um capricho,
  continuou ela. Quisera que o senhor nunca tivesse gostado de outra pessoa, e 
  bem possvel que no seja este o primeiro amor de seu corao.

-- No , respondeu
  Jorge depois de um instante de reflexo. Amei uma vez, h muito tempo; mas todo
  esse passado acabou.

-- Est certo de que
  acabou?

-- Criana! Que noiva
  receou nunca de um amor antigo, comeado e acabado, antes dela ser amada
  tambm? Que o novo amor seja sincero e fiel, eis o que se deve pedir e exigir.
  Quanto ao passado,  como os defuntos; reza-se por ele, quando se reza.

-- Tenho medo de almas
  de outro mundo, tornou Iai sorrindo.

Iai mostrou-se to
  expansiva naquela noite e nos seguintes dias, derramou de tal modo a vida que a
  enchia que Estela compreendeu tudo o que se passava entre a enteada e Jorge. H
  uns amores, alis verdadeiros, a que precedem muitas contrafaes; primeiro que
  a alma os sinta, tem despendido a virgindade em sensaes nfimas. Iai ignorava
  tudo; no soletrara o amor, aprendera-o de um lance. Trazia o corao intacto.
  Seu acordar foi uma aurora sbita, mas rutilante e lmpida. No meio da
  embriaguez que lhe dava o novo sentimento, no cogitou nas possveis
  conseqncias dele; no perguntou a si prpria se era verdade que no corao da
  madrasta havia uma saudade ou uma esperana silenciosa, e se isso podia ser a
  raiz de largos dios e dissenses domsticas. No interrogou o futuro. Fenmeno
  curioso! A lembrana do pai foi por um instante esquecida; o egosmo do amor
  devorou-a.

CAPTULO XV

A fronte de Estela no
  tinha a tristeza dos vencidos. O amor persistia no corao, como um mau
  hspede; e o espetculo daqueles ltimos meses no fizera mais do que
  irrit-lo. Mas a fora moral de Estela subjugou-o. A luta fora longa, violenta
  e cruel; a conscincia do dever e o respeito de si prpria acabaram vencendo.
  Talvez no fosse difcil perceber, por baixo da serenidade do rosto, o cansao
  que deixam as grandes tempestades morais. A tempestade ningum lha viu.

No obstante, no dia em
  que a paixo dos dois lhe pareceu evidente, Estela sentiu rugir-lhe no corao
  um vento de clera; vento forte e instantneo. Dessa vez, o olhar penetrante de
  Iai no pde ler no fundo da alma da madrasta; e porventura lhe diminuiu a
  suspeita, quando a viu contemplar sem irritao nem abatimento a situao
  nascida de seu esforo nico.

Entretanto, a molstia,
  que solapava a existncia de Lus Garcia, agravou-se por aquele tempo, e o
  enfermo foi compelido a pedir alguns meses de licena. Chamado a v-lo, o
  mdico reconheceu que a enfermidade tocava ao desenlace, e com a enfermidade a
  vida. No o disse  famlia, mas no o escondeu de Jorge, quando este
  diretamente lho perguntou.

-- Est condenado 
  morte, disse ele; a molstia devorou-o lentamente, mas com segurana. Pode
  viver dois a trs meses.

Jorge ficou aterrado.
  Os acontecimentos tinham tomado tal feio, que ele j pedia a vida de Lus
  Garcia. Quem lho dissera alguns anos antes? No somente padeceria com a morte
  do enfermo, mas teria de ver padecer Iai, de cuja adorao filial era
  testemunha, e chegava a recear que o golpe lhe fosse fatal. Nada disse; afetou
  tranqilidade e indiferena, mas entendeu que os sucessos o designavam a
  proteger a famlia e dispunha-se a assumir esse papel, quando fosse ocasio.

Estela no receou menos
  do que na molstia anterior; mas dessa vez no interrogou Jorge, conquanto o
  visse falar ao mdico. Nos ltimos tempos, o seu silncio era mais contnuo e
  habitual. Parecia desinteressada de tudo, menos do marido. Suspeitou da
  gravidade da molstia, interrogou o mdico, e ouviu deste palavras de
  esperana:

-- No lhe peo
  esperanas ilusrias, disse Estela; peo-lhe que me diga toda a verdade.

-- A verdade  cruel de
  dizer.

-- Perdido? disse ela
  com voz surda.

O silncio do mdico
  foi a confirmao daquela palavra. Estela sentiu fugir-lhe todo o sangue, mas
  no soltou uma lgrima. Pde refletir no perigo de ser vista essa denncia do
  mal, e dominou-se. Quando se achou s consigo, deu livre campo s angstias;
  encarou a catstrofe e pensou nas conseqncias da morte e no incerto futuro
  que a aguardava dentro de poucos dias. O futuro trouxe-a ao presente, o
  presente levou-a ao passado. A vida s lhe dera alegrias mdias e dores
  mximas. No foi a paixo que a levou ao casamento, mas somente a convenincia
  e o raciocnio. No casamento achara os sentimentos de apreo, a mtua
  considerao, a brandura das relaes domsticas; esse fogo, porm, cuja
  intensidade no dura, mas que  o frvido sol dos primeiros dias, precursor
  necessrio da tarde repousada e da noite tranqila, esse fogo, essa fuso de
  duas existncias, esse ardor expansivo, condio de sua natureza moral, no os
  conheceu Estela. Ou o destino ou o orgulho privou-a de achar no casamento a
  paixo santificada. Pois bem, se alguma coisa podia compensar-lhe a falta, era
  a longa durao de uma felicidade segura, embora tbia; era envelhecer sob a
  monotonia de um horizonte sem sol nem tempestade. O destino negava-lhe a
  compensao.

No tinha Estela ao p
  de si com quem repartisse as tristezas. O pai seria o ltimo de todos. A viuvez
  deix-la-ia sem famlia. Esta idia trouxe outra, -- a de apressar o casamento
  da enteada, de modo que nenhum vnculo moral lhe sobrevivesse ao marido. Uma
  noite, tendo Lus Garcia adormecido, Estela deu a perceber  enteada que o
  estado do pai era grave. Iai empalideceu. Jorge fez um gesto de reprovao.

-- A molstia no  leve
  decerto, disse este; mas no se segue da que se deva...

-- Tudo se deve prever,
  tornou Estela. Pela minha parte, entendo que prevenir um caso fatal no  fazer
  com que ele se d. Iai sabe o amor que lhe tem seu pai; seria para ele uma
  fortuna poder abeno-la. Vamos l, continuou ela, pegando nas mos de um e de
  outro, por que  que se no casam?

Momentaneamente
  acanhados, nenhum deles assentiu nem recusou. Iai olhava espantada para a
  madrasta.

-- O silncio  uma
  maneira de responder, continuou esta; querem dizer que concordam comigo, no ?
  Nesse caso, seremos trs para fazer a coisa mais simples do mundo, que  casar
  duas criaturas, que se amam. . . Por que no a pede o senhor amanh? O
  casamento pode ser feito dentro de poucos dias,  capucha, coisa simples...

Iai tinha enfim sado
  do primeiro instante de estupefao. -- Mas papai est mal? disse ela.

-- Todos ns estamos
  mal, apesar de termos sade, respondeu Estela; num dia cai a casa. A doena
  dele  grave,  corao...

-- Tem razo, interveio
  Jorge; podemos concluir tudo em poucos dias, duas semanas, quando muito, ou
  trs.

Jorge no ficou pouco
  impressionado da interveno de Estela. Conhecendo os sentimentos que a
  distinguiam, admirava essa impassibilidade moral que esquecia ou fingia
  esquecer. Depois examinou-se a si prprio; sentiu que o amor que o dominava
  agora, posto fosse profundo, no era violento, no lhe queimava o corao.
  Comparou-se ao que tinha sido, e esse cotejo, no primeiro instante, no foi
  importuno; foi antes lio e filosofia. Mentalmente sorriu. Era ele o mesmo
  homem? Outrora caminhara resoluto s solues trgicas; agora, com igual
  sinceridade, entregava o corao a outra mulher. Na fronte desta mal ousara
  roar um sculo medroso e casto, ele, que fizera a cena da Tijuca. O homem no
  era o mesmo. Embora a iseno presente, Jorge experimentou um pouco da
  nostalgia do passado; sorria sem amargura, mas com um travo de melancolia.

-- Aquele orgulho 
  ainda maior do que eu pensava, dizia ele.

No dia seguinte,
  Procpio Dias veio acord-lo em casa.

-- Quando chegou?
  perguntou Jorge.

-- Ontem de tarde. A
  primeira visita que fao  esta. Demorei-me mais do que queria; mas enfim c
  estou, -- c estou, e mais magro. O senhor  que me parece mais gordo.

Procpio Dias falou
  compridamente da poltica argentina e da magistratura de Buenos Aires; falou
  tambm um pouco das mulheres platinas. De quando em quando, abria um claro,
  como para deixar que o outro intercalasse alguma coisa menos estrangeira;
  Jorge, porm falava pouco e sem apetite; o constrangimento dele foi visvel
  quando Procpio Dias o interrogou acerca da famlia de Lus Garcia;
  respondeu-lhe sem interesse. Procpio Dias fitou-o durante alguns segundos; as
  rugas da testa engrossaram-se-lhe extraordinariamente.

-- E Iai? disse ele;
  parece-lhe ento que nenhuma esperana...

Fez uma pausa; Jorge
  preencheu-a com um sorriso descorado, mas assaz explicativo. Procpio Dias
  comeou a farejar a realidade, mas nenhuma das linhas do rosto denunciou a
  impresso que esta lhe causara. Aps um silncio largo, entrou a rir de bom
  humor.

-- Quer que lhe diga uma
  coisa? perguntou ele. Saiba que volto curado. Quando penso na molstia tenho
  vergonha;  verdade, tenho vergonha da figura que fiz. J sou muito maduro para
  cavalarias altas. A doena ainda me durou algum tempo; sarei com a mudana de
  clima; o amor, ao menos na minha idade,  uma espcie de beribri. H de ter-se
  rido de mim;  justo, porque eu no fao hoje outra coisa.

Jorge contestou com um
  simples gesto; mas Procpio Dias falava com tanta naturalidade, ria com tamanha
  franqueza, que a explicao deu  conversa a vida que ela tendia a perder;
  Jorge foi mais expansivo, mais alegre; no lhe confiou a nova situao, mas o
  segredo parecia debruar-se-lhe das plpebras e dos cantos da boca. Essa
  alegria era um respiro da conscincia, que se sentia um pouco vexada em
  presena daquele homem, cuja confiana fora a origem de seu recente amor; era
  tambm a satisfao de no ter conseguido lig-lo  filha de Lus Garcia;
  consrcio repugnante, hbrido, cujo resultado seria dar  moa uma longa
  amargura sem certeza de resgate.

Quando Procpio Dias
  saiu dali ia suspeitoso da realidade. -- Mas a outra? dizia ele consigo. Sacudiu
  os ombros, e no ficou mais tranqilo. Levava j no peito um pouco de
  impacincia e irritao; tinha a fronte obscurecida por uma nuvem. Mais tarde
  alumiou-a um claro sbito, ainda que frouxo; era um reflexo de esperana.
  Talvez houvesse julgado com precipitao: era possvel atribuir a reserva de
  Jorge, no  competncia pessoal, mas a uma maneira de entender as mximas do
  decoro. Quem sabe? Ele podia ter-se arrependido de haver prometido tanto. Essa
  reflexo arejou um pouco o esprito, sem lhe tirar de l o miasma corruptor.
  Era fora conhecer a verdade. Nesse mesmo dia, foi ele a Santa Teresa.

Lus Garcia concedera
  naquela manh a mo da filha. Na ocasio em que Procpio Dias ali entrou,
  tinha-a ele ao p de si, e contemplava-a com amor e saudade, -- duas vezes
  saudade, porque tambm a morte os viria desunir. Entre si recordava os tempos
  em que ele e ela eram, um para o outro, toda a Terra e todo o Cu; e perguntava
   natureza se era justo sobrepor ao primeiro vnculo outro vnculo estranho, e
  a natureza lhe respondia que no somente era justo, mas at necessrio. Ento o
  pai sentia-se feliz com a felicidade da filha, cujo egosmo lhe ensinava a
  abnegao. Se ela devia amar a outrem, que faria ele mais do que ceder? Quanto
  ao noivo eleito, merecia-lhe todas as aprovaes; era o nico estranho que lhe
  penetrara um pouco mais na intimidade; amante, benquisto e opulento, podia dar
   moa, alm da felicidade do corao, todas as vantagens sociais, ainda
  as mais slidas, ainda as mais frvolas: -- e esse homem obscuro, enfastiado e
  ctico, saboreava a ventura que a filha iria achar no turbilho das coisas, que
  ele no cobiara nunca.

Uma noite bastou a
  Procpio Dias para conhecer a situao. No obstante as declaraes do
  pretendente, que aceitou como sinceras, Jorge buscou dissimul-la. Se Procpio
  Dias no tornasse a ver a moa,  possvel que o tempo lhe abafasse a paixo.
  Mas viu-a, e viu-a mais bela do que a deixara.

-- E a outra? dizia ele.

Dessa vez a pergunta
  no passou vagamente; trouxe uma idia consigo, diante da qual Procpio Dias
  chegou a recuar. Essa idia era envenenar na prpria origem a afeio recente;
  nada menos que denunciar a madrasta  enteada. Se alguma coisa pudesse atenuar
  a perversidade de semelhante recurso, era a persuaso que ele tinha de que
  diria a verdade. Cria deveras no amor secreto dos dois; com algum esforo
  poderia fazer supor que o casamento da filha de Lus Garcia era uma sugesto da
  madrasta. Ele prprio achava essa combinao verossmil, conveniente,
  reparadora.

-- Magano! a duas
  amarras! dizia o pretendente em tom surdo.

A ocasio veio. Um
  pouco irritada com a assiduidade de Procpio Dias e a confiana que parecia
  renascer nele, Iai assentou de lhe dizer francamente que estava prestes a
  casar. Procpio Dias empalideceu. Supunha apenas provvel o que era j
  definitivo. Olhou longamente para ela; a extino da esperana no implicava a
  extino do desejo; pelo contrrio, vinha pungi-lo e aul-lo. Seus olhos
  mostraram ento duas expresses diversas; a primeira involuntria, a mesma com
  que os dois velhos de Israel espreitavam a filha de Helcias, um olhar terreno e
  mau; a segunda voluntria, no de queixa, no de splica, mas de lstima. A
  idia ruim tornava arder-lhe no crebro.

-- No sabia, disse ele,
  depois de curta pausa. Com quem?

-- Com o Dr. Jorge.

-- Ah!

Procpio Dias riu com a
  testa, e tornou a deitar-lhe um olhar de lstima. -- Pobre moa! murmurou ele
  entre dentes. Iai fitou-o severamente; depois sorriu e perguntou com alguma
  ironia:

-- No aprova a escolha?

-- A escolha  excelente,
  disse ele; mas h circunstncias que fazem do timo pssimo. Oua-me: a senhora
  sabe que eu a amei; supe talvez que j no a amo e engana-se; amo-a como no
  primeiro dia. Tive idia de casar com a senhora; perdi a idia, mas guardei o
  sentimento. Talvez isso lhe diminua a sinceridade das minhas palavras; mas eu
  cedo  voz da conscincia, sem calcular com a sua aprovao...

Fez uma pausa.

-- Acabe, disse a moa.

H coisas que um
  corao inexperiente no pode entender; coisas que talvez se lhe no devam
  referir. Quer um conselho? no aceite o casamento; desfaa-o, no para casar
  comigo, mas desfaa-o.

Iai fez-se plida.
  Procpio Dias, pasmado do prprio arrojo, compreendeu que havia ido muito longe
  naquelas poucas palavras; mas j no havia meio de as explicar de modo
  verossmil. Como se fizesse um monlogo interior, abanava a cabea ou levantava
  a ponta do lbio, enquanto os olhos, perdidos no ar, tinham o aspecto vtreo
  das fortes concentraes. Iai olhou para ele atnita e confusa: no sabia o que
  pensasse, no podia ou no queria entender. Afinal, coligindo todas as foras,
  perguntou audazmente por que motivo lhe cumpria desfazer o casamento.

-- Qualquer que seja o
  motivo, disse ele, no lhe aconselho que o aceite logo como decisivo. Reflita
  antes de resolver; a responsabilidade ser sua, do mesmo modo que o benefcio
  h de ser seu. Meu conselho  que o desfaa. Porque muitas vezes o casamento
  ...  uma mscara, uma... Seu noivo ama a outra pessoa... Que tem?

Iai fizera-se lvida.
  Terror, indignao, abatimento, sua alma passou por todos esses estados,
  padeceu-os at simultaneamente, sem que a que a boca achasse uma s palavra de
  resposta ou de protesto. A delao fulminara-a; nunca Procpio Dias chegou a
  compreender o motivo de tamanho e to sbito efeito. O efeito aterrou-o em
  parte, e em parte o consternou; alguma fibra lhe ficara intacta, no meio da
  decomposio moral de todo o seu ser, essa bastou a ressentir o golpe que ele
  mesmo vibrara.

-- Outra... Que outra?
  balbuciou Iai segurando-lhe um dos braos.

Procpio Dias abanou a
  cabea solenemente, como a dizer que no podia ir mais longe. A esse gesto
  seguiu-se um silncio largo, durante o qual a moa pde vencer a primeira
  comoo e refletir sobre o que lhe convinha entender.

-- Ama a outra? disse
  ela. Quem quer que seja essa rival, j agora o noivo  meu; e  natural que me
  ame mais do que a ela, visto que prefere casar comigo...

No obstante a firmeza
  que procurava dar  palavra, a palavra era difcil e a voz parecia morrer-lhe
  na garganta. Procpio Dias compreendeu que a comoo estava apenas dominada, e
  que o veneno penetrara abaixo da epiderme. Era a primeira vez que lhe via esse
  aspecto dolorido; antes de embarcar, conhecia-a menina caprichosa; depois do
  regresso, achou-a senhora refletida; naquela ocasio, a dor, oculta embora,
  como que lhe dava um encanto mais. Efetivamente o rosto de Iai traa o estado
  do corao; os olhos no correspondiam ao esforo que ela fazia para os fixar.

-- Se lhe parece,
  esquea o meu conselho, disse ele, e no me leve a mal se lhe preguei um susto.
  Talvez o susto haja passado. No importa; creia que h casamentos impossveis;
  casamentos destinados a... no sei a que... pode ser que a coisa nenhuma... ou
  a coisa muito grave, muito grave.

-- Cale-se! rugiu
  surdamente a moa.

Procpio Dias
  continuou:

-- Uma s palavra, disse
  ele. H de atribuir ao despeito o aviso que lhe dei.  verdade; h uma grande
  poro de despeito em mim. Por que lhe falaria eu, se no tivesse um motivo
  pessoal? Esse homem traiu-me; eu tinha-lhe confiado o depsito do meu amor; ele
  abusou da confiana: fez-se amado em meu lugar. No me queixo da senhora. A
  senhora no me devia nada; -- um pouco de simpatia, talvez; -- no futuro, pode
  ser que me deva tambm um pouco de gratido.

Procpio Dias saiu logo
  depois destas palavras. Estava satisfeito; desde que pde formular em um ou
  dois raciocnios o sentimento oculto que o fazia agir, achou nele a
  legitimidade de tudo o que acabava de dizer. Era um duelo; recebera um golpe na
  espdua, respondia com outro no corao, mais certeiro e provavelmente mortal;
  e se no era duelo, era emboscada por emboscada; direito de represlia.

Prostrada com o golpe
  que acabava de receber, Iai no teve sequer as lgrimas do desespero nem as da
  indignao. H dores secas, como h cleras mudas. A suspeita, que o tempo
  devia carcomer de todo, e que o amor de Jorge ia j tornando problemtica, essa
  ruim suspeita renascia to vivaz e pertinaz como alguns meses antes, quando
  arrancou aos olhos de Iai as primeiras lgrimas de mulher. No podia crer que
  o amor de Jorge no fosse sincero; era-o; parecia-o, ao menos. Mas a existncia
  do outro amor, no era j o corao que lho dizia, era uma voz estranha que a
  vinha delatar: circunstncia nova, que fazia convalescer a dvida anterior, at
  o ponto de lhe dar todos os visos da realidade. Iai sentia-se arrojada outra
  vez ao vasto e escuro espao de suas antigas cogitaes; -- erma, desamparada de
  toda proteo humana, no lhe restava mais que duvidar e gemer, at achar na
  prpria ductilidade de seu esprito a fora que lhe no podia dar nenhuma
  origem exterior.

A madrasta foi ter com
  ela meia hora depois de sair Procpio Dias. Pouco antes, o marido tivera
  tamanha aflio, que Estela chegou a recear o ltimo golpe; agora ficava
  prostrado. Estela apareceu  enteada com o olhar ainda assustado e o passo mal
  seguro; Iai no viu essa mudana, nem ouviu as primeiras palavras com que ela
  lhe falou do pai. Olhava s, enquanto o corao parecia querer despedaar-lhe a
  arca do peito.

-- Iai, ande ter com
  seu pai; seu pai est hoje muito doente.

Vendo que a moa no se
  movia. Estela lanou-lhe o brao  roda da cintura. --Vamos, disse. Iai
  estremeceu toda; depois, me tendo-lhe as mos nos ombros, empurrou-a
  violentamente e caminhou para a porta.

-- Iai! bradou a
  madrasta.

A enteada voltou-se, e,
  estendendo o dedo sobre os lbios, imps-lhe silncio. O olhar desvairado e
  incnscio parecia antes de loucura que de indignao. Estela ficou estupefata.

Lus Garcia foi o lao
  que ainda pde conservar atadas essas duas existncias, j agora antipticas
  uma  outra. A vida dele era necessria a ambas. Uma punha nela todas as
  esperanas de um corao crdulo; outra apenas lhe dava aquela poro ltima,
  que no desampara os necessitados. Trguas houve, mas sombrias e violentas. No
  se falavam as duas, no trocavam um s olhar na ausncia de Lus Garcia; diante
  dele, mostravam-se como dantes. Esta situao incomportvel parecia, alis,
  definitiva.

Jorge percebeu-a; ele
  prprio sentiu a princpio o efeito de um acontecimento, que no podia
  adivinhar e necessariamente era grave. Iai, porm, venceu-se depressa em
  relao a ele. A alma, se o vento lha fizera dobrar, para logo retomou a
  posio dos outros dias; mostrou-se terna com ele, afvel, impaciente de
  concluir o casamento. Um s pensamento influa nela: confiscar aquele homem,
  arrast-lo consigo, domin-lo depois, despedaar de uma vez o lao que supunha
  at-lo ao corao da madrasta.

Marcou-se um sbado para
  o casamento; mas os primeiros dias da semana foram de to mau agouro, que a
  famlia resolveu diferi-lo para melhor ocasio. O enfermo piorou rapidamente. A
  molstia entrou no ltimo perodo.

Iai viu morrer
  tristemente o sol do sbado, e no viu nascer mais aprazivelmente o de domingo.
  No pensava ainda na morte do pai, mas alguma coisa lhe fazia tremer o corao.
  A presena de Jorge  que lhe dava nimo e conforto, posto que ele prprio se
  sentisse apreensivo com o desenlace prximo da enfermidade de Lus Garcia.

Lenta e caprichosa nos
  primeiros tempos, a enfermidade teve rpido e inflexvel o perodo ltimo. No
  fim de poucos dias a morte foi declarada iminente. Estela, no obstante
  achar-se preparada para o golpe, mal pde resistir ao primeiro abalo. Iai
  ficou como doida. O pai fora a sua primeira e contnua adorao. Durante alguns
  anos no conheceu outro mundo, outro afeto, outra famlia, alm daquele homem
  grave e terno, cujos olhos a protegiam e alumiavam. No primeiro instante no
  pde crer na triste nova. Mas a realidade avultou a seus olhos, e foi ento que
  a alma tentou romper todos os elos e voar, antes dele, a esper-lo na imensa
  vastido azul, para empreenderem juntos a derradeira viagem. No chorou nas
  primeiras horas; a dor trancara-lhe as lgrimas; mas estas vieram logo depois,
  e ela as verteu em silncio, sufocando os soluos, estorcendo-se na solido da
  alcova.

Lus Garcia reiterou a
  Jorge o pedido que lhe fizera uma vez, em relao  famlia; mas agora
  restringia-o a Estela.

-- Peo-lhe que no
  desampare os meus. Sei que morro, e quero ter a certeza de que s deixo algumas
  saudades. O senhor vai casar com minha filha; nada me inquieta a este respeito.
  Mas Estela, que no  me de Iai, ou  somente me de corao, Estela vai
  ficar s, e eu no quisera morrer com a idia de que a deixo infeliz.
  Promete-me que no a desamparar nunca?

Jorge prometeu. Estela,
  que estava presente, procurou tranqilizar o enfermo, e pediu-lhe que no
  falasse tanto. Lus Garcia no atendeu; exaltou as virtudes da mulher, a
  dedicao, o zelo, a afeio que lhe tinha.

-- Digo-lhe que fui
  feliz, concluiu ele; minha alma era j velha, quando a dela se lhe uniu, e,
  contudo... sim, minha alma rejuvenesceu um pouco...

-- J tem falado muito,
  interrompeu Estela, descanse, no quero que diga mais nada.

Lus Garcia pediu ainda
   mulher e  filha que se amassem como at ali. Tinha falado excessivamente;
  ficara abatido. Dali em diante, a morte no fez mais do que apoderar-se, trecho
  a trecho, da sua vtima. J a noite desse dia foi mais cruel que as anteriores;
  todo o seguinte dia foi de angstia para as duas mulheres. Na manh do outro
  comeou a agonia dele, que durou algumas horas.

Ao v-lo morrer, as
  duas mulheres ficaram longo tempo prostradas. Era a primeira vez que
  contemplavam a morte. Nenhuma delas vira nunca expirar uma s criatura humana,
  e a primeira que a seus olhos se despedia da vida representava para elas largos
  anos de afeio terna e profunda, e o mais forte lao moral que as ligava uma a
  outra. Nesse instante solene, abraaram-se sem reflexo; a dor impeliu-as com a
  mo de ferro, e madrasta e enteada confundiram ali suas nobres, tristes e
  inteis lgrimas.

Aos ps da cama, com o
  gesto dolorido, Jorge via a aflio das duas mulheres, sem lhes poder nem
  querer valer. Quanto a Raimundo, no pde ver expirar o senhor; correu ao
  jardim, onde ficou longo tempo sentado no cho, com a cabea encanecida entre
  os joelhos, sacudida pela violncia dos soluos.

CAPTULO XVI

A morte de Lus Garcia
  foi uma complicao mais. Passados os primeiros dois meses, Jorge pensou em
  realizar o casamento, sem aparato, como um simples ato de interesse domstico,
  alis necessrio pela situao em que se achavam as duas senhoras. O Sr.
  Antunes fora morar com elas, e era o chefe natural da famlia; mas Jorge no
  esquecera que Lus Garcia nenhuma confiana tinha na pessoa do sogro; demais,
  entregara diretamente a Jorge a chefia da casa. Ora, cumpria legalizar e
  santificar a designao do moribundo.

Mas, se isto lhe
  parecia claro e necessrio, no se atrevia ainda assim prop-lo  noiva, e por
  duas razes. A primeira era o natural respeito  dor da filha, que ele podia
  magoar ainda mais falando-lhe desde logo no casamento. Era a segunda a frieza e
  o silncio com que esta o tratava depois da morte do pai. A diferena era
  positiva e inexplicvel; mas a boa-f explica tudo, e Jorge atribuiu essa nova
  feio da moa ao profundo golpe que o desastre lhe desfechara. Sabia da paixo
  filial de Iai; era testemunha dessa adorao constante, que parecia contar com
  a eternidade da vida.

A idia de falar a
  Estela apenas lhe passou pela mente; rejeitou-a sem esforo. Limitou-se a
  esperar, e ia ali com a assiduidade que lhe permitia a condio de noivo. Ia s
  noites, no todas; passava uma ou duas horas, a atar e desatar uma conversao
  frouxa, muita vez sem interesse. Sobre todos trs, mas principalmente sobre as
  duas, pesava ainda a lembrana do finado. O Sr. Antunes tomava parte nessas
  conversaes ntimas, e era ele quem forcejava por lhes dar a perdida animao;
  temperava-a com algum dito folgazo, ouvido com indiferena, quando no com
  tdio. Posto que o casamento de Jorge com a enteada da filha estivesse tratado,
  ele nutria a esperana de que alguma coisa o viria desfazer, e nessa carta
  incerta jogava todo o futuro.

Uma noite, Jorge props
  diretamente a Iai a necessidade de apressar o casamento.

-- No sendo a cerimnia
  pblica, disse ele, no daremos que falar aos outros, se alguma coisa h que
  falar...

-- Quer a minha resposta
  hoje mesmo? interrompeu Iai.

-- Podia ser hoje.

-- Estela, que estava
  presente, apoiou a reflexo de Jorge. -- Convm decidir quanto antes, disse ela;
  no vale a pena deixar passar mais tempo sem utilidade.

-- Sem utilidade,
  repetiu Iai olhando para o teto.

-- Decerto...

Iai baixou os olhos
  aos dois; fitou-os a um e outro, longo tempo, com severidade; depois, retorquiu
  em tom rspido:

-- Deixem ao menos o
  tempo de chorar meu pai!

Jorge proferiu algumas
  palavras de afeio; Estela no protestou nem retorquiu: ergueu-se
  silenciosamente e deixou-os. O silncio foi longo. Jorge no tomara  m parte
  a splica da noiva; atribuiu-a ao sentimento de piedade filial, que era nela
  mais forte que qualquer outro.

-- Iai, disse ele,
  ningum lhe nega o direito de chorar seu pai; se insistimos  em benefcio da
  famlia. Seu pai recomendou-me que olhasse pelos seus, e eu quisera poder
  faz-lo, no como estranho, mas como parente; por isso lembrei a convenincia
  de realizar o casamento quanto antes, mas se lhe parece que pode ser adiado...

-- Pode.

-- At quando?

-- At um dia.

-- Que dia?

-- Sbado de Aleluia,
  por exemplo.

-- Falemos srio, disse
  Jorge.

-- Srio? Dia de So
  Nunca.

Jorge franziu a testa.

-- Que quer isso dizer?
  Retira a sua palavra? Em todo o caso, tinha direito de saber o motivo, porque
  algum motivo h de haver. . .

Iai tinha-se
  levantado, pegou-lhe na mo e levou-o at  janela. O transtorno das feies
  era visvel; os olhos luziam de impacincia, enquanto a palavra parecia medrosa
  e recalcitrante. Pasmado do que via, e curioso do que ela lhe iria dizer, Jorge
  no pensou sequer em a aquietar; se lhe pegou nas mos foi por um movimento
  instintivo; mas quando as sentiu geladas e trmulas ficou aterrado.

-- Que tem, Iai? Voc
  padece; vamos, fale, diga-me tudo. J me no ama?

-- Se o no amo! disse
  vivamente a moa deitando os olhos ao cu, como a tom-lo por testemunha da
  sinceridade de seu corao; mas logo depois arrependeu-se e continuou de um
  modo compassado e frio. -- Amei-o; no importa saber se muito ou pouco, mas
  amei-o. O senhor foi a primeira pessoa que me fez bater o corao de um modo
  diferente do que ele batia; foi a primeira pessoa que me disse palavras novas,
  que me fizeram bem...

Jorge lanou-lhe o
  brao  cintura e conchegou-a ao corao. -- Pois sim, disse ele; eu repetirei
  essas palavras em todo o resto da nossa vida. Seja boa, e sobretudo seja
  franca. Para que h de negar o que se est vendo? Eu sei que ainda me ama...

-- Eu? disse a moa
  deslaando-se-lhe dos braos. Eu tenho-lhe horror.

Jorge sorriu. -- Horror,
  por qu? disse ele. Mas o gesto da moa veio apagar-lhe o sorriso comeado.
  Iai levara as mos ao seio, como se quisera conter os mpetos do corao; os
  olhos luziam-lhe de extraordinrio fulgor. Ofegante, por alguns minutos, no
  pde articular uma s palavra; quando chegou a falar disse simplesmente:

-- Que razo h agora
  para que nos casemos? E depois de uma pausa: -- Tenho cimes do passado, e o
  senhor amou j uma vez. Assim como eu ia entregar-me ao senhor, com o corao
  limpo de qualquer outro afeto, assim quisera que o senhor nunca houvesse amado
  a ningum. Que  o seu corao para mim? Um sobejo de outra; talvez nem isso;
  esse mesmo resto no me pertence, no e meu; fiquemos neste ponto, e tome cada
  um de ns a sua liberdade.

Iai recusou outra
  explicao, alis desnecessria; a linguagem era transparente. Jorge saiu dali
  com o esprito transtornado e confuso. O motivo da recusa, para ser sincero,
  era pueril ou romanesco demais; nenhuma noiva teve cimes de um amor annimo e
  extinto; logo, a aluso de Iai no era vaga e sem objeto, mas ia direito 
  pessoa de Estela. Seria isso? Jorge no queria crer e mal podia duvidar.

No dia seguinte,
  acabado o almoo, apareceu-lhe o pai de Estela.

-- Iai manda-lhe isto,
  disse ele sacando da algibeira uma carta.

Jorge recebeu-a pressurosamente
  e abriu-a; leu estas palavras nicas: -- "No posso ser sua mulher; esquea-me e
  seja feliz." Empalideceu; tornou a ler a carta, sem a entender, posto que ela
  no fosse mais do que a frmula escrita e seca do que Iai lhe dissera na
  vspera. Mas entre as queixas e efuses de uma hora de desnimo e aquela
  intimao, havia um abismo; a carta trazia o cunho da resoluo definitiva, que
  ele no achara ou no quisera achar nas declaraes verbais da moa.

-- Iai deu-lhe isto
  agora mesmo?

-- Antes do almoo,
  respondeu o Sr. Antunes, cujo olhar forcejava por soletrar no rosto de Jorge
  algumas linhas do drama que supunha haver l dentro.

-- No lhe parece que
  Iai anda triste? perguntou Jorge no fim de um minuto.

-- A morte do pai
  prostrou-a muito.

Jorge foi dali ao
  gabinete; o Sr. Antunes acompanhou-o. A preocupao do moo era uma chuva
  benfica s esperanas do pai de Estela, que todas pareciam reflorir. Como este
  falasse da filha com a prolixidade astuta do pretendente, Jorge atentou numa
  idia, que a princpio lhe pareceu absurda, mas com a qual se familiarizou a
  pouco e pouco; mordeu-lhe o corao a suspeita de que o procedimento de Iai
  era uma desforra de Estela, uma como vingana pstuma. O inexplicvel da carta
  podia justificar at certo ponto essa suspeita sem fundamento nem
  verossimilhana, que afinal acabou por no achar nenhuma repulsa na conscincia
  dele.

Duas horas depois Jorge
  escrevia estas poucas palavras  viva de Lus Garcia:

"Iai mandou-me h
  pouco o incluso bilhete. Peo-lhe o favor de uma explicao."

A carta de Iai fora
  escrita naquela manh, depois de uma noite de agitao e luta. Nem foi a nica.
  Iai escrevera outra, menos lacnica, a Procpio Dias. Morto o pai, esse homem
  fora ali trs vezes, sem trocar com a moa uma s palavra relativa  estranha
  confidncia que lhe fizera antes. Eram visitas de meia hora, no mais; durante
  esse curto lapso de tempo, Procpio Dias no discrepava um instante da
  gravidade um pouco triste que adotara. No era o folgazo primitivo, mas tambm
  no era um poeta desesperado e plido; ficava a igual distncia de um e outro
  modelo. Os acontecimentos pareciam aconselhar-lhe uma discreta ausncia; mas,
  alm de no ter melindres nem escrpulos, floria-lhe no peito a esperana, a
  esperana tenaz dos cobiosos. No a sussurrava ao ouvido da moa, nem a
  ostentava nos olhos, na compostura, nos meneios, todos eles impregnados da
  submisso de uma alma desenganada e passiva. Iai tratava-o com bondade, j
  agora mais constante; posto no lhe passasse pela cabea a idia de vir a
  despos-lo, no lhe destoava o aspecto dessa paixo resignada e muda.

Depois de soltar a
  palavra decisiva, Iai entendeu que lhe devia dar a forma ltima, desligando-se
  da solene promessa. No o fez sem muita lgrima solitria. A pobre criana
  amava o filho de Valria com a singeleza de um corao quase adolescente, e s
  ento mediu todo o imprio que ele adquirira sobre ela. Mas duas circunstncias
  a induziam ao desfecho; era a primeira a revelao de Procpio Dias,
  confirmao de suas suspeitas; a segunda foi o espetculo que se lhe ofereceu
  aos olhos, naquela noite, logo depois de se despedir do noivo. Sabendo que a
  madrasta estava no gabinete do pai, ali foi ter e espreitou pela fechadura;
  viu-a sentada com a cabea inclinada ao cho, desfeito o penteado, mas desfeito
  violentamente, como se lhe metera as mos em um momento de desespero, e
  caindo-lhe o cabelo em ondas amplas sobre a espdua, com a desordem da pecadora
  evanglica. Iai no a viu sem que os olhos se umedecessem.

-- Que se casem! disse a
  moa resolutamente.

Desligando-se da
  promessa feita, Iai refletiu que ia ficar s, e que precisava forosamente de
  um amparo; foi ento que lhe lembrou Procpio Dias. No encarou a idia sem
  repugnncia; aceitvel na palestra, Procpio Dias era-lhe antiptico para a
  convivncia conjugal. No o podia amar, e, uma vez resoluta a aceit-lo,
  comeou logo de o aborrecer. Que muito? Era um marido; no exigia outro mrito.
  A carta que lhe escreveu no saiu de um jacto, foi trabalhada e repisada; o
  texto definitivo dizia que fosse ali sem demora para lhe falar de objeto que
  interessava  felicidade de ambos. Isto, e nada mais que uma lgrima, que lhe
  resvalou dos clios no papel como um protesto contra o que ia nele escrito.

Raimundo, chamado para
  levar essa carta, recebeu-a depois de alguma hesitao. Olhou para o papel e
  para a sinh moa. Depois sacudiu a cabea com um ar de dvida. Iai simulou
  no ver nada, mas o gesto do preto impressionou-a. Ia afastar-se, Raimundo
  reteve-a dizendo:

-- Iai me desculpe...
  esta carta... Raimundo no gosta de falar quele homem.

-- No lhe fales; basta
  deixar a carta em casa dele.

Raimundo no insistiu;
  acompanhou com os olhos a filha de seu antigo senhor, abanando a cabea com o
  mesmo ar de alguns momentos antes. Depois olhou para a carta, como se quisesse
  adivinhar o que ia dentro. No era s pressentimento, mas tambm deduo do que
  ele via naquelas ltimas semanas. Tinham-lhe dado notcia do casamento;
  falara-se nisso todos os dias antes da morte de Lus Garcia. Morto este, cessou
  toda a aluso ao projeto, que parecia dever executar-se dentro de pouco tempo.
  O corao do preto dizia que aquela carta era alguma coisa mais do que um
  recado sem conseqncia. Quis lev-la a Estela; mas rejeitou o expediente, por
  lhe parecer infidelidade. Dez minutos depois saiu em direo  casa de Procpio
  Dias.

Entretanto, chegavam s
  mos de Estela o bilhete de Jorge e o de Iai. A viva no podia crer o que
  lera. A carta da enteada era um ato de insubordinao, inexplicvel na essncia
  e na forma; e se essa carta a fez pasmar, a de Jorge f-la gemer. O noivo
  desenganado recorria  interveno de Estela. A primeira amada desse homem era
  agora a sua confidente, a quem ele escrevia sem saudade, sem remorso, talvez
  sem hesitao.

--Sogra! concluiu Estela
  com amargura; e erguendo os olhos do papel para o espelho, que pendia da parede
  fronteira, contemplou caladamente as suas graas ainda em flor. Iai entrou
  nessa ocasio. A madrasta chamou-a ao p de si, e mostrando-lhe o bilhete que
  escrevera ao noivo, perguntou-lhe o que queria dizer aquilo. A enteada ficou
  silenciosa durante alguns segundos; mas a resoluo deu-he fora e
  tranqilidade.

-- Quer dizer o que a
  est escrito, respondeu ela; no posso casar com o Dr. Jorge.

-- Por qu?

-- No posso.

-- Por qu? repetiu
  Estela com autoridade.

-- Amo a outra pessoa.

-- No creio; tem
  decerto outro motivo.

-- Que motivo?

-- Nenhum que seja
  sensato, acudiu a madrasta, mas algum h de haver, que no seja esse. O passo
  que deu  grave; no  prprio de uma moa obediente; chega a ser contrrio 
  cortesia. No importa; tudo se pode explicar; explique-me esta carta.

Iai no obedeceu 
  intimao da madrasta, e para tirar  recusa qualquer aparncia ofensiva,
  conservou um ar de modstia e resignao. Estela no se deu por vencida;
  demonstrou-lhe que s um motivo grave podia justificar semelhante procedimento,
  e que era foroso diz-lo ao noivo; lembrou-lhe finalmente a estima que sempre
  houvera entre Jorge e o pai. Neste ponto Iai estremeceu e fitou na madrasta
  uns olhos que no eram os de pouco antes. Parecia-lhe sacrilgio evocar o nome
  do pai. No se pde ter; deu um passo e interrompeu-a com sequido:

-- No posso casar,
  porque a senhora gosta dele.

Estela, que j ento
  estava sentada, ergueu-se de golpe ao ouvir esta sbita e inesperada
  explicao. A face plida, que o traje da viva ainda mais empalidecia,
  tingiu-se de uns longes de vermelho. Podia ser confuso ou indignao. Durante
  uma pausa relativamente longa, Iai no tirou os olhos da madrasta. Essas duas
  lmpadas buscavam examinar-lhe, no momento supremo, todos os recantos da
  conscincia e todos os atalhos do passado. No disse nada, para melhor gozar do
  abalo que acabava de produzir em Estela; era o juro do sacrifcio. Mas Estela
  sentou-se da a pouco, e foi a primeira que rompeu o silncio.

-- Tu ests maluca,
  disse ela tranqilamente. Quem te meteu semelhante idia na cabea?

-- No examinemos agora
  quem foi ou o que foi que me fez adivinhar a verdade, respondeu Iai; basta
  saber que decidi romper o casamento, que o mandei dizer ao Dr. Jorge, e que
  talvez dentro de poucos dias outra pessoa lhe pedir minha mo.

Estas palavras
  transtornaram de todo a viva, que, atnita e irritada, deu alguns passos na
  sala, buscando conter a exploso de seus sentimentos. Iai foi ter com ela,
  falou-lhe com brandura e submisso.

-- No se zangue,
  mamezinha, se lhe no disse antes o que fiz agora mesmo; estava certa de que
  aprovaria, ou me perdoaria, quando menos. O homem de que lhe falo ama-me, e a
  senhora mesma no rejeitou a idia de me ver casada com ele.

-- No tens culpa da
  imprudncia que cometeste, disse Estela; porque antes disso tinhas perdido a
  razo. Vem c, disseste-me a uma palavra absurda, e  preciso que me digas
  outra com que expliques a primeira. Por que eu gosto dele? continuou depois de
  alguns instantes. Que queres dizer com isto?

Iai curvou a cabea.

-- Fala!

-- No direi nada; essa
  palavra explica tudo. Se gosta como eu creio,  a sua felicidade que lhe trago,
  no digo a troco da minha, porque seria lanar-lhe em rosto o sacrifcio, mas a
  troco de uma iluso, e nada mais. No pense que lhe quero mal; no posso querer
  mal a quem me tem ou teve alguma afeio e substituiu dignamente minha me. Se
  lhe quisesse mal,  provvel que no fizesse o que fiz.

Enquanto falava a
  enteada, Estela tinha a fronte inclinada e pensativa; atitude em que se
  conservou ainda durante algum tempo.

-- Bem v que acertei,
  disse Iai; seu silncio confirma a minha suposio.

-- Eu! exclamou Estela
  estremecendo. Tu no entendes nada dos sentimentos, no conheces o corao. Eu
  am-lo? eu? No! no  possvel!

-- Talvez no, mas o que
  est feito, est feito.

A madrasta quis
  ret-la, mas no pde; Iai saiu sem dizer nada. Estela ficou atordoada,
  confusa e at medrosa; reboavam-lhe aos ouvidos as palavras de Iai, no como
  um som exterior, mas como o brado da prpria conscincia. Venceu o abatimento,
  reagiu depressa como lho pediam as circunstncias e a prpria necessidade de
  sua natureza. No teve tempo de cogitar no modo por que a enteada chegara a
  suspeitar um sentimento que ela recalcara no corao. Urgia reparar o mal feito
  pela imprudncia da moa. Estela disps-se a responder desde logo  carta de
  Jorge, e no sabia ainda claramente o que lhe havia de dizer. Tratou primeiro
  de chamar Raimundo, e vendo que ele no acudia foi ter com Iai.

-- Raimundo foi levar
  uma carta minha ao Procpio Dias, respondeu esta.

Estela caiu numa
  cadeira. Pela primeira vez, alumiou-lhe o esprito uma idia cruel: a idia de
  que a suspeita de Iai fosse mais do que uma simples e inocente conjetura. Os
  olhos que lanou  moa ardiam de indignao. Cobriu-os depressa, no para
  chorar, mas para fugir aos da outra. O olhar de Estela fez vacilar por um
  instante a convico da enteada; a clera pareceu-lhe sincera e at excessiva;
  mas o gesto que se lhe seguiu atenuou e desvaneceu a primeira impresso. Iai sups
  ver na atitude da madrasta uma confisso involuntria, uma expresso de
  abatimento e desespero, como de pessoa que entrev a felicidade prpria e julga
  dever sacrific-la  de outrem. Era generosa. Caminhou para ela, dobrou as
  curvas, pousou-lhe no regao os braos, trmulos de comoo; com as mos
  desviou as de Estela e fitou-lhe os olhos, que estavam sombrios.

-- Fui estouvada,
  confesso, disse ela; devia t-la consultado antes de fazer o que fiz. Mas eu
  temia a sua oposio, e no queria torn-la desgraada. Sou mais moa que a
  senhora, se tivesse de consolar-me, consolava-me depressa. Mas no tenho; no
  amava; cedi a um capricho, e no sinto a menor dor ao despedir-me dele. Ande,
  perdoe-me; e esteja certa de que no a amarei menos do que at agora.

Ergueu-se e procurou
  beij-la. A madrasta recuou instintivamente a cabea; era um resto de
  repugnncia, que a fisionomia ingnua e pura de Iai para logo dissipou. Em to
  verdes anos, sem nenhum trato social, era lcito supor na menina tamanha
  dissimulao? Estela concluiu que a ao da enteada vinha, no de uma suposio
  ultrajante, mas de um impulso desinteressado. Qualquer que fosse o fundamento
  da suspeita, o procedimento da enteada trazia o cunho da candura e da boa-f;
  assim pensando, Estela sentiu desoprimir-se-lhe a alma. No era generosa, -- ou
  tinha somente a generosidade fria e altiva, que nasce da soberba. Mas no era
  insensvel, e o desinteresse da menina tocou-lhe profundamente o corao.
  Inclinou-se para ela, tomou-lhe a cabea entre as mos e fitou-a, com um olhar
  severo e maternal ao mesmo tempo.

-- Perdo-te, disse
  finalmente, porque no sabes o que fizeste. A inteno  que te salva do meu
  dio; digo mal, do meu desprezo. Se queres medir bem a profundidade do abismo
  que acabas de cavar, fica sabendo que me injuriaste, pensando servir-me, e que
  o resultado do teu erro pode talvez arrancar-te lgrimas amargas e inteis. Teu
  castigo ser que s eu as enxugarei; -- ouves bem? s eu.

Dizendo isto, soltou a
  cabea da enteada com um gesto rspido, em que havia ainda um pouco de
  irritao. Iai estava plida. Sentiu na palavra seca e fria da madrasta um
  alento de indignao sincera; e a alma caiu-lhe prostrada, mais ainda do que o
  corpo, que no podendo suster-se, procurou amparar-se no mvel que achou mais
  prximo. A dvida, que j antes atravessara o esprito da moa, comeou a
  invadi-lo. Iai fitou Estela com o mais agudo de seus olhares, acompanhou-a de
  um lado para outro, porque a madrasta, logo depois das palavras que lhe disse,
  entrara a andar e a refletir. Se a viva era sincera, Iai acabava de fazer
  gratuitamente a sua prpria desgraa; foi o que a moa pensou. No atordoamento
  moral em que esta hiptese a lanou, Iai achou-se entre dois desejos, mal
  definidos, mas inteiramente opostos um ao outro. Quisera e no quisera ter-se
  enganado; aspirava a conciliar o corao e a conscincia. Seu esprito evocou a
  hora inicial da suspeita, -- aquela funesta manh, em que a carta de Jorge foi
  lida por Estela; recordou o gesto da madrasta, o tremor, a lividez, os vivos
  sintomas de consternao, do medo ou do remorso. Seria engano aquilo? no era
  evidente que eles se haviam amado, que se amavam ainda naquela ocasio? E, dada
  a afirmativa, era acaso impossvel que Estela, ao menos, o amasse ainda hoje?

Iai ateve-se a esta
  concluso, embora confirmasse a runa de suas esperanas; a concluso, porm,
  contrastava com a impassibilidade da madrasta. J ento perdera Estela o
  alvoroo do primeiro momento. Depois de alguns minutos de reflexo, parara em
  frente da enteada. Era difcil ver na atitude quieta, no aspecto de matrona
  severa e digna, alguma coisa que se parecesse com as nsias, o triunfo ou o
  abatimento de uma rival. Iai deixou-se estar diante dela, a fit-la e a
  revolv-la. A poro da alma que transparecia do rosto da viva era to fria,
  to indiferente, que mal se podia combinar com o sentimento que Iai lhe
  atribua. Foi o que esta pensou ver com seus olhos finamente sagazes; e no meio
  desse contraste entre o aspecto presente e a revelao passada, Iai acabou por
  no saber definitivamente onde ficava a verdade, e esteve a ponto de lha pedir
  de joelhos.

Achavam-se ento no
  gabinete de Lus Garcia, defronte da secretria, onde o finado encontrara, com
  outros papis, a carta que dera lugar s conjeturas de Iai. No havia mudana
  nem no nmero nem na disposio dos mveis. S a luz era diferente, porque a
  daquele dia era viva e clara, coada atravs de uma atmosfera serena, como a
  vida anterior dessa famlia, ao passo que a de hoje vinha turva e meia apagada
  pelas nuvens de um cu chuvoso e triste. Na longa pausa que houve entre a
  madrasta e a enteada, os nicos sons que se ouviam eram o rufar da chuva na
  folhagem do jardim e o tique-taque de um relgio de parede.

-- Escuta, disse
  finalmente Estela; se alguma razo tens para crer que amo esse homem, 
  necessrio mostrar-te a realidade das coisas.

Estela abriu duas ou
  trs gavetinhas da secretria, e depois de alguma busca entre os maos de
  cartas que ali encontrou, tirou uma, abriu-a e deu-a  enteada. Iai recebeu-a
  com as mos trmulas de curiosidade; leu-a toda; devia ser a mesma que o pai
  mostrara  madrasta.

-- Essa moa era a
  senhora? murmurou ela como se ainda esperasse resposta negativa.

-- Era eu.

Iai deixou-se cair
  numa cadeira rasa, a mesma em que Estela estivera sentada, quando ouviu a
  confidncia do marido.

-- Vs? disse Estela;
  foi por mim que ele fez o sacrifcio de ir para a guerra, sem esperana de ser
  retribudo nem de contar um dia com a minha gratido. Foi para a guerra, lutou,
  padeceu, fiel ao sentimento que o tinha levado, at o ponto de o crer eterno.
  Eterno! Sabes quanto durou essa eternidade de alguns anos.  duro de ouvir,
  minha filha, mas no h nada eterno neste mundo; nada, nada. As mais profundas
  paixes morrem com o tempo. Um homem sacrifica o repouso, arrisca a vida,
  afronta a vontade de sua me, rebela-se, e pede a morte; e essa paixo violenta
  e extraordinria acaba s portas de um simples namoro, entre duas xcaras de
  ch...

-- A senhora no o amou
  nunca? interrompeu Iai, ao sentir o tremor e o despeito com que a madrasta
  proferiu as ltimas palavras.

-- Havia entre ns um
  fosso largo, muito largo, disse Estela. Eu era humilde e obscura, ele distinto
  e considerado; diferena que podia desaparecer, se a natureza me houvesse dado
  outro corao. Medi toda a distncia que nos separava e tratei simplesmente de
  evit-lo. Foi ento que ele embarcou; interiormente aprovei-o. Talvez lhe no
  neguei um pouco de compaixo silenciosa, mas nada mais. Casamento, entre ns, era
  impossvel, ainda que todos trabalhassem para ele; era impossvel, sim, porque
  o consideraria uma espcie de favor, e eu tenho um grande respeito a minha
  prpria condio. Meu pai j me achava, em pequena, uns arremessos de orgulho.
  Como querias tu que, com tal sentimento, pudesse desposar um homem, socialmente
  superior a mim? Era preciso dar-me outra ndole. Todas as felicidades do
  casamento achei-as ao p de teu pai. No nos casamos por amor; foi escolha da
  razo, e por isso acertada. No tnhamos iluses; pudemos ser felizes sem
  desencanto. Teu pai no tinha os mesmos sentimentos que eu; era mais tmido que
  orgulhoso. Qualquer que fosse a razo do seu desapego ao mundo, bastava que o
  tivesse, para me fazer feliz; vivemos assim alguns anos de inteiro isolamento,
  sem conhecer o amargor, que  o que fica no fundo da vida, sem necessidade da
  dissimulao... Minto; tive necessidade de fingir, desde que aquele homem aqui
  apareceu; era necessrio. Um dia teu pai mostrou-me essa carta e referiu-me a
  paixo encoberta que a se conta; podes imaginar se ouvi tranqila.

Mas fora desse
  acontecimento, que outro podia perturbar minha alma? No vi nenhuma porta
  abrir-se-me por obsquio, nenhuma mo apertou a minha por simples
  condescendncia. No conheci a polidez humilhante, nem afabilidade sem calor.
  Meu nome no serviu de pasto  natural curiosidade dos amigos de meu marido.
  Quem  ela? Donde veio? Ningum me perguntou donde vinha, no  verdade?
  Perguntaste-me quem era eu? No; amaste-me como tinhas amado tua me, e eu
  amei-te, como se foras minha filha. E para isto bastou-nos estender os braos;
  no foi preciso descer nem subir.

-- No foi, bradou Iai
  comovida, apertando-lhe as mos.

-- J vs quem eu era e
  sou; uma espcie de animal feroz, que prefere a charneca ao jardim. No me
  senti lisonjeada com a paixo que inspirei; rejeitei, talvez, um marido digno
  das ambies de qualquer mulher. Era isto o que querias saber? Pois a tens a
  minha histria, a histria dessa carta, que j agora podemos rasgar...

Estela pegou na carta e
  rasgou-a lentamente, em pedaos midos, enquanto a enteada refletia nas
  revelaes que acabava de ouvir. A madrasta deitou os fragmentos do papel 
  cesta.

-- Resta concertar a
  imprudncia e casar, disse Estela dando  palavra um tom galhofeiro.

-- No sei! murmurou
  Iai. O que a senhora me disse  grave; no h sentimentos eternos. Parece que
  depois de tamanha paixo, qualquer outro afeto no ter longa vida.

-- Por que no? No hs
  de querer agora uma paixo, que o leve  guerra; seria um desastre. Mas est
  nas tuas mos fazer que ele te ame, sempre e muito.

Iai refletiu um
  instante.

-- Jure-me que o no
  ama!

Estela franziu o
  sobrolho; depois mostrou-lhe o bilhete que Jorge lhe escrevera pouco antes, e
  cuja redao dissiparia  moa qualquer dvida em relao ao noivo. Era uma
  evasiva para lhe no confessar nem mentir. A primeira vez que lhe negara o
  amor, foi antes um grito do corao que queria enganar-se a si prprio; agora
  preferia calar-se. A certeza da iseno de Jorge importava muito mais que a de
  Estela; a alma de Iai, no primeiro instante, respirou  larga. O respeito que
  tinha  madrasta, e um pouco de cime retrospectivo que a mordia, ao pensar
  naquela paixo to violenta e to desenganada, empeciam  moa qualquer outra
  manifestao. Quando se achou a ss consigo, levava o esprito arejado da
  suspeita que o oprimira durante largos meses; mas o vento que o lavou das
  sombras, l lhe queimou algumas das flores desabotoadas ao calor do primeiro
  sol. A felicidade tinha um travo de desgosto e humilhao; o corao tremia de
  medo.

Quando mais absorta
  estava nesse contraste de sensaes, viu Raimundo transpor a porta do jardim.

CAPTULO XVII

Iai foi ter com
  Raimundo.

-- Entregaste?

-- No entreguei, disse
  o preto.

Iai ficou alguns
  instantes imvel. Raimundo tirou a carta do bolso, e esteve com elas nas mos,
  sem atrever-se a levantar os olhos; levantou-os enfim e disse resolutamente:

-- Raimundo no achou
  bonito que Iai escrevesse quele homem, que no  seu pai nem seu noivo, e
  voltou para falar a nhanh Estela.

-- D c, disse a moa
  secamente; no  preciso.

Raimundo entregou-lhe a
  carta, e sacudiu a cabea encanecida, como se quisera repelir os anos que sobre
  ela pesavam, e retroceder ao tempo em que Iai era uma simples criana,
  travessa e nada mais. Tinha-lhe custado a resoluo; trs vezes investira a
  porta de Procpio Dias para obedecer  filha do seu antigo senhor, e trs vezes
  recuara, at que venceu nele o pressentimento, -- uma coisa que lhe martelava no
  corao, dizia ele da a pouco a Estela, quando lhe referiu tudo.

Estela no se deteve
  mais. Na carta, que escreveu a Jorge, disse que a enteada era apenas uma menina
  romanesca, desconfiada e curiosa; queria desfazer o casamento, porque supunha
  no ser amada com ardor igual ao seu. -- "Iai adora-o, concluiu Estela, e no
  se sente adorada. Venha prostrar-se ao p do altar, e ter em mim a mais
  piedosa sacrist."

Iai teve notcia da
  carta, e j tarde para opor qualquer objeo. O primeiro impulso foi agradecer
  a pia fraude da madrasta; mas a alma, picada por um resto de cime, depressa
  conteve o impulso, e a nica resposta da moa foi um gesto de acanhamento e um
  silncio largo. Ouviu-a depois sem azedume nem impacincia, atenta  menor
  hesitao que lhe truncasse a palavra, ou  mnima sombra de desgosto que lhe
  velasse os olhos. A verdade  que a ternura da madrasta e a jovialidade recente
  de seus modos traziam certa nota desusada e violenta, e esse excesso fazia
  refletir a enteada.

Entretanto, a carta de
  Estela chegou s mos de Jorge, que a leu duas vezes para conseguir
  entender-lhe o sentido. A explicao tinha o defeito de ser um pouco sutil; mas
  a alma de Jorge conservava sempre uma porta aberta aos sentimentos
  extraordinrios. Demais, qualquer explicao favorvel era um benefcio, e
  aquela tinha a vantagem de afagar o amor prprio, alm de vir ajustada com o
  esprito inquieto e sbito da noiva. Leu a carta sem cotejar o texto com a
  assinatura, sem atentar naquela sacrist em cujos ombros quisera outrora atar a
  veste sacerdotal.

Nessa mesma noite foi 
  casa da noiva, que o recebeu sem contentamento nem mortificao, um pouco
  lacnica e meditativa. Nem um nem outro aludiu aos sucessos ltimos; f-lo
  Estela com muita pertinncia e tato. No obstante, como a explicao da viva
  no correspondia exatamente  realidade das coisas, a situao ficou ainda
  obscura e vaga, e porventura exagerou o acanhamento recproco. A persuaso de
  que Iai exigia da parte dele maior intensidade de sentimento, no inclinara o
  esprito de Jorge a nenhuma ostentao teatral, -- mas acabou por lhe infundir
  deveras maior ternura, e aumentou a vitalidade de um sentimento, que  a forma
  desinteressada do egosmo, -- a felicidade de fazer outrem feliz.

-- Marquemos o casamento
  para esta semana, disse Estela na noite de um domingo.

-- Ainda no, respondeu
  a enteada.

Posto visse dissipada a
  tempestade que lhe negrejara sobre a cabea, Iai enxergava ainda para o lado
  poente um espectro, e para o lado do nascente uma possibilidade. Esses dois
  pontos negros vinham estragar a beleza azul do cu e torn-lo pesado e
  melanclico. O mistrio do futuro unia-se ao mistrio do passado; um e outro
  podiam devorar o presente, e ela receava ser esmagada entre ambos. A
  convivncia da famlia aterrava-a. Que seria para ela o casamento, se tivesse
  de penetrar nele com a perptua ameaa diante dos olhos, uma antiga semente de
  amor, que a primeira brisa da primavera podia fazer brotar e crescer de novo?
  Acreditava na iseno presente da madrasta, e na inteira cura do marido, mas o
  futuro? A beleza de Estela estava ainda longe do declnio, e a modstia de Iai
  fazia-a persuadir de que, ainda no declnio, seria superior  sua.

Uma noite, entrou o Sr.
  Antunes e deu uma carta  filha, que a leu silenciosamente.

-- Olha, disse ela
  apresentando a carta  enteada.

Iai leu-a; eram duas
  pginas escritas de alto a baixo, e por letra desconhecida. Uma antiga
  condiscpula de Estela, residente no norte de So Paulo, aceitava a proposta
  que esta lhe fizera, de ir dirigir-lhe o estabelecimento de educao que ali
  fundara desde alguns meses.

-- Bem vs que 
  necessrio casar-te quanto antes, disse Estela logo que a enteada acabou a
  leitura.

Iai sentiu os olhos
  midos e atirou-se aos braos da madrasta. A efuso era sincera; havia ali
  afeto, reconhecimento e admirao. Mas, por isso mesmo que era sincera, deveria
  molestar a madrasta, se alguma coisa pudesse j molest-la. Estela sorriu, -- um
  sorriso que queria dizer: "Bem sei que sou demais". A lngua, porm, no
  proferiu uma palavra nica.

-- Que quer dizer isso?
  perguntou o pai de Estela, que nada sabia da carta, e conseqentemente nada
  entendia daquela expanso da moa.

Estela mostrou-lhe a
  carta. O pai no pde acabar de ler: a primeira pgina fizera-lhe compreender
  tudo. Seus olhos iam do papel  filha e da filha ao papel, sem que a boca se
  atrevesse a formular nenhuma queixa ou censura.

-- No digo que me
  obedeas, murmurou ele; mas parece que podias consultar-me...

-- Eu estava certa da
  sua aprovao, respondeu Estela. Ou parece-lhe que fiz mal?

-- Nunca fizeste bem em
  coisa nenhuma, disse tristemente o pai. E pegando-lhe nas mos: -- To moa! to
  bonita!

O dia do casamento foi
  definitivamente marcado naquela noite. Como Estela declarasse que ela prpria
  serviria de madrinha, Iai procurou dissuadi-la cautelosamente; tambm ao noivo
  repugnou a interveno espiritual da viva. Mas Estela no se deu por
  entendida. O papel de aclita, que a si mesma distribura, tinha-o desempenhado
  com lealdade e dignidade. Quis ir at o fim. Era o melhor modo de se mostrar
  isenta e superior. Jorge sentia-se vexado e transportado ao mesmo tempo, ao
  observar a simplicidade e o desvelo que a viva punha naquele ato. Iai sentia
  s admirao e gratido. Tinha j certeza de que o passado era pouca coisa, e
  de que o futuro seria coisa nenhuma. O casamento ia separ-las,
  reconciliando-as.

Casados os dois, Estela
  preparou-se para seguir viagem, no obstante a resistncia do pai, que foi
  tenaz e hbil. O pai ficaria. Estava j to cansado para viagens longas! A
  diferena do clima, a falta de relaes, a necessidade de no abrir mo do
  emprego eram motivos de grave peso para no arriscar-se a deixar o Rio.

-- Ao menos, prometes
  vir ver-me de quando em quando? disse o Sr. Antunes sentindo tremer-lhe nos
  olhos uma lgrima sincera.

Estela respondeu que
  sim; depois pediu-lhe que aceitasse uma mesada. O pai recusou comovido. -- Tu
  vales muito, exclamou ele. O tom com que proferiu estas palavras deu uma
  esperana  filha.

-- O senhor pode valer
  ainda mais do que eu, disse ela.

Depois contou-lhe a
  paixo de Jorge e todo o episdio da Tijuca, causa originria dos
  acontecimentos narrados neste livro; mostrou-lhe com calor, com eloqncia,
  que, recusando ceder  paixo de Jorge, sacrificara algumas vantagens ao seu
  prprio decoro; sacrifcio tanto mais digno de respeito, quanto que ela amava
  naquele tempo o filho de Valria. Que pedia agora ao pai? Pouca e muita coisa;
  pedia que a acompanhasse, que cessasse a vida de dependncia e servilidade em
  que vivera at ali; era um modo de a respeitar e respeitar-se. O pai escutava-a
  atnito.

-- Tu chegaste a am-lo!
  exclamou ele. No o aborrecias? Amaram-se? E s agora sei... Bem digo eu; tu s
  uma fera. No tens, nunca tiveste pena de minha velhice... Ele  to bom! to
  digno! E se morresse por tua causa? no terias remorso? no te havia de doer o
  corao quando soubesses que um moo to bem-nascido, que gostava de ti... Sim,
  ele gostava muito de ti; e tu tambm... e s hoje!

Estela fechou os olhos
  para no ver o pai. Nem esse amparo lhe ficava na solido. Compreendeu que
  devia contar s consigo, e encarou serenamente o futuro. Partiu; o pai
  despediu-se dela com o desespero no corao, -- e desta vez a dor era
  desinteressada e pura. Jorge consolou-o depressa. No houve interrupo na
  convivncia, e o Sr. Antunes continuou a achar ali a mesma proteo e
  cordialidade. Se o casamento fora um atentado, ele os absolveu disso, e repartiu
  com ambos infinita solicitude. Outra vez comensal assduo, tornou a ser o homem
  de confiana. Fora dali, as horas de lazer que lhe deixava o pouco trabalho,
  eram empregadas nas sesses do jri, nas galerias da Cmara dos Deputados ou
  nos bacos do Carceler. No tendo j a aspirao de uma aliana vantajosa,
  adotou a devoo da loteria. Era ele quem dava, secretamente, notcias de
  Estela a Iai.

Esta achou no casamento
  a felicidade sem contraste. A sociedade no lhe negou carinhos e respeitos. Se antes
  de casar, Iai possua o abecedrio da elegncia, depressa aprendeu a prosdia
  e a sintaxe; afez-se a todos os requintes da urbanidade, com a presteza de um
  esprito sagaz e penetrante. Nenhuma nuvem do passado veio sombrear a fronte de
  um ou de outro; ningum se interpunha entre eles. Iai escrevia algumas vezes a
  Estela, que lhe respondia regularmente, e no mais puro estilo de famlia. De
  longe em longe a enteada presenteava a madrasta, que lhe retribua logo na
  primeira ocasio. Quanto a encontrarem-se, era difcil; Estela aplicava todos
  os seus cuidados  nova ocupao.

Procpio Dias viu a
  morte de todas as esperanas ltimas, com uma filosofia que no supunha ter em
  si. Naturalmente padeceu alguns dias de despeito; mas o despeito acabou com o
  amor. Verdade  que o ambiciado casamento abriu nele o desejo de no morrer
  solteiro; e, perdida uma oportunidade, tratou de haver outras  mo.
  Ultimamente voltou  regio do celibato. Duas ou trs vezes encontrou Iai e o
  marido. A ltima foi num sarau. Jogou o voltarete com Jorge e acompanhou a
  mulher at  carruagem, no sem lanar um olhar furtivo ao estribo, onde Iai
  pousou o p, cansado de valsar.

No primeiro aniversrio
  da morte de Lus Garcia, Iai foi com o marido ao cemitrio, a fim de depositar
  na sepultura do pai uma coroa de saudades. Outra coroa havia sido ali posta,
  com uma fita em que se liam estas palavras: -- A meu marido. Iai beijou
  com ardor a singela dedicatria, como beijaria a madrasta se ela lhe aparecesse
  naquele instante. Era sincera a piedade da viva. Alguma coisa escapa ao
  naufrgio das iluses.

FIM
