Conto, O programa, 1882

O programa

Texto-fonte:

 Obra Completa, Machado de Assis, vol. II,

Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.

Publicado originalmente em A Estao, de 31/12/1882 a 15/01/1883.

NDICE

CAPTULO
PRIMEIRO - LIO
DE MESTRE-ESCOLA

CAPTULO
II - DE COMO ROMUALDO
ENGENDROU UM PROGRAMA

CAPTULO
III - AGORA TU,
CALOPE, ME ENSINA...

CAPTULO
IV - QUINZE ANOS,
BONITA E RICA

CAPTULO
V - NO
ESCRITRIO

CAPTULO
VI - TROCA DE ARTIGOS

Tambm eu nasci na
Arcdia.

Schiller

CAPTULO
PRIMEIRO

LIO DE
MESTRE-ESCOLA

-- Rapazes, tambm eu
fui rapaz, disse o mestre, o Pitada, um velho mestre de meninos da Gamboa, no
ano de 1850; fui rapaz, mas rapaz de muito juzo, muito juzo...
Entenderam?

-- Sim, senhor.

-- No entrei no mundo
como um desmiolado, dando por paus e por pedras, mas com um programa na
mo... Sabem o que  um programa?

-- No, senhor.

-- Programa  o rol
das coisas que se ho de fazer em certa ocasio; por exemplo, nos
espetculos,  a lista do drama, do entremez, do bailado, se
h bailado, um passo a dois, ou coisa assim...  isso que se
chama programa. Pois eu entrei no mundo com um programa na mo;
no entrei assim  toa, como um preto fugido, ou pedreiro sem
obra, que no sabe aonde vai. Meu propsito era ser mestre de
meninos, ensinar alguma coisa pouca do que soubesse, dar a primeira forma ao
esprito do cidado... Dar a primeira forma (entenderam?), dar a
primeira forma ao esprito do cidado...

Calou-se o mestre alguns minutos,
repetindo consigo essa ltima frase, que lhe pareceu engenhosa e
galante. Os meninos que o escutavam (eram cinco e dos mais velhos, dez e onze
anos), no ousavam mexer com o corpo nem ainda com os olhos; esperavam o
resto. O mestre, enquanto virava e revirava a frase, respirando com
estrpito, ia dando ao peito da camisa umas ondulaes
que, em falta de outra distrao, recreavam interiormente os
discpulos. Um destes, o mais travesso, chegou ao desvario de imitar a
respirao grossa do mestre, com grande susto dos outros, pois
uma das mximas da escola era que, no caso de se no descobrir o
autor de um delito, fossem todos castigados; com este sistema, dizia o mestre,
anima-se a delao, que deve ser sempre uma das mais slidas
bases do Estado bem constitudo. Felizmente, ele nada viu, nem o gesto
do temerrio, um pirralho de dez anos, que no entendia nada do
que ele estava dizendo, nem o belisco de outro pequeno, o mais velho da
roda, um certo Romualdo, que contava onze anos e trs dias; o
belisco, note-se, era uma advertncia para cham-lo
 circunspeco.

-- Ora, que fiz eu para vir a
esta profisso? continuou o Pitada. Fiz isto: desde os meus quinze ou
dezesseis anos, organizei o programa da vida: estudos, relaes,
viagens, casamento, escola; todas as fases da minha vida foram assim previstas,
descritas e formuladas com antecedncia...

Daqui em diante, o mestre
continuou a exprimir-se em tal estilo, que os meninos deixaram de
entend-lo. Ocupado em escutar-se, no deu pelo ar estpido
dos discpulos, e s parou quando o relgio bateu
meio-dia. Era tempo de mandar embora esse resto da escola, que tinha de jantar
para voltar s duas horas. Os meninos saram pulando, alegres,
esquecidos at da fome que os devorava, pela idia de ficar
livres de um discurso que podia ir muito mais longe. Com efeito, o mestre fazia
isso algumas vezes; retinha os discpulos mais velhos para ingerir-lhes
uma reflexo moral ou uma narrativa ligeira e s. Em certas
ocasies s dava por si muito depois da hora do jantar. Desta vez
no a excedera, e ainda bem.

CAPTULO
II

DE COMO ROMUALDO ENGENDROU UM
PROGRAMA

A idia do programa
fixou-se no esprito do Romualdo. Trs ou quatro anos depois,
repetia ele as prprias palavras do mestre; aos dezessete, ajuntava-lhes
alguns reparos e observaes. Tinha para si que era a melhor
lio que se podia dar aos rapazes, muito mais til do que
o latim que lhe ensinavam ento.

Uma circunstncia local
incitou o jovem Romualdo a formular tambm o seu programa, resoluto a
cumpri-lo: refiro-me  residncia de um ministro, na mesma rua. A
vista do ministro, das ordenanas, do coup, da farda,
acordou no Romualdo uma ambio. Por que no seria ele
ministro? Outra circunstncia. Morava defronte uma famlia
abastada, em cuja casa eram freqentes os bailes e
recepes. De cada vez que o Romualdo assistia, de fora, a uma
dessas festas solenes,  chegada dos carros,  descida das damas,
ricamente vestidas, com brilhantes no colo e nas orelhas, algumas no toucado,
dando o brao a homens encasacados e aprumados, subindo depois a
escadaria, onde o tapete amortecia o rumor dos ps, at irem para
as salas alumiadas, com os seus grandes lustres de cristal, que ele via de
fora, como via os espelhos, os pares que iam de um a outro lado, etc.; de cada
vez que um tal espetculo lhe namorava os olhos, Romualdo sentia em si a
massa de um anfitrio, como esse que dava o baile, ou do marido de
algumas daquelas damas titulares. Por que no seria uma coisa ou outra?

As novelas no serviam
menos a incutir no nimo do Romualdo to excelsas
esperanas. Ele aprendia nelas a retrica do amor, a alma sublime
das coisas, desde o beijo materno at o ltimo graveto do mato,
que eram para ele, irmmente, a mesma produo divina da
natureza. Alm das novelas, havia os olhos das rapariguinhas da mesma
idade, que eram todos bonitos, e, coisa singular, da mesma cor, como se fossem
um convite para o mesmo banquete, escrito com a mesma tinta. Outra coisa que
tambm influiu muito na ambio do Romualdo foi o sol, que
ele imaginava ter sido criado unicamente com o fim de o alumiar, no
alumiando aos outros homens, seno porque era impossvel deixar
de faz-lo, como acontece a uma banda musical que, tocando por obsquio
a uma porta,  ouvida em todo o quarteiro.

Temos, pois, que os esplendores
sociais, as imaginaes literrias, e, finalmente, a
prpria natureza, persuadiram ao jovem Romualdo a cumprir a
lio do mestre. Um programa! Como  possvel
atravessar a vida, uma longa vida, sem programa? Viaja-se mal sem
itinerrio; o imprevisto tem coisas boas que no compensam as
ms; o itinerrio, reduzindo as vantagens do casual e do
desconhecido, diminui os seus inconvenientes, que so em maior
nmero e insuportveis. Era o que sentia Romualdo aos dezoito
anos, no por essa forma precisa, mas outra, que no se traduz
bem seno assim. Os antigos, que ele comeava a ver
atravs das lunetas de Plutarco, pareciam-lhe no ter
comeado a vida sem programa. Outra induo que tirava de
Plutarco  que todos os homens de outrora foram nada menos do que
aqueles mesmos heris biografados. Obscuros, se os houve, no
passaram de uma ridcula minoria.

-- V um programa,
disse ele; obedeamos ao conselho do mestre.

E formulou um programa. Estava
ento entre dezoito e dezenove anos. Era um guapo rapaz, ardente,
resoluto, filho de pais modestssimos, mas cheio de alma e
ambio. O programa foi escrito no corao, o
melhor papel, e com a vontade, a melhor das penas; era uma pgina
arrancada ao livro do destino. O destino  obra do homem.
Napoleo fez com a espada uma coroa, dez coroas. Ele, Romualdo,
no s seria esposo de alguma daquelas formosas damas, que vira
subir para os bailes, mas possuiria tambm o carro que costumava traz-las.
Literatura, cincia, poltica, nenhum desses ramos deixou de ter
uma linha especial. Romualdo sentia-se bastante apto para uma multido
de funes e aplicaes, e achava-se mesquinho
concentrar-se numa coisa particular. Era muito governar os homens ou escrever Hamlet;
mas por que no reuniria a alma dele ambas as glrias, por que
no seria um Pitt e um Shakespeare, obedecido e admirado? Romualdo
ideava por outras palavras a mesma coisa. Com o olhar fito no ar, e uma certa
ruga na testa, antevia todas essas vitrias, desde a primeira
dcima potica at o carro do ministro de Estado. Era
belo, forte, moo, resoluto, apto, ambicioso, e vinha dizer ao mundo,
com a energia moral dos que so fortes: lugar para mim! lugar para mim,
e dos melhores!

CAPTULO
III

AGORA TU, CALOPE, ME
ENSINA...

No se pode saber com
certeza, -- com a certeza necessria a uma afirmao
que tem de correr mundo, -- se a primeira estrofe do Romualdo foi anterior
ao primeiro amor, ou se este precedeu a poesia. Suponhamos que foram
contemporneos. No  inverossmil, porque se a
primeira paixo foi uma pessoa vulgar e sem graa, a primeira
composio potica era um lugar-comum.

Em 1858, data da estria
literria, existia ainda uma folha, que veio a morrer antes de 1870, o Correio
Mercantil. Foi por a que o nosso Romualdo declarou ao mundo que o
sculo era enorme, que as barreiras todas estavam por terra, que, enfim,
era preciso dar ao homem a coroa imortal que lhe competia. Eram trinta ou
quarenta versos, feitos com mpeto, broslados de adjetivos e imprecaes,
muitos sis, basto condor, inmeras coisas robustas e
esplndidas. Romualdo dormiu mal a noite; apesar disso, acordou cedo,
vestiu-se, saiu; foi comprar o Correio Mercantil. Leu a poesia 
porta mesmo da tipografia,  Rua da Quitanda; depois dobrou
cautelosamente o jornal, e foi tomar caf. No trajeto da tipografia ao
botequim no fez mais do que recitar mentalmente os versos; s
assim se explicam dois ou trs encontres que deu em outras
pessoas. Em todo caso, no botequim, uma vez sentado, desdobrou a folha e releu
os versos, lentamente, umas quatro vezes seguidas; com uma que leu depois de
pagar a xcara de caf, e a que j lera  porta da
tipografia, foram nada menos de seis leituras, no curto espao de meia
hora; fato tanto mais de espantar quanto que ele tinha a poesia de cor. Mas o
espanto desaparece desde que se adverte na diferena que vai do
manuscrito ou decorado ao impresso. Romualdo lera,  certo, a poesia
manuscrita; e,  fora de a ler, tinha-a "impressa na
alma", para falar a linguagem dele mesmo. Mas o manuscrito  vago,
derramado; e o decorado assemelha-se a histrias velhas, sem data, nem
autor, ouvidas em criana; no h por onde se lhe pegue,
nem mesmo a tnica flutuante e cambiante do manuscrito. Tudo muda com o
impresso. O impresso fixa. Aos olhos de Romualdo era como um edifcio
levantado para desafiar os tempos; a igualdade das letras, a
reproduo dos mesmos contornos, davam aos versos um aspecto
definitivo e acabado. Ele mesmo descobriu-lhes belezas no premeditadas;
em compensao, deu com uma vrgula mal posta, que o
desconsolou.

No fim daquele ano tinha o
Romualdo escrito e publicado algumas vinte composies diversas
sobre os mais variados assuntos. Congregou alguns amigos, -- da mesma
idade, -- persuadiu a um tipgrafo, distribuiu listas de assinaturas,
recolheu algumas, e fundou um peridico literrio, o Mosaico,
em que fez as suas primeiras armas da prosa. A idia secreta do Romualdo
era criar alguma coisa semelhante  Revista dos Dous Mundos, que
ele via em casa do advogado, de quem era amanuense. No lia nunca a Revista,
mas ouvira dizer que era uma das mais importantes da Europa, e entendeu fazer
coisa igual na Amrica.

Posto que esse brilhante sonho
fenecesse com o ms de maio de 1859, no acabaram com ele as
labutaes literrias. O mesmo ano de 1859 viu o primeiro
tomo das Verdades e Quimeras. Digo o primeiro tomo, porque tais eram a
indicao tipogrfica, e o plano do Romualdo. Que 
a poesia, dizia ele, seno uma mistura de quimera e verdade? O Goethe,
chamando s suas memrias Verdade e Poesia, cometeu um
pleonasmo ridculo: o segundo vocbulo bastava a exprimir os dois
sentidos do autor. Portanto, quaisquer que tivessem de ser as fases do seu
esprito, era certo que a poesia traria em todos os tempos os mesmos
caracteres essenciais: logo podia intitular Verdades e Quimeras as
futuras obras poticas. Da a indicao de primeiro
tomo dada ao volume de versos com que o Romualdo brindou as letras no ms
de dezembro de 1859. Esse ms foi para ele ainda mais brilhante e
delicioso que o da estria no Correio Mercantil. -- Sou
autor impresso, dizia rindo, quando recebeu os primeiros exemplares da obra. E
abria um e outro, folheava de diante para trs e de trs para
diante, corria os olhos pelo ndice, lia trs, quatro vezes o
prlogo, etc. Verdades e Quimeras! Via esse ttulo nos
peridicos, nos catlogos, nas citaes, nos
florilgios de poesia nacional; enfim, clssico. Via citados
tambm os outros tomos, com a designao numrica de
cada um, em caracteres romanos, t. II, t. III, t. IV, t. IX. Que podiam
escrever um dia as folhas pblicas seno um estribilho?
"Cada ano que passa pode-se dizer que este distinto e infatigvel
poeta nos d um volume das suas admirveis Verdades e Quimeras;
foi em 1859 que encetou essa coleo, e o efeito no podia
ser mais lisonjeiro para um estreante, que etc., etc."

Lisonjeiro, na verdade. Toda a
imprensa saudou com benevolncia o primeiro livro de Romualdo; dois
amigos disseram mesmo que ele era o Gonzaga do Romantismo. Em suma, um sucesso.

CAPTULO
IV

QUINZE ANOS, BONITA E RICA

A "pessoa vulgar e sem
graa" que foi o primeiro amor de Romualdo passou naturalmente
como a chama de um fsforo. O segundo amor veio no tempo em que ele se
preparava para ir estudar em S. Paulo, e no pde ir adiante.

Tinha preparatrios o
Romualdo; e, havendo adquirido com o advogado certo gosto ao ofcio,
entendeu que sempre era tempo de ganhar um diploma. Foi para S. Paulo,
entregou-se aos estudos com afinco, dizendo consigo e a ningum mais,
que ele seria citado algum dia entre os Nabucos, os Zacarias, os Teixeiras de
Freitas, etc. Jurisconsulto! E soletrava esta palavra com amor, com
pacincia, com delcia, achando-lhe a expresso profunda e
larga. Jurisconsulto! Os Zacarias, os Nabucos, os Romualdos! E estudava,
metia-se pelo direito dentro, impetuoso.

No esqueamos duas
coisas: que ele era rapaz, e tinha a vocao das letras. Rapaz,
amou algumas moas, pginas acadmicas, machucadas de
mos estudiosas. Durante os dois primeiros anos nada h que
apurar que merea a pena e a honra de uma transcrio. No
terceiro ano... O terceiro ano oferece-nos uma lauda primorosa. Era uma
moa de quinze anos, filha de um fazendeiro de Guaratinguet, que
tinha ido  capital da provncia. Romualdo, de escassa bolsa,
trabalhando muito para ganhar o diploma, compreendeu que o casamento era uma
soluo. O fazendeiro era rico. A moa gostava dele: era o
primeiro amor dos seus quinze anos.

"H de ser
minha!" jurou Romualdo a si mesmo.

As relaes entre
eles vieram por um sobrinho do fazendeiro, Josino M..., colega de ano do
Romualdo, e, como ele, cultor das letras. O fazendeiro retirou-se para
Guaratinguet; era obsequiador, exigiu do Romualdo a promessa de que,
nas frias, iria v-lo. O estudante prometeu que sim; e nunca o
tempo lhe correu mais devagar. No eram dias, eram sculos. O que
lhe valia  que, ao menos, davam para construir e reconstruir os seus
admirveis planos de vida. A escolha entre o casar imediatamente ou
depois de formado no foi coisa que se fizesse do p para a
mo: comeu-lhe algumas boas semanas. Afinal, assentou que era melhor o
casamento imediato. Outra questo que lhe tomou tempo, foi a de saber se
concluiria os estudos no Brasil ou na Europa. O patriotismo venceu; ficaria no
Brasil. Mas, uma vez formado, seguiria para Europa, onde estaria dois anos,
observando de perto as coisas polticas e sociais, adquirindo a
experincia necessria a quem viria ser ministro de Estado. Eis o
que por esse tempo escreveu a um amigo do Rio de Janeiro:

...Prepara-te, pois, meu bom
Fernandes, para irmos daqui a algum tempo viajar; no te dispenso, nem
aceito desculpa. No nos faltaro meios, graas a Deus, e
meios de viajar  larga... Que felicidade! Eu, Lucinda, o bom
Fernandes...

Bentas frias! Ei-las que
chegam; ei-las que tomam do Romualdo e do Josino, e os levam  Fazenda
da namorada. Agora no os solto mais, disse o fazendeiro.

Lucinda apareceu aos olhos do
nosso heri com todos os esplendores de uma madrugada. Foi assim que ele
definiu esse momento, em uns versos publicados da a dias no Eco de
Guaratinguet. Ela era bela, na verdade, viva e graciosa, rosada e
fresca, todas as qualidades amveis de uma menina. A
comparao da madrugada, por mais cedia que fosse, era a
melhor de todas.

Se as frias gastaram tempo
em chegar, uma vez chegadas, voaram depressa. Tinham asas os dias, asas de
pluma anglica, das quais, se alguma coisa lhe ficou ao nosso Romualdo,
no passou de ser um certo aroma delicioso e fresco. Lucinda, em casa,
pareceu-lhe ainda mais bela do que a vira na capital da provncia. E
note-se que a boa impresso que ele lhe fizera a princpio
cresceu tambm, e extraordinariamente, depois da convivncia de
algumas semanas. Em resumo, e para poupar estilo, os dois amavam-se. Os olhos
de ambos, incapazes de guardar o segredo dos respectivos
coraes, contaram tudo uns aos outros, e com tal
estrpito, que os olhos de um terceiro ouviram tambm. Esse
terceiro foi o primo de Lucinda, o colega de ano de Romualdo.

-- Vou dar-te uma
notcia agradvel, disse o Josino ao Romualdo, uma noite, no
quarto em que dormiam. Adivinha o que .

-- No posso.

-- Vamos ter um casamento
daqui a meses...

-- Quem?

-- O juiz municipal.

-- Com quem casa?

-- Com a prima Lucinda.

Romualdo deu um salto,
plido, fremente; depois conteve-se, e comeou a
disfarar. Josino, que trazia o plano de cor, confiou ao colega um
romance em que o juiz municipal fazia o menos judicirio dos
papis, e a prima aparecia como a mais louca das namoradas. Concluiu
dizendo que a demora do casamento era porque o tio, profundo catlico,
mandara pedir ao papa a fineza de vir casar a filha em Guaratinguet. O papa chegaria em maio ou junho. Romualdo entre pasmado e
incrdulo, no tirava os olhos do colega; este soltou, enfim, uma
risada. Romualdo compreendeu tudo e contou-lhe tudo.

Cinco dias depois, veio ele
 corte, lacerado de saudades e coroado de esperanas. Na corte,
comeou a escrever um livro, que era nada menos que o prprio
caso de Guaratinguet: um poeta de grande talento, futuro ministro,
futuro homem de Estado, corao puro, carter elevado e
nobre, que amava uma moa de quinze anos, um anjo, bela como a aurora,
santa como a Virgem, alma digna de emparelhar com a dele, filha de um
fazendeiro, etc. Era s pr os pontos nos is. Este romance,
 medida que ele o ia escrevendo, lia-o ao amigo Fernandes, o mesmo a
quem confiara o projeto do casamento e da viagem  Europa, como se viu
daquele trecho de uma carta. "No nos faltaro meios,
graas a Deus, e meios de viajar  larga... Que felicidade! Eu,
Lucinda, o bom Fernandes..." Era esse.

-- Ento, pronto?
palavra? Vais conosco? dizia-lhe na corte o Romualdo.

-- Pronto.

-- Pois  coisa feita.
Este ano, em chegando as frias, vou a Guaratinguet, e
peo-a... Eu podia pedi-la antes, mas no me convm.
Ento  que hs de pr o caiporismo na rua...

-- Ele volta depois,
suspirava o Fernandes.

-- No volta; digo-te
que no volta; fecho-lhe a porta com chave de ouro.

E toca a escrever o livro, a
contar a unio das duas almas, perante Deus e os homens, com muito luar
claro e transparente, muita citao potica, algumas em latim. O romance foi acabado em S. Paulo, e mandado para o Eco de Guaratinguet,
que comeou logo a public-lo, recordando-me que o autor era o
mesmo dos versos dados por ele no ano anterior.

Romualdo consolou-se do vagar dos
meses, da tirania dos professores e do fastio dos livros, carteando-se com o
Fernandes e falando ao Josino, s e unicamente a respeito da gentil
paulista. Josino contou-lhe muita reminiscncia caseira, episdios
da infncia de Lucinda, que o Romualdo escutava cheio de um sentimento
religioso, mesclado de um certo desvanecimento de marido. E tudo era mandado
depois ao Fernandes, em cartas que no acabavam mais, de cinco em cinco
dias, pela mala daquele tempo. Eis o que dizia a ltima das cartas,
escrita ao entrar das frias:

Vou agora a Guaratinguet.
Conto pedi-la daqui a pouco; e, em breve, estarei casado na corte; e daqui a
algum tempo mar em fora. Prepara as malas, patife; anda, tratante, prepara as
malas. Velhaco!  com o fim de viajar que me animaste no namoro? Pois
agora agenta-te...

E trs laudas mais dessas
ironias graciosas, meigas indignaes de amigo, que o outro leu,
e a que respondeu com estas palavras: "Pronto para o que der e
vier!"

No, no ficou pronto
para o que desse e viesse; no ficou pronto, por exemplo, para a cara
triste, abatida, com que dois meses depois lhe entrou em casa,  Rua da
Misericrdia, o nosso Romualdo. Nem para a cara triste, nem para o gesto
indignado com que atirou o chapu ao cho. Lucinda
trara-o! Lucinda amava o promotor! E contou-lhe como o promotor,
mancebo de vinte e seis anos, nomeado poucos meses antes, tratara logo de
cortejar a moa, e to tenazmente que ela em pouco tempo estava
cada.

-- E tu?

-- Que havia de fazer?

-- Teimar, lutar, vencer.

-- Pensas que no?
Teimei; fiz o que era possvel, mas... Ah! se tu soubesses que as
mulheres... Quinze anos! Dezesseis anos, quando muito! Prfida desde o
bero... Teimei... Pois no havia de teimar? E tinha por mim o
Josino, que lhe disse as ltimas. Mas que queres? O tal promotor das
dzias... Enfim, vo casar.

-- Casar?

-- Casar, sim! berrou o
Romualdo, irritado.

E roa as unhas, calado ou
dando umas risadinhas concentradas, de raiva; depois, passava as mos
pelos cabelos, dava socos, deitava-se na rede, a fumar cinco, dez, quinze
cigarros...

CAPTULO
V

NO ESCRITRIO

De ordinrio, o estudo
 tambm um recurso para os que tm alguma coisa que
esquecer na vida. Isto pensou o nosso Romualdo, isto praticou imediatamente,
recolhendo-se a S. Paulo, onde continuou at acabar o curso
jurdico. E, realmente, no foram precisos muitos meses para
convalescer da triste paixo de Guaratinguet.  certo
que, ao ver a moa, dois anos depois do desastre, no evitou uma
tal ou qual comoo; mas, o principal estava feito.

"Vir outra",
pensava ele consigo.

E, com os olhos no casamento e na
farda de ministro, fez as suas primeiras armas polticas no
ltimo ano acadmico. Havia ento na capital da
provncia uma folha puramente comercial; Romualdo persuadiu o editor a
dar uma parte poltica, e encetou uma srie de artigos que
agradaram. Tomado o grau, deu-se uma eleio provincial; ele
apresentou-se candidato a um lugar na Assemblia, mas, no
estando ligado a nenhum partido, recolheu pouco mais de dez votos, talvez
quinze. No se pense que a derrota o abateu; ele recebeu-a como um fato
natural, e alguma coisa o consolou: a inscrio do seu nome entre
os votados. Embora poucos, os votos eram votos; eram pedaos da soberania
popular que o vestiam a ele, como digno da escolha. Quantos foram os
cristos no dia do Calvrio? Quantos eram naquele ano de 1864?
Tudo estava sujeito  lei do tempo.

Romualdo veio pouco depois para a
corte, e abriu escritrio de advocacia. Simples pretexto.
Afetao pura. Comdia. O escritrio era um ponto
no globo, onde ele podia, tranqilamente, fumar um charuto e prometer ao
Fernandes uma viagem ou uma inspetoria de alfndega, se no
preferisse seguir a poltica. O Fernandes estava por tudo; tinha um
lugar no foro, lugar nfimo, de poucas rendas e sem futuro. O vasto
programa do amigo, companheiro de infncia, um programa em que os
diamantes de uma senhora reluziam ao p da farda de um ministro, no
fundo de um coup, com ordenanas atrs, era dos
que arrastam consigo todas as ambies adjacentes. O Fernandes
fez esse raciocnio: -- Eu, por mim, nunca hei de ser nada; o
Romualdo no esquecer que fomos meninos. E toca a andar para o
escritrio do Romualdo. s vezes, achava-o a escrever um artigo poltico,
ouvia-o ler, copiava-o se era necessrio, e no dia seguinte servia-lhe
de trombeta: um artigo magnfico, uma obra-prima, no dizia
s como erudio, mas como estilo, principalmente como
estilo, coisa muito superior ao Otaviano, ao Rocha, ao Paranhos, ao Firmino,
etc. -- No h dvida, conclua ele; 
o nosso Paul-Louis Courier.

Um dia, o Romualdo recebeu-o com
esta notcia:

-- Fernandes, creio que a
espingarda que me h de matar est fundida.

-- Como? no entendo.

-- Vi-a ontem...

-- A espingarda?

-- A espingarda, o obus, a
pistola, o que tu quiseres; uma arma deliciosa.

-- Ah!... alguma pequena?
disse vivamente o Fernandes.

-- Qual pequena! Grande, uma
mulher alta, muito alta. Coisa de truz. Viva e fresca: vinte e seis
anos. Conheceste o B...?  a viva.

-- A viva do B...?
Mas  realmente um primor! Tambm eu a vi, ontem, no Largo de
So Francisco de Paula; ia entrar no carro... Sabes que  um
cobrinho bem bom? Dizem que duzentos...

-- Duzentos? Pe-lhe
mais cem.

-- Trezentos, heim? Sim,
senhor;  papa-fina!

E enquanto ele dizia isto, e
outras coisas, com o fim, talvez, de animar o Romualdo, este ouvia-o calado,
torcendo a corrente do relgio, e olhando para o cho, com um ar
de riso complacente  flor dos lbios...

-- Tlin, tlin, tlin, bateu o
relgio de repente.

-- Trs horas! exclamou
Romualdo levantando-se. Vamos!

Mirou-se a um espelho,
calou as luvas, ps o chapu na cabea, e
saram.

No dia seguinte e nos outros, a
viva foi o assunto, no principal, mas nico, da conversa
dos dois amigos, no escritrio, entre onze horas e trs. O
Fernandes cuidava de manter o fogo sagrado, falando da viva ao
Romualdo, dando-lhe notcias dela, quando casualmente a encontrava na
rua. Mas no era preciso tanto, porque o outro no pensava em
coisa diferente; ia aos teatros, a ver se a achava,  Rua do Ouvidor, a
alguns saraus, fez-se scio do Cassino. No teatro, porm,
s a viu algumas vezes, e no Cassino, dez minutos, sem ter tempo de lhe
ser apresentado ou trocar um olhar com ela; dez minutos depois da chegada dele,
retirava-se a viva, acometida de uma enxaqueca.

-- Realmente, 
caiporismo! dizia ele no dia seguinte, contando o caso ao Fernandes.

-- No desanimes por
isso, redargia este. Quem desanima, no faz nada. Uma enxaqueca
no  a coisa mais natural do mundo?

-- L isso .

-- Pois ento?

Romualdo apertou a mo ao
Fernandes, cheio de reconhecimento, e o sonho continuou entre os dois,
cintilante, vibrante, um sonho que valia por duas mos cheias de realidade.
Trezentos contos! O futuro certo, a pasta de ministro, o Fernandes inspetor de
alfndega, e, mais tarde, bispo do tesouro, dizia familiarmente o
Romualdo. Era assim que eles enchiam as horas do escritrio; digo que
enchiam as horas do escritrio, porque o Fernandes para ligar de uma vez
a sua fortuna  de Csar, deixou o emprego nfimo que
tinha no foro e aceitou o lugar de escrevente que o Romualdo lhe ofereceu, com
o ordenado de oitenta mil-ris. No h ordenado pequeno ou
grande, seno comparado com a soma de trabalho que impe. Oitenta
mil-ris, em relao s necessidades do Fernandes,
podia ser uma retribuio escassa, mas cotejado com o
servio efetivo eram os presentes de Artaxerxes. O Fernandes tinha
f em todos os raios da estrela do Romualdo: -- o conjugal, o
forense, o poltico. Enquanto a estrela guardava os raios por baixo de
uma nuvem grossa, ele, que sabia que a nuvem era passageira, deitara-se no
sof, dormitando e sonhando de parceria com o amigo.

Nisto apareceu um cliente ao Romualdo.
Nem este, nem o Fernandes estavam preparados para um tal fenmeno,
verdadeira fantasia do destino. Romualdo chegou ao extremo de crer que era um
emissrio da viva, e esteve a ponto de piscar o olho ao
Fernandes, que se retirasse, para dar mais liberdade ao homem. Este,
porm, cortou de uma tesourada essa iluso; vinha "propor
uma causa ao senhor doutor". Era outro sonho, e se no to
belo, ainda belo. Fernandes apressou-se em dar cadeira ao homem, tirar-lhe o chapu
e o guarda-chuva, perguntar se lhe fazia mal o ar nas costas, enquanto o
Romualdo, com uma intuio mais verdadeira das coisas, recebia-o
e ouvia-o com um ar cheio de clientes, uma fisionomia de quem no faz
outra coisa desde manh at  noite, seno arrazoar
libelos e apelaes. O cliente, lisonjeado com as maneiras do
Fernandes, ficou atado e medroso diante do Romualdo; mas ao mesmo tempo deu
graas ao cu por ter vindo a um escritrio onde o
advogado era to procurado e o escrevente to atencioso. Exps
o caso, que era um embargo de obra nova, ou coisa equivalente. Romualdo
acentuava cada vez mais o fastio da fisionomia, levantando o lbio,
abrindo as narinas, ou coando o queixo com a faca de marfim; ao
despedir o cliente, deu-lhe a ponta dos dedos; o Fernandes levou-o at o
patamar da escada.

-- Recomende muito o meu
negcio ao senhor doutor, disse-lhe o cliente.

-- Deixe estar.

-- No se
esquea; ele pode esquecer no meio de tanta coisa, e o patife... Quero
mostrar quele patife, que me no h de embolar...
no; no esquea, e creia que... no me esquecerei
tambm...

-- Deixe estar.

O Fernandes esperou que ele
descesse; ele desceu, fez-lhe de baixo uma profunda zumbaia, e enfiou pelo
corredor fora, contentssimo com a boa inspirao que
tivera em subir quele escritrio.

Quando o Fernandes voltou 
sala, j o Romualdo folheava um formulrio para redigir a
petio inicial. O cliente ficara de lhe trazer da a
pouco a procurao; trouxe-a; o Romualdo recebeu-a glacialmente;
o Fernandes tirou daquela presteza as mais vivas esperanas.

-- Ento? dizia ele ao
Romualdo, com as mos na cintura; que me dizes tu a este comeo?
Trata bem da causa, e vers que  uma procisso delas pela
escada acima.

Romualdo estava realmente
satisfeito. Todas as ordenaes do Reino, toda a
legislao nacional bailavam no crebro dele, com a sua
numerao rabe e romana, os seus pargrafos,
abreviaturas, coisas que, por secundrias que fossem, eram aos olhos
dele como as fitas dos toucados, que no trazem beleza s
mulheres feias, mas do realce s bonitas. Sobre esta simples
causa edificou o Romualdo um castelo de vitrias jurdicas. O
cliente foi visto multiplicar-se em clientes, os embargos em embargos; os
libelos vinham repletos de outros libelos, uma torrente de demandas.

Entretanto, o Romualdo conseguiu
ser apresentado  viva, uma noite, em casa de um colega. A
viva recebeu-o com certa frieza; estava de enxaqueca. Romualdo saiu de
l exaltadssimo; pareceu-lhe (e era verdade) que ela no
rejeitara dois ou trs olhares dele. No dia seguinte, contou tudo ao Fernandes,
que no ficou menos contente.

-- Bravo! exclamou ele. Eu
no te disse?  ter pacincia; tem pacincia. Ela
ofereceu-te a casa?

-- No; estava de
enxaqueca.

-- Outra enxaqueca! Parece
que no padece de mais nada? No faz mal; 
molstia de moa bonita.

Vieram buscar um artigo para a
folha poltica; Romualdo, que o no escrevera, mal pde
alinhar,  pressa, alguns conceitos chochos, a que a folha adversa
respondeu com muita superioridade. O Fernandes, logo depois, lembrou-lhe que
findava-lhe certo prazo no embargo da obra nova; ele arrazoou nos autos,
tambm s pressas, to s pressas que veio a perder
a demanda. Que importa? A viva era tudo. Trezentos contos! Da a
dias, era o Romualdo convidado para um baile. No se descreve a alma com
que ele saiu para essa festa, que devia ser o incio da
bem-aventurana. Chegou; vinte minutos depois soube que era o primeiro e
ltimo baile da viva, que dali a dois meses casava com um
capito-de-fragata.

CAPTULO
VI

TROCA DE ARTIGOS

A segunda queda amorosa do
Romualdo f-lo desviar os olhos do captulo feminino. As mulheres
sabem que elas so como o melhor vinho de Chipre, e que os protestos de
namorados no diferem dos que fazem os bbados. Acresce que o
Romualdo era levado tambm, e principalmente, da ambio,
e que a ambio permanecia nele, como alicerce de casa derrubada.
Acresce mais que o Fernandes, que pusera no Romualdo um mundo de
esperanas, forcejava por levant-lo e anim-lo a outra
aventura.

-- Que tem? dizia-lhe. Pois
uma mulher que se casa deve agora fazer com que um homem no se case
mais? Isso at nem se diz; voc no deve contar a
ningum que teve semelhante idia...

-- Conto... Se conto!

-- Ora essa!

-- Conto, confesso, digo,
proclamo, replicava o Romualdo, tirando as mos das algibeiras das
calas, e agitando-as no ar. Depois tornou a guardar as mos, e
continuou a passear de um lado para outro.

O Fernandes acendeu um cigarro,
tirou duas fumaas e prosseguiu no discurso anterior. Mostrou-lhe que,
afinal de contas, a culpa era do acaso; ele viu-a tarde; j ela estava
de namoro com o capito-de-fragata. Se aparece mais cedo, a
vitria era dele. No havia duvidar, que seria dele a
vitria. E agora, falando franco, agora  que ele devia casar com
outra, para mostrar que no lhe faltam noivas.

-- No, acrescentou o
Fernandes; esse gostinho de ficar solteiro  que eu no lhe dava.
Voc no conhece as mulheres, Romualdo.

-- Seja o que for.

No insistiu o Fernandes;
contando, de certo, que a ambio do amigo, as
circunstncias e o acaso trabalhariam melhor do que todos os seus
raciocnios.

-- Est bom,
no falemos mais nisso, concluiu ele.

Tinha um clculo o
Romualdo: trocar os artigos do programa. Em vez de ir do casamento para o Parlamento,
e de marido a ministro de Estado, resolveu proceder inversamente: primeiro
seria deputado e ministro, depois casaria rico. Entre ns, dizia ele
consigo, a poltica no exige riqueza; no 
preciso muitos cabedais para ocupar um lugar na Cmara ou no Senado, ou
no ministrio. E, ao contrrio, um ministro candidato 
mo de uma viva  provvel que vena
qualquer outro candidato, embora forte, embora capito-de-fragata.
No acrescentou que no caso de um capito-de-fragata, a
vitria era matematicamente certa se ele fosse ministro da Marinha,
porque uma tal reflexo exigiria esprito jovial e repousado, e o
Romualdo estava deveras abatido.

Decorreram alguns meses. Em
vo o Fernandes chamava a ateno do Romualdo para cem
rostos de mulheres, falava-lhe de herdeiras ricas, fazendeiras vivas;
nada parecia impressionar o jovem advogado, que s cuidava agora de
poltica. Entregara-se com alma ao jornal, freqentava as
influncias parlamentares, os chefes das deputaes. As
esperanas polticas comearam a viar na alma
dele, com uma exuberncia descomunal, e passavam  alma do
Fernandes, que afinal entrara no raciocnio do amigo, e concordava em
que ele casasse depois de ministro. O Romualdo vivia deslumbrado; os chefes
davam-lhe sorrisos prenhes de votos, de lugares, de pastas; batiam-lhe no
ombro; apertavam-lhe a mo com certo mistrio.

-- Antes de dois anos, tudo
isto muda, dizia ele confidencialmente ao Fernandes.

-- J est
mudado, acudiu o outro.

-- No achas?

-- Muito mudado.

Com efeito, os polticos
que freqentavam o escritrio e a casa do Romualdo diziam a este
que as eleies estavam perto e que o Romualdo devia vir para a
Cmara. Era uma ingratido do partido, se no viesse.
Alguns repetiam-lhe frases benvolas dos chefes; outros aceitavam jantares,
por conta dos que ele tinha de dar depois de eleito. Vieram as
eleies; e o Romualdo apresentou-se candidato pela corte. Aqui
nasceu, aqui era conhecido, aqui devia ter a vitria ou a derrota. Os
amigos afirmavam-lhe que seria a vitria, custasse o que custasse.

A campanha, na verdade, foi rude.
O Romualdo teve de vencer primeiramente os competidores, as intrigas, as
desconfianas, etc. No dispondo de dinheiro, cuidou de o pedir
emprestado, para certas despesas preliminares, embora poucas; e, vencida essa
segunda parte da luta, entrou na terceira, que foi a dos cabos eleitorais e
arranjos de votos. O Fernandes deu ento a medida do que vale um amigo
sincero e dedicado, um agente convencido e resoluto; fazia tudo, artigos,
cpias, leitura de provas, recados, pedidos, ia de um lado para outro,
suava, bufava, comia mal, dormia mal, chegou ao extremo de brigar em plena rua
com um agente do candidato adverso, que lhe fez uma contuso na face.

Veio o dia da
eleio. Nos trs dias anteriores, a luta assumira
propores hercleas. Mil notcias nasciam e
morriam dentro de uma hora. Eram capangas vendidos, cabos paroquiais suspeitos
de traio, cdulas roubadas, ou extraviadas: era o diabo.
A noite da vspera foi terrvel de ansiedade. Nem o Romualdo nem
o Fernandes puderam conciliar o sono antes das trs horas da
manh; e, ainda assim, o Romualdo acordou trs ou quatro vezes, no
meio das peripcias de um sonho delicioso. Ele via-se eleito, orando na
Cmara, propondo uma moo de desconfiana,
triunfando, chamado pelo novo presidente do Conselho a ocupar a pasta da
Marinha. Ministro, fez uma brilhante figura; muitos o louvavam, outros muitos o
mordiam, complemento necessrio  vida pblica.
Subitamente, aparece-lhe uma viva bela e rica, pretendida por um capito-de-fragata;
ele manda o capito-de-fragata para as Antilhas, dentro de vinte e
quatro horas, e casa com a viva. Nisto acordou; eram sete horas.

-- Vamos  luta, disse
ele ao Fernandes.

Saram para a luta
eleitoral. No meio do caminho, o Romualdo teve uma reminiscncia de
Bonaparte, e disse ao amigo: "Fernandes,  o sol de
Austerlitz!" Pobre Romualdo, era o sol de Waterloo.

-- Ladroeira! bradou o
Fernandes. Houve ladroeira de votos! Eu vi o miolo de algumas cdulas.

-- Mas por que no
reclamaste na ocasio? disse Romualdo.

-- Supus que era da nossa
gente, confessou o Fernandes mudando de tom.

Com miolo ou sem miolo, a verdade
 que o po eleitoral passou  boca do adversrio,
que deixou o Romualdo em jejum. O desastre abateu-o muito; comeava a
ficar cansado da luta. Era um simples advogado sem causas. De todo o programa
da adolescncia, nenhum artigo se podia dizer cumprido, ou em caminho de
o ser. Tudo lhe fugia, ou por culpa dele, ou por culpa das circunstncias.

A tristeza do Romualdo foi
complicada pelo desnimo do Fernandes, que comeava a descrer da
estrela de Csar, e a arrepender-se de ter trocado de emprego. Ele dizia
muitas vezes ao amigo, que a moleza era m qualidade, e que o foro
comeava a aborrec-lo; duas afirmaes, 
primeira vista, incoerentes, mas que se ajustavam neste pensamento
implcito: -- Voc nunca h de ser coisa nenhuma, e eu
no estou para atur-lo.

Com efeito, da a alguns
meses, o Fernandes meteu-se em no sei que empresa, e retirou-se para
Curitiba. O Romualdo ficou s. Tentou alguns casamentos que, por um ou
outro motivo, falharam; e tornou  imprensa poltica, em que
criou, com poucos meses, dvidas e inimigos. Deixou a imprensa, e foi
para a roa. Disseram-lhe que a podia fazer alguma coisa. De
fato, alguma coisa o procurou, e ele no foi mal visto; mas, meteu-se na
poltica local, e perdeu-se. Gastou cinco anos inutilmente; pior do que
inutilmente, com prejuzo. Mudou de localidade; e tendo a
experincia da primeira, pde viver algum tempo, e com certa
mediania. Entretanto, casou; a senhora no era opulenta, como ele
inserira no programa, mas era fecunda; ao cabo de cinco anos, tinha o Romualdo
seis filhos. Seis filhos no se educam nem se sustentam com seis
vintns. As necessidades do Romualdo cresceram; os recursos,
naturalmente, diminuram. Os anos avizinhavam-se.

"Onde os meus sonhos? onde o
meu programa?" dizia ele consigo, s vezes.

As saudades vinham,
principalmente, nas ocasies de grandes crises polticas no
pas, ou quando chegavam as notcias parlamentares da corte. Era
ento que ele remontava at  adolescncia, aos
planos de Bonaparte rapaz, feitos por ele e no realizados nunca. Sim,
criar na mente um imprio, e governar um escritrio modesto de
poucas causas... Mas isso mesmo foi amortecendo com os anos. Os anos, com o seu
grande peso no esprito do Romualdo, cercearam-lhe a compreenso
das ambies enormes; e o espetculo das lutas locais
acanhou-lhe o horizonte. J no lutava, deixara a
poltica: era simples advogado. S o que fazia era votar com o
governo, abstraindo do pessoal poltico dominante, e abraando
somente a idia superior do poder. No poupou alguns desgostos,
 verdade, porque nem toda a vila chegava a entender a
distino; mas, enfim, no se deixou levar de
paixes, e isso bastava a afugentar uma poro de males.

No meio de tudo, os filhos eram a
melhor das compensaes. Ele amava-os a todos igualmente com uma
queda particular ao mais velho, menino esperto, e  ltima,
menina graciosssima. A me criara-os a todos e estava disposta a
criar o que havia de vir, e contava cinco meses de gestao.

-- Seja o que for, dizia o
Romualdo  mulher; Deus nos h de ajudar.

Dois pequenos morreram-lhe de
sarampo; o ltimo nasceu morto. Ficou reduzido a quatro filhos.
J ento ia em quarenta e cinco anos, estava todo grisalho,
fisionomia cansada; felizmente, gozava sade, e ia trabalhando. Tinha
dvidas,  verdade, mas pagava-as, restringindo certa ordem de
necessidades. Aos cinqenta anos estava alquebrado; educava os filhos; ele
mesmo ensinara-lhes as primeiras letras.

Vinha s vezes 
corte e demorava-se pouco. Nos primeiros tempos, mirava-a com pesar, com
saudades, com uma certa esperana de melhora. O programa reluzia-lhe aos
olhos. No podia passar pela frente da casa onde tivera
escritrio, sem apertar-se-lhe o corao e sentir uns
mpetos de mocidade. A Rua do Ouvidor, as lojas elegantes, tudo lhe dava
ares do outro tempo, e emprestavam-lhe alguma energia, que ele levava para a
roa. E ento nos primeiros tempos, trabalhava com uma lamparina
de esperana no corao. Mas o azeite era pouco, e a
lamparina apagava-se depressa. Isso mesmo cessou com o tempo. J vinha
 corte, fazia o que tinha de fazer, e voltava, frio, indiferente,
resignado.

Um dia, tinha ele cinqenta e
trs anos, os cabelos brancos, o rosto encarquilhado, vindo 
corte com a mulher, encontrou na rua um homem que lhe pareceu o Fernandes.
Estava avelhantado,  certo; mas a cara no podia ser de outro. O
que menos se parecia com ele era o resto da pessoa, a sobrecasaca esmerada, o
botim de verniz, a camisa dura com um boto de diamante ao peito.

-- Querem ver?  o
Romualdo! disse ele.

-- Como ests,
Fernandes?

-- Bem; e tu, que andas
fazendo?

-- Moro fora; advogado da
roa. Tu s naturalmente banqueiro...

Fernandes sorriu lisonjeado.
Levou-o a jantar, e explicou-lhe que se metera em empresa lucrativa, e fora
abenoado pela sorte. Estava bem. Morava fora, no Paran. Veio
 corte ver se podia arranjar uma comenda. Tinha um hbito; mas
tanta gente lhe dava o ttulo de comendador, que no havia
remdio seno fazer do dito certo.

-- Ora o Romualdo!

-- Ora o Fernandes!

-- Estamos velhos, meu caro.

-- Culpa dos anos, respondeu
tristemente o Romualdo.

Dias depois o Romualdo voltou
 roa, oferecendo a casa ao velho amigo. Este ofereceu-lhe
tambm os seus prstimos em Curitiba. De caminho, o Romualdo recordava, comparava e refletia.

-- No entanto, ele no
fez programa, dizia amargamente. E depois:

-- Foi talvez o programa que
me fez mal; se no pretendesse tanto...

Mas achou os filhos  porta
da casa; viu-os correr a abra-lo e  me, sentiu
os olhos midos, e contentou-se com o que lhe coubera. E, ento,
comparando ainda uma vez os sonhos e a realidade, lembrou-lhe Schiller, que
lera vinte e cinco anos antes, e repetiu com ele: "Tambm eu nasci
na Arcdia..." A mulher, no entendendo a frase,
perguntou-lhe se queria alguma coisa. Ele respondeu-lhe: -- A tua alegria
e uma xcara de caf.
